O sub-tenente Towersey, novamente

Há muitos anos, nos primórdios deste blog, escrevi sobre um livro que achei num sebo em Niterói. Era uma edição comum de How Green Was My Valley, mas que trazia o nome do seu primeiro dono: Y. R. Towersey, sub-tenente da Marinha Britânica que adquiriu o livro em maio de 1941, enquanto se preparava para a II Guerra Mundial no HMS Excellent, em Portsmouth.

É um post de que eu gosto.

Nele eu dizia que não tentaria descobrir nada sobre a história do livro, porque me contentava em imaginar suas peripécias até chegar às minhas mãos. Não ia tentar descobrir se o senhor Towersey tinha sobrevivido ou não à Iguerra. O sub-tenente Towersey poderia ser o que eu tinha imaginado.

Cumpri a promessa que fiz a mim mesmo. Não procurei saber nada sobre Towersey, principalmente depois que fiquei sabendo que o Excellent não era um navio, e sim um centro de treinamento.

Mas sete anos depois eu posso contar o destino do sub-tenente Towersey, e isso é, para mim, tão interessante quanto a história que eu mesmo criei para ele.

Towersey lutou na guerra. Serviu primeiro em um caça-minas no Mediterrâneo, e mais tarde foi para a base naval da Algéria, trabalhando na parte administrativa.

Quando a guerra acabou, a Inglaterra estava em frangalhos. E Towersey, àquela altura mais um civil procurando emprego em uma cidade que não os oferecia, foi trabalhar para uma empresa de navegação, que tinha um escritório no Rio de Janeiro, para onde foi enviado.

No Rio lhe deram um conselho sábio: que fosse se hospedar em Niterói, para fugir da febre amarela. E lá o sub-tenente criou sua família. De alguma forma, um de seus livros foi parar num sebo. E hoje descansa na minha estante.

Fiquei sabendo da história de Towersey porque seu filho, Daniel, achou este blog e o post sobre o seu pai, e deixou um comentário.

Na verdade, o nome do sub-tenente cujo livro veio parar em minhas mãos não começava com Y, e sim com F — eu é que li errado. E ele está vivo em 2010, do alto de seus 90 anos. Ao lado está uma foto do oficial ainda jovem.

Daniel Towersey descobriu que alguém, que ele nunca viu na vida, escreveu sobre um pedaço da história de sua família.

E eu descobri que algumas coisas continuam mágicas mesmo depois que você descobre o mais importante sobre elas.

Deus e o diabo

O mais me fascina em quem acredita em Deus é a maneira como eles estão dispostos a acreditar em um ser superior sem começo nem fim, sem nenhuma explicação, que criou toda a matéria do nada e vai continuar existindo a despeito de tudo o que achamos, e ainda assim não conseguem perceber a beleza e a similaridade da idéia de que tudo o que existe é grande e belo o suficiente para dispensar um criador, matéria sem começo nem fim, sem nenhuma explicação, e que vai continuar existindo a despeito de tudo o que achamos.

O que mais me fascina em quem não acredita em Deus é a maneira como eles estão dispostos a acreditar que tudo o que existe é grande e belo o suficiente para dispensar um criador, matéria sem começo nem fim, sem nenhuma explicação, e que vai continuar existindo a despeito de tudo o que achamos, e ainda assim não conseguem admitir a beleza e a similaridade da idéia de um ser superior sem começo nem fim, sem nenhuma explicação, que criou toda a matéria do nada e vai continuar existindo a despeito de tudo o que achamos.

E o que me irrita em uns e outros é a maneira que, ao fazer proselitismo de suas crenças, abdicam da razão e se igualam na mesma lama da ignorância.

Defendendo Dunga

Assisti ao final da convocação a seleção brasileira de futebol para a Copa da África do Sul, e à coletiva posterior.

A primeira impressão que tive foi a da qualidade impressionantemente baixa do jornalismo esportivo perpetrado neste país. As perguntas eram feitas no seguinte tom: “Você tem sua opinião, Dunga, e ninguém é obrigado a concordar, mas…” e “Graças a Deus você não era técnico da seleção em 58, porque senão Pelé…”. Nível baixo demais, de confronto, feito por gente que deveria ter vergonha de pronunciar a palavra “profissional”.

