As alegrias que o Google me dá (XLIV)

macumba para fazer uma virar prostituta
Vou completar a sua frase e achar que o despacho é para uma mulher virar prostituta, porque não me parece que você tenha algum interesse em fazer uma lhama vender o corpo. Vou além: acho que a mulher é aquela que seu marido está comendo, em vez de comparecer em casa. E aí me pergunto: você não pode ser tão burra assim. Eu não acredito. Porque se a moça cair na vida, e passar a caprichar, aí é que o bobão do seu marido não volta mesmo para casa.

trabalhinhos de adolescente de 31 anos
Tem assim, ó, na APAE.

trabalhinhos evangelicos
Tem assim, ó, na APAE.

gueis asima 18 anos
Agora você me deixou numa situação complicada. Vem cá: para não correr o risco de ser taxado de homofóbico, e levando em consideração o seu respeito admirável à idade mínima legal para fazer saliência, posso pelo menos debochar do seu português? Eu sei, é recurso de última, mas vi a frase e queria brincar com ela, e já encheu saco associar “guei” ao Biajoni — eu não tenho mais piada para fazer com o Bia —, e se eu fizer piada de bicha vão cair matando em cima de mim que os tempos de Costinha já vão longe e o próprio Costinha já vai longe, e aí me resta dizer porra, acima é com C.

fotos de mulheres com clitoris bem dotados
Infelizmente não sei onde conseguir. Mas algo me diz que se eu arranjar fotos de travestis mal dotados vai dar no mesmo para você, né?

elvis presley usava preservativos?
Não faço idéia. O que eu sei é que quando viu a filha casar com Michael Jackson, enquanto rolava em sua tumba em Graceland ele se arrependeu de não ter usado naquele fatídico dia.

tomei plasil na veia e vi a morte
Mas viu de longe, né? Tanto que ficou aí para contar sua história. E a gente cá fica pensando: nem para ela chegar perto e te levar. Você e o Peter Fonda viram a morte, e se tornaram chatos por causa disso. Mas o Fonda quase morreu de tiro, e você quase morreu de Plasil. Morrer por causa de Plasil é humilhante, eu não contaria para ninguém se acontecesse comigo — a não ser que morresse de cocaína como aquela cantora, e então o Plasil seria uma desculpa válida. Talvez tenha sido por isso que o Fonda ganhou uma música de John Lennon e você ganhou umas linhas cá neste bloguinho vagabundo.

e sina aumenta o pesnes com as mâe
Desculpe, mas complexo de Édipo não é sina, é problema psicológico. Talvez agravado pelo fato de você ter um pintinho tão pequenininho. Seu caso é grave.

exodus e diminuição da libido
Claro que diminui. O filme é um porre. O livro deve ser pior ainda. Não tem circuncisão que aguente um treco daqueles.

arvores barriguda estranhas
Foi o pau-rosa, aquele safado, não foi? Mas tudo bem. Casa amanhã.

porque algumas pessoas são a favor do porte de armas?
Porque algumas pessoas, como você, despertam umas vontades estranhas nas gentes.

efebos pagando boquete
O moço aí quer ser Sócrates, pelo visto. Sonha com a Grécia antiga. Para além dos grandes debates filosóficos e daquela bobagem de cavernas, ele quer mais. Ele quer efebos — efebos altos, fortes, gentis e glabros, um Alcibíades para chamar de seu, jogando aquela conversa de “só sei que nada sei, mas ai, meu gostoso”. E eu sempre disse que nessas faculdades de filosofia só dá viado.

tenho me sentido triste desanimada para tudo hipocondriaca achando que vou morrer com dor de cabeça e no corpo e enjoo o que pode ser
O dotô Rafael Galvão tem uma boa e uma má notícia para você. A boa: você não é hipocondríaca, pode respirar aliviada. A má: pelos seus sintomas, você não passa de amanhã.

todas musicas de rafael galvão
Meu talento musical só é maior que o talento para a matemática, mas vamos lá. “Dá Pra Mim, Gostosa”; “Se Cobrar Eu Não Pago”; “Chato, Eu?”, e o meu maior sucesso: “Não Dei Certo Na Vida, Aí Virei Blogueiro”. Fiz uma grande turnê por casas de boa reputação em Cabrobó, Santa Brígida, Uauá, Capim Grosso e Olho d’Água do Casado. Tive tudo o que um ídolo do rock poderia ter. Certo, minhas tietes eram velhinhas desdentadas — mas rapaz, que boquetes inesquecíveis. Então tive alguns problemas quando disse que éramos maiores que o Google. E aquilo me emputeceu tanto que deixei a música e fui ser gari.

exemplo rimas pobres
Das Dores morava lá no Pavão,
E só tinha vestido de chitão.
Pegava todo dia o mesmo busão,
Para limpar a casa do patrão.
Almoçava sempre no bandejão,
Comia com garfo mas preferia a mão,
Jogava na Sena mas sorte não tinha, não.
Morreu de esquistossomose — um baita buchão
E foi enterrada numa carneira sem identificação.

donaren retard para que serve
Sei não, mas pelo nome é o remédio que você pediu a Deus.

quem botou fogo em roma – galvão
Fui eu, não; foi a Neidinha. A Neidinha era um moço de Goiânia que foi tentar a vida na Itália. Botou peito e botou botox, e de repente todo mundo na bota só falava na nova travesti brasileira que estava tocando fogo em Roma. Ia gente de toda a Europa atrás da Neidinha — dizem que foi ela quem iniciou Ronaldo nas delícias do amor que não ousa dizer seu nome. Aqui no Brasil os despeitados diziam que ela estava na pior — aquilo era estar na pior? Mas Neidinha foi burra, porque se empolgou com o sucesso, achou que ia durar para sempre e cortou o pinto fora, e foi como se tivesse matado a galinha dos ovos de ouro (sem trocadilhos, por favor, que este é um blog de respeito), e então ninguém mais quis saber da Neidinha, oh, Neidinha. Hoje a Neidinha faz programa por quaisquer 10 euros na Via Ápia.

eu lirico é com hifem ou sem hifem
Não sei e não quero saber, porque qualquer pessoa que tenha algo a falar sobre o seu “eu lírico” não me interessa, e dela eu quero distância.

putas loucas a forder na holanda em toda a maneira chopando na piça e levar no cu ouvidos
O luso aí é um triste. Primeiro, por ser português — não tem aquela conversa de melancolia portuguesa? Segundo, por ser analfabeto e escrever “foder” com um R a mais e confundir a velha e boa felação com uma serpentina de chope — também velha e boa, mas ó, pá, tem hora para tudo. E terceiro por ter um pinto tão pequeno que cabe no ouvido de uma holandesa. Na boa: no lugar dele eu também seria um triste.

fotos de freiras depravadas peitos grandes
Finalmente achei, nas brenhas das taras do Google, um irmão em espírito. Uma alma gêmea com as mesmas altas aspirações estéticas. Ou, se preferir, outro doente frustrado como eu.

como fuder uma mina
Dá um tempo, paulista burro, que isso até as cobras do Butantã sabem.

fluoxetina e sertralina tiram o efeito dos anticoncepcionais?
Pelo amor de Deus, não diz uma coisa dessas. Nem em sonho. Porque se tirarem o resultado vai ser outras coisas como você.

