Diário do Rio

Rio de Janeiro, 5 de agosto de 2005

Querido Diário,

Eu prometi que vinha, então eu vim. Os últimos dois dias foram difíceis, tive que fazer coisas que não fiz em duas semanas, e dormi apenas umas 3 ou 4 horas ao todo. Mas eu tinha que vir. Tinha que ver o Alex, o Bia, a Carol, o Mauro, a Tata, e sabia que ia ver também mais um montão de gente. O sacana do Idelber disse que não vinha, mas quem sabe ele não aparece.

Ninguém que tenha amor à própria vida deveria viajar num vôo que sai às 6 da manhã de qualquer lugar. Ainda mais se esse avião é da Gol e seus assentos não reclinam direito. Tente dormir assim, tente. Você vai chegar como eu cheguei: com óculos escuros não por causa da luz, mas como medida de proteção porque qualquer pessoa que vir seus olhos vermelhos vai achar que você é maconheiro e está viajandão.

A Tata estava lá, me esperando. É por isso que eu amo a Tata. Porque ela é gostosa, também, mas que ninguém conte isso a ela. Na verdade, o escroto do Alex também deveria estar lá. O sacana estava atrasado. Encarei numa boa. “Chegue atrasado a Tulane e perca sua bolsa, seu puto”, foi a praga que roguei em silêncio. Numa boa.

Mas o amor sempre vence, e tudo aquilo tinha sido melhor para mim, de qualquer forma. Fiquei conversando a Tata. Fazia uns dois anos que eu não via a moça. Ela está muito, muito, muito mais bonita do que da última vez. Eu já não queria que o Alex chegasse.

Claro, ele chegou. Tinha que chegar para atrapalhar tudo. Foi direto à Vigilância Sanitária, ou seja lá que nome tem aquilo, para conseguir o “visto” do Oliver, aquele cachorro meio bicha mas com nome de viado inteiro que o Alex tem. Desperdício de dinheiro e de tempo, eu pensei. Tão mais fácil simplesmente estrangular aquele poodle.

Cada um tem o que merece. Enquanto o Alex se virava com o funcionário responsável pelo controle de transporte de drogas pesadas como gatos e cachorros, eu deitava no colo da Tata. O colo da Tata é uma maravilha. Eu cá, no colo da Tata, e o Alex lá, resolvendo problemas caninos.

Mas o colo ainda não é tudo. Eu ganhei cafuné também. Cafuné da Tata. E o Alex lá, conversando com a vigilância sanitária.

Já não havia ódio no meu coração.

Quando o Alex resolveu os problemas do poodle pederasta foi levar a Tata no Globo, e parou comigo num boteco da Voluntários da Pátria para conversa fiada.

É impressionante como continuamos discordando de tudo. Só concordamos com o fato de que Rubem Fonseca é hoje um escritor finado, mas discordamos quanto a “Lucia McCartney”. Ele não acha essas coisas todas, eu acho o melhor livro de contos (não coletânea; livro, mesmo, pensado assim) da literatura brasileira. Duvido que um dos dois tenha razão.

O Alex se encheu de café. Ele bebe mais café do que eu bebo coca-cola. Nunca vi alguém beber tanto café sem ser numa campanha eleitoral. A conversa ia bem, até que de repente alguém ligou e ele me dispensou sumariamente. Pelo pouco que consegui ouvir do que vazava do celular, era uma voz feminina falando em marcas. Nunca entendi o que isso queria dizer, mas o sorriso beatífico do Alex denunciava algumas coisas.

Fui para o apartamento onde ficaria, certo de que finalmente poderia descansar antes de ir ao encontro de despedida do Alex.

Tentei dormir, juro que tentei. Tomei meu banho e deitei na cama, pronto para umas duas horas de sono, quase tanto quanto tinha tido nos últimos dias.

Doce ilusão, porém efêmera. Primeiro me liga um. Depois outro. Acabei cochilando por meia hora, mais que insuficiente.

Às quatro o despertador tocou, levantei, tomei outro banho e me mandei para o metrô. Parei no Largo da Carioca, porque no caminho de volta para a Cinelândia queria passar num sebo do Avenida Central, velho amigo de tempos idos. Tão velho que está fechando.

Quando cheguei ao Amarelinho procurei a mesa com as tais rosas amarelas que o Alex disse que ia estar ali. Eu tinha achado muita frescura, mas a festa era de despedida dele, fazer o quê? O cabra gosta de rosas amarelas.

Tínhamos combinado chegar mais cedo. Mas o Alex tinha ido pegar o Bia na rodoviária, não havia ninguém ali. Fiquei rodando feito barata tonta entre as mesas, igual a velho recém-divorciado que vai para os bares à cata de mulher nova, até que o Mauro apareceu.

Eu não conhecia o Mauro pessoalmente. Mas já tinha trocado tantos e-mails com ele que era como se conhecesse. A gente sentou e começou a conversar. Rapaz, eu gostei imediatamente do sujeito.

Mas só gostei, mesmo, porque ele é um cafajeste. Daqueles rodrigueanos. O Mauro tem sete filhos. Naquele momento, os sete bruguelos estavam no Miguel Couto esperando os gêmeos virem à luz. Enquanto isso o Mauro enchia a lata num boteco da Cinelândia. É por isso, e por outras razões, que eu me tornei fã do sujeito.

Finalmente o Alex chegou. Trazia duas malas: o Bia e a mala do Bia. O padawan não tinha vindo.

O Bia vestia uma camiseta vermelha, prova de que a pombagira tinha baixado nele, e calçava uns tênis azuis da Nike que, da última vez que eu vi nos pés de alguém, foi nos de um travesti muito bonitinho chamado Lulu Bomboniére.

Mas o Bia é assim mesmo, Querido Diário. Zen. Quer dizer, ele diz que é zen. Eu descobriria depois que esse zen do Bia sempre vem com outro adjetivo na garupa, mas naquele momento eu só estava fascinado por conhecer meu amigo. Que também estava tão feliz que não parava de me beijar.

O Alex perguntou:

“E o Marcus, não vem?”

“Bicho, o Marcus anda com uns problemas. Sérios, sérios mesmo. Anda enchendo a cara todo dia, um pé na bunda, sabe como é? Todo dia ele amanhece nas sarjetas do Ver-o-Peso, cachorros lambendo sua cara, os moleques lhe jogando pedras…”

Smart?”

“Coitado desse. Nem fale. Foi para Noronha, pirou o cabeção lá. Sabe como é, esse povo de Brasília enlouquece quando vê praia. Começou a falar umas coisas desconexas, tentou provar que Deus existe e entrou num loop infinito. Aí o cabra voltou para Brasília alucinado. Largou o emprego, fundou uma organização terrorista chamada “Movimento de Libertação dos Barnabés”. Eles vão para as repartições federais, jogam sal no cafezinho, rasgam os jornais, peidam em todas as salas e saem correndo.”

“A Lucia Malla?”

“Engolida por um tubarão.”

“E o Baile?”

“Numa orgia há 3 semanas. Não vai parar. Disse que a gente não vale tanto assim. Ele tem razão.”

“Porra, nem o Guto e a Mônica vêm?”

“Ah, depois que começou a fazer pesquisas sociológicas sobre o comportamento dos criminosos nas penitenciárias algo aconteceu com o Guto. Soube daquele roubo ao Banco Central de Fortaleza? Pois é. Ele foi o cabeça. Está no Taiti agora, ele e a Mônica. O Guto agora só anda com uma camiseta escrita ‘Sociologia um caralho’. A Mônica usa outra dizendo ‘Se fui pobre, nem me lembro’. Estão blasés, cagando até na cabeça da Sandra. Quando era pobre a Mônica adorava a Sandra. Agora faz isso. A vida é assim mesmo. Mas disseram que vão voltar pro Salão do Livro em Belzonte, para ver os nativos.”

