Quando fantasmas aparecem

Ontem, quarta-feira, estava caminhando no centro da cidade quando ouvi uma voz me chamando:

— Ra-Ra-Rafael!!

Me viro e vejo João que não encontrava há tantos meses, um amigo de muitos anos, dos tempos de jornal e rádio, um sorriso grande mas meio assustado no rosto:

— Rafael, me disseram que você tinha morrido.

Parei, olhando para ele. Enquanto ria, lembrando da coincidência de ter postado algo sobre o assunto ontem mesmo, disse que ainda bem que não tinham me avisado.

— Eu chorei tanto quando me disseram. A gente rezou muito na Ação Solidária Santo Antônio por você. E agora eu te vejo e tomo um susto — mas pelo menos é um susto bom.

E mesmo assim eu ainda não sabia o que tinha acontecido. Agradecido pelo carinho, mas também com um certo pudor que me impedia de perguntar quem tinha sido o desgraçado a espalhar essa notícia, até onde sei muitíssimo exagerado.

— Como foi que eu morri?

Em um acidente de carro, foi a resposta. Aí entendi o que tinha acontecido. Ano passado, um rapaz chamado Rafael morreu em um acidente. Eu não o conhecia, mas conheço de vista o seu pai — e lembro de admirar a sua força e a capacidade de seguir em frente durante a campanha do ano passado. Lembrei também que alguém tinha aportado neste blog procurando mais informações sobre o assunto, e até fiz um post sobre isso antes de saber quem era ele e de, de forma muito indireta, nossos caminhos se cruzarem de maneira estranha. Não deram sobrenomes, e aí o João achou que o falecido era eu.

O que não nos mata nos torna mais fortes. Mas até agora eu não tenho certeza de que ainda estou vivo.

Um bandido chamado Lampião

Lampião e seu bando chegaram à fazenda de Z. no interior de Sergipe. Pediram abrigo, dinheiro, as coisas que sempre pediam. Ou exigiam.

Z. se recusou ou não tinha o suficiente, não sei, e os cangaceiros fizeram a festa. Não gostaram de algo que C., mulher de Z., falou, ou o jeito como olhou — porque quando se estava diante dos cangaceiros todo respeito era pouco. Lampião então pegou uma palmatória e lhe deu seis “bolos” na mão.

“E agora?”, perguntou Lampião.

“É só isso?”, perguntou C., tentando controlar a raiva.

Lampião lhe deu mais seis bolos.

B., o filho mais novo do casal, acordado com a barulheira, estava perto da parede. Naquela época se dormia com camisolões. Um dos cangaceiros arremessou um punhal — espadins finos, com lâminas de cerca de 40 centímetros de comprimento — contra ele. O menino ficou pregado à parede pelo camisolão.

Lampião foi embora. Z. vendeu a fazenda por uma ninharia e se mudou dali.

***

Não há nada mais equivocado que tentar justificar o ciclo do cangaço a partir das condições sociais da época, e usá-las para evitar chamar Lampião pelo que ele era, bandido. Elas explicam, claro; mas não justificam nem amenizam o seu caráter criminal.

É como justificar o fenômeno no tráfico no Rio de Janeiro. Com uma diferença: as tais “condições sociais” são muito mais graves no morro, porque a desigualdade social é mais gritante, e o favelado é confrontado todos os dias com imagens de um consumismo desenfreado. No entanto, ninguém pensa em chamar um Elias Maluco de herói. Se em outros tempos, em que os traficantes tinham maiores ligações com a comunidade, essa lenda ainda persistiu durante um tempo, hoje ela já provou simplesmente não existir.

Aqueles que transformam Lampião em uma espécie de robin hood da caatinga provavelmente esquecem a história. Porque essa versão romântica esbarra no fato de que ele, tantas vezes, serviu apenas de jagunço para coronéis da região. É contradita pelo fato de que eles aterrorizavam pequenos sitiantes e vilas inteiras, tomando dinheiro de todos, mas poupando proprietários de terra que lhe dessem abrigo — os coiteiros.

