Darwinismo

Tem algo de pungente, de melancólico em “A Era do Gelo”. E não me refiro aos momentos entre o mamute, o dentes-de-sabre ou qualquer outro.

A luta pela sobrevivência, o tema básico do filme, parece tão inútil. Nenhuma daquelas espécies sobreviveu. E apesar de todo o esforço dos bichos para salvar o bebê, os neanderthais tampouco conseguiram enfrentar a competição com o homo sapiens.

Toda aquela luta, lá no fundo, foi em vão.

Arte em Movimento

Já que tive que ir ao BNDES ontem, aproveitei para dar uma olhada na exposição “Arte em Movimento”, que tem como tema os meios de transporte.

Pelo preço — gratuito — vale a pena. Algumas boas peças, de Djanira e Iberê Camargo, obras menores de Lasar Segall, Portinari, Carybé, uma escultura de Bispo do Rosário. E um monte de desconhecidos que estão ali porque alguém cismou que a obra deles valia a pena. Como um quadro de Cláudio Tozzi no estilo de Lichstenstein, ou bobagens enormes que dependem de uma explicação e uma convenção: “Eu finjo que acho isso bom e você, para não passar por bobo, acha também, tá certo?”. Como dizia Goebbels, uma mentira repetida mil vezes etcetera etcetera.

Mas Bispo do Rosário é uma incógnita para mim. Achá-lo um gênio ou uma fraude, acima de tudo, depende do seu conceito de arte.

Como sou uma anta para algumas coisas, minha opinião varia. De vez em quando o acho brilhante, mesmo em sua confusão. Outras vezes, vejo só um maluco qualquer da Colônia Juliano Moreira.

Bem que eu podia ser um sujeito um pouquinho mais sensível.

Billie Holiday

Ninguém é besta de negar que Ella Fitzgerald é a maior cantora de blues que este mundo já viu. Ela é perfeita, tecnicamente, e tem os atributos necessários para aplicar essa perfeição em um gênero eminentemente emocional.

Mas Billie Holiday está acima de qualquer cantora, porque o seu domínio extrapola o da música.

Lady Day não tinha a maior nem a melhor voz do mundo. Tecnicamente, de acordo com os critérios clássicos, tinha uma vozinha no máximo regular. Mas àquela voz ela acrescentava uma carga de dor, de sofrimento, que nenhuma outra cantora jamais conseguiu imitar. (En passant, Janis passava, antes de mais nada, desespero e ansiedade; ela pertencia aos anos 60.)

Que se ouça Strange Fruit. Mais que a letra, é a voz de Billie Holiday que transmite a angústia e o sofrimento diante da cena narrada ali. Uma voz que parece ter 150 anos de vida, e uma vida carregada de sofrimento. Ou então Fine and Mellow (ou qualquer outra, estou citando apenas as que vêm à minha cabeça no momento).

Eu não sei o que cria uma cantora como Billie Holiday. Várias outras foram criadas em ambientes semelhantes e comeram o mesmo pão amassado pelo diabo, mas não chegaram ao patamar praticamente divino de Billie.

E tampouco sei explicar o que aquela mulher tem de genial. Acho que, no fundo, eu só não acredito que Billie Holiday possa ser explicada.

No ar

Tomei vergonha na cara e coloquei no ar, novamente, o site sobre os 100 melhores filmes da história do cinema.

O link está aí do lado faz tempo, mas ninguém que clicasse conseguia entrar no site antigo.

Aproveitei e fiz uma modificação, tirando um filme e colocando outro.

Não ficou muito melhor, não.

Rubem Fonseca morreu

Grandes escritores têm o dom de lhe dar o equivalente intelectual a uma porrada quando você os lê pela primeira vez. De repente você encontra um universo novo, com idéias novas, e a excitação causada por isso tem poucos paralelos na vida. Quem se perdeu em meio às madeleines de Proust sabe o que é isso.

No entanto é raro que o mesmo escritor lhe dê essa porrada duas vezes.

Rubem Fonseca fez isso comigo. Quando li “O Cobrador”, me vi diante de uma linguagem nova, de uma temática densa como a realidade brasileira, e um talento raro e conciso para a a narrativa. Aquilo era diferente de tudo o que eu tinha lido. E, até hoje, considero o conto que dá título ao livro um dos mais brilhantes que já li.

Acontece que Fonseca (ou Zé Rubem, como dizem seus amigos) tinha mais para mim. Quando terminei de ler “Lúcia McCartney”, eu estava em êxtase. Aquele é, certamente, o mais perfeito livro de contos já escrito em língua portuguesa. Só por esse livro, Fonseca merece todo e qualquer prêmio que tenha recebido ou venha a receber.