O Bia então me chamou para ir ao banheiro. Achei estranho o convite, mas fui. Apesar do tênis que usa o Bia tem a maior fama de comedor; dizem que comeu mais de metade de Americana. Eu não tinha o que temer.

Lá dentro o Bia abriu um papelote. Dali saltaram quatro pílulas azuis, em forma de losango, com a marca da Pfizer.

“Quer um, Rafito? Vamos acabar com essas cariocas!”, ele disse naquele sotaque de caipira paulista que, aos poucos, todos íamos absorvendo.

Agradeci, sem jeito, e recusei. O Bia engoliu as quatro, e na saída não viu a porta e quase quebrou o nariz enorme que tem.

Quando voltamos à mesa a Dani estava lá. Foi uma surpresa. Dois anos se passaram e ela continua com os mesmos peitões, querido Diário. Continua também com a mesma recusa boba em dar para mim, porque segundo ela eu fumo e sou um baiano safado. Fiadaputa. Tomara que aqueles peitos caiam.

Logo depois o Nababu chegou. Eu não o conhecia, mas conhecia seu blog, e o considerava um herói por ter tido a coragem de desmistificar uma série de mitos canalhas sobre a paixão da minha vida, a Santa Coca-Cola.

Nababu sentou, tímido, e sacou sua máquina fotográfica. Começou a tirar fotos de tudo. E a cada cinco minutos pedia um novo chope.

O Joselito, do Estraga Filmes, também apareceu. Mas eu não vou falar do sujeito porque senão ele conta o final desse relato, e eu quero é me dar bem aqui. Tenho pela frente uma semana de Rio de Janeiro. Além disso ele é um homem casado, pai de família, e se eu contar as barbaridades que ele fez, os trenzinhos em frente ao Belas Artes, o jeito como subiu na mesa e rodou a gravata, a mulher dele pede o divórcio.

O Bia então começou a falar dos problemas que o seu nome lhe trazia no Rio.

Imagine um carioca gritando “bicha!”. Fica assim: “Bia-cha”. O Bia já estava ficando envergonhado. O que o consolava, e que ele fez questao de nos mostrar sem respeitar nossos pudores, é que pelo menos ele dobra a língua em três partes. Faz uma florzinha. É nojento, e só quem viu sabe o que é, mas deve ser muito útil para uma mulher com três clitóris.

Enquanto eu olhava para a língua tripartida do Bia, a Isabel apareceu. A Isabel tem cara de sueca mandona. Como para mim sueca e alemã é a mesma coisa, a Isabel tem cara de guarda feminina de campo de concentração nazista. Meu tipo, minha tara inconfessável. Mas ela é artista, e todo artista fala umas coisas esquisitas e sempre mete Derrida no meio, e eu não entendi lhufas do que ela falou. Ela falava e eu fazia “hum-hum” e tentava passar uma imagem de inteligente: a gente faz uma cara de quem não está entendendo porra nenhuma e balança a cabeça, assim como se tivesse Parkinson. Não colou. Tenho que ensaiar mais.

Perdi duas horas dando em cima dela. Passava a mão na sua coxa e ela me dava um toco. Passava a mão no seu braço e ela virava a mão no meu nariz. Passava a mão nos seus cabelos e ela derramava um copo de chope em cima de mim. Ainda não tenho certeza, mas algo me diz que a Isabel não foi com a minha cara.

Um zunido de chicote no ar cortou a noite silenciosa da Cinelândia e meu sangue gelou. Vinha esperando um ataque do XXX BBB (Trigésimo Batalhão de Balzacas Bufantes) desde que pusera os pés no Rio. Paraíba que chega ao Rio tem medo de assalto e traficante; eu tenho medo de trintonas mal amadas e mal comidas. Se forem da Congregação Mariana de Astrólogos, então, eu sei que vão fazer comigo o que os traficantes fizeram com o Tim Lopes.

“As balzacas estão me atacando! As balzacas estão me atacando!”, gritei.

Pensei rápido, reuni toda a minha coragem, me joguei embaixo da mesa. Estava preparado para tudo, ali, encolhidinho. Mas saí de lá um minuto depois, envergonhado: não eram as Balzacas Bufantes, era a Ninfeta do Demônio chegando.

A Carol trazia um chicote. Um desses chicotinhos que as pessoas compram em sex-shops, coisa de gente que prefere levar porrada a trepar. A mulher é má. Tão má que o nome do chicote é Febrônio. A Carol batizou o desgraçado depois de ir à exposição dos 80 anos do Globo no Centro Cultural Banco do Brasil. Ela freqüenta esses lugares. Mas só porque o CCBB fica perto de um clube de mulheres onde a cachaça é gratuita às segundas-feiras.

Agora, ela pode ser má lá pras negas dela; o que ela não podia era ser má comigo. Porque eu sou só um paraíba nascido em frente à Baía de Todos os Santos, e essa coisa de chicote não é para mim. O nosso negócio é o amor, é o cafuné e um olhar bobo e feliz entre um beijo e um abraço, de preferência numa rede à beira-mar. Mostrei a ela a maneira como os baianos recriaram a civilização ocidental: para nós, aquele chicote só podia servir como mamãe-sacode em um carnaval qualquer.

É toda uma diferença de filosofia, diria a Tata.

A Carol tinha chegado empolgadinha e com uma conversa esquisita de KY; logo foi subjugada pelo meu charme tosco de paraíba. Certo, algumas coisas ajudaram, como o fato de a minha boca ser muito parecida com a do seu ídolo, o Wando. E por alguma razão ela estava se divertindo com a minha língua em seu umbigo. Olhava para mim como quem olha para um cachorrinho; quase deu tapinhas na minha cabeça. Se eu tivesse algum orgulho próprio me sentiria humilhado por tamanho desprezo. Mas eu sou só um paraíba e o que conta é o resultado.

Ela disse que eu não tinha cara de tio Sukita. Deve ser porque esqueci o suéter que sempre trago pendurado no ombro. Disse que eu pareço ter 18 anos. E você sabe como isso me emputece, Querido Diário. Sabe que isso é um trauma de adolescência, de tantas idas aos cinemas de putaria para ser barrado diante das risadas do porteiro quando eu dizia ter 18 anos e que tinha esquecido a carteira de identidade em casa. É um trauma que carreguei dos 12 aos 18 — mas aí eu já tinha mandado aquele escroto à puta que o pariu porque já tinham inventado o vídeo-cassete e eu não precisava mais daquela merda.

Foi apenas a visão do Febrônio, a postos na mão da Carol, que me impediu de dar uma porrada nas cornos dela.

Os gritos de que o Bruno tinha chegado me chamaram a atenção. Olhei para cima esperando ver um sujeito alto, magro, cabelo cortado à escovinha numa cara meio de CDF. Sei lá a razão, são essas imagens que a gente cria sem quê nem por quê.

Não era nada daquilo. O Bruno era mais ou menos da minha altura, outro pintor de rodapé com 1,65m, com a diferença de ser mais bonito e ter o cabelo comprido. E forte, claro. Se o Bruno fosse feio e tivesse a cara amassada e as orelhas destroçadas eu ia ter certeza de que era lutador de jiu-jitsu. Pitboy, mesmo.

