Um disclaimer e um aviso

Isto é um disclaimer.

Os comentários nos últimos tempos me fizeram pensar um bocadinho sobre o assunto.

Discordo da Horvallis, quando ela diz que blogs devem ser democráticos. Não acho que isso seja necessariamente válido em todos os momentos. Ou mesmo desejável.

Até onde entendo, democracia (se entendida como sinônimo de liberdade de expressão, como parece ser o caso) é alguém ter o direito de falar o que quiser. Isso não quer dizer onde quiser. Se alguém quer me xingar, vá em frente — mas não aqui. Isto não é uma concessão pública. Isto não é sala de espera de posto psiquiátrico conveniado com algum plano de saúde. Eu não pago hospedagem para oferecer um palco aos que, ao contrário da minha santa mãezinha, não me consideram uma bela criação divina. Não seria sequer justo. De vez em quando vejo comentários internet afora reivindicando o direito de falar, no blog dos outros, o que quiser. É um conceito esquisito de democracia.

Aqui aparece de tudo: malucos revoltados com elogios que eventualmente me fazem e cobranças de compromisso social, constatações acerca de minha vagabundagem incorrigível e do fato de a esta altura da vida eu não ter uma profissão. Sem contar os que simplesmente xingam, muitas vezes em português precário. Eu sempre me reservei o direito de permitir apenas os comentários que acho que devem ficar. O critério é absolutamente discricionário: o meu. Não consigo conceber outro lugar onde isso seja tão possível e legítimo quanto aqui. (O Alex já fez um post sobre isso.)

Já do comentário do André Pessoa discordo em um aspecto: pelo que entendi, tenho a obrigação de dar um sentido a um post. Não, não. Eu não tenho nenhuma. Se quiser escrever dez posts seguidos enumerando todos os palavrões que eu conheço, eu escrevo. Se quiser fazer piada de alguém que julgo sem-noção, ou de quem publica aqui algo de que discordo mesmo que esteja na cara que este blog não é de direita nem religioso, eu faço. É isso que me parece que as pessoas às vezes não entendem. Este blog não se propõe a nada com seriedade; sou apenas eu me divertindo. É por isso que ele se chama “Rafael Galvão”. Eu me divirto dando minha opinião, se e quando quero — ainda que ela possa ser deselegante às vezes. Paciência. Do jeito como vejo as coisas, o direito que eu tenho de escrever algo é exatamente igual ao de alguém não ler. Além disso, eu escrevo para mim mesmo, e pago por esse privilégio; ao escrever para os outros eu costumo cobrar.

A única coisa que admito é que, a partir do momento em que abro espaço para comentários, as pessoas têm todo o direito de discordar, embora eu confesse que no meu mundo ideal todo mundo ia concordar comigo — até o sacana do Bia. Mas existe um tom aceitável para isso; são, aliás, regras que já deixei claras há algum tempo. A partir do momento em que acho um comentário desaforado ou engraçado demais — e isso normalmente só ocorre com incautos que caem por aqui de pára-quedas via Google, e que não fazem parte do “corpo de leitores regulares” do blog — eu me reservo todo o direito de debochar do jeito que quiser.

(Eu sinceramente não consigo entender as pessoas que lêem um blog de que não gostam e que deixam comentários ofensivos ou agressivos; são uns bobos com muito tempo na mão e nenhuma capacidade de aproveitá-lo melhor.)

Algo parecido ocorreu quando os Astrólogos de Maria invadiram este blog, pedindo um debate no qual eu jamais entraria por saber que não levaria a nada, em momento algum, porque com fanáticos de direita — e de esquerda, também — qualquer discussão é estéril. A última coisa que este blogueiro pretende é discutir religião, mesmo com pessoas ponderadas. Além disso, embora custe aos zelotes da direita católica compreender, eu simplesmente não os levo a sério. É por isso que morro de inveja do Smart, que tem saco e talento para desmontar com classe, elegância e rigor as bobagens que eles falam — e não recebe comentários desaforados em troca. (Eu não devia escrever isso. Os astrólogos estão processando até a Nasa. E quando Deus está do lado deles, eles só podem ganhar.)

Finalmente, tem a idéia de que sou formador de opinião. Isso me envaidece muito, mas é totalmente despropositado. Este blog tem uma média de 1500 visitas por dia, incluindo as que vêm via Google e que, em sua quase absoluta maioria, nunca voltam — provavelmente porque vieram parar aqui atrás de receitas milagrosas para aumentar o pinto. Não bastam para formar opinião nenhuma (se bastassem eu iria aproveitar: “entrem para a Igreja Rafaélica de Todos os Tostões e me paguem o dízimo”). E ainda que formassem, liberdade de expressão é isso, né? Taí o Bolsonaro que não me deixa mentir.

***

Isto é um aviso.

No próximo dia 16 este blog completa dois anos.

Para marcar o aniversário, a partir de amanhã vou republicar aqueles que acho serem os melhores posts do seu primeiro ano. É uma forma de passar a limpo aqueles tempos, quando o blog era visitado por umas 15 pessoas por dia. E uma forma de aproveitar as férias de inverno.

