Lula e as viúvas de Fernando Henrique

Quanta mágoa, Márcio Rothstein Bacha. Quanta agressividade.

Em primeiro lugar, eu só queria corrigir uma informação sua. Você pode não ter votado em Lula, mas infelizmente ele é também o seu presidente, a partir do momento em que governa o país em que você mora. Desculpe. Você vai ter que dormir com isso, e acordar sabendo que o pau-de-arara analfabeto é o seu presidente. A vida tem dessas coisas.

Fora isso, acho fantástico quando as viúvas do PSDB vêm pedir a paternidade da política econômica de Lula. Como se tivessem inventado o dinheiro e a ciência econômica.

Vamos colocar as coisas em pratos limpos: seis anos são muito tempo, Márcio Rothstein Bacha. Em seis anos, o Brasil já teve cinco moedas diferentes — aliás, sei de um Bacha que criou duas. Sabe Deus quantos planos econômicos são possíveis nesse período. Lembro de um presidente que assim que assumiu confiscou o dinheiro de todo mundo e criou uma nova moeda, pouco mais de um ano depois do Plano Verão.

A partir do momento em que um presidente assume o seu mandato, a política econômica passa a ser dele. Se ele resolve ou não seguir um modelo anterior, é uma decisão que ele toma. Não se trata de pedir a paternidade do plano Real. Isso é de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e vai ficar bonita no túmulo deles essa informação. O Plano Real foi fundamental para que o Brasil chegasse ao nível que chegou, sim, e ninguém é imbecil a ponto de negar isso. (A propósito, as iniciativas privatizantes de Collor também foram fundamentais para que se chegasse ao Real, e eu gostaria que sempre que uma viúva de FHC fosse catar o plano Real para jogar na cara dos lulistas lembrasse também disso. Infelizmente, têm vergonha.) Mas a política econômica atual é de Lula. Ponto final. Para desgosto das viúvas, o que vai ficar é que enquanto cada crise internacional deixava o Brasil de quatro na época de FH, o Brasil está resistindo, pelo menos por enquanto, à maior crise econômica que se viu nas últimas décadas.

Há também os saudosos da política externa. Se alguém pegar exemplares da finada Primeira Leitura, pode ver uma infinidade de exemplos disso. Aquele ministro que tirava os sapatos nos Estados Unidos era mestre nessa tática de tentativa de desmonte absoluto. Chega a ser risível uma entrevista com Rubens Ricúpero: o repórter tentando a todo custo arrancar dele uma condenação à política externa de Lula e o Ricúpero dizendo: “não, está indo bem, pode melhorar mas está indo bem…”

É como se a manada ficasse triste porque as suas previsões de que Lula iria afundar e desmoralizar o Brasil não se concretizaram. Essa manada sempre foi retrógrada; mas agora mostra definitivamente ser burra, porque enquanto o resto do mundo reconhece a importância de Lula, ela continua do alto de sua torrezinha de marfim gritando que as uvas estão verdes. Foi por isso que levaram a surra que levaram em 2006. É por isso que nestas eleições de 2008 o governo tende a sair fortalecido. Lula pode não gostar de ler, o que é uma pena — eu, pelo menos, gosto. Mas é um grande presidente. Melhor que o intelectual que ninguém lê, o FH.

O Márcio Rothstein Bacha, até pelo nome um aparente membro de uma elite que não entende por que o povo que não come não concorda com a sua visão política, mostra a mesma incapacidade que a oposição tem demonostrado nos últimos anos. Não consegue entender o que mudou no Brasil. Continua observando e analisando tudo da mesma maneira que antes.

Pior, fala do que evita conhecer. A diferença fundamental de Lula foi dar uma guinada em relação às necessidades de uma parcela da população. Nisso, o Bolsa Família (que o Márcio Edmar Bacha chama de esmola, mostrando ignorância total a respeito do programa e das necessidades de gente que passa fome, gente com a qual ele certamente não tem nenhum contato) foi fundamental, porque mudou as regras (Márcio Rothstein Bacha, dá uma olhada aqui). Até Lula, o que se tinha era uma elite governando de acordo com seus padrões e a sua distância do Brasil real. Com Lula houve mudanças significativas — mudanças que em 8 anos, ou pelo menos nos últimos 4, Fernando Henrique foi incapaz de fazer.

E não se trata aqui de esquecer o mensalão. O Márcio Rothstein Bacha tem razão ao falar das mazelas do mensalão — e nisso eu recomendo a leitura do arquivos do Idelber, que sempre teve uma postura extremamente crítica e racional a respeito disso. Houve a crise, foi um problema grave, e de custo elevadíssimo para o projeto de poder. Mas isso não significa que viúvas como o Márcio Rothstein Bacha pode falar com tanta autoridade sobre isso. Porque tampouco esquecemos a compra de votos pela reeleição, a mudança das regras em pleno vôo. (FHC e suas viúvas, certamente, jamais terão a mínima autoridade para falar em respeito à constituição ou em projeto de poder.) Também não esquecemos casos como o de Chico Lopes. Ou a farra que foi o que o Elio Gaspari chama, de maneira extremamente adequada, de “privataria”. As viúvas seguem assim mesmo. Não conseguem entender o que Lula mudou no país, investem contra o mensalão como se o governo FHC fosse uma ilha de ética neste país — o que não foi, eu posso garantir.

