Quem era o líder dos Beatles?

É engraçado que quase todo mundo que fala dos Beatles se refira a Lennon como o líder, ou a McCartney, como querem os revisionistas.

Eu acho que a questão não é tão simples.

A banda foi iniciada por Lennon, e ele foi, certamente, a figura de frente da banda por muito tempo. Durante a “segunda fase” dos Beatles, McCartney era claramente o motor da banda; era quem coordenava, quem praticamente produzia ao lado de George Martin. Eram suas as iniciativas. Foi ele quem manteve o grupo unido, e sua ascensão como compositor levou os Beatles à sua fase mais criativa. Foi dele, por exemplo, a idéia do Sgt. Pepper’s, o disco mais influente de todos os tempos (e de gafes monumentais como o filme Magical Mystery Tour).

Mas isso não quer dizer que um deles fosse necessariamente o líder.

Eu costumo comparar os Beatles à monarquia inglesa. Havia um rei, Lennon, que não governava mas era, decididamente, a liderança moral da banda. Havia o primeiro ministro, McCartney, o sujeito que efetivamente tomava conta da administração. A Câmara dos Lordes, personificada por George Harrison. E a Câmara dos Comuns, o velho e bom Ringo.

Mesmo essa classificação, no entanto, é falha, esquemática. A verdade é que os Beatles eram uma democracia. Só isso.

Por que os Beatles fizeram tanto sucesso?

Esta é uma das poucas questões filosóficas que tomam meu tempo. As outras seguem acima.

A minha teoria é bastante simples.

Em primeiro lugar, eles tinham uma dupla de compositores absolutamente fenomenal. Lennon e McCartney eram únicos. Compondo sozinhos (como Yesterday no caso de McCartney ou Strawberry Fields Forever, de Lennon) ou em dupla, eles enchiam cada disco de canções pop com o mais alto nível possível. A competitividade entre os dois faziam com que tentassem se superar constantemente.

A democracia dos Beatles foi um outro fator. Era simples: se qualquer um deles não gostasse de uma música, ela não via a luz do dia.

Eles nunca pararam de tentar inovar, nunca tentaram se ater ao “estilo beatle”. estavam sempre em busca de novas idéias, de novas formas de fazer sua música.

A banda era composta de grandes instrumentistas. McCartney é, certamente, o baixista mais influente da história da música pop, e certamente o mais revolucionário. Os guitarristas, se nao eram fenomenais, funcionavam bem dentro do conjunto da banda. E Ringo era também um dos melhores bateristas do rock and roll. Era uma banda perfeitamente entrosada, em que cada membro conhecia perfeitamente os outros.

E, principalmente, há a devoção absoluta à canção. Não há espaço para exibicionismo; eles fazem estritamente o que a música precisa. Por exemplo, McCartney é o mais melódico baixista de todos os tempos; mas se a música pedisse que ele ficasse fazendo tum-tum-tum no baixo, ele fazia. Quem toca baixo, e tenta tocar uma linha de algumas músicas dos Beatles em que o baixo tem proeminência, sabe o quanto é fácil cair no exagero, no over. A bateria de Ringo não tem os delírios de um John Bonham ou Keith Moon; mas hoje boa parte das músicas do Led Zeppelin ou do The Who soam datadas, enquanto a maioria dos Beatles permanece atual. O mesmo vale para Lennon e Harrison, bons instrumentistas mas que se encaixavam perfeitamente dentro da estrutura da banda.

Robin Williams

Uma coisa terrível, que sempre acontece comigo, é não perceber o gênio e a beleza verdadeiros durante muito tempo. Por exemplo, só fui achar a Nicole Kidman a resposta de Deus a Jó muito tempo depois do resto do mundo.

E agora me aparece Robin Williams.

Nunca vi muito nele. Nunca o achei excessivamente engraçado. Concordei com Arnaldo Jabor quando o chamou de canastrão. Mas acabei de ver uma entrevista sua no programa “Inside Actor’s Studio”. Ele é simplesmente, absolutamente brilhante. É um gênio da comédia. É um gênio.

Acho que isso não é muito elogioso a meu respeito.

(Pausa.)

