Anti-semitismo

Em uns comentários a um post no Empatia, eu percebi uma coisa engraçada. E agora, com o anúncio da retirada dos assentamentos israelenses da Faixa de Gaza, o que era impressão se tornou certeza.

É difícil criticar Israel sem ouvir, velada ou claramente, que se está sendo anti-semita. E não há acusação pior para qualquer pessoa que se julgue decente e conheça um tiquinho só da história da perseguição aos judeus.

(Não, eu não faço parte dos que acham que os judeus foram o povo mais perseguido da história; pelo menos não tenho notícia de dezenas de milhões de judeus trancafiados em navios negreiros durante dois séculos. Mas o anti-semitismo é talvez ainda pior, porque por uma necessidade teológica do cristianismo eles foram associados ao próprio Mal. Isso é aterrorizante. Uma boa explicação sobre isso está na introdução de “Os Carrascos Voluntários de Hitler”. É, aliás, a única parte verdadeiramente brilhante de um bom livro extremamente tendencioso.)

Isso é ainda pior porque Israel é, hoje, um Estado criminoso e racista. Quando promulgou uma lei proibindo israelenses de casarem com palestinos, ano passado, não fez mais que reeditar algumas das Leis de Nuremberg de 1936, que também proibiam os puríssimos alemães de casarem com judeus imundos. E embora as coisas nunca sejam assim tão simples, pode-se até alegar que as Leis de Nuremberg, uma das maiores aberrações morais do século XX, eram melhorzinhas: ser casado com um alemão protegia um judeu; ser casado com um palestino, hoje, prejudica um judeu.

Não adianta alegar que Israel tem lá suas razões para se proteger e descer a lenha nos palestinos. Os nazistas também acreditavam ter, e tinham quando menos o respaldo político interno que essas investidas contra a comunidade judaica lhes davam. Um crime é um crime, seja lá qual for sua justificativa.

Talvez por isso, pela sombra do anti-semitismo, todos nós tenhamos uma tendência a ressaltar que uma coisa é o Estado de Israel, outra é o povo israelense. E não são. É fácil criticar o Sharon, como este blog, aliás, se esbalda em fazer; mas ele hoje, se vendo diante de uma situação cuja única saída é obviamente a desocupação da Palestina, está apenas tentando garantir sua sobrevivência política. Os protestos contra a decisão de efetuar a retirada são o melhor exemplo disso. Assim como Lula é cobrado por decisões que a sociedade, na verdade, não quer que ele tome, Sharon se vê às voltas com uma situação que, se ele ajudou a criar, hoje sabe insustentável.

De modo geral, Sharon tem se mostrado um político em uma sinuca de bico, porque há setores muito mais radicais do que ele, a escória de um sionismo expansionista, racista e cruel. Isso não limpa seu passado sanguinário e infanticida, mas joga alguma luz sobre a tensão naquele barril de pólvora. Se a linha-dura do Likud é quem perpetra os crimes que Israel vem cometendo, o povo que elegeu esses parlamentares é o grande responsável, em última análise. É o mandante do crime. E em nenhum país do mundo isso é tão verdadeiro quanto em Israel, em que Estado e religião são praticamente indissociáveis.

Não é a primeira vez que este blog diz isso, mas nunca é demais repetir: o que Israel vem fazendo com os palestinos é um crime contra a humanidade, como foi o Holocausto. Mesmo que aqueles setores judaicos mais radicais e idiotas queiram tomar para si o monopólio da dor.

Último post sobre Duda Mendonça

Não gosto de briga de galo. Acho um dos hobbies mais cretinos que alguém pode ter. Só quem já viu sabe o quanto ela pode ser cruel.

Mas não me importo se outras pessoas gostam, desde que gostem longe de mim. Já disse antes: eu sou um antropocêntrico consumado. Não gosto de crueldade com animais pelo que isso faz a mim, não a eles.

