A última enganação da Igreja

Ainda lembro dos problemas que “A Última Tentação de Cristo”, o filme de Scorsese, encontrou no mundo inteiro.

A Igreja Católica repudiou o filme alegando que não podia concordar com um Jesus que ia para a cama com Maria Madalena e que cedia à tentação de escapar à crucificação.

Milhares de pessoas comentaram a decisão da Igreja Católica. Atacaram os argumentos apresentados e lembraram que no final Jesus resistia, essas coisas. Ficou estabelecido, então, que esse era o tópico central do filme, e o ponto que incomodava a Igreja.

O filme não chegou a Aracaju, onde eu morava na época. O dono dos únicos cinemas da cidade alegou que não ia passar um filme herético como aquele; a verdade é que ele não exibia nada da UIP, distribuidora do filme, por questões financeiras. O sujeito era complicado: normalmente exibia os filmes com alguns meses de atraso, quando os preços baixavam.

Assisti ao filme em Salvador. Saí impressionado com o que me pareceu ser a miopia de meio mundo.

E até hoje acho que o papa e os cardeais, no luxo do Vaticano, liam os comentários que faziam contra sua “estreiteza” às gargalhadas.

A Igreja foi sagaz o suficiente para evitar tocar no ponto que realmente deve ter incomodado: um diálogo entre um anônimo Jesus e São Paulo, em que Aquele, assustado com as deturpações de Seus ensinamentos, é confrontado com a triste verdade: não interessava o que Jesus disse, interessava o que aqueles que O sucederam fizeram da religião.

A partir desse dia cheguei à conclusão de que a) a velha e boa Igreja Católica não nega os milênios de experiência; e b) críticos de cinema que realmente assistem aos filmes que resenham são cada vez mais raros.

O Último Samurai

E lá fui eu assistir a “O Último Samurai”.

A verdade é que acho Tom Cruise uma simpatia. A câmera gosta do rapaz; eu também. Além disso, o filme prometia diversão descompromissada para a tarde de sábado.

“O Último Samurai” é a história de um capitão do exército americano que julga ter perdido a honra e a razão de viver nas guerras índias. Ele vai para um Japão dividido entre a tradição e a ocidentalização da era Meiji, como uma mistura de mercenário e agente do governo americano. Ao entrar em contato com a samurai way of life tem sua vida transformada. Blá blá blá. A moral do filme é que a teimosia e o individualismo americanos, quando aliados à disciplina japonesa, são imbatíveis.

Logo nos primeiros minutos vem a impressão que vai durar até o final do filme: aquele é uma espécie de “Xógum” no tatibitati de Hollywood.

“Xógum” é um best seller de James Clavell, livro pelo qual sou fascinado. Tudo o que sei sobre o Japão — e é muito pouco — vem dele. Eu costumo chamar “Xógum” de “‘O Príncipe’ com molho de soja”, e é uma aula de estratégia política. É bastante interessante, também, ao descrever o conflito entre duas culturas praticamente antagônicas. Mas, por mais que “O Último Samurai” beba dessa fonte, a verdade é que Nathan Algren está muito longe de John Blackthorne — e por favor, nem em seu sonho mais delirante Katsumoto mereceria ser assistido em seu haraquiri por Toranaga.

Há situações tão implausíveis que beiram o ridículo, como o filho do sujeito que Tom Cruise mata o adotando como pai postiço. Por muito menos Bruce Wayne virou o Batman.

É impressionante como Hollywood consegue reduzir toda cultura que não conhece direito a um arremedo de seus westerns. “O Último Samurai” se resume apenas a uma xerox mal tirada de “Xógum”. Bem fotografada, mas ainda assim uma xerox.

Para quem esperava “diversão descompromissada” é reclamação demais, eu sei. Mas “O Último Samurai” quebrou sua promessa. É esse o seu problema.

A história de Marré

Depois de escrever o post sobre cantigas de ninar saí catando o significado de “marré”.