As alegrias que o Google me dá (XXIII)

fotos de homens lindos mexicanos
Corredor 6, seção A, logo depois das fotos de sasquatchs.

como era a adolescência nos anos 80
Era tão chata quanto a de hoje. A diferença é que, além de encher o saco dos outros com seus rompantes de independência, eles ainda usavam calças verde-limão, camisas lilases com ombreiras e ouviam Dr. Silvana cantando “Serão Extra”: “Ela foi dar, mamãe, foi dar, mamãe”.

fotos putas aracaju
Olha aí em cima, tem uma foto minha. Mas deixa eu avisar que cobro caro e que não beijo na boca.

putas que fodem
Não creio haver outro tipo. As que não fazem isso — pelo menos com você — são as filhas delas.

você pode se perguntar se a música está ligada à política e à sociedade desde a época em que a cultura indígena foi morta pelos portugueses e os negros foram presos nas senzalas. por que hoje falam de “piriguetes” “tchans” “lacraias” e “popozudas”?
Rapaz, isso é demais para mim. Mas eu posso tentar explicar uma parte, a parte atual. Porque periguetes são legais, tchans são necessários, lacraias são julgadas engraçadas por alguns e popozudas são maravilhosas.

cegonha perguntas papai mamãe
A cegonha não é chegada num papai e mamãe. Dizem que ela é meio sado-masô.

frases ditas por call marx
Call Marx era um funcionário eficientíssimo de uma empresa de telemarketing. Suas frases ficaram famosas e entraram para o cânon universal. Foi o sujeito que escreveu o “Manifesto do Telemarketing”, que começa assim: “Um espectro vai estar rondando a Europa amanhã”.

mauricio marinho download
Não é gratuito. Tem que pagar. 3 mil.

a versao original de la bamba
Era sobre uma velha xamã mexicana, que andava meio troncha, encurvada para um lado. Mas ela era gente boa.

se essa rua fosse minha
Eu cobrava pedágio.

onibus xoxotinha
Deus do céu, o que é isso? Um ônibus na hora do rush? Quando eu parar de rir eu escrevo um tratado sobre a criatividade popular.

toulouse sexto planeta mitologico
Blog errado, querido. Essas coisas você acha nos blogs dos astrólogos de Maria.

a menina era muito branca e tinha cabelos bem pretos curtinhos. eu não gosto muito de branquela sabe sou chegado é numa negona com aquele bundão bom de pegar peitão farto pra fazer espanhola. mas rapaz ela até que tinha uns peitinhos interessantes. p
Epa, fui eu quem escreveu isso aí. Mas olha, eu tinha colocado umas vírgulas. Quer copiar, copia. Mas não estraga.

como era a vida nas fazendas de cana naquela época
Era doce, mas era dura.

significado frase vá pra baixa da égua
Sabe que eu não sei? Pensando bem, deve a ver com você estar no lugar errado quando o cavalo se aproxima com aquela conversa mole e aquela mão boba…

dicas como era campinas na epoca dos bondes
Desculpe, nada contra a cidade, mas você sabe qual é a fama de Campinas, né? Então presume-se que além dos burros que puxavam os bondes havia outros quadrúpedes.

porque a maioria dos estados brasileiros mais ricos esta perto um dos outros
Porque ninguém gosta de pobre, meu filho. Pobre só presta longe.

qual o comportamento de uma lesbica?
Presume-se que ela tenha preferência por mulheres.

como fazer para o animal deixar fazer sexo com ele zoofilia
Se aproxime da vaquinha com um olhar carinhoso. Tudo começa assim.

os clássicos luzes da ribalta e tempos modernos foram produzidos por qual gênio do cinema
Buster Keaton. Ah, não é verdade? Bem, foi você que começou, dizendo que “Luzes da Ribalta” é um clássico.

musica somos mastruz com leite para baixar
Me respeite. Eu posso cair na sarjeta. Eu posso até ouvir U2. Mas Mastruz com Leite, jamais!

tipos de brincadeiras para catecismo infantil
“Queimando a bruxa”, “Matando o apóstata”, “Torturando o herege”…

não tem o que fazer
É, não tenho. Mas pelo menos estou aqui quieto no meu blog. E você, seu desocupado, que vem para o blogs dos outros?

para entender uma mulher é preciso mais que deitar-se com ela…
É, moço sensível, você tem razão. Concordo em gênero, número e grau. É preciso muito mais. Experimente em pé. Sentado. Ou de quatro.

de onde viemos?para onde vamos?
Lá tem internet?

gente que pensa
Veio ao lugar errado. Eu apenas penso que penso. Há uma profunda diferença, mas como eu só penso que penso não vou explicar isso para você.

preços de blazer o casaco para mulheres
Fui no armário e olhei para os meus — tadinhos, fora de moda, dois botões apenas. Perguntei a eles se era verdade que me enganaram todo esse tempo. E eles disseram que não, que são machos, rapá.

biografia rafael michelangelo
Quanto ao Mimi eu não posso falar nada. Mas a minha tem lá seus momentos.

tudo sobre maicon jackson
Maicon Jackson (pronuncia-se Jáquisson) nasceu em Brejo Santo, Sergipe, em 1984. Sua infância, ali naquele interior esquecido por Deus, foi muito feliz: ele fazia a alegria da meninada e até de um novilho chamado Brioso. Quer mesmo o resto?

o que é homosexual
É um gay analfabeto.

o que representa o caixão do papa
Significa que ele está morto.

onde posso encontrar uma clinica de abortos
Procure nas páginas amarelas. Se não encontrar, eu conheço uma benzedeira que faz esses servicinhos nas horas vagas. E ela usa apenas agulhas de tricô selecionadas.

foto de himen menina virgem
Moleza. Difícil é achar fotos de hímens de meninas não virgens.

