Prioridades

Raymond Boudon, filósofo francês:

Marx insiste muito no fato de que o homem tem necessidade de bens materiais. Tocqueville explica que o homem não tem necessidade apenas de bens econômicos, ele tem muito mais [grifo meu] necessidade de consideração, com o que eu concordo.

Assim diz Boudon, que provavelmente nunca passou fome na vida e come 3 vezes por dia.

Respondendo ao Marmota depois de tanto tempo

Aposto que o Marmota já tinha esquecido disso.

1. Melhores filmes dos últimos anos:
Pulp Fiction, “Sexto Sentido”, “Amnésia”, Mulholland Drive, Sin City.

2. Filme “da vida”:
“Casablanca”. Embora eu ache que não era esse o sentido da pergunta.

3. Atores com “pujança”:
Se pujança for talento, Brando, sempre. Qualquer pessoa que sequer pense em não lhe dar o topo deveria assistir a “O Último Tango em Paris” e “O Poderoso Chefão”. Ambos foram feitos na mesma época. É preciso ser sobre-humano para fazer aquilo, ser duas pessoas tão diferentes, e todas as duas tão gigantescas. Agora, se pujança for pujança, Arnold Schwarzenegger, Sylvester Stallone e Lou Ferrigno, que eu sou um velhinho saudoso dos anos 70.

4. Atrizes de mão cheia:
Fernanda Montenegro. O tempo passa e eu vou ficando cada vez mais impressionado com o talento monstruoso da mulher. Mas, lá no fundo, para mim atriz de mão cheia é a Cicciolina fazendo um favor para o John Holmes, que Deus o tenha em bom lugar.

5. Meu musical:
Como filme, “Cantando na Chuva”. Como música, um filme ruim chamado The Glenn Miller Story. Mas eu gosto tanto de Grease.

6. Realizadores com R grande:
Billy Wilder. Poucos diretores tiveram uma média tão alta quanto a dele (Bia, seu mané, aposto que você pensou que eu ia responder Frank Capra).

Jealous Guy

Jealous Guy é uma das músicas mais bonitas que algum filho da mãe já escreveu até hoje. É quase perfeita: na melodia, na letra, no arranjo extremamente simples.

No entanto, ela foi rejeitada durante dois anos pelos Beatles. Seu título original era Child of Nature, e a letra era essa:

On the road to Rishikesh
I was dreaming more or less
And the dream I had was true
Yes, the dream I had was true

I’m just a child of nature
I don’t need much to set me free
I’m just a child of nature
I’m one of nature’s children

Sunlight shining in your eyes
As I face the desert skies
And my thoughts return to home
Yes, my thoughts return to home

Underneath the mountain ranges
Where the wind that never changes
Touch the windows of my soul
Touch the windows of my soul

Child of Nature foi escrita na Índia e deveria entrar, originalmente, no “Álbum Banco”. Era mais ou menos Mother Nature’s Son (de McCartney e que foi incluída no disco) com um tom mais telúrico, aquele jeito meio Gaia de ser. É uma letra fraca, boba; lhe falta verdade. E basta compará-la com a definitiva para ver que os outros três beatles tinham razão.

Ao que tudo indica, Lennon ouviu os conselhos dos companheiros — ou, mais provavelmente, de Yoko Ono. Refez a letra, fez dela um recado claro para Yoko — e ao mesmo tempo deu um toque de genialidade que a tornou universal. É mais fácil encontrar sujeitos ciumentos que filhos da natureza em comunidades hippies. E então o que poderia ser só mais uma canção boba se transformou em um clássico maravilhoso:

I was dreaming of the past
And my heart was beating fast
I began to lose control
I began to lose control

I didn’t mean to hurt you
I’m sorry that I made you cry
I didn’t want to hurt yo
I’m just a jealous guy

I was feeling insecure
You might not love me anymore
I was shivering inside,
I was shivering inside,

I was trying to catch your eyes
Thought that you were trying to hide
I was swallowing my pain
I was swallowing my pain

Jealous Guy diz muito sobre a maneira como os Beatles trabalhavam.

