Aquilo a que chamam pragmatismo

Como era mesmo aquele papo de “oposição”, “republicanismo”, “princípios”?

(Foto tirada em agosto de 2003, na Aldeota, em Fortaleza. Lucio Alcântara foi o candidato — eleito — do PSDB ao governo do Ceará em 2002. Lula, obviamente, apoiava o candidato do PT. Mas nem todos os “princípios”, o “republicanismo” e o fato de ser o “fiel depositário da moralidade política” do país impediram o PSDB de tentar surfar a onda vermelha.)

Provocação na Cuba dos outros

Ah, a notícia é uma delícia para não ser comentada.

Os Estados Unidos, que fazem de um buraco como Cuba a grande pedra no seu sapato evangelista do tipo “vamos enfiar democracia por suas goelas abaixo, quer você queira, quer não queira”, colocou em sua representação diplomática na ilha um outdoor com motivos de Natal que formam o número 75 — o número de dissidentes presos pelo regime castrista em 2003.

Cuba, claro, não gostou — você gostaria se isso fosse no seu país? — e exigiu que os EUA retirassem o outdoor. Obviamente, os cowboys fizeram ouvidos de mercador. Cuba se irritou e avisou que haveria conseqüências.

Oh, disseram os americanos, eles estão nos ameaçando! Secretamente parecem ter dado graças a Deus; o governo Bush é o mais hostil a Cuba em toda a história, e talvez isso fosse um bom motivo para criar caso.

A represália cubana, no entanto, foi digna do Prêmio Berzoini de Crueldade: os cubanos colocaram o seu próprio outdoor em frente à representação americana, com cenas de tortura em Abu Ghraib, uma suástica e uma frase: “Fascistas”.

Digam o que quiserem do bom e velho Fidel. Reclamem o quanto for, e até mesmo eu tenho algumas restrições ao sujeito. Mas que ele é uma figura, ah, isso ele é.

Link (via Boing Boing)

Última Leitura

Durante muito tempo admirei a revista Primeira Leitura, desde os tempos em que ela se chamava República. Não interessava que ela tivesse uma linha claramente identificada com um setor de um partido, o PSDB: ela tinha uma grande qualidade, a de dar densidade ao debate ideológico. Nos anos Lula se tornou uma revista de oposição e de contradição ao governo, assumidamente, e em princípio isso é bom. Era uma revista inteligente, instigante.

Agora, com a saída do José Roberto Mendonça de Barros, seu publisher, a impressão que fica é a de que a densidade se foi e restou a mais rasteira propaganda política. A Primeira Leitura, nesta última edição, praticamente se limita a boletim de informações do PSDB; diminui-se, se despede do bom papel histórico que desempenhou durante muito tempo.

É irônico, porque Mendonça de Barros deveria ser, em tese, o sujeito a dar esse tom politiqueiro. Era ele o sujeito ligado, em várias esferas, a Fernando Henrique Cardoso. Mas enquanto se podia divisar na revista do Mendonça de Barros uma certa coerência e qualidade ideológica, na nova Primeira Leitura só vê a mesma velha e má politicagem.

Quem lê a revista com um pouco de atenção pode ver que a chamada de capa (“O PT cai do cavalo”) não corresponde à realidade. Um partido que tinha 187 prefeitos e em 2005 terá 411 não está estatelado no chão. Só porque perdeu São Paulo e Porto Alegre? Perdas muito importantes, óbvio, mas não decisivas no que se refere às próximas eleições. Os números apresentados na própria revista mostram um crescimento significativo do PT, algo que os políticos gostam de chamar de “capilaridade”. Isso não compensa a perda de São Paulo, mas representa muito mais no projeto de solidificação do partido.

Além disso, Marta não perdeu porque o paulistano é preconceituoso, porque é mulher ou porque o povo deu um sinal vermelho ao governo federal. Marta perdeu porque não soube fazer política, porque começou a fazer obras tarde demais, porque aumentou muito as taxas municipais, porque esnobou o PMDB, porque fez um acordo espúrio com Maluf e deixou que isso saísse de controle, e em muito menor medida porque realmente passa arrogância.

Querer nacionalizar uma derrota que se deve a questões locais, como acontece em absolutamente todas as eleições municipais desde 1992, é excesso de oportunismo. É esse o problema da revista: entrou de cabeça na disputa por 2006. E o PSDB sequer precisa disso: ninguém tem dúvidas de que Serra vai fazer uma excelente administração para garantir densidade eleitoral em uma eleição em que, apesar do que a revista diz, Lula parece ser imbatível, sim. Vai ser um governo populista, demagógico — e isso não é necessariamente ruim –, e certamente tentará recuperar espaço nas áreas mais pobres, onde Serra foi mal votado. Isso é política. Faz parte do jogo.