Logo depois foi a vez das mesas redondas nos canais esportivos. Normalmente, mesas redondas são cenários de bobagens ditas com ar de autoridade e ânimos exaltados, mas a animosidade contra Dunga, as críticas exacerbadas, tudo isso passou a impressão de que a escalação foi uma surpresa absoluta. Naquele momento, Dunga parecia ser o arauto do futebol-arte que, de repente, tinha traído seus ideais e abdicado do futebol brilhante que o Brasil pode jogar em função de uma covardia repentina, de uma mudança súbita para um futebol sem surpresas e feito para, antes de tudo, defender. O sujeito que, depois de três anos e meio fazendo de sua seleção algo de dar inveja a Telê Santana, jogou fora os seus jogadores para catar cabeças-de-bagre retranqueiros.

Eram os mesmos jornalistas que vinham elogiando o sujeito, ainda que com um muxoxo, porque ele vinha ganhando as competições que disputava.

A única opinião sensata foi dada pelo Juca Kfouri. Segundo ele, Dunga montou a seleção que se esperaria dele, definida em função de um objetivo bem específico: ganhar a Copa do Mundo. Não era a seleção que o Kfouri convocaria, mas era uma seleção respeitável e, acima de tudo, competitiva.

Dunga tem sido perseguido pela imprensa desde sempre. Em 1990 foi tomado para Cristo de uma seleção que não era sua culpa, em 1994 o ridicularizavam quase que por reflexo condicionado– e sequer conseguiam reconhecer que ele não apenas desempenhou bem o seu papel naquela copa, como até mesmo surpreendeu com lançamentos excelentes para Romário.

O mais engraçado é que, do jeito que esses jornalistas sérios e competentes falam, ficou parecendo que essa é a primeira seleção “de resultados” que se monta no Brasil. Que até a véspera da convocação este país era o palco de seleções que jogavam como em 1982, ou ainda melhor. A se acreditar nos jornalistas brasileiros, as seleções de Lazaroni, Parreira, Zagallo e Scolari foram prodígios do toque de bola solto e do ataque inconsequente. Fiquei com a impressão de que a minha memória me traía, e nenhum deles convocou seleções medianas; umas melhores, outras piores. Eu achava que desde 1982 não via uma seleção que realmente enchesse os olhos, apenas eventualmente seleções que claramente tinham chances de ganhar, como a de 1994; eu estava enganado, porque esses jornalistas me disseram.

Afinal de contas, esperavam o quê? Ganso, Robinho e Neymar no ataque? Quem ainda esperava isso em maio de 2010 acompanhou ainda menos que eu o futebol brasileiro nos últimos quatro anos. Dunga convocou o que se podia esperar que ele iria convocar. O Milton Ribeiro, por exemplo, acertou virtualmente todos os convocados. Aqui e ali algumas surpresas realmente estranhas, como Grafite e Kleberson. Mas nada que não pudesse ser previsto.

Ao que parece — e aqui falo sem muita certeza porque não acompanhei — esses anos de preparação de Dunga foram, ao menos, mais sérios que as eliminatórias disputadas por Luxemburgo e Scolari — Léo Costa, Tinga, lembra? E ao que me dizem foi uma seleção que venceu tudo o que disputou. No mínimo, Dunga é digno de admiração por não ter ouvido o cacarejar da imprensa esportiva, que se deleita em pedir os times que atendem a suas idiossincrasias ou interesses e crucifica qualquer um que não ganhe a Copa– e não faz uma conta entre esses dois aspectos, beleza e competitividade, porque isso não lhes interessa.

Eu, pelo menos, lembro ainda das críticas que Telê Santana enfrentou em 1982. Jô Soares tinha um quadro humorístico em que ele implorava a Telê, de um orelhão — na época ainda se usava orelhões — que levasse um ponta-direita. Mais ainda, lembro da crucificação de Telê depois da derrota, da sua demissão e substituição primeiro por Parreira, depois por Evaristo de Macedo, e sua volta às vésperas da Copa de 86. Logo depois da derrota para a Itália ninguém apareceu com a conversa de “futebol-arte”, de como era melhor perder mas jogar bonito. Em vez disso reclamaram do burro, do idiota, do jumento do técnico.

Ontem mesmo, diante da virada do Grêmio sobre o Santos, os mesmos que esculhambaram Dunga já falavam que o time de Ganso, Robinho e Neymar é lindo no ataque mas, ao precisar se defender, se perde.