Há pouco tempo alguém lá nos estrangeiros elegeu Lula uma das pessoas mais influentes do século XXI. Tomara que não digam isso ao Márcio Rothstein Bacha, porque se ele já destila tanta raiva agora, só porque os botocudos reconhecem a importância de Lula, vai começar a botar espuma pela boca ao saber que o resto do mundo também pensa assim.

Meu presidente

Foi em Lula que votei pela primeira vez, e até hoje não votei em nenhum outro candidato a presidente.

Em 1989 — provavelmente 8 de novembro, mas não tenho certeza da data — nós que fazíamos a UJS puxamos uma das maiores passeatas de estudantes que Aracaju já viu — e o comício foi obrigado a parar para anunciar aos outros participantes que havíamos chegado, tamanha a barulheira que fizemos. Em 1989 eu pintei bandeiras, fiz caminhadas, panfletagens, boca de urna. Perdemos aquela eleição, infelizmente; e nós, que queríamos um novo Brasil, acabamos tendo que engolir um Brasil Novo.

Mas em 2002 nós conseguimos.

Ao longo dos últimos seis anos, assisti à oposição fazer de tudo para desacreditar o presidente que eles não conseguiram derrubar. Disseram que ele traiu seu projeto social — e ele criou o Bolsa Família e os programas de inclusão produtiva. Chamaram-no de bêbado — e a sobriedade com que conduziu o país impressionou a todos. Chamaram-no de despreparado — e com ele o Brasil passou a ter uma proeminência internacional que está matando Fernando Henrique Cardoso de inveja e despeito, aos pouquinhos. Chamaram-no de analfabeto — e ele criou o ProUni. Vi gente esculhambando cada área do governo de Lula: a economia, as políticas sociais, a política externa. E no entanto, nesses mesmos seis anos, o Brasil que eles nunca quiseram ver ou entender emergiu e iniciou um processo de consolidação. Queiram ou não os apóstolos do mercado que neste exato momento desaba, Lula criou um país melhor, mais sólido e, principalmente, mais justo.

Lula venceu. E a oposição jamais vai conseguir admitir que, do pedestal de sua arrogância, de sua escolaridade, perdeu para um pau-de-arara de Garanhuns, que mostrou que não era ela a mais preparada para dirigir um país do tamanho do Brasil. E por não entender isso, por discordar do projeto de país encabeçado por Lula, essa oposição se perdeu completamente, pregou o golpe às vésperas da eleição, apostou na mentira e no engodo, se recusou a admitir que o país estava melhorando.

Em fevereiro deste ano, nos fundos de um palanque onde o governador Marcelo Déda mostrava mais uma vez por que é um dos maiores, senão o maior, orador que eu já vi, e em que Lula inaugurava um viaduto em Aracaju e mandava o Judiciário meter o nariz em seus próprios assuntos, eu aproveitava para tirar fotos do presidente.

(Espaço para um pequeno parêntesis: quem acompanha um pouco da política nacional já deve ter prestado atenção em um prenúncio de crise institucional que está se formando, com o Judiciário e do Ministério Público ocupando gradativamente espaços que não lhe deveriam ser permitidos, aproveitando um vácuo deixado pelo Legislativo. A imprensa apóia, incentivada pela classe média, e sabe Deus qual será o resultado disso.)

Mas este post, na verdade, não tem muito a ver com tudo isso que eu disse até agora; e eu só disse por desabafo, por estar cansado. Tem a ver com uma posição tomada que, mais uma vez, me deu orgulho do presidente que tenho, em quem votei e de cujo projeto indiretamente faço parte. Lula foi o primeiro presidente a dizer que é a favor da união civil de homossexuais, e a Igreja que se vire com isso.

Eu tenho orgulho de ter um presidente como Lula.

Sobre Marta Suplicy

Dia desses vi no YouTube o primeiro programa da campanha de reeleição de Marta Suplicy para prefeita, em 2004.

O programa abre com um belo comercial. Um goleiro defende pênaltis cobrados por uma fileira de jogadores. Defende quase tudo. Mas deixa uma bola passar, uma só, e então o locutor lembra: “Não é possível vencer todos os desafios ao mesmo tempo. Mas tudo que era possível fazer em quatro anos, Marta fez. E fez bem feito.”

Por alguma razão os estrategistas de Marta acharam que a medida mais importante a ser tomada no início da campanha era defensiva: blindar a candidata contra as críticas acerca do que não tinha sido realizado pela prefeita.

Não sei como estavam as pesquisas da época. Imagino que apontassem uma sensação geral de que Marta tinha feito alguma coisa, mas que isso ainda era pouco. Não sei. Mas a partir desse comercial, escolhido para abrir a campanha inteira e portanto de importância fundamental, fico imaginando as reuniões na produtora de Marta, as discussões sobre a necessidade de blindagem da candidata. “Vão bater na gente. Vão bater muito. Então vamos sair na frente e falar a verdade, dizer que não fizemos tudo, mas que com mais quatro anos poderemos fazer. Vamos ser humildes”.

