A culpa é de Alckmin

Agora que a situação parece mais calma, dá para falar com mais senso de perspectiva sobre um aspecto da crise de São Paulo.

Desde o início, a imprensa alertou sobre a impropriedade de utilizar os acontecimentos como combustível para a campanha eleitoral. Mas haverá uma eleição em menos de cinco meses, e a incompetência no gerenciamento do problema da segurança pública deve, sim, ser um critério de julgamento dos candidatos. A crise do mensalão, por exemplo, é um critério para a avaliação do governo Lula.

Acima de tudo, é impossível negar que o caos que tomou conta de São Paulo tem responsáveis, e que estes não são apenas os membros do PCC. Se o terror chegou aos paulistas, foi principalmente pela má atuação das forças de segurança pública.

O fato é que a atuação de Alckmin foi um fracasso retumbante e inegável.

São quase doze anos de governo do PSDB em São Paulo — oito dos quais sob a presidência do tucano Fernando Henrique Cardoso. Caso tivessem alguma idéia de como lidar com o problema da segurança pública, não poderia haver circunstância melhor. Não houve quebra de continuidade, puderam planejar a longo prazo, e houve tempo mais que suficiente para executá-los.

No entanto, foi justamente nesse período que o PCC se solidificou. E a verdade é que o PSDB não soube enfrentar o problema. A opção de fazer acordos com a bandidagem — que já não tinha dado certo no Rio de Janeiro de Brizola — foi uma decisão equivocada desde o início, típica de uma administração fraca e sem autoridade. Ao não cumprir adequadamente seu papel repressivo, o governo paulista possibilitou o desenvolvimento da conjuntura que levou à tragédia dos últimos dias. É preciso ter perdido toda noção da função da pena para permitir discussões como visitas íntimas — que na prática acaba sendo pouco mais que uma permissão oficial para a prostituição dentro dos presídios — ou a distribuição de televisores na prisão. De repente, cumprir pena em um presídio paulista acabou não representando um castigo.

A irresponsabilidade, no entanto, não ficou apenas durante o mandato. O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, tem culpa por dar respostas insuficientes a uma crise de proporções gravíssimas. Mas não é o principal responsável por ela, tendo assumido o governo apenas há poucas semanas. A responsabilidade cabe única e exclusivamente a Alckmin, que passou seu governo apregoando a eficiência da polícia e do sistema carcerário paulistas. Como se viu na última semana, ele mentiu.

Em entrevista à Folha de S. Paulo o governador Lembo deixou claro que, durante a crise, a tal cúpula do PSDB — o ex-presidente Fernando Henrique, o ex-governador Alckmin e o ex-prefeito Serra — lhe deixou com a bomba nas mãos. O único com quem conversou regularmente sobre a crise foi o presidente Lula, que lhe ofereceu toda a ajuda necessária.

Lula não fez mais que sua obrigação como presidente. Mas o mesmo não se pode dizer daqueles que, de uma forma ou de outra, estiveram envolvidos com a administração paulista. O que todos eles fizeram, mas principalmente Alckmin, foi fugir às suas próprias responsabilidades da maneira mais burra e covarde, achando que o silêncio lhes preservaria eleitoralmente. Como uma criança que não diz à mãe que quebrou o seu vaso preferido.

E então o que houve foi um fenômeno esquisito: Lula, que fez o que manda o cargo, não aproveitou eleitoralmente o episódio, e mal não ficou. Alckmin, que não fez o que manda a ética, tentou um “aproveitamento pelo avesso”, e não se saiu bem.

Mesmo assim, durante a crise o comportamento da mídia foi, no mínimo, dúbio. O Jornal da Globo, por exemplo, tentou ridicularizar ao máximo a declaração de Lula de que tudo isso é resultado de más políticas educacionais, em vez de fazer o que devia: cobrar soluções efetivas ao governo de São Paulo, algo mais importante, inclusive, do que definir de quem é a culpa por essa vergonha. Mas aproveitamento eleitoral só não vale para o governo. Nesta semana a revista Veja, que já não sabe o que fazer para se desmoralizar ainda mais, continua sua descida ladeira abaixo: enquanto a Época e a IstoÉ trazem capas sobre o caos paulista, como manda qualquer cartilha de jornalismo, ela traz uma capa sobre estética. Assim como Alckmin, parece acreditar que se não tocar no assunto ele desaparece.