Se alguém quer minha opinião, acho essa seleção de Dunga medíocre no sentido clássico da palavra, mediana. Ao mesmo tempo, é como disse o Juca Kfouri: uma seleção competitiva, escolhida para tentar ganhar a Copa do Mundo. Não questiono, de modo geral, as suas escolhas. É um estilo de jogo e pronto, e nem sequer é inédito entre as seleções brasileiras. Acho apenas, como o jornalista Paulo Vinícius Coelho, que ele errou no banco de reservas, que poderia ter sido mais criativo ali, até porque em algum momento pode vir a ser necessário uma mudança de estilo de jogo. Um jogador excepcional como Ganso teria lugar em qualquer seleção, com qualquer idade. Finalmente, Zidane provou ao Brasil — duas vezes seguidas — que um meio-campo criativo é capaz de destruir qualquer esquema tático, mas nenhum técnico brasilerio parece ter aprendido a lição ainda.

O que mais irrita é saber que, se qualquer um dos sábios que esculhambou Dunga fosse técnico profissional e tivesse que convocar uma seleção para uma Copa do Mundo, provavelmente faria a mesma escolha: um time que aposta no futebol de resultados porque o verdadeiro objetivo para a CBF é vencer, ainda que jogando feio. É para isso que ele é contratado. Infelizmente, não acho que vá conseguir. O Brasil vai chegar classificado ao terceiro jogo, contra Portugal. Dificilmente será desclassificado nas oitavas; o mais provável é que chegue às semi-finais. No entanto, o Brasil não vai ganhar essa Copa, porque algo no mapa astrológico da FIFA me diz isso, e porque a festa brasileira está reservada para daqui a quatro anos.

(Obviamente, torço para estar errado.)

Eu, pessoalmente, prefiro ver o futebol de 82, ou mesmo o que o Santos tem jogado. Mas também gosto de comemorar uma vitória de Copa do Mundo, e para quem viu a sua primeira com uma seleção como a de 1994, qualquer coisa já é lucro. Se puder ter os dois ao mesmo tempo, ótimo. Se não puder, a esta altura da vida, me contento com qualquer um dos dois.

A maior parte das pessoas, no entanto, prefere vencer. Os jornalistas também, apesar do seu discurso hipócrita — e se viram hipocrisia e forçação de barra nos apelos ao “comprometimento” e ao “patriotismo” de Dunga, eu vejo também na sua grita incansável, pronta a detonar qualquer técnico que não vença, jogando feio ou bonito.

Curling

Quando fizerem uma retrospectiva de 2010, tenho quase certeza que um dos destaques do ano vai ser o curling, que apesar de ser um esporte antigo apareceu de verdade nas Olimpíadas de Inverno de Vancouver. Ninguém sabia que aquilo existia. Eu, pelo menos, não sabia. Talvez os velhinhos paulistas que ficam jogando bocha suspeitassem de que algo assim poderia existir; eu confesso a minha total ignorância.

Até assisti uns pedaços de uma ou duas partidas. E eu simplesmente não assisto esportes que não entendo, como esse tal de curling, e aqueles que francamente detesto — rugby me irrita profundamente, por exemplo.

Mas o curling tinha umas dinamarquesas bonitinhas, e as meninas deslizando pelo gelo eram uma imagem bonita de se ver — quase tão bonita quanto duas moças se pegando numa piscina de lama ou de gel. No fim das contas, estavam jogando um jogo absolutamente imbecil para capturar as atenções de uma humanidade que agora se alimenta prioritariamente de novidades, por mais bobas que sejam.

Curling é basicamente bola de gude jogada por empregadas domésticas. Pelo que entendi — e confesso que não entendi muito — uma fica tentando afastar a chaleirinha da adversária do buraco — em Aracaju chamavam “biloco” — enquanto uma dupla de empregadas mui devotadas vão varrendo o chão.

Pensei seriamente em sugerir à minha empregada que montássemos uma equipe. Íamos fazer sucesso. Eu joguei um pouco de bola de gude na infância, ela varre bem. Daria certo.

Mais comentários vagabundos

É engraçado que os comentários aos posts anteriores tenham derivado quase exclusivamente para a questão da greve de funcionários públicos.

Por favor, releiam os textos ou pelo menos o último comentário do fm. As greves abusivas são apenas um detalhe. É o cotidiano de professores desinteressados e incompetentes, de médicos que vão aos hospitais uma hora por dia, que irrita e que era objeto dos textos.

De qualquer forma parece ser necessário explicar novamente.

Qualquer funcionário público tem direito — e às vezes o dever — à greve. O problema começa quando essas greves são abusivas. Quando prejudicam sistematicamente outro setor da sociedade, geralmente os mais indefesos. É o problema das greves dos professores, do jeito que são feitas. O blog propôs uma alternativa as greves aos professores; ninguém discutiu isso. Apenas reafirmaram o mesmo discurso velho, cansado e extremamente corporativista.