Ao negar essas verdades, tão óbvias que Júlio César já conhecia, a Primeira Leitura está empenhada em espalhar o mito do “republicanismo” do PSDB. Diz que o PT faz oposição irresponsável, ao contrário do PSDB, coerente e cheio de princípios. A verdade, como sabe qualquer prefeito que tenha feito oposição ao governo Fernando Henrique, é bem diferente: entre 1995 e 2003, prefeitos de oposição foram tratados a pão e água. Pode-se criticar a esquerda brasileira por suas posições, com razão, pode-se criticar diversas atitudes do governo, também com razão; mas não às custas da elevação do PSDB à categoria de vestal impoluta da democracia. O tom de campanha se revela quando a revista bate repetidamente na tecla de um cabo eleitoral que barrou a entrada de Serra em um buraco qualquer, mas não faz uma só referência à diretora de escola que barrou a entrada de Marta, algo por sinal ilegal.

Mesmo isso seria tolerável se a revista não perdesse muito de sua inteligência. Uma entrevista com Celso Lafer, por exemplo, se resume a um amontoado de críticas à política externa de Lula. Se o Cláudio Humberto estiver certo, Celso Lafer era o Ministro das Relações Exteriores de Fernando Henrique que humilhou o país a que servia tirando os sapatos num aeroporto americano. Isso não é exemplo de política externa. Mais: um dos pontos em que o governo do PT vem se destacando é justamente esse. Obviamente não é a “invenção da soberania” que alguns setores mais burros do PT querem, porque o governo FHC também foi muito bom nisso; mas tem avançado, e muito. Criticar justamente essa área é perder o juízo e abusar da má-fé.

Cada vez mais — com a Primeira Leitura abdicando de sua inteligência, com a Veja encastelada no seu autismo jornalístico, com a IstoÉ merecendo o apelido cruel dado pela Veja (QuantoÉ), com Carta Capital vendendo suas matérias para o governo federal — eu fico achando que é melhor comprar uma edição da Atlantic Monthly ou da Nossa História e, se quiser saber o que acontece por aqui, assistir ao Jornal Nacional. Pelo menos é de graça.

E vou me poupar o prazer duvidoso de ler um dos mais novos colaboradores da Primeira Leitura: o indefectível Olavo de Carvalho.

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A Veja desta semana traz várias matérias elogiosas a Lula. Alguém poderia me informar se a Abril andou conseguindo empréstimos federais?

Arafat

O tema me interessa, sempre interessou. Mas os dias passaram e eu ainda não tenho nada a dizer sobre a morte de Arafat.

O Marcus fez uma análise perfeita da situação; o Nuno Guerreiro também. Eu, de qualquer forma, nunca cheguei a uma conclusão sobre Arafat. Não por ter sido terrorista — Begin e tantos outros promoveram seus próprios atos do tipo, sem falar na resistência proto-israelense durante o domínio inglês; isso não o diminui, em comparação aos seus adversários. Terrorismo é método, apenas, utilizado por quem não tem tanques. Terrorista é coronel de pobre. Na verdade, o que sempre me deixou em dúvida quanto a Arafat foi sua tática.

Tenho ainda menos certeza de que Arafat era tão responsável assim pela violência palestina; não custa lembrar que o que detonou esta nova intifada foi a visita de Sharon à Esplanada das Mesquitas de Jerusalém em 2000, unicamente para fazer pressão política. Para ele deu certo, porque conseguiu se tornar primeiro-ministro. Para o povo israelense, nem tanto. E para o povo palestino, bem…

Mas não tenho certeza de que concordo com algo que o Guerreiro falou: de que é a hora de Sharon pendurar suas chuteiras.

Eu nunca me imaginei dizendo isso, mas talvez Sharon seja hoje uma das melhores opções para a esquerda israelense. Ele continua sendo o canalha que sempre foi, o assassino responsável por Sabra e Chatila ao apoiar a chacina de refugiados palestinos por milícias cristãs; mas se comparado a setores mais radicais da sociedade israelense, ele é quase um Gandhi.

Se ele, confiável para aqueles setores mais radicais, está enfrentando tantas dificuldades, eu não quero nem imaginar o que um sujeito mais decente enfrentaria.

Condie by Liza

O que eu talvez tivesse a dizer sobre a troca de Colin Powell por Condoleeza Rice como Secretária de Estado a Liza Sabater, do Culture Kitchen, disse antes. E melhor.

