Manifesto em Defesa das Baratas ou A Barata é Nossa Amiga

Todos os seres vivos são iguais perante o Criador. Todos temos o direito de viver, e isso inclui até astrólogos de Maria e pseudo-feministas de caixas de comentários.

É em estrita observância a esses direitos universais, e ao reconhecimento de uma nova moral ecológica, que anunciamos aqui a fundação da ARPAB – Associação Rafaeliana de Proteção às Baratas.

As baratas estão neste planeta desde milhões de anos antes de nós. Estarão aqui depois que o último homem der seu último suspiro em meio a uma nuvem radioativa. Este é o seu mundo, um mundo em que somos apenas hóspedes temporários. Nós não temos, em nossa nova consciência ecológica, o direito de usurpá-lo de suas donas legítimas.

Devemos, antes de qualquer coisa, reconhecer sua superioridade absoluta em relação a nós. Quantos milhões de baratas são mortas todos os dias? Matam-se mais baratas em um dia do que rinocerontes em toda a História. E no entanto elas sobrevivem graças à sua tenacidade, enquanto nós, seres conscientes, agora lutamos para preservar os rinocerontes.

Devemos declarar guerra às baratas porque elas trazem doenças? Hipocrisia desses humanos inconseqüentes. Acaso não trouxemos nós tantas doenças ao Novo Mundo, acaso não extinguimos populações inteiras de silvícolas bonitinhos, e tantas índias ecologicamente conscientes não deixaram de dar de mamar a cachorrinhos inocentes? E não pensamos em nos suicidar coletivamente como lemingues para expiar um pecado que todos nós carregamos em nossas almas. Em verdade, em verdade a culpa é nossa, que em vez de nos adaptarmos à convivência pacífica nos dedicamos a combatê-las com ódio irracional.

Como podemos erguer nossas vozes que se pretendem civilizadas em defesa do tratamento ético dos animais, enquanto tratamos nossas irmãs blatáricas de maneira vil e covarde? Baratas têm sentimentos como as chinchilas, têm instintos como as focas, querem viver como a Susan Hayward. E no entanto as assassinamos aos milhões todos os dias, e não fosse a sua superioridade biológica acabaríamos responsáveis por um grande desastre ambiental, interrompendo a cadeia alimentar.

Mas desastre ambiental não é o ponto fundamental, aqui, porque esse é um conceito antropocêntrico e precisamos abdicar dessa arrogância deletéria, essa coisa de nos acharmos os reis da Criação e da cocada preta. O que realmente importa é o respeito à mãe Gaia, é a consciência telúrica de um equilíbrio cósmico. Há que se respeitar o direito das baratas à vida. É inconcebível que não sintamos a dor da pobre baratinha atingida à traição por um jato de Baygon, que nosso coração não se confranja enquanto ela, como um monge tibetano em chamas, corre sem direção em agonia e dor inimagináveis, chamando pela mamãe barata antes de morrer com as perninhas tremelicantes para cima. Que monstro é capaz de cometer tamanha iniqüidade sem derramar uma lágrima furtiva pelo trágico destino de nossa irmã? Como esses assassinos conseguem dormir à noite com a mancha do genocídio em suas mãos?

Uma barata tem o mesmo direito à vida que um leão, que uma vaca, que o Afanásio Jazadji.

A ARPAB vai se dedicar a campanhas educativas pela tolerância entre homens e baratas; à defesa da ilegalidade de drogas pesadas como Detefon, SBP e Rodox; à censura e banimento de filmes depreciativos e preconceituosos como Men in Black. Vamos fazer o Viva Rio abraçar o rio Maracanã e os tantos terrenos baldios espalhados pela cidade.

A ARPAB se dedicará também a reformar o nosso vocabulário. Nossos antecessores, tão íntegros e inteligentes como nós, mostraram que isso é possível, e agora anão é verticalmente prejudicado e puta é trabalhadora do sexo; vamos estender agora tal maravilha ao mundo das baratas — e vamos além, porque se anões continuam pequenos e putas continuam batendo calçada apesar dos nomes que lhes damos, nunca mais se ouvirá a expressão “sangue de barata”. Pois como podem associar covardia às baratas, esses animais valorosos que todos os dias se arriscam em incursões à casa de seus inimigos, e desafiando a morte e o perigo comem de sua comida? Baratas são sinônimo de coragem, e nossa ação em defesa do politicamente correto restabelecerá a verdade universal.