Achei uma explicação que reforça a minha teoria:

A maioria dessas canções e cantigas é um arranjo ou uma adaptação de canções francesas (a maioria), portuguesas e européias de modo geral, trazidas a nosso uso desde priscas eras, com maior afluxo no século XIX. As traduções são às vezes curiosíssimas, e um bom exemplo disso é a canção “Je suis pauvre pauvre pauvre du Marais Marais Marais, je suis riche riche riche d’la Mairie D’Issy”, que virou “Eu sou pobre pobre pobre demarré marré marré, eu sou rica rica rica de marré dessí”… ( Marais e Mairie d’Issy são dois bairros de Paris).

Muitas vezes as letras em português nem fazem sentido, pois se destinam mais a uma onomatopéia do que a ser uma tradução literal.

Fazem sim parte de nossa cultura, mas são quase todas de origem européia, popularizadas de cima para baixo, ou seja, primeiro as famílias dos nobres e de gente rica as importavam, as escravas e as crianças, não sabendo cantar em francês ou não entendendo a letra em português às vezes literário, estropiavam tudo, e o resultado é que muitas cantigas de roda etc. são de assunto ininteligível ou de sentido duvidoso, como a de “pega na criança e joga na bacia”, como a de ” Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão”, como a de “Pai Francisco entrou na roda” …

Elas nunca me interessaram justamente por essa falta de sentido de muitas delas.

Sds. do Linz.

Na verdade, como diz um sujeito que assina MarquisDAF nessa mesma seqüência,

(…) o bairro se chama Issy-les-Moulineaux e tem de fato uma estação de metrô Mairie d’Issy, que tem esse nome porque fica perto da prefeitura de Issy. Issy não é um bairro de Paris, é um de seus subúrbios. Fica no sudoeste de Paris, podendo ser acessado de carro pela Porte de Versailles. A estação Mairie d’Issy é a última da linha 12 que liga o sul ao norte parisiense, Marie d’Issy-Porte de la Chapelle.

Ha outras teorias, mas nenhuma delas me parece tão correta.

Pelo visto eu estava certo quanto ao Marais. E apesar de ter visto uma crônica do compadrio numa música parisiense, talvez não tenha errado nisso. Não é porque a música é francesa e reflete uma situação de lá que deixa de se aplicar ao Brasil.

Acho também que o mesmo vale para Terezinha de Jesus, que o Samurai mostrou ser sobre Teresa de Lisieux. No Brasil, ela assume cores que originalmente não tinha. Imagino a ama de leite cantando a música. Para ela, e para a criança que a ouvia, a música se completava dentro dessa noção de casamento. Era nessa realidade que elas encontravam os seus referenciais.

Portanto, mais uma teoria rafaeliana — no que se refere ao Marais –, baseada na ignorância e no bom senso, se prova verdadeira. Que viva o Marais.

Nana neném

O mundo das historinhas infantis e cantigas de ninar são de uma beleza impressionante.

A maioria são lições valiosíssimas de senso comum que crianças devem conhecer em sua preparação para enfrentar o mundo. E por serem tão básicas, as décadas passam e elas não precisam mudar. No máximo, podem mudar algumas interpretações delas. A “História da Baratinha”, por exemplo, originalmente era uma crítica a essas moças que escolhem muito (mais tarde, na versão de João de Barro, acabou virando uma crítica à gula do doutor João Ratão).

As cantigas de ninar e de roda, por outro lado, mostram um país antigo que persiste no subconsciente coletivo.

“Terezinha de Jesus de uma queda foi ao chão. Acudiram três cavalheiros, todos três chapéu na mão. O primeiro foi seu pai; o segundo, seu irmão; o terceiro foi aquele a quem Tereza deu a mão”. Quer definição mais singela do patriarcalismo brasileiro do século XIX? A música prepara a moça para o seu destino não apenas inexorável, mas desejável: o casamento, estabelecendo uma hierarquia de obediência de acordo com a época e circunstâncias de sua vida.