A atitude cínica de “eu finjo que trabalho e você finge que me paga” é nociva, deletéria e falsa. Porque os salários do Estado não são os salários de fome apregoados no início de cada discurso, e porque, no mínimo, o Estado paga muito mais do que o que recebe. Esse é o problema. (Quanto à defasagem salarial alegada por tanta gente, eis um comunicado a todos aqueles que pretendem prestar concurso público e estiveram fora do planeta Terra nas últimas 3 décadas: seu salários certamente sofrerão algum tipo de defasagem ao longo dos anos. Pronto. Agora a desculpa das perdas salariais não vale mais para a ausência de trabalho.)

O argumento do “não está satisfeito, vá embora” é simplista, como diz o Akakiev? Talvez. É ético, ao menos, e é o que milhões de pessoas que trabalham no setor privado por salários semelhantes fazem a vida inteira — logo, não é exatamente o fim do mundo. O que importa, mesmo, é que a reação a essa idéia reflete, ao menos em parte, uma certa mentalidade de expropriação do Estado por parte de uma parcela de funcionários públicos. As pessoas querem que o Estado lhes ofereça tudo — bons salários, garantia de emprego por toda a vida, excelentes condições de trabalho — sem dar o que precisam dar em troca.

São socialistas quando se trata de receber do Estado, mas capitalistas na hora de dar.

Mas o meu problema está no prejuízo causado à sociedade em nome de direitos — às vezes privilégios — de alguns.

Fazer greve no Estado é como bater na mãe: você pode até estar errado, ela pode até ficar sem falar com você durante anos, mas no final ela vai lhe perdoar. Lula — que fez greve no setor privado e contra os interesses de uma ditadura que, apesar do que diz a Folha, não era nada branda — deixou claro que greve nos termos que os professores fazem não é greve, são férias. Ainda assim, a greve é um direito básico de cada trabalhador, público ou privado. O problema está no abuso, e principalmente, no uso do povo — que não pode se defender — como refém.

O ponto central do post, ao contrário do que diz a Nicolle no seu desabafo autobiográfico e revoltado no post anterior, não é o de que funcionários públicos não podem reclamar. Podem e devem. O que não podem é deixar de fazer o trabalho para o qual foram contratados sabendo de antemão qual seria o seu salário; ao defender a melhoria desses salários, não podem prejudicar sistematicamente os seus clientes.

Isso não pode ser tão difícil de entender assim.

Ninguém, aliás, lembrou do ponto de vista de pacientes e alunos: eles pagam impostos. Têm o direito constitucional a saúde e a educação. No entanto, porque alguns funcionários públicos acham, com ou sem razão, que seus salários não são justos, esses direitos lhe são negados constantemente. É por tudo isso que o discurso da Nicolle é bonitinho e indignado, mas também repleto dos lugares comuns de sempre:

Por 2000 reais você lutaria contra traficantes no morro do alemão, na rocinha ou na maré? E se eu acrescentasse que eles estão em maior número, mais bem armados e talvez até mais organizados que você? Por pouco mais de 500 reais você trabalharia de segunda à sexta sob condições de trabalho precárias das escolas públicas brasileiras? E se eu acrescentar aí que a escola referida fica numa comunidade carente, seus alunos estão sendo recrutados para o tráfico e até ameaças de morte você recebe?

A Nicolle não parece ter compreendido o texto e o mundo. A resposta para as duas perguntas é “não”, mas responder isso me parece idiotice: é o que eu digo desde o primeiro post, e o que o Akakiev e o fm compreenderam. A questão é: se eu aceitasse, eu daria a aula. É só isso. O que não dá para aceitar é alguém fazer concurso, sabendo quais são as condições que lhe esperam, e depois dizer que não vai dar aula ou atender seus pacientes porque o salário é baixo, sendo que não pode ser demitido ou penalizado por isso.

Mais ainda, me incomoda profundamente o cinismo de professores que trabalham ao mesmo tempo na rede pública e na rede privada de ensino, sendo que na privada ganham menos, não fazem greve e, o que é mais importante, dão aula de verdade. O Akakiev poderia me explicar, por exemplo, por que é que há professores decentes de matemática na rede privada de ensino, sendo que esta, com exceção dos salários altíssimos dos professores de cursinho, pagam consistentemente menos que o Estado? O salário não é justificativa suficiente, portanto. Se fosse assim não existiria servente de pedreiro competente.