(Quem for até lá não esqueça de ler o primeiro post a que ela se refere, Condoleezza Rice, a Sally Hemmings for the 21st Century; eu me apaixonei por ele quando li pela primeira vez.)

O único consolo que eu consigo ver nesse troca-troca — daqui de baixo, Rice é ainda pior — é que a Condie tem pernas mais bonitas que Powell.

Pesos e medidas

Da coluna da Belisa Ribeiro:

Desrespeito
Um hacker fez um link no site de pesquisa Google. Quem digita a expressão “déspota cachaceiro” é remetido para a página oficial da Presidência da República. A Secom enviará nota à empresa solicitando providências.

O engraçado é que eu digito bastard e não vou parar no site da Casa Branca.

Isso é injusto.

Lembranças da academia

Da série “por que eu não gostava do curso de direito”.

Em 95, empolgado com a internet, tive a idéia de fazer uma daquelas pesquisas porcamente financiadas pelo CNPq (na verdade, como eu estava duro como pão de anteontem, precisava que a universidade financiasse a cachaça que eu tomava nos bares próximos à universidade. Era a única razão pela qual eu ainda ia àquele cu-de-mundo — e se alguém vê conflito de interesses aí, aviso que não havia nenhum: juro que aprendia mais nos bares que na universidade).

O assunto — ou aquilo que eles chamam de “objeto de pesquisa” ou outro nome mais feio — seria o direito e suas relações com a internet. Eu tinha a impressão de que havia uma série de questões jurídicas que a Internet iria afetar; na época eu não pensava em direitos autorais e circulação de conteúdo, mas principalmente direito penal e civil.

Falei com o professor encarregado de orientar os alunos, depois que soube que não poderia fazer a pesquisa sozinho. E ele disse não. Alegou que ainda era um tema novo demais. Não adiantou dizer que era para isso, afinal, que servia uma pesquisa, para dar respostas ou pelo menos instigar mais perguntas. A resposta continuou sendo não.

Típico da mentalidade acadêmica, mas mais típico ainda dos “operadores do direito”: fazer pesquisas apenas sobre o que já se sabe. Eu não entendia. Foi quando compreendi que é esse o espírito do direito que se ensinava ali: “restrinja-se a não estragar o que outros fizeram antes de você”.

E ainda hoje tem gente que não consegue entender por que abandonei aquele curso.

Mi hermano Bush

Se venho dizendo há um ano, quase, que Bush vai perder estas eleições é por uma razão muito simples. Nunca, antes, vi tamanha indignação tomando corpo entre os americanos contra seu presidente. A mobilização contra Bush era desproporcional à média histórica americana, acostumada há muito a levar suas eleições com o mínimo de importância possível.

Quando um povo se revolta dessa forma contra um governante, quando este consegue alcançar um índice tão grande de rejeição, sua derrota é praticamente certa, nos Estados Unidos ou em Cochabamba.

Isso foi antes de Abu Ghraib, dos explosivos que sumiram, do último escândalo da Halliburton. Agora, o que era apenas impressão se tornou quase uma certeza.

Nem mesmo o vídeo de Bin Laden que apareceu anteontem deve mudar isso. Provavelmente reforçará as certezas dos simpatizantes de Bush e Kerry, porque seu discurso é tão ambíguo que à primeira vista me parece poder ser interpretado a seu favor pelos dois candidatos.

Mas sempre há a possibilidade de George Jr. vencer. Como já disseram algumas pessoas, não é o povo ou o Colégio Eleitoral quem elege o presidente americano: é a Suprema Corte.

Essa possibilidade é uma das mais aterrorizantes que se pode imaginar.

Até as eleições de 2000 havia apenas a rivalidade normal entre republicanos e democratas. Admitia-se a diferença ideológica porque ela não era mais importante que o business as usual. O que quer dizer que você podia ser democrata, mas se um republicano ganhasse, tudo bem, a vida é assim mesmo. Mesmo em 2000, com o escândalo da Flórida, a indignação diante da roubalheira se manteve em níveis civilizados. Aquilo foi feio, foi ridículo, mas ainda não chegava a tornar a oposição ao presidente eleito algo visceral, praticamente um imperativo moral.

Mas nesses últimos dois anos Bush conseguiu o privilégio de deixar os Estados Unidos tao ou mais divididos quanto nos anos 60. Provavelmente mais, mais até que durante a época do New Deal. Em termos de divisão, só perde para os Estados Unidos que precederam a Guerra de Secessão. E a isso soma-se o ter justificado o anti-americanismo latente em todo o mundo, tornando a vida de seus cidadãos muito mais difícil.

