A maioria das críticas feitas ao governo Lula me interessa pouco ou nada. Uma delas me irrita, em particular: aqueles que não votaram nele porque ele iria mudar tudo e agora descem o sarrafo porque ele não mudou nada.
Mas a ótima seqüência de posts do Idelber sobre estar considerando o voto nulo em 2006 representam uma postura que merece ser discutida. Em princípio, boa parte da crítica do Idelber representa a desilusão de todos aqueles que acreditaram na mensagem e nos ideais do PT e se acham traídos pelo continuísmo. É a crítica de esquerda, feita sobre os alicerces sólidos daqueles que pensaram o PT. E que, quando aliada ao desencanto, costuma atrair muita gente boa.
Tem-se a impressão de que o principal problema interno do PT é a incapacidade de se acostumar ao fato de ter chegado ao poder. A guerra fratricida em que ele se engalfinha é uma mostra disso. Do outro lado, gente como a Heloísa Helena, que saiu reclamando do time aos cinco minutos do primeiro tempo, apenas ajuda a aprofundar essa sensação.
Mas então outros problemas aparecem. O governo tem se revelado de uma incompetência atroz no que diz respeito à articulação com o Congresso. O nêmesis do Idelber, o Aldo Rebelo, estaria muito melhor ali do que sendo sabotado sistematicamente pelo grupo do Zé Dirceu. O resultado é uma série de derrotas desnecessárias, devidamente amplificadas pela oposição, que apontam no governo um fisiologismo que em nada o diferencia de seus antecessores. Em parte, isso é compreensível: o governo Lula foi eleito sem uma base forte. Mas isso aconteceu com absolutamente todos os presidentes brasileiros desde a redemocratização. Aconteceu, por exemplo, com o PSDB, que sabia ser impossível chegar ao poder sem a base estamentária provida pela PFL, sem admitir a máxima cardosiana de que é dando que se recebe. Uma parte da crítica de esquerda nega ao governo Lula o reconhecimento dessa sociedade que estabeleceu padrões nebulosos de conduta com o Estado, que corrompe para depois acusar os corrompidos; e é loucura imaginar que o governo Lula poderia revogar essa situação rapidamente. Aqueles que criticam o governo pelo seu “fisiologismo” esquecem esse fato, que atenua uma boa parte da conduta do governo.
Há ainda a burrice de uma certa oposição de esquerda, e a má-fé da oposição de direita, que não ajuda em nada. As pessoas perdem tempo, por exemplo, criticando a compra do avião presidencial. (Só para constar: a compra era necessária. FH não comprou para não se desgastar no último ano de governo e passou, sabiamente, o abacaxi para Lula. Lula comprou logo porque sabia que a grita ia ser grande, mas que se fizesse o começo do governo tudo seria esquecido mais facilmente.) Preferem se preocupar com as bobagens ditas por Lula em discursos de improviso — e como ele diz bobagens –, como se isso tivesse alguma relevância sobre o processo político, e deixam de discutir com a profundidade necessária reformas importantes como a universitária, deixam de avaliar seus pontos positivos e negativos.
Mas tudo isso, claro, não é atenuante suficiente. Há claramente falta de coragem — ou vontade — do governo de atuar com decisão no espaço de que dispõe, ainda que este seja mínimo.
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Do reconhecimento das falhas do governo a considerar o valor estratégico do voto nulo, como faz o Idelber, vai uma distância muito, muito longa. Não pelo voto nulo em si. Esse é um direito de cada um, e o Idelber sabe bem o que ele significa. Mas a idéia de que uma percentagem expressiva de votos fará com que se mude alguma coisa é uma utopia.
Para começar, nenhum movimento nacional pelo voto nulo conseguiria expressão suficiente para forçar uma segunda eleição. Sem isso, o que se tem é a alienação de uma parcela importante da sociedade de um processo político importante. A classe média, essa que agora considera o voto nulo, pode não eleger presidentes, como o PT aprendeu em 1989, mas é importante na formação de opinião.
É muito provável que Lula se reeleja no ano que vem. O crescimento de uma sensação generalizada de desencanto com o PT faz com que o PSDB comece a se assanhar e FHC passe a considerar realmente a possibilidade de se candidatar, mas é improvável que Lula, com a máquina do Estado na mão, com a posição privilegiada de já envergar a faixa, perca essa reeleição.
E aí a omissão dessa classe média provavelmente surtirá efeito contrário, um enfraquecimento ainda maior de um governo que tenta se equilibrar entre um projeto progressista e a dura realidade de uma sociedade gersoniana. Por exemplo, ainda que se admita as intenções louváveis da Heloísa Helena — e eu, decididamente, não estou entre eles –, o que ela conseguiu com isso? Ela não vai se reeleger porque vai lhe faltar legenda, a não ser que faça as mesmas alianças que condena no PT. Sua importância no processo político vai ser ainda menor.
É esse o problema do voto nulo: o mundo continua rodando a despeito dele. Qualquer pressão que exerça é insignificante diante da pressão da realpolitik.
Mais útil do que uma campanha pelo voto nulo seria, ao que parece, uma pressão coordenada por um maior comprometimento do governo com mudanças estruturais, onde for possível. Mais do que simplesmente sair da brincadeira, talvez fosse mais eficaz aos que fazem a crítica de esquerda ao governo Lula a cobrança incessante de promessas de campanha. Podem até ser irreais, mas as pessoas precisam lembrar que, no outro extremo, o lado negro da Força faz pressões também irreais, com o pragmatismo de quem sabe que pode até não conseguir alcançar uma estrela, mas certamente não termina com um punhado de pó nas mãos.
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Mas uma vez trotskista, sempre trotskista. Esse povo está sempre equivocado, arre. Porque o barbudinho de óculos fica sempre lá no fundo, esperando uma chance para se manifestar ou uma picareta na cabeça. A única coisa bonitinha que já vi nos trostkistas foi uma lourinha de camisa vermelha que balançava a cabeça ao som do Pink Floyd em um congresso da UBES há muito, muito tempo, o tempo admirável em que militantes não usavam sutiã. O Pink Floyd é chato, balançar a cabeça é chato e trotskistas eram chatos, mas a lourinha bem que valia a pena.
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As entrevistas dos brasilianistas Kenneth Maxwell e Thomas Skidmore ao Mais! republicadas pelo Smart Shade of Blue são importantes para ajudar a compreender o atual estado do Brasil (Deus, nunca pensei que fosse dizer isso de um brasilianista).