A ilha do tesouro

Um comentário de um sujeito que se diz chamar Zé a este post me deixou com uma pulga atrás da orelha. O comentário:

A primeira tv na minha casa chegou em 1974. Eu não tinha muito acesso a séries de TV, por então lia. Li de tudo: Júlio Verne, Mark Twain, Joseph Conrad, Robert Louis Stevenson, Alexandre Dumas, etc… O que vocês falam quanto a reação dos filhos em relação aos seriados e filmes, eu enfrento com os meus em relação aos livros. Há algum tempo encontrei a Ilha do Tesouro e entreguei para que eles lessem, lembrando de como devorei o livro. Nem ligaram. Se não tem super-poderes, magia ou algum outro “efeito especial”, a gurizada nem toma conhecimento

Tendo a concordar com o Zé. Quando era criança, li boa parte daqueles livros para crianças que se tornaram clássicos: Stevenson, Verne, Dumas, Salgari. Mas eu fui criança nos anos 70, quando a TV, em Salvador com seus dois canais apenas, ainda não era tão onipresente quanto agora. Por causa dos livros e por causa da TV, meus referenciais estavam no oeste americano, na África ou no Mar das Caraíbas, mesmo na Europa medieval. Eu e a minha geração crescemos em um momento curioso, em que o século XIX e XVIII ainda eram extremamente presentes no imaginário das pessoas mas já se esgotavam como referenciais para os que viram depois. A produção cinematográfica que chegava à TV tinha 20, 40 anos de idade; a II Guerra Mundial ainda era tema importante no cinema e na teledramaturgia. Cresci vendo seriados como Zorro, lendo livros de piratas ou assistindo a Tarzan. Provavelmente, a minha foi a última geração que não se incomodava quando um filme era em preto e branco.

Essa análise saudosista, no entanto, não é totalmente correta. Porque nos anos 70 havia também uma infinidade de seriados, filmes, revistas que dialogavam com o futuro em vez do passado: Space Ghost, “Os Invasores”, “Perdidos no Espaço”, “Terra de Gigantes” — a lista é grande demais para continuar. A conquista do espaço era algo recente para nós. Ainda estávamos em plena Guerra Fria e o espaço era um dos elementos da propaganda americana, a única a que tínhamos acesso em um país sob ditadura. Esses elementos que agora parecem onipresentes já estavam lá (e gente como o ex-blogueiro Hermenauta certamente era mais afetada por eles do que eu, por exemplo).

O verdadeiro problema no argumento do Zé e de todos nós que o repetimos é que ele esquece um fator básico: o de que os tempos mudam.

Não é difícil imaginar uma criança londrina dos anos 1910 lendo uma história de Kipling e imaginando tudo aquilo como algo inatingível, matéria pura de sonho — em St. Albans devia ser difícil encontrar um Shere Khan, certamente. O mais próximo disso deviam ser os circos que eventualmente passavam por ali. É por isso que “A Ilha do Tesouro”, com seus piratas, com seus papagaios tarameleando “peças de oito!”, era algo tão distante de uma criança no século XIX quanto Júpiter de uma criança do século XXI.

Essencialmente, o que atraía crianças no livro de Stevenson era o mesmo que as atrai hoje em, digamos, Harry Potter ou em Watchmen: o novo, o distante, o diferente, o improvável. As crianças não mudaram nessas poucas décadas — para falar a verdade a humanidade não mudou em dois mil anos; o que mudou foi o universo de informações a que elas estão expostas.

O século XX encolheu o mundo de uma maneira que não teve precedentes e que provavelmente nunca mais será repetida novamente — e muita gente afirma que estamos vivendo agora o momento final de um processo de convergência global que teve início há uns dois mil anos. No final do século XIX Edgar Rice Burroughs podia contar uma fábula meio kiplingiana sobre um menino criado por macacos, e isso era novo, diferente. Era algo totalmente estranho ao ambiente em que seus leitores viviam — boa parte dos quais jamais viu um gorila em toda a sua vida. Eles podiam imaginar uma África misteriosa repleta de aventuras, um lugar onírico com perigos e prazeres inimagináveis e obviamente sem mosquitos; hoje, o mais provável é que ao pensar nela imaginem um lugar onde genocídios acontecem a três por quatro, e de onde, de vez em quando, sai um vírus mortal.