Aplaudamos, portanto, a chegada da nova consciência da Era de Aquário. Reconheçamos, finalmente, que a partir do momento em que julgamos errado criar chinchilas por suas peles, também se torna errado matar uma pobre barata que tem filhos para criar e um importante papel a cumprir na natureza. Nós, humanos, não somos melhores ou superiores a qualquer animal. É fundamental deixarmos de lado a hipocrisia e a conveniência, e adotarmos uma postura moral digna e, principalmente, coerente.

Um viva às baratas que merecem o nosso amor.

Ecologia e hipocrisia

Dia desses, assistindo a um programa sobre criação comercial de chinchilas na TV Senai, apareceu uma senhora de uma dessas ONGs dizendo que suas objeções à atividade, cujo fim é a produção de peles, eram morais. Acrescentou que era diferente da criação de gado, à qual implicitamente aferia um nihil obstat.

E aí eu me confundi. Venho tentando desde então, mas ainda não consegui ver a diferença moral entre matar uma vaca ou matar uma chinchila. Ambos são seres vivos e nenhum deles gostaria de morrer.

É compreensível e louvável que protestem contra o assassinato de filhotes de foca ou baleias. É perfeitamente justificável a consciência da necessidade de respeito ao equilíbrio ecológico e à vida selvagem; nem tanto pelos animais ou plantas, mas pela sobrevivência humana. Mas quando se trata de criação comercial, uma atividade iniciada e controlada pelo homem, há mesmo alguma diferença entre vacas, chinchilas e jacarés? Eu não consigo ver nenhuma, além do fato de que chinchilas são bichinhos fofinhos e vacas têm olhares bovinos e babam — o que, numa interpretação freudiana bem liberal, fornece a justificativa para a condescendência desses ecologistas: elas lhes lembram suas imagens no espelho e portanto é OK matar as pobrezinhas. Uma espécie de masoquismo projetado.

Se criamos bichos para o matadouro, que diferença faz se vamos aproveitar sua carne ou sua pele? Garanto que para o bicho diante do cutelo não faz nenhuma diferença. Parece sensato afirmar que a esses limites morais são justificados pela necessidade humana. Mas ninguém, por exemplo, precisa comer carne. Ela fornece proteína? Soja também. Entupa-se de soja, portanto. Carne de soja. Leite de soja. Queijo de soja. Os Rolling Stones bebem leite de soja, por que não os mortais comuns? De fato, as pessoas podem passar suas vidas inteiras comendo apenas soja. Não há necessidade objetiva de carne, assim como não há de casacos de pele.

Mas coerência não é atributo desses ecologistas radicais, baseados em distorções pseudo-humanistas que acabam adquirindo os contornos de uma religião neo-pagã e materialista.

Para eles é eticamente aceitável matar uma vaca, mas não uma chinchila. Esse pessoal, com sua moral fácil e hipócrita de classe média urbana, não percebe sequer que o manejo de uma vaca é muito mais cruel e desumano que o de uma chinchila.

Imaginai-vos, dileta leitora, tendo vossas mamas apertadas duas vezes por dia. E não vos alegrai pensando que é o toque macio ou a mordida apaixonada do vosso amante: são as mãos ásperas e rudes de um vaqueiro desempenhando sem delicadeza uma tarefa automática. Isso, claro, se tiverdes a sorte de ser escolhida para a produção de leite tipo C; porque se quiserem tirar leite A de vossos úberes, ah, minha nega, então enfiarão vossas tetas em uns aspiradores implacáveis sem nenhum sentimento. E, por favor, não deixeis que eu vos fale de inseminação artificial. É pior, mil vezes pior que a posição humilhante que assumis diante de vosso ginecologista. Voltai ao carinho de vosso amante, e hoje à noite, aninhada em seus braços, não deixeis que um calafrio percorra vosso corpo ao lembrar-vos do pobre canal vaginal da vaca diante do aplicador comprido com o sêmem do touro; nem do reto, mais pobre ainda, diante do muito longo braço do tratador, que guiará o aplicador até o útero da vaca e, caso necessário, desobstruirá seus intestinos. Esquecei tudo isso e tomai um leitinho.