Acompanhei no domingo a repercussão sobre a prisão do Duda e fiquei impressionado com duas coisas: a imediata politização do episódio, com o mundo descendo a lenha na Marta como se ela estivesse lá, com ele, e o fato de todo mundo (naquele esporte favorito da classe média brasileira, bater em “marqueteiros” em época de eleição) detonar o caráter do Duda por ele gostar dos galos.

Pelo menos uma das melhores pessoas que conheci adorava briga de galo. Seu caráter estava acima de qualquer questionamento. Outra, meu bisavô, criava galos e seu enterro foi um dos maiores da história da cidade. Como ele não tinha um tostão, não deve ter sido pela sua importância.

Essa mania imbecil de fazer julgamentos de caráter a partir de aspectos pessoais isolados é irritante, como é essa idéia de que todo mundo que gosta do que eu não gosto é ruim.

Mas talvez eles tenham razão.

Agora vamos fazer isso com os maconheiros. Porque para fumar tem que portar, e porte de entorpecentes é crime. Vamos chamar todos os maconheiros de maus-caracteres, vamos chamá-los todos de criminosos. Você conhece um maconheiro? Denuncie-o à Polícia Federal imediatamente, porque você está compactuando com um crime federal. Eu, como não fumo maconha, me sinto totalmente à vontade para fazer isso. E essa é a regra, não é?

***

Um dos comentários me chamou particularmente a atenção: dizia que Duda não pode ser um grande profissional porque não tem curso superior.

Dá para pensar outra coisa que não em uma pessoa que estudou anos e anos e não conseguiu ir muito longe, e se ressente disso? É triste que um monte de diplomas não substituam talento, competência e sorte.

***

A coluna da Dora Kramer de domingo fala sobre o caso dos galos. É interessante.

Antes de a juíza Denise Frossard cruzar seus caminhos, os bicheiros faziam como Duda Mendonça. Tratavam com naturalidade a infração. Eram tão naturalmente bem recebidos que nem eles mesmos consideravam-se infratores. Delinquiam sem que ninguém lhes condenasse a delinqüência.
(..)
Não faltarão agora os denunciadores do farisaísmo a dizer que, enquanto prendem Duda por causa de um entretenimento, deixam soltos traficantes e assassinos; não faltarão os apologistas das conspirações a enxergar astutas armações político-eleitorais por trás da operação da PF na rinha dos galos.

A intenção óbvia é comparar Duda aos bicheiros, como se estivesse envolvido em mortes e tráfico de drogas. Por essa eu passo, não vale a pena; não vale sequer lembrar que eles continuam aí, firmes e fortes. A não-tão-óbvia é mais interessante: justificar a ação quase inédita da PF pelo simples cumprimento da lei. Essa é batata. Afinal, ninguém pode ser contra isso.

Mas só posso repetir o que já disse antes: a aplicação seletiva da lei é a maior forma de injustiça que conheço.

***

O que se comenta entre os políticos do Rio, esses dias, é que a Polícia Federal de lá é disputada por três grupos rivais. O delegado que prestou esse grande serviço ao país, desbaratando aquela quadrilha de meliantes perigosos no Club Privê, teria sido “rebaixado” para o setor de crimes ambientais e armado a batida por sacanagem e para aparecer. Pode ser. Mas eu continuo não acreditando em coincidências em época de eleição.

E a aplicação seletiva da lei continua sendo a maior forma de injustiça que conheço.

***

Alguém poderia abrir a contagem de rinhas estouradas pela PF, por favor? Algum jornal ou revista calculou a existência de 120 rinhas no país. Vou fingir que não estou rindo da estimativa e levá-la em consideração. É razoável esperar que consigam fechar pelo menos 12 até o fim do mês.

Alguém conhece outra pessoa presa numa rinha de galos?

Ainda estou impressionado com a prisão do Duda Mendonça.

Eu não gosto de brigas de galo. É um dos esportes mais idiotas que alguém pode imaginar, com homens alucinados soprando nos bicos de seus galos ensangüentados, para depois vê-los encostados à borda da rinha, já sem forças, enquanto seu oponente o castiga sem dó. O principal argumento de galistas é o de que a briga é instinto do galo. Certo. Acontece que quem os obriga a ultrapassar todos os limites da briga, o que faz um galo brigar até a morte são os seus donos.