Como ele não tem, a imagem mais próxima que vem à cabeça é a de um viking. Eu posso muito bem ver o sujeito na proa de um barco daqueles, cabelos ao vento, enchendo os ingleses de porrada. Chamaram o Bruno de “doce viking”. Eu não, porque se chamasse assim todo mundo ia ficar em silêncio, ia parar o que estivesse fazendo, ia olhar para mim e ia dizer: “Hummmmm… Esse baiano…” Fiquei na minha. Mas puta que pariu, como o Bruno é gente boa. Perguntei o que signfica Ik Haat, e ele falou que é “Eu Amo” em norueguês. Massa.

Eu conversava com o Bruno quando de repente, não mais que de repente, a Cinelândia se tornou paulista. O Donizetti tinha chegado. Foi a maior surpresa que poderíamos ter. O Doni é super, super gente boa. De repente estava todo mundo mais feliz ali. O Doni chegou sem aviso, ostentando sua tatuagem do Batman.

Mas algo aconteceu entre ele e o Bruno. Algo não clicou, entende? Deve ter sido a viagem, a Dutra, os pedágios. É, foram os pedágios. Sem razão e sem aviso, o Doni tomou o Febrônio as mãos da Carol e correu atrás do Bruno. Todos os homens ali presentes tentaram separá-los, mas só o Alex conseguiu acalmar o Doni. Chegou perto dele e sussurrou algo ao seu ouvido. Não sei o que ele disse. Só notei a cara de pânico do Doni e os seus pés, que se encolheram imediatamente. Passaram a noite inteira assim, encolhidos.

Enquanto isso o Nababu bebia e tirava fotos, tirava fotos e bebia. Seu olhar, antes doce e tímido, se transformava. Nababu segurava o chicote da Carol e começava a tremer. Uma baba branca começava a escorrer de sua boca, seus olhos ficavam vidrados. Algo estava para acontecer.

Quase sem ninguém notar, o Leo e a Renata chegaram. Não sei como ninguém percebeu. Primeiro porque a Renata é lindíssima. Segundo porque de repente o ar ficou com cheiro de chocolate e os alto-falantes do Amarelinho começaram a cantar: “oompah, loompah, doompa dee doo, I’ve got a perfect puzzle for you”. O Leo e a Renata são leitores do Alex e se dirigiram imediatamente para perto dele. Julguei ver um brilho novo no olhar do Alex, mas achei que isso fosse o resultado do vinho branco que ele estava tomando.

A Tata chegou com o seu próprio Alexandre. Não ia dar para passar a mão na bunda dela, porque aí o Alexandre me enchia de porrada, mas eu encontrei uma boa desculpa: chamei todo mundo para tirar foto e lavei a égua tirando casquinha da Tata. Nunca fui tão feliz.

Eu estava tirando essas fotos quando a Viva chegou.

Desculpe, querido Diário, mas por alguma razão maluca eu achava que a Viva era o Viva. E no entanto me aparece uma bela mulher que fez a puta sacanagem de dizer que eu era diferente da foto do blog e que ali parecia ter a cara amassada. Acho que era um elogio. Ainda não tenho certeza. Eu me recuso a acreditar que as pessoas sejam tão sinceras assim.

A Viva é quieta e fica olhando distante para a gente. Claro que isso não me impediu de dar em cima dela. Fiz a minha melhor cara de galã. Olhei no fundo dos olhos verdes da moça. Passei a mão na sua cintura fininha — e que cintura, Querido Diário — e falei baixinho ao seu ouvido:

“Me chama de Hamas que eu te bombardeio todinha.”

A Viva não se alterou. Com aquele seu jeito de Esther, foi delicada mas incisiva:

“Desculpa, Rafa. Eu não posso comer porco.”

Fiz cara de quem perdeu a chave da bunda, me disseram depois, e fui tentar passar a mão na Tata. Minha memória agora está meio turva, não lembro das coisas direito. Mas acho que ouvi o barulho de um tapa e o de um nariz se quebrando. Deve ser por isso que ele está doendo tanto agora e eu respiro pela boca.

A próxima coisa de que me lembro é de estar sentado ao lado da Carol. Foi quando tirei os olhos dela — e antes não tivesse tirado, antes tivesse continuado com aquela cara de retirante nordestino que vê um bom prato de feijão e farinha — que eu vi.

“Meus olhos!”, gritei. “Meus olhos!”

Caí no chão, como se estivesse em meio a um ataque epiléptico. Eu não conseguia enxergar nada. E só não desfaleci porque esse negócio de desfalecer é viadagem.

Sabe, eu sempre tive uma dúvida cruel. Era sobre Sodoma e Gomorra. Eu sabia o que faziam de tão terrível em Sodoma, sabia que tentavam comer bundinhas de anjos. Dizem que anjos têm rabos divinos.

Mas nunca soube que diabos se fazia em Gomorra. A Bíblia não fala, ninguém sabe. A coisa era tão barra-pesada que, se Deus poupou uma meia-dúzia de Sodoma, de Gomorra não sobrou um pobre-diabo para contar a história. O problema de Deus não era o fato de gostarem de uma boa bunda em Sodoma, que Ele também deve gostar; era o fato de gostarem das bundinhas dos Seus anjos, e sabe como é aquela história de não cobiçar a mulher do próximo (o diabo é que o Sujeito está sempre próximo, graças a esse negócio de onipresença. Não fossem as freirinhas do Convento do Desterro, em Salvador, cujas janelas ainda trazem as marcas das cordas que jogavam para seus namorados, eu diria que Deus jamais seria corno. É preciso ser freira para enfeitar a testa de Deus).

Mas Gomorra, não. Gomorra era uma questão de princípios. “Delenda Gomorra”, disse Deus, e então botou pra foder com aquela raça. Ele só não deu explicações; e Ele certo, porque se eu fosse Deus também não estava dando explicações a zé mané nenhum, eu me respeito.

É por isso que cada um inventa uma teoria, cada um diz uma coisa sobre Gomorra. Tudo bobagem. Porque agora eu sei. E algo no meu coração, no embrulho que vem ao meu estômago enquanto tento afastar a lembrança daquela imagem, me diz que é tudo verdade. Um dia eu vou morrer, é o que dizem. E nesse dia, a cena que vai estar gravada na minha retina vai ser aquela.

Em Gomorra lambiam pés.

Foi isso que horrorizou Deus a ponto de Ele mandar aquela chuva de enxofre. Foi a saudade do pé de sola grossa e chulezenta de Jacó, um pastor núbio parrudo que morava em Gomorra mas que passava por Sodoma duas vezes por semana, que fez a mulher de Lot se voltar para trás enquanto fugia de Sodoma e a transformou em uma estátua de sal.

Agora eu sei, nada pode ser pior do que aquilo. Podólatras não vão para o céu. E acho que o Diabo os aceita com relutância, porque tem cascos e podólatras não lhe são de nenhuma utilidade.

Maldita hora, maldita hora em que tirei os olhos da minha Ninfeta do Demônio.

Meninos, eu vi. Vi o Alex lambendo o pé da Renata sob os olhos fiscalizadores do Leo. O Leo devia estar se certificando de que o Alex não iria lamber mais do que devia. Porque vai que o Alex se empolgava, e lambia as panturrilhas, lambia as coxas, lambia mais, e de repente o Amarelinho exibiria o vermelho da paixão e o silêncio da noite seria substituído por urros de prazer. O Leo estava certo.