É graças a esse relativismo moral que eu só confio em ecologistas vegetarianos. Por enquanto. Porque quando descobrirem que o príncipe Charles tem razão e as plantas têm sentimentos, eu só vou confiar em ecologistas mortos de fome.

E por tudo isso um dos meus sonhos é comprar um casaco de peles, mesmo achando-os terrivelmente cafonas, apenas para desfilar diante desses ativistas que ficam jogando tinta nos outros. Estaria, claro, devidamente acompanhado de uns quatro guarda-costas de excelente porte e péssima índole, apenas para vê-los dando um cacete nos idiotas quando emporcalhassem meu casaco. Se esse tipo de ativismo é a nova religião, está mais do que na hora de lhes dar um mártir.

Aos homens de pouca fé

O deputado João Fontes foi eleito pelo PT, foi expulso em 2003 junto com Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro e fundou o P-SOL. No entanto, preocupado com o fato de o novo partido não lhe garantir legenda para a reeleição em 2006, passou para o PDT — embora em entrevista recente Heloísa Helena tenha se referido a Fontes como militante do P-SOL.

Agora João Fontes está processando o jornalista sergipano Luiz Eduardo Costa, por causa desse artigo:

JOÃO FONTES VOA, É A HORA DAS MARIPOSAS

As grandes crises políticas como essa que atravessamos, trazendo à luz as mais horripilantes e pustulentas feridas morais da Nação, podem se transformar no momento propício no esvoaçar das mariposas. Aquela luz à qual metaforicamente aludimos, nessa era midiática em que vivemos, se confunde com a luz real, ofuscante, dos holofotes e dos flashes. Através do avassalador processo da comunicação de massa, as crises ganham repercussão, se agigantam, dominam as conversas, transformam-se no grande e quase exclusivo assunto nacional. Cenário perfeito, luminoso, atraente, para o voejar das mariposas, aquelas criaturas ególatras, que precisam aparecer, dardejar em torno das luzes, sem ligar para o risco iminente das queimaduras, fatídica interrupção do borboletear desvairado.
O desatino verbal, a ânsia de estar sob os holofotes, fazem do deputado João Fontes uma dessas trêfegas mariposas que se lançam frenéticas em direção à exposição das luzes, ao instante de glória luminosa que logo se esvai em cinzas.
O deputado João Mariposa fez da busca dos holofotes o frenesi da torturada existência, a razão única da sua desarrazoada trajetória política.
Para João Mariposa, a meta única, exclusiva, são os holofotes, os flashes, agora mais do que nunca acompanhando a cena política.
Para João Mariposa não existem códigos morais, preceitos éticos, normas de comportamento, regras de civilidade, até mesmo as mínimas noções de elegância ou decência pessoal, que ele não venha a transgredir, a espezinhar, porque tudo desaparece tragado pela avidez enorme do seu desmesurado ego.
João Fontes realiza o seu destino de mariposa, não importa que tenha caluniado, agredido, levianamente acusado, desrespeitado, ultrapassado os limites da dignidade, do respeito humano e do bom senso. O João Mariposa dardeja feliz, realizado, sob as luzes da exposição pública, e isso para ele justifica tudo.
Esse comportamento trêfego faz de João Mariposa, em primeiro lugar, um inconseqüente, e em segundo um hipócrita.
Sabem quanto o João, mariposa moralista que almeja ser exemplo de ética, declarou como gastos de campanha ao TER? Magérrimos quarenta mil reais. Lembram da campanha suntuosa que ele fez?
João, o mariposa, saía das reuniões dos idealistas que compõem o CONAL, o conselho de leigos da Igreja Católica, e ia comprar votos, fazer exatamente aquilo que dizia condenar.
A campanha eleitoral de João, que lhe rendeu escassos 28 mil votos, (foi o menos votado, elegendo-se na esteira dos votos de Heleno Silva e Jackson Barreto, que formaram expressiva legenda) não custou, segundo observadores, menos de um milhão de reais.
Onde ele conseguiu o dinheiro? Quem o financiou?
Mesmo com toda a desfaçatez, toda a hipocrisia do mundo, ninguém acreditará se João disser que gastou apenas quarenta mil reais, ou que tirou um milhão do próprio bolso.
As dobradinhas que João Fontes fez com candidatos a deputado estadual em Laranjeiras, Aquidabã, Itabaiana e em Capela, onde exorbitou em gastos, não foram concretizadas apenas com base em simpatias mútuas.
A hipocrisia fica evidente, o moralismo se transforma em mero disfarce para iludir bem intencionadas e desavisadas pessoas.
O jornalista e digno integrante do CONAL, Rosalvo Nogueira, um dos cabos eleitorais mais entusiasmados de João Fontes, se declara agora decepcionado, indignado mesmo, com o João Mariposa.
Num momento equivocado o honrado senador Valadares, então governador de Sergipe, fez João Fontes presidente da ENERGIPE, talvez como homenagem ao seu pai, o honrado e exemplar homem público Benjamin Fontes, que fora antes eficiente presidente da estatal.
Quem se dedicar ao trabalho de remexer os relatórios do DENAE, órgão que controlava as estatais de energia e de água, verificará que a gestão de João Fontes foi temerária, desastrada e irresponsável. Com a idéia fixa de ser candidato a Prefeito de Aracaju, ele fez da ENERGIPE um comitê eleitoral. Elevou desmesuradamente a folha de pagamentos da empresa, nomeou gente em excesso, inverteu prioridades, e enquanto Aracaju estava sob ameaça de blecaute por falta de sub-estações, dedicou-se ao projeto desnecessário e megalomaníaco da construção do suntuoso Palácio das Luzes, idéia desatinada que o governador Valadares logo mandou arquivar. A ENERGIPE tornou-se, segundo os relatórios, uma empresa pouco confiável, que perdeu créditos e investimentos, até ser recuperada nas gestões que se sucederam.
Era João Fontes ensaiando o bater de asas, e transformando-se no João Mariposa.

