Relatório

Fiz um bocado de mudanças aqui neste fim de semana e sequer lembrei de dizer quais foram.

Mudança do Movable Type 2.661 para o 3.01
Poderia ser apenas um upgrade normal, mas serviu de desculpa para as outras mudanças. O MT 3 oferece algumas possibilidades de controle de comentários que, à medida que começo a receber spam de comentários, começam a se tornar necessárias — dia desses, de uma só vez, foram mais de 30 em posts antigos, anunciando de métodos de aumentar o pinto a jogatina. A forma como o MT 3 organiza os arquivos dos posts também é mais robusta e mais sensata, facilitando os backups.

Mudança do sistema de banco de dados
Este blog usava o BerkeleyDB, default nas instalações do Movable Type, e bastante fácil de configurar. No entanto, como ele cresce a uma média de 2 ou 3 posts por dia, é recomendável a mudança para o MySQL. Dizem que é mais rápido e mais versátil, o que o torna preferível quando se vive fazendo mudanças e rebuilds, como eu. Para falar a verdade, nos testes que andei fazendo não vi essa rapidez de que falam. Mas tudo bem. Como ele possibilita backups mais completos, instalei assim mesmo.

Importação de posts e comentários antigos
Nos últimos meses, vim me dedicando a importar os posts e os comentários do blog antigo, no Blogger. Teoricamente há meios de se fazer isso automaticamente, mas a exportação do Blogger está um grau abaixo do podre, e não há a importação de comentários (uma das grandes vantagens do MT é que os comentários passam a fazer parte do próprio post). Resolvi fazer a transferência manualmente, então. Sem pressa. O que não diminuiu o tédio da tarefa.

Mudança da estrutura de arquivos do site
Bobagens que se faz no começo nem sempre podem ser consertadas depois. Separar o MT do blog propriamente dito vai evitar que os serviços de busca indexem os comentários, e algumas mudanças menores devem tornar a administração do blog mais fácil. FInalmente, prepara o blog para MT 3.1, o que realmente interessa.

HTML para PHP
Necessário para que se possa utilizar as mudanças mais importantes da próxima versão do MT. Infelizmente, links para páginas específicas deste blog se tornaram imprestáveis.

Frescuras
Aproveitei para colocar um pluginzinho engraçado: “Hoje na história” mostra os posts publicados no mesmo dia nos anos anteriores. Parece que em 10 de agosto de 2003 eu não publiquei nada, por isso ele só começa a funcionar mesmo amanhã. Aproveitei também para dar uma guaribada no layout do blog. Mas ao contrário das mudanças anteriores, essa foi pequena. Eu não aguentava mais aquele verde.

Nas estrelas

A Tata me desencaminhou para o Quiroga.net, para fazer meu mapa astral. E lá fui eu.

Eis uns trechos do resultado:

Em todo caso, você também possuirá uma natureza afável, doce, flexível ao extremo, e influenciável pelas condições prevalecentes. (…) você será uma pessoa social, e fará o necessário para agradar e lisonjear. Poderá chegar a ser tão diplomático e educado que as pessoas lhe perguntarão se você tem opinião própria.

Rapaz, é a minha cara.

Eu, hippie

Testezinho interessante: “20 Questions to a Better Personality“.

Meus resultados, errados como sempre, são os seguintes:

Wackiness: 32/100
Rationality: 32/100
Constructiveness: 80/100
Leadership: 48/100

You are an SECF–Sober Emotional Constructive Follower. This makes you a hippie. You are passionate about your causes and steadfast in your commitments. Once you’ve made up your mind, no one can convince you otherwise. Your politics are left-leaning, and your lifestyle choices decidedly temperate and chaste.

You do tremendous work when focused, but usually you operate somewhat distracted. You blow hot and cold, and while you normally endeavor on the side of goodness and truth, you have a massive mean streak which is not to be taken lightly. You don’t get mad, you get even.

Please don’t get even with this web site.

Carlos Alberto

De madrugada, vindo do bar do Pinto com os bolsos vazios como de costume, Carlos Alberto senta à máquina e declara ao resto da redação:

— Tem um concurso de poesia vindo aí. Tô precisando de dinheiro. Vou fazer um poema pra ganhar o primeiro prêmio.