A personalização de histórias também é algo que, certamente, não deveria fazer parte de um debate. A Nicolle citou o exemplo da mãe, que fez concurso para ganhar 330 reais. Fez por “falta de alternativas”. Não é essa a questão, no entanto. É: ela deu as aulas que precisava dar? Enquanto as pessoas continuarem olhando para os setores de educação e saúde do Estado como assistência social — “eu não tenho emprego então vou catar algo no Estado” –, as coisas não vão melhorar nunca.

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Uma das coisas que me irritam, e que esqueci de mencionar no primeiro post mas que o comentário do fm acabou me lembrando: classe média reclamando que é quem mais paga impostos e a que menos recebe serviços públicos em troca.

A classe média recebe, sim, pelos seus impostos. Recebe muito mais do que os pobres. Ela reclama de não usar os professores do Estado ou o serviço de saúde: mas recebe saneamento, pavimentação, iluminação pública, segurança, sistema de trânsito, coleta de lixo. Os serviços prestados pelo Estado à classe média são consistentemente melhores que os prestados às classe mais baixas.

E isso acontece por uma razão: a classe média tem acesso à mídia e pode reclamar. Um miserável fica feliz quando o Estado tira, finalmente, o esgoto de sua rua. Os padrões da classe média são mais altos, coisas desse tipo são impensáveis.

Mas como é ela a prestar aqueles serviços específicos aos pobres, então a coisa muda de figura. Aí é o Estado que não presta, que paga mal, e isso lhes desobriga de fazer o básico: o seu trabalho.

Comentários vagabundos

Os comentários em defesa de médicos e professores e policiais me impressionaram.

Que vocês todos — Caetano, Adroaldo, Cal — me perdoem, mas antes de mais nada, custava dar uma olhada nos salários praticados ao redor do Brasil? Está tudo aí, disponível facilmente na internet.

Vamos lá.

Em 2008, a Universidade Federal do Piauí — o Piauí, saca? O Piauí — abriu concurso para professores. O menor salário oferecido era de 4,8 mil reais. Salário que não dá para comprar sequer um livro, como se vê.

No ensino médio a coisa, obviamente, não é tão boa. A Prefeitura de Vitória abriu concurso para professor, e o salário básico inicial é de 1.441 reais, por 25 horas semanais. Não é um grande salário, mas além de ser apenas o inicial, o que pressupõe uma melhora gradativa, não é exatamente o “meio salário mínimo” da lenda.

Para os médicos: a Fundação Hospitalar de Sergipe acabou de abrir concurso. O salário para médicos, por 36 horas de trabalho semanais, é de 6 mil reais — além de gratificações que chegam a 2.400 reais. No PSF, a coisa é bem diferente. Os salários em várias regiões do Brasil podem chegar a 12 mil reais, e 500 reais a mais por cada plantão de 12 horas.

O salário inicial de soldado de primeira classe em um concurso aberto recentemente no Paraná é de 1.818 reais. Em outro concurso, da Polícia Militar de Goiás, é de 2.711. Em Sergipe, um soldado de primeira classe da PM ganha 3.012 reais; um coronel, 12.401.

Todos, obviamente, estão passando fome.

Só um dado a mais sobre médicos: no Brasil, há o dobro de médicos recomendados pela OMS. Isso deveria significar pressão salarial para baixo. Desculpem os amigos que fizeram o juramento de Hipócrates, mas é mais ou menos a mesma razão que permite que vocês paguem esses salários vergonhosos que vocês pagam para suas empregadas (que infelizmente não podem fazer greve e ainda têm que aturar vocês reclamando de ter que assinar a carteira, porque senão ela bota vocês “no pau”): a lei da oferta e procura. É o Estado, e a possibilidade de chantageá-lo usando aquele bando de “jacarés” como reféns, que permite que os salários continuem altos — e que as pessoas continuem acreditando no seu chororô.

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Mas o que todo mundo parece deixar de lado é o seguinte: não interessa o salário. Pode ser 10, 1.000 ou 100.000 reais. O que interessa é que, quando esses vagabundos prestaram concurso, sabiam exatamente quanto iam ganhar. Fazer o povo de refém depois é sacanagem.