“Pai Francisco entrou na roda, tocando seu violão. Vem de lá seu delegado e pai Francisco foi pra prisão”. Alguma dúvida de que pai Francisco é negro, velho e uma figura proeminente em seu nicho social — provavelmente um pai de santo –, em um tempo (que durou até o início do século XX) em que a polícia reprimia duramente aglomerações de negros?

“Eu sou pobre, pobre de marré de si…” Eu adoro essa música. Cheguei à conclusão de que “marré” se refere ao Marais, bairro parisiense paupérrimo nos séculos XVIII e XIX, embora nunca tenha visto ninguém aventar essa hipótese. Provavelmente estou errado. Mas o que interessa, mesmo, é o processo que ela conta, o costume de “dar” filhas para serem criadas (nos dois sentidos da palavra) por famílias mais abastadas, base do sistema de compadrio que suavizou, em grande parte, o sistema escravagista brasileiro — pelo menos o urbano. De acordo com mais essa teoria rafaeliana a música reflete a galicização cultural do país e um costume que perdura até hoje. A brincadeira mostra a negociação entre duas melhores, e uma situação triste que milhares de famílias pobres viveram ao longo da história. É fascinante.

“Fui no Tororó beber água, não achei…” Ah, essa é baiana, do tempo em que a cidade se abastecia com a água do dique do Tororó. E o verso “quem não dormir agora dormirá de madrugada” só podia ter sido cunhado lá.

São muitos exemplos. E em cada um deles há um aspecto histórico curioso, verdadeiro e popular.

Se alguém conhecer algum estudo sobre a origem e evolução dessas obras, por favor, não deixe de me avisar.

Aqui, agora

Programas tipo “mundo cão” existem desde sempre; Wilton Franco, por exemplo.

Mas houve um momento decisivo em que esse tipo de programa saiu da área de serviço da TV e se refestelou na sala de estar. A história da TV nos últimos 10 anos, com algum exagero, pode ser definida entre antes e depois do “Aqui, Agora”.

Eu adorava o programa, ainda que em pouco tempo ele tenha perdido o encanto para mim. Ele tinha conseguido transferir para a TV a linguagem do Notícias Populares, o jornal que tinha as melhores manchetes de todo o país. Era o pior de São Paulo disponível em cores e em movimento para todo o país.

Havia algo mais genial do que Gil Gomes? Ele parecia a coisa menos adequada à linguagem televisiva que poderiam escolher. Camisas tiradas do baú de algum surfista dos anos 60, um rosto parecendo areia mijada, uma voz mais adequada ao rádio AM que à TV — e no entanto ele era perfeito.

Cito até hoje uma frase de Gil Gomes: “um bom, dois bons, três bons — mas um morreu!”

Essa frase é a mais representativa do que é TV popular no Brasil. É quase o “Poema em Linha Reta” em edição abreviada. É como se Hamlet, em vez de perder tempo declamando “Ser ou não ser, eis a questão; acaso é mais nobre…”, simplesmente dissesse “Tá foda!”.

O “Aqui, Agora” virou a TV de cabeça para baixo, numa época em que a Globo se via acossada como nunca antes. “Pantanal” e “Carrossel” vinham tirando o sono de muitos executivos da Vênus Platinada porque pela primeira vez roubava share de maneira que parecia — e era — consistente.

A linguagem rápida, a urgência, a escolha adequada dos temas que combinavam baixaria e interesse humano — ainda que no que ele tivesse de mais perversamente voyeur e sádico –, a estereotipização do sujeito que fazia os comentários internacionais (qual era o nome dele?), tudo isso fazia do “Aqui, Agora” um programa inovador, por pior que parecesse. Não no conteúdo, mas na forma. Esse era o principal atrativo do programa.

