A notícia vem criando certo orgulho ufanista na internet brasileira: nós, tupinambás, somos maioria individual no Orkut. Talvez não demore até nos tornarmos maioria absoluta, mesmo que 7 vezes mais americanos usem a internet. Seguros de nossa inesperada superioridade, incorporando Davis que venceram Golias numa guerra inexistente, debochamos dos americanos incomodados — infelizmente menos do que gostaríamos — com a inculta, bela e última flor do Lácio.
Mas não é essa a questão.
Enquanto corremos ansiosa e alegremente para simpáticas perdas de tempo como o Orkut, iniciativas conseqüentes e realmente importantes como a Wikipedia, que tem uma versão em português, são o objeto do nosso mais profundo desprezo.
A Wikipedia é uma das melhores invenções da Internet porque usa o poder da rede e da capacidade criadora coletiva para criar um repositório confiável de conhecimento. É uma enciclopédia criada e mantida por usuários. Qualquer um pode escrever um verbete, qualquer um pode revisá-lo, todos podem acrescentar algo. O resultado está se tornando maior e mais abrangente que qualquer enciclopédia em toda a história da humanidade jamais pôde almejar ser. Mas eu não uso a versão em português da Wikipedia porque ela é insuficiente. Não há bastante brasileiros interessados o suficiente em criar, compartilhar e consolidar conhecimento. Se preciso saber alguma coisa, vou direto à versão em inglês.
Preferimos perder tempo no Orkut.
Para nós, a idéia de comunidade é interessante quando significa carnaval. Mas quando o assunto é sério, somos individualistas. Compartilhamos alegremente nosso ócio e nosso lazer. Conhecimento de verdade é outra coisa.
Ultimamente temos falado muito em software livre, em inclusão digital e outras coisas do gênero. De modo geral as pessoas parecem não perceber que a verdadeira vantagem do software livre não é a gratuidade, é a possibilidade de também desenvolvermos tecnologia e sair da periferia. Isso quer dizer produzir conhecimento, e aí a analogia com a Wikipedia é inevitável. Inclusão digital sem acesso ao conhecimento é como dar uma enxada a quem não tem terra. O conhecimento estará restrito àqueles que falam inglês; a patuléia estará alijada, como sempre — mas não vai se importar porque estará ocupada esperando que o CDI instale um computador em sua favela, para finalmente entrar no Orkut e poder dizer que sim, que não é mais excluída digital.
Podemos ter até orgulho de ser maioria nas comunidades do Orkut, aquelas significativas como “Eu não faço sexo oral” ou “Eu tenho peitão”. Podemos perder tempo detonando o Diogo Mainardi, o homem que todos amam odiar, ou dizendo que amamos Chorrochó, no sertão da Bahia. Entretanto, no que é realmente importante, no que vai realmente permanecer e ser considerado uma verdadeira contribuição à humanidade, somos minoria. Não importa o nosso orgulho pela crescente lusofonia do Orkut: na hora que realmente precisarmos desta joça aqui vamos ter que recorrer ao velho the book is on the table.
Mas isso não vai importar, vai? Porque o Orkut fala a nossa língua.
Enquanto isso, já que falei na tal última flor do Lácio, na Wikipedia Olavo Bilac é verbete na língua do bardo, mas não na sua própria.
Recebi um e-mail intitulado “Cada um tem o governo que merece”. Anexadas, algumas fotos de chefes de Estado: a família real britânica, a sueca, duas que não reconheci e, finalmente, Lula e Mariza vestidos como caipiras. A intenção óbvia é mostrar o descompasso entre a nobreza européia e nosso casal presidencial proletário e irreparavelmente brega.
Passei rapidamente por Salvador há duas semanas. Queria ir ao Bonfim comprar um novo escapulário. Mas achei que minha filha não ia gostar muito dos ex-votos, e sabia que não conseguiria entrar na igreja sem que ela os notasse. Para ela a Igreja de S. Francisco (“Toda de ouro?!”, ela arregala os olhos) seria muito mais interessante.