Na sacristia

Do Zapping, coluna de hoje na Folha de S. Paulo:

Namoro na TV

O “Superpop”, da Rede TV!, se superou anteontem. Levaram uma menina no palco, ao vivo, para se declarar apaixonada por um padre.

Enganação

O padre, coitado, ficou passado. Disse que a produção não o havia avisado de nada. Falaram a ele que iriam debater outro assunto. A produção do “Superpop” foi procurada, mas não respondeu nada até o fechamento da coluna.

O padre pode processar a emissora e garantir um dinheirinho para as obras paroquiais.

O único problema vai ser explicar aos garotinhos que ele não ama a moça, que aquilo foi só uma aventura, que ele gosta mesmo é deles.

Diário de Berlim

Meio por acaso, me bati com o “Diário de Berlim”, livro de William Shirer, autor de um dos maiores clássicos sobre a II Guerra Mundial, “Ascensão e Queda do III Reich”.

O livro não está mais em catálogo no Brasil. Não dá para saber que edição é essa: apenas que a editora foi a Record e que quando ele foi lançado a Guanabara ainda existia.

“Diário de Berlim” conta a experiência de Shirer como correspondente estrangeiro em Berlim. Obviamente não pode oferecer uma visão ampla das coisas, em uma época em que a censura era quase absoluta, em que o Voelkische Beobachter, o jornal de Hitler, publicava notícias que pareciam saídas do Planeta Diário e em que todos os países diziam mentiras atrás de mentiras sobre seus inimigos.

Mas, em compensação, dá algo que os livros de história costumam perder: o frescor da notícia recente, o estupor diante da evolução dos fatos. As análises e previsões feitas, mesmo quando equivocadas, dão uma idéia clara e precisa de como se pensava naquela época. O livro ajuda a entender melhor a II Guerra Mundial, e principalmente o nazismo, porque oferece uma sensação de humanidade que a peripécia e a análise fria costumam expulsar dos livros de história.

“Diário de Berlim” ajuda a colocar algumas coisas em perspectiva. A atitude covarde da Inglaterra de Chamberlain é bem lembrada, e a figura de Churchill, solitário em suas denúncias de Hitler antes de quaisquer outros, cresce assustadoramente — assim como a de Roosevelt nos Estados Unidos, embora de maneira menos clara.

Nesse aspecto, o que realmente impressiona quando mostrada assim, a quente, é a indignidade da postura francesa. Não há explicação para a maneira covarde como a França reagiu diante de Hitler, nem mesmo a decadência da III República. Até quando a Alemanha invadiu a Polônia e as intenções alemãs já eram mais que claras, a França ainda insistia na paz. A única coisa decente que a França fez, em meio a sua tibieza, foi declarar Paris cidade aberta quando as tropas alemãs marcharam em direção a ela. Podem não ter mantido sua dignidade, mas pelo menos preservaram a melhor cidade do mundo.

À medida que o diário vai sendo escrito, a história vai acontecendo. A tomada da Renânia, o Anchluss da Áustria, a Tchecoslováquia entregue por Daladier e Chamberlain. O livro mostra que a data de 1o de setembro de 1939 só é lembrada como o início da II Guerra Mundial porque foi quando a Inglaterra e a França declararam guerra à Alemanha. Mas demoraria ainda mais de 8 meses até os três países entrarem de fato em guerra, com ataques a seus respectivos solos; enquanto isso Hitler ia tomando a Dinamarca, a Noruega, o Benelux.

O livro mostra também o impacto do pacto Ribbentrop-Molotov, primeira parte de uma estratégia acertada de Hitler — o segundo viria a ser o Pacto Tripartite, feito para intimidar os Estados Unidos mas que acabaria justificando sua entrada na guerra na Europa. Se a Europa vinha permitindo o crescimento militar de Hitler, é porque tinha mais medo de Stalin do que do nazismo; de repente, sem que ninguém esperasse — e depois de várias tentativas de acordo entre Stalin e a Europa não-nazista — a União Soviética era deixada em paz por Hitler. Foi uma medida pragmática de Stalin; mas nem por isso aqueles que tinham lutado ao lado dos legalistas na Espanha conseguiram engolir ou compreender a atitude.

É no retrato do dia-a-dia alemão, entretanto, que está o melhor do livro. Shirer mostra como os alemães se prepararam para a guerra, vivendo numa pobreza e privações incompatíveis com o resto da Europa enquanto Hitler, em menos de dez anos, criava a mais fantástica máquina de guerra que o mundo já tinha visto.

