Resultados do DataVão

Resultados da pesquisa do Instituto DataVão sobre as eleições no país:

Lula: 36%
Alckmin: 28%
Cristóvam: 8%
Heloísa: 4%
Nulos, brancos e indecisos: 22%

Obviamente, essa pesquisa não tem absolutamente nenhum valor científico.

Mesmo assim, há coisas interessantes nela. Nesse meio tempo mais uma pesquisa da Sensus saiu e apontou outra queda de Alckmin, ao contrário da tendência que o DataVão indica. Não acho que seja um processo a ser revertido com o início do horário eleitoral gratuito. Pelo contrário: a avalanche de dados que o Lula deve apresentar provavelmente vai fazer com que uma parte razoável dos eleitores das classes C, D e E ainda indecisos adiram a ele.

(A queda de Alckmin vai abrir espaço para a Gralha das Alagoas. Ela é a preferida dos órfãos de Lula, aqueles que se sentiram traídos pelo pragmatismo que Lula adotou quando chegou à presidência ou, depois, pelos escândalos do mensalão. Diz menos respeito às propostas dela — boa parte das quais anacrônica e impraticável — do que à atitude de crítica de esquerda.)

Pelas características deste blog, governista convicto, eu esperava mais votos em Lula e mais na Heloísa Helena. O grande número de votos em Alckmin me surpreendeu. Isso é bom. Quer dizer que o blog pode ser lulista, mas não repele os apreciadores de chuchu.

E embora o Cristovam Buarque (que segundo o Maurício Vivas é a cara do chefe do Dilbert — e ele tem razão) tenha uma candidatura que está sempre dentro da margem de erro, aqui ele aparece lá em cima.

No fim das contas, os resultados dessa pesquisa apenas provam que este, definitivamente, não é um blog sério.

A próxima edição da pesquisa será feita quando terminar o horário eleitoral.

O inimigo do meu inimigo

Uma conspiração de oficiais nazistas para assassinar Hitler no final da II Guerra já foi tema de vários filmes, e agora os conspiradores foram reconhecidos pelo primeiro-ministro Gerhard Schroeder como “patriotas“.

O reconhecimento tardio não é apenas um equívoco histórico. É também uma tentativa da Alemanha de se reconciliar a qualquer custo com a herança mais maldita que um país já carregou. Mostra que o desconforto alemão com a sua história está longe de acabar.

Esse reconhecimento passa por cima de várias questões importantes. Por uma analogia torta, tenta fazer da tentativa de golpe de Estado uma espécie de ápice da resistência alemã. Tenta fazer crer ao mundo que o nazismo, afinal, não foi a coroação de um longo processo de formação da identidade nacional, e sim a conseqüência de um putsch numa cervejaria de Munique, restrito a uns poucos alucinados. Que a culpa pelo Holocausto não é da Alemanha, mas de uma excrescência histórica específica e impossível de se repetir, antes ou depois.

Infelizmente, não houve absolutamente nada de heróico nesse complô. O que se via ali eram oficiais nazistas, participantes entusiasmados da aventura expansionista e anti-semita alemã, desesperados ante o fracasso iminente. A tentativa de golpe nem longe se assemelha, por exemplo, à atuação dos maquis franceses. Não se tratava de resistência popular ao nazismo, nem mesmo de divergências ideológicas internas. O que estava em jogo, ali, eram as peles daqueles oficiais. Mais que “patriotas”, eram políticos oportunistas que se viam encurralados, percebendo que o sonho megalomaníaco tinha acabado e que precisavam de um expediente que lhes permitisse escapar a um destino que, acertadamente, adivinhavam problemático.

Para que os conspiradores pudessem ser chamados com justiça de “patriotas” seria preciso que se insurgissem contra a base ideológica do nazismo. Seria preciso que acreditassem que o anti-semitismo foi o maior crime já cometido contra o gênero humano; e se isso for pedir demais, deveriam ao menos ter bem claro que as políticas interna e externa nazistas eram moralmente erradas, e não apenas um erro estratégico. Eles não discordavam do arcabouço moral ou ideológico do nazismo: basicamente, achavam apenas que tudo aquilo tinha sido mal conduzido. O problema de Hitler era não ter feito as coisas direito.

Há dois elementos básicos que constituem o nazismo. Um é o totalitarismo político combinado ao tradicional expansionismo teutônico; mas o que realmente o diferencia de outros regimes totalitários, como o fascismo, é o seu conteúdo anti-semita. Nisso a chata da Hannah Arendt (que criou o conceito delirante de “riqueza que não explora”) está corretíssima. A noção hedionda de que se pode estabelecer um sistema mecânico e extremamente funcional para a eliminação total de um povo cujo único crime era descender da tribo de Judá, e transformar isso em política de Estado, foi um momento único na história, e não pode ser esquecido ou minimizado com a glorificação de meros oportunistas.

