A gente somos Primeiro Mundo

Entrevista de José Genoino a O Globo do último domingo:

O GLOBO: As críticas à expulsão dos quatro parlamentares partem até de intelectuais estrangeiros, como Noam Chomsky.
GENOINO: Não entendo por que alguns intelectuais europeus não compreendem que você não tem democracia sem regras (…).

Pensei em avisar a Genoino que Chomsky é americano. Mas não vale a pena: fazer isso e perder essa agradável sensação de que fazemos parte do Primeiro Mundo, e evitar que acabemos achando que Buenos Aires é a capital do Uruguai?

Troféu Berzoini de Crueldade

O PFL lançou o “Troféu Berzoini de Crueldade”.

É destinado às frases mais infelizes ditas pelo governo Lula. A tentativa de “eldericídio” do Berzoini é hors concours; no páreo estão “O alarme é maior que o drama”, do Jaques Wagner analisando o desemprego, “Temos que criar emprego lá (Nordeste), porque se eles continuarem vindo para cá (São Paulo), vamos ter de continuar andando de carro blindado”, do Graziano, e outros menos cotados.

Você pode votar aqui. Os vencedores terão seus nomes inscritos no Livro do Tombo.

Tem algo de esquisito no mundo quando justamente o PFL, mastodonte fisiológico, é o autor de uma das mais bem-humoradas críticas ao governo que já se viu por estas plagas. Eu ainda estou tentando entender. Negociatas e acordões parecem mais a cara do PFL, não iniciativas sutis, embora cáusticas, como esta.

O que aconteceu com o meu velho mundo estável e previsível, onde polícia era polícia e bandido era bandido?

O irmão do diabo não é tão mau

Mas para não dizer que todos os Bush são imprestáveis, eis que aparece o irmão do presidente, Neil Bush, para resgatar o bom nome da família.

Neil é conhecido por usar o nome dos Bush para descolar um trocado. Se mete em escândalos financeiros desde 1988. Entrou há pouco num negócio com o filho de Jiang Zemin, ex-presidente da China, que vai lhe render dois milhões de dólares. Tem complicações referentes à paternidade de uma criança. E admitiu que nas suas viagens à Ásia tem feito boas farras com as moças de vida fácil.

Seu depoimento é brilhante:

Ele admitiu no depoimento que fez sexo com várias outras mulheres em viagens anteriores para a Tailândia e Hong Kong, há pelo menos 5 anos.

As mulheres, disse ele, simplesmente batiam na porta do seu quarto de hotel, entravam e faziam sexo com ele.

Ele disse não saber se elas eram prostitutas porque nunca pediram dinheiro, e ele não pagou a elas.

“Sr. Bush, o senhor tem que admitir que é extremamente notável que um homem abra a porta de seu quarto de hotel e tenha uma mulher ali, em pé, e faça sexo com ela”, disse Brown.

“É, foi bastante incomum”, disse Bush.

A notícia completa está aqui.

Neil Bush para presidente. Pelo menos o mundo vai poder rir enquanto é triturado.

Vade retro

Tem um aroma agradável pairando no ar.

A se julgar pela quantidade de blogs americanos pró-Dean e pró-Clark, há uma revolta crescente contra o Grande Satã do Ocidente nas terras d’além Rio Grande.

Com a guerra no Iraque se estendendo indefinidamente, cada vez mais americanos têm a certeza de que entraram numa fria. Bush conseguiu universalizar a antipatia contra os EUA e sangrar as finanças do país mais rico do planeta.

Ao que tudo indica, parece seguir o mesmo destino de seu pai.

O mundo, penhoradamente, agradece.

O blog de Satã

Não é surpresa que o blog de Bush seja, afinal de contas, bom. Por uma fração do que a campanha está gastando já se conseguiria fazer algo tecnicamente decente.

Mas nem sempre dinheiro resolve o problema de falta de pertinência e de criatividade. O blog de Bush não é exatamente criativo, mas é pertinente, adequado. Provavelmente, à medida que a campanha for avançando, vai se tornar cada vez mais eficaz.

Eles começaram bem: não fingem que é o próprio Belial quem escreve o blog. Agora só falta construírem sua rede, fundamental em se tratando de blogs. Estão se esforçando.

Se a corte de Asmodeu me pagar bem eu ajudo a coordenar esse processo; tenho algumas idéias sobre o assunto. E que ninguém se espante. Nunca neguei que minha alma estava à venda.