Mas para crianças e adolescentes, a essência das coisas não mudou. Os arquétipos são os mesmos: ideais de heroísmo e coragem, de romance e amizade em ambientes inalcançáveis para o comum dos mortais. A diferença é que esses ideais hoje são realizados em outros cenários, utilizando outras ferramentas. É um processo acelerado, e talvez definido, pelo fato de que o cinema e seu derivado, a TV, se transformaram no principal meio de criação de dramaturgia. Mais que isso, conseguem transformar em imagens cada vez mais verossímeis aquilo que conseguíamos apenas imaginar, e geralmente de forma imperfeita. Depois de um século em que parece que não restaram muitos desafios para vencer, nos quais ser o primeiro é cada vez mais difícil, a realidade parece ter menos apelo. Até porque a imaginação pode parecer ser mais real do que a realidade, e o cinema e o CGI são um indício disso. Se antigamente podíamos assistir a um filme de Tarzan e não ligar para as imperfeições técnicas ou para as incongruências geográficas — Em “Tarzan e a Fonte Mágica”, por exemplo, Chita bebe água de uma fonte da juventude e de chimpanzé se torna um macaquinho sul-americano, com rabo e tudo —, a exposição constante a 100 anos de produção audiovisual nos tornou mais exigentes do ponto de vista formal.

Ao longo do século passado o cinema explorou ao máximo a herança dos milhares de anos anteriores. Não é à toa que existe um filme impagável chamado “Robin Hood e os Piratas”, em que se misturam duas tradições veneráveis, mas historicamente incompatíveis, desses tempos idos. Um século de excesso de exposição à informação fez a sua parte no esgotamento desse manancial de possibilidades dramáticas.

A África Negra e os Mares do Sul se tornaram acessíveis através do cinema; mesmo quando recriados em estúdio — e eu recomendaria a qualquer um assistir aos filmes de Tarzan com Johnny Weissmüller e Lex Barker — eram algo totalmente diferente do que se tinha à sua volta. E embora qualquer psicanalista possa adiantar que uma coisa é a expectativa que você tem diante de uma nova experiência e outra, totalmente diferente, é a realidade dessa experiência, para as pessoas boquiabertas num cinema isso importa pouco ou nada. Por isso, por essa banalização de experiências não vividas, a maior parte das pessoas hoje não vêm nenhum apelo em contos que há 100 anos faziam a imaginação de crianças e adolescentes. Ficamos mais exigentes, não nos contentamos mais com o chitão de temas seculares. Nossa imaginação precisa de mais para ser estimulada; precisa cada vez mais da pirotecnia que apenas o CGI pode oferecer, precisa do impossível.

Ou melhor: o que era impossível antigamente deixou de parecer impossível. O mais engraçado em tudo isso é que embora esses referenciais tenham se esgotado no imaginário das pessoas, isso não quer dizer que ficaram mais acessíveis. As pessoas continuam distantes dos Mares do Sul de Stevenson, e a jângal kiplingiana é tão inacessível para um garoto de Cabrobó — e para praticamente todo mundo — como um planeta em Andrômeda. O que mudou foi o espaço que eles ocupam nas mentes das pessoas. É como se passássemos direto da quinta para a sétima série, sem ter aprendido o que precisávamos da sexta. Ou seja: eu posso não ter vivido uma aventura com Balu e Baguera, mas sinto que tudo isso me é familiar, até comum. Resta o que agora parece verdadeiramente impossível: a magia, as viagens no tempo, a troca de dimensões, as explosões monumentais e a destruição cotidiana do mundo.

Mas que isso não pareça uma apologia desses tempos modernos. Porque não é. Eu consigo pensar em um roteiro de filme melhor, por exemplo, que “Piratas do Caribe”.

Início do século XVIII. O filme teria como personagem Anne Cormac, irlandesa que emigra para a Carolina do Sul. Conhece um pirata americano, James Bonny, e foge com ele. Bonny vira dedo-duro de piratas para o governador de Nassau, e uma Anne desiludida passa seus dias bebendo e se divertindo nas tavernas com outros piratas. Conhece outro pirata, John Rackham, e então temos nossas cenas ardentes de amor. O marido, revoltado com os chifres, denuncia-os e o governador os prende. Anne Bonny e John Rackham fogem, roubam uma corveta, juntam uma tripulação e se lançam ao maravilhoso mundo do saque e da pilhagem. Em pouco tempo Rackham e Anne Bonny se tornam conhecidos no mundo inteiro como piratas perigosos.

