Manhattan Connection

Finalmente assisti a uma edição do Manhattan Connection, agora sob nova direção.

Os maus pressentimentos que tive quando anunciaram a saída de Arnaldo Jabor se confirmaram, e da pior forma possível.

Caio Blinder continua incapaz de um pensamento original, Lúcia Guimarães continua fazendo a Missa do Galo rezada por João Paulo II parecer o encontro de trios na praça Castro Alves, e Lucas Mendes continua administrando a decadência do programa.

Por alguma ziquizira, até o Diogo Mainardi está insosso no programa. Eu tenho certa resistência a ele, mas esperava pelo menos o mesmo galo de briga que se vê na Veja. Jamais seria capaz de imaginar que o sujeito ficaria tão sem graça com seu leve sotaque italiano.

(Parece que tem outro rapaz no programa, mas deve ser só ilusão dos meus sentidos. Se não for, é o mais sensato e inteligente de todos eles.)

O MC já foi um dos melhores programas da TV a cabo. Também um dos mais inteligentes, quando contava com o brilho de Paulo Francis e a leveza de Nelson Motta. No ano passado quase saiu do ar, por falta de patrocinadores; voltou com um dos maiores índices de alienação já vistos neste país, salvando-se apenas Arnaldo Jabor. Hoje é cada vez mais irrelevante. Eu não apostaria na sobrevivência do programa por muito tempo mais.

Por que acho Borges um ceguinho escroto

Fiquei calado durante meses porque se eu voltasse a falar de Jorge Luis Borges o Bia era capaz de ir até Nictheroy me encher de porrada.

Mas como agora estou bem mais longe, cercado de cabras delicados cujos lemas existenciais são “Eu não mato. Eu só faço o furo, quem mata é Deus” e “Eu só dou uns risquinho, os cabra é que é morredor”, eu posso explicar.

Borges é ceguinho porque, afinal de contas o sujeito era mesmo cego. Visualmente prejudicado, como dizem os politicamente corretos.

Escroto porque o jeito como ele incitou e depois apoiou a ditadura argentina, muito mais canalha e criminosa que a brasileira, não pode ser definida de outra forma. Em seu campo, ele foi um criminoso contra o seu país e seu povo.

E, finalmente, acho o sujeito um ceguinho escroto porque sou incapaz de pronunciar seu nome corretamente.

Depois do tiroteio

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Se Deus está morto eu não sei, porque Ele não me convidou para o Seu funeral, me privando da chance de tomar uma coca-cola com Santo Agostinho. Mas Nietzsche, com certeza, está: esta é sua máscara mortuária.

Na batalha entre os dois, parece que Deus levou a melhor. Nietzsche não pode fazer como Moreira da Silva e dizer que “até hoje ninguém sabe quem morreu; eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu”. A prova está aí.

Kinemanacional

Vendo os números que o kinemanacional amealhou ano passado, tem-se a impressão de que ele está chegando à maturidade. Nos últimos anos retomou uma parcela do público que teve na era da Cinédia e da Atlântida, e recriou uma cultura que, se ainda não é francamente favorável, é extremamente eficiente em dirimir o preconceito que durante anos acompanhou os filmes made in Brazil.

Os números podem levar a crer, também, que a política de incentivo está correta e não deve ser mudada.

As duas impressões estão erradas.

Claro, o kinemanacional melhorou esplendorosamente a partir da segunda metade dos anos 90. E está descobrindo a sua linguagem própria, livre dos excessos hollywoodianos e “cinemanovísticos”. Já não precisa fingir que engodos como “O Quatrilho” são geniais, porque conseguiu produzir grandes filmes. Descobriu também que a diversidade temática e narrativa é uma bênção. Mas esse é um processo lento, que ainda está no começo. 5 bons filmes por ano ainda não são o suficiente.

Não há nenhuma dúvida de que a política de incentivo estatal foi fundamental para a “retomada”, como chamam. Se por um lado é esquisito que o Estado financie o cinema indiretamente, enquanto permite a empresas fazerem propaganda com dinheiro público, por outro acertou ao tirar do governo o poder de decisão sobre quem pode e quem não pode fazer cinema. Pode não ser o ideal, mas é um grande passo à frente.