Mas as coisas não são tão simples. Simples é um fato óbvio: a responsabilidade sobre o descalabro da segurança pública paulista só pode ser creditada a um homem. Seu nome é Geraldo Alckmin.

A revista picareta

A Veja desta semana traz uma matéria de página dupla intitulada “A micareta picareta”, dizendo que o prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, superfaturou shows em eventos da prefeitura para fazer caixa dois e financiar sua campanha para governador.

A matéria, assinada por Fábio Portela, começa já com uma informação errada. Diz que o Pré-Caju, micareta realizada todo ano, é financiada por recursos públicos, o que é uma inverdade. A Prefeitura e a ASBT, entidade que promove o Pré-Caju, chegaram inclusive em estar em lados opostos recentemente. Mas essa é uma afirmação necessária para que se justifique o que a revista diz depois. Não é à toa. Ela quer configurar um caso de prefeitura corrupta, uma imagem bem adequada à sua campanha.

Para citar apenas o caso com a maior discrepância de números, o show do cantor Daniel, a Veja não menciona que além do cachê do artista houve gastos como 52 mil reais de passagens para as mais de 40 pessoas que compõem a equipe de Daniel, 33 mil reais de excesso de bagagem, entre outros.

O mesmo vale para todos os outros shows. O que a reportagem faz é um exemplo de torção da informação para alcançar um objetivo específico. É a outra definição de mentira. E essa omissão não é algo feito por incompetência. É deliberada, porque o que a Veja quer não é informar, e sim formar uma opinião de acordo com os seus interesses.

Correm boatos de que as informações foram fornecidas à Veja pelo senador Almeida Lima, homem que há dois anos foi motivo de riso nacional por levar um dos maiores escrachos públicos já vistos no Congresso Nacional, pelo senador Aloízio Mercadante. Até hoje o ex-prefeito Almeida Lima, homem de origem pobre mas agora bastante rico, é conhecido em Aracaju pelo apelido recebido na época: Darlene, a personagem de novela global capaz de qualquer coisa para aparecer.

Se for verdade, a reportagem não se preocupou em averiguar os dados que o senador lhe ofereceu. Apenas os repetiu acrescentando doses de malícia. E acrescentando mais mentiras.

Por exemplo, o que eles chamam de “canalização de um córrego” é, na verdade, a drenagem de um bairro da zona norte, o Ângela Catarina. A coisa é ainda pior no caso da “pavimentação de rua” inaugurada com o show de Daniel. Neste caso, o que se inaugurava era toda a reestruturação de um bairro problemático, a Coroa do Meio, e a construção de uma enorme avenida, a Perimetral. A urbanização da Coroa do Meio era uma das obras-chave da campanha de Marcelo Déda.

Esse não é um caso isolado ou simples denuncismo. Nunca é. Neste caso específico, há um interesse na campanha eleitoral sergipana e, conseqüentemente, presidencial.

Ultimamente, Sergipe tem aparecido no noticiário nacional porque, aqui, há uma grande dificuldade de concretização da aliança PSDB/PFL, necessária para que Alckmin tenha alguma chance. Alckmin está tentando evitar que o ex-governador Albano Franco, do PSDB, apóie Déda, movimento que se concretizado poderia vir a selar antecipadamente a derrota do governador João Alves Filho, o homem que quer construir uma ponte ligando o nada ao lugar nenhum. João Alves, que tenta a reeleição apesar de um governo sem realizações, está atrás em todas as pesquisas feitas até agora, e por isso desfere uma das mais impressionantes campanhas de manipulação da imprensa da história do Estado.

Nos últimos meses, o governador tem feito de tudo para encontrar indícios de corrupção na administração de Marcelo Déda. Não encontrou. Mesmo com o Tribunal de Contas composto de integrantes, em sua grande maioria, indicados por João Alves e correligionários, as contas de Déda vêm sendo aprovadas sem problemas. Nesse caso, o que se pode fazer é sugerir, insinuar, sem preocupação com os fatos.