Parece um raciocínio correto; pelo menos é lógico. A blindagem é uma ação correta e necessária, para qualquer candidato. Mas a abordagem e o momento utilizados pelo programa foram um erro grave.

O problema que o programa de Marta não entendeu e não respondeu é que ninguém se elege pelo que não fez. Esse é um dos pontos positivos da evolução do eleitor brasileiro, em grande parte auxiliada por bons programas eleitorais como, por exemplo, o de Duda Mendonça para Paulo Maluf — o mesmo Duda que fazia aquela campanha de Marta, embora tenha sido defenestrado mais tarde. Hoje o eleitor brasileiro tem melhor noção do que quer e não se deixa levar facilmente por salvadores da pátria como o Collor de 1989. Está mais realista e mais pragmático. Esse fenômeno se consolidou em 1996, quando posturas políticas perderam importância para o pragmatismo administrativo, pelo menos em eleições municipais (e federais também: em 2006 os eleitores votaram em Lula apesar da maior campanha contrária de mídia que já se viu no país, maior até que em 1989). 1996 foi o ano em que o eleitor brasileiro passou a julgar seus administradores pela capacidade de trabalho e pelos resultados apresentados, não por um discurso de princípios Isso quer dizer algo muito simples: que o que o sujeito quer saber é que o administrador nos quatro anos em que esteve à frente do Executivo.

Além disso, programa eleitoral não é para reconhecer defeitos, é para reforçar e lembrar as qualidades. Para os defeitos existe a imprensa. Nenhum programa vai mudar a imagem de um candidato, se ela for muito diferente da que o povo tem dele; mas é seu dever informar ao eleitor as razões pelas quais ele deve votar em alguém. Em seu primeiro programa, em vez de se desculpar pelo que não fez, Marta deveria ter mostrado o que fez. E ela fez bastante. Marta Suplicy pode ser antipática, esnobe, pernóstica (por outro lado eu a vi na ABAV do ano passado, no Rio, e a coroa dá um bom caldo) — mas foi uma excelente prefeita para a cidade de São Paulo. Se eu votasse em São Paulo, votaria em Marta Suplicy.

Aquele comercial era cabível e provavelmente necessário em um outro momento da campanha, não naquele. Ali, passava uma mensagem clara, ruim e falsa: “Desculpe, povo de São Paulo, por ter sido uma prefeita incompetente, mas mesmo assim eu lhe peço uma nova chance”.

As falhas do programa de Marta não pararam por aí. Erraram no enquadramento das falas da moça. Pelo menos naquele primeiro programa, insistiram em um plano aberto, que mostrava Marta praticamente de corpo inteiro se movimentando diante de um cenário bonito, ainda que frio. Visualmente era muito agradável; mas reforçava o distanciamento de uma mulher que, afinal de contas, era ligada a uma família tradicional de São Paulo — e que nunca foi exatamente populista. Marta devia ter sido apresentada de maneira mais próxima, mais íntima.

O discurso dela também era equivocado. Marta usa boa parte de seu tempo — além de se justificar — para agradecer pela honra que lhe foi dada pelo povo de São Paulo ao lhe deixar ser prefeita. Ela confessa que “gostou” de ser prefeita. Diz que não deu para fazer tudo o que pretendia, e que precisa de mais quatro anos para fazer tudo o que “gostaria” de fazer.

Não é por nada, mas se Marta gostou de ser prefeita, é problema dela. Porque Maluf também gostou, Pitta também gostou, Mario Covas também gostou. Qualquer sujeito sabe que ser prefeito é bom, porque se não fosse eles não gastavam milhões em suas campanhas. Ao povo não interessa do que Marta gosta ou não. Interessa é se ela é competente para desempenhar a função de prefeita. Quando ela passa boa parte do seu tempo dizendo que gostou de ser prefeita e está honrada por isso, perde de vista o seu papel de líder e de administradora competente.

Se isso foi feito para reforçar uma humildade que Marta não aparenta, foi o remédio errado. Pelo contrário, o resultado é ainda mais personalista do que parece.

O pior é que os erros continuaram. O resto do programa de Marta foi dedicada a um de seus projetos, o CEU. Só ao CEU.

A curva de audiência de programas eleitorais pode ser resumida em uma parábola invertida. São muito assistidos no início do horário eleitoral gratuito, caem significativamente aí pela segunda, terceira semana e sobem novamente durante a reta final de uma campanha. Praticamente ninguém assiste a todos os programas.

Ao desperdiçar seu primeiro programa com um samba de uma nota só, Marta parece ter passado a idéia de que não tinha feito um governo eficiente, passando uma mensagem contraditória e reforçando o aspecto negativo daqueles pedidos de desculpas. Fazia parecer que só tinha aquele projeto para mostrar. É possível que o eleitor que só viu aquele programa tenha ficado sem noção do volume de obras de Marta. E tenha preferido Serra.