Mas aquela seria a última supresa que Rubem Fonseca me proporcionaria. Pelo menos a última agradável.

Acho que comprei “Romance Negro” (seu primeiro livro de contos em muitos anos desperdiçados com romances sofríveis) no dia em que chegou às livrarias. E de repente o que se tinha lá, 13 anos após seu último livro de contos, era um amontoado de repetições temáticas e lingüísticas de sua obra anterior.

Foi uma frase de um conto daquele livro que acabou com o estado de admiração absoluta que eu sentia por ele. “Seu corpo nu está me dizendo que é tudo verdade”. Essa frase me chocou. Corpos nus não falam nada, dizem apenas se estão com frio ou calor, no máximo se estão com tesão. Corpos nus não têm o monopólio da verdade.

A partir daí, a obra de Rubem Fonseca foi perdendo o interesse para mim. Ainda corro para comprar seus livros quando são lançados, por puro e invencível vício. Mas depois de desastres como “O Selvagem da Ópera” e “O Doente Molière”, ou livros fracos como “A Confraria dos Espadas” e “Histórias de Amor”, eu não espero mais o brilhantismo de antes. Espero apenas mais artesanato, mais repetições de cacoetes literários cansados. É como o oitavo cigarro do dia. É só mais um.

Durante algum tempo pensei que eu podia estar passando por uma espécie de “fastio” da obra de Fonseca, que tivesse me acostumado, ou que o tempo tivesse simplesmente passado. Para resolver essa dúvida reli todos os seus livros; e a impressão que tinha sobre livros brilhantes como “A Coleira do Cão”, “Feliz Ano Novo” e “O Cobrador” se manteve.

Não era eu que tinha cansado.

Era ele.

Auto-psicografia

Há alguns artistas que, se eu tivesse chance de encontrar pessoalmente, não hesitaria em encher-lhes a cara de porrada.

Godard, Pollock, Picasso estão na lista. Pollock e Picasso porque sua genialidade (eu não engulo Pollock, mas reconheço o talento do sujeito) estabeleceu um padrão para os simples mortais impossível de ser seguido, ao mesmo tempo que irresistível, que resultou numa coleção de absurdos artísticos pela qual até hoje pagamos a conta. E Godard… Bem, não sei direito como aquele chato pôde influenciar tanta gente. Mas influenciou, e por isso um dia ainda lhe acerto as fuças.

Mas nenhum deles me deve tanto quanto Fernando Pessoa.

Aquele sujeito acabou com a poesia em língua portuguesa, porque milhares de pessoas que não tinham sequer a sombra do seu gênio acharam que poderiam seguir seu exemplo. Confundindo poesia com divã de analista, encheram o saco de milhares de leitores desavisados. “Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todo os sonhos do mundo”. Os responsáveis pela minha raiva são aqueles idiotas que não entenderam esse recado, ou entenderam bem demais. Talvez não seja culpa de Pessoa; mas que ele é o responsável, é. Nos tempos da métrica o sujeito pelo menos fazia um esforço para se adequar. Hoje, nem isso.

Tudo culpa daquele esquizofrênico filho da puta.

MIB (ou Música Imbecil Brasileira)

A Sula Miranda Cover me presenteou com os versos mais cretinos da música popular brasileira: “Um dia feliz às vezes é muito raro”.

Às vezes é muito raro… Às vezes é muito raro… Às vezes é muito raro… Essa frase não sai mais da minha cabeça.

O que aconteceu com Orestes Barbosa e o seu “Tu pisavas nos astros distraída”, ou com “Tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor” (de Guilherme de Brito, e não de Nelson Cavaquinho)?

Brega II

Algumas coisas que faltaram no último post.

Faltou combater com mais clareza a falsa idéia de que o brega é, por definição, algo caricato e inferior. Reginaldo Rossi, ultimamente, e Carlos Alexandre divulgaram bastante essa idéia, com letras caricatas e uma atitude condescendente em relação ao universo da música popular.

Nada está mais longe da verdade.

Brilhante no brega é que ele representa não um complexo de inferioridade do povo brasileiro, e sim a sua sensação de superioridade. O brega não é o povo dizendo “olha como eu sou inferior”. Basta ouvir os arranjos das músicas de Odair José para ver que ali estão tentando fazer o que entendem como o melhor. O seu padrão, sempre, é Roberto Carlos; e dentro desse padrão, tenta-se fazer o melhor possível. O brega não é uma prova de incompetência. É, antes de mais nada, um grito de orgulho do povo pelo seu cotidiano e pelo que ele é.