Na melhor das hipóteses, a revista foi incompetente. Na pior, agiu de má fé, sabendo o jogo político em que entrou e fornecendo informações falsas ou incompletas deliberadamente. O que a Veja fez aqui não é jornalismo. É campanha eleitoral. Do tipo mais baixo, o que apela para mentiras.

Há algum tempo, a Veja deu um apelido à sua principal concorrente na época, a IstoÉ: dizia que ela deveria se chamar “QuantoÉ”. Agora, pelo visto, a gente fica com a impressão de que a Veja entende do assunto.

Indo para Pasárgada

A partir de hoje, este é um blog de oposição.

Durante todos esses últimos meses este blog apoiou o governo Lula, apesar de todas as denúncias, apesar de todos os indícios, apesar de todos os fatos, por ter uma compreensão própria e menos ingênua de política e por admitir que este tem, sim, sido um bom governo.

Mas agora vou deixar de achar que Lula será um bom presidente a partir de 2007 porque, se eu for da oposição, eu sei que vou ter sorte.

Vou casar porque sei que minha mulher vai ganhar vestidos. Dados assim, sem nenhuma intenção. Dados por um estilista que dá tão pouco valor ao seu tempo e ao seu trabalho que, para ele, 40 vestidos e 400 são exatamente a mesma coisa. E se eu não souber me explicar direito, isso não vai significar muita coisa, porque afinal de contas, sem sorte é o governo.

Se eu for para a oposição vou ter sorte como o Francenildo teve.

Porque é preciso ser uma pessoa que nasceu com a bunda virada para a lua para que um pai que nunca lhe viu, e nunca sequer lhe assumiu, lhe dê de mão beijada 25 mil reais, por sorte e coincidência na véspera de um depoimento importante. Mais ainda: com a sorte do Francenildo eu também vou arranjar um advogado metrossexual que vai tentar fazer o Estado me pagar dezenas de milhões de reais pelas pequenas e grandes sacanagens que me fez.

É por não ter essa sorte que só bendiz a oposição que aquele pessoal do governo se envolve em tantas confusões, que é acusado de crimes eleitorais e de esquemas de compra de votos. Ao longo deste último ano, pelo menos de uma coisa eu passei a ter certeza: se o pessoal do governo tivesse a sorte que a oposição tem, não teria que se envolver com os Marcos Valérios da vida. O governo precisa fazer caixa 2; a oposição simplesmente ganha as coisas porque, bem, tem sorte.

É isso. Vou para a oposição porque andar com gente sem sorte não traz coisa boa. Eu quero a sorte que nos faz ganhar coisas e que não nos obriga a compromissos com gente como Roberto Jefferson.

Cada vez mais admiro esta oposição com tanto trabalho nas costas, com a honestidade única e inquestionável que só aqueles com sorte podem ter, com as mãos limpas e ostentando uma probidade que muitos céticos, como eu fui um dia, julgavam impossível. Vou virar um oposicionista ferrenho porque lá nossas máculas são automaticamente limpas, e o passado não nos condena mais. A partir de hoje, este é um blog de oposição, e eu estou indo para Pasárgada.

E como Marco Antônio naquela peça inglesa, eu vou poder dizer de todos os políticos que vou defender: For he is an honourable man; so are they all; all honourable men.

A defesa extemporânea dos ascensoristas

Não dá outra: basta você arranhar um liberal para, debaixo da casca grossa do discurso da livre iniciativa, encontrar um bom e velho reacionário.

O André Kenji achou um artigo do Paulo C. Barreto no Instituto Millenium, em que o sujeito desce a lenha na iniciativa abortada do Sebrae de oferecer a pequenas empresas um software livre de gestão. O Kenji faz boas críticas ao texto do sujeito.