Faz.

— Agora vou fazer um pra ganhar o segundo prêmio.

Faz.

— Agora, o terceiro.

Faz.

Vence o primeiro e o terceiro lugares. Mas as Parcas insistem em cortar o fio da sua empáfia, como farão repetidas vezes com seus descendentes, e o segundo prêmio vai para outra pessoa.

***

Nega Lia vive sendo presa. E um dia Carlos Alberto lhe dá algumas dicas sobre o que fazer quando lhe prenderem.

Em sua próxima prisão, Nega Lia segue à risca o conselho.

Lambuza o corpo inteiro de merda e sai andando, tranqüila, em direção à porta. Conforme a previsão, ninguém tem coragem de pará-la. E então ela avisa que vai cumprir a última parte do roteiro que lhe foi dado:

— Agora vou dar um abraço no secretário de Segurança.

Os policiais entendem que isso é demais. E avisam que ela pode ir ambora, mas se subir à sala do secretário eles atiram.

Com um mínimo de sensatez, ela sai da Secretaria de Segurança. Na porta se vira e começa a fazer escândalo.

— Vocês são um bando de merdas. É tudo burro. Foi Chatô quem me disse o que fazer. Chatô é mais inteligente que vocês todos.

E nos próximos dias Carlos Alberto tem que ouvir as reclamações do pessoal, que acha que alguns conselhos não devem ser dados.

***

Noite de sexta-feira, Carlos Alberto e Marcelo sobem a ladeira da Barra chutando lata, reclamando dos bolsos vazios.

De repente uma vernissage, e Carlos Alberto descobre onde beber.

Entra, se aproxima de um quadro e começa a fazer comentários elogiosos e aparentemente eruditos sobre a peça. O marchand se aproxima, deliciado. Agora o uísque e os canapés chegam a eles com fartura e pontualidade.

— Passe na agência segunda à tarde, para entregar o quadro e pegar o cheque.

E então a noite está liberada, e mais uísques e mais canapés.

Segunda-feira e o marchand bate na agência, trazendo o quadro embrulhado para presente numa Kombi.

— Carlos Alberto, tem um sujeito aí fora dizendo que veio entregar um quadro que você comprou.

Ele sai e vê o sujeito.

— Pois não, meu amigo?

— O quadro que o senhor comprou…

— Eu não comprei quadro nenhum. Eu nem conheço o senhor.

— Como não? O senhor foi à vernissage na sexta, comprou o quadro, bebeu uísque…

— O senhor me deu uísque? Então tá explicado. Mas vai, mostra aí o quadro.

O sujeito desembrulha seu pacote.

— Esse quadro é uma merda. Eu nunca compraria uma coisa ruim dessas.

E volta a entrar na agência.

***

O prazo para apresentação do anúncio está chegando ao fim, mas Duda olha em volta e não tem anúncio e não tem Carlos Alberto.

A agência, a esta hora, está desesperada. As secretárias choram.

Carlos Alberto chega na agência e Duda lhe dá um esporro:

— Porra, Jesus, cadê o anúncio?

— Duda, eu deixei na sua mesa ontem.

E começa a procurar. Duda corre, chama as secretárias, colocam a sala de pernas para o ar.

A essa altura Carlos Alberto já saiu. Vai para sua sala, senta à máquina, escreve o anúncio e volta para a sala de Duda. Disfarçadamente coloca os papéis no meio da bagunça e espera acharem.

Quando acham — e aquela é uma bela peça — é a vez de Carlos Alberto comentar:

— Sabe qual é o problema, Duda? É essa bagunça em que a sua sala vive. Você devia ser mais organizado.

***

Antigamente era muito pior, mas ainda hoje, de vez em quando, me apresentam a gente da velha guarda:

— Esse daqui é o filho de Carlos Alberto.

Há muito me acostumei a fazer uma pequena correção.

— Não é bem assim. Carlos Alberto é o pai de Rafael Galvão.

A ordem dos fatores altera o produto.

Post levemente machista

Mesa de bar: um amigo se declara podólatra e uma amiga se assusta.

Como sói acontecer às donzelas deste país, ela se apressa em dizer que mulheres não têm essas taras esquisitas.

Aí se levanta a questão: e essa tara feminina em bundas de homens, é o quê?

