Segunda feira.
Depois de duas semanas de correria insana, tudo está tranqüilo. Tudo encaminhado, pepinos resolvidos.
Epa. Mau sinal. Isso é motivo para pânico.
Isso quer dizer que estou deixando passar alguma coisa.
Segunda feira.
Depois de duas semanas de correria insana, tudo está tranqüilo. Tudo encaminhado, pepinos resolvidos.
Epa. Mau sinal. Isso é motivo para pânico.
Isso quer dizer que estou deixando passar alguma coisa.
Pelo que tenho visto ultimamente, a blogoseira brasileira andou assustada com o plágio. Isso acontece.
É compreensível que as pessoas fiquem irritadas quando são plagiadas. Ninguém gosta de ser copiado. Algumas pessoas, como a normalmente doce Sandra, sentem como se tivessem sido roubadas. É compreensível: as pessoas têm todo o direito de se chatear quando vêem um texto seu assinado por outra pessoa. Mas quando vi o Allan, um dos blogueiros mais zen que leio, ficar puto por causa de um plágio desses, fiquei com a impressão de que todo mundo está levando a sério demais a brincadeira.
Não sei o quanto este blog é plagiado, se é que é. Acho bem improvável. De qualquer forma, não procuro saber. Não me interessa. Preferiria que as pessoas simplesmente copiassem os textos que querem e dessem o crédito, claro. Mas se não dão, eu não vou perder o sono por isso.
É bem provável que alguém já tenha utilizado, ipsis literis, algum texto daqui em algum trabalho de colégio. Há alguns indícios, como gente procurando no Google frases inteiras que só existem aqui; normalmente são professores corrigindo os trabalhos dos alunos. Além disso, é impressionante o número de pessoas que deixam comentários em posts como este achando que eu, um vagabundo por natureza e um debochado por formação, entendo alguma coisa da psicologia dos contos de fadas. Pessoas vêm parar no blog atrás de resumos para “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”; espero, sinceramente, que copiem o resumo que coloquei aqui e o apresentem sem mudar uma vírgula ao professor; é o meu lado meio sádico. Mas se alguém encontrou aqui subsídios para um trabalho escolar, eu fiz um favor à humanidade. Não tenho feito muitos, e essa ajudinha vai ser o meu argumento na hora de discutir com o sacana do São Pedro. Talvez por isso goste de saber que o blog é citado em um ou dois verbetes da Wikipedia e em um trabalho sobre hipocrisia de um professor de filosofia. Eu me sinto quase chique.
Mas se me plagiarem, o que posso fazer? Processar? Eu não ligo tanto assim para esta bodega. Esses textos são publicados aqui por uma única razão: eu gosto que leiam. Ou seja, gosto de escrever e gosto dos comentários (quer dizer, dos elogios). Só isso. Eu não vou ficar policiando a internet atrás de um bobo que queria ter escrito algo que escrevi. Prefiro tomar como elogio. Alguém neste mundo acha que escrevo bem o suficiente para que ele aponha seu nome em vez do meu; isso me lisonjeia. É como eu querendo ser Christopher Reeve aos 8 anos de idade. O plágio me torna o Superman. De maneira torta e idiota, eu sei, mas é melhor que nada. Além disso, tentar coibir um eventual plágio daria trabalho. Eu não conseguiria registrar cada texto que posto aqui na Biblioteca Nacional, para ter uma justificativa jurídica. Até porque a grande maioria deles não vale nada. E ainda que valesse, ia perder a graça da brincadeira.
(Traduzindo: um ego do tamanho do meu é a receita para a paz mundial.)
Além disso, há uma consideração de ordem ética. Este blog tem alguns milhares de leitores por dia. Seria perda de tempo ficar preocupado porque um menino de 13 anos, que escreve um blog para os seus 10 colegas de escola, publicou um texto meu e disse que era seu. Até parece que ninguém, ainda aprendiz de cafajeste, recitou um poema obscuro de, sei lá, Vinícius de Moraes e omitiu a autoria só para tentar comer alguém. Ou seja: não sei em que isso vai mudar minha vida. Não sei, mesmo; então é melhor encarar tudo como uma justa retribuição. Se este blog, algum dia, contribuiu para que alguém comesse alguém, então essa ajudinha será o meu argumento na hora de discutir com o sacana do Belzebu.
A única coisa que me deixa realmente puto nas calças é o hotlinking, a prática de mostrar um arquivo no seu blog (geralmente uma foto) com ele hospedado em outro. Eu pago pelo tráfego neste blog. Dinheiro custa caro. O resto é resto. It’s only rock and roll, já dizia o pai do Lucas.
No fim das contas, ser plagiado é muito melhor que a triste sina destinada a Luís Fernando Veríssimo e Mário Quintana. Coitados: obrigados, à revelia, a assinar um bocado de lixo que circula pelos e-mails deste mundo.
Republicado em 01 de setembro de 2010
Graças a Deus o Alex conseguiu mandar um novo e-mail. Desta vez subornou o guarda de maneira simples: ele dá o seu .cu para o guarda (que com o .cu do Alex pode acessar sites de putaria e agências de jineteras; como turista, o Alex tem um .cu privilegiado), e em troca ganha 15 minutos de acesso.
Ao contrário do que muita gente achou — e, confesso, eu também —, o Alex não foi currado pelo grupo de presos que o cercou. Imaginariam os mais incautos que um deus ex-machina o salvou: um raio, um terremoto, o fantasma do renegado Kautsky; todos esses errariam, porque cometeriam um pecado que não se deve cometer: subestimar a capacidade de sobrevivência de Alex Castro.
Quando se viu cercado pelo grupo de cubanos sodomitas o Alex, macaco velho nessas coisas de putaria, resolveu tomar a iniciativa. Se jogou no chão e começou a chupar seus pés.
É preciso conhecer a tradição católica da ilha para entender a força psicológica da ação do Alex. Podofilia não atende aos critérios reprodutivos da Santa Madre. Mas tampouco se deve esquecer a tradição afro-cubana: há naquelas plagas um tal Exu Chupa-Pé, mil vezes pior que o nosso Exu Tranca-Rua, que traz azar eterno a todos aqueles cujos pés lambe. Ao ver aquele insano babando seus pés de maneira furiosa (e competente, nunca é demais lembrar), os presos medraram. Saíram correndo e, ao que parece, entraram na Igreja Universal do Reino de Deus logo em seguida.
“Esses cubanos não sabem brincar”, pensou o Alex, enquanto limpava a boca.