onde victor meirelles nasceu viveu sua idade ao morrer cor de seus cabelos olhos algumas de suas mais grandes conquistas etc.
Mais completo, impossível. Parabéns. Eu não vou nem comentar nada, não só porque não sei nada disso, porque tenho certeza de que o Google te respondeu corretamente. O seu erro foi na hora de escolher a página apresentada.

somos brasileiros vamos nos casar e gostaríamos de passar a lua de mel nos estados unido
Já sei: vão aproveitar a viagem para muambar, né? Coisa feia. Mas certo, alguém tem que pagar os custos da viagem.

blogs se a vida lhe der 1000 motivos para chorar de a ela…
…uma banana, diga que ela é uma filha da puta, sente no meio-fio e chore.

sinonimo masculino de ninfomaniaca
Comedor. Como dizia James Brown, “it’s a man’s, man’s, man’s world“…

sobre o obvio na concepcao de darcy ribeiro quem e responsavel pelo atraso historico do pais
Se é óbvio, por que você está perguntando?

simpatia para fazer ele se apaixonar
Visitas semelhantes são comuns por aqui. E a resposta é sempre a mesma: dê, minha filha. Dê muito. Mas dê bem dado, porque senão ele come e vai embora.

rafael galvão adolescencia nos anos 80 foi uma merda
Cumequié? A minha foi legal. Os anos 80 é que foram uma droga. Lá vem esse povo colocando palavras esquisitas na minha boca (e quem foi que perguntou isso ao Google?).

o que estava acontecendo na época que aleijadinho viveu
Ele ia perdendo um dedo, depois um pedacinho da orelha, depois outro dedo…

john lennon how do you sleep?
He doesn’t sleep anymore. John is dead, baby, John is dead.

como é uma vagina fotos
Quando eu parar de rir, te explico.

convivencia com os povos pré cambrianos atuais
Ahn… Certo. Desculpe, mas mais uma vez eu não consegui escrever nada tão engraçado quanto a sua frase. Perdão.

o que a polvora das balas causam danos a saude
É. Causam danos sérios. Contaminação por chumbo. É um problema, rapaz.

como dar o fora numa baranga
É, eu sei. Às vezes a gente faz umas coisas injustificáveis, daquelas que depois nos faz perder minutos preciosos remoendo arrependimento. Não, não precisa se justificar para mim. Não precisa inventar essa história de que estava bêbado, ou confessar que estava numa seca de fazer dó — eu me solidarizo incondicionalmente com você. Não vou fazer perguntas. Mas para o seu caso a única coisa que posso recomendar são os serviços profissionais da GhostLovers, Inc. Despachamos barangas e, se você um dia fizer um upgrade nessa sua vida de mau comedor, também em ninfetas do demônio.

artigos sobre a importancia das camareiras no hotel
É tudo lenda. Tudo. Eu já perdi a conta dos hotéis em que fiquei na vida, dos cinco estrelas aos mais nublados, e posso lhe afirmar que é tudo mentira. Camareiras não dão para hóspedes. Não têm importância nenhuma.

iraldo dando show
Explique-se, Iraldo.

os gregos inventaram muito mais do que as olimpíadas
É. Inventaram o donner kebab e o beijo grego.

modelos gratis de mãe que tem que pagar pensão para filho que mora com o pai
O menino conhece os seus direitos. Vai ser advogado, quer apostar?

tequinologia do nordeste
Meu filho, nós fazemos um jabá impagável. E não há farinha de mandioca melhor que a sergipana.

cronica de saudade pelo falecimento de uma amiga
Coisa feia. Querendo fazer boa figura com a saudade dos outros. Mui amiga, você. Mui amiga.

never fade away biografia não autorizada de kurt cobain
Prefiro esperar pela biografia autorizada, que deve ser escrita pelo Divaldo Franco.

porque os portugueses vieram parar aqui
Porque não tinham o que fazer em Portugal.

modelo apolíneo de redação publicitária
Deus do céu, o que é isso? Eu cresci acreditando que publicidade era uma atividade que exigia um tipo primário de inteligência, como dizia o Roberto Menna Barrreto. Mas aí aparecem esses professores universitários com esse papo de apolíneo. Ai, meu Pai. O que é isso? É esse o problema da universidade: complicam coisas que deveriam ser simples demais. Em vez de aparecer por aqui com essa conversa de “apolíneo”, que parece papo junguiano, vai ler anúncios antigos para aprender a escrever, rapaz. Melhor que procurar modelos prontos.

o preconceito racial acabou?
Pergunte ao Grafite.

resumo da história infantil o patinho feio
Pata pula a cerca e tem um filho feio de um pai bonito. O terreiro inteiro debocha do coitado. Ele vai embora e volta cisne real, e então o terreiro inteiro passa a puxar seu saco e ele esquece que a sua mãe andou brincando por aí. Dinheiro, beleza e fama são um santo remédio.

carta querido papai noel voce deve achar estranho eu te escrever dia 26 de dezembro
E você vai achar estranho não ganhar presente nenhum.

dicas para tirar o himen sozinha
Há milhares de maneiras, minha filha, mas acompanhada é bem melhor.

ponte que liga a frança e a inglaterra contruída em 2004
Ah, foi?

comerciais antigos eu me lembro de voce
Mas eu, não.

como conseguir homens para tranzar
Acho que é só dizer que tá a fim, não é não?

rafael galvao
E meu psiquiatra continua achando que eu sou paranóico. Alguém está me seguindo. E ele não acredita.