Lendo “Diário de Berlim”, uma coisa fica clara. Claro que a esmagadora maioria dos alemães não era nazista. Mas quase todos, de modo geral, apoiavam Hitler. Aqui se confundem vários elementos, cada um importante na formação do fenômeno nazista. Um deles é sentimento de revanche depois da humilhação em Versalhes. Durante décadas, os alemães tentaram negar sua herança dizendo que foram vítimas de Hitler; o que transparece deste livro é outra coisa, é a aclamação de um grande líder, o apoio popular esmagador. Mesmo depois que as Leis de Nuremberg começaram a ser postas em ação, os alemães ainda apoiavam Hitler.

Nesse ponto o livro deixa ainda mais clara uma coisa óbvia, que vários revisionistas tentam ocultar: o anti-semitismo foi o elemento catalizador na imagem dos nazistas. Shirer mostra uma série de bons retratos de “traidores”, gente que aderiu ao nazismo e se mudou para a Alemanha. São pessoas de origens e formações diferentes. Mas todos têm um mesmo elemento em comum: o ódio aos judeus. Isso reforça a tese que Daniel Goldhagen defende em “Os Carrascos Voluntários de Hitler” e que tanta gente, até hoje, tenta desmentir.

Mas eles não eram apenas anti-semitas. De vez em quando tem-se a impressão de que eles eram anti-qualquer coisa que não fosse germânica. É um sintoma do famoso hegemonismo alemão, que ali ganhava as cores feias da eugenia, como no caso da política de Gnadenstoss, golpe de misericórdia, aplicado nos deficientes mentais alemães. Se em algum momento da História mundial um povo esteve pronto para a guerra, esse povo foi o alemão, por menos que a quisesse.

Um diálogo de Shirer com uma camareira ilustra bem esse sentimento alemão:

— Por que motivo os franceses nos guerreiam? — perguntou ela.
— Por que motivo vocês guerreiam os poloneses? — perguntei também.
— Hum — disse ela — mas os franceses são seres humanos.
— E os poloneses talvez sejam também — retruquei.
— Hum — voltou a fazer outro muxoxo.

Mas mesmo anti-semitas, anti-eslavos e anti quase qualquer coisa, mesmo apoiando Hitler, os alemães não queriam a guerra. Shirer compara a ida das tropas alemãs aos fronts da Primeira Guerra — em que os soldados marchavam sob pétalas de flores — com o silêncio e apreensão demonstrada pelos alemães diante dos desfiles de suas tropas em 1939.

O livro termina em dezembro de 1940. Antes do vôo de Hess, da invasão da União Soviética, de Pearl Harbor. Publicado em 1941, e podendo ser considerado parte da pressão doméstica para que os Estados Unidos entrassem na guerra, não se pretende um documento definitivo e não nega o seu caráter profundamente partidário; mas é provavelmente aí que está sua força e o seu interesse. É um grande livro, e vale a pena ser lido.

Esses pequenos consolos da vida

O post, um dos primeiros deste blog, era este:

À la Clinton

Neste exato momento, 6 milhões de pessoas estão fazendo sexo em todo o mundo.

Os outros 6 bilhões e esta pobre alma que vos escreve estão frustrados, imaginando por que o mundo é tão cruel.

Ou, para escrever de maneira mais lírica: neste exato momento 6 bilhões de pessoas em todo o mundo chupam o dedo. 6 milhões chupam outra coisa.

O comentário que apareceu nele ontem foi este:

IP Address: 200.131.62.7
Name: ANtônio
Email Address: aror80@hotmail.com

Comment:

Antes de falar mal dos outros lugares seu ignorante, por que você não olha para a sua cidade? Qual é mesmo a sua cidade? Deve ser um babaca do sudeste americanizado ou se achando europeu, quando na verdade deveria valorizar o que tem de seu. Por isso, babaca ignorante, prefiro morar e ser de um lugar, considerado por você o cu do mundo, coisa que não é, do que morar no mesmo local de um imbecil como você.

Antônio

Eu não entendi nada. Tive que pensar um pouco até ver que o comentário provavelmente tinha sido colocado no post errado, e que por perto devia haver algum que deixasse o Tonho com tanta raiva de mim.

Havia dois. Um falando mal de Aracaju, outro falando mal do Ceará. Investigar o IP não ajudou em nada, ele acessa pela RNP. Continuo sem saber onde Tonho mora.