O absurdo do argumento do Paulo Barreto é, para começar, quantitativo: para garantir o trabalho de “dezenas de desenvolvedores e revendores de softwares que vivem desse segmento”, pretende-se abortar potenciais ganhos de produtividade de 800 mil empresas, pelas suas próprias estimativas. Esse mesmo pessoal que reclama do governo por atravancar o desenvolvimento econômico do país ao cobrar impostos altos reclama também quando ele oferece uma ferramenta para o aumento de produtividade. E não tem vergonha de propor obstáculos ao progresso do país em função da defesa dos interesses de “algumas dezenas”, em nome de algum princípio que não se sabe mais qual é.

Seu darwinismo econômico, que normalmente serve para justificar a manutenção dos lucros já existentes, tem limites muito claros. O governo tem que proteger modelos tecnológicos ultrapassados, se isso significa a manutenção do status quo. Deve prejudicar a maioria — 800 mil pequenas empresas representam quantos empregos, e podem gerar mais quantos? — por causa de uma minoria que se mantém aferrada ao passado. Por acaso, é a mesma atitude corporativista que acusam em sindicatos e quetais.

É por essa razão que o Paulo se arrisca em argumentos bobos como este:

Quem vai se arriscar a fazer um programa melhor se o Sourceforge.net – central de distribuição de lançamentos em software livre – fornece outro que faz o mesmo, e sem a chateação das telas “se gostar, pague ao autor”?

A resposta, que pode ser dada por qualquer autista de cinco anos de idade, é lógica: se o outro faz a mesma coisa, então ele não é melhor.

O fato é que não há argumentos suficientes para justificar sua posição. O acesso de 800 mil empresas a boa tecnologia significaria mais produtividade, mais lucros e mais empregos. Ponto. Se nesse processo alguns setores atrasados se perdem, o que se pode fazer? Quando são só trabalhadores em situação parecida, geralmente são estatísticas por cima das quais passar. Eu pensava que era essa essa a dinâmica do capitalismo e que esse era o seu melhor argumento. Por isso o espanto em ver os pensadores do liberalismo econômico defendendo uma posição tão contrária ao que diziam ser seus princípios.

Mas o problema é mais grave. Para tentar justificar essa posição injustificável, o Paulo Barreto ataca a própria idéia de software livre.

Dizer que o Linux só é o que é graças ao apoio de gigantes como a IBM e a Sun é, no mínimo, desconhecimento. Seria mais sensato — e mais de acordo com as leis de mercado — dizer que a IBM e a Sun aderiram ao Linux por ele ser o que é. Desde meados dos anos 90 o Linux é uma das principais apostas da comunidade de desenvolvedores. Representa a ponta mais visível de um movimento grande e que se espalha cada vez mais.

Mais que insistir em não ver o bonde passar, o Paulo parece desconhecer as dimensões do que pode se tornar o movimento open source. Para algo que se pretende think tank como o Instituto Millenium, como disse o Kenji, essa ignorância é uma falha grave. Eu recomendaria que lesse este artigo da Wired para entender melhor as coisas.

Além disso, para defender o ponto de vista dos gigantes o Paulo Barreto chama o auxílio de desenvolvedores de freeware e shareware. O problema é que, em primeiro lugar, o shareware não diz respeito ao modo de produção, mas sim ao modo de distribuição; segundo porque no caso do freeware, já que do ponto de vista puramente financeiro não há diferença, o problema é obrigatoriamente de qualidade, mesmo.

O que o Paulo Barreto está fazendo é simples. Está se comportando como ascensoristas, do tempo em que elevadores tinham portas de safona e eram movidos por alavancas por “profissionais altamente especializados”, embasbacados e revoltados diante do surgimento de elevadores automáticos.

Mas talvez nenhum desses argumentos seja necessário se você rolar a página até o final. É quando tudo o que foi dito ali cai no ridículo graças a uma única frase: “Instituto Millenium é gerado pelo WordPress“. Que, para quem não sabe, é um belo exemplo de software livre.

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Mas o Kenji está equivocado quando diz que a escolha do software livre deve ser econômica, e não política.

Na verdade, a escolha deve ser feita menos por motivos econômicos econômicos que políticos. Claro que a economia representada pelos custos menores é importante. Muito. Mas o que é fundamental, mesmo, é que o software livre — que pode ser livremente alterado e reconstruído — é a ferramenta necessária para a construção de um projeto nacional de desenvolvimento tecnológico.