Passei alguns minutos tentando me redimir dessa falta de percepção, citando algum exemplo de gênio que percebi antes de todo mundo.

Não consegui.

The show must go on

Aracaju não tem nada.

Mas já teve. Pouca gente sabe disso, mas até o final do ano passado o cinema mais antigo de todo o mundo em operação ficava em Aracaju. O Rio Branco era de 1904, se não me engano. Começou como teatro e acabou sendo convertido em cinema. Durante sua história foi o palco das principais “efemérides” culturais da capital de Sergipe. Pelo seu palco passou Procópio Ferreira, gente de ópera; imagine uma cidade pequena quando vê alguém vindo da metrópole e talvez se tenha uma idéia do que o Rio Branco significava.

E de repente, do dia para a noite, demoliram o Cine-Teatro Rio Branco.

É verdade que nas últimas décadas a vida tinha sido difícil para o Rio Branco. A partir de meados dos anos 80 ele tinha se transformado em cinema pornô; mas mesmo então ele teve alguns momentos de glória: em 88, acho, foi o cinema com maior público de todo o país.

Mesmo em sua decadência, o Rio Branco era a única coisa que a cidade tinha de decente; de resto Aracaju é um cu-de-mundo estagnado e atrasado. Mas, mesmo assim, a cidade, que dá aos seus símbolos culturais o valor de esterco, deixou que o Rio Branco fosse demolido. Era seu único bem cultural de valor, e foi abaixo sem que a maior parte do seu povo, mais acostumado a pré-carnavais, notasse. Alguns intelectuais, depois do fato, resolveram protestar — mas esses mesmos intelectuais não falaram nada quando os outros cinemas do centro da cidade foram sendo desativados, um a um. Tão burros que não perceberam que, se deixassem um cinema ir embora, os outros iriam também.

As coisas são curiosas. Aracaju, praticamente sem saber, tinha algo de classe mundial, e deixou que fosse ao chão. Enquanto isso, prefere gastar tempo e dinheiro promovendo anacronismos folclóricos mortalmente entediantes como reisados e maracatus e concursos de quadrilhas caricaturizadas e deturpadas.

É uma vergonha. Mas se você conhecesse Aracaju você entenderia.

For All

O Ceará tem um problema.

É impossível achar uma empregada doméstica.

Todas decidiram que eram cantoras e entraram numa banda de forró.

Se há uma razão para o Ceará ser execrado pelas gerações vindouras, é pela invenção dessa coisa bizarra que são as bandas de forró tipo Mastruz com Leite, Mel com Terra, Cu com Merda, Magníficos, Calcinha Preta e tantas outras que atentam contra uma das mais belas tradições brasileiras.

O forró, o baião são uma das mais interessantes tradições nordestinas. Luiz Gonzaga é um gênio absoluto; basta ouvir “Karolina com K” e “Sá Marica Parteira” para se perceber, imediatamente, que se está diante de um dos maiores cronistas do espírito nordestino, no que ele tem de maior. E mesmo intépretes menores, como Genival Lacerda, refletem aquela característica sacana e safada do nordestino, com o duplo sentido sempre presente, com aquela vontade de falar sacanagem. E os discos de Genival eram produzidos por Sivuca.

Mas essas bandas cearenses, e todas aquelas que seguiram a sua inspiração, são, em uma palavra, asquerosas. A música é podre, um pastiche que mistura um laivo de forró ao mais ignóbil brega. É música ruim pasteurizada ao extremo, com cantoras sem nenhuma qualificação e dançarinas saídas diretamente do puteiro mais próximo.

Nao dá para sentir um pouco de revolta ao ouvir o que fizeram da música nordestina. E isso é culpa do Ceará. Aqui se dança um forró esquisito — fazendo “treatro”, como diria Luiz Gonzaga. No resto do Nordeste forró é uma dança a ser dançada a dois, pertinho, agarradinho, com as coxas entrelaçadas; mas no Ceará os parceiros apenas tentam se exibir de todas as formas possíveis. E aí é um tal de jogar a mulher para cá, jogar para lá, e todos dão voltinhas e giram como piões sem rumo.

Um dia o resto do Nordeste ensina esses cabecinhas-chatas a dançarem forró de verdade.