porque a galinha não tem umbigo
Porque o umbigo impedia que ela atravessasse a rua.

simpatias para diminuir a vagina
Conheço nenhuma, não, senhora. Mas se ajudar, conte com a minha. Simpatia, claro.

porque os jacares e as galinhas nao tem umbigo e os homens e macacos tem ?
Jacaré tem umbigo, sim. Se duvida, chegue bem perto de um, vire-o de costas e verifique. Se não tiver, volte aqui que eu te pago uma cerveja.

as praias do sergipe são feias
São, mas sua mãe é mais.

como detectar um homem gigolô
Pelo sorriso no rosto e pelo orgulho altivo com que anda na rua.

tem efeito colateral misurar viagra com rivotril?
Não sei. Mas que vai ser muito engraçado ver você dormindo de pau duro, vai; e a moça vai rir tanto que vai estourar a tripa gaiteira, e vai embora porque ela se respeita, e aí para que você gastou o dinheiro do Viagra, mesmo?, era melhor ter comprado só o Rivotril e dormido para esquecer que você não tem mais jeito, é um caso perdido.

putas baratas no limao
Faz sentido. Comida a gente tempera com limão.

como escolher mandioca
Ora, sente em cima.

uma rimas com o nome rafaela
Tem essa menina, a Rafaela
De pele opaca, meio amarela
Quase morreu de erisipela
E também de febre amarela
Moça feia, mas singela
De cara redonda como uma panela
Para burra só falta a sela
E ainda por cima a desgraçada é banguela.

para uma mulher o que e fuder bem
É você parar de encher o saco com suas perguntas cretinas, desocupar a moita e deixar que ela arranje um homem que preste.

que ano os candangos saiu de brasilia o que aconteceu?
Foi aos poucos. De acordo com Niemeyer, os candangos perceberam que morar no Plano Piloto era muito desagradável, precisava de carro para qualquer coisa. Colocaram seus picuás na canga de um jegue e se mudaram para recantos aprazíveis como Samambaia e Ceilândia.

duas gostosas necessitadas dando o cuzinho pra um macaco
Você é doente. E acho que sabe disso. Mas devo reconhecer que sua imaginação, mesmo absolutamente psicótica, é capaz de imagens surreais.

exodo de prostitutas para holanda
Aqueles flamengos miseráveis. Já não basta terem invadido Recife, não basta fazerem todo pernambucano falar com orgulho idiota de Maurício de Nassau, não basta ferrarem nossa indústria açucareira, ainda por cima levam o que nos resta de melhor? Delenda Nederland, é o que eu digo. E devolvam as nossas putas que elas fazem uma falta danada.

existe algum tipo de preconceito semelhante atualmente no brasil justifique
Eu tenho preconceito contra você. E ele é autojustificável.

o que é uma mulher que fode muito
É outro nome para definir uma mulher feliz.

posso ter ficado bipolar por ter usado medicamento?
E a gente pensando que era o contrário, hein? Que coisa.

falta de concentração nó na boca do estômago vontade de chorar
Foi o seu contracheque que chegou, né? Eu entendo sua dor.

o que e classicos da literatura infanto juvenio
Não se preocupe, não são nada demais. São apenas mais alguns dos tantos e tantos e tantos livros que você não leu, a julgar pelo seu português.

fenomenos incomplienssivel
Porra, Cebolinha, para com isso! Eu já lhe expliquei o que é essa sua língua presa, e já disse que não tem jeito! Deixa de encher o saco!

boquete pecado?
É. E por isso você vai mesmo para o inferno. Agora cala a boca e continua a chupar, que o moço já está ficando impaciente.

video devaginas mais feias e fedidas do mundo fazendo sexo
Fedidas, tudo bem. Mas feias? Feias? Não quer procurar pelo Abominável Homem das Neves, não? Vai dar no mesmo.

quais sensações sem o somalium?
Semelhantes às sensações sem o Biafrum e sem o Etiopium: fastio. Esses remédios são uma bosta, tiram o apetite da gente.

simpatias para deixar um homem broxar na cama com amantes
Minha amiga, deixa eu te bater a real, se é que o João Bidu ainda não te ensinou o básico da vida: se o sujeito não broxa nem com você, imagina com carne mais nova, mais bonita e mais gostosa.

fazer cirurgia de hemorroidas particular qual o valor na santa casa de presidente prudente
É um absurdo. Custa o olho da cara. Mas se você for um menininho bonitinho, assim tipo cara de querubim, o padre vai se apiedar de você e vai custar só o olho do cu.

depois de um ano tomando antidepressivos meu marido me deixou
O que mostra que demorou, mas os remédios finalmente fizeram efeito e pelo menos a autoestima dele aumentou.

esposa parou tomar topiramato
E aí ela viu a desgraça com quem tinha se casado, e agora está lhe atazanando o juízo. Volta a dar o remédio dessa moça porque senão quem vai pirar é você.

meu marido toma somalium e dalmadorm É perigoso eu engravidar
Claro que é. Mas não pelos remédios que ele toma: o perigo é sair outra anta que nem você.

tomei rivotril as 8 horas da noite com que tempo posso tomar um cerveja
Qualquer hora. Nada vai impedir um cachaceiro como você de encher a lata.

quem dizia que uma boa idéia deve ser copiada
Eu.

como aumentar o volume do penis na calça
Durante anos este blog foi assolado por uma legião de maldotados querendo aumentar seus pequenos atributos de graça. Você, pelo visto, faz parte de uma nova geração, que já sabe que para a sua tragédia não tem jeito e se conforma com a mistificação. Eu não sei se te dou os parabéns ou não.

quando dilma pretende começar o trabalho sobre obolsa famila na cida de de duque de caxias
Tem que ser logo, né? Porque a coisa pelo visto está ficando preta, e se demorar mais um pouquinho você morre de fome.

ted o comedor de empregada ta com aids
Grandes merdas. Os sujeitos que comiam a Sandra Bréa e a Cláudia Magno também estão — se é que ainda estão vivos, porque elas já morreram, ó, faz tempo. E daí? Vai com teu preconceito de classe para a puta que o pariu, que domésticas aqui são encaradas com o respeito e a mão boba que merecem.

eu sou de virgem e só de imaginar me dá vertigem significado
Além da rima? Olha, entendo muito dessas coisas, não, mas sua vertigem é boa ou ruim? Porque se é boa você é uma moça normal. Se é ruim, você tem problemas e provavelmente vai continuar assim o resto da vida.

meu amante morreucomo eu gostava de trasar com ele
Que merda, né? Condenada a voltar a transar com seu marido. Triste, triste. Só isso justifica qualquer pacto de suicídio.

seu cabra safado
Ah, não. Você de novo? Me esquece. Já passou.

para que serve o furo do filtro de cigarros parliament
Para lembrar onde você vai tomar se continuar fumando. (Essa resposta bonitinha, hipócrita e absolutamente cretina, e que eu escrevi rindo da minha própria cara de pau, é só para compensar as grosserias que falei acima.)

lesbicas transado sadomarxguismo
Depois de anos fuçando o Awstats, finalmente descubro uma nova tara. Isso não é comum: é raro e merece ser comemorado. O sadomarxismo é uma variedade materialista dialética do velho e bom sado-masô. Implica em uma pessoa vestida de rica batendo e sodomizando outra vestida de pobre. Além disso, é indispensável que o masoquista esteja acorrentado a grilhões pesados. Outro detalhe sempre lembrado na ainda parca literatura sobre o assunto é que, em eventuais surubas sadomarxistas, os masôs devem ficar afastados uns dos outros, ou seja: não podem se unir em hipótese alguma. Isto posto, devo lembrar que existem ainda outras variações dessa condição. No sadotrotskismo o masoquista apanha, se afasta e fica xingando o sádico, que ao final lhe bate com uma picareta de borracha na cabeça. O sadoleninismo, por sua vez, é mais violento. Nele, o masoquista se veste de czar russo e diz: “Me chama de Nicolau II! Me chama de Nicolau II!” Mas ainda mais barra pesada é o sadostalinismo. É um sádico só fodendo milhões de masoquistas.

perguntar para o galvao
Não faça isso. Você não vai gostar da resposta.