Não vi outros programas de Marta. Não sei como se desenrolaram. Não sei o que melhorou ou o que piorou. Mas se o resto da campanha foi parecido com esse primeiro programa, ele foi, com certeza, o primeiro passo de Marta Suplicy em direção à derrota.

(Pequeno update antes de publicar o texto: ouvi um dos novos jingles de Marta, “Viva Marta”. Não gostei. O jingle pede para o paulistano lembrar do tempo em que chegava cedo em casa, em que a cidade era tranqüila, em que nego chegava em casa e via a criançada brincando feliz na rua. O jingle deve estar se referindo ao final do século XIX. Certamente não foram os tempos de Marta como prefeita. “Minha velha São Paulo com nova atitude”? Marta não ficou tanto tempo à frente da Prefeitura para definir uam era, como o jingle pretende. Além disso, nenhum eleitor com QI acima de 15 vai creditar a qualquer candidato — Marta, Alckmin ou Kassab — a responsabilidade imediata pelo caos paulistano. Mas pode achar que Marta está tentando enganá-lo. Sei não, mas já começaram errado.)

A verdade em tons de cinza

Nos últimos anos, ninguém reclamou das grandes operações da Polícia Federal, como a Sanguessuga, a Navalha e a Pasárgada. Não se falou da espetacularização de suas ações. Não se disse que as prisões eram midiáticas. Não se criticou a humilhação de homens poderosos ao saírem algemados — como o empresário João Alves Neto, filho do ex-governador de Sergipe João Alves Filho, preso na Operação Navalha. Ninguém, claro, além dos diretamente envolvidos.

Ninguém criticou porque essas operações mexiam com um setor bem definido do tecido social brasileiro. Ali estavam apenas políticos corruptos desviando dinheiro de ambulâncias, ou empresários que reinavam no submundo mas eram desconhecidos do grande público, como Zuleido Veras, da Gautama. Todos esses personagens de triste memória operavam sem necessidade do apoio de outras instituições brasileiras, como a imprensa. Só eles eram sujos, não precisavam sujar mais ninguém.

Com a Operação Satiagraha, isso mudou.

A diferença entre a Satiagraha e, por exemplo, a Sanguessuga é que aquela mexe com uma área cinza das relações institucionais brasileiras, que envolve muito dinheiro e muito poder. É uma área em que legalidade e ilegalidade, moralidade e imoralidade são separadas por linhas muito tênues. É uma área mais complexa em que uma peça não funciona sem outra, em que um Daniel Dantas precisa do apoio de jornalistas a seu soldo para influenciar a opinião pública e ter mais capital político para realizar seus negócios. Essa é a grande novidade trazida pela Satiagraha, e é isso que tem gerado as críticas que se vê na mídia nos últimos dias. São críticas tímidas porque estão lidando com uma das instituições mais respeitadas do país cumprindo o seu papel — uma instituição cuja reputação foi criada através de operações “espetaculares” como a Navalha e prisões “midiáticas” de figurões, amplamente repercutidas pela imprensa.

(É preciso lembrar também que essas operações só se tornam espalhafatosas a partir do momento em que a imprensa as cobre e divulga com estardalhaço. Ao reclamar do espetáculo, a imprensa está apenas se recusando a aceitar a responsabilidade pelas suas ações.)

Em relação às operações anteriores da Polícia Federal, a imprensa se sentiu numa posição confortável para elogiar porque em nenhum momento sua própria credibilidade esteve em jogo. Ela não intermediava negociatas. Não participava dos esquemas e dificilmente tinha sequer acesso a esse tipo de informação. Mas agora está diretamente envolvida e o relatório da Polícia Federal mostra os suspeitos utilizando termos que destroem qualquer tipo de respeitabilidade que um jornalista possa aspirar a ter: “matérias por encomenda”, “campanha de difamação”.

De acordo com a imagem rósea que a imprensa projeta de si mesma, esse tipo de coisa ficou para trás, junto aos cadáveres de Assis Chateaubriand e David Nasser. Qualquer pessoa mais próxima de algum nível de poder, no entanto, sabe que não é assim. Esses termos não apenas são utilizados com constância como são moeda corrente das relações de grandes empresas e do Estado com a imprensa.

Ao adentrar essa área cinza em que as coisas são mais complexas do que parecem, a Operação Satyagraha assusta a imprensa porque envolve questões como verdade e ética. Um jornalista não precisa mentir para ser anti-ético, publicando apenas um parte da verdade e influenciando a opinião pública a favor de quem lhe paga ou lhe oferece alguma vantagem. Se recebe algum dinheiro de um empresário bilionário, que mal há nisso, desde que ele não tenha mentido?

Em conversa com o jornalista Sérgio Matsuura, do site Comunique-se, o colunista Diogo Mainardi — o cão de guarda quase hidrófobo da Veja e, segundo o Luís Nassif, de Dantas também — menosprezou o seu envolvimento com o esquema denunciado e o próprio trabalho da Polícia Federal: “Uma investigação que não conhece o funcionamento do jornalismo, não pode saber como funciona uma rede de falcatrua internacional.”