Mas prender o Duda por causa disso é provavelmente uma das maiores canalhices políticas que alguém pode imaginar. Como disse o Duda ao ser preso, todo mundo sabe que ele gosta de brigas de galo. No seu livro ele diz que é uma de suas grandes paixões. Mas isso ainda não é nada.

Em todo o país, as rinhas funcionam abertamente. Não anunciam, claro, mas todo mundo pode descobrir onde funciona uma em pouquíssimo tempo. A tal rinha em que Duda foi preso funciona regularmente, assim como é regular o seu comparecimento. Todo mundo que mora no Rio sabe que ela existe, que as apostas são altíssimas. E todo mundo que tem alguma ligação com brigas de galo sabe que Duda sempre está lá.

Pode-se alegar que brigas de galo são ilegais. São mesmo. E se é ilegal as pessoas têm que ser presas, mesmo. Mas se juridicamente estão corretos, a verdade que extrapola os autos é que eu, pelo menos, não conheço ninguém que tenha sido preso em uma rinha antes. Nem mesmo o Duda, freqüentador assíduo, de maneira pública e ostensiva.

Você conhece outra pessoa que tenha sido presa em uma rinha de galo? Já ouviu falar de um caso parecido? Aliás, você já ouviu falar de uma rinha de galo que tenha sido fechada pela polícia?

A ação da Polícia Federal é tão obviamente política que se eu votasse em Sumpaulo e estivesse indeciso votaria em Marta Suplicy, porque a alternativa — votar em alguém capaz de tudo — parece perigosa. Esse episódio mostra alguém que tem suficientes ligações políticas, que sabe utilizá-las e que não hesita em apelar para as ações mais baixas. Mostra isso pela segunda vez: há pouco mais de dois anos a “vítima” do mesmo algoz foi outra. Chamava-se Roseana Sarney.

De qualquer forma, essa pode até ser uma atitude baixa, mas que é boa, é. O dano na imagem pública de Marta dificilmente será contido. Marta não tinha outra alternativa a não ser afastar oficialmente Duda Mendonça de sua campanha. O sujeito que abriu o saco de maldades e encrencou Duda foi bom o suficiente para perceber o que fazer na hora certa. Resta saber se a campanha de Marta Suplicy vai ser esperta o suficiente para tentar reverter a situação. Talvez fosse a hora de deixar claro que esse grupo é capaz de tudo para alcançar seus objetivos. De, sem desculpar Duda, mostrar a motivação política da prisão, de lembrar o caso Roseana, de tentar pintar a imagem de Serra como o “vampiro dos golpes baixos”. Não me parece haver outra forma de reação possível. E com mais de 10 pontos de diferença, a esta altura o negócio é partir para o tudo ou nada.

O Diogo Mainardi, em seu artigo dessa semana, disse que devemos votar cegamente (Deus, que idiotice!) contra o PT, porque o PT quer tudo. Como se fosse só o PT. Aliás, quem já tem o Estado de São Paulo e quer o município é o PSDB. Olhando sob a mais favorável das luzes, o que o Mainardi parece querer é um equilíbrio político. E sob essas mesmas luzes a posição é de uma ingenuidade estonteante.

E o resultado é que, pelo menos para mim, que nunca cheguei sequer perto dela, Marta parece ser tudo de ruim que dizem: arrogante, esnobe, prepotente. Mas a alternativa me parece muito, muito pior.

Machos votam em Bush

Via Culture Kitchen:

O Viva Bush Punto Com, Cabrones é um site feito exclusivamente para mostrar o apoio dos cucarachos que vivem no Estados Unidos, porque sabem que Bush é o melhor candidato para latinos, por sua força, suas convicções e por ter vindo do Texas, local onde cucarachos são tradicionalmente bem tratados. Assista também aos comerciais. Valem a pena.