Tenho certeza de que hoje vou ter pesadelos, de que vou ser perseguido por um dedão gigante babado em uma floresta escura repleta de biajonis loucos. Tudo culpa do Alex. Ele lambia o pé da Renata com um gosto que me fazia ter engulhos. Enfiava o linguão na sola, enfiava o dedão na boca. O Alex babava, Querido Diário.

Eu nunca vou esquecer aquela cena.

Nada contra a tara dos outros. Mas olha, Querido Diário, a Ninfeta do Demônio: eu passei a noite tentando passar a mão na bunda dela, sem sucesso. Ela tem tanta coisa boa. Ela é grandona, parece um travesti gostosinho. Ela tem bundão. Tem uns pernões. Aquela boca.

E tudo em que o puto do Alex consegue pensar é na sola dos pés da Renata.

Recuei, aterrorizado. Olhei para o lado e vi que as coisas estavam definitivamente saindo de controle. O Nababu se autoflagelava com o Febrônio. O Bia tinha sido contaminado pelo vírus do chulé. Segurava o pé da Carol com cara de tio Sukita tarado, tremia como o Alex tremeu, e se preparava para enfiar o linguão no pé dela.

O Bia é meu amigo. Ele é viado, mas é meu amigo. Eu amo o Bia e não podia deixar que ele fizesse algo de que se arrependesse amargamente depois.

Tomei o Febrônio das mãos do Nababu e parti para cima dela. Dei-lhe umas três lapadas, o encanto sobre o Bia se quebrou. Tudo pelo meu amigo.

(Porra nenhuma. Eu estava doido para dar um cacete na Carol desde aquela conversa de 18 anos.)

Depois disso a Carol passou a olhar meio estranho para mim, fixamente, sem parar, sem piscar. Aonde eu ia o olhar negro da Carol me seguia.

Tudo bem. Àquela altura eu não me preocupava com isso. Porque nada mais poderia controlar Biajoni, o Priápico Azul.

Ele estava zen controle. Já tinha dado em cima da Carol, da Isabel, da Renata, da Tata, da Viva. Já tinha inclusive ensaiado umas cantadas meio xoxas no Rafael Lima, que tinha chegado sem fazer alarde. Agora ele tinha resolvido que ia comer uma cachorra. Normalmente eu o apoiaria, e iria com ele a um baile funk e morreria gloriosamente depois de passar a mão na bunda de uma namorada de traficante.

Mas o nome da cachorra que ele tinha escolhido era Fifi. A Fifi vagava pelas mesas do Amarelinho em busca de restos de comida. O Bia vagava pelas mesas do Amarelinho em busca de mulher. Bia e Fifi tinham sido feitos um para o outro. Mas a Fifi saiu correndo com medo do olhar do Bia e ele resolveu descontar sua frustração no Alex.

Para a sorte do Alex foi nesse momento que a Carol resolveu ir embora. Que coisa, Querido Diário. Foi de repente. Assim, rapidinho como quem rouba. Eu e o Bia fomos atrás dela. Mas um ônibus passou e ela entrou correndo. Ela saiu que nem a Blanche Dubois numa peça do Tennessee Williams.

Eu e o Bia ficamos parados, olhando a Carol se afastar. E então, ao mesmo tempo, nos olhamos assustados. A ficha tinha caído.

Aquilo tinha cara de golpe. Tudo estava claro agora, porque aquele mulherão não poderia ser verdade. A Carol não era a Ninfeta do Demônio, era o Traveco do Tinhoso, e tinha nos aplicado um Boa Noite Cinderela. Merda.

Batemos a mão nos bolsos ao mesmo tempo. Respiramos aliviados. As carteiras ainda estavam lá.

Quando voltamos para a mesa o pessoal tinha decidido fechar a conta e ir para o Cervantes. O Cervantes é uma daquelas lendas cariocas. O Rio tem dessas coisas, pega umas bobagens e eleva à condição de mito. O Cervantes é um desses casos. Um monte de gente mal-educada e barulhenta — gente como a gente — num bar que serve um sanduíche gostoso, é verdade, mas que também não é nada do outro mundo.

Depois de comer aquele sanduíche que qualquer um pode fazer em casa, me sentir lesado mas fazer a mesma cara de maravilha que os outros estavam fazendo para não ser o único a passar recibo de otário, fomos embora. Eu jurei que ainda ia pegar outro bobo. E quando voltar a Aracaju eu vou cantar loas ao Cervantes.

O Bia, ainda sob o efeito daqueles comprimidinhos, pulava na frente do Bruno.

“Vamos arranjar uma briga pro Bruno dar umas porradas em alguém!”

O Bruno lhe porrou a testa e o Bia aquietou. Por via das dúvidas, saí de perto deles. Mas a essa altura o Bruno estava puto nas calças, e resolveu chamar o Doni para fazer um city tour às 4 da manhã, enquanto seu ônibus não chegava. O Doni, paulista no Rio, aceitou deslumbrado. Ele não tinha visto o que eu vi, o sorriso malévolo de vingança no rosto do Bruno.

A Tata se despediu do Alexandre dela e, como o Bia não tinha onde ficar e eu não queria acordar o pessoal em casa, fomos dormir na casa dela.

Quando a gente chegou na casa da Tata aqueles dois dementes foram direto para o computador, ver o que tinham deixado nos seus respectivos blogs. Eu fui direto para o sofá. Sabe Deus o sono que me consumia.

Mas eu estava na casa dos outros e ia ficar feio dormir sem tomar banho. De que ia adiantar dizer a verdade, que aquele seria o quarto banho do dia — justo eu, que só costumo tomar banho aos sábados? Nada.

Então fui tomar banho. Antes não tivesse.

O chuveiro da Tata tem algum complexo, Querido Diário. Deve ter sido um trauma muito grande quando ele ainda era torneira, tão grave que até hoje ele tem dificuldade em se expressar. O Bia chamou o coitado de Chuveiro da Morte; mas só se for a morte dele mesmo, porque o ínfimo está nas últimas. Eu tive pena, com moribundos a gente não brinca, mas o Bia não respeita nada, é um zen consideração, e o sacana tirou uma foto para mostrar à posteridade que aquilo era real. Aquilo tinha menos água que Cabrobó em quarto ano de seca.

Não sei como, mas de alguma forma consegui tomar banho. A água pingava relutante e eu lembrava da minha infância no Raso da Catarina. Tão parecido.

Espero conseguir dormir muito hoje.

Rio de Janeiro, 6 de agosto de 2005

Querido Diário,

O Bia ronca. Lembro que ele chegou aqui dizendo que não roncava — porque aquele puto é zen, e zens como se sabe não roncam —, mas o Bia ronca, sim. Eu ouvi. O Bia é zen, mas de uma cepa especial: o Bia é um mentiroso zen vergonha.

Tantos dias sem dormir direito e eu esperava dormir até tarde; 4 da tarde me parecia um horário muito justo para acordar. Mas o Bia é um mentiroso zen vergonha e é um zen sono, porque o desgraçado acordou cedo e foi para o computador e fez barulho e o resultado é que eu acordei também. Quer dizer, não é bem “acordei”, porque aquilo não podia ser chamado de estar acordado. Eu apenas não estava mais dormindo. Eu era um zumbi com olhos vermelhos de sono escutando o Bia rir diante do computador da Tata enquanto ouvia Jimmy Page e Robert Plant.