Enquanto isso, outra personagem é introduzida, a principal: Mary Read. Em alguns minutos ficamos sabendo que ela é uma inglesa criada como menino pela mãe. No momento em que ela nos é apresentada mudou o nome para Mark Read, e está lutando ao lado dos ingleses na guerra contra a França. Se apaixona por um soldado e se torna Mary novamente. Ele morre pouco depois e ela volta a ser Mark. A caminho do Caribe, seu barco é atacado pelos piratas liderados por John Rackham e Anne Bonny. Mas Read se empolga e se torna pirata também. Anne Bonny se apaixona por Mark Read, sem saber que ele é ela. Dentro de um triângulo indesejável, ela acaba tendo que revelar seu segredo aos dois piratas. Para complicar as coisas e adicionar mais tempero ao nosso filme, ela se apaixona por outro marujo. Esse marujo, ainda jovem, é desafiado a um duelo por outro pirata depois de uma briga. Sabendo que o marujo vai para a morte certa, Mary Read desafia o pirata para outro duelo antes. Na hora fatídica, Mary mostra os peitos para o pirata, que se assusta e vacila: acaba morto — e o outro marujo não precisa mais duelar com ele. Com o segredo revelado diante de todos, Mary Read e Anne Bonny se tornam as mulheres mais famosas da história da pirataria.

Daria um bom filme? Provavelmente. O mais interessante é que tudo isso é verdade. Rackham, Bonny e Read são piratas famosos — não tanto quanto Henry Morgan ou Barba Negra, ou ainda o Duguay-Trouin que invadiu o Rio de Janeiro, mas ainda assim famosos. Era dessa realidade que a dramaturgia infanto-juvenil bebia — uma realidade muitas vezes mais rica que a ficção. E a riqueza de histórias que se encontram nesses livros ultrapassados — eu posso citar alguns que tiraram elementos dessa história, como “Capitão Tormenta” e “Os Três Mosqueteiros” — ainda não conseguiu ser superada pelos novos queridinhos da criançada.

Se bem que no fundo isso seja apenas uma confissão de velhice. E ninguém precisa disso, porque já estamos velhos o bastante, e o tempo passou e, o que é pior, a gente viu.

<a href=”http://ohermenauta.wordpress.com/” title=”Ele se foi, tadinho…” target=”_blank”>Hermenauta</a>

Deixai vir a mim as criancinhas

L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, elegeu os 10 melhores discos de todos os tempos.

Os vencedores foram os Beatles, com o álbum Revolver. Na lista estão ainda o Dark Side of the Moon, também uns discos menos importantes — até o Oasis marca presença. Mas não é isso que impressiona.

O sexto colocado é o Thriller, de Michael Jackson.

Não deixa de ser comovente ver os padres homenageando o seu igual, e mantendo viva a chama do amor excessivo aos infantes.

As alegrias que o MSN me dá

Mônica says:
acabo de receber um e-mail que fala que o que a mulher não deve fazer em casa , para que o homem se sinta poderoso.
rapaz, se eu for seguir isso sei como vai ser não

Mônica says:
1- Não troque lampada, ele se sente o maximo fazendo isso.
2- Não mate barata, ele tem que ser seu “heroi”
3- Deixe que ele pague o jantar, faz ele se sentir seu dono

Mônica says:
Que vc acha?
(já estou me preparando pra cair na gargalhada, responda todas as observações, please)

Rafael says:
1 – Não troque lâmpada. Viver no escuro ajuda a economizar energia e combate o aquecimento global.
2 – Não mate barata. Respeite a ecologia. A barata é nossa amiga e nossa irmã.
3 – Não desonre um século de conquistas femininas. Faça questão de pagar o seu jantar e mostrar que você não tem dono.

Mônica says:
Minha Nossa Senhora, onde eu fui me meter?

Rafael says:
Alguma coisa boa na vida você fez, minha frô.  🙂

Do obscurantismo

Um padre de uma paróquia importante de Aracaju foi afastado por esses dias.

Motivo simples, embora não oficial: sua namorada estava em estado adiantado de gravidez.

Triste Igreja, essa, que não dá sequer uma simples licença-paternidade para seus padres.

Cemitérios

Quase todo dia eu passo em frente a um cemitério.

O cemitério se chama São João Batista — toda cidade que conheço tem um cemitério chamado São João Batista, e até hoje eu não soube a razão. Talvez porque São João batizasse gente, desse um recomeço à vida em Cristo, como se morte fosse recomeço de alguma coisa. É cemitério da Prefeitura e a grande maioria de seus inquilinos é de ex-gente pobre cujas famílias não têm jazigos perpétuos no Cemitério Santa Isabel ou não podem comprar um pedacinho de chão no Colina da Saudade, cemitério particular nos moldes anglo-saxões que não enfeia a vista com os pequenos edifícios mortuários e suas imagens de santos, anjos e cruzes.