O Brasil nunca desenvolveu nada que prestasse no ambiente operacional da Microsoft, porque não era possível. Mas adquiriu uma posição de destaque no mundo do software livre com uma boa distribuição do Linux, o Conectiva (hoje Mandriva porque a empresa foi comprada pela Mandrake, um caso de globalização que deveria orgulhar o pessoal do Instituto Millenium e mostrar que mesmo em software gratuito há espaço para lucro).

Enquanto isso, do ponto de vista educacional e tecnológico as possibilidades oferecidas por programas como o Linux são inúmeras. São a garantia de que o país pode avançar tecnologicamente, pode criar massa crítica de cientistas e não apenas se conformar com o papel de mero apertador de patins. Significa, resumidamente, a possibilidade de desenvolver tecnologia e know-how. E conhecimento é uma das coisas que diferenciam países desenvolvidos da ralé analfabeta.

A discussão sobre a adoção estatal do Linux não começou no governo Lula: vem do governo de Fernando Henrique Cardoso e era umas das questões envolvidas na discussão do FUST. A diferença é que na época o ministro da Educação, Paulo Renato — que fez carreira como advogado da Microsoft — indicava uma opção preferencial pelo Windows. A decisão do governo Lula e de gente como Sérgio Amadeu e, indiretamente, Gilberto Gil de abraçar o software livre foi fundamental para que o país fizesse uma das mais acertadas opções de desenvolvimento de sua história, o que, com todos os problemas que o governo Lula enfrenta, indica uma concepção de país soberano. A isso, em outros tempos, costumavam chamar de projeto nacional.

Ainda as eleições

O resultado da “pesquisa” sobre as eleições me surpreendeu.

A anterior tinha sido feita antes dos escândalos que que se multiplicaram a partir do Maurício Marinho. Seria de esperar, portanto, que os votos em Lula diminuíssem.

No entanto, não foi isso o que aconteceu. Lula teve 12 votos, Alckmin 10, 11 votaram nulo e a Gralha das Alagoas teve 5 votos. Na votação passada, Lula teve 8, Alckmin, Serra, César Maia e Heloísa Helena juntos tiveram 7, e 10 votavam nulo.

A pesquisa não tem nenhum valor por várias razões. Mas como todos os leitores podem ser considerados de, no mínimo, classe média, dá para pensar em uma possibilidade curiosa.

A classe média é, de longe, o segmento onde a queda de Lula tem sido mais acentuada. É por isso que essas eleições deverão ser um pouco diferentes da de 2002: as classes mais baixas é que sustentam Lula (e agora a oposição abre a boca para gritar que o povão não entende nada; não dizia isso quando esse mesmo povão apoiava Fernando Henrique).

Seria de esperar, portanto, que justamente aqui Lula agora tivesse menos votos que na “votação passada”. Mas não foi isso que ocorreu: pelo contrário, mais gente votou do que antes. O crescimento de Alckmin, que mal era lembrado na eleição anterior, não quer dizer nada: na época ele nem era candidato. Mas o crescimento de Lula, proporcionalmente menor, é uma surpresa curiosa. E talvez possa ser considerado um indicativo que a eleição está menos feia para Lula do que querem fazer parecer.

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Falando de pesquisas sérias: a do Ibope, em São Paulo, não é bem uma surpresa. É natural que Lula perca lá, embora a diferença deva deixar o pessoal responsável pela reeleição assustado. Mas a do Datafolha, nacional, ao não mostrar nenhuma alteração importante em relação à última diz uma coisa interessante: que a queda de Palocci não influiu nas intenções de voto. E olha uqe eles nem sabem dos bastidores tenebrosos que levaram à queda do ministro.

É cedo para afirmar isso, e Alckmin deve crescer mais com o decorrer da campanha. É a única vantagem do picolé de chuchu diet, não ter o nível de rejeição que Lula ou Serra têm e só poder crescer. Mas é bem provável que a maior parte do mal que se podia fazer à candidatura de Lula já tenha sido feita, a não ser que apareçam novos fatos, realmente graves.