É esse país que um Bush reeleito vai encontrar. Uma oposição mais forte do que nunca, um tipo de oposição visceral e raivosa que há muito tempo um presidente americano não encontrava, nem mesmo ele. Metade dos americanos se julga humilhada e roubada. Mesmo tendo chegado à presidência em uma eleição roubada, um eventual segundo mandato de Bush vai ser o verdadeiro retrato da ilegitimidade.

Cá embaixo sabemos bem o que é isso. Sabemos o que foi eleger um presidente sem respaldo moral como Collor. Sabemos o que é ter passado um século divididos entre polarizações de todos os tipos — paulistas contra o resto do Brasil, civis contra militares.

A essa altura os americanos já esqueceram o que é isso. Resta saber quem vai pronunciar o discurso de Gettysburg, nesse caso.

Enquanto isso, seja bem-vindo ao que já chamaram de latinização da política americana. Aye.

Último post sobre marketing político

E O Globo decretou o fim do meu ganha-pão.

Alguém tem um emprego para um pobre redator que fuma muito e bebe pouco, que gosta de Balzac e do Batman, que troca o dia pela noite, que conhece Casablanca de cor e que tem uma filha absurdamente linda para criar e evitar que se torne publicitária também?

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De qualquer forma tenho uns comentários a fazer.

Primeiro, algumas informações estão erradas. “A ausência de Duda da capital paulista a dez dias da eleição mostrou que não era tão relevante sua participação na campanha da prefeita Marta Suplicy” é uma meia-verdade, porque com o pau comendo na campanha Duda já se havia afastado há muito tempo. E Nizan Guanaes não é o maior concorrente de Duda Mendonça. Pelo contrário, como sabe qualquer um que já tenha estado em Brasília. Nizan, aliás, não é muito dedicado ao marketing político, e já tinha anunciado antes sua intenção de não fazer mais campanhas.

As críticas ao Lavareda talvez sejam justas, talvez não. Mas o Lavareda é principalmente um homem de pesquisa, tem um perfil diferente do de um Duda, por exemplo. São funções diferentes. Talvez não seja justo cobrar dele o que estão cobrando. Talvez seja. De qualquer forma, o conselho para tirar o Ronaldo Cézar Coelho estava equivocado. Fazer algo assim é dar razão e vantagem ao concorrente, é admitir um erro desnecessário. César Maia — que segundo a lenda é um grande leitor de pesquisas e tem excelente tirocínio político — estava certo.

Discordo apenas da opinião do quase-parente (um dos meus sobrenomes é Maia) de que os “marqueteiros de nome prejudicam as campanhas hoje porque fazem várias ao mesmo tempo”. Não é isso que prejudica. É a má formação de equipes e, principalmente, a má qualidade da coordenação política do candidato. Um Duda Mendonça, um Nelson Biondi têm uma contribuição imensa a dar, em qualquer situação, apenas pelo acúmulo absurdo de experiência e de criatividade. Eles são brilhantes, ponto. E gente brilhante não se encontra em qualquer esquina.

Um bom exemplo é o que parece estar acontecendo em São Paulo: a coordenação política resolveu dar uma orientação que, a propósito, não é reconhecida por funcionar, inclusive contra a opinião do Duda. Foi isso que prejudicou a campanha da Marta, não foi o fato de o Duda estar ou não fazendo outras campanhas.

Outra coisa que prejudica é essa fixação da imprensa nos publicitários durante a campanha. Dão aos “marqueteiros” quase a mesma importância que deveriam dar aos candidatos. Já falei sobre isso, essa coisa de classe média que se acha mais esperta porque sabe que publicitários elaboram os porgramas. É uma distorção da realidade por culpa única e exclusiva dos jornalistas; mais ou menos como responsabilizar o Nizan ou o Eduardo Fischer pelo gosto bom ou ruim da Brahma e da Nova Schin. Deificam simples profissionais, confundem técnica de forma com conteúdo, e depois reclamam que eles são estrelas e apontam sua decadência. É uma herança dos tempos de Collor que as redações não souberam jogar fora.

Por isso a posição do Déda está corretíssima, assim como a do Rui Rodrigues. Publicitários são auxiliares, a estrela é o candidato. Isso é tão óbvio que não mereceria sequer ser lembrado.

Quanto ao relacionamento entre o Humberto Farias e a Luizianne Lins, mostrado como exceção e como prova de que o relacionamento entre políticos e “marqueteiros” tem mudado muito em detrimento destes últimos, só demonstra uma coisa: que quem escreveu a matéria não sabia absolutamente nada sobre como funciona uma campanha eleitoral.

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Agora chega. Esse assunto já está chato e a eleição, pelo menos para mim, já passou.