Sobre Rafael Galvão

Quando este blog começou, eu morava no Rio. De lá para cá muita coisa rolou debaixo da ponte, e então eu vejo que sete anos se passaram. É tempo demais.

Comecei este blog por duas razões: dar minha opinião sobre o que quisesse e fazer dele um exercício, me desobrigando de escrever em “publicitês”, e porque na época eu tinha suficiente tempo livro para me divertir com isso.

Ele começou no Blogger.br, e se chamava Pensamentos Mal Passados e tinha um subtítulo: “Um pouco de nada, e nada de muito importante”. Pedi à Dani Parahyba que fizesse um template novo para mim, a partir de um layout que fiz, e finalmente o blog passou a ter a minha cara. A Dani mudou as cores e o resultado ficou melhor do que eu pretendia. Além disso, o blog passou a se chamar Rafael Galvão; o subtítulo sobreviveu mais algum tempo.

Em 2004, cansado do Blogger, comprei hospedagem e transferi o blog para o Movable Type, na época a melhor plataforma de blogs disponível. Além de RSS e outras bobagens, eu passei a fazer meus próprios templates. E cansava rápido dos layouts, e entre 2004 e 26 fiz uma infinidade deles. De alguns lembro bem, até hoje. O primeiro layout tentava aproveitar da melhor maneira possível as idéias do layout anterior, mas isso acabou logo.

Depois, com o tempo cada vez mais escasso, passei a simplesmente pegar templates prontos. Em 2008 o Movable Type se revelou incompatível com o meu servidor e eu mudei para o WordPress, o que acabou de vez com a possibilidade de eu mesmo fazer meus templates.

Praticamente todos os blogs que foram contemporâneos deste se foram para o paraíso dos blogs. Singrando, Escrúpulos Precários, XX Ama XY, Monicômio e NCC, Smart Shade of Blue, Homem Baile, o Tiro e Queda do Bia. Eu sinto falta deles. Tinham talento e leveza, coisas que foram ficando cada vez mais raras na blogoseira. Essa é a minha geração, uma geração que escrevia porque gostava e porque precisava — a ponto de ter cogitado se chamar Blogniks em 2005 –, e que tinha o descompromisso que, na minha opinião, é o que faz um blog. Nós não precisávamos ser lembrados que blog é conversação. Nós sabíamos disso.

E o blog foi mudando, se tornando mais auto-consciente. De uma enxurrada de posts diários (em agosto de 2003 foram 100 posts, a maioria bem curtos) ele passou a publicar um por dia, depois um a cada dois dias — e em todo o ano de 2009 foram 89. Os posts, de modo geral, foram se tornando cada vez mais longos.

Quase dois mil posts, quase 20 mil comentários, e um blog que, apesar de tudo, me dá orgulho. Porque a modéstia é uma moça que eu vi de longe muito tempo atrás, e eu acho que este blog teve alguns bons momentos. Não me envergonho da maioria dos textos, e de alguns eu gosto muito.

Foram tantos blogs que li e admirei nestes anos: o do Ina, o do Milton, o do Allan, os tantos do Marcos, o finado do Tiagón, tanta gente. E isso me lembra que apesar de não acreditar em internet, acabei fazendo grandes amigos a partir do blog. As longuíssimas conversas com o Alex e com a Tata (que eu ainda amo, e vou amar para sempre); a Carol, inesquecível, que me deu com seu marido uma tarde agradabilíssima em Notting Hill; a Viva e o Bruno numa noite inesquecível no Belmonte; a Raquel se perdendo em São Paulo comigo; a Malla que ainda me impressiona pela sua tranquilidade; o Doni na Cinelândia e no Picuí; o Ricardo no Ferreiro ou num boteco de Copacabana; o Idelber nos botecos de fim de noite ou me contando que “Uzbequistão bom, Tadjiquistão ruim” — ou algo assim; e o Bia, talvez o único que lê isto aqui desde o início. Eles provavelmente não sabem o que aprendi com eles. Talvez algum dia eu conte.

Mas a vida passa. Nesses sete anos tanta coisa aconteceu. Mudei de cidade, meu apartamento se incendiou e fiquei sem ter onde morar durante alguns meses, me mudei, me mudei de novo, me mudei mais uma vez e agora não quero mais sair da frente do rio, namorei mais do que é saudável, fiz um bocado de campanhas — algumas inesquecíveis, outras nem tanto –, fui diretor de marketing e secretário de comunicação de uma prefeitura, e diretor de marketing de um governo. Casei de novo, separei de novo. Minha filha, que era quase um bebê quando este blog começou, cresceu para se tornar uma das pessoas que mais admiro neste mundo.

E com tudo isso o tempo passou e escrever um blog deixou de ser tão divertido e sete anos é tempo demais para se escrever um blog e é por isso que este acaba aqui. Obrigado.

De novo D. João

E D. João VI voltou à minha cabeça essa semana. Ainda aquela questão sobre a genialidade estratégica dele, que tanta gente parece ter como certa.

O que define um estrategista genial é a capacidade de ver o que ninguém vê e definir as táticas necessárias para concretizar essa estratégia. Ele está à frente dos outros. Estrategista genial era Lênin, por exemplo, que no comecinho do século passado percebeu que havia uma brecha na teoria marxista e que uma revolução socialista poderia ser feita em um cu de mundo como a Rússia, queimando a etapa do desenvolvimento capitalista, e se mandou para a Estação Finlândia.

Por outro lado, em nenhum momento D. João compreendeu que, diante do estado de Portugal e das possibilidades do Brasil, a correlação de forças que caracteriza as relações entre uma metrópole e sua colônia poderia ser invertida.

Estrategista genial D. João seria se, confrontado pelas Cortes Portuguesas, se revelasse um monarca magnânimo e concedesse graciosamente a independência a Portugal. Ele poderia até anistiar a terrinha da indenização que o Brasil, tendo sido outro o desenrolar da história, teve que pagar à metrópole.