Para aquelas que chamei de pseudo-feministas

Eu gostaria de pedir desculpas a todas as feministas pelas agressões e barbaridades que andei dizendo ultimamente neste blog.

Eu me desculpo, em parte, lembrando que minha implicância não é contra as feministas, de modo geral. Não contra aquelas que lidam com problemas reais, como discriminação no trabalho ou violência contra a mulher — questões sérias de verdade e que, ao contrário das levantadas pela maior parte daquelas com que eu brigava, são problemas sociais que precisam de uma abordagem dura por parte do Estado e da sociedade. Minha implicância se dirigia basicamente àquelas que eu julgava histéricas, que vêem misoginia em tudo, que adotam aquela militância radical e boba e que fazem uma profissão de fé a partir da vitimização feminina.

Continuo discordando delas. Mas ando correndo de briga, como vivo dizendo neste blog. E acho que está na hora de fazer as pazes.

Por isso estou oferecendo a todas as mulheres que chamei de pseudo-feministas, mesmo achando que o seu discurso é equivocado, um pequeno vídeo que demonstra de maneira bastante didática essas questões, e que me fez pensar bastante no assunto.

O download pode ser feito aqui.

Amigos, agora?

As alegrias que o Google me dá (XXIV)

os maiores racismos racial do brasil
Racismo racial não é nada. Pior é o preconceito contra analfabetos que não sabem escrever.

o que e pirula do dia seguinte
É um negócio que umas mulheres tomam depois de fazer saliência para não dar cria e evitar que nasçam outros burrinhos.

o que fazer quando não tem o que fazer
Nada. Para que estragar tudo?

oque são paleontólogos
Pessoas que estudam gente como você.

para as câmaras que não tem site quais seriam as vantagens em ter um site
Ver os absurdos que fazem as pessoas virem até o site é uma delas. A outra é responder a eles.

como ser um guerrilheiro das farc?
Normalmente só é necessária a remoção do cérebro. No seu caso, acho que só vão precisar tirar metade.

agencias de modelos do mexico que tenha homens bonitos
Um dia eu engulo meu orgulho e peço desculpas ao Alex, por todas as barbaridades que disse a ele no Manoel e Juaquim. Porque a vida vem me ensinando que existem pessoas ainda mais taradas que ele. Como esses insanos que vêm parar aqui em busca de mexicanos bonitos. Gente que acredita em duendes e em Papai Noel, certo, mas ainda assim pessoas completamente doentes.

animais para criança é importante?
Claro que é. Onde mais vamos aprender a chutar cachorros e a amarrar buscapés no rabo do gato? Eu, hein. Tem gente que parece que não teve infância.

o que você diria sobre a decisao do juiz sobre o caso do juiz que queria ser chamado de doutor
Nada. Eu não conseguiria parar de rir.

português salvo pelo cigarro nos atentados ao world trade center
Se descobrir, volte aqui e dê o nome do abençoado. Ele vai ser o santo padroeiro da Brigada Humphrey Bogart.

fotos de putas gratis da familia
Entendi não, seu moço. Putas que dão de graça para o pessoal da família? Isso inclui apenas primos? Ou é a família que as oferece a pessoas simpáticas? Não entendi anda, como disse, mas fiquei muito curioso. Diga mais. Por favor. Sabe, eu não resisto a uma liqüidação.

produtos para deixar o penis duro
Ahn… Uma mulher bem gostosa dizendo “vem, meu nego”?

dai e vos sera dado
Isso aí é lema de puta.

mulher aos 30 anos
Esse está me provocando, querendo que eu entre novamente em confusão com as gangues de balzaquianas sedentas de meu sangue e armadas com os anti-depressivos que tomam durante a TPM, sabendo que de uns tempos para cá elas não gostam mais de mim. E isso é uma injustiça. Eu gosto de balzaquianas. O problema é que é só das cachorras.