Mas as vozes na minha cabeça me dizem que o sujeito é de Aracaju. E, por piedade, eu não vou contar a ele que moro na mesma cidade. Porque, coitado, ele já tem tão pouco de que se orgulhar; lhe tirar esse consolo de morar longe de mim é algo que eu não faria, por toda a doçura que mamãe me deu.

Do que as mulheres gostam

Foi a Carol que passou o link. SeteZoom, uma dessas brincadeirinhas que chamam de “inteligência artificial”.

Esses trecos são bons para a gente ver até onde vai a capacidade dos programadores. E assim eu comecei a testar o brinquedinho. Outro jeito, encontrado pela Mônica, foi o de fazer perguntas usando palavras difíceis: idiossincrasia, ensimesmado, sorumbático, ontologia.

Ela devia estar esperando um grosso meio tarado para falar de sacanagem, já devia ter as respostas na ponta da língua, ou seja lá o que linhas de código têm.

Mas eu sou só um paraíba.

***

SeteZoom: Ola, Sete teclando com fome! Sobre o que quer conversar?

Você: Kant.

SeteZoom: Emanuel? Filósofo alemão.

Você: Não, sua puta, é que tá kant hoje.

SeteZoom: Discordo!

Você: Vai discordar na puta que pariu que eu nao te pago pra isso!

SeteZoom: Parar por que?FOI DIVERTIDO Nem te conto!

Você: Tu é maluca?

SeteZoom: Louca, eu!? Fora meu terapeuta, você é o única pessoa que acha isso.

Você: Tu só anda com anta, hein?

SeteZoom: Hein o que?? Desculpa se me atrapalhei..

Você: Desculpa porra nenhuma. Você é burra, mesmo.

SeteZoom: Tá bom, te perdou. Mas não pise na bola de novo!

Você: Quem tá pedindo perdão, sua vaca?

SeteZoom: Servidor não disponível no momento.

***

Eu venci. Eu sei do que as mulheres gostam.

As saias da Darlene

O que é moda no Rio vira moda no resto do Brasil. As saias de puta suburbana da Darlene, em “Celebridade”, viraram coqueluche no país inteiro. A amplificação que a TV dá a “novas tendências” faz com que as pessoas percam seu senso crítico, porque moda não tem a ver com vestir-se bem, e sim com a tendência demasiado humana de seguir ao lado do rebanho.

Mas este país tem uma riqueza absurda.

No final de julho estava no aeroporto de Salvador, numa das minhas passagens-relâmpago pela cidade que forçam amigos a rodar quilômetros para uma ou duas horas de conversa fiada e implicância. Tomava um café com a Cipy quando ela me apontou uma moça que passava. Usava um vestido laranja com motivos africanos, e Cipy deu o nome da estilista: Goya Lopes.

Se você não é baiano é provável que não faça idéia de quem seja ela. Mas na Bahia ela é famosa, seus vestidos vendem, e ajudam a criar uma estética regional própria, que independe da força de marketing de veículos de massa nacionais como a Rede Globo.

Durante muito tempo, mesmo depois de ter sido expulso do eixo político-econômico do país, o Rio ainda foi a caixa de ressonância da cultura brasileira. Para acontecer no país, era preciso acontecer no Rio de Janeiro. Para que o Brasil conhecesse Dorival Caymmi ou Ednardo, eles tinham que ir para o Rio. Continuassem na Bahia ou no Ceará e ninguém saberia que é doce morrer no mar, ou ninguém perderia Maria Helena para o dentista enquanto engomava a calça.

As coisas, no entanto, estão mudando.

Há alguns anos, passando por aquela favela logo depois daquela entradinha que liga a Av. Brasil à Linha Vermelha, eu vi um cartaz ou outdoor anunciando um show da banda Calcinha Preta.

Se você não é nordestino ou não mora mal, dificilmente ouviu falar da Calcinha Preta. É uma banda sergipana de forró, esse forró brega que começou com o Mastruz com Leite no Ceará e está destruindo a tradição musical nordestina, talvez a mais rica do país. Como ela existem dezenas de outras. E elas cresceram sem precisar da Globo ou da Veja, se firmaram em suas cidades, em seus Estados, e se espalham. Encantados com suas modinhas passageiras de verão, o centro do país não vê o que acontece.

Não se discute aqui a qualidade musical dessas bandas. Elas são ruins. Pior: são deletérias e nocivas. Mas sào também um sintoma de que este é um país maduro o suficiente para permitir a descentralização cultural.