Não era a Solução Final que horrorizava os conspiradores, muito menos o anti-semitismo; não era sequer a guerra que causou a morte de cerca de 60 milhões de pessoas. O que os amedrontava era a perspectiva de declínio e queda, de fim de suas carreiras. Não são mais patriotas do que Himmler tentando negociar a rendição alemã em meio ao caos de uma Berlim em ruínas, pouco antes de ser expulso do partido por Hitler.

E isso não é patriotismo. É política barata, pragmática, que qualquer vereador de cidade pequena entende e pratica. É sobrevivência. Seria preciso que se revoltassem contra a Noite dos Cristais, contra as meninas judias trancadas nos porões da Alemanha e escrevendo diários de desespero, contra os milhões morrendo na Rússia. Mas não fizeram isso; fizeram apenas o que qualquer rato faz quando o navio está afundando.

Louvar a memória de golpistas de última hora não é resgatar a dignidade alemã. É manipulação barata que visa, unicamente, maquiar a história e tornar um passado degradante algo mais palatável. A Alemanha, 60 anos depois da grande mancha em sua alma, ainda precisa desesperadamente de alguns exemplos que mostrem que o nazismo não pode ser confundido com a própria identidade nacional naquele momento.

Simplismos desse tipo ajudam a obscurecer a compreensão do mais aterrador fenômeno de massas já visto. Dão a ele uma dimensão extraodinária que o desliga do seu processo de construção. Levam o nazismo ao território dos contos de fadas, removendo-o da realidade, dos pequenos oportunismos dos Speer e Göring da vida, e o tornam tão fantástico que é apenas como se fosse um sonho maluco já esquecido.

Talvez isso possa servir de acalanto ao sentimento de honra alemã. Talvez. Se acreditam que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, talvez isso possa servir como um consolo mínimo. Mas ao fazerem isso se afastam da verdade, e o consolo não se torna sequer um analgésico. Não dá para encontrar a paz com mentiras. A dor e a vergonha vão continuar.

Originalmente publicado em 22 de julho de 2004

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A partir de hoje começa uma série de republicações do que considero os melhores posts deste blog entre julho de 2004 e julho de 2005. Enquanto isso eu vou ali, tentar ajudar a eleger um novo governador para Sergipe.

Os abacaxis de Neópolis

Um velho post sobre Neópolis continua insultando neopolitanos, como este sujeito chamado Jean Monteiro:

Caro Rafael Galvão, Você deve ter algum problema, alem do de escrever mal, talvez esteja na hora de pedir algumas lições de português para algum matuto ribeirinho, sei que é perda de tempo meu, falar com pseudo-intelectuais iguais a Você, caras que acham que o mundo gira em torno de si próprio, são incapazes de observar algo importante durante sua inútil vida, imagine numa hora, antes de escrever sobre algo, um conselho, se informe,para não escrever baboseiras. Veja por exemplo, a força da fruticultura irrigada com tecnologia de ponta(israelense) presente aqui em Neópolis, talvez o platô tenha passado despercebido a seu “olhar de lince” , o comércio local que emprega mais que a tal fábrica de juta, a qual Você se refere, a rizicultura irrigada responsável pela permanência do homem no campo, a instalação de uma unidade produtora de arroz(uma das maiores da América latina), e quanto ao Rio, caro Rafael acho que você deve ter visto uma lagoa qualquer não o Velho Chico, que continua lindo esbanjando vida. Nada contra o Rio de Janeiro , mas aqui p´ra nós, me dá uma inveja quando vejo no telejornal um tiroteio com moradores voltando pela contra mão, coisa que não acontece por aqui na matuta Neópolis, é, isso ai é um paraíso, mas pensando bem, vou continuar sendo matuto, morando aqui em Neópolis, que por sinal, não sente a sua falta.

Quanto a escrever mal, eu não posso fazer nada. Cachorro velho não aprende truque novo. Talvez, no máximo, melhore um pouco se olhar com atenção o estilo sem pontos do Jean Monteiro.

Mas ele menciona o Platô de Neópolis e uma unidade produtora de arroz. Ele não diz em seu comentário, mas a tal unidade, construída pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco, é realmente grande. Tão grande que a produção local jamais deu conta de atender às suas possibilidades, e está abandonada há cerca de três anos.

