Ainda sobre o faroeste e sobre a ficção científica

Nos comentários à lista dos melhores westerns, o Roberto Procópio fez um comentário curioso:

acho que o espírito por detrás do western acabou quando começou a conquista do espaço, a nova fronteira, já que, comparativamente, não tinha mais sentido de valor a conquista de territórios na terra vis-à-vis a conquista espacial ou mesmo a inquitação com o futuro. Quem trocaria uma pela outra? Provavelmente o sentido de busca por alguma coisa desconhecida que o western propiciava deve ter sido descarregada em filmes como Aliens, ET, Jornada nas Estrelas, O Exterminador do Futuro, Planeta dos Macacos,etc. Ou seja, a conquista espacial e o próprio futuro forneceram material para a imaginação da indústria cinematográfica.

Um pouco depois, o André Egg fez outro bom comentário em alguns aspectos semelhante. Embora sob ângulos diferentes, os dois relacionavam o fim do faroeste à corrida espacial.

A princípio fiquei encantado com o argumento do Roberto, porque ele tem uma poesia que me fascina: a idéia da sucessão de tempos e de gêneros, do faroeste passando o cetro para a ficção científica. Mas pensando mais sobre o assunto, passei a achar que talvez não seja isso, por algumas razões.

Em que pese H. G. Wells, ou eventos como a transmissão da versão de Orson Welles de “A Guerra dos Mundos”, eu sempre tive a impressão de que os principais responsáveis pela introdução da ficção científica no mainstream da produção cinematográfica americana foram a Feira Mundial de 1939 e a explosão da bomba atômica.

É difícil hoje aquilatar a importância da Feira Mundial em sua época. Seu impacto no cotidiano de Nova York está bem representada num bom livro de E. L. Doctorow, “A Grande Feira”. Mas muito mais importante que isso foi o seu papel na definição de uma imagem clara de futuro para toda a nação. Alguém já disse que aquele foi o último momento de fé absoluta da humanidade na tecnologia. As visões de futuro apresentadas ali (pode-se ver um dos seus últimos vestígios no primeiro “Homens de Preto”), devidamente popularizadas pela comunicação de massas, foram fundamentais na formatação do imaginário americano — e conseqüentemente mundial — acerca do que deveria ser o futuro, de robôs a espaçonaves. O mundo saía da Grande Depressão, Hitler ainda não havia invadido a Polônia e o futuro se apresentava maravilhoso.

Seis anos depois, o futuro e a tecnologia apresentariam outra face, menos agradável: o surgimento das bombas voadoras V-2 e da bomba atômica mostrou que nem sempre a tecnologia vem para melhorar a vida das pessoas. Além disso, em 1947 começou a febre dos objetos voadores não-identificados — e embora mundos extraterrenos e misturas insalubres de urânio e plutônio não pareçam, a princípio, complementares, são algo intimamente ligado à percepção de um mundo gigantesco de possibilidades abertas pela fissão do átomo. Essa sensação é definida com perfeição em “O Incrível Homem que Encolheu”, de 1957: a de que confrontado com esses novos desafios, o homem se tornava cada vez menor.

Mais do que a idéia de conquista de uma nova fronteira, essa dualidade entre bom e mau tornou, para aquela época, o espaço algo fascinante. Finalmente, a era espantosa de prosperidade vivida pelos Estados Unidos nos anos 50, a sensação de que a maior potência do mundo capitalista tudo podia e estava destinada a definir o futuro, tornavam mais próxima a noção do espaço. Além disso, os anos 50 pareciam estar a caminho de materializar as visões de futuro que tinham se cristalizado nas crianças dos anos 30. Era quase uma certeza, para muita gente, que era daquele jeito prateado, espacial, nuclear que seria a nossa vida no ano 2000. Tudo isso junto fez com que o espaço e viagens planetárias se tornassem algo em que as pessoas pensavam, e esse novo nicho foi devidamente aproveitado por Hollywood. Isso deu coisas boas e ruins — basta lembrar de bisonhices como Plan 9 From Outer Space, de 1959.

(Vale a pena olhar esta galeria de telas de aberturas de filmes B. Os títulos são deliciosos — Devil Girl From Mars e Fire Maidens of Outer Space são apenas alguns deles. Além disso, mostram que foi nos anos 50 que o gênero desbundou totalmente.)

Tudo isso enquanto John Wayne enchia índios de bala. O auge comercial dos dois gêneros foi justamente os anos 50, simultaneamente. Naquela década, e no começo dos anos 60, meninos brincavam com pistolas espaciais de raios laser tanto quanto brincavam revólveres de espoleta.

Mas além dessa simultaneidade, há outra razão para que eu não concorde com essa idéia de “sucessão”. Não existiu, em nenhum momento, um antagonismo entre eles. Não são fronteiras que se sobrepõem. O faroeste reinventa um passado conhecido, enquanto a ficção científica olha para o futuro imaginado, e essas percepções podem conviver sem problemas.

O importante, aqui, talvez não seja tanto a conquista da fronteira, a verdadeira essência do faroeste. É, de um lado, a sedimentação da história americana, contada sob um prisma que mistura heroísmo, violência e um bocado de mentira. Do outro, sim — “o sentido de busca por alguma coisa desconhecida”, como disse perfeitamente o Roberto. Quando o cinema apareceu a grande marcha para o oeste já tinha acabado. A fronteira estava conquistada — e a cidade que se especializou naquela nova indústria estava justamente à beira do Pacífico.

