Henfil

Mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa.

Durante muitos, muitos anos, não consegui ver graça em Henfil. Achava que era um produto da cultura de resistência intelectual à ditadura, em que coisas pequenas e medíocres assumiam proporções de quase gênio somente por estarem do lado certo do espectro político.

A gente consegue ser tão idiota de vez em quando. Ou, pelo menos, eu consigo.

Só depois de passar a ler a republicação de suas tiras n’O Globo é que percebi a genialidade de Henfil. A capacidade de brincar com temas sérios, a leveza e concisão do traço, que antes me parecia poluído e tosco, são brilhantes.

Fantasma

O Fantasma foi criado por Lee Falk em 1936. Era uma época em que o mundo começava a ver imagens em movimento da África, e o continente negro se consolidou como sinônimo de mistério e exotismo, uma relíquia do colonialismo inglês e reflexo do sucesso de Tarzan nas telas.

Que eu saiba foi o primeiro super-herói a se casar nos quadrinhos, na década de 70, mas a essa altura ele já não tinha praticamente nenhuma relevância. Um pouco depois, nos anos 90, virou moda “matar” os super-heróis, a partir da morte do Super-Homem — que precisava desesperadamente de um aumento de vendas. Nessa época eu defendia uma solução para o Fantasma que, modestamente, considerava brilhante: ele também devia morrer. Mas, ao contrário do Superman e tantos outros, devia morrer de verdade.

Era simples. Ele era o único super-herói que realmente podia morrer, porque sua estrutura permitia isso.

A lenda do Fantasma é uma das mais interessantes do mundo dos quadrinhos: tudo começou quando um navio foi atacado pelos piratas Singh, no século XVI, e Christopher Walker foi o único sobrevivente. Nas praias de Bengala (um absurdo geográfico interessantíssimo) ele fez o juramento de dedicar sua vida (e, sem consultá-los, as dos seus descendentes também) a combater a pirataria e o Mal.

A partir daí se sucederam Fantasmas. Quando um Fantasma morria e seu filho (todos recebiam o nome do pai, ou seja, Kit Walker) assumia o seu lugar; daí a lenda do “Espírito-Que-Anda”. Aquele cujas aventuras líamos era o vigésimo segundo.

Essa estrutura, para quem gosta de quadrinhos, é perfeita. Porque permite a renovação do personagem a cada 20 anos. Na minha concepção, o Fantasma seria o primeiro super-herói cujas aventuras poderiam transcorrer em tempo real, envelhecendo com seus leitores, morrendo e cedendo lugar à nova geração quando fosse perdendo força. Por exemplo, hoje praticamente todos os personagens em quadrinhos têm dificuldades em explicar sua cronologia (no Homem-Aranha, Flash Thompson lutou na Guerra do Vietnã, que acabou há mais de um quarto de século). Com o Fantasma isso não precisaria acontecer, ele podia simplesmente começar um novo personagem do zero. Sempre que o personagem estivesse cansado, poderia se casar — sem problemas, porque daqui a alguns anos ele poderia se casar novamente, ou melhor, o seu filho poderia. Para o público adolescente, as aventuras de cada sucessor trariam, renovadas, as mesmas emoções que seus pais haviam lido tempos atrás.

Era o plano perfeito, mesmo, e só idiotas como os donos do Fantasma não percebiam. Ahn… Eu disse perfeito? Que bobagem.

Àquela altura aquilo era impraticável. O Fantasma perdeu força simplesmente porque a África não existe mais no imaginário mundial. Os autores bem que tentaram atualizar o personagem, com Diana Palmer, por exemplo, passando a trabalhar na ONU. Mas o problema do Fantasma era estrutural, era o fato de ser indissociável de um lugar que perdia gradualmente o seu interesse. Na década de 30 ainda era o continente negro, cheio de mistério e animais enormes, e gigantes Masai e anões pigmeus. Cecil Rhodes e Livingstone eram personagens recentes. Os safáris eram chiques. Resumindo, o mundo do início do século XX permitia a existência do Fantasma, tornava-o crível e factível, qualidades fundamentais para o sucesso de qualquer personagem.

Hoje a África não tem mistério nenhum. Tem tutsis e hutus massacrando-se uns aos outros, tem a África do Sul recuperando-se do apartheid, tem a Libéria e a Somália, tem o Ebola e uma população miserável condenada a morrer de Aids. Quando dizemos que a África é selvagem, certamente não é no mesmo sentido que dizíamos há um século.