D. João não podia fazer isso porque era e se sentia português, e era incapaz de ver além disso. Em nenhum momento a sua lealdade, o seu compromisso e a sua identidade estiveram fora de Portugal. Talvez não fosse isso o que a maior parte dos portugueses deixados na mão de Junot pensava, mas para D. João essa era uma das verdades absolutas da vida: ele era português, e Portugal era o centro do seu mundo. Essa visão arraigada, claro, não lhe impediu de ver o óbvio: sua escolha pela Inglaterra em detrimento de Napoleão foi feita em função do fato simples de que Portugal dependia em praticamente tudo do Brasil. O futuro, do ponto de vista da importância econômica entre os dois países, estava aqui. Portugal, àquela altura, jamais poderia ser maior do que era. O Brasil, por sua vez, sozinho poderia ir além dos mais alucinados sonhos de Camões. No entanto, nem essa percepção lhe fez tomar a decisão que seria mais acertada

(Antes que alguém cite inadvertidamente a Revolução Americana como exemplo comparativo de qualquer coisa, é bom lembrar que essa estratégia não daria certo para a Inglaterra. Embora a velha Albion tenha lutado ferozmente para manter seus domínios americanos, naquele momento avançava com rapidez na invenção da revolução industrial. Ao bom rei Jorge, caso forçado a escolha semelhante, valeria mais a pena manter a Inglaterra que um amontoado de 13 colônias que, afinal, basicamente produziam tabaco. Além disso, os Estados Unidos são uma invenção americana: aquelas 13 colônias expandiram seu território e criaram a maior potência do século XX comprando e roubando terras de espanhóis, franceses, mexicanos, russos e, principalmente, índios. O Brasil é uma decididamente uma invenção portuguesa.)

O problema em todos os revisionistas que tentam resgatar a imagem de D. João VI é que exageram na dose e caem no erro oposto. Certo, El Rey não era de todo desprovido de talento; o problema está na confusão acerca de sua natureza. Se D. João tinha talentos, não estavam na capacidade estratégica: estavam na política.

Nisso, todos os relatos concordam: D. João sabia lidar adequadamente com as circunstâncias — o que certamente fez no Brasil, negociando com inteligência as relações entre a elite brasileira e a nobreza portuguesa, ainda que de sua forma hesitante e reativa. Esse deve ser um traço estilístico dos Bragança: é algo que D. Pedro II, outro estadista luso-brasileiro injustamente admirado, também fez sistematicamente ao longo de seu reinado, trocando gabinetes regularmente para manter o equilíbrio de forças e uma estabilidade que lhe beneficiava. O que D. João sabia era interpretar as correlações de força ao seu redor — ou seja, era um bom tático. É isso que faz um bom político. Algo diferente do que faz um bom estrategista, que é simplesmente ver mais longe o que poucos veem.

Em sua história de fuga e rendição, o lance realmente genial de D. João se daria em 1821 quando, ao ver que a elite brasileira estava querendo fazer a independência, aconselhou seu filho a tomar a frente de um movimento pelo qual a família real não era minimamente responsável. Esse senso de oportunidade, se olhado com isenção, é digno de admiração.

Mas isso é política. É a capacidade de se posicionar diante de uma situação apresentada e tentar tirar o melhor dela. D. João era um bom político, de uma estirpe e um estilo que definiu a cultura política brasileira. Só que isso não faz dele um grande estrategista.

***

Essa postura diante de D. João me parece se dever a um certo “modo carioca” de olhar o Brasil, derivado da permanência da cidade como capital econômica, cultural e política ao longo de quase dois séculos. Porque a vinda da família real foi tão importante para o Rio, deveria ter sido na mesma medida para o país inteiro, também.

Por causa dessa presunção se chega a conclusões absurdas. Começam confundindo a renovação de costumes trazida pela chegada dos Bragança com renovação social, o que não é necessariamente a mesma coisa. Além disso, tem gente que credita à vinda da família real a continuidade da unidade territorial brasileira. No post anterior sobre o assunto, o Hermenauta de saudosa memória lembrou que deveríamos considerar a hipótese de a América portuguesa ter se dividido, como aconteceu com a espanhola.

O André Kenji lembrou que há diferenças significativas que levaram à fragmentação do império espanhol e do sonho bolivariano. Que os espanhóis mantinham colônias autônomas, e enfrentavam grandes obstáculos geográficos, como os Andes, algo diferente da situação brasileira.

Mas tem mais. Muita gente olha para a Confederação do Equador e diz que se não fosse a presença da família real no Brasil, a pressão pela independência e as muitas diferenças regionais fatalmente fariam com que a colônia se subdividisse em uma série de republicazinhas bolivarianas. Bobagem.

Essa atitude centralizadora diante de movimentos separatistas já era parte da administração brasileira antes da vinda da família real — e os pedaços de Tiradentes espalhados entre o Rio de Janeiro e Ouro Preto confirmam isso. Se a Inconfidência Mineira não precisou da presença de D. João tomando banhos no Caju para ser esmagada exemplarmente, tampouco precisaram os tantos outros movimentos que se deram depois.

Foi a formação de uma certa elite administrativa brasileira que garantiu a unidade territorial do Brasil. É engraçado que as pessoas deixem de lado o fato de que essa unidade foi seriamente ameaçada e mantida a ferro e fogo em um período posterior da história nacional: a Regência. Foram aqueles quase 10 anos que definiram de uma vez o que seria o país, quando movimentos importantes como a Cabanagem, a Sabinada, a Balaiada, mesmo a Revolução Farroupilha foram combatidos e vencidos. Meio século depois, a lembrança dessa época certamente foi fundamental para que o país cometesse o crime genocida de Canudos.

Se a alguém se deve o tamanho do país, seria antes ao Padre Feijó que a D. João VI.

Thor Heyerdahl

A revista Náutica de setembro passado trouxe uma matéria sobre Thor Heyerdahl e sua famosa expedição Kon Tiki. A revista dá a entender que a teoria que Heyerdahl defendia era válida e provável. Aí lembrei de uma National Geographic antiga, de janeiro de 1971, que traz na capa um relato da viagem do Ra II, também construiído por Heyerdahl.

A viagem do Ra II foi feita para que Heyerdahl tentasse provar uma das teorias curiosas que costumava elaborar: como egípcios e mesoamericanos construíram pirâmides, deveria ter havido algum contato entre eles antes da descoberta da América por Colombo. Para provar essa teoria Heyerdahl construiu um barco de junco e viajou até a América. A primeira não deu certo e ele afundou a 600 milhas náuticas de Barbados. Construiu um novo barco, o Ra II, e aos trancos e barrancos conseguiu chegar à ilha, com o barco fazendo água e meio submerso.

Com isso, Heyerdahl mostrou que a sua teoria era possível.

Mas ele já era famoso muito antes disso. No final dos anos 40, tentou provar que a Polinésia foi povoada pelos sul-americanos. Partiu do princípio de que ventos e correntes marítimas favoráveis, no sentido leste-oeste, tornavam a sua teoria mais plausível do que a ideia normalmente aceita, de que as ilhas do Pacífico Sul — a última região do globo povoada pelo homem, há coisa de pouco mais de mil anos — foram povoadas no sentido oeste-leste. Apontou uma série de indícios linguísticos para embasar sua teoria. Precisava provar também que era possível à tecnologia dos nativos incas da época navegar em direção ao oeste através do maior oceano do mundo. Com a expedição Kon-Tiki, construiu uma balsa para provar sua teoria. Depois de pouco mais de 3 meses no mar acabou dando nas ilhas Tuamotu.

Assim como provaria mais tarde com o Ra II, ele mostrou que era possível, disso não há dúvida. O problema é que nem tudo que é possível é provável. Heyerdahl esqueceu do óbvio: toda a história da exploração por mar se dá no contravento, ou na certeza de sua existência. Não há outra maneira possível.