Parece ser voz corrente, entre gente que se preocupa com os tempos em que não existirá mais, uma preferência cada vez mais clara por covas em cemitérios desse tipo, com plaquinhas discretas no chão em vez de tumbas pretensamente imponentes e mausoléus; mais elegantes, dizem eles. Eu, que tenho dúvidas de que vou morrer algum dia mas que, se esse dia improvável vier, já adianto que podem fazer o que quiserem do que sobrar deste portento da raça humana, peço vênia para discordar.

Dos mortos em cemitérios tipo Colina da Saudade não ficam os testemunhos da sua importância em seu tempo, importância que algumas décadas ou mesmo uns poucos anos se encarregam de apagar. Ali não há mausoléus ou imagens de santos e da Virgem Maria; desses mortos mais ricos fica apenas uma plaquinha no chão, que custou tanto mais caro quanto mais alto foi o lugar do seu último descanso. Os cemitérios católicos, ao contrário, são monumentos duradouros à estupidez e à vaidade humanas, e é isso que faz a sua graça e o seu interesse.

Mães tresloucadas de dor que deixam testemunhos psicóticos nos túmulos de suas filhas; herdeiros orgulhosos e felizes com o dinheiro que lhes coube mantendo as aparências de amor e devoção ao finado; nulidades em vida que apenas ocupam o lugar reservado no mausoléu familiar; esse é o condomínio diverso oferecido pelos cemitérios católicos tradicionais, em que cada requietório pode acender o interesse por uma história já perdida.

E há ainda a sub-arte mortuária esquisita, estátuas de mármore e bronze de anjos e santas, detalhes arquitetônicos delirantes em granito, fotos de moças feias que morreram cedo demais impressas em louça e já se apagando.

Cemitério por cemitério eu prefiro os católicos, em seu mau gosto mórbido.

Mas o cemitério em frente ao qual passo quase todo dia não tem isso, ou melhor, tem muito pouco. O São João Batista é cemitério de pobre e ali as gavetas e carneiras se espalham por onde podem. Depois de alguns anos as gavetas serão limpas e os ossos que não forem reclamados irão para uma cova comum. Mas agora, enquanto o tempo não passa e o defunto ainda não começou a feder nem a se decompor fazendo a alegria de um Augusto dos Anjos, um enterro é o retrato da dor de uns poucos, da solidariedade de alguns e do respeito às convenções pela maioria.

Hoje em dia enterros são cerimônias para relativamente poucas pessoas. O mundo já descobriu que é mais simples, mais rápido e menos angustiante passar pelo velório, ver alguns conhecidos, dar um abraço no parente do morto que chora ao pé de seu caixão e então ir embora, cuidar da vida, que o finado agora não tem mais que se preocupar com isso e vai lhe perdoar se você não lhe dá mais atenção do que é necessário. Ao enterro acabam indo apenas as pessoas mais próximas, se não é defunto famoso ou de morte trágica demais.

A essa altura, tendo passado diante deles por tantas vezes, já dá para ter uma idéia aproximada dos defuntos trancados no caixão. Basta olhar para as pessoas que esperam enquanto ele é tirado do carro fúnebre.

Diante do São João Batista a maior parte das pessoas usa roupas simples e às vezes gastas. Uns poucos apenas trazem a elegância convencional dos óculos escuros, que deveriam servir para esconder as lágrimas mas normalmente apenas disfarçam o incômodo que é estar ali, àquela hora.

Hoje mesmo, agora há pouco, o carro funerário estava na porta. Manhã de sol, ponto final adequado para um velório que deve ter varado a noite, e eu imagino pessoas sentadas diante do caixão, outras conversando em grupos espalhados pela capela — já não se vela mortos em casa, não depois que a morte passou a ser um serviço a ser vendido como outro qualquer –, alguns rindo de uma piada contada por alguém, outros rindo de nervoso, a maioria contando as horas para poder retomar os cuidares de cada dia, o rapaz percebendo que a prima em segundo grau que não via há alguns anos cresceu e desabrochou e se tornou uma moça de peitos protuberantes que gritam meu Deus, meu Deus, é bom aproveitar a hora para retomar o contato. Pode ter sido assim o velório; mas agora, debaixo do sol quente, o caixão estava sozinho na mala aberta do carro da funerária, enquanto as pessoas por perto pareciam ocupadas com outros afazeres.