O faroeste caiu em desuso, digamos assim, não porque a Apollo XI chegou à lua ou porque os russos lançaram o Sputnik. Acabou porque foi ordenhado até a exaustão. Porque nos anos 50 as pessoas cansaram de tantos westerns, sempre com a mesma estrutura narrativa e, principalmente, moral; as pessoas simplesmente cansaram — quem ainda agüentava ver Glenn Ford fazendo sempre o mesmo papel, ou mesmo Audie Murphy? No fim das contas, foram feitos tantos westerns, bons e medíocres, que o gênero simplesmente saturou o público e foi obrigado a migrar para a televisão, encontrando uma sobrevida em seriados como “Bonanza”, “O Homem de Virgínia” e “Chaparral” nos anos 60. Novas idéias (sem contar Sam Peckimpah, que é mais estilo do que realmente um novo olhar) teriam que vir de outro lugar. Vieram da Itália.

Basicamente, o faroeste não morreu porque um novo rei tomou o seu lugar. Ele morreu sozinho no seu canto, velho e esclerosado, lembrando de glórias passadas. Assim como a ficção científica acabou perdendo vapor porque, afinal de contas, aquele futuro demorava muito a chegar.

A guerra dos clones

Há um surto de doppelgängers por aí, afetando blogueiros da velha guarda. Foi o Bia quem me mostrou as evidências, desesperado, arrancando os poucos fios de cabelo que ainda restam. Uma epidemia de clones ameaça alguns blogueiros que ainda não desistiram de escrever blogs.

O Nelson Moraes tem um. É espírita. E espírita reconhecido, com livro e tudo. Um de seus livros se chama “Os Talentos do Tonhão e do Luizinho“. Os talentos do Tonhão eu imagino bem quais sejam, que ninguém é Tonhão à toa. Fico, no entanto, intrigado em relação ao Luizinho. O que um sujeito chamado Luizinho pode fazer, afinal? Luizinho, em tese, não tem talento para nada — só para ouvir “Luizinho, meu filho, vai ali na venda comprar um laxante que sua tia tá com aquele problema de novo!” Ninguém percebeu que o Bia, por exemplo, só assina o sobrenome?

Conviver com um doppelgänger desses deve ser duro para o Nelson de cá. Porque para ele é fácil fazer o que faz. Não há honra em escrever o que o Nelson escreve, porque seus textos só conseguem elogios, sempre. É como um peixe dizer que nadar é coisa do outro mundo, quando é tudo o que ele sabe fazer. Difícil mesmo é escrever livros com os títulos que o outro Nelson Moraes escolhe. É preciso muita coragem, uma valentia sobre-humana para escrever um livro chamado “Para onde iremos após a morte?”. “Pra casa do caralho!”, responde alguém, e outro gaiato grita “Pra puta que pariu!”, e então a gritaria sai de controle, alguém começa a jogar rolos de papel higiênico na sala, e como levar alguém a sério dessa forma?

Como não admirar, por exemplo, um livro como “Autista do Além”, um dos títulos mais fantásticos que eu já vi em toda a minha vida? Você já imaginou um autista no Além? Você sabe o que é isso? Tente falar isso em voz alta sem rir. Viu? É impossível.

O Nelson de cá que me desculpe, mas macho mesmo é o Nelson de lá. Aquilo é que é coragem. Tivesse o Nelson de cá nascido em Goiás e eu relativizaria tudo isso — porque é preciso fibra para dizer em alto e bom som, “Eu sou goiano!”. Mas o Nelson nasceu em outro lugar. (Descobrir que o Nelson não nasceu em Goiás me faz perder metade das possibilidades de sacanagem com ele. Por isso, exijo que a Assembléia Legislativa dê ao Nelson o título de cidadão goiano. É justo. Ele é um goiano melhor que o Iris Rezende e, além de tudo, melhoraria consideravelmente a reputação duvidosa dos goianos.)

O caso do Nelson é triste, mas não é o pior. Veja o Alex, por exemplo.

O Alex tem um bocado de alter egos. Não é para menos: com um nome desses, devem nascer clones às pencas mundo afora. Eu sempre achei que Alex Castro é nome de decorador de festa de subúrbio, mas a verdade é que esse é um típico nome latino. Bata no Google: sob o nome Alex Castro aparece de tudo: de DJ brasileiro a traficante colombiano.

Um dos tantos clones do Alex é um lutador cubano com cara de michê de atriz velhinha da Globo. Tem a mesma boca do Alex, então eu presumo que é filho do seu pai com uma jinetera cubana. Essas coisas acontecem nas melhores famílias. Uma noite, uma garrafa de Havana Club, o esquecimento conveniente e temerário da camisinha: e eis no mundo mais um Castro. Além disso, o pai do Alex é baiano — o que explica uma porção de coisas.

O Alex de lá é o Caim do Alex/Abel de cá. É mau enquanto Alex é doce. Dá a cara para bater enquanto o Alex não deve ter entrado em uma única briga na vida. É o protótipo do macho latino enquanto o Alex se envergonha de ser heterossexual. O Alex Castro cubano é o nosso Alex no espelho. E por saber disso, a partir de agora nada vai tirar de mim a certeza de que o Alex foi para Cuba e se envolveu em todas aquelas aventuras, ano passado, em busca do seu irmão, o elo familiar perdido. Há meses venho lutando contra a vontade de escrever uma novela narrando as aventuras do Alex em Cuba; talvez o surgimento do seu irmão esquecido seja um sinal me dizendo que eu devo finalmente escrever essa joça.

A desgraça do Bia é ainda maior. O seu nome é um erro de tabelião analfabeto, como tantos por aí — e o seu pai provavelmente estava bêbado como o pai do Alex, e esqueceu de corrigir o equívoco. O nome do resto da família é Biagioni, nome bem mais comum, e essa deveria ser a garantia de que ninguém ia se meter a besta em arranjar um clone onomástico. O Bia se julgava a salvo — bobo, não sabe ele que ninguém está a salvo neste mundo? Ninguém pode imaginar a satisfação com que o Bia fazia ego searchs no Google e só via referências ao seu próprio nome. O Bia era único.