O caso do Platô de Neópolis é mais grave.

Iniciado pelo governador João Alves Filho (aquele que está construindo uma ponte ligando o nada ao lugar nenhum) no início dos anos 90, o Platô de Neópolis foi anunciado com um grande projeto de fruticultura irrigada em escala industrial.

Para isso, João Alves desapropriou dezenas de pequenos sítios que tradicionalmente produziam cocos, e também algumas poucas grandes propriedades.

O projeto era ambicioso. Segundo as promessas, ali seriam criados 12 mil empregos diretos, sem contar os milhares de empregos indiretos gerados pelo cinturão de indústrias que se instalariam na região para processar as frutas. Seria construído até um aeroporto em Neópolis, para facilitar o escoamento da produção gigantesca que então se previa, levando as frutas para a Europa e para os Estados Unidos.

E então veio a realidade.

O Platô de Neópolis foi criado apesar de vários pareceres técnicos em contrário. A região estava longe de ser indicada para um projeto de fruticultura irrigada, pelos seus altos índices de pluviosidade e por ser uma das terras mais pobres em nutrientes do Estado, além de sofer fácil salinização. É preciso muita incompetência para se investir nesse tipo de irrigação em um lugar onde, ora bolas, chove.

João Alves não terminou o Platô. Ele só seria terminado no governo seguinte, de Albano Franco. O que João Alves deixou, em 1994, foram apenas terrenos vazios, entregues ao mato, sem utilidade.

As terras do Platô foram entregues a ricos e a grupos econômicos poderosos, entre os quais Matias Machline, o falecido dono da Sharp, e o também falecido Banco Econômico. Somente a família Franco, do ex-governador Albano, tem cinco unidades de produção no Platô. Foi feita, em suma, uma reforma agrária ao contrário, tirando terras dos pobres para dar aos ricos.

O resultado foi um dos maiores fracassos econômicos da história de Sergipe.

Os cítricos, uma das estrelas do projeto em um Estado que se orgulha de ser um dos maiores produtores de laranja do país, não se adaptaram à região. Hoje, o Platô de Neópolis produz basicamente coco de má qualidade, exportado para o sul do Brasil, um pouco de acerola e abacaxi. Dos 12 mil empregos diretos prometidos, o Platô gerou, em seu melhor momento, apenas 872 empregos, volume que apenas decaiu desde então. Quanto aos empregos indiretos, esses simplesmente não apareceram, assim como as tais indústrias, que nunca se instalaram na região.

Pior: o Platô de Neópolis é hoje responsável por um dos maiores e mais indiscriminados usos de agrotóxicos no Estado. E isso está criando problemas sérios. Os trabalhadores mergulham as mudas de abacaxi nos tonéis de agrotóxicos sem nenhuma proteção, o que está, literamente, matando gente.

Esse fracasso teve custos altíssimos, mesmo com o governador aplicando um calote memorável. João Alves pagou a indenização devida a apenas 5 proprietários, e hoje o Estado tem, com os outros, uma dívida de 80 milhões de reais em precatórios.

Incluindo essa dívida com os antigos proprietários, a aventura irresponsável e incompetente do Platô de Neópolis custou aos cofres públicos 200 milhões de reais.

Há quem afirme que, hoje, o Platô produz menos do que a área produziria se ainda estivesse nas mãos de seus donos originais. E é o caso de perguntar quais os méritos que o Jean Monteiro enxerga no projeto. Não parece haver nenhum — mas pelo menos 200 milhões de deméritos. Em qualquer país civilizado, um governante responsável por tamanho desperdício de dinheiro público estaria preso. No entanto, ele hoje é candidato ao seu quarto mandato, com as mesmas promessas mirabolantes, provavelmente porque sabe que contará com um Jean Monteiro para ver competência em seus fracassos.

Mesmo em Neópolis, muita gente gosta de abacaxi.

O ocaso de um homem

De vez em quando a política adquire aquele tom de tragédia universal e homens chegam ao fim de suas carreiras de maneira patética, melancólica. É um momento que adquire proporções épicas, porque então os mecanismos da política não são suficientes para explicar os acontecimentos. Tudo se resume ao homem, ao indivíduo, e é essa dimensão que coloca a política acima de mesquinharias humanas e de quaisquer justificativas históricas.