Fim de feira

Uma das melhores coisas de vir a Fortaleza era comprar livros baratos. Uma livraria daqui, a “Ao Livro Técnico”, fazia uma liquidação de saldo que durante muito tempo ofereceu bons livros a um preço de sebo.

Nos últimos 3 ou 4 anos comprei dezenas de livros nessa brincadeira. Mas hoje voltei lá, e só consegui sair da livraria com dois. Acho que levei todos os que prestam.

A festa acabou.

Bob has no hope anymore

Acabo de saber que Bob Hope morreu.

Duvido que um brasileiro normal com menos de 30 saiba quem foi ele. Mas quem, como eu, cresceu assistindo à Sessão da Tarde no final dos anos 70, quando a TV exibia uma enxurrada de filmes americanos dos anos 40 e 50, deve ter visto pelo menos uns cinco filmes dele. Ele era bom, e engraçado. Era provavelmente um dos grandes nomes do humorismo americano — o que quer dizer mundial. Fez uma dupla famosa com Big Crosby em filmes como Road to Morocco, Road to Bali, Road to Rio e Road to Putaquepariu, uma dupla que Jerry Lewis reeeditaria com Dean Martin. O meu preferido era The Paleface.

Ainda não li os obituários que vão pipocar mais tarde e nos jornais de amanhã. Mas fico imaginando a vida que esse cabra teve: foi rico, famoso, foi casado com a mesma mulher por quase 70 anos, todo mundo gostava dele, era bom jogador de golfe e, para contrariar o ditado de que o que é bom dura pouco, viveu 100 anos. Acho que ele não tem do que reclamar, não tem mesmo.

Esse povo todo, com quem cresci, está morrendo. Daqui a pouco é a vez de Jerry Lewis. E aí vai ser sacanagem demais.

Yeah, yeah, yeah

Ouço Beatles há tanto tempo, li tanto sobre eles que é quase como se fizessem parte da minha vida. Hoje, velhinho, a coisa está mais tranqüila; mas durante anos fui beatlemaníaco de carteirinha, do tipo que comprava revista só porque aparecia uma nota sobre McCartney. Um amigo dizia que eu sabia a cor da cueca que McCartney estava usando ao gravar Let it Be, e ele não estava muito longe da verdade.

Depois de tanto tempo ficam poucas questões a serem resolvidas. Como o meu exemplar de “O Ser e o Nada” está ali na estante, intocado, essas são as únicas questões metafísicas que tomam o meu tempo:

1 – Por que os Beatles fizeram tanto sucesso?
2 – Quem era o líder dos Beatles?
3 – Por que os Beatles terminaram?

Tá, são perguntas que não vão mudar o mundo, mas e daí? Tem gente que prefere saber o que vai acontecer no capítulo de amanhã da novela das 8.

Disney’s Robin Hood

Durante muito tempo eu quis ver o “Robin Hood” da Disney.

Na verdade, eu sou fã de longas animados. Principalmente os da Disney. Quando criança vi alguns no cinema, como “A Bela Adormecida”, “Cinderela” e pelo menos um do Mickey. Antes do vídeo-cassete, a Disney costumava reprisar cada filme seu de 7 em 7 anos.

Mas não tinha visto “Robin Hood”. E morria de vontade de assistir; convenhamos que para um menino de seus 8 anos Robin Hood, aventureiro, rebelde, é muito mais interessante que Aurora dançando com passarinhos.

Só consegui ver agora. E que decepção.

O filme, de 73, é ruim de doer. É nitidamente inferior aos grandes filmes da Disney, quando ainda supervisionados por Walt. Para começar, resolveram dar uma atmosfera country, com aquela música horrível de jeca em vez daquelas canções típicas da Broadway (e que nos bons tempos tinham versões de João de Barro no Brasil). A animação é ruim. Há vários elementos típicos dos desenhos da Hanna-Barbera e de DePattie e Freleng (que funcionam na TV, mas não no cinema). É o primeiro exemplo de animais fazendo o papel de humanos de toda a história da Disney; não entenderam a lição do velho Walt: a de que bichos podem falar, mas devem ser sempre bichos. E é típico dos anos 70 — cá para nós, uma decadazinha em que a mediocridade abundou.

