Oi, gentes.
Eu sei que não sou um torcedor fanático, e que vocês nunca ouviram falar de mim. Para falar a verdade, não assisto a um jogo inteiro de futebol desde aquele fatídico Brasil x França, e mesmo então estava mais interessado na bunda enorme à minha frente do que em Ronaldo se arrastando pelo campo.
Mas hoje eu tenho um pedido muito sério a fazer a vocês.
Sabe, eu estava acordado vendo o Flamengo ser campeão da Libertadores debaixo das pancadas do Cobreloa; campeão mundial dando aquele baile no Liverpool; pentacapeão brasileiro em cima de times como o Atlético Mineiro (o que deixou o Idelber traumatizado e meio tantã pelo resto da vida, coitado) e Santos. Obina não pode ser meu ídolo porque vi Zico, Leandro, Júnior, Adílio, Andrade e Mozer tratando a bola como quem trata a mulher amada.
Eu tenho lembranças que a maior parte dos flamenguistas hoje vivos não tem; são elas que me dão o direito de escrever esta carta a vocês.
Neste século, passei grande parte do tempo relegado a apenas torcer contra o rebaixamento do Flamengo. Já estava até acostumado a passar as últimas rodadas do Brasileirão angustiado a cada novo jogo, porque o fantasma do rebaixamento estava sempre presente.
Foi com uma certa surpresa que vi vocês melhorarem este ano, quando pela primeira vez em muito, muito tempo tiveram chance real de ser campeões. Eu fico feliz por vocês. Parabéns pela campanha valorosa. Parabéns por terem feito do Flamengo novamente um time de que seus torcedores não têm vergonha.
Mas agora vocês têm um dever cívico a cumprir. Algo que é maior do que vocês, maior que suas carreiras, maior que qualquer coisa em que vocês possam pensar.
Vocês precisam perder o próximo jogo contra o Atlético Paranaense. Abram as pernas. Deixem que o Atlético ganhe de vocês. Admitimos até uma goleada.
Porque perdendo vocês vão ajudar o Vasco da Gama a ser rebaixado, e esse é um prêmio indiscutível, um troféu quase tão grande e importante quanto o primeiro título brasileiro.
Vocês já perderam tanto quando não podiam. Já nos deram tantas tristezas — como agora mesmo, cedendo um empate bobo ao Goiás. Agora vocês precisam perder novamente, porque com esta derrota vocês vão mandar o Vasco para o lugar que lhe é direito, e nada pode ser tão bom quanto isso.
Vocês têm a obrigação moral de perder o próximo jogo. Esse será a sua grande contribuição para a imensa torcida flamenguista espalhada por este país tão grande.
Eu sei que para os cartolas do Flamengo a vitória agora é importante, e eles devem estar fazendo uma enorme pressão sobre vocês. Com a Libertadores eles poderão ganhar mais dinheiro, pouco importando se vocês serão campeões ou não.
Mas a disputa pela Libertadores é efêmera — ainda mais efêmera porque nós sabemos que vocês não vão longe. O rebaixamento do Vasco é eterno. Não importa que ele volte à primeira divisão no ano que vem, o que é bem provável: esse estigma vai estar sempre presente, e pelo menos por mais alguns anos nós vamos continuar sendo o único time carioca a nunca ter ido para a Segundona.
A gente sabe que, depois das quartas-de-final da Libertadores, quando provavelmente seremos desclassificados, vocês serão esquecidos pela eternidade. Mas se vocês perderem o próximo jogo, poderão ser lembrados eternamente como o time que deixou o Vasco da Gama ser rebaixado. E terão conquistado um título inédito para o Flamengo: o único time carioca a não ser rebaixado para a Segundona.
Isso é mais do que vocês poderiam sonhar.
Sim, eu sei que pelo bem do futebol carioca talvez fosse melhor que o Vasco não fosse rebaixado. Que o fantasma malfazejo do Eurico Miranda espreita um homem decente como Roberto Dinamite. Que pessoas de quem gosto muito, mas muito mesmo — como o Bruno — vão ficar tristes. Sei também que a derrota do nosso Flamengo no próximo jogo não é garantia do rebaixamento do Vasco. E espero sinceramente que eles voltem à primeira no ano que vem, porque Roberto Dinamite merece isso. Mas agora vocês têm que perder, têm que fazer sua parte no rebaixamento do time de São Januário, e ao perder vocês serão ovacionados por todos nós, porque nós que tínhamos perdido as esperanças de ter uma grande alegria com vocês vemos agora que estávamos errados, que vocês podem entrar para a história do Flamengo, porque terão mandado o Vasco da Gama para a segunda divisão.

Na casa de número 24 um brasão antigo, quase soterrado por séculos de camadas de tinta, atesta que aquele foi um dia um edifício importante. Talvez um edifício público, historiadores devem confirmar essa hipótese com mais propriedade; mas prefiro a idéia de que aquela foi a residência de um nobre qualquer, um conde, visconde ou barão que trouxe sua fidalguia antiga e sólida de Portugal — ou de alguém que queria se dar ares de importância e arranjou para si um brasão bonito, para se legitimar diante de uma sociedade que se apoiava nas costas de milhares de escravos. Sua fidalguia não durou muito, no entanto, porque seus herdeiros foram obrigados a transformar a casa nobre que ostentava um brasão em um cortiço — uma casa de cômodos, como se diz em Salvador.
No lugar de latifundiários, garçons; em vez de donzelas à espera de um marido, lavadeiras; nenhuma delas lembrando que aquela casa foi moradia de fidalgos, ou pretensos fidalgos, que deixaram a casa se deteriorar àquele ponto apesar do brasão pretensioso em sua porta.
Nos quartos, inúmeras mãos de tinta ruim se acumularam por décadas nas paredes, formando uma espécie de pentimento desarmonioso. Janelas sem vidraças traziam grades de ferro bem trabalhadas, atestados de que houve um tempo em que as coisas eram feitas para durar uma eternidade e que eram orgulho dos artesãos mulatos que as fundiam.
Apenas um banheiro, grande, servia todo o andar. Em vez de chuveiro uma bica, que caía forte sobre o piso cimentado. E aquele banheiro tinha um cheiro estranho, único: mofo, água e sabonete e perfumes baratos. Não era cheiro de sujeira, mas tampouco podia ser cheiro de limpeza: era um cheiro único, cheiro de miséria e de luta pela sobrevivência.