São óbvios os pontos sobre os quais o processo de João Fontes foi construído. Mas depois de ler esse artigo, cheguei à conclusão que o problema de Luiz Eduardo Costa é falta de fé.

Ele não acredita — assim como a maioria do povo sergipano — que o deputado tenha sido eleito depois de uma campanha de apenas 10 mil dólares. As pessoas sabem que uma eleição para deputado federal custa mais que isso, em condições normais. A eleição de João Fontes é um caso único no mundo, e por isso pessoas materialistas como Luiz eduardo Costa não conseguem ver o que há de divino em tudo isso.

Se ele prestasse atenção, veria que — ainda mais lembrando-se que foi um candidato apoiado pela Igreja — João Fontes está no lugar errado: seu lugar é o panteão de santos da Igreja Católica, e não um ninho de cobras venais como o Congresso Nacional.

Porque ele nada mais deve ter feito do que a multiplicação dos peixes.

Aqui se faz, ali se paga

Um amigo, Luiz Eduardo, descobriu por que Ariel Sharon se recusa a morrer e enfrenta, com uma coragem espantosa, os seus infortúnios.

É que ele, quando chegar ao sétimo círculo do Inferno, vai encontrar um bocado de terroristas palestinos esperando um ansiosamente aguardado acerto de contas.

Do nada ao lugar nenhum

A manchete de ontem do Jornal da Cidade, o maior de Sergipe, diz o seguinte:

Senadores acusam governo Lula de perseguir Sergipe

O líder do PFL no Senado, José Agripino Maia, usou ontem a tribuna para acusar o governo Lula de perseguir Sergipe. “Se a situação do empréstimo que o governo do Estado está pleiteando junto ao BNDES não for resolvida em uma semana, em nome do PFL saberei reagir à altura contra essa perseguição política”. Segundo Agripino, a discriminação está relacionada ao fato de Sergipe ser administrado por um governador pefelista. Outros senadores se solidarizaram com José Agripino e com Sergipe. O presidente Renan Calheiros disse que cabe ao Senado defender a federação e os interesses dos Estados.

A notícia completa pode ser lida aqui.

Há algo muito esquisito quando senadores de um Estado defendem tão altruisticamente outro. É tão incomum quanto ver um parlamentar recusar a aposentadoria a que tem direito depois de dois mandatos. Mas o altruísmo de Agripino tem razões simples.