Ele foi colocado numa cela com um Ladrão Boliviano. Não fala muito sobre o seu companheiro de infortúnio, mas diz que em poucos dias ele se tornou seu amigo íntimo. O Ladrão Boliviano tinha fugido de Santa Cruz de La Sierra depois de passar o “Boa Noite, Cinderela” no ministro dos hidrocarbonetos. Evo Morales não gostou e, depois de uma conversa com Fidel, mandou o Ladrão Boliviano para Guantánamo.
O primeiro contato dos dois, no entanto, não foi dos mais amistosos. O Ladrão Boliviano olhava fixamente o Alex, que se incomodou: “Estoy cagado? Estoy mijado? Por que me ojas así, viadón?” Mas o Ladrão Boliviano era boa gente, uma espécie de Jean Genet do Cone Sul, e as afinidades logo surgiram entre os dois.
Mas a amizade com o bom Ladrão Boliviano não impediu que o Alex se sentisse desamparado, triste e assustado. Ele estava num país estranho, preso, sentindo a falta do Oliver. Daí para começar a ver coisas foi um pulo. O fantasma de Cabrera Infante, por exemplo, era uma aparição constante para o Alex, que insone ouvia o Ladrão Boliviano ressonar ao seu lado. O Cabrera vinha sempre da mesma forma: sentava no catre do Alex, olhava fixo para ele e repetia: “Tres tristes tigres tragaban trigo en un trigal. Tras tus tres tristes tigres que triste estás Trinidad. El amor es una locura que solo el cura lo cura, pero el cura que lo cura comete una gran locura.”. E nada mais era dito pelo triste Infante.
Prestes a enlouquecer, o Alex começou a bater a cabeça nas grades, e foi parar na enfermaria. Foi a única parte da prisão construída pela CIA, o que quer dizer que era tão mal feita que sequer tinha grades. E à noite, invariavelmente, os guardas e as enfermeiras participavam de orgias homéricas regadas a santería, com bodes sacrificados e tudo. Foi quando o Alex percebeu que poderia fugir dali. Mas não fugiria sozinho: seria incapaz de deixar o Ladrão Boliviano para trás. Na memória trazia ainda a maneira como tinha abandonado o Oliver em New Orleans; sua sorte é que o cachorro cor de nescau — mas que ele diz ser champanhe — apareceu boiando no Golfo do México, levado pelo Katrina.
O Alex criou um plano simples, mas eficiente. Primeiro foi trabalhar na lavanderia, de onde desviava as cuecas usadas dos presos. Depois, na hora do banho de sol, ele e o Ladrão Boliviano fingiram uma briga e foram mandados para a enfermaria. À noite, quando a bacanal começou, eles simplesmente fizeram uma teresa com as cuecas malcheirosas e desceram pela janela. As cuecas sebosas e com cheiro esquisito ajudaram nessa tarefa: tão gordurosas e melecadas que eles simplesmente escorregavam por elas. Com o rosto encostado nas cuecas emporcalhadas, o Alex suspirou: “Ah, o doce perfume da liberdade”. Chegaram ao chão e saíram andando despreocupadamente.
Agora clandestinos, se esconderam em um daqueles prédios que, como ainda não foram tombados pelo Iphan deles, vão acabar tombando no chão qualquer dia desses. Para sustentá-los, o Ladrão Boliviano passou a tentar aplicar o “Boa Noite, Cinderela” nos cubanos de boa fé, mas aqueles coitados eram tão pobres que tinha dia em que o Ladrão Boliviano voltava para casa com meio pedaço de pão e um rolete de cana, para serem divididos entre os dois.
Então o Alex resolveu tomar uma atitude. Sua crise de abstinência dos mata-ratos de 8 centavos chegava ao limite. A fome trazia o fantasma de Cabrera Infante toda noite, e em seus pesadelos ele era atacado por revoadas de charutões de um peso.
E assim foi o Alex para o Malecón, bater calçada. Colocou uma roupa branca de traficante cubano de Miami — calça e paletó de linho branco, chapéu, camiseta preta e um medalhão que diz “I love my dog”. De peito aberto, caiu no mundo torpe da prostituição.
O que o Alex sentia, confessa, era uma mistura de medo e excitação. Ele nunca tinha feitos essas coisas por dinheiro; agora fazer a vida era uma necessidade. Uma de suas primeiras providências tinha sido abandonar o seu nome de batismo por um nome de guerra, que não ficaria bem ver o nome de um escritor achincalhado no cotidiano das falenas. Tentou lembrar do nome do personagem de Al Pacino em Scarface, mas não conseguiu. Então teve uma idéia: se chamaria, novamente, Alexandre Cruz Almeida. Mas esse nome precisava de um molho cubano: e assim o mundo viu o nascimento de Alejandro Cruz y Almeida.
Aquela era sua primeira noite como profissional do sexo. Longe iam os dias em que o Alex era um acadêmico sério, envolvido com pesquisas sobre romances do século XX, sobre Cecilia Valdez e quetais. Agora ele estava na boca do lixo, com uma navalha no bolso para o caso de encontrar um caloteiro safado. Vendia seu corpo para poder entrar na fila do charuto.
“Chupo-le los pies toditos.”
Ah, ninguém pode imaginar o sucesso que o Alex fez na velha Cuba. Em poucos dias, todo o demi-monde sabia quem era Alejandro, El Boquita de Oro. As putas olhavam para ele com inveja e despeito; filas se formavam na esquina onde ele fazia ponto, e eram administradas pelo Ladrão Boliviano. Não era, entretanto, uma vida maravilhosa. De vez em quando o Alex tinha que pagar propina para policiais corruptos: e a moeda de troca era o sexo, ou melhor, o boquete pedicular. Nesses momentos o Alex se sentia degradado, violado, acocorado em vielas escuras caindo de boca nos pés chatos de policiais que não sabiam apreciar, a contento, os seus talentos únicos.
Dos outros ele não conta muitos detalhes. Aqueles homens suados e fortes eram indistintos, um cliente sucedendo o outro. Contou apenas um caso, em que um sujeito o levou para um quarto de hotel caindo aos pedaços; na janela, fazendo as vezes de cortina, uma colcha bordada com a cara do Che. Mas em vez de pedir para que o Alejandro lhe lambesse os pés, pediu para que ele caísse de boca em um charuto enorme que ele lhe mostrou — não um daqueles charutos de um peso pelos quais o Alex agora vendia seu corpo, mas um Arturo Fuente dominicano. E enquanto ele, bom profissional que é, mostrava seus dons no charuto, o cliente gritava, ofegante:
“Llámame de cerdo capitalista! Llámame Bill Clinton, dime que eres mi practicante, perro!”