rafael gostoso
É, esse sou eu. Muito prazer. Você vem sempre aqui?

toda mulher tem a vida amorosa que quer new york time
Se deu no New York Times deve ser verdade. Mas alguém bem que podia contar isso para a Brigada de Balzacas Bufantes que de vez em quando baixa neste blog.

teresinha de jesus de uma queda foi ao chão
E se arrebentou. Se ela se chamasse Theresa Smith pelo menos poderia processar alguém e ganhar uma grana. Como é Terezinha, De Jesus e pobre, tem mais é que se levantar, ver se não quebrou nada, sorrir sem graça para o pessoal que a viu se estabocar e agora segura a gargalhada, e seguir em frente. Ela é brasileira e não desiste nunca.

a igreja católica preservação das dsts
Como se sabe, a Igreja Católica desempenha adequadamente seu papel na preservação das doenças sexualmente transmissíveis orientando seus fiéis a não usarem camisinha. (Você fez uma pergunta errada mas acabou acertando, hein? Deus escreve mesmo certo por linhas tortas.)

pezinhos de minha mulher
Alex, eu já disse: aqui não. Por favor. Este é um blog de respeito.

citar religiao sergipana
A religião sergipana foi a Igreja do Diabo, montada no início dos anos 80 por um grande sujeito chamado Luiz Howarth.

fotos de mulheres nuas fumando e bebendo
Essa é a sua noção de perversão, não é? Agora imagine que essas mulheres estão fumando maconha e bebendo bourbon no gargalo. Viu? A gente sempre pode ser mais pervertido. É só uma questão de prática.

resenha pronta com bibliografia de tempos modernos de charles chaplin
Eu até admito que um mané qualquer procure uma resenha pronta de, por exemplo, “O Ser e o Nada”. É compreensível. Mas procurar a resenha de um filme que não dura hora e meia é deboche, é falta de respeito à humanidade. E o cara de pau ainda quer bibliografia. Ah, meu amigo, eu tenho medo de você.

putas que fazem sexo com cavalos
Só espero que tenham mais sorte do que certos sujeitos. Ou melhor, talvez sorte não seja a palavra: elasticidade.

simpatia para parar de roer unhas
Olha, acho que essa deve funcionar: deixe de usar papel higiênico. Passe a usar os dedos. Talvez você passe por uns maus bocados, mas vai acabar aprendendo. Se não aprender, roer unhas vai passar a ser o menor de seus problemas.

mulatas mais perfeitas do brasil de fortaleza no ceará
Ô, meu filho, quem te disse essa bobagem? O Ceará tem poucos negros. Aliás, dizem que eles gostam tão pouco de negros que aboliram a escravidão antes do resto do país, justamente para vê-los pelas costas. O Dragão do Mar fazia questão de levá-los embora em sua jangada, e dizem as más línguas que aproveitava para afogar alguns. Mas para você não perder a viagem, eu vou te dar uma dica: o Ceará tem cada cabocla…

recebeu proposta de filme porno
Recebi não, bicho. Bem que eu queria, mas fui rejeitado. Meu sonho era fazer um filme com a Cicciolina dirigido pelo Sady Baby ou pelo Juan Bajon, mas acabei me tornando um frustrado. Tudo bem. Um dia eu faço. Nem que seja “A Vingança dos Velhinhos Ceguetas de Tanto Viagra”, estrelado por Rafael Galvão e Luiz Biajoni.

como fazer para tirar o pecado do mu online
Leve o bichinho à Igreja. O padre então vai passar um óleo fedorento e uma água fria na testa do coitado, e vai dizer umas coisas de que você não vai se lembrar e o MU Online, seja lá o que isso for, vai se livrar do pecado original. Só insista em uma coisa: se esse desgraçado começar a fazer sexo virtual, vai arranjar novos pecados, e aí vai ter que se confessar.