O empréstimo em questão é para a construção de uma ponte ligando Aracaju a Barra dos Coqueiros, do outro lado do rio Sergipe. São quase 200 milhões de reais. Ela já é conhecida como “a ponte que liga o nada ao lugar nenhum”. Não há necessidade real de sua construção, porque Aracaju não tem nada a oferecer à Barra dos Coqueiros, e vice-versa.

Quando o governador João Alves Filho anunciou a construção da ponte, garantiu que ela seria construída com recursos próprios. Era uma forma de se livrar da saraivada de críticas que vinha recebendo por apresentar um projeto tão esdrúxulo, tão desnecessário. A princípio não se acreditou na bravata, porque João Alves sempre faz esse tipo de promessa. Uma das mais curiosas foi o anúncio de uma fábrica de catchup de goiaba — seja lá o que isso for — a ser construída no alto sertão sergipano. Ele justificou a promessa lembrando que às vezes o jovem sertanejo não tem catchup para comer no seu hambúrguer. Deve ser verdade. O problema é que normalmente, além do catchup, ele não tem hambúrguer e nem sequer farinha para comer.

Ainda assim, se algum dia sair do papel, a fábrica tem tudo para ser um sucesso — assim que alguém encontrar uma mísera goiabeira no sertão, o que até agora, em toda a história do Brasil, ninguém conseguiu.

Enquanto isso o governador tem feito uma série de viagens internacionais, segundo ele para prospectar investimentos estrangeiros. Até agora nenhum dinheiro apareceu, mas as viagens constantes para lugares como Paris têm feito a alegria de sua entourage, composta inclusive por colunistas sociais — que, como se sabe, são fundamentais em uma negociação econômica.

Quando viu que a ponte realmente ia sair do papel, a oposição sugeriu que se chamasse Zé Peixe, em homenagem a um antigo prático que conhecia como ninguém a barra do rio, extremamente perigosa, e que virou personagem folclórico. Nada mais justo. Ela, no entanto, vai se chamar Construtor João Alves, pai do governador e meu ídolo pessoal, pelo seu singelo apelido de João Pica d’Aço e por ainda mais singelas aventuras com o sexo oposto. É essa a maneira como se faz política em Sergipe, não muito diferente — se diferença há — do modo como se faz política em todo o Brasil.

A promessa auto-suficiente de João Alves não se comprovou, e provavelmente nunca esteve em seus planos. Agora ele faz algo relativamente comum: tenta fazer com que a União pague pelos seus delírios megalomaníacos.

A primeira tentativa de chantagem do governo de Sergipe foi através do então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, com quem o governador sempre teve boas relações. A ponte entrou na pauta das negociações da forma mais simples: ou o empréstimo saía ou matérias de interesse do governo não seriam aprovadas. O governo, refém de uma crise que se estende até hoje mas que era então muito mais grave, chegou a anunciar que o empréstimo ia sair. No meio tempo, entretanto, Severino caiu e o poder de fogo de João Alves foi reduzido a quase nada. Agora ele volta a disparar sua baterias, e de maneira mais organizada por fazer parte de um jogo institucionalmente mais legítimo.

Essa é a oposição ao governo Lula, ou pelo menos parte dela. É capaz de jogar todo o seu peso para a aprovação de uma medida desnecessária e lesiva aos cofres públicos. A ponte é apenas mais uma obra faraônica, feita para reforçar o nome de João Alves e, segundo boatos, garantir recursos para a campanha do ano que vem, quando ele enfrentará uma campanha extremamente difícil. É também uma obra burra: isso poderia ser feito com obras mais relevantes e necessárias, como por exemplo uma ponte ligando Sergipe à Linha Verde, o que aumentaria o turismo proveniente da Bahia. Ou na recuperação das rodovias estaduais, abandonadas de maneira criminosa.

O episódio representa muito mais que uma questão local. É essa oposição que, ano que vem e ao lado do PSDB, vai apresentar uma alternativa a Lula, e que ultimamente andou tomando as cores da moralidade — cores que não combinam com o verde e amarelo do PFL, a propósito — e passou a representar uma antítese ética do governo Lula para uma parcela meio ingênua do eleitorado. Essa oposição, na verdade, nunca agiu de forma diferente. E em meio à derrocada moral que atingiu o governo, aqueles desiludidos pelas quebras de promessas do PT se voltam para uma tábua de salvação que, na verdade, nunca existiu.