No meio desse espetáculo lewinskiano, a porta do rendez-vous foi arrombada por dois homens sem barba. O Alex perdeu a paciência:
“Já sé, já sé, caray. Policia secreta de Fidel. Puerra, de nuevo? Muestra los pentellos.”
Os sujeitos baixaram as calças. Glabros.
“Ahora muestra la bunda.”
Viraram de costas e se abaixaram. Imberbes.
“Puta de la madre que los pare, esto já me está enchendo el saco! Quien son ustedes?”
Os agentes tiraram os sapatos. Seus pés tinham peitos cabeludos e tufos enormes de pelo nas falanges.
“Nosotros somos de la nueva división Alex Castro de chupadores de pies. Estás invitado a irte del país. Te hemos recibido con todo lo de nuestra madre Cuba — y por encima usted has hecho lo que has hecho con nosotros, cerdo capitalista!”
“Pero esto o que, hijo de Dios? ”
“Ahora haces dumping con nuestras jineteras, coño. Eso es una competéncia desleal. Sabes que nuestras putas no chuparian los pies de sus clientes jamás. Ellas tienen una distinción profesional. Y tú qué? Lo haces para gañar un peso o fumar un tabaco de miseria. Quieres quitarles el pan y todo lo nuestro. Sabes como llaman al Malecón ahora? El Maricón. Por tu culpa, hijo de puta. Sabes que cuándo Bush se va a oler una línea de coca se ríe de nosostros? ‘No me toca invadir a Cuba porque iba a ser una humillación tomar a un país de mierda que por encima tiene un jinetero llupador de pies que se parece a un héroe nacional’, es lo que habla de nosostros. No hace falta que te quedes aqui, Alex Castro. Tienes como dos dias para irte. De otra manera vas a conocer nuestro paredón.”
Agora estou preocupado. O Alex não mandou mais respostas aos meus e-mails. Não sei se ele está morto ou vivo. E se o filho da puta estiver morto, aí é que ele não traz mesmo a porra do meu Cohiba.
Notícias do .cu
Mais Notícias do .cu
Outras Notícias do .cu
Últimas Notícias do .cu
Republicado em 28 de agosto de 2010
Vige.
O Brisa do Rio é um restaurante que me foi apresentado este ano. Foi uma das boas surpresas que eu tive; eu conhecia o restaurante que fica ao lado, mas não esse. Fica no Bairro Industrial, margem direita do rio Sergipe, zona norte de Aracaju. O Brisa do Rio tem um peixe e um pirão invejáveis. E uma pimenta que faz frente à do Iemanjá, em Salvador.
Seus atrativos culinários são suficientes para que, em defesa do conforto e da compostura do local, a gerência coloque um aviso para que as pessoas não se excedam quando começa a música ao vivo, aí pelo final da tarde.

O banheiro, no entanto, não está no mesmo nível do peixe. Em toda a minha vida, eu nunca tinha visto um banheiro assim.

Mas a vista compensa qualquer coisa.

As coisas em Cuba continuam complicadas para o Alex.
Não bastasse a censura que ele está sofrendo em seu blog — alguém já notou as fotos bucólicas que ele anda publicando? Até parece que Cuba é um país em que as pessoas não são fuziladas na rua o tempo todo; isso só pode ser a ação dos censores, esses desgraçados —, a vida na Castrolândia está cada vez mais difícil.
Pelo último e-mail que me mandou, parece que ele bem que tentou se comportar como cubano. Primeiro, abandonou o cachimbo e passou a fumar, cada vez mais, os charutos de um peso que todos os cubanos parecem adorar. Até deixou de usar aqueles sabonetes Phebo fedorentos em que é viciado. Nos últimos dias pela manhã ele se levantava e ia direto para a Biblioteca Nacional José Martí, onde está pesquisando sobre os tais romances abolicionistas.
O problema começou quando ele se deparou com referências à santería, e como bom católico carioca não sabia do que se tratava. Agora ele se lamenta, e diz no e-mail: “Porra, se eu soubesse que era macumba não precisava ir atrás de ninguém, a avó do Bia é macumbeira, é até mãe de santo”. O Alex, poucos sabem, é filho de Oxóssi. Mas Oxóssi não reconheceu a paternidade.
Aquela jinetera que tomou o Alex sob os braços indicou um bom brujo para ele. Um tal de Don Miguelito Herrera, que já tinha feito até especialização em vodu no Haiti. Sabe como são esses acadêmicos, um título no exterior sempre cai bem.
A casa do pai de santo fica num subúrbio de Havana. A jinetera disse que não o levava lá, mas deu o endereço. O Alex bateu na porta do macumbeiro no comecinho da manhã de ontem.
Quando viu o Alex, o santero tremeu. A energia daquele brasileño meio viado era muito forte, foi o que disse. Pediu para o Alex sentar e jogou os búzios. Disse o de sempre: que ele ia voltar a ser rico e feliz, que o Oliver ia virar macho, que alguém próximo tinha muita inveja dele, que ele ia comer todas as cubanas que quisesse e que tinha um amigo no Brasil que estava sacaneando o seu blog (o que, desde já, eu repilo como mentira vil e soez).
O brujo pediu licença e sumiu casa adentro. Quando voltou disse ao Alex: “Nuestro jefe está muy mal. Muy mal, el pobrecito. He hablado con los orishas y ellos han dicho que lo que hace falta para que Fidel se ponga bien és una buena mamadita en los pies. Pero nadie le quiere hacerlo porque si no se recupera, el infeliz que le haya chupado gañará el paredón. Tú has sido elegido para salvar nuestra madre Cuba!”
Antes que Alex pudesse responder, de trás das cortinas de contas que separavam a sala de atendimento de pai Miguelito da cozinha saíram dois homens barbudos. “¡Polícia secreta de Fidel!”, eles gritaram.
Mas o Alex já era gato escaldado. “Ustedes piensam que soy otário? Ustedes no son secretas. Ustedes tienes barba. Yo quiero ver los pentellos.”
Os agentes arriaram as calças. Eram imberbes. “Ahá! Ustedes no son policiais ni con un carajo!”, exclamou o Alex, triunfante. Os agentes viraram as costas e mostraram umas bundas extremamente cabeludas. “Nosotros somos de la división de actuación em la retaguarda.”
O Alex foi levado ao palácio presidencial. Os agentes o fizeram entrar em um quarto cheio de guardas. Uns quinze, mais menos. E lá no canto, em uma cama com dossel, Fidel Castro jazia quase inerte. Trazia uma sonda na barriga, a boca aberta que respirava com dificuldade babava, e fumava um charuto. O Alex esperava sentir o perfume do bom tabaco cubano, mas era uma catinga miserável de maconha. Um baseado deste tamanho. Envergonhado, o agente disse que era por indicação médica.