Aí veio a hora de tomar banho. O trauma da noite passada continuava: eu nunca tinha visto um chuveiro daqueles, mirrado, faminto, pedindo para ser sacrificado em nome da misericórdia. A lembrança daquele banho sofrido, a idéia de novamente implorar uma gota d’água que ele não podia me oferecer me fez pensar direitinho. Eu tinha que passar em casa, trocar de roupa. Banho um cacete. Eu ia dar uma desculpa, ia dizer que tomaria banho em casa, e daria no pé. Não tomaria banho nenhum, claro, mas ninguém iria saber disso.

O legal é que a desculpa safada colou. A Tata tinha saído e só estava o Bia lá. Ele não ligou muito para o que eu ia fazer da minha vida, preocupado em contar uma versão falsa da noite passada — uma versão obviamente bastante elogiosa de si mesmo.

Andei até a Nossa Senhora de Copacabana, vestido e amarfanhado, para pegar um táxi. Olhava para as pessoas que voltavam da praia. Esses cariocas são uns loucos, como diria o zen praia Biajonix. Acordam cedo num sábado para ir à praia. Aí eu vi uma neguinha com uma bunda imensa e entendi tudo, e me senti carioca também, com a diferença que eu era macho.

Peguei um táxi e me mandei para Botafogo.

Aí pelas 3 da tarde peguei o carro e fui encontrar os loucos. O Alex já tinha passado na casa da Tata e apanhado ela e o Bia. Fomos almoçar num bar qualquer de Ipanema. Não sei de quem foi a idéia.

Por mim ia no Adriano, na Real Grandeza, e enchia o rabo de comida por quaisquer dez contos. Mas o Bia e o Alex têm umas manias de maluco, o Bia não tem praia, queria comer no Leme, depois no Posto Seis, qualquer buraco onde ele pudesse ver o mar. Parou num boteco metido a besta que servia uma picanha sofrível — mas olha, ali era a praia de Vinícius de Moraes.

Enquanto comíamos liguei para a Carol, só para ter o prazer de falar com ela de boca cheia. Melhor só se ela me visse assim. Eu ainda tinha a esperança de passar a mão na sua bunda, esperança que aumentou quando ela disse que ia nos encontrar com um shortinho minúsculo. Ela fez isso só para me provocar, eu sei.

Dali fomos ver o Mauro na Barra. A Tata veio comigo que da Barra eu não conheço é nada, e por mim morro sem conhecer. Sentamos no píer do começo da Sernambetiba e ficamos conversando um pouco. Até que chegou a hora de ir pegar a Carol na frente do Barrashopping.

Ela estava mesmo com um shortinho minúsculo.

Quando voltávamos o Alex ligou para avisar que ele e Bia estavam indo para casa. E iriam nos encontrar mais tarde em algum lugar para um chope e mais conversa. A Tata, então, disse que queria tomar um banho e fomos para a casa dela.

A Tata foi ao encontro do seu chuveiro depauperado e ficamos a Carol e eu na sala. Ficamos a Carol com um shortinho minúsculo e eu, a essa altura já não tão minúsculo assim. Os dois deitados no sofá da Tata. Por via das dúvidas, porque prudência é coisa muito boa e muito útil na lida com ninfetas do demônio, perguntei pelo Febrônio. A Carol não tinha trazido. Oba.

Primeiro fiz charme. Imitei a boca nojenta do Wando para ficar sexy. A Carol sorriu. Falei que o Febrônio era uma gracinha. Ela riu.

Aí eu ataquei. Dei um beijo e ela arrancou um pedaço dos meus beiços. Tentei passar minha mão direita no peito esquerdo, ela devolveu um direto de direita. Envolvi sua perna com a minha e ela me deu uma joelhada no saco. Com a mão esquerda, num golpe de surpresa, tentei agarrar finalmente a sua bunda, e fazer valer a passagem. Aí a miserável me deu um golpe de jiu-jitsu (“Ih, rapaz!”, pensei enquanto voava, “Tô tentando pegar o Bruno!”), me derrubou no chão e me deu um chute na cara.

Exausto após esse longo e vigoroso embate amoroso, desisti. Comecei a chorar em posição fetal. Mas em algum lugar daquele coração negro e gélido como cu de foca há algo de maternal. Ela me pegou no colo e cantou uma musiquinha sado-masoquista para mim. Adormeci olhando para os olhos febris dela.

Acordei com algo me cutucando.

Vaca mentirosa. A Carol tinha trazido o Febrônio.

Ela gritava, ensandecida:

“Tu é viado, Galvão! Tu é viado, Galvão!”

A Tata chegou.

“Meu Deus, o que é isso?”

Respirei aliviado. A Tata ia me salvar.

Mas ela deu um mergulho cinematográfico e começou a dar tapas no chão, cara colada com a minha, como se estivesse em um tatame:

“Finaliza, Carol! Finaliza!”

Felizmente o primeiro grito da Tata tinha distraído a Carol. Consegui me desvencilhar, levantei e corri. Saí porta afora desci as escadas corri a Nossa Senhora de Copacabana corri a Princesa Isabel corri Botafogo considerei entrar no Pinel corri o Flamengo corri a Senador Vergueiro caralho eu sou só um paraíba eu sou só um paraíba foi para isso que eu viajei tanto meu Deus puta que pariu puta que pariu. Ali pelo Garota do Flamengo dei uma parada, precisava respirar, queria chegar no Planalto do Chopp com um mínimo de dignidade; mas aí alguma vagabunda gritou “Rafael!” — merda de cidade cheia de Rafaéis — e o pânico voltou e eu corri até a mesa do Alex e do Bia.

A Tata e a Carol iriam chegar logo mais. Fui sentar perto do Alex, achando que ele, grande e gordo, me protegeria daquela maníaca. Então lembrei da visão de ontem, lembrei do Alex babando o pé da Umpa-lumpa, e o terror voltou e fui sentar ao lado do Bia. Ele é magrinho e mirrado e tem lá uma cara de Mister Magoo, mas ainda parecia, àquela altura, o mais normal daquele grupo. A escolha do Planalto do Chopp, aliás, foi mais uma das maluquices do Bia, porque bem em frente estava o Devassa, muito mais interessante; mas as vozes na sua cabeça disseram que ali se faz a melhor pizza do Rio e que seus pecados seriam remidos se ele comesse uma pizza maluca e salgada, cheia de aliche.

A Carol e a Tata chegaram. A Tata trazia cabelos molhados. A Carol também. O Bia e o Alex se entreolharam com caras de adolescentes e seguraram risinhos. Eu, ainda sob o peso das lembranças de minutos atrás, abaixei a cabeça. A vergonha e o terror me consumiam.

Sei lá por quê, começamos a discutir a razão pela qual escrevíamos blogs. O Bia, que é zen, disse que escrevia porque a gente encheu o saco dele para montar um. O Alex, que é escritor, disse que aquela era uma ferramenta de divulgação do seu trabalho. E eu, que não tinha nenhuma dessas desculpas nobres para dar e tenho vergonha de mentir, tive que assumir que fazia um blog apenas para ser elogiado, mas que as coisas andavam meio chatas porque um bando de filhos da puta aparecia o tempo todo para me aporrinhar.

O Bia então disse que eu era mais bonito pessoalmente e menos chatão que pelo MSN. O Bia disse que eu era quase lindo. Eu fiquei lisonjeado, mas só até o momento em que ele decidiu me patolar. Tudo aquilo era só mais uma cantada biajônica. Os danados dos comprimidinhos ainda faziam efeito. Não se pode mesmo confiar nesses homens, eles só querem uma coisa da gente. Animais.

A partir desse momento fiquei em pé.