Uma vez, muito tempo atrás, alguém me disse que a morte é triste não para quem vai, mas para quem fica. A visão do caixão solitário sob o sol, enquanto as pessoas se escondiam embaixo da sombra dos oitizeiros, me deixa com a impressão de que não, de que ruim mesmo é para quem perde a brincadeira aqui, que as pessoas retomam suas vidas e seguem adiante.

Talvez um indício dessa opinião que vai se formando em mim seja a impressão de que o progresso e o aumento do recato fizeram com que não se veja mais tantos vexames em enterros. Não é mais tão comum mulheres se desmanchando em choro e se jogando no caixão do marido ou do pai, gritando que querem ir junto com ele, que agora suas vidas não têm mais sentido, mulheres salvas por amigos mais conscienciosos do grande vexame que seria ter que sair correndo da cova assim que o primeiro punhado de terra caísse sobre suas cabeças. E assim se torna menos dolorosa a sua passagem para o período posterior ao luto conveniente, aquele em que a dureza da vida a obriga a voltar a olhar em frente, até que outro senhor bem-apessoado surja diante dela e a faça lembrar que ela ainda continua viva, e bem viva, e a carne queima sob o preto do luto.

A maior parte dos espectadores vem nos ônibus fornecidos pelas funerárias; e o enterro se transforma em uma espécie de excursão da CVC. Mas pode ser mais curioso ainda, e dia desses o carro funerário era seguido por uma pequena multidão a pé, o falecido devia morar ali perto e a família achou que não valia a pena pagar pelo ônibus. Triste procissão aquela, quase beatos seguindo atrás de um Zenone dentro do caixão, tudo tão triste e melancólico, tudo também tão engraçado.

Mas há outras tristezas, também. Foi diante do São João Batista que vi o enterro mais pungente em toda a minha vida. Não havia multidão, grande ou pequena, porque o morto não tinha ainda muitos amigos. Havia apenas um pai e um amigo, talvez um irmão, descendo de um táxi carregando um pequeno caixão branco nos braços. Só eles, mais ninguém. E sozinhos entraram pelo portão do São João Batista.

Pautas um pouquinho diferentes

Acabei de descobrir que existe uma revista chamada “O Empreiteiro”. Mais impressionante que a sua existência, até agora ignorada por mim — como de resto tantas coisas entre o céu e a terra, muito mais do que supõe a minha vã filosofia — é o fato de ela já ter 46 anos. Não é uma marca que qualquer revista consiga atingir.

Na verdade eu não devia ficar surpreso. Há um mundo de revistas de circulação dirigida, que são veículos publicitários mais eficientes que boa parte da mídia de massa, pelo menos para alguns nichos. Sempre existiram, e eu lembro de algumas em agências de propaganda. Além disso costumam ser a garantia de uns trocados a mais no bolso de jornalistas. Mais de um jornalista famoso tirou — e tira — um bom dinheiro editando revistas do tipo.

E eu fiquei imaginando a pauta da revista. Não a pauta real, porque essa é claramente uma revista séria e competente, abordando assuntos sérios e que realmente interessam à área, e isso pode ser visto apenas com um passar de olhos pelas suas matérias. Mas aquela que a gente gostaria de ver em qualquer revista:

“A luta pelos 10%”

“O limite de responsabilidade no corte do custo de fundações e estrutura”

“Por que vale a pena o asfalto mais fino que as especificações”

“Putas: saiba quando e como oferecer”

“A delicada questão de como agradar técnicos e engenheiros”

“Deu nos jornais. E agora? — Um manual de sobrevivência a denúncias”

“O lobista, esse desconhecido”

“Deputados: guia de compras e manutenção”

Sabe, eu acho que não daria um bom jornalista.

D. João VI e a desinvenção do Brasil

O menino cabeçudo está quietinho no banco da praça em frente à sua casa, roendo uma asa de galinha enquanto balança as perninhas cheias de feridas. De repente o valentão da rua se aproxima e tenta tomar as suas asinhas. O menino corre e se abriga dentro da casa da mãe. Da janela, seguro, fica dando língua para o valentão.

Se esse menino se chamasse D. João VI, o Alex Castro diria que ao correr para casa ele foi um estrategista brilhante.

Em defesa do Alex pode-se dizer que essa é uma imagem um pouco menos injusta que a demolição sistemática empreendida por alguns historiadores e que, mais recentemente, filmes como “Carlota Joaquina” solidificaram. A imagem de D. João como um verdadeiro líder não é uma idéia tão deletéria quanto a do bufão cheio de cracas na perna se empanturrando de asas de galinha, certamente. Mas também não é verdadeira.