Não mais. Porque contra todas as chances um católico também chamado Biajoni deu as caras na blogoseira. Seu blog se chama “O Brasil Avivado“. O Brasil eu não sei, mas todas as beatas na sacristia da Igreja de Nossa Senhora d’Ajuda têm um orgulho danado do blog do outro Biajoni. O sujeito é católico-mas-católico-mesmo, com retrato de Bento XVI na parede, provavelmente.

Isso é uma ironia impressionante. Quando bebe, o Bia fica provocando a ira de Deus, falando besteiras que fazem sua avó macumbeira se persignar freneticamente. Mas o Bia é sub-reptício, não vai para o confronto direto como, por exemplo, o Alex (que só deixa de ser ateu no dia que provarem que Deus é preto). Por isso, Deus resolveu fazer com ele a mesma sacanagem sutil que o ímpio do Bia faz com Ele: pôs no seu caminho um homônimo improvável. Tão improvável que o blog do sujetio está na Canção Nova. É o troco de um Deus debochado. O Bia entende tão pouco dessas coisas de Deus que chegou a achar que o Carlos Biajoni é evangélico — e lá está o Senhor em seu trono rindo da cara do Bia, dizendo “toma nas fuças, cachorro!”.

Era aqui que eu queria terminar este post, sacaneando o Nelson, o Alex e o Bia. Mas agora fico sabendo que apareceu mais um clone para mim. Eu já tinha que me ver às voltas com um homônimo aqui na minha terrinha de cajueiros e papagaios; agora me vejo às voltas com outro Rafael Galvão. Há uma inflação de rafaéis por aí, e essa inflação diminui o valor do meu nome e achata o meu capital onomástico. Longe vão os tempos em que eu encostava numa Maria qualquer e ela dizia: “Rafael? Mas que nome lindo!” Agora, se eu fosse fazer isso, a resposta seria diferente: “Ah, Rafael é o nome do cachorro de minha tia. Mas você não é Galvão, não, né?”

Piorando as coisas para mim, o sujeito é poeta. Dorme, o desgraçado, com a minha inimiga. Dá vontade de dizer para o Amaral: olha, poeta, um Rafael melhorado!, mas eu ainda continuo com a minha política de dar rasteiras nas musas, aquelas vadias, e andar para a poesia. É por isso que não posso então gostar do novo Rafael que me apareceu. Se fosse só blogueiro, tudo bem, que ser blogueiro é desgraça pouca. Mas o sujeito é poeta. Vai arruinar minha reputação de homem sem poesia e sem beleza interior; o poeta Rafael Galvão pode fazer com que pessoas que eu não conheço digam: “ah, o Rafael Galvão? Ele tem uns poemas excelentes.” (Ou, pior, podem dizer: “Rafael, aquele poeta de merda? O sujeito é ruim demais.” Alea jacta est.)

É por isso que eu fico com inveja do Idelber. Segundo o Bia, o Idelber tem um nome tão desgraçado que ninguém teve coragem de copiar. Tem um vidraceiro por aí chamado Idelber Paganoto, mas não é mesma coisa — Rafael Oliveira, Rafael da Silva não me incomodam, esse Idelber não deve incomodar o Avelar. O problema é nome e sobrenome juntos, de uma só vez, o pacote completo. Roubem o meu nome, eu não ligo — na verdade esse meu também foi roubado — mas não roubem o patronímico. Porque eu achava que era essa combinação que me fazia único; essa combinação e a doçura que mamãe me deu. Agora só me resta a doçura.

Olhando esses clones todos, eu fortaleço a minha teoria que um doppelgänger é uma sacanagem da natureza, destinada a a baixar nossa auto-estima. E sim, estou dizendo aqui, com todas as letras, que sou melhor que o meu homônimo. Acho isso com sinceridade, do fundo do coração e com pureza d’alma. Mas, honestamente, tenho que admitir que é exatamente o que eles podem também dizer, com a mesmíssima razão: que são melhores que eu. O clone do Bia, por exemplo, pode olhar para ele e dizer: “Eu com o mesmo sobrenome dessa titica, Senhor? Ah, as provações pelas quais Satanás nos faz passar…” O Rafael Galvão que é poeta pode estar pensando: “Puta que pariu, eu aqui dando duro para para achar o alexandrino perfeito e lá vem esse babaca botar o meu nome na lama.”

É a minha vingança e o meu consolo. Os clones vão ter que passar pelas mesmas agruras pelas quais nós passamos. O Carlos Biajoni deve ter a mesma vergonha queo Bia sente ao olhar para ele, ex-viciado em Viagra e fã do Lou Reed. O Nelson Moraes médium pode pensar “Porra, tinha que ser goiano? Só pode ser um obsessor! Valha-me, meu Bezerra de Menezes!” E eu, bem, eu me contento em saber que envergonho o outro Rafael Galvão com a minha mera existência.

Estamos bem mesmo sem você

Ultimamente, ir ao cinema tem sido basicamente uma boa experiência de lazer. Filmes no máximo razoáveis se sucedem, precedidos por elogios hiperbólicos da crítica que parecem emergir de um grande lago de baixos padrões. Oferecem hora e meia, duas horas de suspensão da descrença, como produtos eficientes da indústria cultural que são — e quase todos eles vão se diluindo na memória a partir do momento em que saímos do cinema.