O crime da rua Campos

Há algumas semanas — ou meses, que o tempo em um blog é a prova sobralense de que Einstein estava correto — eu falei, num post sobre Aracaju, sobre o crime da rua Campos, coisa de quase 50 anos atrás e que até hoje é o crime mais fantástico já ocorrido em Sergipe.

Parece que as lembranças estão no ar, porque uma revista local, na edição que começou a circular na semana passada, publicou uma matéria sobre o crime. Hoje, em sua coluna no Jornal do Dia, o jornalista Luiz Eduardo Costa publica um comentário a essa matéria.

Luiz Eduardo é uma das pessoas que mais conhecem o crime da rua Campos, pelo menos que eu saiba. A outra é minha avó. A diferença é que minha avó não escreve, ao passo que Luiz é o dono de um dos melhores textos de Sergipe.

Graças à revolta de Luiz Eduardo, que resolveu corrigir a série de erros factuais que encontrou na matéria publicada pela revista (e no post original, sem saber: eu datei o crime de 1954, quatro antes), agora posso atender a um pedido feito por Viva, e contar aqui, através das palavras de Luiz Eduardo Costa, o básico da história do Crime da Rua Campos (ou rua de Campos, como chamam em Aracaju).

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Uma moça sem noção chamada Carina (ou Cláudia) Pinheiro

Carina Pinheiro (cnpinheiro@hotmail.com) — ou Cláudia, ela assina os dois nomes — é uma idiota.

A moça não percebeu que posts antigos são automaticamente moderados, para evitar spam de comentários, problema que assola boa parte de blogs rodando Movable Type e que, de quebra, ajuda a manter imbecis longe dos comentários antigos.

Por isso, resolveu passar boa parte do dia de ontem e da madrugada de hoje falando besteira neste e neste post. Os comentários não apareciam e ela, ainda mais frustrada do que o normal, os repetia, quase ad infinitum. Deve ter se tornado uma brincadeira interessante. Em algum momento ela achou que ia vencer a máquina. Não venceu, e deve ter ido dormir com a certeza de que hoje voltaria ao ataque, enquanto imaginava mais ofensas.

Primeiro, desejou bons fluidos a mim e a alguns comentaristas deste blog:

Olha Rafael, Danielle, Julio, Fernando Henriqe, Lucia, Monica e demais iguais. Vocês devem ser todos uns desocupados sem sentimento. É por isso que temos esta M de país. Desejo para voces a morte de todas as pessoas que vcs amam, se é que voces amam alguem, para verem o que é para um amante de animais saber de seu sofrimento e não poder fazer nada. Como disse alguem aqui, nós amantes de animais atacamos a GLORIA PEREZ com os nossos protestos, e não a Daniela Perez. Ah, e se querem que a gente cuide de criancinhas de rua, CUIDEM VOCES.

Como o comentário não foi publicado, resolveu que sua opinião — se é que se pode chamar esse amontoado de imbecilidades recalcadas e ressentidas de opinião — seria ouvida de qualquer forma. E como não tem mais o que fazer, passou boa parte da madrugada escrevendo comentários que, para sua frustração resultante do parco entendimento, ela não via publicados.

Graças a Deus ninguem me obrigara a conhecer Rafael Galvão, Lucia Mala e companhia. Que gente escrota sem sentimento. Quero distancia de gente como vocês. (…) Eu sei quem enviou a foto, sei até o nome da pessoa, mas voce acha que eu vou entregá-la? NUNCA. Essa pessoa errou na tatica que usou. Por ela não fazer parte de ONG nenhuma, apenas alguem que sofreu muito na vida para defender animais, como todos nós que defendemos sofremos. Em segundo lugar,somos quase todas mulheres, por ter mais coragem que homens como voces para lutar. E não conheco nenhuma que seja uma desocupada. Mas sou radical sim. DESEJO tudo de ruim para aqueles que maltratam ou são a favor de maltratos a animais, porque não existe, nem nunca existirá pior covardia do que a violencia contra animais.

Falta de homem é uma coisa horrorosa. Dizem que dá um nervoso nas pessoas, uma amargura no viver, um travo na boca que nunca é beijada, um tremor no corpo nunca tocado, a pele se ressente das marcas que mãos não deixam. O cérebro passa a destilar bile, numa espécie de inversão anatômica. E provavelmente a Carina ainda não levou a sua posição de “amante dos animais” a ponto de encarar, com o relaxamento e a abertura à novidade necessários, um jumento. O resultado é isso: a moça passa a madrugada de sexta xingando outras pessoas e cometendo atos falhos terríveis.

Mais engraçado é a moça agradecer a Deus por não nos conhecer, mas insistir em se apresentar com tão belo cartão de visita. Neste momento a Lucia Malla está de férias nas Filipinas com o André, perto daqueles bichos de que só ela gosta, como (argh) tubarões. Nem sabe que existe uma pessoa que mora no Rio de Janeiro e passa suas madrugadas de sexta despejando rancor e más vibrações em pessoas que não conhece. A diferença entre a alegria da Malla e a amargura da Carina Pinheiro, pelo menos, me dão a certeza de que os desejos da Carina têm o mesmo valor daquilo que o meu gato enterra.

(O fato de ter passado alguns dias em Salvador, recentemente, e ter voltado de lá com a alma leve de Oxumaré ajudam nisso, também.)

Isso me lembra a postura esquisita que algumas pessoas têm de achar que um blog é um espaço democrático para todos. O blog é democrático, sim, mas para mim. Só. Não deveria ser algo tão difícil de entender. Talvez se eu latisse a Carina entendesse.