Em tudo isso há uma coisa boa. Talvez um dia o país deixe de se tornar refém de modas artificiais. E a gente nunca mais vai ter que ver as pessoas usando as saias da Darlene.

Extra: Smart na BBC

O Smart Shade of Blue foi citado pela BBC de Londres como referência blogueira na discussão do caso do brasileiro assassinado pela polícia britânica.

É referência em outras questões, também.

A única coisa que a reportagem não descobriu foi o nome verdadeiro do Smart. Pois o Bia, que é jornalista — gonzo, mas jornalista –, descobriu.

Atenção, pessoal que lota as caixas de mensagens do Smart pra discussões infindáveis. Agora vocês já têm um nome para colocar na boca do sapo.

O nome do Smart é Adriano.

It's only rock and roll

Agora que eu já sei quem é o Achcarigudum, eu posso dar um opinião sobre tudo aquilo.

O mais engraçado foi o jeito como deram a alguns — principalmente ao “grupo” que, informalmente, se denomina Blogniks (because this is not writing, this is typewriting) — uma importância que nenhum de nós se dá.

O Achcarigudum fez o blog dele como uma pequena sacanagem, pelo visto, mais ou menos como eu chamo o Bia de viado e o Alex de tarado. Mas toda sacanagem tem um fundo de verdade, assim como o Bia é meio viado e o Alex é meio tarado. O Bia foi quem melhor compreendeu o espírito da coisa: colocou um link no blog dele para o Achcarigudum. O Alex levou na boa; eu, que não sabia direito o que era aquilo e ando correndo de briga, ainda mais quando se está numa posição confortabilíssima como a do Ach, preferi ficar quietinho no meu canto.

Alex era fã do Achcarigudum — e mais fã ainda dos bobos que cismaram que ele era o Ach — porque achava que ele era bom e engraçado. Eu não achava tão bom (é muito fácil detonar qualquer um; quem já tentou fazer um slogan sabe o que é isso), mas era mesmo engraçado, pelo menos quando não era em mim que ele batia. Só não perdôo o sujeito por dizer que Monicômio é um nome ruim. Esse eu não engulo até agora.

Mas ainda mais interessantes que o blog eram os comentários que ele despertou. De repente, o que ele fez como gozação se tornou sério para algumas pessoas. Teve gente que destilou antigas desavenças, outros detonaram alguém por terem conseguido o que tentaram e não ganharam. Eu, que fiz um blog para ser amado, como o Baby da Silva Sauro, acabei descobrindo que é uma delícia ser odiado.

Fora isso, o que mais me chamou a atenção foi a idéia de “linkania incestuosa”. É interessante, até verdadeira. Mas eu confesso: eu linko meus amigos. Eu sou só um paraíba; eu digo sempre, como Michael Corleone (aquele sujeito que o Ismael Grilo, ainda novinho, não consegue compreender em toda a sua grandeza), que tudo é pessoal. E não vejo sentido em linkar quem não gosta de mim. Além disso, esperar que gente que não vai com as minhas fuças ou que não gosta do que escrevo passe a me ler é uma das poucas coisas pretensiosas que eu não faço. É assim que as coisas são. Também acho absolutamente normal elogiar gente que não gosta das mesmas coisas que eu. Por exemplo, a Carol gosta do Pink Floyd, o Marcus, o Guto e a Mônica gostam do Radiohead, a Tata torce pelo Fluminense, o Bruno é vascaíno, a Cipy ensina produção textual, a Lu gosta de tubarões, o Idelber é um trotskista miserável, o Doni gostou do sanduíche do Cervantes. Eu não vejo graça em nada disso. Nem por isso eles deixam de ser grandes blogueiros, na minha opinião. E é esse pessoal que não consegue conviver com diferenças que reclama da gente.

Aliás, opinião é tudo nisso aqui. Só bobos esperam ver em um blog, principalmente notadamente ensaísticos como são quase todos no que o Smart chama de blogoseira, uma verdade absoluta, tipo “a água é molhada”. E mesmo quando reconhecem que isso aqui é apenas uma opinião, ainda acham que ela está aberta a discussão, o que nem sempre é verdade.

Por acaso eu tenho amigos brilhantes. Por acaso, as vezes em que nos encontramos dão relatos engraçados, como este, este e este. A mim isso basta; e ainda que soe elitista, é bom saber que podemos fazer isso em vez de apenas dizer “pô, o encontro bombou!”. É por isso que eu linkaria qualquer dos blogs no blogroll ao lado sem vergonha. No início eles eram linkados porque eram bons; hoje, também porque muitos deles se tornaram meus amigos.