(A propósito, sou uma das poucas pessoas que concordaram desde o início com a extinção da Embrafilme por Collor. O que na época viram como mera vingança de Collor e Ipojuca Pontes contra a rejeição pelo meio artístico foi, na verdade, a rasteira na muleta que fez com que o aleijadinho tentasse aprender a andar. Extinguiu um sistema viciado que ao misturar política e arte tinha levado o cinema ao buraco.)

Mas à medida que o kinemanacional vai se fortalecendo, e apagando o preconceito que o cinema novo e a Embrafilme criaram no povo brasileiro, vai ficando cada vez mais incompreensível que potências como a Globo se aproveitem do erário para produzir. É preciso que se crie novas formas de financiamento, porque esse sistema começa a dar mostras de que já cumpriu a sua função histórica.

Obviamente, revogar pura e simplesmente a lei do Audiovisual, Rouanet ou Sarney — ou seja lá como ela se chama agora — seria uma tragédia e jogaria por terra tudo o que se conseguiu até agora. Não dá para esquecer que, com exceção de Hollywood e Índia, não há país cujo cinema consiga se sustentar sem a mãozinha protetora do Estado. Mas talvez já seja hora de estabelecer um calendário de redução do incentivo público, algo gradual e lento. Do contrário, mais cedo ou mais tarde tudo vai voltar ao que era antes.

Não é um processo fácil, e se eu tivesse a solução estaria rico a essa altura — rico e moralmente podre como os grandes chefões dos estúdios na era de ouro de Hollywood (confesso que sempre sonhei em ser como eles, um Chaplin ou um Fatty Arbuckle naquelas bacanais homéricas e desbragadamente amorais). Mas já é hora de começar a fazer com que o cinema passe a ser um negócio de verdade, sob pena de a história se repetir. E quando a engraçadinha se repete, é sempre como farsa.

Hellblazer

Olhando bem, todo o arcabouço moral dos super-heróis é oitocentista. São movidos por noções éticas demodês como honra, justiça e a defesa dos fracos. O que mais faria o Homem-Aranha admitir que “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”? Ou um milionário como Bruce Wayne perder suas noites combatendo o crime em vez de ficar em casa em orgias inenarráveis com seu grande amor pré-adolescente, o Dick Grayson (chamado de “o menino-prodígio” por suas habilidades na saliência)?

Enquanto isso, John Constantine só quer tirar o seu rabo da reta.

O que move Constantine, o melhor anti-herói que a indústria de quadrinhos criou em todos os tempos, é uma tentativa insana de sobreviver à imensidão de besteiras que cometeu em sua vida. Ele é um produto da década de 70; ou melhor, uma reação da década de 70 aos anos 80. Mais que qualquer outro, reflete aquela postura niilista e desencantada da Inglaterra que gerou o punk e, de repente, se via encurralada pelos yuppies; como diriam os Sex Pistols, no future for you and me.

Algo nas histórias de Constantine me lembra alguns aspectos do Decameron misturado com Dr. Fausto — um mundo que, mesmo em contato com o além (ainda que seja o pior dele), insiste em ser o mais secular possível, hedonista e imediato, e quase sempre amoral.

Minha história preferida de Constantine é aquela em que, condenado por um câncer, ele decide enganar a morte e, de quebra, o maior número possível de demônios, obrigando-os a conservá-lo vivo para evitar o fim do Inferno. Parece um conto de Papini em quadrinhos.

Depois do Batman, John Constantine é o meu herói favorito, por ser o mais canalha, o mais cínico, o mais covarde — em uma palavra, o mais humanamente falho. O que quer dizer que, infelizmente, é o mais parecido comigo. E provavelmente com você, também.

Walter Mosley

Há três grandes escritores noir: Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Ross Macdonald.