Nos estertores da morte, Fidel respirava com dificuldade. Com um esforço extremo, levantou um pouco a cabeça, olhou para o Alex e sorriu. Mais um esforço, agora ainda maior, e botou o pé para fora do cobertor bordado com a cara de Che Guevara.
Aquele era o pé da revolução, o pé do último grande herói do século XX. Aquele pé tinha desembarcado em Las Coloradas; tinha subido a Sierra Maestra e de lá comandado a redenção cubana. Aquele pé tinha transformado o bordel dos Estados Unidos em um país digno e importante. Aquele pé era horroroso, disforme, calejado e tinha um cheiro de chulé que parecia remontar aos tempos de Fulgêncio Batista.
“Chupame… Chupame… Chupa mi piezito, Alequito de mi corazón… Chupamelo”, disse o grande Fidel com voz entrecortada.
O Alex suava, horrorizado ante aquele pé imenso, tenebroso. Olhou para trás e os dois agentes de bunda de fora olhavam feio para ele. Um deles falou:
“Chupalo bien rico, bien sabroso, maricón. Chupa y serás un heroe de la revolución, con derecho a una fotita de Alberto Korda.”
Se fosse a Margareth Thatcher, o Alex encarava. A coroa até que dava um caldo. O Alex encarava até a Havanir, aquela do Enéas. O Alex não ligaria em pagar um boquete no pé de um velho de oitenta anos, ex-militante do Partido Integralista. Mas em um comunista, ah, não. Isso, nunca. O Alex tem princípios. Não sei direito quais, mas ele tem. Ele jamais chuparia o pé do Fidel. Não tanto pelo pé horrendo, mas pelas sérias divergências ideológicas.
“Fidel, mi compañero… Vaya a ralar el cu en la ostra, que mi boquita no fué achada en el lixón!”
Fidel gemeu. Os agentes armaram suas pistolas e apontaram para o Alex, que finalmente percebeu que a coisa não era brincadeira. Mas de repente as portas do quarto abriram com um estrondo. Seis homens irromperam sala adentro, empunhando Kalashnikovs 1976, e dizimaram os agentes de Fidel.
Com o terreno limpo, Raúl Castro entrou na sala.
“Él no va a chuparte los pies, Fidel.”
Raúl se sentou ao lado de Alex, que mais uma vez exalava aquele cheiro esquisito das calças. Alex esperava a morte, sem direito a pelotão de fuzilamento. Mas então Raúl começou a chorar.
“No puedo matar mi hermanito. Yo amo Fidel como no he amado a nadie más, nunca. Pero ahora me toca ser más. Yo voy a ser el presidente de Cuba, y juro por Dios que voy a hacer discursos más largos aún que los suyos.”
Olhou com carinho para o irmão que, como era de se esperar, continuava jazendo na cama, babando o baseado enorme. Enquanto fazia um carinho em sua cabeça, continuava:
“Desde muy niños, Fidel tenía todo y yo me quedaba con los restos. Nuestra mamacita — que Dios la tenga — le compraba ropas y yo vestia los trapos que no les servían más. Cuando joven él follaba las bailarinas de rumba y yo me quedaba con las camareras. Mientras yo hacia um discurso de 5 horas, él muy listo me sobrepasaba con uno de 7. Ahora és mi turno. Tócate a morrir, hermanito, y nosostros vamonos a construir el socialismo.”
Virou-se para o Alex.
“Ahora tú, brasileño de mierda. ¿Eres comunista?”
Naquele exato momento o Alex tinha tido uma epifania e se tornado comunista desde criancinha.
“Si, señor. Soy afilhado de Apolônio Carvalho, soy neto de Astrojildo Pereira e fui así con João Amazonas, e militei en PCB, en PCBR, en PSTU, en PSOL, en PCO y en PQP.”
“Entonces te has ‘se fodido’, como dices. Los rojos son peligrosos. Tienen unos mariconeos de revolución y yo no quiero eso ahora. Voy a sepultar todos los rojos com Fidel. Pero eres un brasileño de mierda y me atraparías en un problema diplomático con el compañero Lula, aunque yo no comprenda porque él se iba preocupar con un maricón como tú. Ahora mismo hablé con Bush y él me dijo que te va a recibir en Guantánamo. Fíjate, eres un preso político.”
Os agentes de Raúl pegaram o Alex e o colocaram de novo no carro. O Alex saiu gritando: “No hacias esto comigo! Yo soy tu hijo bastardo, papá Raulzito! Mira mi nombre! Castro! Castro!”, mas o Raúl já não ouvia, ajeitando o cobertor sobre o irmão com um olhar enternecido.
Os agentes enfiaram Alex em um macacão laranja — não sem antes limpar sua bunda, que estava em petição de miséria.
Quando o Alex entrou em Guantánamo, os presos se amontoavam em seu banho de sol diário. No canto do pátio, um comunista era torturado; enquanto isso, um muçulmano era estuprado perto da entrada do refeitório por três dançarinos de salsa de Miami liderados pelo Robby Rosa, especialmente empregados para esse mister macabro.
Os presos, alguns com o crescente no uniforme, outros com a foice e o martelo, se aproximaram. Queriam ver quem chegava. “Eres un comunista o terrorista, coño?”, perguntou o que parecia ser o líder.
O Alex se assustou. Percebeu que o destino dos comunistas era melhor que o dos muçulmanos. Era uma boa ser comunista. Mas esses muçulmanos são uma raça complicada, invocada, e também era bom não se indispor com eles. A merda era que o Alex não sabia a letra da Internacional (“De pé, ó vítimas da fome! De pé, famélicos da Terra”), nem uma daquelas palavras de ordem típicas. Algo no seu cérebro de menino rico mimado impedia que ele conseguisse pronunciar frases como “Reforma agrária já” ou “Abaixo o imperialismo”. Tampouco sabia algum verso do Alcorão. O jeito era improvisar.
“Por Alá, eu estou grávido de Luiz Carlos Prestes!”
Os presos começaram a rir. Só um pequeno grupo, de umas doze pessoas, continuou sério, medindo Alex de cima a baixo.
Os guardas vieram e o levaram. Com a cara de pau de quem pede fotos de pés, o Alex pediu um computador com acesso à Internet. Ele queria mandar um e-mail para a namorada, para os amigos e para a Xuxa. Claro que o guarda não ia liberar o acesso assim, mesmo sabendo que o Alex lhe daria o .cu. A negociação foi dura. Depois de quase duas horas, o Alex conseguiu corromper o guarda com um sabonete Phebo, um tubo de Crest e uma camisa da seleção brasileira de futebol comprada na rua Uruguaiana.