Uns poucos nos últimos tempos, nos últimos dois anos, por exemplo, conseguiram o contrário, crescer à medida em que se pensa neles. Coloque-se aí nessa pequena lista “A Professora de Piano”, uma tour de force de Isabelle Huppert dirigida por Peter Haneke, e “Medos Públicos em Lugares Privados”, de Alain Resnais; talvez mais um ou dois. O resto é esquecível — e aqui incluo mesmo filmes elogiadíssimos como WALL-E e The Dark Knight.

Mas quanto mais penso em “Estamos Bem Mesmo Sem Você” (Anche Libero Va Bene, 2006), mais ele revolve na minha cabeça.

O filme, estréia do ator Kim Rossi Stuart na direção, conta a história de Renato (o próprio Stuart) e seus filhos, Viola (Marta Nobili) e Tommaso (Alessandro Morace). A mãe das crianças, Stefania (Barbara Bobulova), os abandonou. Mais tarde ficaremos sabendo que esse é um comportamento recorrente dela, sempre abandonando a família quando conhece um homem rico — e sempre voltando arrependida para eles, depois do término de sua aventura.

Sem a figura materna, aquela pequena família se ajustou perfeitamente. É uma família moderna comum, como tantas outras, longe do ideal clássico familiar mas, de certa forma, perfeita em suas imperfeições.

Então Stefania volta, no que é uma das cenas mais competentes do filme: a surpresa de Renato ao encontrá-la em casa com os filhos não é mostrada imediatamente. Um diretor menos competente mostraria o susto no rosto do marido abandonado. No entanto, Stuart mostra apenas a ansiedade de Stefania e dos filhos, angustiados diante da expectativa sobre a reação de Reanato.

A decisão de aceitá-la de volta é conturbada, mas pertence a toda a família. Aceitar Stefania de volta é um peso que Renato não quer carregar sozinho. Viola a aceita sem reservas, feliz por ter a mãe novamente ao seu lado, algo perfeitamente compreensível em uma pré-adolescente. Mas Tommaso se retrai. Ele sabe o que vai acontecer: “Ela vai embora de novo”, diz para o pai, e no fundo todos sabem disso.

Agora estamos diante de uma pequena tragédia anunciada, mas em função do bem-estar da família, e da sua adequação ao modelo que eles julgam ideal, a esperança daquela pequena família precisa vencer a certeza da derrocada certa; e esse comportamento é mais claro em Viola. Há aí uma pequena inversão do modelo familiar tradicional: é a presença materna que se transforma em um elemento de desagregação familiar. Mas, ao mesmo tempo, essa nova situação deixa perceber que aquela tranqüilidade do início talvez não fosse tão tranqüila, que no quebra-cabeças que parecia harmonioso havia uma peça faltando, ainda que não se notassse claramente.

Mais tarde, Tommaso vê a mãe conversando com um homem numa festa, e o espectador percebe sua angústia crescente. Tommaso sabe o que vai acontecer, sabe que ela vai embora novamente. E isso acontece quando pai e filhos estão voltando para casa. Da rua, Tommaso vê as luzes do apartamento apagadas. Já no elevador ele fala para o pai e a irmã: “As luzes estão apagadas”. A pergunta a ser feita não é dita. Sobra apenas agonia, medo. E ali estão eles, na porta de um apartamento escuro, com medo de entrar para descobrir o que já sabem. É uma das mais belas cenas do filme.

O diretor Stuart não cai no erro de condenar explicitamente Barbara por seu comportamento. Mostra o seu esforço sincero em se adaptar à vida familiar. Seu amor por seus filhos é legítimo, e talvez também seja legítimo o seu amor por Renato. Stuart se revela um diretor competente e sensível, embora sem muitos arroubos estilísticos. Talvez por isso, por deixar que a história se conte por si mesma, ele permita que o grande trunfo do filme acabe sendo o desempenho fantástico de Alessandro Morace no papel de Tommaso. Morace consegue transmitir as emoções de Tommaso com facilidade e economia, e acima de tudo com uma verdade e naturalidade raras em atores infantis.

Um dos poucos críticos a reclamar do filme classificou-o como melodrama. Como se melodrama fosse algo ruim — alguém pode classificar, por exemplo, “Rocco e Seus Irmãos” como mais que isso, com suas mulheres se jogando aos pés de filhos mortos, com amantes se matando? A tradição operística italiana não pode prescindir do melodrama. Mas mesmo essa crítica é injusta com o filme. Dono de uma sensibilidade rara nos dias de hoje, em que o bombardeio dos sentidos se tornou a norma no cinema — mesmo em filmes inteligentes como “Onde os Fracos Não Têm Vez” –, “Estamos Bem Mesmo Sem Você” consegue ser delicado sem ser afetado, e tirar de momentos grosseiros a poesia necessária. Isso o ergue acima do melodrama comum.

É essa relação entre o menino e o seu universo que faz o filme. O esforço em contemporizar, em agradar o pai ao mesmo tempo em que tenta levar adiante a sua vida da maneira mais normal possível — um dilema expresso pelo título original do filme — acaba se tornando o cerne do filme. “Estamos Bem Mesmo Sem Você” é uma história de compromissos: consigo e com a família.

***

E é isso. Feliz Natal e um grande Ano Novo para todos.

The Beatles Virtual Museum

Durante muito tempo, imaginei escrever uma série de posts sobre cada álbum dos Beatles.

Teria um texto sobre cada um, incluindo seu contexto histórico, a descrição de cada canção com datas de gravação e mixagem, autor, lista de músicos, letras e cifras, e eventualmente um link para um arquivo qualquer — no caso dos covers, para as gravações orginais, apenas para mostrar como os Beatles conseguiam, na maior parte dos casos, recriar de maneira surpreendente cada canção; no caso das composições próprias, links para versões piratas diferentes, essas coisas.