O que bandas como a Vexame, da Marisa Orth, fazem é olhar para o brega com o mesmo paternalismo daqueles que repudiam abertamente o gênero. É negar o valor da música e, ao criar arranjos pop, dar um caráter pejorativo às letras. É um desrespeito à cultura popular, típico daquela geração urbana e alienada, alimentada com os restos do lixo cultural americano e europeu, gente que ouve naturalmente música country mas que não entende Tonico e Tinoco ou um Altemar Dutra. E que por isso desconhece totalmente o que é o Brasil — um país com hábitos culturais extremamente diversos, e explosões de vida em cada grotão que assusta todos aqueles acostumados à unidade cultural da indústria internacional de entretenimento. Gente que nunca tomou um mingau de puba numa feira em Canindé do São Francisco, em Sergipe, ou comeu um pé de moleque em Delmiro Gouveia, em Alagoas.

O outro é que consegui achar uma das letras mais sensíveis do gênero. Ei-la aqui:

Deixe essa vergonha de lado

Eu já sei que nessa casa onde você diz morar
Onde todo dia no portão eu venho lhe esperar
Não é a sua casa

Eu já sei que o seu quarto fica lá no fundo
E se você pudesse fugia desse mundo
E nunca mais voltava

Eu já sei que esse garoto que você leva pra brincar
E que todo dia na escola você vai buscar
Não é o seu irmão

Ele é filho dessa gente importante
E às vezes também é seu por um instante
Apenas dentro do seu coração

Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
Não vai modificar o meu amor

Eu já sei por que você não me convida pra entrar
E se falo nessas coisas você procura disfarçar
Fingindo não entender

Eu já sei por que você não me apresenta aos seus pais
Eu entendo a razão de tudo isso que você faz
É medo de me perder

Eu já sei que na verdade nada disso você quis
Você simplesmente pensou em ser feliz
Aí não quis dizer

Mas você de uma coisa pode ter certeza
O amor que você tem por mim é a maior riqueza
Que eu preciso ter

Deixe essa vergonha de lado
Pois nada disso tem valor
Por você ser uma simples empregada
Não vai modificar o meu amor

Há alguns anos, apareceu uma empregada lá em casa que não tinha o biotipo clássico da empregada nordestina. Rosa era loura, bonita, vistosa — desde que não abrisse a boca e jogasse fora as roupas que usava. Por ter uma aparência “européia”, não tinha dificuldade em dizer a todos que não era nossa empregada, e sim nossa prima. Ela era o próprio retrato dessa música de Odair José.

Se Reginaldo Rossi hoje assume uma postura caricata e deliberadamente camp, ele é o autor de uma das mais singelas letras do gênero, em “A Raposa e as Uvas”. Principalmente no Nordeste, até meados dos anos 80, o modo de vida que Rossi apresenta naquela canção é extremamente comum. Em sua melhor forma, os grandes cantores brega são os verdadeiros cronistas musicais do Brasil. Suas músicas são “A Canção de Rolando” de um país que ainda tem vergonha de se assumir.

Brega é bom.

Brega

Não conheço ninguém que tenha um nível considerado “razoável” de cultura que admita gostar de música brega. Não me refiro aqui a essas aberrações tipo Chitãozinho e Xororó ou Kelly Key, mas ao grande e vigoroso brega dos anos 70 e 80. Fernando Mendes, Odair José, Carlos Alexandre, Amado Batista.

Com exceção de Roberto Carlos, a grande trilha sonora deste país, esses nomes são talvez o que de mais puramente popular a cultura brasileira produziu em sua história.

Musicalmente o brega é derivado da Jovem Guarda, e principalmente de Roberto Carlos. Que por sua vez já é derivado do pop dos anos 60 e da música romântica dos anos 70. Os versos são geralmente simples, simplórios até. Mas trazem uma grande virtude: verdade.

Eis alguns versos de “Menina do Subúrbio”, de Fernando Mendes:

Lê as colunas sociais
Sonha com seu nome nos jornais
Espera um convite para ser atriz
E pede a Deus para ser feliz

Ouve música estrangeira
Sentada na janela
Não entende uma palavra
Mas pensa que é pra ela

Finge que é importante
Pras meninas lá da rua
E não vê que no subúrbio
A vida continua

Eu, pelo menos, conheci algumas pessoas assim.