Naquela época a Disney ainda não tinha se recuperado da morte de Walt. Demoraria até o início dos anos 90 para eles voltarem a fazer algo que prestasse.

Casablanca

Eu gosto de cinema. Gosto muito.

Mas acho que gosto mais ainda de “Casablanca”.

“Casablanca” nunca liderou aquela lista inglesa de 10 melhores filmes da história (en passant, essa lista foi encabeçada por “Encouraçado Potemkim” até 1961, e depois disso por “Cidadão Kane”). Ele é, acima de tudo, um exemplo da maestria no artesanato própria de Hollywood nos anos 30 e 40.

A produção foi complicada. Ronald Reagan tentou conseguir o papel de Rick Blaine. O filme foi sendo escrito à medida que ia sendo gravado. Os diálogos foram refeitos inúmeras vezes.

O resultado, por mais caótica que tenha sido sua produção, é um dos filmes mais idolatrados da história. Provavelmente porque, acima de tudo, “Casablanca” é um filme de roteiristas. Tudo bem que o diretor Michael Curtiz é ótimo, que os atores (Bogart, Ingrid Bergman, Claude Rains, Peter Lorre e até mesmo Paul Henreid) são ótimos — mas o que conta mesmo neste filme são os diálogos e o enredo. Com exceção de Shakespeare e da Bíblia, nada é tão citado no cinema quanto Casablanca. We’ll always have Paris, Round up the usual suspects, Here’s looking at you, kid, Play it, Sam, e tantas outras, são frases que fazem parte do imaginário cinematográfico. As cenas finais ficariam implausíveis em qualquer outro filme, mas em “Casablanca” são críveis e as únicas possíveis. De que interessam os problemas de três pessoas em um mundo louco sob sua maior crise mundial? Aquele diálogo é clássico, e é brilhante.

Mesmo atores que fazem papéis pequenos, como Peter Lorre e seu Ugarte, têm participações definitivas no filme. A cena em que Lorre pergunta a Bogart se ele o despreza (“Se eu pensasse em você, provavelmente desprezaria” é a resposta) é uma das melhores da história do cinema. E provavelmente a minha preferida.

O que faz de “Casablanca” um clássico é o brilho como a trama é conduzida. Todas as cartas estão na mesa, todos sabem qual o próximo movimento, mas ninguém pode fazer nada para impedir o curso da história, num determinismo quase marxista. Não há mistério nas situações. Há suspense apenas nos rumos que os corações dos principais personagens seguirão.

São todos personagens em conflito. Rick é um homem amargurado pela perda de seu grande amor, e que voltou as costas aos seus ideais. Ilsa é uma mulher dividida entre o seu dever — e a admiração platônica por um grande homem — e a grande paixão de sua vida. Renault é um hedonista corrupto que tenta tirar o maior proveito possível de uma guerra que lhe importa pouco, embora se possa suspeitar que embaixo de todo aquele cinismo haja ainda o velho orgulho francês.

São esses personagens que encontram sua redenção em Casablanca. Antes que o filme acabe, Rick tem de volta seus ideais e a lembrança de uma atitude altruísta e nobre. Ilsa descobre o seu lugar no mundo, e sabe que sempre terá Paris para se lembrar, quando olhar para o lado e vir aquele chato do Laszlo roncando. Laszlo, provavelmente, será mais tarde um burocrata tcheco e um dos responsáveis pela repressão à Primavera de Praga. Renault, na que eu considero a decisão mais difícil de todo o filme, abdica de sua vida boa em Casablanca para honrar seu coração gaulês e entrar na Resistência. E Ugarte… Bem, Ugarte continua morto.

“Casablanca” é um filme de amor, claro, e é assim que ele é visto em primeiro lugar. Mas, para mim, é principalmente um filme sobre redenção, sobre um acerto de contas com o passado e a definição de novas perspectivas para o futuro.

É isso que faz de Casablanca um grande filme, algo mágico. Ao contrário de clássicos como “Outubro”, de Eisenstein, em que é muito fácil explicar as razões pelas quais os admiramos, “Casablanca” requer um pouco mais que isso. Mas quem disse que é fácil explicar por que você se apaixonou por determinada pessoa?