Ele estava escrevendo esse e-mail que transcrevo aqui quando aquele bando de presos, o que não riu, entrou na sala. Andavam lentamente, com um gingado esquisito. Olhavam fixamente para ele e cantavam, com o mesmo olhar lúbrico que o Alex faz quando vê um pé: “Guantanamera, guajira guantanamera…”
Mais o Alex não diz. O e-mail foi enviado às pressas, sem nenhuma revisão; ele sequer assinou. Estou esperando o próximo. E o filho da puta ainda não mandou meu Cohiba.
Notícias do .cu
Mais Notícias do .cu
Outras Notícias do .cu
Últimas Notícias do .cu
Republicado em 26 de agosto de 2010
O Alex acabou de me mandar um e-mail direto de Havana.
Minha esperança era a de que ele voltasse de lá um pouco mais afinado com o mundo. Um sujeito que deixasse de lado essa palhaçada de mercado livre e entendesse o papel do Estado na sociedade. Pensei que uma estadia em Cuba daria continuidade ao excelente trabalho que o Idelber está fazendo com ele. Isso era necessário. Embora eu tenha cá minhas reservas acerca do regime cubano, Fidel é definitivamente uma das grandes lideranças mundiais do século XX, e Cuba era, e ainda é, absolutamente importante para a América Latina.
Mas, até agora, não foi isso que aconteceu.
O Alex não fala, mas deve conhecer a trajetória do Reynaldo Arenas. Virou filme, até. “Antes que Anoiteça”, coisa assim. Pelo e-mail que me manda, vejo algumas semelhanças entre os dois. Ambos eram, digamos, heterodoxos em relação ao padrão sexual do regime. O Arenas era gay. O Alex chupa pé.
Deve ter sido por isso que a primeira noite do Alex em Cuba foi esquisita, pelo que ele diz. Já no aeroporto, os fiscais da alfândega olharam para o seu passaporte e abriram os olhos espantados. Um deles gritou para o outro: “Mira! Un hijo de puta de un exilado volve a Cuba!” Aí outro fiscal puxou o sujeito pelo braço e murmurou: “¿Estás loco? Eso es el hijo de Raúl Castro!” Um terceiro fiscal desdenhou: “Hijo de Raúl, um carajo! Eso es nombre de decorador de fiesta de subúrbio!” É, não é, o pau comeu no aeroporto.
Na confusão, o Alex saiu de fininho e pegou um táxi. Era um Chevy 1954, que já tinha servido de lancha para um grupo de dissidentes. O Alex pediu ao motorista que o levasse ao hotel Tomono, que fica em Varadero e tem esse nome em homenagem ao nissei que pilotava o Granma.
No lobby do hotel, uma mulher vestida como pobre americana se aproximou. Uma morena de fechar qualquer quarteirão, mesmo aqueles enormes de conjunto residencial que leva número no final, tipo Cabula VI ou Mangabeiras IV.
“Quieres divertirte, guapetón?”
Normalmente o Alex não cederia aos apelos de uma semi-profissional do sexo. O Alex é um homem sério, dentro de uma determinada noção de seriedade, e suas taras doentias são fruto do amor. O problema é que a moça tinha uns pés de deixar qualquer tarado podólatra maluco. Havia uma gosminha preta na sola, molhada, fedida, que falou aos mais baixos instintos do Alex.
A jinetera sentiu o babado e perguntou para ele: “¿Te gustan los pies?” O Alex não conseguiu responder. Babava. As pessoas não se lembram, mas ano passado a Carol postou um vídeo do Alex chupando os pés dela. O sujeito chupava cada dedinho com um prazer tão grande, e com tão notável talento, que até parecia um boquete. Daqueles muito bem pagos. Se o Alex fosse mulher eu namorava ele, no duro, mesmo que a cara não seja lá grandes coisas.
O Alex seguiu a jinetera até o apartamento dela, em um prédio acabado cheio de meninos catarrentos cantando salsa na escada. Ela começou a tirar a roupa mas o Alex, imperativo, a impediu, com aquele olhar sensual típico de um podólatra. “No es preciso, tesón.” Pediu que ela sentasse na cama coberta por uma colcha bordada com a cara do Che. E caiu de boca no pé dela.
Eu não quero imaginar a cena. Já vi isso ao vivo uma vez na Cinelândia, e depois em vídeo. Ainda não me recuperei dos traumas, e por isso chuto cachorrinhos indefesos na rua quando volto a pé para casa tarde da noite. Por quê, meu Deus, por quê?, é o que me pergunto. Nunca recebo resposta. É por isso que eu bebo.
Quando a boca do Alex já estava dormente, ele disse que ia ali na esquina comprar um cigarro. E não voltou. Saiu rindo, achando que tinha dado um calote na moça. O Alex saiu do Brasil, mas o Brasil não saiu do Alex.
Satisfeito, assoviando uma velha melodia de Celia Cruz, se encaminhava para o hotel Tomono quando foi parado por dois homens. Eles o mandaram entrar num velho Oldsmobile 1957. O Alex, acostumado a baculejos na Taquara, perguntou quem eles eram, que ele não ia entrar num carro assim, de qualquer jeito. Os sujeitos responderam que eram agentes policiais de Fidel. “Ué? E cadê la puerra de la barba?”, perguntou o Alex. Eles olharam para um lado, olharam para o outro e baixaram as calças. É, eles tinham barba. “Nosotros somos de la polícia secreta, división de los comedores de jineteras.” Deram um cacete nos cornos do Alex e o jogaram no carro.
Pela primeira vez em Cuba, o Alex sentiu medo. Os agentes seguiram para Sierra Maestra.
O Alex é um sujeito urbano, sofisticado (não é o cúmulo da sofisticação preferir pés a outras coisas mais óbvias em uma mulher? Eu, que sou só um paraíba e não sou capaz dessas sofisticações, olho admirado para o sujeito enquanto sonho em afundar minha cabeça em um belo par de peitões). Mato não é bem com ele. Ainda mais num breu miserável como o que fazia em Sierra Maestra naquela noite quente de maio.
Colocaram o Alex sob uma panela de luz, no meio de uma clareira. Um general barbudão se adiantou, deu um tapa no Alex e gritou:
“¿Acaso no sabes que tienes que comer nuestras putas, maricón? ¡Se les chupas o tan solo lambes a sus pies, tiras a la desgracia sus reputaciones, y nadie más va a querir comerlas, las desdichadas! ¿Quieres acabar com nuestra economia, hijo de puta?”