Leila querida, eu penso igual a Fulana, inclusive porque já fui assaltada por crianças. Para mim, elas não valem nada e nunca deixarei de comer para dar a elas um prato de comida. Mas já fiz isso diversas vezes por caes e gatos de rua.

Aí eu comecei a ficar preocupado. Admito que não sinceramente, porque estou rindo demais para ficar realmente preocupado com a Carina. Mas ainda assim um pouco temeroso.

Eu não sei o que os homens, talvez a humanidade em geral, fizeram à pobre Carina. Não sei o quanto a machucaram para que tenha tanta raiva. Certo, ela dá uma indicação ao dizer que foi assaltada por uma criança, e daí se pode deduzir de onde vem uma parte da sua misantropia. Mas ainda restam os homens. Eles devem ter sido muito cachorros com ela. Mas se ela tem tanta disposição para falar, seria melhor que deitasse em um divã e falasse para um psiquiatra.

Deve ser uma tática tresloucada desses franco-atiradores ecológicos: se mostrar como o pior que a humanidade pode oferecer, e tentar fazer com que as pessoas passem a desprezar os seres humanos por analogia. Porque se eu fosse julgar a humanidade pela Carina Pinheiro, provavelmente também iria preferir os cachorros.

It was twenty years ago today

Uma vizinha está ouvindo rádio. Deve ser a empregada, porque ninguém escuta rádio por aqui. Com exceção de programas noticiosos, rádio — ainda mais a uma altura dessas — é coisa que só se ouve no carro ou na cozinha.

Por alguma razão resolveram fazer um especial dos anos 80. Já ouvi New Edition (Is this the eeeend?), Berlin (Take my breath awaaaay), Culture Club (Mistake #3), Stevie Wonder (I Just Called to Say I Love You) Chris DeBurgh (The Lady in Red) e uma canção que assolou o Brasil em 1986, Yes, cujo cantor era um picareta brasileiro que fingia ser gringo, adotou o nome de Tim Moore e enrolou boa parte do Brasil; o Bia lembra dele bebendo caipirinha no camarim, antes de um show em Americana, enquanto resmungava: “Merda de cidade…”

A música de 20 anos passados interrompeu o Caruso que eu estava ouvindo. Não só por tocar mais alto, mas porque é um aviso de que estou ficando velho; lembro de quando essas músicas eram tocadas durante a programação normal, e não no que parece ser uma espécie de “Especial Para Caquéticos”. Essas notas musicais, boa parte das quais detestadas por mim já na época, me lembram também que quando cada geração chega à maturidade costuma usar a mídia para contar uma visão edulcorada de como os seus velhos tempos eram bons. Assim os anos 50 deram American Grafitti no início dos 70 e tudo o que se seguiu depois — Grease, Happy Days, e um revival completo nos anos 80. Era a visão tipicamente americana de um passado pretensamente dourado que o resto do mundo foi obrigado a engolir. Mais apropriadamente, era a saudade da classe média branca americana dos bons tempos de Eisenhower.

Antigamente demorava-se cerca de 15 anos (ou 3 gerações de consumidores) para que uma geração fosse entupida de lembranças cor-de-rosa, e muitas vezes falsas, de outra. Mas os órfãos dos anos 80 começaram cedo, porque ultimamente a juventude tem chegado chegado mais cedo ao poder. O primeiro sinal de recaída de que me lembro foi um filme com o John Cusack, Grosse Pointe Blank. Agora aqui e ali pipocam referências. Boa parte da revista Flashback, que conta com os textos brilhantes do Ina, é composta disso, de lembranças de uma década que, sabe Deus como, conseguiu definir uma identidade própria a partir de retalhos de décadas passadas.

Tudo isso me lembra quão ruins foram os anos 80.

Que ninguém me entenda mal. Não é que não goste deles. Tenho boas lembranças daqueles tempos, no fim das contas: foi nessa década que passei a adolescência e, como diz o Roger Ebert, a adolescência é o período mais miserável na vida de uma pessoa, embora depois nos lembremos dela com saudade. Com o tempo, as pessoas transformam experiências terríveis como andar a pé, fazer sacanagem na cama dos pais da namorada ou rodar a cidade atrás de mulher em boas lembranças, de um tempo que já passou.

Mas que os anos 80 foram uma droga, foram.

***

Há algo de muito errado na ordem cósmica quando os dois maiores ícones de uma geração são Madonna e Michael Jackson. Este a gente já sabe no que deu, mas não vamos ser injustos creditando sua degradação aos últimos tempos: ele nos avisou do que vinha pela frente. Nos anos 80 o sujeito usava uma jaqueta de couro vermelho e uma luvinha branca e brilhosa na mão, com o cabelo eternamente solto e molhado por uma tonelada de gel; algum ingênuo esperava que ele melhorasse?

Quanto a Madonna, cada vez que vejo as roupas que ela usava fico com duas sensações: a de reconhecimento, de ter feito parte daquela era, e a certeza de que aqueles são os trapos que usaria uma mulher sexualmente reprimida que pirou o cabeção e resolveu nos dar a sua versão ensandecida de uma puta. Isso pode ter lá seu significado social e histórico; aquele crucifixo sexualizado pode até ser uma ofensa aos puritanos americanos. Mas além de dizer pouco a brasileiros que há séculos se despedem de suas virgindades encostados no muro da igreja, tudo aquilo era absolutamente brega. Era como se quatro estilistas cafonas acumulassem, sobre a lourinha da voz esganiçada, os seus conceitos lisérgicos de mau gosto.