De repente a Carol decidiu que era hora de ir embora. Mas ela estava vestindo apenas aquele short minúsculo, e não queria voltar daquele jeito. Achei que ela ia ficar.

Eu devo ser muito idiota para achar que isso impediria a Ninfeta do Demônio de fazer qualquer coisa. Ela abriu os zoião e ficou de butuca em quem entrava no banheiro feminino.

De repente ela se levantou e foi até lá. Uns sons esquisitos vieram do banheiro, um grito de terror genuíno, e logo depois saiu a Carol vestindo uma calça da Gang novinha em folha. Fiquei muito curioso acerca dos métodos de persuasão que a Carol usa. Aí lembrei do Febrônio.

Ela me deu um último olhar sinistro e foi embora.

Enquanto uns garotos tocavam violão na porta do Planalto o Bia decidiu ir embora para o sertão em que mora. O Alex o levaria até a rodoviária e eu deixaria a Tata em casa.

Parei em frente ao edifício da Tata e, mesmo com um maluco jogando beisebol no meio da Barata Ribeiro sem taco, sem luva, sem bola e sem ninguém, juntei coragem e tentei passar a mão na sua bunda. O murro que levei no meio das fuças e que fez meus óculos voarem longe deu a entender, sutilmente, que eu não deveria fazer aquilo. Mas a Tata endurece sem perder a ternura jamais, e me deu um beijo de boa noite e subiu.

Quando ia entrando no carro, disposto a voltar para casa e finalmente dormir um pouco, eu a vi.

Ela estava atrás de uma pilastra. Eram dois olhos azuis enormes, vidrados. Os cabelos ruivos refletiam a luz dos postes e davam um ar demoníaco ao travesti gigantesco. Sua boca, que momentos antes me fazia imaginar delícias dignas de paraíso muçulmano, sorria em um esgar diabólico.

De suas mãos pendia o Febrônio.

Corri para o carro, tranquei as portas. A Ninfeta do Demônio pulou sobre o capô, gritando “Galvão, tu é viado! Galvão, tu é viado!”. Dei marcha a ré, ela caiu. Tentei passar por cima dela, a desgraçada se esquivou. Dei um cavalo de pau e desci a Barata Ribeiro na contramão, peguei a Nossa Senhora de Copacabana.

Quando dobrei a Princesa Isabel, olhei pelo retrovisor.

E lá estava ela.

Eu já sabia para que serviam aqueles joelhos: para me estourar o saco. Agora sabia para que serviam aqueles pernões: para correr atrás de mim com o Febrônio na mão. No túnel, sua voz ecoava mais forte que os motores dos carros: “Galvão, tu é viado! Galvão, tu é viado!”.

Não sei quantos quilômetros separam Copacabana do Galeão. Não sei como o motor do carro não fundiu, ou como não sobrei em uma curva da Perimetral; mas eu consegui chegar ao aeroporto, sabendo que a Ninfeta do Demônio estava atrás de mim. Ao longe eu a ouvia gritando: “Galvão, tu é viado! Galvão, tu é viado!”

Estou agora na sala de embarque, Querido Diário. A Ninfeta do Demônio está lá fora. Conseguiu passar pelo raio X porque a arma letal que carrega é de couro. Ouvi sons de luta, por um breve instante tive esperanças, mas ainda ouço os ecos de seus gritos e imagino corpos mutilados espalhados pelo corredor. O chão treme com os socos que ela dá na porta de vidro. Não sei quanto tempo a porta vai agüentar. Ouço sirenes, mas eles não vão chegar a tempo. O monitor diz “embarque imediato”, o avião já pousou, e conto cada segundo até que o portão para a sanfona se abra. Eu tenho uma chance. Estou ajoelhado. Rezo. Reze por mim também, Querido Diár

Cabra marcado para morrer

Aracaju é uma cidade pequena.

Cidade de muro baixo, como se diz por aqui. Tudo se sabe, tudo se vê.

É por isso que, se algum dia aquele paraibano aparecer por aqui, eu vou ficar sabendo.

E então Ismael Grilo vai ter que correr por sua vida.

Os comedores de criancinhas

A Igreja Católica americana, no início dos anos 60, publicou uma revistinha em quadrinhos destinada a alertar os Estados Unidos — que àquela altura estavam, ela acreditava, à beira de uma revolução socialista — dos perigos do marxismo.

O mais interessante são as conclusões a que a Igreja chega. Porque Hegel rompe com a tradição idealista platônica, e percebe o básico dos básicos — que novas idéias são produto de um processo dialético –, a revista coloca duas frases brilhantes nas bocas dos alunos.

Marx, o segundo aluno a partir da esquerda, se identifica com Hegel (e depois viraria seu pensamento de cabeça para baixo, mas isso é outra história) porque essa conclusão significa que Hegel não acredita em livre arbítrio. E o papa-hóstias renitentemente ignorante, por coincidência na extrema direita, contrapõe logo a brilhante explicação católica, decorada na escola dominical.

Investidas sobre Marx, principalmente primárias como essa, são aceitáveis a esta altura. Já são tão comuns que não surpreendem mais. Mas os sujeitos atacavam até o velho Hegel.

Obscurantismo, ignorância e má-fé são as únicas expressões que consigo associar a essa revistinha.

O link está aqui, neste post do Boing Boing.

Cheia de graça

Poeminha de Bertolt Brecht, em tradução de Aires Graça.

Fosse eu a escrever isso — reclamaram tanto de uma bobagem, de eventuais usos heteredoxos que eu daria à combinação de crucifixo e bunda de freira — e me crucificavam.

MARIA SEJAS LOUVADA

Maria sejas louvada
Como és tão apertada
Uma virgindade assim
É coisa demais p’ra mim.

Seja como for o sémen
Sempre o derramo expedito:
Ao fim dum tempo infinito
Muito antes do amen.

Maria sejas louvada
Tua virgindade encruada
‘Inda me pões fora de mim.
Porque és tão fiel assim?

Por que devo eu, que dialho
Só porque esperaste tanto
Logo eu, o teu encanto
Em vez doutro ter trabalho?

A adorável Mrs. Miller

Confesso que torço o nariz diante de covers de canções dos Beatles.

Eles não eram apenas bons compositores. Eram também uma grande pequena banda, como Lennon costumava dizer. Eram grandes intérpretes, e essa é uma das razões para sua permanência.

Há muito poucas de que gosto. Ray Charles cantando Eleanor Rigby, os Skatalites tocando I Should Have Known Better, pouca coisa. Por exemplo, nao há nada mais tétrico do Elvis cantando Hey Jude. Talvez as versões em português sejam piores, é verdade.

Mas de vez em quando aparece algo fantástico, algo que me impressiona a ponto de praticamente me fazer esquecer as versões originais.

Como esta versão de Mrs. Miller cantando A Hard Day’s Night.