Bunda de homem não presta para nada. Nada. Peito de mulher presta para alguma coisa, bunda de mulher é amortecedor. Mas bunda de homem é só um apêndice inútil que está ali por estar, prova da evolução imperfeita da raça.

E tenho dito.

My Sweet Lord

Ouvindo All Things Must Pass com atenção pela primeira vez em muito tempo. É o disco que George Harrison lançou logo depois de sair dos Beatles. Antes achava excessivo, achava que a crítica era exagerada e ele daria um bom álbum duplo, ou um álbum simples brilhante. Eu, como acontece mais vezes do que gosto de admitir, estava errado. O disco é genial. É o melhor álbum triplo de todos os tempos. É uma obra prima.

O que me chama atenção é My Sweet Lord. Até agora, eu cantava a música com despreocupação. Preferia rir do fato de ela ser um plágio de He’s so Fine, das Chiffons, e achava aquele monte de “Aleluia” e “Hare Khrishna” bonitinhos. Era uma bela canção, belos violões de Peter Fampton, boa produção de Phil “Shoot Me” Spector, bons solos de Harrison, e só. Ela estava no domínio do pop, e esse é um domínio que, embora o meu preferido, não ultrapassa tantos limites.

Só agora vejo que a música não está na frase “my sweet Lord“. Está em “but it takes so long“. De repente a música adquire uma intensidade angustiada que eu não reconhecia nela.

Alguma coisa aconteceu ao longo de todos esses anos. E tenho a impressão incômoda de que foi comigo.

Cara de bobo

Dou à moça o número do meu segundo celular, o de Aracaju, e ela comenta, comparando com o do Rio:

— Você escolhe a dedo os números dos seus celulares?

— Nunca escolhi nenhum. É que as atendentes sempre vão com minha cara. Olho pra elas com cara de menino ingênuo pensando “você é gostosa” e elas cuidam de mim. Sempre funciona. E ainda perguntam se quero trocar o número. Eu nunca troco. Não faria uma desfeita dessas com moças tão gentis.

O pastor

Quando vejo o entusiasmo com que o Marmota espera as Olimpíadas, fico pensando no meu próprio desinteresse.

Que provavelmente vem do fato de minhas habilidades esportivas se limitarem a xingar o juiz quando aquele ladrão não marca uma falta para o Flamengo. Jogos não são a minha praia.

Não é que eu não goste de competir; eu não gosto é da possibilidade de perder. Deve ser por isso que participei de relativamente poucas competições esportivas em minha vida.

A primeira de que me lembro foram Jogos da Primavera de 1982, em Aracaju. Eram uma competição interescolar nos moldes do torneio de mesmo nome criados pelo Mário Rodrigues Filho, no Rio. Eu tinha acabado de chegar à cidade e o clima olímpico me contagiou.

Como eu não tinha exatamente muitas aptidões esportivas, participei da competição na equipe de xadrez do meu colégio. E daí que o xadrez seja um jogo que serve apenas para desenvolver a capacidade das pessoas jogarem xadrez? Eu estava participando e perfeitamente integrado a uma cidade que não conhecia e que, cá para nós, detestava.

Eram 13 competidores. Fiquei em décimo-segundo lugar. A humilhação só não foi maior porque alguém ficou em décimo-terceiro. Eu, pelo menos, ganhei um jogo.

Na verdade fui a apenas três. Perdi o primeiro rapidinho. A gota d’água foi quando, no terceiro jogo, o sujeito me derrotou em 2 minutos. Com o “pastor”.

Para quem não conhece, essa é uma das jogadas mais básicas do xadrez. Uma das mais fáceis de se bloquear, também — basta mover o cavalo, se não me engano. A situação foi tão humilhante que meu oponente, penalizado, parou para me ensinar o que fazer, depois que ganhou.

(O sujeito era melhor que eu. No seu lugar eu teria tripudiado do idiota que se atrevia a encarar aquilo sem saber sequer o básico.)

Não voltei mais àquele antro de perversidades. Por isso minha surpresa quando vi que não era o último colocado, ao final dos Jogos.

Ganhei o segundo por W-O, de um sujeito que não deu as caras. E até hoje acho que tinham aplicado o pastor nele, um ano antes.