Nos últimos meses, a grande questão política sergipana era o destino do ex-governador Albano Franco, do PSDB, homem que parecia ser o fiel da balança em uma eleição que se prometia polarizada desde o início. De um lado o governador João Alves Filho, do PFL, em busca de um quarto mandato, tendo ao seu lado a máquina do Estado e uma disposição férrea para desafiar quaisquer limites, éticos ou legais, a fim de garantir sua reeleição. Do outro o ex-prefeito de Aracaju Marcelo Déda, recém-saído de uma administração elogiadíssima e representante de um sentimento de mudança que não é tão forte há exatos 12 anos, quando um fenômeno político chamado Jackson Barreto foi candidato ao governo.

Albano Franco seria o elemento decisivo nessa eleição, e por isso foi cortejado por ambos os lados. Com ele iriam vários prefeitos, vários candidatos que poderiam representar a diferença entre a vitória e a derrota.

Depois de ir e vir durante meses, há duas semanas Albano Franco atendeu à vontade de suas bases, que queriam, em sua absoluta maioria, a adesão do PSDB ao PT de Déda. Anunciou que o PSDB não faria coligação com o PFL e que sairia sozinho, o que na prática significava uma coligação branca com Marcelo Déda. A questão parecia definida.

Mas na semana passada Albano Franco deu para trás em sua decisão, e voltou para os braços de João Alves. E se o povo costuma perdoar pequenas traições, se costuma perdoar até mesmo um certo nível crônico de falta de comprometimento, não perdoa, jamais, que se assuma um compromisso público com ele e depois volte atrás.

Foi ali que Albano Franco morreu. O enterro, no entanto, se deu na última sexta-feira, no dia das convenções partidárias. O deputado federal Bosco Costa, homem que durante toda a vida foi ligado a Albano Franco e já tinha dado provas de lealdade absoluta, como ao renunciar à sua candidatura a governador em 2002, declarou que não aceitaria o que Albano pretendia fazer. Estava abandonando a presidência estadual do PSDB e saindo do partido. A partir dali, apoiaria Marcelo Déda para governador.

Na coletiva de imprensa em que anunciou seu rompimento, Albano estava ao seu lado, chorando e olhando para o céu como em busca de uma resposta que, ele devia saber, jamais viria. Ali, naquele momento, sua carreira política chegava ao fim, pelo menos no que realmente importa: ali Albano deixava de ser um líder político fundamental. Seu poder se esvaía. Ainda deve se eleger; mas a era dos Franco em Sergipe acabou.

Junto com Bosco Costa saíram as principais lideranças do PSDB: José Teles de Mendonça, Jorge Araújo, Ulices Andrade. E assim, em uma tarde, o PSDB de Sergipe implodiu, destruiu-se sozinho. Quando a eleição terminar, vença quem vencer, haverá uma nova ordem política, e o grupo de Albano Franco passará a orbitar necessariamente em torno do novo governador de Sergipe.

O que interessa, aqui, não é uma discussão sobre os tão alardeados republicanismo e unidade ideológica do PSDB, tão fáceis no discurso oposicionista mas tão ausentes da prática política — em Sergipe, como se vê, e também no Ceará, onde Tasso Jereissati abandonou o candidato do PSDB e deverá apoiar o candidato do PSB. Não é sequer a constatação de que Marcelo Déda conseguiu, de mão beijada, tudo o que precisava de Albano Franco — suas bases e prefeituras no interior — sem precisar levar, de contrapeso, a figura controvertida e prejudicial do próprio Albano, cujos oito anos no governo de Sergipe foram marcados por denúncias de irregularidades e uma sensação de desmoralização da própria corrupção.

Albano Franco morreu politicamente por não ter a coragem de utilizar o poder que tinha em suas mãos. E poder, quando não utilizado, costuma se voltar contra os seus donos, sempre com crueldade e descaso absoluto pelos seus destinos. O poder e a história não perdoam os fracos, os covardes. Homem afável no trato, até mesmo democrático, Albano se revelou pusilânime e inepto na política. Dizem que a indecisão de Albano, homem milionário, se devia à expectativa de que alguém pagasse os custos de sua campanha — e por isso voltava aos braços generosos de João, homem que o humilhou incansavelmente, impondo condições e fazendo declarações que, em outros tempos e para outros homens, seriam motivo de duelos e tiroteios.

A mim a cena lembrou outra, de alguns anos atrás. Uma senhora, que sempre tinha caminhado ao lado de Albano Franco, vendo sua candidatura fazendo água por falta de apoio desse homem por quem tinha sacrificado sua eleição anterior, sentou na minha frente e chorou. Chorou muito, por mágoa, por desencanto. Por uma candidatura que se apresentava derrotada, mas principalmente por uma profunda decepção pela falta de lealdade de alguém a cujo lado caminhava havia 30 anos.