A essa altura, a mim não interessa se a linkania incestuosa, como diz o Ach, é anterior ou posterior ao reconhecimento de amizades. Eu sempre disse que o Carreirasolo era uma das iniciativas mais notáveis no mundo dos blogs — mas agora prefiro conversar bobagem com o Mauro.

Talvez a razão de tudo isso seja muito simples. Talvez todos nós compreendamos uma coisa simples: que isso aqui são só blogs, e que se os levamos a sério — eu, pelo menos, levo; gosto muito de ser lido, mesmo quando não tenho o que dizer –, não perdemos de vista os limites. Não ganhamos a vida com isso. Eu, pelo menos, ainda não peguei mulher com isso (eventuais candidatas: por favor mandem e-mail, um breve currículo de preferências em saliência e fotos de corpo inteiro, se possível de biquíni asa-delta que eu sou um velho saudoso dos anos 80). O que um bocado de gente parece não comprender é que isso aqui é bobagem. But I like it.

Os filhos de Caim

Scrap deixado no meu orkut:

Fernanda: Querido amigo Rafael, como membro da Sociedade Brasileira de Urologia recebi as suas dúvidas, enviadas por E-mail, e é um prazer responde-lo:

1)Sim, 7 cm é considerado pequeno. Sugerimos processo cirúrgico.

2)Não, não é comum a camisinha ficar larga. Não existe tamanho PP, o tamanho é único.

3)Ainda que 7cm seja um tamanho muito pequeno, é possível a/o parceira(o) chegar ao orgasmo durante a relação sexual, portanto, se isso não ocorre nas suas relações, trata-se de uma grande falta de competência por sua parte.

4)Não, o senhor não pode fazer o exame do toque, é apenas para pessoas acima de 50 anos. Por favor não insista.

Obrigado pelo contato e sucesso!!!

Resposta necessária para evitar um fratricídio do qual eu seria certamente absolvido:

Rafael: Cara amiga Fernanda:

Só não te chamo de fiadaputa por razões muito óbvias.

Obrigado pela sacanagem, e vá à merda. 🙂

Caos e criação no quintal

Em setembro Paul McCartney lança seu novo disco, Chaos and Creation in the Back Yard (seis dias depois do lançamento do novo dos Stones, que o Brigatti, fingindo que coisas medonhas como Undercover, Dirty Work, Steel Wheels, Voodoo Lounge e Bridges to Babylon não existiram, ainda espera com ansiedade. Vida de fã é triste. Sei bem como é).

Para um sujeito que durante muito tempo chegou a lançar dois discos por ano, além de vários compactos, já há algum tempo a produção de McCartney é bem mais esparsa. Nas últimas duas décadas McCartney lançou apenas 5 álbuns (sem contar uma infinidade de discos ao vivo, umas coletâneas, uns discos de experiências sonoras, duas incursões medíocres pela música clássica e dois bons discos de covers de clássicos do rock and roll).

Algo estranho e engraçado acontece quando McCartney lança um novo álbum. A recepção é normalmente boa. Elogiam o disco e dizem que o disco anterior era uma droga. No lançamento seguinte tudo se repete: este é um grande álbum e o último foi um lixo. É sempre assim. Nesse vaivém, nem sempre a crítica está certa — nos elogios imediatos ou no desprezo posterior. Por alguma razão que não sei explicar, McCartney acabou sendo um artista ao mesmo tempo paparicado e perseguido, o que prejudica um julgamento imparcial da sua obra. Um exemplo disso é todo mundo lembra daquela parceria infame com Michael Jackson. Mas todos esqueceram que Mick Jagger também gravou com o Comunista de Neverland.

Na verdade, os resultados dessas últimas duas décadas têm sido irregulares. Press To Play (1986) é considerado um dos seus piores discos, inclusive pelo autor; Flowers in the Dirt (1989), aclamado por sua parceria com Elvis Costello, é considerado o seu retorno. Off the Ground, 1993, é elogiado por muita gente, mas é um disco absolutamente medíocre. Aí vem Flaming Pie, de 1997, para mim seu melhor disco nesses últimos 20 anos, e finalmente Driving Rain, de 2001 — que para alguns é excelente, mas que para mim soa estranho e pouco inspirado; vale apenas por umas três ou quatro faixas. Driving Rain traz a pior música que McCartney gravou em toda a sua carreira, Freedom, hino guerreiro deprimente composto logo após o 11 de setembro. Quem quiser entender por que Lennon, um músico inferior, é mais respeitado que McCartney, só precisa comparar essa canção com Give Peace a Chance.