Adendo ao post sobre marketing político

A Carta Capital é uma das melhores revistas semanais do país. Mas esta semana, em matéria passando o rodo nas eleições, aparece com algumas pérolas que merecem ser comentadas:

Nas últimas eleições, São Paulo escolheu prefeitos do PT em duas oportunidades, mas esse fato não enfraquece a tese do perfil conservador do eleitorado paulistano. Em 1992 não havia segundo turno e Luiza Erundina acabou eleita com menos de um terço dos votos (31%).

A matéria foi escrita por dois jornalistas, Phydia de Athayde (quanto H e quanto Y numa pessoa só) e Sérgio Lírio. Nenhum dos dois parece ter percebido que Erundina foi eleita em 1988.

Mas ainda piora.

Além disso, o governo de Fernando Collor, com quem Lula disputou as presidenciais em 1989, caminhava para o colapso, o que aumentava o cacife da oposição — e do próprio PT.

Errar na checagem dos fatos é um erro grave, ainda mais quando é simples como esse. Mas elaborar uma teoria sobre as circunstâncias que envolveram as eleições que nunca houveram é demais. Ainda mais quando o governo de Erundina, pessimamente avaliado, foi um dos fatores que prejudicaram Lula em São Paulo.

Mas isso é jornalismo. Agora vamos falar de marketing político. Outra matéria na mesma revista, desta vez de José Roberto de Toledo:

(…) a soma das votações de todos os candidatos a prefeito do PT e do PL mal chega à metade dos 39,4 milhões de votos obtidos por Lula no primeiro turno da eleição presidencial de 2002. Em que pese a recém-adquirida “capilaridade” petista identificada pelo ministro Tarso Genro, Lula segue sendo muito maior que o partido.

Avaliar números brutos de uma forma tão simplória é uma ofensa à inteligência de quem quer que tenha conversado uma só vez com qualquer candidato. É como o candidato a deputado federal que teve 50 mil votos e, na eleição seguinte, espera ter os mesmos 50 mil votos para deputado estadual.

Acontece que são eleições diferentes. O próprio Lula, se fosse candidato a deputado federal por São Paulo, teria muito menos votos dos que os que teve para presidente. Qualquer vereador de cidade com 10 mil eleitores sabe disso.

Pelo que pude entender, os autores dessas matérias tinham lá suas teorias e saíram atrás de fatos que pudessem comprová-las, ainda que equivocadas. Deveria ser o contrário. Depois as pessoas não entendem por que jornalistas perderam a primazia de campanhas para os famigerados “marqueteiros”.

Anotações sobre uma campanha que passou

Há vários tipos de campanha eleitoral. A maioria dos candidatos, claro, acredita que tem chances de vencer. Há também aqueles que entram no jogo por outros motivos: se projetar politicamente para o futuro, se credenciar para vender seu apoio em um eventual segundo turno, ou servir de suporte para uma candidatura maior. Nunca participei de nenhuma dessas e não imagino como seja, mas não deve ser o pior trabalho do mundo, se se descontar o que imagino ser a péssima auto-estima de quem se vê fazendo esse papel de coadjuvante.

Mas há um tipo especial: aquele que se sabe derrotado mas, ao mesmo tempo, se leva a sério.

Este ano houve duas candidaturas “sérias” à prefeitura de Aracaju. A de Marcelo Déda, candidato à reeleição, e a de Susana Azevedo, deputada estadual que contou com o apoio velado do governador João Alves. Dois outros candidatos se lançaram, também: Jorge Alberto, do PMDB, e Adelmo Macedo, do PAN. (Houve também o PSTU, mas desses eu não falo porque eu me respeito e, como meu sonho é ser burguês, eu não voto no 16. Além disso eles têm um desprezo proletário pelo bom e velho marketing político que me incomoda, porque a possibilidade de tirarem meu pão não é das mais agradáveis.)

Não vou entrar no mérito político de cada uma, porque isso, sinceramente, não me interessa. O que me interessa é outra coisa: é a forma como as campanhas se desenrolaram.