Resta saber agora — e é esse o dever que a imprensa tem no momento — qual é realmente o “funcionamento do jornalismo” a que o Mainardi se refere. Qual o limite que jornalistas devem se impor em suas relações com suas fontes e, principalmente, com as estruturas de poder. A outra alternativa é assumirem-se como eventualmente são. (Por outro lado, vale a pena ler o texto do Sergio Leo sobre o envolvimento da repórter Andrea Michael no relatório.)

A Operação Satyagraha é uma iniciativa corajosa e benéfica. Faz parte de um processo de evolução constante da Polícia Federal e historicamente já representa um grande avanço para o país. Durante anos, reclamou-se que só pobre ia preso. Isso está mudando, como mudaram outras coisas no Brasil. E por si só, isso já é uma grande coisa. Ao criticar aspectos secundários da operação, a imprensa faz um desserviço para o país. Faz isso para se proteger. E ao fazer isso, não cumpre o seu papel.

As vozes da taba

No caderno Eu&Fim de Semana do Valor de sexta-feira passada, Wanderley Guilherme dos Santos escreveu tudo o que eu queria dizer sobre eleições americanas mas não tinha tido saco.

Num artigo intitulado “Nem Obama nem Hillary. Não sou americano”, Wanderley resume bem a situação. Faz notar o seu espanto diante da extensão do envolvimento do que chama a intelectualidade nacional com a campanha eleitoral americana. E nota um equívoco primário na expectativa de que “a vitória de um ou de outra trará modificações de espetaculares conseqüências para o resto do mundo e, portanto, para o Brasil”. Wanderley aponta para o que chama de sunken costs para lembrar que as mudanças, se vierem, serão gradativas, não importa quem ganhe. Porque os Estados Unidos são muito maiores que seus presidentes.

O artigo de Wanderley me lembrou que essa situação é a exatamente a mesma na blogosfera. A discussão das eleições americanas é talvez o principal tema nos blogs brasileiros atualmente. E nisso o equívoco é ainda maior. Porque enquanto Hillary e Obama jogam seu xadrez político, no Brasil começam a se definir os cenários das eleições em milhares de municípios.

Goste-se ou não, reclame-se ou não da falta de glamour nas eleições em João Pessoa ou Chapecó — nem de longe comparáveis à briga pela eleição do grande imperador ociental –, elas são de importância fundamental para o país. Em outubro se definirá uma parte significativa da configuração política nacional para os próximos anos. Muitos dos candidatos a prefeito ou vereador serão candidatos à Câmara ou ao Senado Federal em 2010. É essa configuração que definirá a correlação de forças naquelas eleições, é ela que vai influir pesadamente na política de alianças de todos os partidos nos próximos dois anos; e se não fosse por isso, é daí que vão sair os pedidos de verbas, quando menos. Eleições municipais são o varejo da política, digamos assim; mas o mundo não vive de atacadistas.

Do ponto de vista interno, essas eleições municipais são muito mais importantes do que a eleição de Clinton ou Obama, até mesmo que a eleição de McCain. É essa política de varejo que cria a política nacional. É ali, nos municípios, que em última análise se definem os avanços e os retrocessos deste país.

À grande mídia nacional, claro, isso importa pouco. Centra-se fogo nas eleições das duas maiores cidades do país, às vezes incluindo Salvador e Belo Horizonte, e sem contar Brasília. E só. Enquanto isso, dezenas de outras capitais, e milhares de pequenas cidades e redutos eleitorais de políticos nacionalmente importantes, simplesmente não existem.

É esse vácuo que a blogoseira poderia aproveitar. Ao se debruçar sobre o seu universo local poderia fazer diferença, oferecendo ao mundo uma perspectiva que, normalmente, apenas jornais locais oferecem. Mas esses jornais locais têm limites de circulação, coisa que um blog não tem. A partir de pequenos pedaços, a blogoseira poderia enriquecer o debate nacional e a cultura política do país.

No entanto, de modo geral parece perder tempo se limitando a reproduzir ou, no máximo, interpretar o que a mídia — e por mídia entenda-se também os grandes blogs — diz. Desempenha apenas o seu papel de caixa de ressonância. Um papel legítimo, nada desprezível — mas muito inferior ao que poderia exercer.

Talvez isso reflita uma certa alienação da tal “intelectualidade” tupi, que se contenta em refletir o mesmo comportamento antigo, e que diante de um meio novo e cheio de possibilidades, o utiliza apenas para repetir as mesmas coisas. Os índios da taba continuam repetindo o que ouvem o branco falar.

A semântica do nazismo

Perdi o bonde e não me meti na discussão entre o Idelber e o Pedro Dória sobre a Palestina. No entanto os dois se retiraram prematura e graciosamente da discussão — o que é ruim, porque no final das contas ela seria extremamente útil para o resto de nós. São dois sujeitos que entendem do assunto, extremamente capazes e de cuja discussão se poderia tirar boas lições, dos dois lados. Fica a expectativa pelos resultados da discussão sobre o livro The Ethnic Cleansing of Palestine.