Deus, fumante de havanas

A Brigada Humphrey Bogart acaba de decidir, em assembléia democrática da qual só participou o seu presidente, o seu hino oficial.

O hino não poderia ter sido feito por outra pessoa que não Serge Gainsbourg. Ele morreu em 1991, depois de uma vida de devoção à música, ao escândalo, à bebida e a mulheres como Brigitte Bardot e Jane Birkin.

E, claro, aos Gitanes.

Foram os Gitanes que o mataram em um ataque cardíaco, aos 63 anos, tendo apenas um terço do fígado — embora isso tenha sido culpa do álcool, ao qual ele também se manteve fiel até o fim. Ainda mais que a birita, foram os Gitanes que fizeram parte indissociável da sua imagem de gênio que seria maldito, se não fosse tão popular.

Gainsbourg se torna um ídolo ainda maior quando lembramos que aqueles cigarros — aos quais ele se referia no feminino, como um amante consciencioso — são mata-ratos muito piores que Derby. Eu, que sempre fumei muito, fiquei um ano inteiro com um maço de Gitanes na gaveta.

Um dia, quando a Brigada Humphrey Bogart finalmente erigir sua estátua, vai imortalizá-lo montando uma loura sexy, cabelos longos à guisa de rédeas, ajoelhada com os dois braços levantados, porque Serge Gainsbourg foi um herói que morreu em batalha. A mão que segura os cabelos da loura segura também um Gitane, com aquele jeito francês que tenta traduzir em gestos o spleen baudelaireano; a outra erguerá bem alto uma garrafa, em celebração à boa vida. No pedestal, a letra brilhante de Je T’Aime, Moi Non Plus.

Por isso o nosso hino é uma canção de Gainsbourg cantada em dueto com Catherine Deneuve, e que eleva o tabaco e aquele alcalóide chamado nicotina a uma condição quase divina.

Dieu fumeur de havanes

Dieu est un fumeur de havanes
Je vois ses nuages gris
Je sais qu’il fûme même la nuit
Comme moi, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Je vois tes volutes bleues
Me faire parfois venir les larmes aux yeux
Tu es mon maître après Dieu

Dieu est un fumeur de havanes
C’est lui-même qui m’a dit
Que la fumée envoie au paradis
Je le sais, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Sans elles tu es malheureux
Au clair de la lune ouvre tes yeux
Pour l’amour de Dieu

Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J’aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond des mes yeux
Aime-moi, nom de Dieu

Dieu est un fumeur de havanes
Tout près de toi loin de lui
J’aimerais te garder toute ma vie
Comprends-moi, ma chérie

Tu n’es qu’un fumeur de gitanes
Et la dernière je veux
La voir briller au fond des mes yeux
Aime-moi, nom de Dieu

Auto de São Francisco

Talvez alguém possa me explicar a palhaçada que o bispo de Barras, Dom Luiz Cappio, está fazendo ao inventar uma greve de fome contra a transposição do São Francisco.

Segundo as informações disponíveis por aqui sua greve de fome é meio torta. Ele toma sucos (e más línguas dizem que deve encher o rabo de hóstia, caso em que se iguala à dieta básica de milhões de nordestinos famintos que também só comem farinha). Mas ainda assim é uma greve de fome.

Com isso o padre não está apenas fazendo uma palhaçada política, aproveitada por todos os inimigos da transposição e do governo federal. Está cometendo um pecado, e dos graves. Em algum lugar da Bíblia — nessas horas a Congregação Mariana de Astrólogos faz falta — Deus diz que ninguém pode dispor de sua vida. É exatamente isso o que o bispo está fazendo. É bem provável que em algum tempo receba ordens para encerrar a palhaçada, vindas de um superior, e sua greve acabe. Ninguém sabe.

Talvez o pior na atitude do padre seja o fato de denotar, principalmente, teimosia. Mesmo morando em um dos dois Estados diretamente afetados por qualquer coisa que atinja o baixo São Francisco, eu ainda não tenho certeza sobre a transposição. Há tantas opiniões conflitantes, tantas justificativas técnicas de ambos os lados, que tudo isso acaba virando um palco de debates — ou de teatro, no caso do bispo de Barra.