Lampião era apenas um coronel sem terras. Seu comportamento era o mesmo, com a diferença que ele precisava ser ainda mais truculento por não ter nenhum estamento que lhe garantisse, diretamente, o poder que exigia.

Não interessa a miséria ou o que fez Lampião ou Antônio Silvino cangaceiros, porque a mesma miséria atingia um bocado de gente. O que interessa é que durante os anos em que assolaram o sertão nordestino sua atuação foi a de bandidos, de assassinos, ladrões e opressores.

Essa mitologia romântica a respeito de Lampião parece ter se consolidado a partir dos anos 70. Era época de ditadura, e aparentemente os movimentos de resistência resolveram tomar como aliados qualquer coisa que representasse combate ao Estado. Entre outros, isso desagüou no Comando Vermelho, o que deve ter posto de cabeça para baixo toda a crença pseudo-leninista na idéia de que o povo armado fará a revolução; pelo menos aqui, o povo armado sobe o morro e vende cocaína, que dá mais dinheiro.

Comparar cangaceiros a terroristas palestinos é apenas falsificação da realidade. Concorde-se ou não com seus métodos, os palestinos estão lutando por algo maior que eles. Lampião e seu bando lutavam apenas por si próprios. Para que houvesse alguma razão em não chamar Lampião de bandido seria preciso que alguém mostrasse algo de significativo que ele tenha feito para contestar o status quo social, e não usar a força para garantir o seu quinhão.

Mas com exceção de eventuais rompantes de generosidade, a generosidade do senhor feudal, eu não conheço nada parecido.

O dia em que a música morreu

Se você não conhece a gravação original de Don McLean, conhece certamente a versão de Madonna para American Pie. Fez um certo sucesso ali pelo começo dos anos 2000. É uma canção do início dos anos 70, que celebra de maneira nostálgica e meio obscura os anos 50, aquela época em que os Estados Unidos se achavam perfeitos, a adolescência tinha acabado de ser inventada e o rock and roll dava os primeiros passos, e que para mim são, também, a época em que negros andavam na parte de trás dos ônibus. A versão de Madonna pega apenas uns pedaços da letras e inclui uns teclados sampleados de Hot as Sun, de Paul McCartney. A música faz referência ao dia 3 de fevereiro de 1959, quando um avião carregando três roqueiros se espatifou em Iowa.

Os roqueiros eram Big Bopper, Richie Valens e Buddy Holly, como sabe todo mundo que assistiu ao filme “La Bamba”.

Mas esqueçam tudo aquilo que viram ali: a importância de Richie Valens é, principalmente, histórica. É um nota digna na história da ascensão dos latinos na cultura de massas americana, mas não muito mais que isso. Musicalmente ele era algo próximo de nada, mais um roqueiro medíocre entre tantos outros, e com exceção da idéia genial de gravar La Bamba, dono de uma discogafia absolutamente medíocre que talvez possa ser desculpada por sua pouca idade — 17 anos –, mas que provavelmente não iria a lugar nenhum. Era o que os americanos chamam de “one hit wonder“, com a vantagem de ter acertado na mosca um nicho de mercado importante.

Big Bopper, por sua vez, era uma piada. Chantilly Lace, seu grande sucesso, é engraçadinha, e só. Não tivesse morrido com a cara na neve num buraco qualquer de Iowa (um amigo que morou lá fala das semanas seguidas sem tomar banho, porque a água tem o hábito singular de congelar nos canos a 40 graus negativos), é bem provável que dali a uns dois anos ele tivesse se tornado vendedor de automóveis. Algo assim. Seguros, talvez. Essas coisas pareciam combinar com ele.

Na época, a morte realmente importante foi a de Buddy Holly.

Sua importância para o rock and roll é enorme. Foi quem popularizou o formato que seria o padrão para as bandas de rock: duas guitarras, um baixo e uma bateria. A diferença que duas guitarras fazem é impressionante. Keith Richards já disse que é impossível fazer um cover dos Rolling Stones com apenas uma, e se alguém quer saber a importância da guitarra de Lennon para os Beatles, basta ouvir Clarabella, do Live at BBC, e vai-se perceber a falta que ela faz. En passant, Lennon era um grande guitarrista rítmico. Além disso, como se ninguém soubesse, os Beatles criaram seu nome a partir do nome da banda de Holly, The Crickets.