Nunca fiz isso porque nunca tive muito tempo vago, nem paciência para compilar esses dados ou para escrever algo decente.

Só que agora eu não preciso mais. O The Beatles Virtual Museum é um belo site sobre os Beatles. Dados, imagens e, acima de tudo, links para muitos discos piratas.

Os 10 melhores westerns

O western é o mais puro gênero cinematográfico. Todos os outros tinham tradições anteriores respeitáveis na literatura ou até mesmo no teatro: drama, comédia, épico, aventura, romance, ficção científica. O faroeste, por sua vez, só tinha as dime novels do fim do século XIX, puro lixo literário; quando muito, teve o show de Buffalo Bill. Foi apenas no cinema que o gênero pôde se realizar completamente; provavelmente porque, nele, o lugar é personagem fundamental da trama. Só ali, naquele momento histórico e naquele ambiente amplo, o faroeste tem sua razão de ser; e isso só poderia ser mostrado adequadamente no cinema.

O western cumpriu um papel importante na formação americana. Ajudou o país a mitificar sua própria história, emprestando a ela a tradição e respeitabilidade que sua trajetória ainda curta lhe negava. Mais de uma pessoa já falou em como os EUA recriaram, na saga da conquista do oeste, as histórias medievais européias de cavaleiros galantes e nobres. Em vez de escudo, um chapéu; em vez de espada, um Colt Peacemaker.

Por isso resolvi fazer uma listinha dos 10 melhores faroestes da história, por ordem cronológica:

No Tempo das Diligências (Stagecoach, John Ford, 1939)
É o início de tudo. Em um momento em que o western primitivo de Tom Mix e Roy Rogers tinha entrado em decadência, Stagecoach marca a estréia, em sua forma definitiva, de praticamente todos os elementos constitutivos do faroeste moderno: o primeiro grande filme de John Wayne e de John Ford, o primeiro filmado em Monument Valley, e todos os recursos dramáticos que mais tarde seriam usados à exaustão no gênero que chegou a ser o mais popular no mundo inteiro. Stagecoach é o marco inicial do faroeste, e isso não é pouco.

Rio Vermelho (Red River, Howard Hawks, 1948)
Talvez o maior faroeste de um diretor que os fez em quantidade e com qualidade, Red River é um retrato de um fenômeno efêmero da história do oeste: os verdadeiros cowboys originais, tropeiros que levavam gado de um canto a outro nos primórdios das ferrovias e que, na verdade, tiveram vida bastante curta. É esse o cenário que emoldura uma disputa ao mesmo tempo grosseira e sutil entre pai e filho, vividos por John Wayne e Montgomery Clift, perfeitamente conduzida por Hawks.

Matar ou Morrer (High Noon, Fred Zinnemann, 1952)
Embora tenha sido concebido como metáfora e denúncia do mccarthismo, o que realmente interessa em High Noon é a parábola densa sobre coragem e sobre o valor do indivíduo diante daquilo que a vida lhe cobra. É um faroeste um tanto atípico, mas que acaba reforçando os valores intrínsecos do gênero, como o heroísmo diante da adversidade. É também cheio de detalhes sobre o perfil psicológico dos protagonistas, bem ao gosto de Zinnemann. Talvez um dos faroestes mais inteligentes — do tipo novaiorquino de inteligência.

Os Brutos Também Amam (Shane, George Stevens, 1953)
Tem gente que acha esse o maior western de todos os tempos, como o Paulo Perdigão, que antes de morrer até escreveu um livro inteiro sobre ele. Tem gente que não, como o Bia. Independente disso é um filme brilhante, inquestionável. Shane é propositadamente arquetípico e esquemático, narrado através dos olhos de uma criança. É um faroeste definitivo, que consolida as convenções do gênero de maneira singularmente bela.

Rastros de Ódio (The Searchers, John Ford, 1956)
Quanto mais vejo este filme, mais deslumbrado fico com a maestria absoluta de John Ford. Da seqüência inicial, com Dorothy Jordan abrindo a porta — a porta pela qual John Wayne está condenado a jamais entrar, metaforicamente —, à última cena, em que outra porta se fecha, o que John Ford entrega é provavelmente um dos mais perfeitos westerns de todos os tempos, em que tudo se casa à perfeição: roteiro, fotografia, atuações — é, provavelmente, a melhor atuação de John Wayne em toda a sua carreira. Uma obra prima absoluta.

Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, Howard Hawks, 1959)
Concebido como uma resposta direitista a High Noon, “Onde Começa o Inferno” é provavelmente o último grande filme de Howard Hawks. Tão bom que ele meio que o refilmaria alguns anos mais tarde em Eldorado, com Robert Mitchum no lugar de Dean Martin e James Caan no lugar de Ricky Nelson. Um faroeste clássico, com a divisão entre bons e maus extremamente clara, e uma performance inesquecível de Dean Martin.

Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, John Sturges, 1960)
Refilmagem de um filme de Akira Kurosawa, “Sete Homens e um Destino” incidentalmente definiu um padrão que vários filmes de ação dos anos 60 seguiriam: uma espécie de versão em celulóide do jogo de tabuleiro “resta um”: depois de uma longa preparação, boa parte dos protagonistas morre um a um, no clímax do filme. O modelo foi seguido por filmes como “Os Doze Condenados”, de Robert Aldrich, e “Fugindo do Inferno”, do mesmo Sturges.

O Homem que Matou o Facínora (The Man Who Shot Liberty Valance, John Ford, 1962)
É filme que marca o fim do ciclo americano do western. Uma visão mais madura de sua lenda, em retrospecto, que poderia ser resumida por uma das frases finais do filme: “Entre o fato e a lenda, imprima-se a lenda” (ou algo parecido). É a redenção tranqüila da formação da mitologia americana, em um filme absolutamente brilhante e sensível.