Mas mesmo no conteúdo o “Aqui, Agora” tinha sua força. No fim das contas, o programa prestava serviços ao cidadão, tanto que Celso Russomano fez carreira política a partir daquele programa: “Se está bom para as partes…” O envolvimento com a comunidade era muito maior que o oferecido pela rigidez fria do Jornal Nacional. Dava ao povo a informação que ele queria.

O “Aqui, Agora” deixou algumas lições. Mas não parece que até agora tenham sido aproveitadas. A idéia é: certamente há espaço para TV popular com qualidade. Forma e conteúdo não são tão intrinsecamente ligadas assim. Talvez a receita da forma tenha sido dada ali; basta agora saber como adequar o conteúdo a ela. No dia que conseguirem isso, talvez a TV aberta tenha alguma chance de voltar a significar algo.

A última morte dos neanderthais

Há um mistério em paleontologia que sempre me interessou: o que fez com que os neanderthais se extinguissem?

Várias teorias explicam seu fim, e elas aumentaram desde que se descobriu que eles não eram antepassados do homem, como se pensou no início, e sim que chegaram a coexistir na Europa durante algum tempo. Alguns achavam que o frio os tinha dizimado, outros que não sobreviveram ao isolamento genético. Alguns acham que houve cruzamentos com o homo sapiens, a maioria rejeita a hipótese.

A teoria que mais me agrada foi transcrita em ficção — sempre mais interessante que a realidade — por William Goldman (autor de “O Senhor das Moscas”), num livro chamado “Os Herdeiros”. Os neanderthais, tecnologicamente atrasados, teriam sido dizimados pelo homo sapiens. É um comportamento típico nosso, essa agressividade latente que nenhum lustro de civilização consegue destruir. Se um dia chegarmos a Andrômeda, chegaremos nos estapeando na nave espacial.

Essa teoria é a minha preferida porque seus elementos de tragédia épica não podem ser suplantados por nenhuma outra.

Há uma grandiosidade cruel na extinção de toda uma espécie semelhante, no ódio gerado pela mera diferença. Para que se tenha uma imagem aproximada do que isso significa seria necessário imaginar uma horda de homens embrutecidos pela ignorância e pelo preconceito, armados com paus, pedras e archotes, atacando um grupo de deficientes mentais.

Agora um grupo de 30 cientistas lança uma nova teoria: eles não conseguiram resistir aos invernos cada vez mais fortes da última era glacial, há cerca de 30 mil anos. A novidade é que o frio teria matado também a maior parte dos primeiros humanos europeus.

Em paleontologia a verdade é volátil, extremamente frágil. Um fragmento de osso, uma cárie no lugar errado ou os restos de uma fogueira milenar podem colocar de cabeça para baixo tudo o que temos por real. Essa nova teoria deve se tornar a dominante, porque quando a verdade é tão leviana o consenso assume seu papel.

O último vestígio de majestade da história dos neanderthais vai embora. Deixam de sucumbir em combate e morrem encolhidos de frio, impotentes e famintos, por não poderem compreender a idéia darwiniana de que o mais adaptado sobrevive.

Mais uma vez, a ciência mata um pouco da poesia que encontramos neste mundo e em sua grande pequena existência.

Comentário sobre os comentários

É interessante que quando gostamos de alguma coisa tendemos a achar que ela é a melhor. É natural: confiamos no nosso próprio julgamento, e se gostamos de algo é porque ela passou por nosso crivo. Logo, é a melhor possível.

Mas podemos gostar de uma coisa e, ao mesmo tempo, admitir que ela não é a melhor. Você pode gostar de alguém e ter juízo suficiente para não achá-lo um Richard Gere ou uma Gisele Bündchen.

Por exemplo, sou beatlemaníaco há mais tempo do que consigo lembrar. Acho, sinceramente, que são a melhor banda pop de toda a história, a mais inventiva, a mais consistente. Posso passar meses falando deles aqui neste blog, de detalhes bobos como por que McCartney solta a franga no baixo em Don’t Let Me Down à importância histórica de uma letra imbecil como a de Love Me Do.