Em primeiro lugar, ninguém esperava ganhar essa eleição de Déda. O que estava em jogo aqui era outra coisa, era forçar um segundo turno para que ele não saísse fortalecido em demasia para uma eventual disputa pelo governo estadual em 2006. Ou, pelo menos, esperar que ele ganhasse com menos votos do que em 2000.

Susana começou a campanha dela de maneira errada. Começou batendo, e batendo pesado. Por si só isso já é um erro grave. Se alguém define que sua estratégia será desferir golpes abaixo da linha da cintura, recomenda-se que se mostre, antes, uma boa pessoa para o eleitor. Suas críticas serão mais bem vistas. Susana, no entanto, dispensou essa pequena formalidade e entrou de sola.

Além disso, há um limite em uma campanha de “baixaria”. É o limite da realidade. Se eu passar um progama inteiro dizendo que o sistema municipal de saúde é uma droga, enquanto a população olha em volta e vê o SAMU, um serviço de atendimento de urgência que se tornou modelo para o país, ela vai concluir que eu sou um mentiroso, e nem mesmo as críticas verdadeiras — e ela fez algumas — que eu faça serão aceitas.

Finalmente, na hora de fazer propostas, ela errou no formato. Soltava em cada programa uma enxurrada que diziam pouco ou nada para o povo. Perdia na comparação — uma coisa é dizer que vai fazer, outra é mostrar o que foi feito — e na forma escolhida, porque mostrávamos tudo com mais consistência.

Esses foram alguns os erros da campanha de Susana. Houve mais, mas isso importa pouco: acertou em seus últimos programas, mas àquela altura era muito difícil reverter um quadro que estava quase definido desde o início.

Em poucas semanas ficou claro que eles estavam sem saber o que fazer. Era óbvio que mudavam os eixos do programa de acordo com o resultado das qualitativas que recebiam no dia seguinte. Durante alguns programas iam e vinham da baixaria a programas mais propositivos; mudaram detalhes de jingle, tiraram apresentadores, reforçaram a presença da candidata a vice. O problema é que tentavam uma abordagem e as qualis davam a vitória a Déda; então mudavam tudo e as qualis continuavam dando a vitória a Déda. E então mudavam de novo. Chegaram a um ponto de desorientação tão grande que eu cheguei a discutir com o Cauê o que estava acontecendo: ele achava que no final das contas eles não estavam realizando qualitativas, enquanto eu achava que eles estavam tão zonzos que estavam lendo essas qualis de modo errado. Claro que Cauê, que sempre sabe das coisas, tinha razão. Ninguém com acesso a pesquisas faria aquilo.

Por exemplo, aquele post dizendo que “A vida é bela” foi uma comemoração pessoal. Nós tínhamos feito um programa que julgamos ruim, com falhas em sua estruturação e com vários problemas durante a produção. Na hora que o programa eleitoral acabou começaram as auto-críticas. E no dia seguinte, quando chegou a quali, vimos que demos um banho na concorrência. Por isso a vida é bela, e por isso os risos à toa.

Eu já participei de campanhas em crise. Não é o melhor ambiente do mundo. Nessas horas, há sempre dois grupos que disputam a primazia da definição estratégica da campanha. O pau come, e come feio. Enquanto isso, a equipe de criação fica perdida, porque nessas horas o comando fica mais frágil, mais volátil. A pressão é enorme, e o resultado é normalmente a paralisação. É por isso que no início de setembro eu já estava com pena do pessoal que fazia a campanha de Susana. Porque certamente dormiam pior que a gente, do lado de cá. Sorriam menos. Cometeram algumas falhas do ponto de vista criativo, claro, mas o verdadeiro erro estava na estratégia política adotada, e disso eles não tinham culpa.

O resultado virou notícia nacional.

