Quanta mágoa, Márcio Rothstein Bacha. Quanta agressividade.
Em primeiro lugar, eu só queria corrigir uma informação sua. Você pode não ter votado em Lula, mas infelizmente ele é também o seu presidente, a partir do momento em que governa o país em que você mora. Desculpe. Você vai ter que dormir com isso, e acordar sabendo que o pau-de-arara analfabeto é o seu presidente. A vida tem dessas coisas.
Fora isso, acho fantástico quando as viúvas do PSDB vêm pedir a paternidade da política econômica de Lula. Como se tivessem inventado o dinheiro e a ciência econômica.
Vamos colocar as coisas em pratos limpos: seis anos são muito tempo, Márcio Rothstein Bacha. Em seis anos, o Brasil já teve cinco moedas diferentes — aliás, sei de um Bacha que criou duas. Sabe Deus quantos planos econômicos são possíveis nesse período. Lembro de um presidente que assim que assumiu confiscou o dinheiro de todo mundo e criou uma nova moeda, pouco mais de um ano depois do Plano Verão.
A partir do momento em que um presidente assume o seu mandato, a política econômica passa a ser dele. Se ele resolve ou não seguir um modelo anterior, é uma decisão que ele toma. Não se trata de pedir a paternidade do plano Real. Isso é de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e vai ficar bonita no túmulo deles essa informação. O Plano Real foi fundamental para que o Brasil chegasse ao nível que chegou, sim, e ninguém é imbecil a ponto de negar isso. (A propósito, as iniciativas privatizantes de Collor também foram fundamentais para que se chegasse ao Real, e eu gostaria que sempre que uma viúva de FHC fosse catar o plano Real para jogar na cara dos lulistas lembrasse também disso. Infelizmente, têm vergonha.) Mas a política econômica atual é de Lula. Ponto final. Para desgosto das viúvas, o que vai ficar é que enquanto cada crise internacional deixava o Brasil de quatro na época de FH, o Brasil está resistindo, pelo menos por enquanto, à maior crise econômica que se viu nas últimas décadas.
Há também os saudosos da política externa. Se alguém pegar exemplares da finada Primeira Leitura, pode ver uma infinidade de exemplos disso. Aquele ministro que tirava os sapatos nos Estados Unidos era mestre nessa tática de tentativa de desmonte absoluto. Chega a ser risível uma entrevista com Rubens Ricúpero: o repórter tentando a todo custo arrancar dele uma condenação à política externa de Lula e o Ricúpero dizendo: “não, está indo bem, pode melhorar mas está indo bem…”
É como se a manada ficasse triste porque as suas previsões de que Lula iria afundar e desmoralizar o Brasil não se concretizaram. Essa manada sempre foi retrógrada; mas agora mostra definitivamente ser burra, porque enquanto o resto do mundo reconhece a importância de Lula, ela continua do alto de sua torrezinha de marfim gritando que as uvas estão verdes. Foi por isso que levaram a surra que levaram em 2006. É por isso que nestas eleições de 2008 o governo tende a sair fortalecido. Lula pode não gostar de ler, o que é uma pena — eu, pelo menos, gosto. Mas é um grande presidente. Melhor que o intelectual que ninguém lê, o FH.
O Márcio Rothstein Bacha, até pelo nome um aparente membro de uma elite que não entende por que o povo que não come não concorda com a sua visão política, mostra a mesma incapacidade que a oposição tem demonostrado nos últimos anos. Não consegue entender o que mudou no Brasil. Continua observando e analisando tudo da mesma maneira que antes.
Pior, fala do que evita conhecer. A diferença fundamental de Lula foi dar uma guinada em relação às necessidades de uma parcela da população. Nisso, o Bolsa Família (que o Márcio Edmar Bacha chama de esmola, mostrando ignorância total a respeito do programa e das necessidades de gente que passa fome, gente com a qual ele certamente não tem nenhum contato) foi fundamental, porque mudou as regras (Márcio Rothstein Bacha, dá uma olhada aqui). Até Lula, o que se tinha era uma elite governando de acordo com seus padrões e a sua distância do Brasil real. Com Lula houve mudanças significativas — mudanças que em 8 anos, ou pelo menos nos últimos 4, Fernando Henrique foi incapaz de fazer.
E não se trata aqui de esquecer o mensalão. O Márcio Rothstein Bacha tem razão ao falar das mazelas do mensalão — e nisso eu recomendo a leitura do arquivos do Idelber, que sempre teve uma postura extremamente crítica e racional a respeito disso. Houve a crise, foi um problema grave, e de custo elevadíssimo para o projeto de poder. Mas isso não significa que viúvas como o Márcio Rothstein Bacha pode falar com tanta autoridade sobre isso. Porque tampouco esquecemos a compra de votos pela reeleição, a mudança das regras em pleno vôo. (FHC e suas viúvas, certamente, jamais terão a mínima autoridade para falar em respeito à constituição ou em projeto de poder.) Também não esquecemos casos como o de Chico Lopes. Ou a farra que foi o que o Elio Gaspari chama, de maneira extremamente adequada, de “privataria”. As viúvas seguem assim mesmo. Não conseguem entender o que Lula mudou no país, investem contra o mensalão como se o governo FHC fosse uma ilha de ética neste país — o que não foi, eu posso garantir.
Há pouco tempo alguém lá nos estrangeiros elegeu Lula uma das pessoas mais influentes do século XXI. Tomara que não digam isso ao Márcio Rothstein Bacha, porque se ele já destila tanta raiva agora, só porque os botocudos reconhecem a importância de Lula, vai começar a botar espuma pela boca ao saber que o resto do mundo também pensa assim.
Mas em 2002 nós conseguimos.