É quase certo que a transposição seja realmente necessária. O problema da obra é que há outras soluções intermediárias possíveis, a maioria mais barata. Como o uso das águas subterrrâneas em alguns lugares, como o Piauí, ou aproveitamento mais racional dos açudes cearenses — muitos deles sub-utilizados. Engenheiros hídricos dão dezenas de soluções, embora nenhuma seja definitiva. De qualquer forma, nenhuma dessas obras custaria mais do que a transposição. Mas nenhuma daria, tampouco, a visibilidade que a transposição dará a qualquer governo que a realize.

Essas soluções menores talvez fossem preferíveis diante de um fato simples: hoje o Velho Chico é um rio quase exaurido. Nenhum outro tem seus recursos tão utilizados em escala tão gigantesca — de hidrelétricas a projetos de irrigação. A região do baixo São Francisco está, já há alguns anos, assustada com a degradação do rio. Se ninguém nega que a transposição seria útil para os Estados do Nordeste que se empenham em sua realização, ninguém nega também que o rio precisa urgentemente de revitalização. Ele está morrendo, e é esse medo que motiva uma parte dos protestos contra a transposição.

(Mas grande parte desses protestos é política, como foram suas motivações. É bem provável que, ao anunciar o projeto, a única motivação de Fernando Henrique Cardoso fosse dividir a bancada do Nordeste, principalmente Antônio Carlos Magalhães, e não tivesse intenções reais de realizar a obra. Lula parece ter embarcado no projeto para atender compromissos com Ciro Gomes — e talvez empolgado diante da perspectiva de fazer uma obra estrutural de grandes proporções.)

É uma questão de ordem, principalmente: a revitalização deveria vir antes da transposição. Tirar água de um rio exaurido é temerário, ainda que o canal vá sair da represa de Sobradinho, o que em teoria oferece mais possibilidades de controle. Por isso já há algum tempo se fala em uma outra transposição: a do Tocantins, que se ligaria ao São Francisco e garantiria a transposição para o Ceará, além de resolver parte dos problemas que o S. Francisco já enfrenta. Essa poderia ser a solução mais importante, em um conjunto necessário. É uma obra cara, talvez mais cara que a transposição do São Francisco. E a água teria que ser subsidiada durante muito tempo.

Enquanto isso, em uma atitude de vigário de interior com delírios napoleônicos de grandeza, Dom Cappio continua seu auto. Mas o mais engraçado em tudo isso é que já tem religioso no Ceará, desde sempre o Estado mais interessado na transposição, ameaçando fazer greve de fome também — mas dessa vez a favor. E há poucas coisas que eu gostaria tanto de ver como um duelo desses.

Por que vou votar a favor da comercialização de armas

O problema com o referendo sobre a comercialização de armas é a demagogia da iniciativa do governo e a desonestidade das justificativas a favor da proibição.

Os argumentos a favor da proibição são, em sua maioria, falsos e parciais. Disseram que vai diminuir a violência doméstica, por exemplo. Bobagem. Se um casal quer se matar, faz isso com facas ou, se necessário, com as mãos. Na verdade, a maioria dos casos de violência doméstica é de agressões físicas. É um clichê antigo, mas armas de fogo não matam ninguém; quem mata é quem atira. E se alguém quer matar outra pessoa, mata como pode. As pessoas já se matavam antes da invenção da pólvora e vão continuar se matando quando as armas forem extintas.

Quanto à violência urbana, aí só pode ser piada. É preciso lembrar que o verdadeiro problema do assaltante que carrega uma pistola não é o fato de ele ter uma arma — é ele estar com ela na rua. E não sei de nenhum bandido ou traficante (com exceção dos policiais) que tenha porte de arma ou, pelo menos, armas compradas legalmente. Dizer que boa parte das armas legais são desviadas para o crime é verdade, mas a conclusão a que ela leva é falsa. Imaginar que se não houver mais comércio legal no país os bandidos vão ficar menos armados é uma grande imbecilidade. É como achar que, porque a maconha é ilegal, as pessoas vão deixar de fumar.

É muito mais fácil comprar uma arma ilegalmente. Não apenas as permitidas, mas também armas que sempre foram de uso exclusivo militar. Quer comprar uma granada? Não é difícil. Uma pistola 9mm com o número de série limado? É mais barato que uma arma igual que você compre legalmente — ah, desculpe: você não pode comprar uma pistola 9mm legalmente.