D. João VI não era um líder, nunca foi. Se não era o incompetente absoluto pintado pelas caricaturas, era relutante, conservador e covarde. Parte até razoável da elite intelectual e política de Portugal advogava a transferência do centro do império para o Brasil, reconhecido desde havia muito como o sustentáculo de Portugal em praticamente todos os sentidos, mas D. João não era muito simpático à idéia. D. Rodrigo de Sousa Coutinho, por exemplo, enchia o saco de D. João com a defesa dessa transferência desde pelo menos 1791.

O que o Alex chama de estratégia brilhante e ousada foi, na verdade, o último recurso de um governante fraco e indeciso, metido involuntariamente em uma sinuca de bico. De um lado a França no seu quintal, já pulando a cerca; do outro a Inglaterra, com a mais poderosa Marinha de sua época incomodamente localizada entre ele e seu cofre, que costumamos chamar de Brasil. Seu cálculo foi simples e lógico: entre perder Portugal para os franceses e perder o Brasil para os ingleses, Portugal que se danasse. O Brasil sem Portugal poderia ser alguma coisa; Portugal sem o Brasil estaria condenado a ser um refém pobre de Napoleão, um peão útil apenas no seu jogo geopolítico de dominação continental. Portugal era o Piauí da Europa, pouco mais que um entreposto comercial, um atravessador dos produtos gerados no que tinha restado do seu império.

Vir para o Brasil, algo que teria sido uma estratégia brilhante e revolucionária até uns poucos anos antes se parte de um projeto maior e consequente, a mais perfeita subversão da ordem política mundial, naquela hora era apenas desespero, a última alternativa factível para uma dinastia esgotada e desmoralizada; e é bom lembrar que D. João demorou em excesso até escolher entre duas soluções que lhe eram apresentadas. O amor devotado ao Brasil é uma construção histórica posterior: seu cálculo era político, não emocional. A única coisa emocional aí deve ter sido a reação do povo português, que acordou num dia frio de novembro e viu que na calada da noite seu rei tinha catado a prataria de Queluz, embarcado seus amigos ricos e deixado o povaréu nas mãos de Junot.

Mas o maior exagero do Alex sobre esse momento histórico, na verdade, está num post anterior sobre o ano de 1815 como a “criação do Brasil”. Ali o Alex chega a dizer que, depois da instalação da família real, o Brasil provavelmente tinha mais regalias que Portugal — mas esquece de lembrar das remessas de ouro e açúcar, etc., e que fora a presença da família real na Quinta da Boa Vista o Brasil se mantinha como colônia, no esquema descentralizado construído meio século antes pelo Marquês de Pombal.

Apesar do que o Alex sugere, o alçamento do Brasil à condição de “par de Portugal” em 1815 não é propriamente a sua invenção; não passa de mais uma iniciativa de manutenção do status quo da colônia. O que ele chama de “construção de uma nação moderna” é na verdade a realização do projeto de manutenção de uma estrutura antiga e ultrapassada. Portugal não poderia transformar o Brasil em um país moderno — em um momento em que os Estados Unidos, por exemplo, já realizavam uma das mais fantásticas experiências de governo na história — porque ele mesmo era um exemplo de atraso e incompetência. 300 anos depois de protagonizar uma das maiores aventuras da humanidade, a exploração atlântica, Portugal era pouco mais que um país arcaico e decadente. A vinda de D. João reforçou essas características portuguesas no Brasil. Um trechinho de “História do Brasil com Empreendedores”, de Jorge Caldeira:

Na virada do século XIX, a economia brasileira era, possivelmente, a maior das Américas — de qualquer forma, de tamanho comparável àquela dos Estados Unidos. Na virada do século XX, tratava-se de uma economia 15 vezes menor que do país do norte.

O mito da importância do Reino Unido deveria cair quando lembramos que o tal Algarve não é mais que o sul do Portugal continental. O que D. João estava fazendo ali era angariar para si capital político diante da ascensão — tardia, por sinal — da burguesia portuguesa. Estava fazendo como o dono de uma holding em dificuldades que divide suas empresas em unidades autônomas para ter mais controle e flexibilidade diante dos cobradores. Em outras palavras, tentava garantir diante das Cortes um certo grau de liberdade e mobilidade, mais um elemento no jogo de poder que a família real portuguesa, uma das mais singulares da Europa em seu tempo, estava perdendo em ritmo avançado.