A visão de um homem chorando normalmente inspira pena. É inevitável não sentir dó de um rei Lear em desgraça por decisões equivocadas e pela ingratidão de suas filhas. Mas, ao mesmo tempo, é impossível ter alguma pena de Albano Franco porque, ao contrário do personagem de Shakespeare, ele só pode se queixar de ter abusado da gratidão e da lealdade de seu grupo. A diferença entre a tragédia do rei Lear e a do flébil Albano Franco é que aquele pagou pelas decisões que tomou, enquanto Albano sofre por não ter a coragem de tomá-las.

O maior sintoma dessa tibieza foi o fato de esse choro patético ter sido mostrado no telejornal local de sua própria emissora de TV, retransmissora da Rede Globo. Se um homem não consegue controlar o que é exibido em sua própria televisão, não pode querer que esperem dele pulso suficiente para controlar um partido político, ou que tenha algum controle sobre os votos de centenas de milhares de pessoas.

Foi assim, por suas próprias mãos, que Albano Franco foi enterrado na última sexta-feira. Assistindo de corpo presente e aos prantos à eulogia feita por Bosco Costa, ele não chorava pelo fim de uma amizade ou de um projeto político, e o que poderia ter sido sublime se revelava apenas patético. Albano chorava pela própria incompetência, e não teve sequer a dignidade de enfrentar sua queda com o queixo erguido. Naquele momento, faltou a um humilhado Albano Franco a capacidade exigível a qualquer um: a de ser homem.

Quando a ignorância vence

Por acaso, achei um dos primeiros textos que baixei de um BBS, há mais de dez anos: uma lista de livros banidos ou protestados nas bibliotecas americanas. Dali para uma lista mais recente, de livros banidos ou protestados este ano.

A maior parte dos livros foram atacados pelo que se entende como o típico americano médio do meio-oeste, mesmo que as cidades em que os banimentos ocorram sejam as mais diversas; mas é a mesma mentalidade, o mesmo modo de ver a vida. Os censores, ao que parece, são normalmente pessoas que pretendem proteger suas crianças — da exposição a conteúdos sexuais ou meramente profanos. Acreditam que se seu filho não ler “O Apanhador no Campo de Centeio” não vai falar palavrões. Têm a fé dos mais pios em que, se o adolescente que tem em casa não ler Gays/justice: A Study of Ethics, Society, and Law, de Richard D. Mohr, não vai virar viado, uma crença tão válida quanto achar que se sua filha ler “O Diário de Anne Frank” vai se tornar prostituta numa esquina qualquer. É assim que essas pessoas analisam as coisas.

Mas a censura a livros não é prerrogativa exclusiva da direita americana. A esquerda politicamente correta também faz das suas, banindo textos que um ou outro idiota considera racistas (“As Aventuras de Huckleberry Finn” de Mark Twain para os pretos, “O Mercador de Veneza”, do bardo, para os judeus) ou preconceituosos em relação à sociedade de modo geral. Qualquer livro que não passe uma visão ideal da sociedade fundada em Massachussets é perigoso, sempre.

No fim das contas, não é exatamente o espectro político que importa na decisão de decidir o que as pessoas devem ler. O problema é de fundo religioso e histórico: tanto a direita como a esquerda americana têm raízes profundas no puritanismo protestante, e têm em seu destino manifesto a missão de guiar a humanidade em busca de conceitos abstratos como o bem comum e a virtude.

No que depender desses zelotes, o resultado será uma sociedade construída sobre a ignorância e a negação da realidade, porque é nisso que se baseia a histeria religiosa. Por desempenharem funções públicas, acham que têm o direito de decidir o que o povo pode ou não ler. Eles têm o direito de querer proteger suas crianças do que bem entenderem; o problema começa quando querem proteger também as dos outros.

Certo, é difícil justificar que o Estado gaste dinheiro disponibilizando em suas bibliotecas, por exemplo, How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale, da atriz pornô Jenna Jameson. Não parece relevante. Ao mesmo tempo, é também difícil justificar que essa opção seja negada, a qualquer um, apenas porque um bando de egressos do culto dominical acha que as pessoas não devem ter o direito de escolher a informação que desejam receber. Se as dicas da Jenna não parecem relevantes para mim, podem parecer para alguém.

As listas de livros banidos impressionam pela diversidade temática e pela extrema suscetibilidade desses censores. No fim das contas, depois que se vê que baniram, tem-se a impressão de que o problema é mais que simples ignorância ou obtusidade. Ao banir livros, quaisquer livros, esses idiotas fazem uma apologia da ignorância e a tentam impor a um povo, negam o direito à informação a uma sociedade; não é à toa que What’s Happening to my Body? Book for Girls: A Growing-Up Guide for Parents & Daughters, de Lynda Madaras, foi banido recentemente.