Mas eu disse pop. Por mais que goste deles, não caio na armadilha de achar que sua música é a melhor em termos absolutos.

Por um lado, o termo “melhor” é geralmente relativo. Por outro, requer alguns padrões objetivos de julgamento. Sob esse prisma os Beatles perdem longe de gente como Mozart e Beethoven, para ficar nos hors-concours; baixando o nível, melódica e harmonicamente o bebop é muito mais inventivo. Portanto, os Beatles são os melhores dentro de um universo restrito. Se os comparamos, por exemplo, aos Rolling Stones, isso é verdadeiro; mas quando se considera o que de melhor se fez em música, e padrões artísticos e técnicos, eles infelizmente não chegam aos pés de Bach. Reconhecer isso não impede que eu troque dez discos de Bach por um compacto dos Beatles. Questão de gosto, fazer o quê?

Outro exemplo pessoal: eu gosto de romances policiais. Até já coloquei uns dois posts aqui, comentando quais autores acho melhores e por que tenho ojeriza a Agatha Christie. Dentro desse universo você pode definir os melhores e os piores; mas se você tenta extrapolar e comparar um Hammett, por exemplo, a um Cèline, aí a coisa complica.

Resumindo, pode-se gostar do número 7 sem achar que ele é maior que o 9.

No caso de J.K. Rowling, o que Bloom falou foi exatamente o que o DNAS achou: que ela é o maior amontoado de clichês que ele já viu, que encheu folhas e folhas de papel com as frases repetidas nos livros de Harry Potter. Eu nunca li mais que uma página de Harry Potter, mas se o acho objetivamente ruim, longe de mim dizer que crianças devam manter distância dele. Pelo contrário. Clichês muitas vezes são legais — se uma coisa se tornou clichê é bem provável que tenha sido porque era verdadeiro ou abrangente. Para crianças, Harry Potter deve ser muito interessante. Mas não o tomemos pelo que não é: Harry Potter é entretenimento de massas para uma faixa etária limitada, não é literatura. O mesmo vale para Stephen King.

A questão aqui é que há um padrão pelo qual se julga literatura, e hoje interesses de mercado promovem material inferior como se fosse obras primas. Por isso a necessidade de um Bloom, com respaldo suficiente para dizer que o branco é branco e o preto é preto.

O venerável senhor Bloom

Tenho infinita cautela diante de livros que pesam mais que um seio (não sabes quanto pesa um seio? Oh, pobre, pobre, pobre de ti!).

Talvez tenha sido por isso que deixei passar a chance de comprar a primeira edição de The Western Canon, o livro de Harold Bloom que fez sua fama internacional (além de má escolha estética foi mau investimento; o livro valeria muito mais hoje). Achei, depois de folhear o livro, que sua visão literária era descaradamente anglo-saxã, o que normalmente encaro como neo-colonialista; essa impressão foi confirmada depois de alguns artigos elogiosos sobre o livro.

A outra razão para deixar passar o livro foi o fato de que ele não dava a Balzac o valor que lhe era devido, pelo menos na minha opinião. Ou seja: o topo absoluto, o mestre dos mestres, posição que Bloom reserva para Shakespeare.

Na Primeira Leitura deste mês há uma entrevista do senhor Bloom. Conheço quase nada dele. Está lançando um novo livro, com uma interpretação interessante de Hamlet: sua inação não vem da ignorância, mas do fato de que sabe demais, e se recusa a participar de uma vingança medíocre e sem significado em uma peça também medíocre. Nietzsche tinha dado o primeiro passo nessa direção interpretativa, que Bloom agora aprofunda.

Essa entrevista me tornou, de repente, um apreciador do venerável senhor.