No fim das contas, a invenção do Brasil, se é que se pode utilizar um termo desse tipo para definir um processo histórico, foi sendo feita aos poucos e aos trancos, em movimentos como a Guerra dos Mascates, a Revolta dos Alfaiates ou a Inconfidência Mineira. Evaldo Cabral de Mello, por exemplo, sugere como marco fundamental da nação brasileira a Batalha dos Guararapes, quase 200 anos antes, e ele não deixa de ter um ponto interessante aí — o negro Henrique Dias, o índio Felipe Camarão e o branco Vidal de Negreiros juntos combatendo, em nome de uma mesma identidade e já uma noção de pátria, o invasor holandês. O mesmo Evaldo Cabral discordaria completamente quando visse o Alex falar do “crescimento exponencial do Brasil” durante o período 1808-1821, e lembraria que esse crescimento se deu apenas no Rio de Janeiro; ele apontaria que faltava a D. João um projeto nacional.

Claro que, com boa vontade, pode-se até forçar a barra e dizer que D. João inventou mesmo um Brasil — mas ainda assim seria um Brasil muito pior do que as aspirações do povo que àquela altura se considerava, definitivamente, brasileiro. D. João apenas atropelou um longo processo de formação nacional. Mais que isso, condenou o país ao atraso: D. Pedro I representava o conservadorismo diante das cortes portuguesas.

Foi esse modelo que a vinda de D. João, se não implantou, consolidou no Brasil. A chegada da família real tem consequências nefastas e extremamente duradouras, e não é à toa que o Rio de Janeiro é, até hoje, uma cidade extremamente corrupta, em que as idéias do jeitinho, da proximidade do poder subvertem e minam como em talvez nenhuma outra cidade brasileira as noções de democracia e de republicanismo. E isso não é modernidade.

Livros, novamente

Sinceramente, não sei onde o André Kenji viu “viés elitista” no clube de “amantes do livro de papel”, aquele de que, para fazer parte, você só precisa comprar um livro num sebo por quaisquer um ou dois reais. Superioridade, ele que me desculpe, tem é quem pode dar não sei quantas centenas de dólares num simples intermediário.

É o seguinte: você compra um negocinho de 259 dólares, lá nos EUA. Não são os livros ainda — esses você vai comprar depois. Isso é só para que você possa se habilitar a comprá-los. É mais ou menos como se, para comprar um livro, eu tivesse antes que comprar o papel, a tinta e a cola.

Com esse dinheiro, na mesma Amazon, eu posso comprar cerca de 30 livros ultrapassados de papel. E nós é que somos “a elite esnobe”? Então tá.

O Kenji poderia ter pelo menos feito as contas antes de dizer que a preferência por livros de papel é preconceito de elite. Na verdade, mania de elite é pular dentro do mais novo gizmo, por caro que seja, e tentar alinhavar argumentos favoráveis à toa, dizendo que é isso o futuro; elite é quem gosta de ser a primeira em tudo. E de ser diferente das gentes comuns. É o senso de pertencer a uma noção de elite que faz as pessoas comprarem os primeiros celulares, os primeiros notebooks, os primeiros blu-ray players, e sair do Orkut quando a favela coloca sua cadeirinha de praia por lá. Foi essa elite que comprou laser discs, e foi enterrada junto com eles. Nada contra: são elas que ajudam a baratear os custos para quem vem depois.

No seu comentário aqui no blog, ele disse que “bibliotecas são um pesadelo para bibliófilos”. É uma pequena contradição em termos, e acredito que ele tenha querido dizer “bibliotecários”, porque falar isso dos pobres bibliófilos é como dizer que descer corredeiras perigosas são um pesadelo para rafters, ou que escalar o Everest é um pesadelo para alpinistas. O Kenji não sabe, mas aqueles a que ele se refere como “bibliófilos de verdade”, como o José Mindlin, são capazes de dar milhares de reais em um livro que, em outra edição, não custa mais de 15, e de alugar apartamentos exclusivamente para isso. Definitivamente, esse não é um mundo que o Kenji entenda. Como eu não entendo aquele em que as pessoas correm feito mariposas em direção à luz normalmente efêmera da mais nova novidade.

Eu, que estou longe do nível de obsessão de um Mindlin mas que gosto de livros e de um certo acúmulo deles, não entendo quando o Kenji diz que “manter uma biblioteca minimamente organizada costuma ser uma tarefa de leão (logo, todo bom leitor vê um livro eletrônico com bons olhos por motivos puramente práticos)”. Organizar uma biblioteca com cerca de 1.500 volumes, que é a capacidade do Kindle, pode até tomar algum tempo, que não passa de um dia; mantê-la organizada, não.