Houve um caso pior que o de Susana, no entanto. O candidato do PMDB, Jorge Alberto, era um deputado federal que resolveu projetar seu nome na capital. Deveria ter feito uma campanha limpa, apresentando propostas, dando o seu recado. No entanto, resolveu fazer o jogo do governador e passou a bater em Déda. Virou mero suporte da candidatura de Susana, muitas vezes caindo no francamente ridículo, cometendo erros primários — como por exemplo gastando minutos preciosos reclamando que Déda não reconhecia mais seu esforço em liberar verbas para determinadas obras; só ele não percebeu que estava fazendo propaganda dessas obras e dizendo, implicitamente, que Déda realmente tinha trabalhado. Definiu um slogan (“Vote em quem vai ser prefeito”, ao que o povão respondia “Déda”), e depois mudou para “Agora é 15”, copiando o slogan de Lula em 2002 sem atentar para o fato de que aquele slogan tinha uma razão de ser, e ele não tinha nenhuma. Terminou em quarto lugar, com menos de 4%. E o resultado, se é que posso fazer previsões, foi pior do que se ele tivesse ficado em casa. Porque um quarto lugar numa eleição majoritária é desmoralização. Se ele queria entrar em Aracaju, entrou com o pé esquerdo. E ainda levou uma rasteira.

Mas o mais importante, mesmo, é que este foi um momento importante na história política de Sergipe.

Há 10 anos, participei da campanha de um fenômeno político chamado Jackson Barreto. Era uma campanha sem pesquisas, baseada apenas no feeling. Num dos maiores erros de sua história, o Ibope deu a vitória do outro candidato, da situação, no primeiro turno, com 70% dos votos. Todos nós nos despedimos achando que tínhamos perdido. E no entanto Jackson ganhou aquele primeiro turno (teria a eleição roubada no segundo, mas isso é outra história). Aquele foi o ápice da carreira de Jackson, e provavelmente a minha escola em termos de marketing político.

Se a minha leitura de qualitativas estiver correta, se consigo enxergar o que se passa nas ruas, e se os resultados das eleições no interior indicarem alguma coisa, Sergipe está presenciando o nascimento de um novo fenômeno chamado Marcelo Déda.

Ontem e hoje

Via John Robb:

Média mensal de baixas americanas (mortos e feridos) durante a invasão do Iraque: 482
Média mensal de baixas americanas (mortos e feridos) durante a ocupação do Iraque: 415
Média mensal de baixas americanas desde a transição para o “governo” iraquiano: 747
Número de ataques à indústria iraquiana do petróleo em abril de 2004: 4
Número de ataques à indústria iraquiana do petróleo em junho de 2004: 12
Número de ataques à indústria iraquiana do petróleo em agosto de 2004: 21
Preço do petróleo (contrato de cinco anos) 1991/2001: ~$20
Preço do petróleo (contrato de cinco anos) 2004: $35
Estimativa do número de guerrilheiros insurgentes no Iraque em novembro de 2003: 5.000
Estimativa do número de guerrilheiros insurgentes no Iraque em setembro de 2004: 20.000
Estimativa não oficial do número de guerrilheiros insurgentes no Iraque hoje: entre 40.000 e 50.000
Custo médio anual das guerras no Iraque e no Afeganistão para os EUA: ~$82 bilhões (o que foi gasto até agora e os $87 bilhões pedidos para 2005 para guerra e reconstrução)
Custo médio anual da guerra do Vietnã (em dólares de hoje): $61.8 bilhões

A propósito, estima-se que a média mensal de mortos iraquianos seja, por baixo, 20 vezes maior que a americana.

Pequena contribuição rafaeliana à história política de Sergipe

Achei, sem querer, um artigo sobre o movimento estudantil em Sergipe entre os anos 60 e 90. É assinado por Kátia Maria Araújo Souza e Heleneide Vieira Lessa.

Caras Kátia e Heleneide: vão perdoando a sinceridade, mas o artigo de vocês é muito ruim. Ruim de doer, mesmo: vago demais, sem consistência, generalista demais. Não demonstra ter havido pesquisa alguma. A geração de que trata já tinha chegado ao poder quando vocês escreveram o artigo, mas isso parece não significar nada. Vocês preferiram falar de aspectos nacionais, de modo solto, repetir informações disponíveis em qualquer artigo de segunda, em vez de tentar descobrir um pouco como as coisas ocorreram aqui. Citação de um ou dois nomes, leitura de um ou dois jornais e boletins de facções partidárias não são pesquisa. E como o artigo foi financiado pelo Estado, isso era o mínimo que vocês deveriam fazer.