Três Homens em Conflito (Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, Sergio Leone, 1966)
Depois do esgotamento total no início dos anos 60, quando praticamente todas as possibilidades criativas do western tradicional foram exploradas, coube ao italiano Sergio Leone renovar o gênero com a “Trilogia do Dólar” que este filme encerra. (Os outros filmes são “Por Um Punhado de Dólares” e “O Dólar Furado” “Por Uns Dólares a Mais”). Transportando a ação da grandiosidade de Monument Valley para a aridez da região de Almería, na Espanha, o spaghetti western transformou o gênero definitivamente e o levou um pouco mais além, dando-lhe uma sobrevida que seria impossível nos Estados Unidos. De versão americana dos contos de cavaleiros andantes na recriação de sua história, o faroeste passou a ser a visão européia da moral dúbia da vida na fronteira. Leone acrescentou a tudo isso um certo tom operístico, que levou o western ao seu último estágio.

Era Uma Vez no Oeste (C’era Una Volta Il West, Sergio Leone, 1968)
Mas é em “Era Uma Vez no Oeste” que Leone eleva ao ápice sua visão da conquista do oeste como pedra fundamental da civilização americana — uma visão amorosa, reverente, mas ainda assim extremamente crítica. É um dos poucos faroestes a ter como personagem central uma mulher, e é ainda melhor que Johnny Guitar, por exemplo. E a música de Ennio Morricone sedimenta, de maneira inigualável, esta grande “ópera da morte”, como já definiram este filme.

Os Imperdoáveis (Unforgiven, Clint Eastwood, 1992)
Foi Eastwood quem retirou o western de sua tumba e conseguiu dar-lhe um último grande filme, sobre velhos pistoleiros cumprindo uma última missão. O tom amargo e niilista do filme não se refere apenas a velhos pistoleiros imperdoados em seus finais de vida; mas a todo um gênero. “Os Imperdoáveis” é um epitáfio adequado a um gênero que nasceu com o cinema e, de certa forma, se tornou maior do que ele.

(É, eu sei que tem 11 filmes aí. Acontece. Eu nunca fui bom em matemática.)

O entardecer do fauno

Confesso que ando muito preocupado com o Hermenauta. Um post deu o sinal de que algo está muito errado com o meu amigo:

My own private Cicero
“Velhice” é quando aquelas limitações que você imagina provisórias se revelam mais permanentes do que você gostaria.

É de uma tristeza pungente esse pequeno post do Hermenauta. Ali está, em tons contidos e quase cartesianos, como convém a um engenheiro, toda a dor da velhice. No começo dava para agüentar. Uma falha aqui, outra ali, isso poderia acontecer de vez em quando. Sim, ele diria “Isso nunca me aconteceu antes, querida”, e ela fingiria que acreditaria; mas quando tal limitação se revela permanente não há mais espaço para desculpas; apenas um olhar triste e desconsolado, nada mais que isso, e então palavras são desnecessárias. A tristeza absoluta dispensa explicações.

Em outros tempos, voando para Paris, o Hermenauta procuraria os banheiros do avião para seguir o exemplo de Emanuelle. (Se você não sabe quem foi Emanuelle, não se preocupe. É do tempo do Hermenauta.). Hoje ele apenas se contenta em observar o vaivém de passageiros dispostos a alguma diversão em uma longa e tediosa viagem transatlântica, e a consciência de que o seu tempo não é mais aquele o faz filosofar e lembrar de Cícero.

Velhice é uma coisa medonha, porque embora nunca venha de repente, ninguém está preparado para ela. Ninguém sabe, de verdade, o que são as dores crônicas, a sucessão de problemas, as impossibilidades tantas antes de vivê-las. Velhice é pior que a morte, porque depois da morte você não fica mais pensando no que deixou de fazer, ou no que não pode mais fazer. Na velhice, não. Na velhice o sujeito se alimenta de suas próprias memórias. O Hermenauta, por exemplo, fica relembrando os bons tempos no Posto 9.

Pior do que as falhas, pior do que nervos e vasos cavernosos que se recusam a obedecer as ordens do cérebro e seguir os conselhos das mãos, é citar Cícero. Só os antigos citam Cícero. O velho professor de latim: “Os romanos, senhor! Os romanos eram batutas!” Mas Cícero não era tudo isso que dizem dele. É só lembrar que Marco Antônio teve mais trabalho para domar Cleópatra do que para dar cabo do velhote. Quando alguém em meio à tristeza da impossibilidade lembra de Cïcero, é porque não há mais jeito. Está velho, irremediavelmente velho, e tudo o que seu corpo cansado e dolorido pede é uma cadeira de balanço, onde possa acalentar lembranças gloriosas de um passado cada dia mais distante.

Ao mesmo tempo, velhice por si só não é o grande problema. Todos nós, se tivermos sorte, ficaremos velhos. O problema é quando o coração continua jovem, e sente desejos com os quais seu corpo não é mais compatível. Nesses casos a gente cita Cícero. E às vezes, como no caso do Hermenauta, uma certa angústia se manifesta. “Por quê?”, ele se pergunta, “Por que o Grande Designer me deu a experiência necessária somente agora, quando este velho corpo já não responde aos meus desejos?

Resta afirmar então que o círculo da vida (imagine agora a trilha de “O Rei Leão” enquanto lê isso) é sábio. Adolescentes correm atrás de mulheres mais velhas porque elas são mais experientes e normalmente financeiramente independentes, o que torna tudo mais fácil; velhos babam por ninfetas como Scarlett Johansson, peitos enormes que sublimam de maneira profana todo e qualquer complexo de Édipo porque a experiência lhes ensinou que a juventude e a firmeza de carnes são um valor tão desejável quanto efêmero. Mas se é sábia, a natureza não é justa; e por isso o Hermenauta hoje lamenta a sua sina.