Um consolo é que as roupas da Madonna podem ter sido imitadas pelas adolescentes de miolo mole nos EUA da época, como a gente costuma ver nos filmes, mas aqui no Brasil éramos mais comportados. Isso não quer dizer, no entanto, que tivéssemos bom gosto. Ah, não. Os anos 80 foram a década do rosa-choque e do verde-limão, provavelmente as cores mais medonhas já criadas — tanto que a Mãe Natureza, que tem lá sua carga de bizarrices, não ousou criá-las –, e que, como se sua própria feiúra não fosse suficiente, normalmente eram usadas ao mesmo tempo. Foram a época dos jeans verdes, de estampas berrantes que chamavam de new wave e que vilipendiavam a memória do finado Godard, das ombreiras, e mais tarde das saias balonê. Os anos 80 foram uma década de confusão e mau gosto.

Mas as coisas sempre podem piorar, e pioravam. Talvez nada disso fosse pior que os blazers com mangas dobradas copiados de Miami Vice, ou as barbas por fazer inspiradas no Mickey Rourke de “9 1/2 Semanas de Amor” (provavelmente a maior fraude erótica de todos os tempos). Como dizia uma antiga música de McCartney, no one left alive in 1985. Nos anos 80, era in ter cara de traficante cubano vagabundo da Jecolândia.

E os cabelos. Os cabelos. Mulheres com cortes que lembravam poodles epilépticos; homens com cabelos curtos mas compridos atrás, moda lançada a nós botocudos pelo Evandro Mesquita. As jubas piolhentas e embaraçadas dos hippies, em comparação, pareciam muito melhores; pelo menos exprimiam uma atitude. Não que aquele corte oitentista não tivesse nenhuma; o problema era saber qual.

Deus do céu, como é que alguém pode ter saudade daquilo?

***

Fãs dos anos 80 costumam lembrar de bandas como Smiths e U2 para mostrar que aquela, afinal, não foi a década perdida.

Duas bandas.

Acho que consigo lembrar de mais: Poison, Mötley Crue, Menudo, A-ha, Mr. Mister, Dominó, Tremendo, Dr. Silvana, Olivia Newton-John, Toto.

Chega. Bastam esses para lembrar que foi preciso que o grunge aparecesse para que a música pop fosse resgatada de um longo e tenebroso inverno.

Mas o que se poderia esperar de uma década que começou com um maluco dando cinco tiros em John Lennon?

***

Os anos 70 foram a década em que surgiram cineastas como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola. Os anos 80 foram a década de John Hughes.

(Deixa-se aqui de lado a estética publicitária no cinema patrocinada pelos irmãos Ridley e Tony Scott e outros; isso é terrível demais para ser abordado assim, sem aviso.)

Alguns dos maiores sucessos da época foram dirigidos ou escritos por Hughes. “A Garota de Rosa Shocking”, “Gatinhas e Gatões” e “Curtindo a Vida Adoidado” são alguns dos filmes aos quais a gente recorre quando quer lembrar do que foram aqueles anos miseráveis.

(The Breakfast Club, talvez o filme mais “cabeça” dessa fornada, tinha originalmente duas horas e meia de duração. O estúdio, achando que ia ser um fracasso, cortou 50 minutos. O resultado é o único filme do Hughes que poderia ser bom, mas que parece episódico demais; essa é a explicação que encontro para rever o filme e achá-lo ruim.)

Não é que eu não goste desses filmes. Todos eles têm a capacidade de me lembrar uma época que vivi e que já passou há muito tempo. Queira ou não, eu estava presente aos anos 80.

Mas o fato de gostar de Some Kind of Wonderful, por exemplo, não faz com que ele se transforme miraculosamente em bom cinema. O melhor que se pode dizer desses filmes é que eles retratavam a juventude da época. Certo, e “Barrados no Baile” retrataria a juventude dos anos 90 nos mesmos termos. Além disso, é bom lembrar que “Sabrina”, “Júlia” e “Bianca” também retratam o amor. O problema é que “Sabrina” et al não são exatamente um soneto de Shakespeare, e juventude por juventude é melhor dar uma olhada no que Nicholas Ray andou fazendo 30 anos antes. Um antropólogo que tentasse compreender a juventude dos anos 90 a partir de “Barrados no Baile” concluiria que éramos todos todos estudantes lindos e ricos; se fizer o mesmo com os filmes de John Hughes vai ter a certeza de que éramos um bando de alienados fúteis com algum problema no juízo.

(E então lembro da diva dos anos 80: Molly Ringwald. A garota de rosa-choque. Diva adequadíssima à época: insípida, insossa, inodora. Nunca entendi por que investiram nela em vez de em delícias como Kelly Preston, cuja cena nua em “A Primeira Noite de Jonathan” é a única coisa que presta em um filme bobo. De qualquer forma, hoje ninguém ouve falar em Molly Ringwald. Tudo o que sei da ruiva é que mal começaram os anos 90 e a tonta cometeu duas grandes bobagens: dispensou os papéis principais de “Uma Linda Mulher” e de “Ghost”. As atrizes que fizeram esses filmes todo mundo sabe onde estão. Mas duvido que alguém saiba onde anda Molly Ringwald. Sumiu, coitada, como os anos 80 deveriam ter sumido.)