O Alex não falava nada. Um cheiro esquisito passou a exalar de suas calças.
“Por esta vez passa, chulezero de mierda. Pero volverás a la calle, pegarás la jinetera que no comeste e vaya a dar-le una surra de polla, que nuestra economia depende da atuación de nuestras putas. Y pague a la mujer, gilipollas sin verguenza!”
Vendaram novamente o Alex e o largaram em Varadero. Ele se arrastou até o hotel. Entrou e se dirigiu ao cybercafé. Ia entrando afobado quando foi parado por um negão que parecia ser o segurança do lugar. O sujeito já estava para lá de bagdá, tinha enchido a lata de rum, percebia-se pelo bafo.
“¿Que quieres, gordito?”
“Yo quiero usar la Internet.”
“Para usar la Internet tienes que dar el .cu.”
“Como es la conviersa?”
“El .cu, brasileño tonto.”
“Yo solo dou el cu por amor. Y yo no te amo, viadón!”
O negão partiu para a ignorância. Ia encher o Alex de porrada. Mas aí foi impedido pela jinetera que o Alex não tinha comido; ela vinha atrás dele para receber o dinheiro que o safado não tinha pago. (Lição a ser aprendida aqui: nunca confie em alguém que lambe pés.) A mulher era jogo duro. Deu um balão no negão e chutou seu saco. Ele se dobrou de dor e ela chutou sua cara. O negão desmaiou na hora. Quando se virou para o Alex, ele já estava com o dinheiro na mão.
Ela pegou os dólares e resolveu quebrar o galho do Alex, explicando que as coisas são um pouco diferentes por lá.
“Brasileño de mierda, en Cuba nosotros tenemos que tener un domínio .cu para usar la Internet. Exigência de Fidel. .Cu es para nosotros el mismo que el .br de ustedes, cabrón.”
E explicou o que ele tinha que fazer. Deveria ir até o Secretariado Revolucionário Especial de Assuntos de Internet, deixar nome e endereço, e pagar um bocado de dólares por um endereço provisório de e-mail. O do Alex ficou assim: alexcastro@tomono.cu.
O e-mail do Alex parou por aí. Estou aguardando o próximo. E o filho da puta ainda não mandou meu Cohiba.
Mais Notícias do .cu
Outras Notícias do .cu
Últimas Notícias do .cu
Republicado em 24 de agosto de 2010
Há quase dois anos, um enfermeiro chamado Bruno veio parar neste blog e deixou um comentário longo defendendo uma tese: a de que preservativos não apenas são ineficazes no combate à Aids, como ainda por cima incentivam os jovens a praticar essa aberração medonha chamada “sexo fora do casamento”. O Bruno externava aquela crença supersticiosa de quem não conhece direito o assunto: se você tem uma camisinha no bolso, ela por si só vai fazer de você uma máquina de fazer sexo. Imagino esse tipo de católico olhando uma camisinha como a uma estátua do bezerro de ouro: com uma mistura de medo e de fascinação ante o hediondo.
Com a doçura que mamãe me deu, eu comentei o comentário do Bruno neste post. Não foi propriamente o proselitismo do sujeito que me incomodou: mas o fato de ele usar suas credenciais de agente de saúde para espalhar desinformação em proveito de sua crença.
É inadmissível que um enfermeiro, em última análise executor de políticas públicas de saúde, deliberadamente coloque pessoas em risco porque precisa de uma mentira para fortalecer os dogmas que defende. Gente assim é perigosa, como são todos os idiotas em alguma posição de poder.
Foi quando um sujeito chamado Pedro Sette Câmara leu a brincadeira e resolveu tomar a defesa do Bruno, em um post chamado “O Donzelão dos Argumentos” — em que o donzelão, claro, era o autor destas maltraçadas, o que aliás não é segredo para ninguém. O Pedro 7, em linguagem mais sofisticada, reforçava a tese do Bruno: a de que uma pessoa com uma camisinha no bolso se vê acometida de um repentino e incontrolável furor genital. Camisinhas, para eles, são como aqueles objetos encantados de filmes de terror. Transformam moças decentes em prostitutas, homens calmos em sátiros insaciáveis. Eles não falam com todas as palavras, mas parecem acreditar que uma fábrica de camisinhas é comandada pelo próprio Belzebu, um instrumento para levar a humanidade ao abismo negro do inferno.
É uma postura obscurantista, típica do que um segmento mais alucinado do cristianismo vem fazendo há milhares de anos. A diferença é que hoje a Igreja tem menos capacidade de coerção e já não consegue mandar feiticeiras para a fogueira. Mas a mentalidade obtusa continua a mesma.
Por causa desse post, o blog foi invadido por beatos e olavetes, povo que, sem brincadeira, me enche de medo; eles conseguem fazer com que eu, um humanista convicto, veja a minha fé nas gentes vacilar — coisa que nem as pesquisas no Google conseguem. Não havia discussão, mas os sujeitos mostraram um tom triunfalista dizendo que mais um ateu tinha sido esmagado pela clava de Deus, coisa assim. Fui promovido a ateu, porque os idiotas fundamentalistas não conseguem ver além de seus próprios antolhos. Isso só não me magoou mais do que ver o pessoal me chamando de — ai! — feio.
Foi quando descobri, graças ao Marcelo Camanho, que apesar da sua devoção católica, do respeito exacerbado ao velho sibarita Bento XVI e da defesa acalorada da castidade pré-nupcial, o Pedro 7 era astrólogo semi-profissional (ele fez questão de dizer também que tinha uma noiva; apesar de não gostar de entrar nas intimidades de ninguém, fiquei me perguntando o que ele era, se hipócrita e fazia sexo antes do casamento com ela, ou o “donzelão” de que ele me chamava).
Mais: o Marcelo me indicou um post delicioso do sujeito. Foi um dos textos mais engraçados que li em toda a história da blogoseira. Era algo incrível: ali ele dizia como a astrologia podia revelar, antecipadamente, se você ia conseguir pegar ou não determinado filme numa locadora de vídeo. Isso mesmo.
Eu estava diante do fundador de uma seita que, acreditei, fazer-se-ia ouvir falar pelos tempos que virão: os Astrólogos de Maria. Imagine a força desse pessoal, provavelmente formado na venerável Congregação Mariana de Astrólogos, no Mosteiro de Santa Cruz, em Segovia, Espanha (lar de outro bom católico, São Tomás de Torquemada): eles não somente têm Deus ao seu lado, como ainda sabem o que vai acontecer no futuro. Como num antigo gospel, têm o mundo inteiro em suas mãos. Não ia ter para mais ninguém.