Sabe, há histórias que a gente pode contar sempre para dourar essa pílula indigesta. Eu sempre lembro de Rossano Brazzi em “A Condessa Descalça”, vítima de um tenebroso acidente de guerra (e obviamente corno, que capado nenhum casa impunemente com a Ava Gardner). Há uma certa dignidade senil nesses casos — era Aristóteles quem dizia dar graças pelo arrefecimento de seus desejos? Por isso, da próxima vez em que o Hermenauta se vir compelido a inventar uma justificativa, ao invés de desfiar a velha ladainha do “isso nunca me aconteceu antes”, bem poderia colocar a culpa no Bush. “Foi em Mosul. Uma patrulha nos escoltava até o lugar onde iríamos construir uma torre de celular quando…” Irromperia então em lágrimas, soluçaria, mas cuidando em manter a dignidade masculina. Ele vai dar, assim, uma história de que a moça se lembrará pelo resto da vida — e que se tenha a certeza de que ela vai contar essa história ao seu novo namorado, suada e arfante, daqui a alguns dias. Por isso, recomendo ao Hermenauta apenas pegar moças burrinhas — porque uma mulher inteligente vai entender tudo, e a história que ela contará ao namorado será diferente: “Mô, peguei um velho broxa uma vez, tu não imagina o caô que ele tentou jogar em cima de mim”.

Uma vez, ouvi um velhinho no ônibus falar ao cobrador: “Meu filho, no dia que o pau cair, os dedos entrevarem e a língua enrolar, eu dou a bunda, mas da sacanagem eu não saio.” E já que a velhice despertou no Hermenauta todo o seu latinório, não custa lembrá-lo de que outro grande romano, um romano maior que Cícero, o Adriano original, arranjou para si um Antínoo. É nisso que dá andar com esses romanos.

Oitenta anos de esquecimento

A data passou em branco, como sempre. No último sábado, um dos acontecimentos mais trágicos da história da América Latina completou 80 anos. Ninguém lembrou.

Depois da missa dominical do dia 6 de dezembro de 1928, os trabalhadores da United Fruit em Ciénaga, Colômbia, aglomeraram-se na praça principal da cidade, acompanhados de suas famílias — velhos, mulheres, crianças. Estavam em greve.

A United Fruit era uma das principais multinacionais americanas, e tinha construído seu império produzindo e exportando bananas a partir dos países da América Central. Nos 40 anos anteriores, ela já tinha transformado quase toda a região em um amontoado de repúblicas de bananas, todas sob o seu controle. O termo tinha sido criado no início do século por O. Henry no romance Cabbages and Kings, abertamente inspirado no modus operandi da United Fruit, e se referia a todos aqueles países em que a empresa tinha influência tão grande que definia seus governos em função de seus próprios interesses. Com a conivência do governo dos Estados Unidos, a United Fruit já tinha patrocinado vários golpes de Estado em países como a Nicarágua, tinha invadido Honduras, e quase conseguiu fazer com que Honduras e Guatemala entrassem em guerra por uma questão de terras em suas fronteiras — pertencentes à empresa, claro.

Todo esse poder era possível porque a United Fruit se apropriava de boa parte da economia dos países onde estava presente — sem contar, claro, um alto nível de corrupção e chantagem. Se aliava a ditaduras, controlava porções imensas de terras. Com o discurso do desenvolvimento nacional, construía ferrovias com dinheiro público mas sob sua propriedade, e controlava boa parte da infra-estrutura desses países desgraçados.

No dez anos anteriores, as greves dos empregados da United Fruit tinham mudado de caráter. Das reivindicações puramente salariais do início, tinham evoluído para abranger também propostas políticas, incluindo a nacionalização das suas ferrovias. Os americanos viam nisso uma grave influência bolchevique, porque apenas comunistas ferrenhos poderiam ser contra um modelo que só trazia benefícios para paisinhos como aqueles.

Entre os benefícios trazidos pela United Fruit estavam os empregos de milhares de trabalhadores centro-americanos. Recebendo salários de fome e vivendo em condições sub-humanas, os trabalhadores não recebiam seu pagamento em dinheiro: em vez disso, a empresa os pagava com vales, que só podiam ser trocados nas suas próprias lojas. Esse sistema, no Brasil, é conhecido por “barracão”; no resto do mundo é chamado simplesmente de semi-escravidão.

É fácil imaginar o discurso da elite colombiana naqueles bons tempos. Aquilo era desenvolvimento, era livre-iniciativa, a United Fruit trazia a modernidade. Mesmo em países fora da esfera de controle da United Fruit, como o Brasil — que nunca pôde ser considerado uma “república de bananas” –, esse era o discurso prevalente; em grande medida, é até hoje. Infelizmente ele não era compartilhado pelos empregados da United Fruit, que trabalhavam de sol a sol, com o perdão do trocadilho, a preço de banana. Nem seria compartilhado por quem via na ação nociva de multinacionais como a United Fruit a destruição institucional de países inteiros, seu empobrecimento, o fim de sua soberania e sua desmoralização mais que absoluta.

Naquela greve em Ciénaga as reivindicações dos trabalhadores deviam ser mesmo coisa de comunista: um dia de folga por semana, tratamento médico médico gratuito e, finalmente, banheiros de verdade, que só existiam nas casas dos supervisores — quase todos americanos. Queiram também jornadas um pouco menores de trabalho, absurdas oito horas. E queriam o supremo ultraje de receber seus salários em dinheiro de verdade.