A explicação é muito simples: velejar contra o vento — especialmente antes da invenção da vela latina, aquela triangular — era a única garantia que qualquer explorador tinha de que conseguiria voltar, caso sua busca não desse em nada. A viagem mais difícil seria a de ida; e quando a comida e água começassem a terminar, era só dar meia-volta que chegariam rapidamente em casa, dentro de um período de tempo facilmente demarcável — e muito menor que a viagem de ida.

Resumindo, um explorador só saía mar afora tendo a certeza da volta.

Colombo só velejou rumo à América, achando que ia encontrar a China, porque já conhecia o regime de ventos do Atlântico Norte, com ventos de leste à altura das Canárias e de oeste um pouco mais acima. Cabral só chegou ao Brasil porque tentava refinar a descoberta de Vasco da Gama de que, afastando-se da costa da África, havia a garantia de ventos melhores — ele apenas afastou-se demais. Os vikings e os irlandeses só chegaram à Islândia, à Groenlândia e à Terra Nova porque conheciam os ventos e a geografia da região e sabiam quais seriam as condições de volta. Um dos tantos motivos que impediram que os chineses, muito mais avançados em navegação do que os europeus até o século XVI, chegassem à América foi a dependência confortável do regime de monções do Índico, que garantiam vento de popa na ida e na volta em um espaço perfeitamente delimitado e que lhes trazia lucros suficientes no comércio.

Nenhum navegador, por melhor que fosse, sairia Pacífico afora a favor do vento, porque isso seria garantia de morte certa. Esse era o principal elemento lógico que tornava a teoria de Heyerdahl fantasiosa. Se a matemática favorecia os sul-americanos, já que a ilha de Páscoa é mais próxima do continente, esses outros fatores se revelavam muito mais importantes.

Ou seja: era possível chegar à ilha de Páscoa com a tecnologia disponível na época. O problema era ter a vontade e a falta de juízo para fazer isso. Heyerdahl só fez essa viagem porque sabia que havia terra a oeste. Difícil seria fazer uma bobagem dessas sem saber absolutamente nada além da certeza de que seria extremamente difícil voltar.

Essa é a principal razão pela qual americanos em geral não tinham absolutamente nenhuma tradição de navegação. A terra e a navegação costeira lhes oferecia tudo de que precisavam; e o regime de ventos e correntes marítimas como a do Brasil não incentivavam muito esse tipo de exploração. Era exatamente o contrário do que acontecia com os polinésios, com pouca terra, condições favoráveis e a mais fantástica habilidade marinheira de toda a história da humanidade.

Foi contra isso que Heyerdahl se “insurgiu”. Quando se defende a sua teoria boba, a única razão é o que parece ser uma certa arrogância europeia, ainda que extremamente sutil. Parece ser um raciocínio curioso: como é o que os incas, maias e astecas chegaram a civilizações tão imponentes e não se aventuraram no mar? É mais ou menos como se perguntar por que portugueses e espanhóis esperaram até o século XV para atender ao que parecia ser a sua vocação natural, e transformaram a Europa de um continente vagabundo e atrasado na civilização que dominaria o mundo nos séculos seguintes. Heyerdahl parecia acreditar que grandes civilizações como a europeia necessariamente dariam grandes exploradores. A tese de Heyerdahl era burra e arrogante — a começar pela idéia de que a Europa era “grande” naquele momento, o que não condiz com o desprezo com os orientais receberam um Vasco da Gama andrajoso, sujo e mendicante –, e é impressionante como ainda hoje tantas pessoas, provavelmente entusiasmadas com a aventura em si do Kon Tiki, digna de todos os elogios possíveis, celebram essa teoria.

A página em português da Wikipedia, de uma mediocridade assombrosa, não contesta a tese de Heyerdahl. A versão em inglês é mais completa; lembra que a comunidade científica nunca levou a teoria do norueguês muito a sério, e que pesquisas de DNA recentes provaram que a teoria de Heyerdahl é só uma grande bobagem bonitinha.

O triste é precisar de exames tecnologicamente sofisticados para provar que uma bobagem é só uma bobagem.

It’s Alright, Ma (I’m Only Sighing)

E aí vem alguém e tenta me explicar que uma bandinha nova com uns meninos remelentos enchendo o rabo de dinheiro mas fingindo desespero é a nova sensação do rock? Rock eu aprendi ouvindo Beatles e Stones (até o Exile, pelo menos) e Who e Chuck Berry.

Uns anos atrás o Bia veio babando por um tal de Vic Chesnutt, e aí eu fui ouvir e peraí, e botei o Bringing it All Back Home ou o Blonde on Blonde para tocar, e o fanho continuou me parecendo mais forte e mais moderno que o entrevadinho agora defunto.

Olha como tal bandinha é pesada. Ah, cumpadi, vai ouvir os primeiros do Led Zeppelin. Ou os primeiros do Black Sabbath. Em um tempo em que as pessoas elogiam o Aerosmith, isso deve soar como heresia.

E num tempo em que chamam aquela música horrorosa que toca nas Jovem Pans da vida de rhythm ‘n’ blues, me pergunto o que é que eu faço com Otis Redding. E ainda não sei por que ouvir Camera Obscura se tenho tanta coisa das Supremes na cabeça ainda. Como não sei por que ouvir Vanessa da Matta se a Gal dos anos 70 era tão brilhante.

O fato é que nada, nada mais chama a minha atenção. Nada do que eu ouça deixa de parecer derivado, repetido, requentado. Vivo em uma época em que a música pode até soar nova para quem não tem 60 anos de memória musical na cabeça, mas eu tenho uma memória boa e um HD maior ainda. Eu desisti de ouvir música.

Uma pequena bibliografia dos Beatles

Uns anos atrás publiquei aqui uma pequena bibliografia dos Beatles. Alguns anos e alguns livros depois, é hora de atualizar a lista.

The Complete Beatles Recordings
Mark Lewisohn
Comissionado pela EMI como parte das comemorações do seu centenário, em 1988, acabou se transformando no livro definitivo sobre os Beatles no estúdio de gravação — e foi ali, no estúdio, que os Beatles se tornaram o que são. The Complete Beatles Recordings é um diário de todas as sessões da banda, provavelmente o livro mais acurado que já se escreveu sobre ela. Infelizmente fora de catálogo há muitos anos, se tornou uma bíblia de beatlemaníacos, o livro a que se recorre para dirimir dúvidas. Ainda espero a chance de colocar novamente minhas mãos sobre um exemplar, é o único fundamental que falta na minha estante. Mas essa espera já foi pior: os anos passaram e veio a internet, um repositório muito maior de informações. O livro mostrou ter lacunas e erros. Mas continua sendo o livro mais importante já escrito sobre o dia-a-dia dos Beatles, e necessário para que se entenda a dinâmica que fez da banda a maior de todos os tempos.

The Complete Beatles Chronicle
Mark Lewinsohn
Lançado depois do Complete Beatles Recordings, é basicamente um roteiro das atividades dos Beatles ao longo de sua existência. Inclui as gravações, descritas de maneira mais resumida, assim como um relato das apresentações ao vivo e gravações de filmes, apresentações em TV, etc. Tem também uns bons resumos históricos e críticos sobre cada ano da banda, com excelente critério de julgamento. Foi relançado há alguns anos e vale muito a pena.