Eu não posso deixar de gostar de alguém que não tem o mínimo pudor em colocar Stephen King e similares em seu lugar — a lata de lixo da literatura. Normalmente as pessoas fazem elogios pífios ou se calam a respeito desses fenômenos “literários”, por razões de mercado. É um bom negócio para todo mundo, pelo dinheiro para uns, pelo disfarce da ignorância para outros.

O pior em tudo isso é que essa visão, que tem mais a ver com mercado que com cultura, fortalece uma espécie de ditadura da mediocridade, que julga esnobe e elitista qualquer manifestação cultural acima da capacidade de compreensão do espectador americano médio, o six-packer, viciado em basquete, apolítico e abestalhado pela TV e pela indústria cultural.

É cada vez mais comum ver gente ostentando um orgulho tosco em achar música erudita chata, em julgar ópera uma palhaçada. Perdem a chance de se deliciar com uma cantata de Bach ou de perceber a beleza de “La Traviata” (aliás, acham que toda ópera é igual, quando normalmente se referem à escola italiana. “Carmina Burana” é ópera. As obras de Wagner são ópera, pelo menos quando não são dirigidas por Gerald Thomas).

A democratização do acesso à educação e à cultura criou apenas milhões de semi-analfabetos. E o século americano foi cruel com o que chamam de highbrow.

Aos poucos essa cultura média, fermentada com marketing e alimentada pelo mínimo denominador comum vai se tornando o verdadeiro referencial universal. Literatura deixa de ser arte para ser julgada segundo os padrões da indústria de entretenimento. Para que ler Thomas Mann ou Proust se John Grisham dá mais assunto de conversa, se me faz sentir mais integrado ao mundo em que vivo? A diferença está também em um fato simples: o tempo que “No Caminho de Swann” me toma é igual ao de uns 15 livros de Michael Crichton. E numa cultura quantitativa, é melhor ler 15 livros imprestáveis que uma obra genial. Assim as pessoas podem se orgulhar de ganhar por 15 x 1. Só resta citar o dinamarquês de olfato sensível: O, throw away the worser part of it, and live the purer with the other half. Good night, but go not to my uncle’s bed. Assume a virtue, if you have it not.

É por isso que um Harold Bloom, sem medo de assumir que alguns valores não são relativos e devem ser julgados pelo que são, se torna cada vez mais necessário. É preciso que alguém mantenha os padrões em uma altura razoável. Alguém que mostre as coisas como elas realmente são: Bush um canalha corrupto, J. K. Rowling uma escritora medíocre, King uma fraude, e por aí vai.

Do jeito que as coisas vão, é até possível que um dia eu compartilhe a opinião de Bloom acerca de Shakespeare. Lady, by yonder blessed moon I swear.

Filmes em liquidação

Da Wired: um sujeito fez um longa-metragem em seu iMac por exatos 218.32 dólares. O filme foi exibido no Sundance Festival.

À parte o exagero (o custo real do filme é muito maior; alguém teve que comprar a câmera, pagar a revelação, pagar a iluminação, etc.), o filme levanta duas questões interessantes, apontadas pelo TechDirt.

A primeira é a de que cada vez mais filmes com esse tipo de custo de produção vão aparecer. O que quer dizer uma fragmentação cada vez maior da mídia, com filmes direcionados a nichos específicos e pequenos.

A outra é: vai ser cada vez mais difícil distinguir entre o bom e o imprestável.

Eu, por exemplo, me empolguei com a perspectiva. E estou me preparando para escrever e dirigir o meu primeiro longa, em S-VHS. Vai se chamar “A Estranha Tentação de Willames Roberval”, um filme misturando filosofia, zen-budismo, uma visão foucaultiana do sexo, Kierkegaard, Marx, Freud, Heidegger, axé music, forró e Odair José. Vai ser um épico comparável a “Intolerância”, de Grifitth, e vai ter sucesso onde o Cinema Novo falhou, ao fazer uma releitura literária da trajetória brasileira.