Se astrologia é uma bobagem, esse tipo de aplicação da “ciência” é quase demente. Nenhum astrólogo que se pretenda sério é capaz disso — pelo contrário, prefere ficar em aspectos mais gerais, em traços de personalidade, coisa vaga assim. Dessa forma é mais fácil criar um sistema plausível. O Pedro 7, no entanto, encarou o desafio. A verdade é que, para que se consiga acreditar numa baboseira dessas — a astrologia como uma espécie de I Ching, ou cartomante de quinta — é preciso um tipo especial (especial como quando a gente fala de um menino com sérias deficiências mentais: “ele é especial”) de fé. É exatamente o mesmo tipo de fé que possibilita o tipo de catolicismo professado pelo Pedro 7.
A astrologia é condenada pela Igreja Católica — como, de resto, qualquer outro método de divinação, entre os quais um que me parece bastante simpático, a veneromancia. Para alguém que se pretende um fiel devoto e estudioso, era mais que uma simples contradição: era uma prova viva de hipocrisia e confusão teológica. Num caso muito grave, essa confusão pode dar em aberrações como o Olavo de Carvalho; em outros mais brandos, resulta no Pedro 7 e em tentativas de mascarar sua fé numa bobagem atrás de justificativas históricas sem pé nem cabeça. Esse tipo de católico, na verdade, tem problemas quando tenta conciliar história e religião. Geralmente, quem sai perdendo nesse conflito é a verdade; nesse caso, é o juízo.
Isso foi há muito tempo, mais de dois anos. Mas nesta Semana Santa resolvi mostrar o post a uma amiga, porque ela, que já passou por quase todas as religiões, não acreditou no que o Pedro 7 propunha. E cliquei no link.
Foi com uma certa surpresa que vi que o link havia mudado. Pode ter sido coincidência. Talvez. Mas foi justamente o post linkado — em que tínhamos a Grande Revelação de como a Astrologia pode lhe confirmar se você assistirá a “Marcelino, Pão e Vinho” — que foi substituído pela arenga em que o Pedro 7 explica por que deixou de ser astrólogo.
Se fosse só isso, era aceitável. As pessoas têm direito a mudar de opinião. Se o Pedro 7 tinha deixado de ser astrólogo porque tinha percebido o conflito teológico que aquilo representava e se viu obrigado a escolher, tudo bem. Provavelmente seria um sujeito mais infeliz, mas talvez a sensação de ser coerente compensasse. Há algo de belo na renúncia, no ascetismo.
O problema é que o texto da entrevista que o Pedro 7 faz consigo mesmo é de uma hipocrisia de matar de rir. Ele não deixa de acreditar em astrologia. Não deixa de estudar os livros que tem. Não os empresta, que mulher e livro a gente não empresta a ninguém; mas indica onde os interessados podem comprá-los. No fim das contas, ele só deixa de alardear que acredita, realmente, que nascer em determinado dia e em determinado lugar define a sua vida porque um diacho de planeta a milhões de quilômetros estava em tal posição naquele momento. Deixa também de tentar descolar um trocado com isso. O Pedro 7, ao mesmo tempo, consegue ser desonesto consigo, com seus leitores católicos e com seus leitores que acreditam em astrologia.
O texto é uma maravilha de subterfúgios, de tergiversações. Não interessa quantas condenações a astrologia receba da Igreja: ele vai procurar uma saída. E vai fingir que encontrou.
Eu fiquei chocado. Sinceramente acreditava que os Astrólogos de Maria, como cruzados medievais em cota de malha e espada em punho, iriam conquistar o mundo e levar este rebanho insensato de pecadores ignorantemente felizes ao caminho da Salvação. Infelizmente, o Pedro 7 desistiu.
Mas essa foi só a primeira impressão. Vendo o amontoado de tentativas confusas de justificar o injustificável, de repente passei a admirar o Pedro 7. É preciso coragem para insistir na baboseira, mesmo de maneira tão coleante, mesmo quando a realidade lhe é jogada na cara. Como dizia o Borges, somente as causas impossíveis interessam a um cavalheiro. O Pedro 7 é um sujeito antigo em suas crenças e em sua hipocrisia; um típico cavalheiro vitoriano. Ele avocou para si uma tarefa muito difícil: conciliar cristianismo e astrologia. Não vai conseguir. Mas isso faz dele um rapaz de coragem. Queiram ou não, Pedro 7, o Astrólogo de Maria, é quase um poema. É a versão beata de Galileu, resmungando entre dentes: “E ainda assim, o sol está na quarta casa de escorpião!”
Republicado em 22 de agosto de 2010
Continuando a cruzada religiosa deste blog, um livro lido no ano passado continua na minha memória Chama-se “Vida no Brasil” e foi escrito por um sujeito chamado Thomas Ewbank.
Ewbank era um americano que passou alguns meses no Brasil, em 1866. Suas anotações sobre o cotidiano da Corte se transformaram em livro, cujo subtítulo é “Diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras”.
Por alguma razão, “Vida no Brasil” não é um livro lembrado com entusiasmo por gente como Gilberto Freyre ou Sérgio Buarque de Hollanda, os inventores do Brasil. Há pouquíssimas referências à obra de Ewbank em seus principais livros. Eles preferem outros viajantes, como Saint-Hillaire e Debret (embora Freyre faça ressalvas em princípio a outros franceses, que costumam exagerar e mentir em seus relatos). Essa lacuna chama mais a atenção em “Sobrados e Mucambos”, livro de Freyre que trata especificamente do período em que Ewbank esteve no Brasil. Eles mencionam “Vida no Brasil” em suas obras, claro. Mas é sempre com parcimônia, ilustrando temas secundários e de maneira acessória.
É uma pena. O livro de Ewbank é um relato fantástico do cotidiano da capital do país em meados do século XIX. É o tipo de livro que pode ser escrito apenas por um estrangeiro, para quem tudo que nos parece normal e óbvio é estranho e diferente. É justamente por não estar inserido no cotidiano, por não estar acostumado a ver tudo aquilo todo dia, desde sempre, que as pequenas coisas lhe chamam a atenção.
Aquele era um momento importante na história do Brasil. O século XIX foi o da reeuropeização do país. Depois de dois séculos de isolamento, em que forjamos a base da nossa identidade nacional mesclando elementos europeus, negros, indígenas e, acessoriamente, asiáticos — herança da tradição navegadora portuguesa –, o Brasil insular voltava a ter contato com a civilização européia. E mudava rapidamente seus costumes, adotando conceitos e costumes inteiramente novos — como a cerveja que substituía o aluá, as casacas pretas quase onipresentes e o pão de trigo que botava a mandioca para escanteio. Ewbank não pode ter consciência desse processo em andamento; mas ao contar o que via, fornece dados importantes para a sua compreensão.