mulheres elegantes de goiania
Goiânia não tem mulheres elegantes. Tem mulheres bonitas, mas que ouvem Bruno e Marrone e com isso destroem todo o seu charme, e tem mulheres da Real Privé e da Platinum. Estas não precisam ser elegantes, só precisam entender do riscado e rebolar decentemente. Mulheres elegantes, mesmo, você acha é em Anápolis, ali pertinho, 50 quilômetros de distância, só. Eu pensava que em Anápolis só tinha poeira vermelha, mas eu sou um mané e o Roger me corrigiu. É ali, em casas de respeito como a Casa da Tia Lurdinha e a Casa do Bené, que estão as últimas damas do cerrado. Lugares onde a elegância dos tempos em que as mulheres usavam chapéu é ainda um fantasma nas paredes de veludo vermelho, em que as pessoas não esquecem velhos códigos de conduta e flerte que, em cidades grandes como Goiânia, estão morrendo nas mãos dos michês filhos da puta que vêm aos blogs dos outros oferecer seus serviços torpes.

com quantas semanas de gestacao se completa 06 meses de gravidez
As pessoas deviam aprender que o importante não é a resposta, mas a pergunta certa. Por exemplo: essa aí pensa que seu problema vai ser resolvido por um obstetra. E do que ela precisa, na verdade, é de um professor de matemática.

pombagira en salvador
O espanhol chegou em Salvador e arranjou uma neguinha do bundão. A neguinha era feia, mas era uma delícia. Mostrou ao gringo o que é que a baiana tem. O espanhol não acreditou, não conseguia admitir que aquilo fosse possível, e perguntou deslumbrado o seu nome. Entre gemidos e gritos, a moça disse “Ai, que minha pombagira baixou agora”. Agora, de volta à Espanha, ele tenta entender o que aconteceu. Busca por ela no Google. E à noite, antes de dormir, ele não consegue esquecer a sua neguinha pombagira.

rafinha se despede
Ainda não, meu filho, ainda não…

Do canil

Sempre que eu vejo os comentários no blog do Alex, falando de como ele é ruim e mau porque deixou o Oliver em Nova Orleans, fico mais convencido de que essa sub-raça de defensores de animais de classe média, que se acha dona da moral e da ética humanas, não é mais que uma matilha de viralatas.

Por causa do Blogday

Este mundo é pequeno.

O primeiro blog que eu li com certa regularidade, ainda antes de ter o meu, era um escrito por uma moça que se intitulava Lola Moon.

A razão foi curiosa: durante um brevíssimo período de tempo, eu participei de um newsgroup de literatura do UOL. Alguém achou que eu era ela, embora Lola Moon não seja lá muito parecido com Rafael Galvão. Aí fui ver o blog da moça.

Eu não lia blogs. Os poucos que vi — na época daquela Festa Giovanna — era coisas absolutamente chatas.

A moça escrevia bem: tinha verve, tinha estilo. Não que eu concordasse com o que ela dizia. Raramente, na verdade. E aí eu fui lendo durante algum tempo. Um dia o blog sumiu.

O tempo passou, eu acabei escrevendo eu mesmo um blog, e quase esqueci da moça. Até que, visitando o blog da Marie, algo me disse que eu conhecia aquele estilo.

E o pior é que conhecia, mesmo. Bom.

A Marie não sabe, mas indiretamente é uma das culpadas por eu começar a escrever um blog.

***

Várias pessoas já vieram me perguntar onde foi parar o Singrando, blog do Reginaldo Siqueira que, de repente, simplesmente saiu do ar.

O Reginaldo resolveu dar uma parada no blog. Segundo ele, o blog não estava singrando; estava à deriva. Prometeu que vai voltar, e acho bom que as pessoas cobrem. Eu continuo discordando desse conceito de deriva, mas o blog era dele, oras.

Enquanto o Reginaldo não volta, eis um dos posts que mais gostei no Singrando. O tempo passou, a situação política mudou, mas esse poema continua sendo uma beleza.

Moto Perpétuo do Lula

Se há necessidade
De acabar com essa história
Saia da frente: medida provisória.