É esse desconhecimento das leis de mercado que faz com que a alegação de que a proibição do comércio legal vai diminuir a criminalidade seja, na prática, uma bobagem.

O referendo também busca proteger de si mesmas pessoas comuns que, em um momento de desatino, matam outra — uma briga de trânsito, por exemplo. Tudo bem. Só não custa lembrar que provavelmente essa pessoa não tem porte de arma. Mas carrega uma mesmo assim. Para ela, em um comportamento razoavelmente semelhante aos dos bandidos, o fato de estar na ilegalidade não é um empecilho real. Se ela está disposta a carregar uma arma, vai carregar, pura e simplesmente. O mais provável é que aconteça o mesmo com a posse de armas em casa.

As pessoas andam armadas porque acham que assim estão mais protegidas. Muitas vezes estão erradas, e os argumentos em favor da proibição batem insistentemente nessa tecla.

Mas às vezes estão certas.

Para algumas pessoas, ter armas em casa é uma necessidade real. O discurso do “sim” é bonitinho para a classe média urbana empilhada em apartamentos, que não precisa e não deve ter armas; mas o Brasil é muito mais que isso. Quem mora em uma fazenda ou um sítio, por exemplo, não vai deixar de ter, independente das leis em vigor. Por uma questão cultural, por uma questão de segurança ainda que putativa; não importa e não adianta. Eu não deixaria, se tivesse uma.

Mesmo quem mora em casas na cidade acredita ter suas razões para manter uma arma, e age em função disso. Um amigo, dono de uma pistola registrada, já se conformou em deixar o seu registro caducar, porque não está disposto a pagar as taxas que passarão a ser cobradas (mais ou menos 300 reais por ano, 30% do que hoje se paga para ter porte, o que dá uma pistola nova a cada cinco anos) nem seguir as outras exigências que o projeto de lei faz, extremamente restritivas a quem pretende continuar com sua arma em casa. Também se conformou com a perspectiva de precisar recorrer ao mercado negro para comprar munição. O sujeito, que sempre andou dentro da lei, sabe que vai alimentar a criminalidade. Mas acredita que a sua segurança e de sua família é mais importante que isso.

Esse incentivo à ilegalidade é preocupante, e eu duvido que seja o único problema com essa proposta. O divórcio da realidade concreta não costuma levar leis a nenhum bom lugar, e talvez seja esse o principal problema prático do projeto. O comércio ilegal, aquele que faz parte do círculo vicioso do crime organizado e que já é relativamente forte, vai florescer ainda mais. Com o perdão do trocadilho absolutamente infame, parece ser um tiro que vai sair pela culatra.

Mas o que mais me incomoda nesse referendo é a demagogia embutida nele. Se a proibição passar, provavelmente vai contar como uma das iniciativas do governo em segurança. É piada. Prioridade, sempre, deveria ser desarmar os bandidos. Não há discussão sobre isso. E a maneira como os governos vêm lidando com o aumento crescente da violência é preocupante.

O volume de recursos e de esforços mobilizados nesse referendo seria mais bem utilizado em convênios com os governos estaduais. Deveria ser utilizado em policiamento preventivo. Em iniciativas de requalificação das polícias, e em ações efetivas de combate ao crime. É simples assim.

Há alguns anos um amigo meu, radialista, foi assassinado a mando de um prefeito. Ele nunca andou armado, o que talvez — talvez não — tenha facilitado a ação do pistoleiro que o matou. Por ironia aquele prefeito está hoje na cadeia, mas não por esse crime. Esse é um dos fatos que me dão a impressão de que estão colocando os carros adiante dos bois, e o que o desarmamento deveria começar pelo outro lado. Há aí uma inversão de prioridades, uma penalização desnecessária.

É por isso que eu vou votar pelo não à proibição do comércio de armas de fogo no Brasil.

Prioridades

Raymond Boudon, filósofo francês:

Marx insiste muito no fato de que o homem tem necessidade de bens materiais. Tocqueville explica que o homem não tem necessidade apenas de bens econômicos, ele tem muito mais [grifo meu] necessidade de consideração, com o que eu concordo.

Assim diz Boudon, que provavelmente nunca passou fome na vida e come 3 vezes por dia.