O melhor em “Vida no Brasil” é resultado do espanto de Ewbank diante das tradições religiosas do Brasil. A escravidão, por exemplo, não lhe parece hedionda: afinal, ele vinha de um país que tinha libertado seus negros havia pouco tempo. É por isso que, com exceção de menções feitas quase de passagem, não é o regime escravocrata no Brasil que chama a sua atenção, o fato de um Estado aceitar a servidão de um homem. Se algo lhe revolta não é propriamente o sistema jurídico: são os abusos dentro desse sistema. Apenas no final do livro se encontra uma condenação um pouco mais contudente à escravidão — mas dirigida principalmente aos donos de escravos que os exploram em excesso, especificamente os do Norte (que, curiosamente, mostram ainda lembranças claras da Revolta dos Malês, em seu quase respeito aos escravos muçulmanos), e não quanto ao regime jurídico que permitia que uma pessoa possuísse outra.
Se, por exemplo, menciona o fato de os mesmos monges beneditinos que rezam as mais belas missas do Brasil terem centenas de escravos em suas fazendas, não é exatamente por indignação contra a escravidão, mas por notar a ironia religiosa e a contradição no discurso. Seu alvo não é a escravidão: é o catolicismo. Isso não impede, no entanto, que ele note as deformidades físicas que o trabalho forçado inflige aos negros, nem tampouco a beleza das escravas, ou ainda que não se espante com os castigos infligidos.
Se o fato de ser criado dentro de uma tradição que tolera a escravidão lhe torna complacente em relação a exploração dos escravos brasileiros, com a religião a conversa é outra. Ewbank foi criado em um país definido pela tradição puritana.
É isso que torna o seu livro realmente interessante: seu espanto diante da tradição católica brasileira — ritualística, hipócrita, sensual e exuberante — e o modo como ela se insere de maneira quase onipresente no cotidiano do brasileiro. O catolicismo pátrio, principalmente pelo que tem de teatral e obscurantista, fascina Ewbank: tudo aquilo é absolutamente exótico para ele. E o americano é perspicaz o suficiente para perceber a extensão da influência da Igreja na definição do caráter nacional. Ewbank acaba fazendo um relato preciso da relação do brasileiro com a religião e com a sociedade.
Aqueles eram outros tempos. Procissões se sucediam, assim como paradas, e as pessoas beijavam estandartes e bandeiras com devoção ou, mais provavelmente, respeito a uma conjuntura social. Caixas de esmolas se espalhavam pelas ruas. Em todas as igrejas, as pessoas podiam pegar suas medidas dos santos e fingir uma devoção que, já ali, misturava doses semelhantes de fé, hipocrisia e oportunismo. Os padres que não fugiam com suas fiéis tinham uma importância enorme em suas comunidades. Superstições que ainda hoje sobrevivem tinha uma força quase inimaginável.
Ewbank estava no Brasil quando se iniciou aqui o culto a Santa Prisciliana. Ele descreve com riqueza de detalhes o processo que criou, a seu ver artificialmente, um novo objeto de culto. Não esconde a indignação com o que julga, acertadamente, ser um grande embuste; mas faz questão de, antes, descrever o que se passa.
É óbvio, desde as primeiras páginas do livro, que o olhar de Ewbank não é imparcial. Ele é, definitivamente, um protestante americano. No Rio de Janeiro de 1866, Ewbank poderia passar perfeitamente por um bom inglês, com suas roupas escuras e sua incapacidade de se misturar ao povo local, demonstrando mesmo um certo horror pela barbárie que presenciava ao mesmo tempo em que é sensibilizado pela hospitalidade brasileira. Definitivamente, o catolicismo brasileiro não era “limpo” como o puritanismo americano. Como bom anglo-saxão, Ewbank mostrava total falta daquela qualidade plástica portuguesa que possibilitou esta que é a mais bem sucedida civilização européia nos trópicos.
Mas mesmo parcial, ou talvez por isso, Ewbank era dono de um olhar acurado. Homem de boa cultura clássica, é capaz de perceber as origens orientais em tradições brasileiras como o entrudo, que daria origem ao carnaval. A arquitetura colonial privada — que naquele momento de crescente urbanização começava a desaparecer, com rótulas e gelosias nas janelas dando lugar a vidraças e venezianas — lhe chama a atenção, e ganha em sua comparação com o amor setentrional à madeira e ao estuque. Mas mesmo admitindo a superioridade da arquitetura brasileira, ele não deixa de se horrorizar com um dos principais traços da nossa cultura: o total descaso com a rua, com a comunidade. Um traço que define a personalidade do brasileiro e compreendido com facilidade por Ewbank, ao notar que enquanto os americanos tinham calhas que traziam as águas das chuvas dos telhados para as calçadas, as casas brasileiras simplesmente jogavam a água no meio da rua, e os transeuntes que se virassem como podiam.
Quando voltou para os Estados Unidos, Ewbank levou consigo uma preguiça. O animal morreu durante a viagem. É bem possível que tenha morrido de sede: preguiças não bebem água. E esse fato simples talvez mostre a natureza de uma relação norte/sul que se perpetua até os dias de hoje. Ewbank era capaz de ver o que estava à sua frente, mas era incapaz de compreender, de verdade. Mesmo assim, o livro que escreveu a partir de sua experiência na terra das palmeiras é um relato importante da rotina na capital do império brasileiro. E, o que talvez seja mais importante, permite uma comparação razoavelmente precisa e fornece elementos importantes para que se compreenda um passado que, ainda hoje, continua no Brasil moderno.
Republicado em 20 de agosto de 2010
O Bear implicou com as rimas que arranjei para Jesus, num gesto de boa vontade e de sincera contribuição à riqueza poética da música popular brasileira. Sugeriu mais uma, “seduz”. E o pessoal reclamou da tendência pia que este blog, outrora tão pouco religioso, anda ostentando.
Então é a hora de fazer um poeminha.
Glória a Vós, ó Jesus!
Amor eterno que me seduz
E pelas veredas da morte me conduz:
Mas que pela manhã, ao lado de brucutus,
Deixa que eu coma só cuscuz,
Cercado por urutus,
Observado pelos urubus,
E insultado por homens nus.
Deixai-me dizer, num momento de luz,
Que esses putos, cada um com sua cruz,
Deviam todos tomar nos olhos dos seus cus.
Rapaz, eu devia ser poeta.