Se há na agenda
Uma causa inglória
Deixa comigo: medida provisória.

E se a solução
Me foge a memória
Sabendo ou não: medida provisória.

Se há no congresso
Maioria insatisfatória
Valho por muitos: medida provisória.

Pequenas bobagens
Ou causa meritória
Não tenho peia: medida provisória.

Vou governando
De forma compulsória
Minha democracia: medida provisória.

O dia em que Ogun depôs suas armas

E então eu serei exilado.

O exílio é uma coisa terrível, mas se fosse em Paris eu aceitaria com felicidade de menino. Deve ser muito bom ser exilado em Paris. Sentar em um café e reclamar da conjuntura política internacional. Olhar uns livros na Shakespeare & Co. e falar em como a liberdade foi suprimida no Brasil, enquanto espero o fantasma bêbado de Fitzgerald. Encostar-me em um murinho do Louvre só para olhar as multidões de turistas esperando como gado sua vez de entrar no museu, felizes diante de filas que se recusariam a enfrentar em seus próprios países, e lembrar que o meu povo só tem medialunas para comer.

Eu seria um bom exilado, se me permitem a falta de modéstia. E se alguém me visse flanando pela Avenue d’Iéna, em um trenchcoat claro de cashmere, o Herald Tribune debaixo do braço, esse alguém poderia me parar e poderia falar do Brasil, falar de como cucarachos insidiosos tomaram conta do melhor país do mundo, e eu balançaria a cabeça dizendo sim, sim, temos que retomar o país, e daria cinco minutos ao meu companheiro de infortúnio, e me lamentaria também, e lhe prometeria um no pasarán qualquer, e diria que estava atrasado e voltaria a descer a Iéna em direção ao Trocadero.

O problema é que não se pode, nunca, confiar em trotsquistas portenhos barbudinhos.

Eles não me mandariam para Paris; não, eles me mandariam para um inferno qualquer, algo da Bolívia para baixo. Trotsquistas portenhos barbudinhos são uns miseráveis. Talvez me mandassem para o Burundi. Eu não sei onde fica o Burundi. Eu não quero sequer saber onde fica o Burundi. Eles me mandariam para lá e fingiriam que eu não existo, e em pouco tempo teriam razão.

Seria de lá, do meu exílio, que eu organizaria a resistência.

Aqui cabe uma confissão: a minha vocação para a guerra é ainda menor que a vocação para a matemática. Eu sou baiano. Eu gosto é de olhar para ela com cara de bobo, sentindo seus seios de encontro ao meu peito, enquanto ela faz cafuné em mim e diz que não compreende o meu olhar. E por isso o meu papel na revolução seria apenas o de guru, de homem a ser ouvido porém não instado à ação. Somente assim eu organizaria a volta de tantos patriotas, e menos eu não aceitaria.

Primeiro eu teria que definir uma estratégia. Eu sei como.

A diferença entre brasileiros e portenhos é a diferença entre o samba e o tango. O tango é preliminares, apenas, é um cafetão e sua respectiva, é aquele vai-e-vem infinito de um casal neurótico e excessivamente dramático tentando resolver seus problemas em passos que querem sincronizados. O tango é belo mas é falso, e não passa de um vagabundo e uma mulher de malandro, daquelas que nasceram para levar porrada, tentando descolar um troco de turistas desavisados.

O samba, não. O samba é o requebrado, é a felicidade em simplesmente ser, é uma mulata da Saúde com o cabelo trançado mexendo a cintura enquanto olha sobre o ombro para você, com um olhar que promete o que não deve ser prometido, nunca, nunca. O samba existe em si mesmo, e não pede mais que isso.

É essa a diferença entre brasileiros e portenhos, e por não entenderem isso eles nos chamam de macaquitos, e olham para suas louras bonitas mas sem remelexo, bulímicas que não sabem morder e não sabem apertar suas costas, e dizem que as jaboticabas estão verdes.