A tecnologia e a informação já tinha assassinado outro personagem de Lee Falk, Mandrake (surgido na esteira do sucesso dos ilusionistas no início do século passado, com gente como Houdini, em quem era descaradamente baseado), porque suas mágicas já não convenciam, e porque aquele mundo — com princesas Narda e príncipes negros Lothar servis — tinha acabado. Demorou um pouco mais para a vida matar o Fantasma. Mas conseguiu.

À la Folha de S. Paulo

Erramos.

O livro maldito citado no post sobre Agatha Christie não era mesmo “A Extravagância do Morto”, como apontou Mme. D’Aiglemont. Era “Assassinato na Casa do Pastor”.

Devo ter confundido porque os dois são igualmente canalhas.

Furacão digital

Um artigo de Stephen Manes na PC World fala sobre o meu tema favorito: copyright na era digital.

Como quase todo artigo que tenho lido, ele resume tudo a uma questão de certo ou errado. E, como quase todo mundo, passa longe do verdadeiro centro da questão.

É preciso que se entenda uma coisa: o compartilhamento livre de arquivos não é uma questão de certo ou errado. Ninguém perderia seu tempo discutindo se um furacão é certo ou errado; normalmente basta reconhecer que é uma força da natureza, que é inevitável e se conformar com os seus efeitos. Entretanto perdem tempo tentando aplicar esses conceitos éticos à troca de arquivos.

Qualquer pessoa minimamente sã que acompanhe a indústria de entretenimento sabe que a troca de arquivos é algo incontrolável e que veio para ficar. É um furacão, e discutir sua ética é inútil.

Roman Holidays

Estava assistindo a “A Princesa e o Plebeu”, com Audrey Hepburn e Gregory Peck. Sempre achei o filme uma bobagenzinha agradável, mas desta vez fiquei impressionado com a cena final, sutil e inteligente.

Antigamente eu achava que aquele punhado de filmes que pareciam catálogos turísticos da Europa, e que proliferaram nos anos 50 (“Candelabro Italiano” é um bom exemplo ruim), faziam parte de uma estratégia do Plano Marshall, assim como aquela investida no Brasil, como “Você Já Foi à Bahia”, de Disney, fazia parte da Política de Boa Vizinhança.

Às vezes a gente inventa umas teorias complicadas para evitar ver o óbvio. Aquilo era pouco mais que a fascinação natural por uma civilização mais antiga e mais avançada — e incomensuravelmente mais bela. No máximo pode-se levar em consideração a abertura de um novo mercado.

Mas pensando bem…

…acho que a partir de agora só me refiro ao “cinema nacional” como cinemanacional. Pelo jeito que falam dele parece uma entidade à parte, uma espécie de meta-cinema. Como se o simples fato de ser brasileiro fizesse dele algo diferente para todos, brasileiros ou bárbaros.

Não que eu não goste de cinemanacional. Gosto, e muito. Há muito tempo percebi que só no cinemanacional vou ver alguém tomando café em copo de geléia de mocotó. E é essa identificação imediata, essa sensação de se ver na tela, que faz dele algo único. O Canal Brasil é hoje a única razão para alguém assinar a Net.

Mas isso é importante para mim, brasileiro e paraíba. Para um tailandês o tal café em copo de geléia vale tanto quanto o que o meu gato enterra. A estupidez de ver um valor universal em algo especificamente brasileiro já nos deu tragédias como aqueles trambolhos pós-Cinema Novo, financiados pela Embrafilme, mas nesses tempos de ufanismo e “Brasil Grande” encontra solo fértil.

Enquanto isso, espero o abençoado dia em que o cinemanacional, essa entidade superior ao reles entendimento humano, tomará de assalto as salas de exibição de todos os países do mundo.

O Tropicalismo como sinônimo de insanidade

A diferença entre Caetano e Gil é que, embora ambos não tenham absolutamente nada a dizer, Gil diz o mesmo nada com mais e mais complicadas palavras.

Mas anteontem o nosso ministro da Cultura arrebentou a boca do balão. Num ataque de ufanismo desbragadamente delirante, afirmou que se depender do governo o cinema nacional vai dominar o mundo em alguns anos. Ela acha que as verbas da Petrobras vão desbancar a máquina de Hollywood.

Deve fazer parte das atribuições do cargo dele, essa coisa meio insana. Ou então é desbunde tropicalista tardio.

Edith Head

Entendo tanto de moda quando de biogenética.

Mas mesmo assim tenho cá minhas teorias. E a mais engraçada delas é a de que o estilista mais influente do século XX não foi Chanel, Saint-Laurent ou Dior.

Foi uma mulher chamada Edith Head.