The Beatles Anthology
The Beatles
Parte do projeto Anthology — que incluiu também o documentário hoje disponível em DVD e os três CDs duplos (ou álbuns triplos em vinil) –, é a história dos Beatles contada por eles mesmos. É aceitável, e certamente uma fonte inestimável, apesar deles, claramente, saberem bem os limites da verdade a que podem chegar e evitem tocar em temas polêmicos. Há pouca coisa realmente nova, mas serve como um resumo definitivo do que cada um deles tem a dizer sobre sua história, a sua versão edulcorada para a posteridade. Independente disso, é um livro fantástico como objeto, com um projeto gráfico de fazer cair o queixo. Alguém já disse que, antes que uma biografia, é uma celebração dos Beatles; e como perguntaria McCartney, o que há de errado nisso?

The Love You Make
Peter Brown
Brown era funcionário da Apple (citado por Lennon em The Ballad of John and Yoko), e este é um relato de insider. Foi o primeiro livro a revelar, de forma confiável, o lado menos aceitável da banda que dizia que tudo o que você precisa é amor. As chantagens sexuais sofridas por Brian Epstein, os maus negócios feitos por ele em nome da banda, a promiscuidade generalizada, os problemas graves de Lennon com heroína, os processos de paternidade sofridos por McCartney, as picuinhas internas e brigas por dinheiro que levaram ao fim. Longe de ser o melhor livro para se ter, se você vai ter um só, é um daqueles livros necessários para que se tenha uma visão mais completa da história da banda.

Shout
Phillip Norman
Foi a primeira biografia realmente decente dos Beatles. Lançada no começo dos anos 80, apresentava um panorama abrangente sobre a banda. Infelizmente tem muitas falhas factuais, e até mesmo investe numa teoria conspiracionista absurda sobre a morte de Brian Epstein. Além disso, como Norman tem aparentemente ligações mais próximas com Yoko Ono, tenta passar uma visão excessivamente deletéria de McCartney. No início dos anos 2000 o livro sofreu uma revisão geral, mas sua essência continuou. Mais recentemente Norman escreveu uma biografia insípida sobre John Lennon, lançada no Brasil.

The Lives of Lennon
Albert Goldman
O livro de Albert Goldman foi recebido como um exemplar particularmente imaginativo do Notícias Populares, e o paradoxo que o cerca é curioso. Parece ser universalmente desprezado, mas é utilizado como fonte por todos os biógrafos posteriores dos Beatles. Goldman é malévolo, perverso, publica muitos erros factuais e de avaliação, muitas suposições absurdas que tenta passar como fatos, e dá ouvidos demais a fofocas e mentiras puras e simples; mas sua capacidade como pesquisador é reconhecida, e ele fez um livro importante para a compreensão do maior mito dos Beatles. O livro é achincalhado por todos, mas no que diz respeito à maior parte dos fatos nunca foi desmentido — Yoko Ono, por exemplo, nunca ousou processar o autor, e processos na época eram o café da manhã dos ex-beatles. Sem demonstrar simpatia ou compaixão por nenhum dos seus personagens, o autor revelou alguns detalhes sujos sobre a banda e sobre Lennon e Yoko que, apesar de inicialmente descartados como pura fofoca maldosa, por não se adequarem à imagem idealizada de Johnandyoko que eles tentaram passar, foram mais tarde comprovados. É também um bom mergulho sobre a personalidade de Lennon; e Goldman foi o sujeito que deixou claro a todos que o ídolo que ele tenta destruir aqui era uma mistura única e fascinante de carisma e talento gigantescos e uma personalidade complexa e muitas vezes detestável.

Here, There and Everywhere
Geoff Emerick
Emerick foi o engenheiro de som da maioria das gravações dos Beatles a partir de Revolver, e peça importante na evolução sonora da banda. É o relato de um sujeito que não apenas os conheceu, mas trabalhou com eles onde realmente importava, o estúdio. É um livro fundamental para entender a dinâmica e os processos das gravações, assim como a evolução da sua visão musical e, incidentalmente, de suas relações pessoais. Por outro lado, Emerick é ligado a McCartney até hoje, o que o leva a proteger em demasia a imagem do seu amigo. Isso faz com sua visão seja deturpada em vários aspectos, e o livro acaba se encaixando muito facilmente no esforço de revisionismo de McCartney. Emerick está na lista, e George Martin não, por uma razão: ele parece compreender melhor o seu papel real na história do que Martin, embora aqui e ali dê a impressão de tentar diminuir o papel do ex-patrão.

Beatles Gear
Andy Babiuk
É o livro mais específico dessa lista: uma história dos instrumentos e equipamentos de som utilizados pela banda desde a sua formação — indo do Zenith de McCartney e o violão “garantido contra rachaduras” de Lennon ao Fender VI usado nas últimas sessões. É um acessório importante para quem tenta entender o que havia na música dos Beatles. Incidentalmente, é o livro que melhor explica, em termos cronológicos, o processo de desligamento de Stuart Sutcliffe da banda.

Many Years From Now
Paul McCartney
Oficialmente a autoria é de Barry Miles, mas isso é apenas um disfarce para a autobiografia de Paul McCartney até o fim dos Beatles; o ghost writer apenas levou um crédito maior, provavelmente para que Macca pudesse agregar credibilidade a algumas de suas opiniões, se sentir mais livre para falar as bobagens que quisesse e soltar as farpas que bem entendesse. Isso quer dizer que é um relato parcial em que omissões e distorções dos fatos formatam melhor a versão de McCartney. De qualquer forma, abrangente e bem detalhado, é importante para a compreensão da história dos Fab Four.

You Never Give Me Your Money
Pete Doggett
Livro recente, dedicado às relações comerciais entre os Beatles a partir do começo do fim e os 25 anos de processos e contraprocessos posteriores. Cobre uma lacuna existente nas outras obras a respeito da banda, que tratam do período de maneira normalmente mais superficial e se apoiam nos estereótipos do Allen Klein ladrão, do Brian Epstein incompetente mas devotado e dos meninos que só queriam fazer música. Apesar de alguns erros crassos, o livro tem um bom senso de história dos Beatles, um bom nível de imparcialidade e boa apreciação musical; mas falha em não voltar atrás e detalhar a maneira como os contratos de Brian Epstein foram firmados. É um livro importante para entender o processo de separação da banda.

The Beatles: The Biography
Bob Spitz
Spitz se beneficiou da passagem do tempo e da abundância de material biográfico para escrever um livro abrangente e bem equilibrado, que tenta fugir dos mitos sem explorar em excesso aspectos sensacionalistas. O resultado é a biografia mais completa dos Beatles, com um excelente grau de neutralidade. De modo geral Spitz tenta sempre ver todos os lados de uma questão, e mostra um bom entendimento do que era a dinâmica interna da banda. Consegue ter os fatos em boa perspectiva e evita dourar pílulas. Tem um número talvez excessivo de erros factuais — alguns graves, como errar a data da reunião em que Lennon “pediu o divórcio” ao resto da banda, e muitos outros menores; mas com exceção de Many Years From Now, Anthology e Can’t Buy Me Love (de Jonathan Gould, e recomendado de modo geral), é o único traduzido para o português, o que faz dele a melhor biografia dos Beatles disponível no Brasil.