Por isso aqui vão, com a humildade de mentira que me é característica, algumas pequenas contribuições ao artigo mal feito e preguiçoso de vocês.

Posso falar apenas de um momento específico, a segunda metade dos anos 80. Parece distante, mas foi um momento interessante e singular: o país, recém-saído da ditadura, tomava uma overdose de democracia — às vezes com exageros. Quem viveu os anos Sarney lembra bem disso.

Agora deixem-me dividir uma impressão minha com vocês. Sempre achei que o fim da ditadura (e o fato de os campi ficarem longe dos centros das cidades) deixou o movimento universitário meio sem rumo. Depois de um momento brilhante no início dos anos 80 (quando tanto o atual prefeito de Aracaju, Marcelo Déda, quanto seu vice Edvaldo Nogueira foram presidentes do DCE da Universidade Federal de Sergipe), que vai basicamente até 85, o movimento universitário perdeu muito da sua relevância. Por exemplo, foi em Aracaju que Maluf, em 1984, começou a descer ladeira abaixo, queda só revertida quando Duda Mendonça assumiu o controle sobre seu marketing. E vocês sequer citam o grande quebra-quebra de ônibus em 1984. Foi um momento histórico no movimento estudantil do Estado e vocês fingem que ele não existiu.

Para dar um pouquinho de conteúdo ao artigo vocês não precisavam sequer ir atrás de uma biblioteca. Bastava conversar com as pessoas certas.

Mas vamos continuar. Não sei se vocês sabem, mas a partir daí o movimento secundarista passou a ter mais importância. Era quem levava estudantes para a rua e quem no fim das contas acabava, se não pautando, pelo menos dando ressonância ao debate político.

Há provavelmente 4 momentos importantes no movimento estudantil dessa época — que não é sequer mencionado no tal artigo. A reconstrução dos grêmios e a expulsão de 4 alunos do Atheneu, o mais tradicional colégio público de Aracaju, em 1987; a greve (e conseqüente saída da diretora) dos alunos do João Alves, em 1988, provavelmente o momento de glória do movimento secundarista; e um último quebra-quebra de ônibus em 1988, na universidade, evento extemporâneo e já sem tanta relevância.

Com exceção do tal quebra-quebra, todos eles foram eventos liderados por secundaristas. A luta pela meia-entrada e pelo passe escolar, que se estendeu até 1990, se não me engano, era definida pelas palavas de ordem dos secundaristas. Na campanha de Lula, eram os secundaristas que faziam estudantes caminharem quilômetros para os comícios. No Fora Collor até eu, afastado havia anos de qualquer tipo de movimento popular, resolvi puxar umas duas passeatas, só para sentir de novo o gostinho dos velhos tempos. Eu sou um nostálgico, vocês entendem. Mas para que vocês tenham uma idéia da situação, eu fazia direito na UFS mas fui puxar passeatas em colégios secundaristas. Por isso posso afirmar que a grande massa de estudantes que estavam ali não eram mobilizados pelo DCE, e sim pelos secundaristas. E por favor, não confundam as circunstâncias políticas do sul do país com as de Sergipe. Ao fazerem isso vocês acabam com o seu texto. Mais.

Por isso, caras Kátia e Heleneide, quando fizerem um novo artigo sobre o movimento estudantil nessa época, procurem informações nos partidos políticos. Eles podem lhes informar quem foi quem, como as coisas aconteceram, seus erros e acertos. Não custa muito. Procurem por gente como Alberto Paixão, Indira Amaral, Helmiton Laurentino, Adailton Batista, Marcelo Menezes e Ronaldo Galvão, do PCdoB na época; Iraci Mangueira e Êuton, do PCB.