Julgando-se pela reação causada, o livro disfarçado de educação sexual deve deixar a Adelaide Carraro se achando uma santa. Quase igual a essa gente que, graças aos seus preconceitos, tenta fazer com que se volte à Idade Média. Aqueles bons tempos em que o mundo era simples e a ressurreição no Senhor era o melhor a que se podia aspirar.

Anti-semitismos

Senhor Rafael Galvão.
O senhor desconhece inteiramente a história do povo judaico e ousa ofender-lhe, com que direito o faz? Exijo que respeite a dor, o sofrimento deste povo que foi e continua sendo perseguido por pessoas como o senhor que tece comentários inverídicos, com que intenção? Quem é o senhor para falar do povo judaico, com que conhecimento de causa, não sabe nada. Que prove o que menciona em suas palavras maldosas para com o povo judaico!
Carlos Olguin Naschpitz

Eu não sei exatamente o que o sujeito, em seu comentário a este post, quer que eu prove. Se ele está falando das leis israelenses a que me referi, referências a elas podem ser encontradas nos jornais de agosto de 2003. Se se refere ao que chamo de crimes de Israel, os mesmos jornais trazem notícias sobre isso quase toda semana — mas Naschpitz pode achar que todos eles fazem parte de uma grande conspiração anti-sionista. Descontando-se a indignação tão dolorida de Naschpitz — com direito a ponto de exclamação no final –, seu comentário é vazio, choroso, sem substância.

(Naschpitz não está sozinho. No comentário anterior, Marília Julião Mendonça dá carteirada de “professora universitária de história” para dizer que não existem as tais leis israelenses a que me referi. Eu não queria ser seu aluno, porque ela é ignorante e não lê jornais. Também diz que um casamento entre judeu e alemão rebaixava o alemão de categoria em vez de proteger o judeu da barbárie hitlerista, o que mostra que ela tampouco sabe alguma coisa sobre a Alemanha nazista. Finalmente, tenta justificar quaisquer atitudes israelenses recorrendo ao cativeiro egípcio dos tempos de Moisés, e então vem uma vontade grande de dar um tapinha na sua cabeça, enfiar um pirulito em sua boca e mandá-la brincar na gangorra, tomando cuidado para não sujar o vestido.)

O comentário do Naschpitz apenas reforça a idéia por trás do post: a de que a acusação de anti-semitismo é sempre uma pecha quase sempre irresistivelmente fácil de jogar sobre quem não concorda incondicionalmente com uma imagem fácil e tendenciosa da problemática israelense-palestina.

O mais interessante — e aqui se saindo um pouco do tema do post original — é que não existe apenas “um” anti-semitismo. Posso contar pelo menos dois. Um deles, o ocidental, tem raízes em uma necessidade teológica do cristianismo. Se o judaísmo se negou a ver em Jesus Cristo o seu Messias, como havia sido profetizado, então ele precisava estar completamente errado para que a alegação de divindade de Jesus, no cristianismo primitivo, se legitimasse. Jesus tinha que ser Deus, e convenhamos que é preciso ser muito malvado para matar o Dito (Nietzsche tentou e acabou discutindo filosofia com os cavalos de Weimar). O cristianismo forçou uma identificação dos judeus com o Mal para garantir sua sobrevivência, e esse parricídio teológico é essa a origem de dois mil anos de perseguições e preconceito. Foi esse tipo de anti-semitismo que desembocou no Holocausto nazista e que se mostra latente ainda hoje. É talvez o tipo mais pernicioso, e certamente o que deu resultados mais tenebrosos.

Mas há outro tipo de anti-semitismo, com origens diferentes e muito mais complexas. O anti-semitismo que se fortalece no Oriente Médio, ao contrário do ocidental, tem bases bastante sólidas em uma longa história de guerras e agressões mútuas. E hoje é um processo que se desenrola tendo como elemento central um país que, sob a justificativa de seu povo ter sofrido o pão que o diabo amassou no Holocausto e ter sido atacado por vários países muçulmanos após sua fundação, oprime a Palestina de uma forma que, em muitos momentos, lembra a Alemanha nazista dos anos 30.

São situações diferentes, e que não estão necessariamente ligadas. No entanto, de acordo com raciocínios como o de Naschpitz, é tudo a mesma coisa: trata-se um mundo inteiro odiando os judeus a partir do momento em que levanta algum senão. Por sorte, esse não é o raciocínio — ou falta de — da maior parte dos judeus do mundo.