Por isso os portenhos podem sonhar, mas não conseguirão passar das ladeiras da Bahia. Porque jamais entenderiam que o cheiro do dendê está em nossas almas, que não podemos nos contentar com alfajores, e que isso é algo que não pode mais ser retirado de nós.

Argentinos não entenderiam o vatapá. Não compreenderiam por que passamos tantas e tantas horas fazendo um prato que julgariam tão complicado. Não entenderiam que o vatapá não é só alimento, como é o seu churrasco; o vatapá é um ato de amor, uma oferenda de devoção e fé feita a Iemanjá por todos por seus filhos, que também escolhem um dia claro de verão para lhe oferecer ainda mais; não compreenderiam que Iemanjá é uma deusa de amor que não pede mais que perfumes e flores para ficar bonita diante de seu amado.

Orgulhosos de seus sobrenomes ingleses, eles não saberiam o que fazer com os milhões de Santos, Silva e Jesus espalhados na geral do Maracanã, e pensariam que poderiam tomar conta do lugar que viu Zico jogar como se fosse uma Bombonera qualquer, e conspurcar o gramado santo com seus rolos de papel higiênico. Não conseguiriam. Talvez descobrissem, então, que não é o fanatismo que faz um grande time, é a verdade e a ginga nos pés escalavrados do seu povo, é um desdentado com as mãos na cabeça diante de um gol perdido.

Talvez. Porque esses argentinos são tão europeus.

Essa seria a minha estratégia. É a não-estratégia de um baiano, com os séculos de sabedoria que escravos carregando cadeiras de arruar Ladeira da Montanha acima acumularam. Ela existe pela certeza de que portenhos jamais entenderiam a maresia do Porto da Barra, nem aquilo que faz um stalinista baiano em Sergipe não conceber um expurgo, se é tão mais fácil pedir para passar lá em casa e não dar o endereço. Não entenderiam que, em vez de unificar todas as mulheres em azul maoísta, stalinistas baianos em Sergipe estariam preocupados apenas com a sua, com a penugem loura em volta do seu umbigo, com o jeito como ela levanta seus cabelos para que ele lhe morda a nuca.

Não, não. Por isso essa minha não-estratégia formulada há tantas eras no canto dos encanadores do relógio de São Pedro. Nós não precisamos de guerra, e Ogun foi comer uma buchada e agora dorme no regaço de Oxum. Ele sabe que, para nós, morte digna e honrada é a de Emiliano nos braços de Teresa Batista, e não brigando com estrangeiros que jamais saberiam o que fazer conosco. Diante dos argentinos, Ogun depõe sua espada. Ele não precisa dela. Só precisa dar tempo ao tempo, porque mesmo que os portenhos sonhem em ter tudo isto, nós sabemos que eles nunca conseguirão entender o que somos, que voltarão assustados para os frios d’além Prata.

E então bandeiras rubro-negras tremularão sobre o país, como tremularam um dia sobre Cuba quando a esperança e o sonho de uma liberdade há muito devida alegraram o coração dos cubanos.

Alex e Katrina

Desde ontem, entre Tulane e o Mississipi, o Alex está blogando o furacão Katrina.

Eu sei que o Alex vai ficar bem e não estou preocupado. Estou preocupado é com o Oliver, que ficou em Tulane. O que alivia um pouco é a certeza de que cachorros não morrem em furacões. A Viva disse que ele vai ficar neurótico depois de uma experiência tão traumática. Bobagem. O Oliver ficou neurótico no dia em que o Alex o batizou com esse nome.

Nos últimos meses algumas pessoas disseram que o blog andava meio murcho. Sei. Como se não bastassem as confissões sexuais do Alex, ele de repente nos dá um relato em primeira mão de um furacão e de tudo o que o que envolve as reações a ele.

Só o Alex para comparar o furacão à “última mulher má em sua vida”. E só um doente absoluto como o Alex para, em meio a uma evacuação, reparar nos pés das mulheres abrigadas ao seu lado.