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O jeito “republicano e responsável” da oposição tem feito um bom estrago, certo. Mas é engraçado que em alguns setores ela tenha feito justamente o contrário: reforçado a adesão a Lula por um sentimento de revolta contra seus métodos — como, por exemplo, os comerciais anônimos que o PFL veiculou há algumas semanas batendo pesado no PT, tentando desesperadamente vincular Lula aos casos de corrupção.

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Da seção de “dois pesos e duas medidas”:

Quando o governo tentava justificar seus erros, seu relacionamento incompetente com o Congresso e o caixa 2 com a alegação de que todo mundo faz isso, a oposição corria a dizer que isso não valia, que não podia justificar um erro com outro.

Agora que Serra rasga seus compromissos, o Fernando veio logo perguntar pelo Palocci. E num post que não defende o governo das acusações

Sei lá, podiam dizer que São Paulo chamou, que era um imperativo histórico, qualquer coisa.

Além disso, quando os escândalos do mensalão começaram a se suceder, reclamaram que o pessoal que defendia o governo tinha se calado. Mas agora eu não vejo muita gente defendendo as quebras de promessa de Serra ou os vestidos (40, não 400) da senhora Alckmin.

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Mas uma coisa não mudou.

Nas duas votações, o Ina falou, falou, falou e não disse em quem votava.

"Esqueçam o que eu escrevi"

Se ele não cumpre as promessas feitas em papel timbrado de um jornal, imagine aquelas feitas em discursos na periferia.

Sei não. Deve ser algo na água dos bebedouros na sede paulista do PSDB.

(Via Idelber. Voltou bem pra cacete, hein, trotskista?)

A dançarina, o caseiro e o 18 brumário de Francenildo Pereira

E a dancinha da Angela Guadagnin foi parar na capa da Veja.

A Veja é a revista que publicou uma das matérias jornalísticas mais absurdas da história do jornalismo político do país, a dos “dólares de Cuba”. Uma matéria inteira sem nenhuma prova, mas principalmente sem sequer uma testemunha. Ninguém havia visto dólar nenhum. Mas isso não importava para a revista. Vale qualquer coisa quando se está em campanha.

Não que a dança da deputada seja elogiável. Mas o que eu vi, no fundo, foi uma senhora comemorando a absolvição de um amigo. É curioso que o Congresso tenha declarado um deputado inocente e pretenda levar alguém à Corregedoria da Câmara por ter comemorado justamente isso. Mesmo isso até seria aceitável, se eles se mostrassem indignados assim cada vez que deputados se estapeassem no Congresso ou xingassem suas respectivas mães. Os critérios, no entanto, são diferentes. Talvez eles prefiram o Schadenfreude. Talvez apenas tenham aproveitado a chance de jogar mais lama no governo.

O problema é que se chegou a um ponto em que todos os que apóiam o governo são culpados, mesmo com prova em contrário.

Por exemplo, qualquer pessoa que conheça um mínimo de política e de eleições sabe que é bem provável que alguns dos deputados acusados de envolvimento com o valerioduto sejam inocentes: gente que pressionava o partido para receber algum dinheiro para pagar suas dívidas e não estava necessariamente envolvida com o esquema. Aposto, por exemplo, que a Heloísa Helena não se perguntou, enquanto tentava se eleger senadora, de onde vinha o dinheiro que Delúbio lhe dava.

O Guto lembrou que se fosse uma deputada do PSDB a dançar, o PT estaria fazendo um terremoto. Provavelmente. Mas é também o caso de perguntar o que é que estão fazendo agora. Porque se isso não é um terremoto artificial, eu não sei mais o que é a escala Richter. Então o problema fica reduzido ao seguinte: o PT deve ser esculachado por ter feito seus terremotos, mas a oposição não pode ser, por fazê-los.

Principalmente nesses últimos meses, tem impressionado a total inversão de valores. Chegou-se a um ponto em que tudo o que se disser do governo é necessariamente verdade. Um ACM Neto pode ameaçar bater no presidente da República, indignado com os rumores de grampo, esquecendo que é neto de um sujeito que grampeou a Bahia inteira por causa de sua amante. Agora toda a oposição é honesta, e todo o governo é ladrão.