Talvez por isso eu não estivesse muito ansioso pelo novo disco. Nem mesmo com o anúncio de que ele tinha dispensado sua banda e tocado a maioria dos instrumentos (hábito antigo, típico de um sujeito que tem que passar a vida provando a si mesmo que era melhor que Lennon). Nem o de que seria co-produzido por Nigel Godrich, produtor do Radiohead e de Beck.

Mas aí ouvi a nova canção do sujeito. Está disponível em seu site. Desde 1997 McCartney vem lançando seus singles na internet, antes do lançamento do disco. Young Boy em 1997, Driving Rain em 2001. Ouvi as duas e lembro de achar Young Boy um pop sem consistência e de achar Driving Rain francamente ruim.

Fine Line, a música de trabalho desse disco, é diferente. É uma canção típica de McCartney, com ecos dos tempos dos Wings; há muito tempo ele não faz isso. Não é brilhante, não é inovadora. Mas é consistente, e esse é um adjetivo que já não se dava a McCartney há algum tempo.

Paul McCartney já deixou de ser um artista fundamental há muitos anos, e o novo disco não vai reverter isso. Seus dias passaram, e hoje o tempo é dos Wilcos da vida, ou seja lá qual a sensação da última semana aclamada como os novos Beatles. Mas ainda é o sujeito que transformou a música ocidental, ainda é uma lenda viva, ainda é um dos mais completos e inventivos instrumentistas da história do rock e do pop, ainda é uma grande músico. O novo single é um bom presságio. Pelo menos para fãs.

Sexo Anal

Uma tarde de sexta-feira de julho e eu estava saindo de casa para a doceria aqui perto. Na portaria, um pacote para mim.

Vinha embrulhado em papel pardo, como imagino que venham os vibradores e bonecas infláveis comprados por reembolso postal. O envelope não podia ser diferente, nem mais adequado.

Ali estavam eles. Dois exemplares de “Sexo Anal”, o livro do Bia, finalmente.

Eu já estava me sentindo humilhado. Todo mundo tinha o seu, menos eu. Tudo bem, eu pensava. Vou retirar tudo o que eu disse do livro. Genial um cacete. Brilhante uma ova. O despeito e a inveja sempre fazem a gente diminuir as uvas que não pode pegar.

Mas ali estavam os livros, finalmente.

A demora compensou. Além da edição normal, eu recebi também o número zero, onde o Bia fez ainda algumas correções. Agora é esperar que o Bia se torne famoso para eu vender minha cópia única do seu primeiro romance. Quer dizer, talvez. Porque a dedicatória me envergonharia um pouco. Imagine-se o leiloeiro da Sotheby’s dizendo, naquele inglês pedante-quase-gay: “And now for your appreciation: the very first copy of “Sexo Anal”, Anal Sex, the book that made Mr. Bea Jones famous. It includes a few words to his friend Rafael Galvão: ‘Toma, guei! O número zero!'”.

É uma forma meio complicada de passar à posteridade.

Mas é isso. São essas as idéias que vêm à sua cabeça enquanto você lê “Sexo Anal” numa doceria.

Sentado diante de uma torta de morango, um exemplar na minha mão e o outro na mesa, à minha frente. É quando sai uma velhinha da doceria. Ela olha para o livro na mesa, e vê a Marilyn fazendo biquinho para a vela túrgida e palpitante, e lê o título grande em letras brancas, “Sexo Anal”, e tem um sobressalto, e olha de novo para se certificar de que aquilo é verdade, de que aquilo não é uma peça pregada por sua mente, de que desejos há muito sublimados não forçam sua passagem pelas barreiras do superego. Ela vira a cabeça, como aquilo de que agora lembra virou tantas vezes antes, não pára de andar. Deve sair pensando que somos “uns indecentes. No meu tempo a gente fazia, mas não falava”.

Cheguei em casa e coloquei um disco do Howlin’ Wolf. A voz do negão combina com “Sexo Anal” como poucas outras. Combina também com minha nova idéia.

Eu agora tenho um novo divertimento. Demente como todos os divertimentos genuínos são. Agora vou para as casas de chá com o meu exemplar de “Sexo Anal”. Quero virar a cabeça das velhinhas. Fazê-las lembrar de tempos d’antanho, e olhar para mim com aquela cara de “se esse putinho fosse meu filho eu o enchia de porrada.”