Dois trechos de um mesmo livro

Trecho do início de “Cultura da Reclamação — O Desgaste da América”, livrinho simpático de Robert Hughes e que há tempos merecia uma releitura:

Enquanto isso, a nova ortodoxia feminista abandona a imagem da mulher independente, existencialmente responsável, em favor da mulher como vítima desamparada da opressão masculina — tratem-na como igual perante a lei, e estarão agravando sua vitimização. Os conservadores se deliciam lançando seus argumentos nos mesmos termos de vitimologia, com a diferença de que, para eles, o que produz vítimas é o próprio feminismo, em conluio com o falo oportunista. Em Enemies of Eros (1990), a escritora antifeminista Maggie Gallagher afirma que “o homem explora a mulher toda vez que usa o corpo dela para o prazer sexual sem que esteja disposto a aceitar todo o fardo da paternidade”. Ela “pode consentir plenamente, conscientemente, entusiasticamente com sua exploração. Isso não modifica a natureza da transação”. Quase exatamente a mesma opinião da feminista Andrea Dworkin — sexo entre homem e mulher é sempre estupro. “Durante a relação sexual, a mulher é, fisicamente”, escreve essa extremista, “um espaço invadido, um território literal ocupado literalmente; ocupado mesmo que não tenha havido resistência; mesmo que a mulher ocupada diga: ‘Sim, por favor, sim, vamos logo, sim, mais’.” Essas visões grotescamente ampliadas de ataque criminoso reduzem as muheres a vítimas sem vontade própria, privadas do poder tanto de consentir quanto de negar, meras bonecas jogadas de um lado para outro aos ventos ideológicos do extremismo feminista. “Encarar o ‘sim’ como sinal de verdadeiro consentimento”, escreveu a professora da Faculdade de Direito de Harvard, Susan Estrich, “é enganoso”. Tudo é estupro até prova em contrário.

No fim das contas, quem entende dessas coisas de ocupação é a Bette Midler. Ela dizia que se casou com um alemão. Toda noite ela se fantasiava de Polônia e o sujeito a invadia. Acho que ela era mais feliz.

***

Outros dois trechos, porque essa maluquice pseudo-feminista me lembra outra, bastante assemelhada:

O inválido levanta-se de sua cadeira, ou sente-se melhor estando pregado nela, porque alguém no governo Carter decidiu que, para fins oficiais, ele era “fisicamente prejudicado”? O homossexual acredita que os outros o amem mais ou odeiem menos porque é chamado de “gay” — termo revivido da gíria criminal inglesa do século XVIII, que implicava prostituição ou viver de expedientes? O ganho líquido é que os arruaceiros que antes davam porrada nos homossexuais hoje dão porrada nos gays.

(…)

Há setenta anos, no uso polido dos brancos, os negros eram chamado de colored people. Depois tornaram-se negroes. Em seguida, blacks. Hoje African-Americans ou persons of color de novo. Mas para milhões de americanos brancos, desde a época de George Wallace até a de David Duke, eles continuam sendo niggers.

Palavras, palavras…

Wonka

Mês passado fui assistir a “Charlie e a Fantástica Fábrica de Chocolates”.

Os primeiros 15 minutos do filme são excelentes. A cenografia, típica dos filmes de Burton, é muito boa, e chega a lembrar “Edward Mãos de Tesoura” (a cena de Wonka com a tesoura certamente é uma referência). A casa inclinada da família Bucket também é uma grande sacada — provavelmente a segunda melhor do filme. Finalmente, a idéia de usar o mesmo ator como todos os Oompa Loompas é absolutamente genial.

Mas — e tudo o que a gente diz antes de um “mas” não importa — aqui acabam os méritos desse filme.

Seus valores de produção são, claro, muito superiores aos do filme original, feitos há quase 35 anos. A direção de arte é perfeita. Mas isso não é suficiente para compensar uma série de deficiências do filme, algumas visíveis por si sós, outras claras em comparação ao original.

Talvez a maior ironia do filme tenha sido o tratamento dado a Charlie Bucket. O filme original se chamava Willy Wonka and the Chocolate Factory; o novo se chama troca o nome de Wonka pelo de Charlie — mas neste filme o personagem perde importância, sua passagem pela fábrica é insignificante. O processo que leva Charlie à fábrica é contado mais rapidamente, e com isso perdemos muito da compreensão do personagem. Essa é a tônica durante todo o filme: Charlie é apenas um transeunte em um filme que não é mais o seu.

E então aparece Willy Wonka.

Há mais de um ano eu me perguntava o que iam fazer com um filme que, afinal, foi adorado por crianças durante mais de três décadas. Meu medo era o de que fizessem de Willy Wonka um louco óbvio. Porque por melhor ator que seja Johnny Depp, não há ninguém capaz de interpretar com a sutileza necessária as mais variadas nuances de loucura como Gene Wilder. Se alguém tem dúvida, assista a “Tudo o Que Você Queria Saber Sobre Sexo Mas Não Tinha a Quem Perguntar”, de Woody Allen.

Mas eu não precisava ter medo. Burton e Depp não fizeram de Wonka um louco óbvio. Fizeram dele um imbecil.

O novo Willy Wonka é um sujeito com a cara do Steven Tyler sob muita maquiagem e a psique do Michael Jackson em Neverland Ranch. É de se perguntar como um idiota daqueles conseguiu construir um império. Porque aquele sujeito perturbado, incapaz de pronunciar a palavra “pai”, no mundo real só poderia almejar a uma cela acolchoada. Willy Wonka é, talvez, a maior decepção do filme, embora não pelos motivos que eu esperava.

Decepcionante também é a trilha sonora. Danny Elfman está se tornando uma espécie de John Williams: todas as suas trilhas são basicamente variações de uma só. E assim como eu costumo confundir os temas de Superman, Indiana Jones e Star Wars, para mim todas as trilhas de Elfman são a mesma coisa.

Curiosamente, é nas canções que ele deixa o bastão cair de verdade, contrariando a expectativa do sempre generoso Bia Jones, que lembrou o histórico pop do sujeito. Quem viu o original certamente lembra da Oompa Loompa Song. Mas as novas canções, embora mais bem elaboradas, perderam todo o apelo. Ninguém se lembra delas assim que sai do cinema.

Segundo suas próprias declarações, John August, roteirista da nova versão, nunca tinha assistido ao filme original. Depois de terminar o roteiro assistiu — e ficou surpreso ao ver o quanto o filme original era mais “sombrio” em relação ao seu. Mesmo com acréscimos desnecessários, como a infância de Wonka, o original continuava assustando mais.

Mas eu não diria que ele é mais sombrio. Eu diria que o filme original é mais denso, apenas, e melhor construído. É um filme, não um passeio vazio por uma fábrica surreal. A versão de Burton perdeu densidade psicológica, e mesmo o roteiro acrescentou falhas sem tirar as do filme original. O pai de Charlie Buckett, por exemplo — afinal, o que ele faz no filme, além de tirar parte da justificativa para a miséria em que a família vive? E o avô de Charlie — na hora que vê o ingresso salta da cama e começa a dançar uma espécie de hornpipe; quer dizer que o entrevado estava só fingindo, dividindo uma cama com mais 3 macróbios e se contentando com sopa de repolho? Seu personagem não tem um décimo do carisma do original, e com isso o filme perde muito.

Em hipótese alguma o acréscimo do pai de Charlie à história poderia compensar a retirada do sr. Slugworth. No filme original, a proposta escusa de Slugworth é o que faz, em última análise, Charlie herdar a fábrica: é a honestidade de Charlie apesar de todas as adversidades que o faz superar todos os outros, não sua mera sobrevivência ao passeio.

Nesta versão, no entanto, tudo o que aquele pobre coitado (interpretado galhardamente por Freddie Highmore) tem que fazer é ficar quieto e não ser uma menina rica mimada, um glutão com sérios problemas de obesidade infantil para compensar sua vida germânica vazia, um vidiota que não consegue canalizar sua agressividade para algo útil ou uma menina hiper-competitiva que só pode almejar na vida uns 3 campeonatos e 10 anos de análise xingando sua mãe a 100 dólares por sessão. Basta não fazer nada, e não ser eliminado naquele “No Limite Para Hipoglicêmicos”. Só isso. Não há lição a ser aprendida aí, a não ser o contrário do que se pretendia no original: seja atrozmente medíocre e vossa será a Fantástica Fábrica de Chocolates.