Mais que isso, é um prazer: pergunte à minha mulher como fiquei ao receber em casa uma edição especial de crônicas do Rubem Braga ilustradas pelo Millôr, dia desses. O problema de bibliotecas é o espaço que ocupam. Só esse.

No fim das contas, a falha do argumento do Kenji é que ele transporta a discussão para a comparação entre os suportes e faz excessivos juízos de valor sobre isso. E nisso, o Sergio Leo e o Millôr, no link do Marcus, já me parecem ter dado a palavra final.

O fm disse que jogou um livro na piscina e ele se desintegrou, empatando o jogo. Mas ele poderia ter feito diferente: jogado um balde d’água no livro e um no Kindle, e visto qual se recuperava melhor. 3×2. Ou melhor, 4×2, se ele resolver jogá-los do sétimo andar, como lembrou o Joãogi. Eu já tive computador e vários livros molhados. Os livros ainda estão aqui. (A propósito, também tive muitos discos molhados, uma vez. Perdi as capas, que grudaram umas nas outras, e isso me dói até hoje; mas o vinil continua. Se fosse o HD onde guardo minhas MP3, eu perderia absolutamente tudo.)

Dentro dos argumentos pró-livro, tem um que as pessoas esqueceram. Em casa eu tenho disquetes de 5 1/4”, mini-discs, Zip Disks, fitas VHS, Betacam e MiniDV. São todas mídias com menos de 15 anos. Dessas, só consigo abrir com facilidade as fitas MiniDV — mas está cada vez mais difícil achar onde tocá-las: elas estão caminhando para a extinção, o mesmo caminho que será trilhado por aqueles discos das XDCam que as estão substituindo.

Mas esses argumentos falam do suporte. O problema na verdade é mais grave. Tente abrir um arquivo do Word de 1992 — isso se você tinha a sorte de usar o Word naquela época, e não outro programa como o Carta Certa ou o Write do Windows. Meu computador está cheio de formatos superados, e o ritmo de obsolescência de formatos às vezes até dominantes chega a parecer absurdo. Formatos de vídeo, de áudio, tudo isso aparece e some com rapidez excessiva.

Um livro publicado em 1789 é lido da mesma forma hoje.

A principal vantagem do Kindle é a portabilidade, mas mesmo isso é razoavelmente ilusório. A idéia de que com um negocinho que pesa umas poucas centenas de gramas você pode levar milhares de livros para cima e para baixo é uma bobagem, pouco mais que argumento básico de equipe de vendas. Por ninguém sai carregando 20 livros para cima e para baixo, pela simples razão de que não vai ler tudo isso. Quando carregam, levam apenas o que estão lendo. É como o sujeito que compra um iPhone porque ele manda e-mail, tem GPS, câmera e filmadora, acessa internet e tem joguinho de cerveja, e termina usando só para falar, mesmo. (Alguns casos são piores: meu Blackberry não tem e-mail habilitado porque tenho medo de terminar como um amigo, de férias em Natal e respondendo e-mail de trabalho.)

E portabilidade para quê, mesmo? No dia a dia, você carrega um livro, e olhe lá (e alguém aí pretende abrir o seu Kindle brilhando de novo no metrô enquanto vai de casa para o trabalho? Pretende mesmo? Tem medo não?). Se você está viajando, a última coisa que pretende levar são livros; no máximo alguns guias de viagem. Ainda estou esperando conhecer quem vá para Paris levando as edições completas da “Comédia Humana” na mala — sei lá por que razão, talvez para descobrir onde fica a pensão de Mamãe Vauquer. Se você conhece alguém que tenha feito algo parecido, eu posso indicar alguns endereços de Centros de Assistência Psicossocial. São do SUS, são gratuitos e funcionam bem.

Em outras situações a portabilidade é uma vantagem real do Kindle, mas apenas em condições específicas. Se você está acampando, por exemplo, seu Kindle durará umas poucas horas até a bateria acabar. Provavelmente não vai dar para ler “O Homem Sem Qualidades”. Já a edição de papel dura enquanto houver luz e você tiver paciência.

No fim das contas, o Kindle será útil mesmo para quem lê o seu livro em casa, como qualquer pessoa, e não quer gastar espaço com estantes. É um argumento válido, mas que está bem longe dessas maravilhas apregoadas, e acaba reduzindo bastante a aplicação real dessa pequena maravilha.

Eu, como sou um velhinho com cabelos mais brancos a cada dia, ainda prefiro meus livrinhos: velhos, baratos, ultrapassados — mas confiáveis, resistentes e, além de tudo, uma delícia para os olhos.