No entanto, do ponto de vista da argumentação, o Idelber estava com a razão. Ele tocou no cerne da questão quando lembrou que hoje a Palestina luta por apenas 22% do seu território original. O Idelber também viu o que chamou de brincadeirinha semântica, e esse foi o ponto que me chamou a atenção. É algo que costuma acontecer sempre que se fala em Israel: termina-se na discussão sobre o nazismo e sua aplicação ou não à situação atual.

Essencialmente os defensores de Israel não admitem que se faça comparações com o nazismo. É aparentemente uma posição facilmente defensável, porque apesar das chacinas, da política que forçosamente adquire a cada dia feições racistas, Israel não construiu ainda um sistema de extermínio como os campos de concentração alemães no leste europeu durante a II Guerra Mundial. Independente da visão que se tenha sobre as ações israelenses, ninguém pode afirmar que existe uma Treblinka ou Auschwitz em Israel. Logo, Israel não pode ser comparado ao III Reich. A argumentação faz sentido. Mas não passa de um desvio da questão central.

O problema é que o Holocausto não define o nazismo.

O Holocausto foi apenas — se é que se pode usar a palavra “apenas” ao falar de uma aberração desse porte — o ponto final em uma política sistemática de perseguição aos judeus. É por isso que, do ponto de vista de definição do nazismo, as Leis de Nuremberg são mais significativas do que Auschwitz. Não foi com os campos de concentração que Hitler completou o trabalho iniciado por Bismarck e unificou de vez a Alemanha. Foi propondo um Estado forte e centralizador, encerrando a bagunça da república de Weimar, e fomentando e capitalizando o anti-semitismo enraizado no povo alemão. É esse anti-semitismo como política de Estado que pode definir o nazismo e diferenciá-lo de outros tipos de fascismo. O Holocausto foi apenas uma conseqüência dele, ao mesmo tempo lógica e circunstancial, acelerada ou mesmo definida pela logística de uma guerra que perdiam.

Esse é um tema mais complexo que poderia parecer à primeira vista. Implica, por exemplo, imputar a responsabilidade pelo nazismo não apenas ao Partido Nazista, mas à maioria do povo alemão. Por isso é mais fácil reduzir a discussão sobre sua natureza ao Holocausto, adotando uma explicação simplista, politicamente carregada e infelizmente obscurantista. Deixa-se de lado um aspecto interessante: de certa forma, os campos de extermínio representavam apenas uma solução burocrática e pragmática, o que uma filósofa chata chamou de “banalização do mal”. É provavelmente o aspecto mais aterrador do nazismo; mas não é o que o define.

Há alguns anos, um historiador chamado Bryan Mark Rigg publicou um livro chamado “Os Soldados Judeus de Hitler”, em que contava a história dos mischlinge — como os nazistas chamavam os filhos de judeus com alemães, “mestiços”, “meio-sangues” — que lutaram na Wermacht como estratégia de sobrevivência. Rigg apontava as complexidades que circundavam as relações sociais e étnicas na Alemanha nazista. É um livro fácil de ler, interessante e curioso. No entanto, foi recebido com má vontade pela maior parte da comunidade de historiadores do Holocausto. As perguntas que se faziam: “Quem quereria saber sobre 100 mil mischlinge que lutaram no exército de Hitler?” e “Isso não é novidade e é totalmente irrelevante para o julgamento do Holocausto e do Terceiro Reich”.

É assustador que historiadores julguem um fato histórico nada desprezível — 100 mil pessoas com algum nível de identificação com a cultura judaica integrando um exército engajado no extermínio do seu povo — como irrelevante. Ou que achem que isso não leva alguma luz para a compreensão do processo social do anti-semitismo na Alemanha. É estranho, mas compreensível, e os motivos vão além da razão histórica. E é basicamente o mesmo raciocínio que leva à escolha do Holocausto como padrão do nazismo. O Holocausto foi tão obviamente monstruoso — e, em suas características próprias, irrepetível — que é fácil utilizá-lo como padrão e como justificativa, porque é algo contra o qual não há argumento racional possível. Dessa forma, Israel pode cometer as atrocidades que quiser, porque a não ser que retome a fabricação do Zyklon-B e construa crematórios, mecanizando e sistematizando a chacina de um povo, jamais poderá ser comparados aos nazistas.

E terão razão. Não dá para comparar o que Israel vem perpetrando na Palestina ao Holocausto. Mas dá para comparar à Kristallnacht, às Leis de Nuremberg, à perseguição, humilhação e execução de milhares de pessoas. As ações de Israel hoje são muito semelhantes — na verdade, pode-se até alegar que ainda mais atrozes — ao processo de limpeza étnica que culminou nos guetos e nos campos de concentração, e é por isso que se pode, sim, comparar o Estado de Israel à Alemanha nazista.