Por mais que os judeus tenham sofrido, por mais que tenham sido perseguidos, nada justifica a afirmação de Golda Meir: “Depois do que fizeram conosco, podemos tudo”. Não, não podem. Quem podia tudo eram os nazistas, e não se pode esquecer isso. Além disso, não se pode esquecer que há um momento-chave na geopolítica daquela região, a Guerra do Líbano: a partir dali, Israel passou a ser um país agressor. Isso faz toda a diferença.

É um equívoco muito grave esse tipo de esforço de santificação judaica, como se fosse um povo moralmente acima de todos outros. Primeiro porque não encontra bases na história — o Naschpitz deveria se informar sobre a participação importantíssima de judeus e cristãos-novos no tráfico negreiro para o Brasil, por exemplo, e depois discutir o que parece ser seu conceito de “ética por direito divino”. Há bons e maus judeus como há bons e maus cristãos, muçulmanos e macumbeiros, e ao longo da história a perseguição execrável ao judaísmo não impediu o progresso material de muitos indivíduos, mesmo quando de maneira eticamente discutível. Naschpitz poderia tentar descobrir o que eram os comboeiros nas Minas Gerais do século XVII, por exemplo.

Mas o pior aspecto em tudo isso é o incentivo a uma idéia de diferença irreconciliável entre “raças” que, em momentos históricos específicos, pode gerar resultados inversos e resultar, se não no Holocausto, na repetição das condições objetivas que o geraram. E é isso que esse pessoal, cegos guiados apenas pela promessa de Deus a Moisés, não consegue enxergar.

Obituário para Geraldo Alckmin

Geraldo Alckmin foi escolhido candidato a presidente pelo PSDB porque eles não achavam ser realmente possível vencer esta eleição. Outros com mais cacife, como Aécio Neves ou mesmo José Serra, não queriam se desgastar desnecessariamente, o que se mostrou, claro, uma estratégia acertada — Serra deve ser o próximo governador de São Paulo e Aécio não sai do governo de Minas Gerais. Sábios, eles acreditam que mais vale um governo na mão que uma presidência voando. O negócio parecia bom também para Alckmin, uma forma de se projetar nacionalmente e deixar de ser um picolé de chuchu diet.

Só que ninguém esperava por uma tragédia como a de ontem, com a divulgação da pesquisa eleitoral do CNT/Sensus.

Sempre achei que Alckmin era o melhor candidato para enfrentar Lula. Não tinha o patrimônio de votos de Serra, e era um sujeito que historicamente não parecia mais que um simples apêndice direitista de um grande homem, Mário Covas. Não oferecia grandes obstáculos para Lula, em princípio. Alckmin se candidataria, receberia os votos das viúvas de Fernando Henrique e dos que não votam em Lula de jeito algum, e sairia razoavelmente bem na fita sem atrapalhar o desfile petista.

Mas havia, claro, o outro lado, favorável para o PSDB. Desconhecido, Alckmin tinha índices de rejeição irrisórios. Ou seja, ele só parecia ter um caminho a seguir, e era para cima. O que parecia ser uma fraqueza podia ser, também, uma vantagem.

Até ontem.

O que mais impressiona na pesquisa do CNT/Sensus não são os números, previsíveis – e até razoáveis para um candidato como Alckmin, responsável direto pelo caos em São Paulo. É o crescimento estonteante dos seus índices de rejeição. Com mais de 40% de pessoas que não votariam nele de jeito nenhum, Alckmin é um exemplar raro: o candidato que ninguém conhece e de quem ninguém gosta.

Ainda é muito cedo para afirmar algo assim categoricamente, mas tudo indica que a partir de 2007 Lula continuará sendo o presidente do Brasil. Com Garotinho finalmente descendo pela latrina da política nacional e a Gralha das Alagoas com índices de rejeição acima de 50% coroando o imutável discurso raivoso – indignado – autista – sem – uma – proposta – decente, o único adversário a ser considerado era Alckmin. Não é mais. Alckmin morreu.

A situação pode mudar, claro. Em política, e em campanha, tudo é possível. Por exemplo, algo pode aparecer para vincular Lula de maneira inegável aos escândalos do mensalão, a grande esperança do PSDB/PFL. É um sonho desesperado, no entanto: além de ser algo altamente improvável, há também uma grande possibilidade de que uma situação hipotética dessas mudasse muito pouco na situação de Lula, que vem sendo bombardeado há exatamente um ano e que, apesar de tudo isso, continua subindo nas pesquisas.