O problema da United Fruit era, obviamente, também problema do governo colombiano. Bogotá enviou tropas para Ciénaga.

Naquela noite de 6 de dezembro, com os trabalhadores e suas famílias na praça principal de Ciénaga, os soldados se posicionaram nos telhados dos edifícios dos cantos da praça, com metralhadoras. Abriram fogo. A ordem expressa era de não economizar munição.

O primeiro relato sobre o número de vítimas dizia que cerca de 50 trabalhadores haviam sido assassinados. O segundo aumentava esse número para algo em torno de 600. O relatório enviado pela embaixada americana na Colômbia, em janeiro de 1929, estimava em mais de mil o número de mortos. A fonte desses dados era a própria United Fruit. É possível imaginar que o número de vítimas tenha sido muito maior.

Governo, imprensa e United Fruit puseram uma pedra nesse assunto, e ele raramente voltou à tona novamente. O povo colombiano especulava sobre o destino dos corpos. Uns diziam que a United Fruit os tinha enterrado em valas comuns na floresta; outros, que ela tinha colocado os cadáveres em navios da companhia e os jogado ao mar. Criou-se uma lenda em torno do assunto, ainda mais persistente quanto mais proibido era.

No ano seguinte, numa cidade vizinha, Aracataca, nasceria um homem que, mais tarde, contaria essa história em seu principal livro. Seu avô, parlamentar, tinha sido um dos poucos a denunciar os horrores de Ciénaga. O menino cresceu ouvindo histórias sobre o massacre. Mudaria o nome da cidade para Macondo, e seu livro se chamaria “Cem Anos de Solidão”.

Mas ninguém mais lembra disso. Não foram necessários cem anos; bastaram oitenta para o seu esquecimento.

Uma pequena bibliografia dos Beatles

Uns anos atrás publiquei aqui uma pequena bibliografia dos Beatles. Alguns anos e alguns livros depois, chegou a hora de atualizar a lista.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewinsohn
Comissionado pela EMI como parte das comemorações do seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são até hoje. The Complete Beatles Recordings é um diário de todas as sessões da banda, provavelmente o livro mais acurado que já se escreveu sobre ela. Infelizmente fora de catálogo há muitos anos, se tornou a bíblia dos beatlemaníacos, o livro a que se recorre para dirimir dúvidas. Ainda espero a chance de colocar novamente minhas mãos sobre um exemplar, é o único fundamental que falta na minha estante. Os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações. O livro mostrou ter lacunas, e mesmo alguns erros pequenos. Mas continua sendo o livro mais importante já escrito sobre o dia-a-dia dos Beatles, e necessário para que se entenda a dinâmica que fez da banda a maior de todos os tempos. Nunca foi lançado no Brasil.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewinsohn
Lançado depois do Complete Beatles Recordings, inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida, assim como um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, etc. Tem também uns bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda. Nunca foi lançado no Brasil e passou um bom tempo fora de catálogo, mas vale a pena comprar via Amazon.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil), é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua história, a sua versão para a posteridade. Independente disso, é um livro fantástico como objeto.

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko). Portanto este é um relato de insider — cheio de todas as fofocas imagináveis. Foi o primeiro livro a revelar, de forma razoavelmente confiável, o lado negro da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor. As chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade da banda, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas internas. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ter um só, é um daqueles livros necessários para que se tenha uma visão mais completa da história da banda.

The Lives of Lennon
Albert Goldman
Lançado em 1988 pelo sujeito que mostrou ao mundo a ruína drogada e inadequada que era Elvis Presley, The Lives of Lennon foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do Notícias Populares. Mas o fato é que esse é um livro excelente. Goldman se mostra, acima de tudo, um excelente pesquisador. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, foram mais tarde comprovados. É um grande mergulho sobre a personalidade de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que Lennon era uma mistura de carisma impressionante e personalidade complexa e detestável. O lado negativo do livro é que, às vezes, Goldman parece excessivamente iconoclasta, o que pode levar a alguns erros de avaliação e algumas presunções equivocadas.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente a autoria é de Barry Miles. Mas isso não ilude ninguém. O livro é, na verdade, a autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca se sentisse mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. De qualquer forma, é um daqueles livros fundamentais para a compreensão da história dos Fab Four. A versão brasileira é melhor que a minha, porque tem alguns acréscimos feitos depois da morte de Linda McCartney.

The Beatles: The Biography
Bob Spitz
Spitz se beneficiou da passagem do tempo e da abundância de material biográfico a respeito da banda para escrever um livro abrangente e equilibrado, que tenta fugir dos mitos sem explorar em excesso aspectos sensacionalistas. O resultado é a biografia mais completa dos Beatles, com um excelente grau de neutralidade. De modo geral Spitz tenta sempre ver todos os lados de uma questão, e mostra um bom entendimento do que era a dinâmica interna da banda. Consegue ter os fatos em boa perspectiva e evita dourar pílulas. Aqui e ali erros aparecem — alguns gravíssimos, como antecipar em um ano a reunião em que Lennon “pediu o divórcio” ao resto da banda, e outros menores; mas com exceção de Many Years From Now e do Anthology, que não contam, é o único traduzido para o português, que faz dele a melhor biografia dos Beatles disponível no Brasil.

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Mas o livro definitivo sobre a banda ainda não foi publicado — está sendo escrito neste exato momento. Há alguns anos, Mark Lewisohn anunciou que estava escrevendo uma biografia da banda que deverá se estender por alguns volumes. Se ele mantiver nessa obra o mesmo nível de excelência demonstrado nas outras, o que se pode esperar é, finalmente, a biografia definitiva dos Beatles.