Há alguns anos, o Pedro Dória comentou o caso de Wissam Tayem, um violinista palestino vítima de constrangimentos semelhantes aos dos judeus na Alemanha nazista. Mais ou menos na mesma época o então ministro da Justiça de Israel, Yosef Lapid, que viveu no gueto de Budapeste durante a II Guerra, via o sofrimento das mulheres na Faixa de Gaza como igual ao de sua avó naquele gueto. A essência do anti-semitismo nazista não estava nos campos de concentração. Estava nos guetos, na vida miserável que judeus eram forçados a levar, na negação de sua cidadania e, por fim, de sua humanidade. O Holocausto não surgiu do nada; foi preparado por dezenas, talvez centenas de leis excludentes e por atos grandes ou pequenos de perseguição social e étnica aos judeus. O muro que Israel construiu na Faixa de Gaza não leva a resultados muito diferentes do Gueto de Varsóvia.

Esse ponto leva a outro, mais complexo. O que se tenta mostrar como uma política de governo em relação à Palestina é na verdade uma política nacional, com um forte apoio de parte da população israelense. A perseguição aos palestinos não é mais obra do Likud ou dos trabalhistas: é obra de todo o povo de Israel. Como o nazismo foi obra e responsabilidade de todo o povo alemão.

Republicado em 25 de setembro de 2010

As delícias do home schooling

Infelizmente, o Hermenauta já falou sobre o assunto antes de mim.

Mas isso aqui é só para lembrar: a defesa do home schooling — o direito de qualquer cidadão a educar seus filhos em casa — no Brasil, como é permitido nos Estados Unidos, é um crime contra o país.

O diálogo a seguir poderia acontecer no interior de Alagoas, mas poderia também acontecer em qualquer grotão de São Paulo:

— Por que o senhor tirou seu filho da escola?

— Ah, dotô, agora ele tá fazendo romiscúli comigo. Eu tô ensinando ele.

— Mas por que ele está ali, cortando cana?

— Ele tá tendo aula prática de… De… De pranta.

— Certo. Então assine aqui, por favor.

— Onde é que eu boto um X?

Troque “cortando cana” para “vendendo bala no sinal”, e o diálogo seria possível em absolutamente todo o país.

Sobre a Veja e o Nassif

Os comentários no post sobre o Luís Nassif e a Veja são interessantes. Ainda mais porque os defensores da Veja partiram para o contra-ataque com uma raiva insuspeita.

Parecem esquecer que o post não é uma defesa do Luís Nassif. Ele provavelmente tem seus motivos para bater de frente com a Veja, assim como os fornecedores de dossiês da Veja têm os seus para bater no governo. O que importa, aqui, é a veracidade dos fatos e das conexões expostas por Nassif. Se a Veja publica um dossiê verdadeiro, com fatos checados, ela está fazendo jornalismo. Se o Nassif revelou fatos reais sobre a revista, ele também fez bom jornalismo. É o que importa. Se ele bate na mãe é problema dele.

Mas em nenhum momento — repito: nenhum — o Kbção, o Malavolta, a Livia Pulido, o Adriano ou quem quer que seja se debruçam sobre o que é realmente importante: os fatos. De maneira extremamente pobre, limitam-se a falar gracinhas, a desqualificar o Nassif e a jogar fumaça, tirando o foco do ponto central da discussão: as prática da Veja.

O Kbção, especificamente, se esmera em desviar do ponto central levantado pelo Nassif e partir para o aspecto político, enquanto as reportagens do Nassif lembram é que a Veja trata mesmo é de dinheiro. Por exemplo, fala que a cruzada anti-Veja começou quando Lula chegou ao poder. É mentira. A revista sempre teve uma orientação política clara, que se poderia identificar com o PSDB paulista, e eventualmente fazia bons acordos comerciais travestidos de jornalismo, como uma matéria enorme e famosa sobre alimentos geneticamente modificados, sem nenhuma fonte mas praticamente gritando “Monsanto!”. Mas com a saída do PSDB do poder começou um processo de radicalização que ultrapassou os limites da opinião política para descer à mentira e à chantagem. A lista de matérias feitas apenas para atacar o governo, ainda que sem provas ou testemunhas, cresce a cada dia. A Veja não pára.

Por exemplo, o Kbção fala que o Dirceu era “fanzoca da revista”. Ele com certeza é mais inteligente que isso. Deve saber que essas são relações que fazem parte do jogo político, e nada é de graça. E porque se os termos desse jogo não são elogiosos para o Dirceu, são ainda piores para a Veja.

Em vez de atacar o Nassif ou falar dos “petistas” que perseguem uma revista tão boa e respoeitável, gente como o Kbção e o Malavolta deveria tentar responder algumas perguntas simples:

  • Os fatos narrados pelo Nassif são verdadeiros?
  • Se não são, quais as evidências de sua falsidade?
  • Se são verdadeiros, isso é bom jornalismo?
  • Uma revista que faz esse tipo de coisa é uma boa revista?

Não respondem, não podem responder. Então partem para o contra-ataque, ignorando a mensagem e desqualificando o mensageiro.