Hammett é o inventor do gênero, do detetive hard boiled. A linguagem seca, direta, o cinismo, a disposição do investigador para se meter em sujeira, o arquétipo da femme fatale — tudo isso é obra de Hammett, que deixou as elocubrações anódinas dos Poirot da vida parecendo leite pasteurizado diante do bourbon do Continental Op e Sam Spade. Miss Marple ficaria vermelha ao ouvir alguns dos motivos dos crimes que estes detetives têm que resolver. E pediria a excomunhão do Op e de Spade ao saber dos métodos que eles utilizam para achar os culpados. So improper, dear.

Chandler foi mais além, e deu densidade literária ao gênero sem perder a essência suja do noir. Para muita gente é o maior escritor do gênero. Seu Philip Marlowe tem um olhar contemplativo e filosófico que não existia em Hammett. Eu não diria que um é melhor que outro: são apenas diferentes.

Depois veio Ross Macdonald, que seguiu um caminho diferente com seu Lew Archer, dando ao gênero uma profundidade e uma atualidade psicológicas inéditas até então. O detetive de repente se via envolvido em um contexto social mais complexo, e isso manteve o gênero vivo nas décadas de 60 e 70. E foi o primeiro grande autor noir que li, meu preferido até me apaixonar por Hammett.

Depois deles não apareceu mais ninguém. Cópias sempre abundaram, algumas excelentes como Cornell Woolrich, outras baratas como Mickey Spillane e Frank Gruber (se alguém acompanhou a antiga “Colecção Vampiro”, uma série de livros de bolso portugueses vendidos aqui nos anos 60 e ainda hoje encontráveis nos sebos, leu muitos livros destes últimos — e aprendeu que “tira” em lusitano é “chui”). Mas era apenas mais do mesmo, fotocópias cada vez mais esmaecidas e esquematizadas. Rex Stout fez uma mistura até interessante dos dois principais gêneros policiais — o inglês cerebral e o americano durão –, mas faltava algo: era como alguém misturando um Romanée-Conti e Evian. Mais recentemente, gente como John D. MacDonald, Lawrence Block e outros até que se esforçou, mas o espírito do detetive noir acabou desvirtuado. Esqueça o que falam dos novos lançamentos: são todos inferiores, sem exceção.

Foi só com Walter Mosley que o noir voltou a ter algum significado. Desta vez, quase literal.

Mosley é negro (algo que tem mais importância nos EUA do que aqui), e seu personagem, Easy Rawlins, é um negão esperto que enquanto se mete na mais profunda sujeira humana acompanha a evolução das relações raciais nos Estados Unidos entre os anos 40 e 60.

Não que Mosley esteja no mesmo nível da santíssima trindade do noir. Longe disso. Nem que seja exatamente original — ele deve muito a Chester Himes para ser considerado novo. Mas originalidade não é exatamente o principal requisito neste gênero. O assunto é sempre o mesmo: morte, dinheiro, sexo. O que conta aqui é principalmente o estilo e a capacidade de observação da natureza humana no que ela tem de, se não pior, de mais falho, mais rasteiro. O nome vem daí: da atmosfera escura e opressiva.

E nisso Mosley foi o primeiro grande sopro de vida num gênero que parecia morto. O primeiro livro da série de Rawlins, “O Diabo Vestia Azul”, é brilhante. Para mim, um fã eterno do gênero, foi quase uma bênção ver que um dos meus gêneros preferidos tinha sido presenteado com uma nova força. Isso me fez comprar os outros livros de Rawlins, que não foram lançados no Brasil (a Amazon é uma das melhores invenções da humanidade). E todos eles valeram a pena.

Isso foi em 2001. Parece que Mosley soltou mais um livro da série. É uma boa pedida.

A última sessão de cinema

Talvez eu tenha presenciado um momento histórico do cinema, o fim de uma era.

Levei minha filha e meus sobrinhos para assistir a “Irmão Urso”, o mais recente desenho da Disney. Não é brilhante, embora não chegue a ser uma decepção fragorosa como “Mulan” ou “Hércules”.