Essa dubiedade é ainda mais interessante no caso da queda de Palocci, depois do que foi o cerco mais longo da história de todo o Ministério da Fazenda.

De todos os episódios da crise, nada me pareceu tão canalha quanto o depoimento do caseiro Francenildo Pereira. Podia-se sentir que Roberto Jefferson falava a verdade, ou parte dela. Mas tudo no caso do caseiro tem cheiro de mentira e de armação. No entanto, ainda assim as pessoas parecem acreditar que o dinheiro que apareceu em sua conta é realmente de um pai que nunca o viu, nunca assumiu a paternidade mas, num arroubo de generosidade e instinto paterno, lhe deu um bom dinheiro às vésperas de um depoimento importante. Isso nunca é questionado, porque não interessa a ninguém.

(E é impressionante a incompetência do governo no gerenciamento dessa crise. Em vez de divulgar o extrato bancário do caseiro, era melhor simplesmente pedir a sua quebra de sigilo, mostrar que ele recebeu dinheiro e depois se perguntar o que ele andou fazendo no gabinete de Antero Paes de Barros. Partia para o contra-ataque de uma forma muito mais competente.)

Eu, pelo menos, gostaria de saber quem foi o sujeito que, provavelmente numa sala esfumaçada e diante de uma garrafa semi-vazia de Logan, teve um estalo e lembrou que foi alguém igualmente humilde — e assume-se que pobre não mente –, o motorista Eriberto França, que ajudou a derrubar Collor. Poprque esse sujeito merece algum respeito, pela lembrança, pela falta de escrúpulos e por ter sido um leitor aplicado do primeiro parágrafo de “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, aquele em que, citando Hegel, Marx diz que os grandes eventos da história se repetem como farsa.

Esse, talvez, seja o papel da oposição.

Mas talvez fosse o caso de perguntar pelo destino desconhecido do “republicanismo” e da “oposição responsável” desse pessoal, tão alardeados quando não ainda tinham o que dizer do governo. A investida contra Palocci teve um objetivo único e claro: desestabilizar um governo que mesmo com toda a crise tinha conseguido crescer em aprovação pública porque, apesar das negativas da oposição, vem fazendo, sim, um governo admistrativamente e socialmente competente. Não se trata aqui da culpa ou não do PT, até porque a essa altura isso são favas contadas, mas de algo que este blog diz há muito tempo: que a oposição do PSDB/PFL nunca teve nada de “republicana”, que tudo é jogo político, interesses em um jogo pouco liso de poder.

O coração dos homens

Sempre acreditei que os homens são construídos em um momento único. Que os anos e anos de sua formação são apenas uma moldura para um único momento, o mais importante de suas vidas, em que tudo o que há nelas se cristaliza para nunca mais mudar, e então isso os conduzirá até o fim de seus dias.

De Getúlio Vargas, por exemplo, tanto já foi dito. Aquele revólver pequeno, que parece inofensivo diante de uma .40 oxidada, então, foi apenas o instrumento de uma jogada política desesperada.

Aqueles que falam isso não entendem dos homens, e em não entendendo dos homens não entendem de política, e vêem estratégias onde só há vontades, o coletivo onde só há o indivíduo. Por não entenderem dos homens partem de fatos verdadeiros para chegar a conslusões falsas, teóricos conspiracionistas onde conspiração não há, e se revelam donos de imaginações portentosas mas mecânicas.

São eles que se enganam, e olham para trás e não vêem o que há para ser visto. É por isso, por essa incapacidade de se separarem de modelos e esquemas, que eles olham para o pijama listrado estendido ali, naquela cama fora de moda em um quarto surpreendentemente modesto no Palácio das Águias, e pensam em como Getúlio armou sua morte como uma última jogada política, e louvam a genialidade do homem que redefiniu o Brasil, e lêem sete palavras — “saio da vida para entrar na história” — e não conseguem ler o que elas realmente dizem.

Se conseguissem veriam que tudo aquilo é explicado em único momento, 24 anos antes, quando um Washington Luiz deposto de todas as honras desceu aquela rua do Catete humilhado, depois de dizer que só sairia daquele mesmo Palácio das Águias morto.