Talvez eu seja meio calvinista, mas ainda acredito no cumprimento de contratos. Se você me oferece 10 reais para consertar a pia de sua casa, eu posso aceitar ou não. É um direito meu. Mas se eu aceitar, tenho o dever de fazer o meu serviço bem feito. Quem — dos médicos, professores, PMs ou garis que lêem este blog — já contratou os serviços de um pedreiro e depois começaram a aparecer diversos custos que não estavam previstos certamente se sentiu lesado. Pronto. Agora vocês podem entender o que o povo, que fica à mercê da boa vontade de médicos e professores, sente.

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Agora, o que realmente me irrita é essa brincadeira de nego defender médico vagabundo, professor safado — e ninguém defende os pobres publicitários? Eu trabalho 14 horas por dia, raramente tenho finais de semana (Ricardo, desculpa, mas é que tá complicado, mesmo), dia desses fiz uma moça ter um colapso nervoso por excesso de trabalho, minha assistente está com stress e já está aprendendo a dar esporro, quando a gente fica doente e vai para o médico (particular, porque assim a gente é atendido) e ele recomenda repouso a gente começa a rir da ingenuidade deles, metade das agências de Aracaju fala mal de mim pelas costas. E ganho pouco. E não faço greve, porque se eu perder meu empreguinho não tenho como comprar o Jack Daniel’s das crianças. Não tem um filho da puta que venha me defender? Ah, não. Eu também quero reclamar.

“Das coisas que me irritam”, ou “Vai trabalhar, vagabundo”

Médico reclamando do Estado e dos planos de saúde.
Eu confesso: desenvolvi um preconceito invencível contra médicos. Não gosto deles como categoria profissional — na verdade não é um simples desgostar, é desprezar, mesmo.

Poucas coisas me irritam mais que ver médico do Estado ou da Prefeitura, que na hora de prestar concurso faz fila de dobrar a esquina, se recusando depois a trabalhar e justificando sua canalhice profissional com a alegação de que os salários são baixos.

Fazem isso porque podem, porque contra o Estado tudo parece ser permitido.

Nas últimas décadas, com o surgimento do SUS, o Estado ampliou bastante a estrutura de saúde pública no país. Algumas cidades, como Aracaju, têm cobertura de quase 100%. Mas a ampliação da estrutura não significou necessariamente melhoria dos serviços, e o principal calcanhar de Aquiles do sistema público de saúde é justamente esse: a qualidade no atendimento.

O mundo está cheio de médicos que deveriam ser expurgados de profissão que se pretende tão nobre. Profissionais que não atendem direito os pacientes, gente que faz exames em 3 minutos sem sequer olhar para o doente à sua frente. Isso, claro, quando vão trabalhar, porque o salário do Estado é garantido, eles podem simplesmente faltar e cuidar de outros empregos.

Quando alguém tenta fazer esse bando de vagabundos trabalhar, a coisa fica feia. Recentemente, um hospital público de Aracaju instalou um sistema de biometria para checar a frequência dos médicos. Colocaram cola nos leitores ótico.

E quanto aos planos de saúde, que segundo eles pagam muito mal, é simples: basta ter vergonha na cara e evitá-los. Montem seu consultório. Mas não: eles precisam dos planos de saúde para fazer algum nome, conquistar alguma clientela.

Médicos me irritam por uma questão de dignidade, se não profissional, humana. Eu tenho a impressão de que eles acham que, porque estudaram por seis, sete anos, merecem tratamento diferenciado em relação ao resto da humanidade. Como se o trabalho real fosse a faculdade, e o resto da vida uma aposentadoria confortável.

Jogador de futebol beijando a camisa do clube.
Ninguém jamais viu Pelé beijando a camisa do Santos, ou Garrincha beijando a camisa do Botafogo, nem Nilton Santos; ninguém jamais viu Zico e Júnior fazendo um gol e correndo para a torcida beijando para mostrar o seu amor ao time em jogaram suas vidas inteiras e com o qual até hoje têm ligações fortes.

Mas hoje qualquer jogadorzinho vagabundo recém-contratado, depois de uma passagem por uns 20 clubes, faz um gol e sai beijando a camisa do time, exatamente como beijará a camisa do próximo, e do seguinte.

Devem fazer isso para mostrar que quando forem contratados por outro clube vão defender a outra camisa com a mesma empolgação.

Mas não precisa disso. Basta fazer a sua parte. Jogue bem, o melhor que puder. E não finja amor, que amor por um clube tem são os idiotas que, por razões absolutamente irracionais, resolveram torcer por um time de futebol.