O mérito da música brega, quando ela é realmente grandiosa, é a verdade que contém. Esses versos contêm muito mais verdade do que, por exemplo, aqueles versos imbecis dos Tribalistas: “Não sou de ninguém, sou de todo mundo e todo mundo é meu também”.

Mesmo a simplicidade musical pode ser enganosa. Algumas dessas músicas têm excelentes seqüências de acordes, e principalmente em Odair José os valores de produção são semelhantes aos utilizados por Roberto Carlos.

Mais ainda, elas refletem a vida do povão deste país:

Olha, a primeira vez que eu estive aqui
Foi só pra me distrair, eu vim em busca do amor
Olha, foi então que eu lhe conheci
Naquela noite fria, em seus braços
Meus problemas esqueci

Olha, a segunda vez que eu estive aqui
Já não foi pra distrair, eu senti saudade de você
Olha, eu precisei do seu carinho
Pois eu me sentia tão sozinho
Já não podia mais me esquecer

Eu vou tirar você desse lugar
Eu vou levar você pra ficar comigo
E não interessa o que os outros vão pensar

Eu sei que você tem medo de não dar certo
Pensa que o passado vai estar sempre perto
E que um dia eu posso me arrepender
Eu quero que você não pense em nada triste
Pois quando o amor existe, não existe tempo pra sofrer
(Odair José, Eu Vou Tirar Você Desse Lugar)

É, putas eventualmente se casam. E é assim que funciona.

O que o mundo da alta cultura — que se considera alta por ouvir Caetano Veloso, igualmente pop; na verdade, são extremamente middlebrow — não consegue admitir é que a música é um espelho do país: português e africano, melancólico, às vezes sem vergonha de expressar sentimentos básicos e constrangedores.

Mais ainda, é essa identificação com o que o país tem de mais popular, com a herança das classes mais baixas, que parece incomodar. Graças a um sentimento de colonizados, é curiosamente mais fácil virar as costas para o povo brasileiro e abraçar cegamente a cultura de outros países. E então idolatram os hollers dos escravos americanos catando algodão, transformados no blues. É parecido com o que se ouve nas feiras do interior, mas a esses se tem aversão.

Talvez seja até mais grave do que isso. O brega, por ser dinâmico, por ser atual, não conseguiu se tornar pitoresco como o cordel, por exemplo. É fácil cantar loas a um gênero cuja relevância social acabou-se há tempos, desde que o rádio chegou aos confins do país.

Mais que a maior parte dos cantores chiques da MPB, os cantores brega pintam um retrato fiel e simples do cotidiano do povo brasileiro. E isso parece ser insuportável.

Married With Children

Aproveitando a TV a cabo para rever Married With Children, no Sony.

Esse é um dos mais hilários, e mais canalhas, seriados de todos os tempos. Simpsons? Não são nada perto da família Bundy.

O seriado durou cerca de 10 anos. Mostra uma família absolutamente “disfuncional”, como diria um americano. O pai, Al Bundy, é um vendedor de sapatos absolutamente fracassado, preso a uma família medíocre e sufocante, cujo único motivo de orgulho é ter feito 4 touchdowns em única partida, no secundário. A mãe, Peggy, é uma dona de casa preguiçosa e insatisfeita, mas que se recusa a levantar do sofá para fazer alguma coisa. A filha, Kelly, é uma moça muito burra e muito “dada”, o arquétipo da loura burra. E o filho, Bud, é um adolescente cujos únicos relacionamentos se dão com bonecas infláveis.

Essa família só se mantém junta por uma razão: o fracasso. Todos eles são perdedores confessos, e levam a vida com uma moral, no mínimo, duvidosa. Se os Cosby representavam o sonho americano, os Bundy são o pesadelo. O que os leva para a frente é a certeza de que sempre poderão ser cruéis uns com os outros. E por isso Bud acusa Kelly de dar mais que xuxu em cerca, Al acusa Peg de ser a razão de seus infortúnios, Peg reclama que Al é um fracasso total e simplesmente não agüenta fazer sexo com ela, Kelly ri da inapetência social e sexual de Bud. Eles estão juntos porque não têm para onde ir, e porque o fracasso do outros, de uma forma estranha, alivia as suas próprias derrotas.

E, no meio dessa confusão, eles são provavelmente os personagens mais calhordamente engraçados que já vi na televisão.

Curiosamente, eu não conhecia ninguém que ainda gostasse de Married With Children. Mas no início do ano Walter Mosley (um dos melhores autores policiais dos últimos tempos; o filme “O Diabo Veste Azul” é baseado em seu primeiro livro da série de Easy Rawlins) escreveu um artigo no New York Times manifestando essa mesma opinião.