“A Estranha Tentação de Willames Roberval” será a grande narrativa da epopéia brasileira, e colocará o meu nome no panteão dos grandes cineastas. Só falta um ator para fazer o papel do namorado do jumento.

A velha onda do kinemanacional

Assisti a um filme brasileiro dos anos 80 — primeira metade, provavelmente, a julgar pelos figurinos, pela juventude de Carla Camuratti e da então divina Vera Zimmerman e por uma foto de Figueiredo numa parede — chamado “Onda Nova”.

Nunca tinha ouvido falar. Poderia continuar sem ouvir.

Se é que consegui entender, “Onda Nova” gira em torno de um time de futebol feminino. É pior que uma partida de verdade.

O filme é nada mais que um portfólio de todas as falhas que se encontrava no kinemanacional da época. Uma dublagem horrorosa, ausência completa de efeitos sonoros (é como se ao fazer a dublagem eles esquecessem a trilha com o som ambiente; pelo visto não podiam gravar com som direto e o editor de som só se preocupou com os diálogos, esquecendo o resto), uma tendência a ser episódico demais, interpretações toscas, um roteiro correndo atrás do próprio rabo, diálogos famélicos e um gosto patológico por palavrões e cenas de sexo dispensáveis. Há detalhes hilários como um grupo de mulheres decidindo um aborto como se estivessem escolhendo a roupa com que iam sair naquela noite, e uma participação inexplicável de Regina Casé. Em todo o filme, há apenas uma boa cena: Patrício Bisso subindo em uma cadeira para pegar sua peruca no lustre, jogada ali por sua filha.

Há algum tempo ouvi alguém falando que a edição de som no kinemanacional sempre foi tão boa quanto a americana; a gente é que não percebia que o som deles também era ruim, porque estávamos ocupados lendo as legendas. “Onda Nova” prova que não. Há uma infinidade de detalhes de uma mediocridade tão estrondosa que se tornam gritantes. De modo geral geral, os erros são tantos e de uma diversidade tão grande que conseguem desagradar a gregos e troianos.

Eu, pessoalmente, não tenho nada contra a “globificação” do kinemanacional, acusada por Ela (aliás, qual o nome d’Ela?). Não que o padrão Globo seja o melhor do mundo, ou mesmo transportável para o cinema. Mas é um padrão mínimo. O desafio do grosso do cinema nacional ainda não é ser criativo: é ser tecnicamente correto, é saber construir, acima de tudo, uma boa narrativa. Se pelo menos alcançassem o padrão Globo, todos eles, já seria uma boa. Se, por exemplo, “A Paixão de Jacobina” tivesse a qualidade narrativa de “O Tempo e o Vento”, minissérie global de quase 20 anos atrás, teria sido uma vergonha menor para seu autor e para sua protagonista.

“Onda Nova” serve ao para derrubar um mito que a intelligentzia nacional criou: a de que o fim da Embrafilme em 1990 representou o fim do kinemanacional. Nada mais equivocado: o cinema estava morto havia muito tempo, sobrevivendo graças ao pulmão artificial decadente dos Trapalhões, fazendo aqui e ali filmes desgraçadamente trash como “Onda Nova” e, raramente, produções mais ricas mas também ruins — “Quarup”, por exemplo.

Serve também para atestar que o kinemanacional evoluiu assustadoramente em poucos anos.

Mesmo assim, mesmo que ele sirva apenas como referencial histórico e um aviso aos infantes (“olha, se você não comer espinafre vai acabar que nem esse filme), e embora eu não tenha tido a coragem de assistir até o fim, talvez assistisse de novo. Vera Zimmerman, novinha, faz uma lésbica — não é preconceito; é que o seu papel se restringe a isso, ser lésbica e colar velcro em um táxi — absurdamente deliciosa. A visão de sua beleza pós-adolescente — e da marca de uma operação de apendicite muito, muito sexy — torna o suplício quase suportável.