***

O livro definitivo sobre a banda ainda não foi publicado — está sendo escrito neste exato momento. Todas as biografias dos Beatles, sem exceção, contêm erros, e muitas têm defeitos de interpretação e compreensão; mas há alguns anos, Mark Lewisohn anunciou que estava escrevendo uma biografia que deveria se estender por três volumes. Lewisohn é o sujeito que mais entende de Beatles no mundo, é próximo de todos os ex-beatles e é um bom historiador. O primeiro volume deveria ter sido publicado em 2008 e o último em 2016; a Amazon inglesa agora promete o livro para setembro deste ano, e o título será The Beatles — The Biography: Tune In, Vol. 1 (o que me leva a crer que o segundo se chamará Turn On e o terceiro, Drop Out; títulos adequados, a propósito). Quando finalmente for publicado, vai dispensar virtualmente todas as biografias dos Beatles, o que inclui a maioria dos livros recomendados aqui.

A vingança dos clones

E-mail recebido de repente, não mais que de repente:

A. Gusmão
to rafael.galvao, me

Boa tarde Rafael.
Favor fazer o depósito referente a 23/12/2010 no valor de R$ 950,00.
Banco itau
Ag.: XXXX (fica em Copacabana)
Cc.: XXXXX

Até onde sei não tenho nada alugado no Rio, e tampouco conheço algum Gusmão. Isso, no entanto, obviamente não podia ser empecilho para uma resposta adequada e respeitosa, porque credores merecem sempre alguma explicação. Pelo menos os dos outros, porque aos meus já estou acostumado e não ligo mais.

Caro A.,

Infelizmente, não posso pagar agora.

Para não parecer que deixo de pagar por má vontade, coisa que minha saudosa mãe ensinou a nunca fazer, deixo abaixo uma rápida explicação das tribulações por que tenho passado nos últimos meses.

Minha mãe faleceu e minha mulher decidiu se separar de mim, levando consigo muitos dos bens que amealhamos juntos. A esta altura, ela está se divertindo com o meu melhor amigo, ou melhor, ex-amigo. O mesmo para o qual emprestei uma soma considerável há alguns meses, e que, se não me pagou até agora, dificilmente pagará.

Além disso, estou de aviso prévio no emprego; meu hábito de beber incomodou a um dos chefes, que tem me perseguido desde que entrou na empresa. Como medida de precaução, subloquei um quarto para uma amiga que, desde que a Help fechou, também tem passado por sérias dificuldades. Os vizinhos têm estranhado o constante entra e sai de homens do meu apartamento — já que, como o senhor sabe, eu sempre fui um homem caseiro —, mas essa medida me ajudará a pagar o aluguel eventualmente.

Por tudo isso, peço a sua compreensão no sentido de me dar um prazo para regularizar minha dívida.

Obrigado.

Eu até começo a aceitar que tenha clones poetas, carnavalescos e quetais mundo afora. Mas caloteiro, não. Aí já é sacanagem.

***

Mas não terminou por aí: Nova carta para seu Gusmão.

Um cinema em cada esquina

Eu devia ter comentado na época, mas achei tão insano que era melhor não falar nada. Durante a campanha eleitoral, no entanto, o tema voltou à baila. Dilma tocou no assunto e a candidata do PSOL ao governo de Sergipe, Avilete Cruz, também defendeu a proposta de implantar uma sala de cinema em cada cidade do interior que tenha entre 20 e 100 mil habitantes (e outras mais importantes que fizeram o PSOL pedir desculpas à sociedade sergipana pela sua candidatura e tornaram a senhora, professora bem intencionada mas absolutamente despreparada, motivo de piada entre seus conterrâneos). O assunto ainda é válido. Apesar de insignificante, porque é o tipo de proposta que nunca, nunca sai do discurso.

O caso é simples: eles podiam muito bem anunciar que vão criar uma escola de datilografia em cada município, um realejo com um macaquinho dançante em cada esquina ou uma fábrica de escarradeiras para atender o pujante mercado nacional. Daria no mesmo.

Não é apenas que essa ideia seja absolutamente impraticável, como comentou o Inácio Araújo. O problema é que a defesa desse tipo de coisa representa uma visão atrasada do valor do cinema, como arte e como equipamento urbano, e principalmente do papel das políticas públicas de cultura.

Já faz algum tempo que os cinemas perderam sua função original, por mais que isso doa em saudosistas como eu. Os cinemas de rua estão acabando porque as pessoas simplesmente não vão mais a eles, na maioria dos casos. Se os multiplexes de shopping sobrevivem, não é porque são o único lugar onde se pode ver um filme, ou mesmo o lugar onde se pode vê-lo numa tela grande; mas pela experiência social que oferecem. Ir ao cinema hoje é um passatempo caro, que vale não pela apreciação da arte cinematográfica, mas por equivaler, de certa forma, à ida a um restaurante mais sofisticado ou uma viagem a uma cidade vizinha.

A importância dada ao cinema, ao edifício em si, acaba sendo supervalorizada e deturpada, quando se faz a equação entre o mundo desejável e o possível. E mascara uma incompreensão absoluta do papel da sétima arte, da política nacional de cultura e do mundo em que vivemos. Ao Ministério da Cultura e à intelligentsia nacional o que deveria importar não é se vai haver ou não cinemas em cada grotão deste país, mas se as pessoas terão ou não acesso à informação cultural.

Porque não é o suporte físico que faz o valor de uma obra: é o que ela conta e como ela conta. Mais nada. Telas cada vez maiores com resoluções que aos poucos vão se aproximando do ideal já fazem dos aparelhos de TV um suporte tecnológico melhor que os projetores de que, por exemplo, Charles Chaplin ou D. W. Griffitth dispunham para exibir seus filmes. Oferecem uma experiência suficientemente adequada para a apreciação de uma obra cinematográfica — pensando bem, ainda têm a vantagem adicional de não trazer como brinde idiotas falando alto atrás de você, ou o barulho onipresente de pipoca sendo mastigada ou sacos plásticos sendo abertos. É uma situação melhor do que a vivida pela a maior parte dos cinéfilos de hoje, que viram os grandes filmes que precisavam ver em telas pequenas — na TV aberta ou por assinatura, em videocassetes ou DVDs. Não precisaram — e nem podiam, na verdade — ir a um cinema para ter acesso ao conteúdo de que precisavam.

Se o governo quer levar o cinema ao povo, antes de anunciar a ideia mirabolante de construir um cinema em cada município — o que não aconteceu sequer quando o cinema era o único lugar onde se poderia ver filmes, e o preço dos ingressos era muito mais acessível –, deveria em primeiro lugar fortalecer as TVs públicas e torná-las mais atrativas aos telespectadores. Devia levar banda larga de internet para mais pessoas. Deveria lembrar que, já que paga para que brasileiros façam filmes, poderia facilitar a distribuição e o compartilhamento desse conteúdo pela rede — ou seja, poderia definir e exigir as contrapartidas sociais que cineastas como Cacá Diegues denunciaram com horror que julgo genuíno. O futuro está aqui, é inexorável, e acontece independente de políticas culturais de governo equivocadas.