Publicitário reclamando de cliente.
Essa é clássica, e eu mesmo já fiz isso nos meus verdes anos. O redator reclama que o cliente achou seu título engraçadinho inadequado. O diretor de arte reclama que o cliente achou seu leiaute confuso.

É uma arrogância típica da profissão, de gente que se acha artista em vez do que verdadeiramente é: mascate. Talvez seja uma arrogância necessária, mas nem por isso correta.

Uma das coisas que aprendi na vida é que normalmente o cliente sabe mais sobre seu público consumidor do que publicitários podem sonhar em saber. Então publicitários aparecem com ideias bonitas, que às vezes só interessam a eles mesmos — olha que leiaute bonito! Olha que título engenhoso! –, e depois reclamam quando o cliente, que sabe quanto custa em seu bolso e em sua caixa registradora uma campanha mal-feita, ou inadequada, reclama que aquela ideia não vende o suficiente.

Isso num mundo ideal, claro. Na realidade, hoje em dia o mercado anda tão ruim, é tudo tão objetivo e mediano, a cópia de modelos já existentes é tão pervasiva, que se algum publicitário reclama que o cliente não gostou de sua cópia, ele é um caso perdido de falta de vergonha na cara.

Professor universitário fazendo greve e dizendo que é para melhorar a educação.
Professores, ao contrário do que gostam de dizer, não têm os piores salários do país. Pode checar: confira o valor do salário mínimo e compare com a média salarial de professores do ensino público estadual e municipal do lugar onde você mora.

Pode ser maior? Pode, sim. Na verdade, o salário de todo mundo pode ser maior. O meu certamente deveria ser. Mas não são os salários mais baixos do mundo. Na verdade, graças ao papel do Estado como principal empregador de professores, o salário médio de professores subverte a lei da oferta e da procura.

A greve é um direito inalienável de qualquer trabalhador, e ninguém deve sequer questionar isso. Eu, particularmente, acho que no caso dos professores há outras maneiras de fazer greve; por exemplo, dar aula normalmente mas não baixar notas ou frequência, por exemplo, que é o que conta para a burocracia do Estado. Mas a prática é mais complicada. Os professores fazem greve por 3, 4 meses pedindo, digamos, 40% de aumento salarial e cuidam de meter na pauta de reivindicações uma vaga “melhoria das condições de ensino”. No final, aceitam quaisquer 0,5% de aumento — em três vezes sem juros — e, para os alunos que ficaram sem aula, passam um trabalho vagabundo qualquer que valeria as notas perdidas.

No fim das contas sobra para os estudantes. E eu tenho a impressão de que uma das causas da decadência do movimento estudantil foi justamente o fato de DCEs e uniões secundaristas embacarem alegremente no vagão das greves de professores, esquecendo de defender os seus próprios direitos.

Professor botando a culpa no aluno.
Há muito tempo este blog se pronuncia contra a escola pública. E uma das principais razões disso são os professores. Há problemas de gestão, também, e muitas vezes a falta de segurança é um problema real para muitos professores da rede pública.

Mas quando um professor reclama da falta de interesse de seus alunos e utiliza isso como justificativa para o baixo nível da educação, está dando uma prova de incompetência absolutamente vergonhosa. Não há muito o que discutir. A questão é tão simples que até assusta: se os alunos estivessem dispostos a aprender sozinhos, não precisariam de professor.

Policial reclamando de salário.
O sujeito quer ser puliça para bater no povo e ser otoridade. Faz concurso para ganhar mil, 2 mil, 3 mil reais. E depois reclama que é mal pago.

Ah, vai sentar em cima do seu cassetete.

Não reconheço em nenhum, absolutamente nenhum funcionário público o direito a utilizar seu salário como desculpa para não trabalhar. Ele sabia quanto ia receber quando foi alegre fazer o concurso. Não está satisfeito? Vá embora. Peça demissão.

A esquecida arte do silêncio

Tem umas coisas que a gente só aprende com o desenrolar da vida, com a sabedoria e a experiência que apenas o esforço por viver pode ensinar. Uns, mais afortunados, descobrem o segredo da felicidade, o sentido da vida, vão fundo da filosofia e na compreensão dos mistérios do universo. A maioria de nós apenas aprende os rudimentos da arte de sobreviver, e mais que isso talvez não seja necessário.

Restam aqueles para os quais a vida é injusta e malvada, aqueles que sequer aprendem que de vez em quando a gente deve engolir uns sapos calado, feliz, fingindo um sorriso tranquilo e despreocupado.