É improvável que muita gente a conheça. Durante muitos, muitos anos, ela foi a responsável pelos figurinos dos filmes da Paramount. Uma olhada na filmografia dela no IMDb resulta em mais de 400 filmes. Acho que nenhuma outra costume designer fez tantos filmes como ela.

Ao escolher as roupas que as estrelas usavam, ela fazia com que as mulheres automaticamente as imitassem. A influência de Hollywood nesse campo nunca pode ser subestimado; basta lembrar que, quando Clark Gable apareceu sem camiseta por baixo da camisa em It Happened One Night, as vendas caíram vertiginosamente, e o costume começou a acabar.

Edith Head pode não ter sido uma estilista no sentido estrito da palavra, e certamente não inventou nada. Mas ao dizer como as estrelas de Hollywood se vestiam, ela automaticamente dizia como os Estados Unidos e o mundo deveriam se vestir. E isso é ser influente.

Tenho a impressão de que, sem que Edith Head adotasse o seu estilo, Chanel não conseguiria a influência que tem.

Mas, como disse, eu não entendo nada de moda.

A velha dama indigna

A Julia citou Agatha Christie.

A mim, essa lady não interessa há muito tempo. Já fui leitor dela; é difícil não se entreter com os jogos de xadrez que ela monta.

Acontece que a Dama do Crime é, pelo menos para mim, uma fraude. Descobri isso quando resolvi que iria decifrar — com provas concretas e pseudo-científicas — o crime de um dos seus livros (acho que “A Extravagância do Morto”).

Para compensar a falta de presença real na cena do crime, decidi que poderia fazer anotações e voltar as páginas quando quisesse. Me armei com caneta, papel, e passei umas cinco horas lendo um livro que normalmente me tomaria pouco mais de uma.

E no final descobri que era impossível provar a identidade do assassino, porque o detalhe que constituía a prova definitiva (uma pedra inadequada à jardinagem) não era descrita no livro; só Miss Marple sabia, porque também fazia jardinagem, e ela não fez questão de contar a nenhum leitor.

Aquele foi o último livro de Agatha Christie que li em minha vida. Não foi tão difícil deixar a 171 de lado; àquela altura eu já achava que o romance “de detetive” inglês é muito inferior, pelo menos como literatura, ao noir americano, depois de gente como Hammett e Chandler.

Mas ela tem alguns aspectos interessantes, apesar da fraude que acho que é. Agatha Christie é um dos mais perfeitos exemplares de uma sociedade que desapareceu com a II Guerra Mundial.

Aquela era uma sociedade estratificada ao extremo, amarrada a uma variedade absurda de convenções sociais praticamente intransponíveis. Daí o excesso de “impostores” na obra de AC, como se fosse um lembrete de que as classes mais altas jamais tolerariam que o seu lugar fosse usurpado por membros das classes inferiores. É curioso ver como, principalmente nos livros de Miss Marple, as convenções sociais desempenham um papel importante na trama e, principalmente, na solução dos crimes.

Essa sociedade acabou com a reforma educacional da Inglaterra logo após a guerra, que garantiu educação de qualidade para os proletários, e com a própria evolução do capitalismo na ilha de Ricardo Coração de Leão. Seus restos sobrevivem ainda hoje na Câmara dos Lordes e em outras aberrações políticas e fundiárias inglesas.

E, claro, no Tampax de Camilla Parker-Bowles.

Get Back

Tinha jurado para mim mesmo que não ia comentar, mas é mais forte que eu.

Uma garotada de Londrina arranjou uma desculpa para emigrar ilegalmente para a Inglaterra: um festival sobre os Beatles. A PF de lá desconfiou, fez umas perguntinhas e o resultado é que o sonho da velha Albion dançou para esses rapazes.

Demorei muito até conseguir parar de rir. Não por terem sido deportados, já que perder um sonho é uma das coisas mais duras que se pode imaginar, mas por duas razões.

A primeira é por não terem se preparado para o evento. Custava nada ler uma biografia qualquer dos Beatles, daquelas de uma página, só para ter uma idéia geral do que é aquilo.

A segunda é a completa ignorância dos rapazes em termos de cultura geral. Tudo bem não saber que só Paul e Ringo estão vivos. Mas não saber quem é Yoko Ono — aquela velhinha que apareceu há um tempo no Fantástico, ao lado de Paulo Ricardo — é uma das provas mais cabais de falta de informação que eu já vi na vida. Para que ganhar o mundo, se você não sabe nada sobre ele?

E fico aqui, imaginando os fiscais ingleses cantando para o pessoal: Get back, get back to where you once belonged