Macróbios

Só há uma explicação para a suspensão das pensões dos velhinhos com mais de 90 anos pela Previdência Social, e certamente não é a oficial.

Eles devem estar tentando ver se os desgraçados, que insistem em continuar vivos após o fim do prazo de validade, morrem logo, do coração. Ou de desgosto. Ou de qualquer coisa, contanto que morram de uma vez.

Comentários sobre os comentários sobre os judeus

Bem, tem alguns comentários que eu queria fazer sobre os comentários do post seriado sobre os judeus, que não caberiam naquele espaçozinho.

Plataformista, o que torna o Holocausto algo singular não é o número de judeus mortos, mas o fato de se montar uma máquina bem azeitada com a única finalidade de matar um povo, pelo único crime de serem de uma etnia específica (lembre-se que ser judeu diz menos respeito a religião que à sua noção de nação e etnia). A escravidão no Novo Mundo matou mais gente, no total, mas seu objetivo não era a eliminação dos negros, e sim seu aproveitamento econômico.

A idéia de se matar seres humanos, naquela escala e de forma industrial, é única na história da humanidade.

Além disso é sandice dizer que negam a civilização como ela é. Independente de sua crença religiosa, Plata, você carrega a tradição e os valores judaico-cristãos nas suas costas, queira ou não. Eles são a civilização ocidental.

Quanto às guerras entre árabes e judeus, se não me engano a primeira agressão partiu dos árabes (não tenho certeza; posso estar errado). O que vem depois é conseqüência. O que torna Israel um Estado odioso — e ultimamente um Estado racista e genocida que não deixa nada a dever ao III Reich — é a forma como vem se comportando desde a ocupação da Cisjordânia. A propósito, os judeus estavam ali desde antes da criação de Israel, antes que esse assunto venha à tona. Têm todo o direito de estar ali.

Ao mesmo tempo é meio irritante, mesmo, essa idéia de que judeus são eternas vítimas e sempre bonzinhos; há alguns ecos disso no que o Alter diz. Não são. São gente como eu, e eu não sou bonzinho. Nos últimos 50 anos essa propaganda pró-judaica vem tomando corpo (ajudada por Hollywood, claro; dê uma olhada na ficha técnica de qualquer filme para entender a razão destes parêntesis), e é tão inverdadeira como as bases sociológicas do anti-semitismo nazista.

Paulo, se a gente conclui que o cristianismo é bom porque dura 2 mil anos, além do que o Alter falou posso concluir também que a escravidão como um conceito socialmente aceito também é boa, porque vem durando muito mais que isso, né?

De qualquer forma, o cristianismo não durou tanto tempo somente por sua força como sistema dogmático ou justeza divina, mas porque politicamente os cristãos foram inteligentes e perseverantes. Enquanto os judeus não faziam proselitismo, os cristãos decidiram que todos deveriam ser cristãos. Inclusive Constantino. Principalmente Constantino. Além disso, em seu furor evangelizador, o cristianismo patrocinou e deu justificativa moral à expansão européia, como se pode ver pelas cruzadas, pelo genocídio dos índios brasileiros, pela conquista dos astecas, e tantos outros exemplos. A habilidade cristã em chegar ao poder político é o principal fator determinante de sua permanência.

(Antes disso, no entanto, vem um dos meus heróis, São Paulo, provavelmente mais importante que Jesus na história do cristianismo. Mas isso já é assunto para outro post.)

Anti-semitismo

A origem do anti-semitismo — que é diferente de outras vertentes de racismo — está na necessidade do cristianismo de validar sua fé através da negação das crenças judaicas.

O cristianismo está fundado na divindade e no messianismo de Jesus, o que os judeus, obviamente, negam até hoje. Como os cristãos vêm sua religião como uma evolução do judaísmo, se tornou imprescindível denegrir, de todas as formas, o judaísmo. E aí, mais que malévolos, os judeus foram transformados no próprio mal: quem mais seria capaz de matar o filho de Deus, além do próprio diabo?

Essa necessidade se imbricou de tal forma no arcabouço teológico do cristianismo que, como diz Daniel Goldhagen, “o anti-semitismo se tornou o corolário do cristianismo”.

É isso que torna o anti-semitismo diferente do preconceito contra os negros, por exemplo. É curioso que muita gente que nunca viu um judeu em sua frente acha que ele é intrinsecamente ruim, usurário, malvado. O verbo judiar é o melhor emblema dessa noção.