Mas a qualidade do filme é o menos importante. Circulam boatos de que este é provavelmente o último desenho da Disney produzido em animação tradicional. A partir de agora a Disney se limitaria aos desenhos computadorizados, como “Procurando Nemo”, feitos em sua parceria com a Pixar. Aliás, tendo em vista que o pau vem quebrando no board da Disney (com Roy E. Disney renunciando e atacando Eisner), já tem gente recomendando que Steve Jobs assuma aquela joça, já que os filmes que sua Pixar produz são o que a Disney lança de melhor.

Se isso é bom ou ruim é difícil dizer. Por um lado, é a evolução natural da indústria, e contra isso não há remédio além dos resmungos impotentes dos velhos puristas. A arte continua, apenas mudam suas ferramentas. Por outro, é um daqueles exemplos em que a ferramenta é decisiva no resultado final. O traço bidimensional pode até ser arcaico, mas é único, belo, e não merece chegar ao fim. Há uma arte específica no desenho animado feito traço a traço.

Pode ser exagero, mas é como se perdêssemos um pouco de humanidade ao nos restringirmos cada vez mais aos computadores no que temos de mais humano: a arte.

Por que Free as a Bird e Real Love são ruins

Free as a Bird e Real Love são as músicas “inéditas” que os Threetles (Paul, George e Ringo) gravaram nos dois primeiros volumes do projeto Anthology, no meio da década de 1990. Eram gravações caseiras de John Lennon que os remanescentes recauchutaram para ganhar um trocado.

A primeira razão para serem ruins é óbvia demais: o próprio Lennon achava isso. Tão ruins que preferiu não lançá-las em Double Fantasy, um disco em que metade das canções era composta e cantada — se é que se pode chamar aquilo de “cantar” — por Yoko Ono. Além disso, quando Yoko lançou o Milk and Honey em 1983, com as sobras do Double Fantasy, também deixou essas duas gravações de lado. Outros discos de sobras (Every Man Has a Woman e Menlove Ave.) também deixaram essas músicas de lado. Uma versão de Real Love apareceu finalmente em “Imagine John Lennon”, uma cinebiografia produzida em 1988, porque a fonte começava a secar e ela preferia guardar o melhor das sobras para o futuro, que se concretizou no Lennon Anthology.

Free as a Bird e Real Love não passam disso, de canções rejeitadas pelo seu autor.

Se isso não é razão suficiente, é só olhar para as gravações em si. Fizeram o diabo para tornar aquilo minimamente aceitável do ponto de vista técnico: o resultado é a voz de Lennon, em baixa qualidade, coberta por camadas e camadas de som. Free as a Bird é um pouco melhor, porque McCartney e Harrison adicionaram alguns bons trechos à canção. Mesmo assim, elas simplesmente não estão à altura da obra dos Beatles.

Elas só foram lançadas porque precisavam criar um factóide que impulsionasse o lançamento do Anthology, e porque McCartney e Yoko são egomaníacos, Harrrison estava quase quebrado depois de roubado por seu sócio na Handmade Films (que deu ao mundo os belíssimos filmes do Monty Python) e Ringo precisava de dinheiro depois de estourar uma grana preta em cocaína.

(Uma ressalva ao videoclipe de Free as Bird. Enquanto o de Real Love é medíocre, o de Free as a Bird é absolutamente genial, uma das melhores aplicações de CGI que eu já vi.)

Admitir que essas duas canções são ruins não quer dizer que eu “não goste dos Beatles”. Pelo contrário. Eu gosto dos Beatles porque eles foram brilhantes demais, revolucionários demais para que eu precise me contentar com puro e simples lixo.

A propósito: ao contrário do que podem ter dito ao Galvao do Valle, os Beatles nunca foram deuses. Eram só quatro filhos da puta como todo mundo, capazes de canalhices como:

a) assaltar marinheiros bêbados e tratar o filho como menos que lixo, no caso de Lennon;
b) explorar seus empregados e tratar seus colegas de banda como subalternos — McCartney;
c) cantar a mulher do melhor amigo (Ringo) na cara dele, o que Harrison fez em meados dos anos 70; e
d) bater tanto na mulher, bêbado e cheio de cocaína, que acordou em uma poça de sangue, o que levou Ringo a procurar tratamento.

E que por acaso tinham muito, muito talento.