A valorização do cinema como experiência social compartilhada também deveria estar fora da alçada do Estado. Porque há outras maneiras, mais baratas e também necessárias, de valorizar a cultura e oferecer lazer ao povo. Outras formas de arte mais baratas e também relevantes podem ser incentivadas, e deveriam ser objeto de mais atenção do governo, mesmo que demagógica.

O exemplo mais óbvio é o teatro. Em vez de criar um cinema em cada cidade, mensagem que em sua utopia enche de alegria os corações de Luiz Carlos Barreto e da Globo Filmes, o governo poderia tentar criar um teatro em cada município, e descobrir formas de incentivar a formação de grupos locais. É até mais justificável: além de muito mais barato, o teatro é uma experiência artística irrepetível fora do palco, e justifica esse ardor estatizante. Tudo bem, a maior parte da produção será intragável — mas isso também vale para o cinema. Além disso, por mais importante que seja o cinema como elemento da formação cultural do povo, há um limite de bom senso a que se deve chegar. Por exemplo, por que é tão importante que alguém em Serra Talhada, Pernambuco, veja um filme sobre o submundo carioca ou as angústias existenciais de um morador do Morumbi? Por que não seria mais importante que ela pudesse criar seus próprios espetáculos de teatro, em que a sua sociedade se enxergasse e que pudessem ser compartilhados com outras regiões do país?

A ênfase no fomento ao cinema, quando chega a esse ponto, reflete muito mais as aspirações de determinado segmento social do que as necessidades culturais do povo brasileiro. A função do Estado não deve ser, intrinsecamente, garantir a produção de cinema. É garantir que o povo tenha acesso à produção brasileira de cinema. O financiamento da produção, nos termos e circunstâncias atuais, acaba sendo uma consequência necessária. É preciso ter isso em vista. Porque quando a razão das coisas é invertida o risco é que se chegue ao absurdo e ao total desvirtuamento da função de um Ministério da Cultura.

Cine Palace

Há meses, muitos meses que não vou ao cinema. Mas não é isso que me dói, é o fato de que não sinto falta, de que passo pelos cartazes dos filmes em exibição e não sinto vontade de entrar para assistir nada, eu me dou ao respeito e não vou ver “Nosso Lar” e não vou ver a última bobagem que Hollywood fez.

Talvez seja a idade, talvez seja o fato de que os filmes estão tão ruins, talvez seja o fato de que as redes de cinema homogeneizaram tudo cá no meu canto.

Talvez no fundo eu seja um nostálgico. Porque se em geral me vejo embasbacado pelas belezuras que os novos tempos trazem, se acho graça nas internets e nos celulares, nos twitters e nos blogs, com algumas coisas fica uma sensação de tristeza pelo que se perdeu. E não é apenas um tipo de vazio fraquinho ao ver que uma parte do meu passado se foi; é a sensação de que algo importante, e melhor, acabou para sempre.

Senti isso de novo ao entrar no prédio do antigo Cine Palace.

Treze anos atrás o último cinema sério de rua de Aracaju fechou. O Palace virou um bingo, menos mal; há até uma certa poesia nisso, um bingo também é um lugar de sonhos — mas depois o bingo também fechou, e agora estão terminando as obras que vão transformar o antigo cinema, que formou gerações de cinéfilos em seus 40 anos de vida, em uma loja popular.

O Palace tinha uma bela escadaria para o mezanino, mas ela foi demolida apesar de algumas pessoas terem tentado preservá-la. Agora o cinema não é mais nada, é só um vão enorme feito para acomodar mostruários e araras onde senhoras pobres comprarão roupas para seus filhos.

Uma vida atrás o Palace tinha bancos que foram confortáveis, mas já há 20 anos apenas rangiam — hoje, coitados, devem estar acomodando as bundas pias de evangélicos orando por um Deus que não os ouve. Tinha, acho que já disse, um mezanino onde as pessoas iam namorar ouvindo o barulho dos rolos de filme no projetor — eventualmente também os barulhos de tapas se uma mão ousava mais do que o permitido, ou muxoxos de um namorado que sabia que poderia conseguir mais do que já tinha. No hall de entrada, além de espaço para dezenas de cartazes, havia uma bombonière e um bebedouro, e uns sofás para quem chegava cedo demais e não queria entrar com o filme já começado, ou que esperava a namorada chegar, ela que provavelmente viria a pé da rua Santa Luzia ou da rua Campos.

Não é exatamente que eu sinta pena de quem nunca foi a um cinema de rua, porque essa arrogância de gerações passadas é falsa e injusta, é coisa de velho burro que não entende as novas maravilhas. Mas eu preciso lembrar que um cinema de rua como o Cine Palace era um local e um evento muito mais imponente, muito mais significativo, muito mais rico do que essas salas de exibição que hoje se amontoam em shopping centers.

Cinema de shopping é só mais uma loja, um elemento a mais em um mix comercial que tem basicamente o mesmo peso de uma Casas Bahia ou de um Ponto Frio, e pode ser substituído fácil por outra coisa. Mas um cinema de rua era mais que isso. Era, antes de mais nada, um marco urbano da cidade. Era um dos referenciais da identidade de um local, era motivo de orgulho de seus donos — que normalmente gostavam de cinema, não eram apenas executivos preocupados somente com o dinheiro que entra.

Agora eu penso em um exemplo simples da diferença entre um cinema e uma “sala de exibição”: hoje só se faz um tipo de cartaz para um filme. Mas antigamente, além do cartaz principal, havia ainda cartazetes que traziam cenas do filme e se espalhavam pela entrada e pelo lado de fora do cinema — eles tinham um nome específico, eu só não lembro qual era.

Talvez seja sinal de velhice inadiável e precoce, mas me sinto bem por saber que vivi um tempo em que as pessoas ainda fumavam nos cinemas; em que as bombonières no saguão eram um acessório, não o principal negócio do exibidor. Era um tempo em que as pessoas saíam para ver um filme, talvez mais do que ir ao cinema. E nessa pequena escolha de palavras há um mundo inteiro de diferenças.

Seria pretensão demais querer que a queda de um cinema fosse o início da decadência de um local; na verdade é o contrário, o fim deles é indício de que a vaca já foi para o brejo, e que o centro da cidade perdeu uma de suas funções sociais e perdeu o carinho e a consideração da elite de um lugar. O fim do cinema de rua é o anúncio de tempos diferentes, em que as lojas chiques serão substituídas por magazines populares, a butique onde a mulher do governador comprava agora vai dar lugar a uma Marisa ou a uma Binoca – ainda existe Binoca? –, as lojas de sapatos vão empregar arremedos de locutores que ficarão na entrada, microfone na mão e amplificador Wattson ao lado, anunciando as promoções e chamando os passantes para conferi-las. Quer dizer que à noite só restarão mendigos, prostitutas e ladrões.

Ô Amaral, meu poeta, você não lembra dos bons tempos do Palace? Eu penso em você quando imagino um menino véio amarelo do buchão chegando a Aracaju nos idos dos 50 ou 60 e vendo o mar e o cinema, porque eu sei que você pode fazer poesia disso — mesmo que não tenha tido esses alumbramentos todos. Eu não posso, infelizmente; você sabe que o meu negócio é sair no tapa com a vagaba da Musa, porque eu não gosto de mulher que me olha com desdém. Tudo o que posso é sentir uma tristeza imensa cada vez que um cinema que eu conheci é mutilado e humilhado, como o cine Palace agora.