Não interessa que por dentro você esteja se dilacerando em ódio, que da sua boca saia a mítica espuma branca da sede de vingança: em nome da sua própria dignidade é melhor aguentar o desaforo quieto, porque uma palavra a mais e ao desaforo se somará o deboche e o escárnio.

É um axioma importante, esse: tem horas que é melhor ficar calado, não importa o tamanho de sua mágoa.

O Isaac, por exemplo, devia ter ficado quieto.

Ele veio a este blog e deixou um comentário malcriado e ofensivo. Não era necessário. Opinião nenhuma lhe foi pedida, sua visita passaria despercebida, este post não seria escrito — e para isso bastaria que ele continuasse calado, encarasse o desaforo como o que ele realmente era: algo que não lhe era dirigido e que não precisava de suas manifestações de revolta.

Mas ele ainda não aprendeu a ficar calado, é um menino de sangue quente. Ao terminar de ler esse post, sua raiva era tão grande que ele não se controlou e mandou para cá um comentário malcriado que, obviamente, foi bloqueado:

Que desgraça!! seu gordo filho da puta! naum acredito que perdi meu tempo lendo isso, va se fuder!!! E só pra sua informação eu tnho 17 anos e tenho um pênis de 21 cm +/- ereto e o segredo e comer as putinhas do meu colégio

Deve doer, sim, digitar uma pergunta esperando uma resposta esclarecedora e receber em troca uma brincadeira bem-humorada; eu consigo imaginar o desgosto de uma pessoa na condição do Isaac vendo o canalha do Google trazendo-o para cá. É por isso que entendo a sua raiva. O que não entendo é o vacilo do menino em se expor dessa forma.

A informação que ele me oferece, obviamente, não me interessa. Não estou preocupado com os segredos do Isaac. Na verdade, agora que parei para pensar nisso, tenho algumas dúvidas de que alguém esteja. Mas quando a gente fala mais do que deve acaba se expondo em excesso, e é por isso que escrevo este post: eu gostaria de ensinar algumas coisas ao menino Isaac.

Diante do comentário que ele deixou é difícil resistir à tentação de fazer uma pequena análise. Por exemplo: se o Isaac tivesse mesmo a centimetragem que alega ter, provavelmente leria o texto e acharia graça. A gente acha graça do que não dói na gente. Então é fácil olhar para os 21 centímetros alegados pelo garoto e imaginar: não, não, isso é erro de digitação, são na verdade 12. E aí a gente pensa um pouco: se ele escreveu 12 é porque não verdade são 7, ele usou aqui de uma certa licença poética absolutamente compreensível, em caso tão grave como esse.

Se o Isacc ficasse calado a gente não descobria esse seu segredo terrível. Um pouquinho de implicância ortográfica e a gente pode achar que o pênis do Isaac fica mais ou menos ereto, e concluir que além de pequenininho ele é meio broxa, e olha, ser broxa é pior que ser maldotado.

A lista de tragédias que parecem acometer o Isaac não termina aí, no entanto. Quando um bobinho de 17 anos chama suas coleguinhas de colégio de “putinhas”, adjetivo que soa bem apenas em momentos e locais extremamente específicos, o mais provável é que essas meninas mal saibam que ele existe. Devem ser meninas maravilhosas, essas que ele chama por nome tão feio. Certamente mais maduras, e algumas delas já sabem o que podem esperar de um namorado — certamente bem mais que a mixaria que o menino lhes oferece. A única coisa que se deduz de uma frase como essa é: o Isaac não come ninguém, mas mente que é uma beleza.

Com umas poucas linhas a gente descobriu que o Isaac tem o pinto pequeno, é meio broxa, não come ninguém e é mentiroso. A análise do comentário deixado por ele neste blog de boa família e melhores intenções dá margem a apenas uma conclusão: infelizmente, sua raiva diante do post é muito maior que seu pinto.

Essa é uma lição inestimável, Isaac, e aos 17 anos você ainda tem tempo de aprendê-la: na vida, a gente deve aprender a manter a boca fechada.

Deixai vir a mim as criancinhas

L’Osservatore Romano, o jornal do Vaticano, elegeu os 10 melhores discos de todos os tempos.

Os vencedores foram os Beatles, com o álbum Revolver. Na lista estão ainda o Dark Side of the Moon, também uns discos menos importantes — até o Oasis marca presença. Mas não é isso que impressiona.

O sexto colocado é o Thriller, de Michael Jackson.

Não deixa de ser comovente ver os padres homenageando o seu igual, e mantendo viva a chama do amor excessivo aos infantes.