Eu, por exemplo, posso lhes dizer como era ser presidente do grêmio do João Alves quando colocamos a diretora para fora. Posso lhes garantir que é uma história até engraçada, e que, pelo menos da minha parte, tem como moral “herói é aquele que não teve tempo de correr”. Como também posso contar, se lhes interessar, das brigas entre os diretores do grêmio — esses que sem querer deveriam fazer parte dessa tal história — para fazer “plantão” no turno da noite, onde estavam as mulheres mais, bem… Ah, esqueçam.

Festa estranha com gente esquisita

Artigo em nominimo mostra a brincadeira que é fazer política Brasil afora.

Parece haver um certo deboche em relação ao Nordeste: a maioria dos candidatos mencionados no artigo pertence a essa região. Não que eles não existam, claro, mas se não me engano Paulinho Vesgo é de Bagé, assim como vários outros cujos santinhos vêm sido distribuídos em um e-mail que está circulando a internet ultimamente. E pelo amor de Deus: o número de absurdos que vejo no Rio é de fazer inveja a qualquer manicômio.

Só um detalhe: o candidato Chico Buchinho — com o qual não tenho nenhuma relação além de cumprimentos educados e em quem, en passant, não votarei — é um político sério, com uma longa história de luta política e cultural, muito longe do folclore que parece mover candidatos como Shana, o já legendário Rôla e um que a reportagem esqueceu: Jabá.

Agonalto

Hoje conheci Agonalto Pacheco.

A história é meio longa. O professor Euton, candidato a vereador pelo PCB, chega à produtora para gravar alguns programas. Traz consigo metade da Juventude Comunista.

Conheço Euton há mais tempo do que gostaria de lembrar. Fizemos movimento estudantil juntos, em lados opostos. Paro para conversar com ele, lembrar que no meu tempo não havia tanta mulher em volta. Ele lembra que só havia uma mulher realmente bonita, que namorei. Depois me pede para escrever um texto para os dois homens que vão falar no seu programa. Estou recitando a primeira versão do texto para ele (“Vote no Euton, aquele filho da mãe revisionista que combati no movimento estudantil!”) quando dois velhos, os homens que vão falar em seu programa, entram e falam com ele.

Pergunto quem são e ele diz: Agonalto Pacheco e Matos, presidente estadual do PCB. Imediatamente vou atrás do Agonalto. Sempre quis conhecê-lo.

Converso rapidamente com o Matos, velho intransigente e exaltado. Orgulhosamente lembra que é militante do PCB desde 1937, que só foi preso durante o governo de Dutra, prisão rápida e boba. Me lembra um pouco o que eu seria se continuasse comunista, e não é uma hipótese agradável. Mas com o canto do olho não perco Agonalto de vista.

Agonalto é uma das lendas da esquerda sergipana. Foi um dos presos políticos libertados em troca do embaixador Charles Elbrick, em 1969. Ferroviário, é um sujeito alto, magro. Suas roupas são muito, muito simples, talvez um pouco além do limite do ascetismo. Converso com ele sobre um assunto simples, um documentário, e ele concorda em participar e me dá seu telefone. Há uma série de outras perguntas que eu gostaria de fazer, mas há um tempo para plantar e um tempo para colher. Eu vou voltar a falar com Agonalto daqui a algumas semanas.

É interessante olhar a foto dos presos prestes a serem exilados (faltam dois que seriam pegos numa escala em Recife, entre eles Gregório Bezerra) e ver o que foi feito deles. Boa parte morreu, como Luiz Travassos, o primeiro em pé a partir da esquerda. O segundo é hoje o Richelieu do Brasil e atende pelo nome de José Dirceu. Outros envolvidos no episódio, como Fernando Gabeira e Franklin Martins, sao muito conhecidos para que se fale neles. Agonalto é o segundo a partir da esquerda, agachado e algemado como os outros.

Enquanto isso Agonalto leva sua vida simples em Aracaju. Tem dez filhos, e uma tranqüilidade que me impressiona. É um homem simples, uma lenda que não faz questão de ser lenda, nem liga para isso.