Alckmin morreu e uma campanha nessas condições só vê as coisas piorarem. É sempre uma situação melancólica. A militância perde o ânimo e briga entre si para descobrir de quem, afinal é a culpa. Nos Estados os aliados, quando simplesmente não mudam de lado, passam a se preocupar mais com suas próprias campanhas. Ninguém quer carregar a alça do caixão de uma candidatura defunta, como o próprio PSDB do Ceará fez em 2002 ao tentar vincular a Lula o seu candidato ao governo estadual, Lucio Alcântara, esvaziando assim a de Zé Ayrton, candidato do PT. Nessas horas soturnas, o candidato que um dia acreditou poder envergar a faixa presidencial é deixado sozinho na chuva e no escuro.

Embora seja também improvável, não seria uma surpresa se, numa medida desesperada e a essa altura contraproducente, o PSDB rifasse a candidatura de Alckmin em prol de alguém com um pouco mais de chances, ainda que imaginárias. Fariam como o PFL em 1989, quando tentaram se livrar de um peso morto chamado Aureliano Chaves e embarcaram, por uns poucos dias, numa candidatura absolutamente surrealista.

Nesse caso, Alckmin deveria ter cuidado. Sílvio Santos vem aí. E se não vier, seu destino não deve ser muito melhor.

Uns dois comentários sobre o post de ontem

O André Pessoa e o Edson (cujo comentário é excelente e vale a pena ser lido) discordaram do jeito como me referi às visitas íntimas.

Bem, é assim que funcionam boa parte das delas na maioria, se não em todas, das penitenciárias brasileiras: uma prostituta se cadastra para fazer visitas um preso. Assim, ela tem direito a entrar na penitenciária livremente e ganhar o seu dinheiro suado nos dias de visita com os outros presos. A penitenciária, então, não fica a dever nada à Praça Mauá.

Então até podemos admitir que a visita íntima diminui o número de estupros dentro da prisão. Mas é ingenuidade achar que acaba com eles, porque o estupro é, principalmente, um instrumento de poder, como qualquer feminista sabe. Achar que um sujeito vai deixar de estuprar outro apenas porque pode pegar uma prostituta no fim de semana é não conhecer a realidade das penitenciárias.

A questão é que, em nome de um direito que pode ser considerado duvidoso, permite-se que um aspecto do que se entende por autoridade seja esgarçado. Eu não disse que a visita íntima, principalmente da maneira como ocorre no Brasil, é responsável por essa crise. Mas tem relação, sim, com a falência do sistema prisional, porque os limites ficam mais tênues. É mais um sintoma de um modelo frouxo e incompetente, que contrabalança permissividade com excesso de violência, provavelmente a combinação mais perniciosa possível.

Longe de endossar posições como as dos protofascistas identificados pelo Edson, é preciso também admitir que há um nível mínimo de autoridade e repressão que deve ser atendido. Mas essa é uma discussão mais longa e, em qualquer regime democrático, mais complexa.

Um aspecto que eu achei interessante na blogoseira é que há uma tendência grande a se bater na polícia. Disseram que a ela estava matando presos com tiros na rosto para dificultar a identificação. É interessante, mas quem conhece um pouquinho de armas sabe que isso só é possível com tiro de calibre 12.

Outra coisa: a entrevista do Ferréz que circulou na Internet e foi publicada em vários jornais Brasil afora me lembra um aspecto delicado: de repente tem-se a impressão de que a polícia, em sua reação ou vingança, seja o que for, só matou inocentes. E, sem querer tirar nenhuma conclusão ou iniciar nenhum debate, eu já ando meio de saco cheio ao ver associações de favelados sempre reclamando da polícia e nunca dos traficantes, ou mães chorando a morte de seus filhos trabalhadores e nunca uma mãe admitindo que seu filho é traficante mas que nem por isso merecia ser morto.

E a Carol e uma moça chamada Jaque — esta, por sinal, muito revoltada — me acusaram de partidarismo. Descobriram a pólvora, um segredo que eu tentava esconder a todo custo: o de que este blog é assumidamente governista, embora eu nunca tenha sido petista nem tampouco funcionário do PT. Felizmente, não viram a foto do meu perfil no Orkut. Mas o problema, eu gostaria de lembrar, não é o fato de eu não ter um pingo de imparcialidade neste corpinho que faz a delícia do sexo feminino. O problema é mostrar que eu estou errado ou mentindo, coisa que não fizeram.

E antes que eu me esqueça. A culpa pela situação em São Paulo continua sendo do Alckmin.