As pessoas podem até ter saudades dos anos 80. Acho que eu tenho, também. Mas isso deve ser uma versão degenerada da síndrome de Estocolmo. Talvez os anos 80 tenham sido tão ruins que as pessoas se acostumaram. Ou, o que é mais provável, do que as pessoas têm saudades é de um tempo em que eram melhores do que o que se tornaram. E nesse caso, não é dos anos 80 do que têm saudades. Elas têm saudades é de si mesmas.

A última noite de Evariste Galois

Eu nunca tinha ouvido falar em Evariste Galois até ontem.

Nada de espantar, considerando-se que o meu conhecimento matemático restringe-se à certeza de que 2+2=5. Mas ontem, enquanto me contavam sua história, perdi alguns minutos imaginando a vida aventurosa do rapaz, vida que as pessoas associam a qualquer tipo de pessoa, menos a um matemático. Porque paixões não combinam com números, é o que diz a sabedoria popular.

Foi assim que me contaram a história, e é assim que eu a conto agora.

Evariste Galois foi um matemático francês brilhante, fundamental para a teoria dos grupos e estudado ainda hoje, quase dois séculos depois de sua morte.

Ele foi morto aos 20 anos de idade pelo marido da amante, o melhor atirador da França. Parece que, depois de agüentar a maneira meio esquisita de sua mulher se divertir, ele cansou dos amantes dela, infelizmente quando era a vez de Galois. Essas coisas acontecem, são dessas eventualidades a que as pessoas costumam estar sujeitas quando suas paixões são maiores que elas mesmas. O marido tantas vezes traído o desafiou a um duelo e Galois, homem honrado em um tempo em que a honra valia alguma coisa, não soube simplesmente dizer não.

Galois sabia que não tinha chance. Sabia que ia morrer, e que sua vida seria curta e que ele não teria chance de completar sua teoria. E decidiu passar sua última noite colocando no papel aquilo que vinha desenvolvendo. Essa pressa, essa necessidade de eternizar uma vida que iria acabar dali a algumas horas, é uma das coisas que fazem a história de Evariste Galois soberba.

Mas tem mais. Enquanto escrevia febrilmente, ele deixava escapar o que realmente estava ocupando sua cabeça naquela noite, misturando sua revolta às fórmulas frias:

“Raiz quadrada do seno pela tangente eu vou morrer por causa daquela vagabunda. Dez xis elevado à quinta potência eu vou morrer por causa daquela cadela.”

No dia seguinte, o marido deu-lhe um tiro na barriga e Evariste Galois morreu.

Na verdade, uma busca rápida pela internet mostra que a história não é exatamente essa, que embora a vida de Evariste Galois tenha sido mesmo agitada os fatos são narrados de uma maneira levemente inventiva. Mas o amigo que me contou a história já disse, e eu concordo: não interessa contar a história verdadeira, porque ela não chega aos pés da lenda que se criou. Quando a lenda é mais bela que a verdade, que se publique a lenda.

A Era do Rádio

Eu não ouço rádio. Para falar a verdade, não ouvia sequer quando trabalhava em uma.

Isso não impede que eu ache que não existe outra mídia mágica como ele. Com exceção dos livros, nenhuma faz com que você exercite a imaginação como o rádio. Ainda hoje é possível ouvir, por exemplo, dramatizações de casos policiais.

Depois de acossado pela TV o rádio decaiu asssutadoramente e foi forçado a se reinventar. E ao contrário do qeu diziam muitas das previsões pessimistas, ele conseguiu sobreviver.

Mas muito mais interessantes foram os tempos de ouro. Era simples: era o meio para o qual convergiam todos os talentos. O rádio basileiro, por exemplo, tinha de tudo; e foi a base do que mais tarde viria a ser a TV brasileira.

O Radio Lovers oferece para download uma série de antigos programas de rádio americanos. Faltam alguns dos mais populares, como o Lone Ranger e outros. Mas ainda assim, é um belo acervo. E serve para que se possa ter uma idéia da qualidade da programação da era em que o rádio era rei.

Um novo original de Lennon & McCartney

Uma coisa me incomoda quando as pessoas falam sobre Beatles: aqueles que dizem que Lennon e McCartney pioraram como compositores partir do fim da banda.

É uma mentira soez, diria Lennon. Qualquer pessoa pode perceber isso fazendo um experimento simples.

Pegue um ano, qualquer ano. 1970, por exemplo. Escolha 5 músicas do disco de McCartney daquele ano, 5 do disco de Lennon, 2 de George Harrison e dê qualquer coisa para Ringo cantar. Em termos de composição, o disco vai estar à altura de qualquer disco dos Beatles.

A minha seleção seria esta:

  1. God
  2. Mother
  3. Working Class Hero
  4. Well Well Well
  5. Love
  6. Every Night
  7. Maybe I’m Amazed
  8. That Would Be Something
  9. Junk
  10. Momma Miss America
  11. My Sweet Lord
  12. All Things Must Pass
  13. Fool to Cry

(Ainda sobrava um compacto com Instant Karma e What is Life.)

1971 seria ainda melhor:

  1. Imagine
  2. Gimme Some Truth
  3. Oh My Love
  4. Jealous Guy
  5. It’s so Hard
  6. Uncle Albert/Admiral Halsey
  7. The Back Seat of My Car
  8. Smile Away
  9. Three Legs
  10. Eat at Home
  11. Apple Scruffs
  12. Beware of Darkness
  13. Wine, Women, and Loud Happy Songs

(E, de novo, outro grande compacto com Another Day e How?.)