Da superioridade filosófica dos baianos

Todo dia eu acompanho o blog da Lucia Malla. Dia desses li a entrevista que ela fez com o montanhista Waldemar Niclevicz, brasileiro que chegou ao cume do Everest.

Eu acho lindo que as pessoas façam isso. Não chego a vibrar como a Lu por cada alpinista que chega ao cume de alguma coisa, por cada sujeito que vence suas próprias limitações e chega ao teto do mundo. Mas reconheço a vitória humana nessas conquistas.

O problema é que apesar disso eu e a Lu temos sérias divergências filosóficas. Que podem ser exemplificadas em uma constatação muito simples.

Ninguém jamais ouviu falar de um baiano que tenha escalado o Everest.

Porque o Everest é a antítese da baianidade. O que a gente iria fazer ali? A idéia nos é inconcebível. Um lugar com sol, mas com um vento tão desgraçado que não dá para aproveitar. Um pedregulho sem praia. Um frio daqueles que lhe corta os ossos e arranca seus dedos. É um frio que arrebenta seus lábios, e nós baianos achamos que lábios devem estar sempre prontos para beijar.

A gente gosta é de brisa, não de ventos de 150 km/h. E por que subir aquele morro, se seria impossível plantar ali dois coqueiros para armar uma rede e tomar água de coco?

Um demente respondeu, quando lhe perguntaram por que escalar o Everest: “Porque ele está lá”. Sir George Mallory, claro, não era baiano. Era inglês e tinha aquela fleuma esnobe meio destacada da realidade prática. Porque, se Sir Mallory fosse baiano, responderia: “Então deixe o bichinho em paz, que ele não tá incomodando ninguém…”

Mas, como eu disse, Sir Mallory não era baiano, e se fosse não seria sir nem Mallory; seria Jorginho, filho de Oxóssi e chegado nas delícias, nos meneios e nos cafunés de uma cabo verde; e saberia que tudo isso é tão efêmero quanto subir um morro anabolizado, mas há efêmeros e efêmeros, e o efêmero do esforço sem sentido não é tão bom quanto o efêmero das coisas boas da vida.

Volta, vem viver outra vez ao meu lado

Acabaram-se as reprises. Agora só no ano que vem.

Quando este post for publicado eu estarei no Rio. Na verdade, no exato momento em que este post vier à tona eu deverei estar no Amarelinho, contando mentiras, aprendendo com o Mauro, escondendo meu pé do Alex, discutindo com o Quacre Punk, um filho da mãe que nunca concorda comigo, declarando meu amor eterno à Tata e tentando passar a mão na bunda da Ninfeta do Demônio — se a desgraçada não der o cano, coisa que ela costuma fazer.

Também espero que o XXX BBB — Trigésimo Batalhão de Balzacas Bufantes — não resolva me encher de porrada justamente em um momento de alegria e confraternização, ou que os Astrólogos de Maria resolver realizar um tribunal de inquisição, ou que os amantes de animais nao joguem tinta na minha cara, ou… Ah, esquece.

Durante as férias eu fiz algumas mudanças no blog. Agora o index.rdf contém posts completos, também. E há um novo feed, apenas para os comentários.

Comédia vocabular

Palavras são como pessoas. Algumas têm origem nobre e acabam na lama; outras, vindas do nada, conquistam sua ascensão lentamente, pela persistência e pela determinação.

Como acontece às pessoas, é tão fácil esquecer suas origens. É fácil, por exemplo, esquecer que esculhambação, palavra se não nobre com livre trânsito no Country, é aquilo que sai dos colhões. Das alcovas, de contratos escusos feitos em casas de má fama, a palavra conseguiu limpar sua origem e adentrou os salões graças ao seu talento pessoal, à sua sonoridade, ao seu aplomb.

Enquanto isso sua irmã, coitada, desenxabida e sem tantas graças, continua desprezada. A porra continua aí, pelos cantos. Mas se não tem brilho tem vontade férrea, velha maquiavélica e calculista que veste minissaia e continua a beijar a boca dos meninos ansiosos por se tornarem homens. A porra sabe que seu dia chegará, e então poderá beijar livremente, e mesmo recusar pretendentes com coquetismo e brejeirice de menina.

É com essa porra que a porrada tenta negar qualquer parentesco, explicando sempre que sua origem está em uma velha clava com ponta redonda e reforço de ferro; e assim a porrada tenta mistificar a todos, tenta se dar uma origem nobre que não tem porque sua família vem do mesmo degredado que engendrou a porra, o alho-porro. Mulata de gingado macio e navalha escondida nas dobras do vestido, a porrada bem que preferia poder dizer que de alguma forma é gêmea da esculhambação, com quem sente ter muitas afinidades, mas sabe que suas mães são diferentes.

Algumas palavras levam a vida imutável do interior, debruçadas na janela, vendo a vida passar com a tranqüilidade de quem se sabe permanente. Xibiu (ou xibio, na versão que começa a ser dicionarizada) é provavelmente uma palavra índia, dos tempos heróicos dos bandeirantes, e ainda hoje dá nome às mesmas duas coisas: um diamante pequeno e “a vulva”, como sempre dizem os dicionários; vulva, para quem não sabe, é o pseudônimo da boceta. Tão belo substantivo, amado ainda nas ladeiras da cidade da Bahia, ciosa de suas origens e de sua cultura — substantivo que no fundo continua a significar a mesma coisa, porque um e outra têm o mesmo valor para alguns.

Sorte diversa teve o viado perdido em lembranças de tempos de respeitabilidade, em que era apenas um tecido de lã riscado. Ainda hoje tenta salvar o que acha ser a tradição honrada de sua história dos amantes que conquistaram o direito de ousar dizer seu nome. O viado pertence a outros tempos, tempos de uma elegância e hipocrisia que a vida moderna destruiu, e ainda não percebeu que eles só continuam a existir em sua memória.

Ou aquele caralho — caralhete, se pequeno, tímido e envergonhado diante do xibiu glorioso lavando roupa nas águas escuras da Lagoa do Abaeté — nascido como estaca, palavra de bem, que se majestade não tinha podia ostentar a honra do trabalho duro, e que agora se esconde em cuecas sob as calças, reticente em se mostrar como velha senhora de beleza esvaecida, escondida em seu quarto escuro para que ninguém veja a ruína corrugada em que o tempo a transformou.

A vida das palavras traz histórias tristes como a da puta e sua trajetória de decadência e humilhação. Em terras d’El Rei era apenas uma menina de venerável família romana, mas ao transpor o Equador em busca de vida nova seguiu caminhos tortuosos de degradação. Hoje a puta está lá, nas praças, nos bordéis, seu rosto antes infantil agora maculado pela maquiagem excessiva; ela já não se lembra de tempos diferentes e doces em que era inocente e pueril.

Palavras são como pessoas, e dicionaristas são meros recenseadores de estreitos horizontes; para contar a sua história é preciso um Balzac que invente todo um mundo em que se conte a saga de cada uma delas e sua convivência umas com as outras. Palavras, como pessoas, só existem dentro de sua sociedade, com suas grandezas e suas mesquinharias. Um dia alguém ainda vai escrever a Comédia Humana das palavras, a história de sua ascensão e de sua queda.

Originalmente publicado em 23 de abril de 2004.