Com isso tentam relevar o fato de que o que a Veja faz hoje é o mesmo que qualquer pasquim de interior faz. A diferença está na “catiguria”, para citar uma conhecida colega dos jornalistas da Veja: em vez de chantagear por anunciozinhos de 10, 20 mil reais, seu jogo está na casa dos milhões. São apenas escroques de alto coturno.

Essa é a revista que se apressam em defender.

A Alessandra definiu bem o papel da imprensa. Sua função não é pegar nos calcanhares de ninguém, como a Veja não pegou nos calcanhares do governo FHC. É informar, analisar e explicar. Pegar nos calcanhares é função da oposição, qualquer oposição; é uma função política. O Kbção, o Malavolta, o Cláudio gostam da Veja por isso, porque ela é um panfleto que se sujeita a ser ferramenta de luta política; por essa razão vale a pena ignorar o fato de ela também ser um instrumento de chantagem e de negócios escusos. E se se ignora isso, pode-se esquecer também que ela faz parte do jogo político e perdeu o direito de se auto-intular praticante de bom jornalismo.

Luís Nassif e a Veja

Via o sempre atento Idelber, a série de artigos escritos pelo Luís Nassif sobre os intestinos apodrecidos da Veja pode vir a ser um dos maiores favores que se fez à imprensa nacional, e desde já são seguramente alguns dos posts mais importantes da blogoseira pátria.

Os artigos são uma dissecação do modus operandi da Veja. De repente, temos acesso a informações e análises que, se entre jornalistas são fatos velhos, óbvios e conhecidos, não costumam chegar ao grande público, graças em grande parte ao sistema de interesses de todo o mercado e em pequena parte a um certo esprit de corps de jornalistas.

A análise feita pelo Nassif dos fatores conjunturais que levaram à derrocada da Veja, pelo que se vê do que foi publicado até agora, é em alguns aspectos superficial. Desconsidera como causas alguns fatores externos importantes, econômicos e principalmente políticos. Além disso, a ênfase em duas pessoas específicas — Eurípides Alcântara e Mario Sabino, os atuais condottieri da revista –, em alguns momentos deixa a impressão de que essa reportagem é uma espécie de vendetta pessoal.

Falta também, até agora, ressaltar detalhes importantes, como o fato de que Alcãntara e Sabino não são os donos da Veja, nem fazem o que querem porque têm poder total. Nenhum jornalista publica o que o dono do veículo não quer. O que, sendo as denúncias de Nassif verdadeiras, faz deles jornalistas inferiores é o fato de se sujeitarem aos interesses empresariais dessa forma, o fato de utilizarem uma revista que já foi a mais importante do país e hoje não passa de um panfleto canalha e mentiroso.

Mas as motivações do Nassif não importam. A reportagem é brilhante do ponto de vista da informação e da análise sobre a maneira como a Veja opera. É um documento que precisa ser lido por qualquer pessoa que queira entender como funciona a relação complexa entre a mídia e o poder.

O que o Nassif denuncia na Veja é comum em virtualmente todos os jornais e revistas espalhados pelo país. Apenas quem não conhece uma redação de jornal acha que é diferente. Do jornalzinho de interior à maior rede de TV do país, achaques, pressões, implicâncias são moeda comum — e efetivas. Interesses pessoais e comerciais são travestidos de interesse público. O resto é conversa aprendida já nos bancos da faculdade. O jornalzinho do interior faz algumas matérias batendo no prefeito para ganhar anúncios e calar a boca; e só como exemplo, há alguns anos a Globo se sentiu ameaçada por uma incursão da Legião da Boa Vontade, aquela do Paiva Netto, no mercado educacional; o resultado foi uma série de matérias denunciando irregularidades da entidade.

Sobra também para o mercado publicitário. Quando há quase três anos estourou o escândalo do mensalão, o mercado publicitário correu para desqualificar Marcos Valério. Segundo eles, Valério seria “lobista”, e não “publicitário”. Mas o fato é que publicidade e lobby sempre foram praticamente indissociáveis, apesar do discurso de fachada. Agora quem entra na roda é Eduardo Fischer, um dos melhores publicitários do país, responsável por campanhas brilhantes com a da Calvin Klein de 1983 e a “número 1” da Brahma, mas que teria feito o tipo de lobby mais rasteiro junto ao banqueiro André Esteves (no que, da maneira como Nassif coloca as coisas, mais parece um daqueles esquemas de proteção de mafiosos), envolvendo a coluna Radar, da Veja. Fischer também não é publicitário? Se não é, quem é?

A reportagem de Nassif é um obituário adequado à Veja. É importante pelas respostas que dá e pelas perguntas que suscita. E deve ser lido por todos.

Eleições 2008

Pesquisa de intenção de voto em Aracaju, Sergipe, entre os dias 25 e 26 de dezembro de 2007:

João Alves Filho (DEM), ex-governador de Sergipe por três vezes: 47,1%

Edvaldo Nogueira (PCdoB), prefeito: 29,6%

Almeida Lima (PMDB), ex-prefeito e senador da tropa de choque de Renan Calheiros, chamado de “boneca” no plenário por Tasso Jereissati: 11%