A lista pode seguir indefinidamente; em alguns anos pode-se colocar mais canções de McCartney, em outros mais de Lennon. 1973, por exemplo, seria um ano dominado por McCartney, porque o seu Band on the Run é infinitamente superior ao Mind Games de Lennon. O que acontece, e a minha impressão é a de que isso é o que confunde o pessoal, é que mesmo assim o disco vai soar diferente, mesmo inferior, aos discos dos Beatles.

Em primeiro lugar, depois do fim da banda eles passaram a ter a responsabilidade de encher álbuns inteiros. É lógico que canções que anteriormente seriam vetadas pelos outros membros ou que simplesmente não suportariam a concorrência entravam em seus discos solo, baixando o nível geral. Em um disco dos Beatles Lennon e McCartney tinham que brigar para colocar, digamos, 6 músicas em um disco. Nos anos solo, precisavam se virar para completar um álbum. E mesmo assim é impressionante que tenham conseguido fazer álbuns antológicos como o John Lennon/Plastic Ono Band e Venus and Mars. Sem contar o All Things Must Pass, o álbum triplo de George Harrison.

Ou seja: o que fazia a força dos Beatles é que o material mais fraco, com raras exceções, não passava pelo funil porque tinha mais gente querendo espaço e oferecendo canções de alto nível.

Nos discos solo faltava também a colaboração de cada um. Por exemplo, uma dica aqui, outra ali, uma palavra que se troca ou um acorde que se acrescenta, e tudo muda. Boa parte das composições de Lennon e McCartney são assim, composições de um deles com contribuições às vezes decisivas do outro, mesmo quando menores.

Vai faltar ainda o insight dos músicos. Deve ser fácil demais, para um Lennon ou um McCartney, dizer a um músico de estúdio: “eu quero assim.” Uma canção de Lennon no disco de Lennon é uma canção de Lennon, e isso é óbvio. Mas uma canção de Lennon num disco dos Beatles é uma canção de Lennon, McCartney, Harrison e Starr. Todos eles davam seu toque pessoal às músicas, e é isso, principalmente, que falta nos discos solo dos sujeitos. Numa banda, cada um pode dar a contribuição do jeito que quiser. Foi um dos motivos do fim dos Beatles, a necessidade de cada membro de fazer música do jeito que queria, não do jeito da banda.

O único problema é que, por acaso, aquela banda era muito boa.

Qual é a música

Respondendo ao Golb:

Quantos gigabytes usados com música?
Menos de 700 MB com certeza. Sempre que chega esse número eu gravo um CD e tiro do computador. Tenho algumas dezenas deles.

Último CD que comprei:
Faz tempo, porque como se sabe eu faço parte de uma conspiração mundial que ronda as redes P2P com o único intuito de desgraçar a vida dos artistas. Foram Please Please Me & More e With The Beatles & More, dois piratas japoneses dos Beatles que achei por sorte e por uma ninharia no Terminal do Tietê.

Música tocando no momento:
Mean Mr. Mustard, Beatles, uma versão pirata que o Donizetti me mandou.

5 músicas que tenho escutado ultimamente:
Fase clássica, que não é bem a minha praia, porque achei as gravações de Caruso e umas sinfonias de Beethoven disponíveis para download na BBC, e o que é melhor: gratuitas.

5 pessoas para quem passo a batuta
Ah, não vou fazer isso não. 🙂

O dia em que roubei um poema para mim

Mestre Rafael pergunta,
se temos medo do fato
de a vida virar defunta.
Essa coisa de morrer,
não tem como socorrer:
é um defeito que é nato.

Nasceu, tá pronto pra viagem.
É questão de dia e hora;
é regressiva a contagem.
Pode ser lá no futuro,
depois de homem maduro,
pode ser aqui e agora.

Nascemos e nos enreda.
Não carece de ter medo
de algo que é tiro e queda.
Por isso, tô preparado,
o contrato afiançado:
na hora agá, me escafedo.

Mas dois desejos carrego,
com os quais durmo agarrado.
Ao corpo peço, e não nego,
com o máximo vigor:
agüenta um pouco de dor,
mas não padece entrevado.

O meu segundo pedido,
depois do qual eu me aquieto,
dou o pleito por cumprido:
criar bem os meus filhotes,
e, o mais precioso dos dotes,
beijar meu último neto.

Por ser pouco o que assesto,
dou como certo que a vida
atenderá sem protesto
a petição que revelo.
Pouco mais que um caramelo,
é quase nada a pedida.

Então, planejar a vida
é necessário, por vezes.
Espichar minha medida,
com sutil aditamento:
o meu último rebento
mal completou oito meses.

***

Normalmente, textos escritos por outra pessoa são copiados aqui entre aspas. Esse poema do Roman, no entanto, é publicado sem elas, porque eu gostaria que fosse meu e a partir de agora, sempre que alguém me perguntar o que é isso, eu vou dizer com modéstia fingida que fui eu quem escrevi, mas que é isso, não é nada de especial, é só o meu jeito de dar à indesejada das gentes, tema tão chato e tão batido, um lirismo que quase a faz desejável, e então vou encerrar o assunto com um sorriso encabulado e repleto de modéstia pia.

Não vou dizer que, embora impressionado com o lirismo simples do poema, ele não foi exatamente uma surpresa. Nem que é algo que o Roman já vem fazendo no Blog-dos-Ventos há bastante tempo, porque se eu disser isso vão descobrir que eu sou apenas um sujeito com uma baita inveja do poema e que tomei ele para mim.