Holly ocupou um espaço bem definido. Era mais “aceitável” que Elvis — o rapaz usava óculos; ninguém usava óculos no showbiz antes dele –, mas acima de tudo era um grande compositor. Ele partiu de suas origens texanas e recriou o country, de uma maneira mais ou menos paralela à de Chuck Berry recriando o blues para uma platéia dançante. Nada pode subestimar sua importância no desenvolvimento da música que viria a ser a base de toda a música popular mundial.

Mas as pessoas se esquecem que quando morreu a carreira de Holly estava indo pelo mesmo caminho de tantos outros: o mainstream pop. Pelo amor de Deus, ele estava gravando Paul Anka, e bobagens românticas como True Love Ways. Não importa se a música era boa: o que importa é que rock and roll é basicamente atitude que nos faz esquecer que tudo aquilo deriva do que há de mais manjado na música mundial, o blues de 12 compassos. Não seria absurdo imaginar que, ao longo dos anos 60, Holly tivesse se tornado uma espécie de Paul Anka menos canastrão.

Depois desse ano, a música pop passou por tempos sombrios. Elvis resolveu dar um golpe de marketing e foi servir o exército na Alemanha; voltou cantando coisas como Bossa Nova Baby e, quase como uma premonição, Viva Las Vegas. Fats Domino atingiu o esgotamento criativo. Jerry Lee Lewis via sua carreira se esvair só porque ele tinha dado uns amassos sua prima de 13 anos (mas ele tinha casado, pelo menos). Chuck Berry se envolveu num caso de prostituição com uma menor de idade. Little Richard, na primeira de suas crises existenciais periódicas, já tinha sumido da cena havia alguns anos (é sua uma das frases mais engraçadas do folclore do rock: “O rock and roll é mau, porque lhe faz tomar drogas, e as drogas transformam você em homossexual”). Eddie Cochran morreu em um acidente de carro em Londres. Gene Vincent, o mais subestimado de todos os “pais do rock”, decaía física e musicalmente. Não tinha sobrado ninguém.

Aquela foi a época do twist, de Chubby Checker, e de sobreviventes mela-calcinhas como os Drifters.

Seria preciso que, com Kennedy morto e os americanos precisando desesperadamente de alguém para amar, uns garotos meio mal educados de Liverpool aparecessem por lá cantando I Want to Hold Your Hand. Juntando-se ao que acontecia, naquele momento, na costa oeste americana, eles transformariam a música pop de uma maneira que a tornaria irreconhecível.

A música morreu, mas ressuscitou 5 anos depois.

Os filhotes de Bento XVI

Ih, rapaz, o Pedro Sette Câmara se doeu com o último post.

Num blog chamado “O Indíviduo”, que emana um certo cheiro de Olavo de Carvalho e tem como epígrafe uma frase do papa Bento XVI, o sujeito começa dizendo que eu sou feio — se é que entendi bem a ironia, porque nunca se sabe se ele está falando sério ou não.

E, poxa, essa me baqueou. No fundo do coração. Porque o Pedro não sabe, mas essa foto aí em cima é a melhorzinha que eu tenho. Tenho outras ainda mais feias. Isso dói, meu filho; o padre devia ter te ensinado a não magoar as pessoas assim. Vou bater a cabeça na parede assim que acabar de escrever isto aqui. Na verdade, só estou respondendo ao seu post por causa disso.

Mas vamos lá.

O melhor mesmo é o adjetivo que o Pedro usa mais abaixo para definir a minha atitude: “mentalidade mimada”. É prima da “superioridade” que ele julga, talvez freudianamente, ver em nós ímpios. Argumento fácil, bobo, que tenta transferir para nós, depravados sem fé, uma noção que na verdade é deles. São eles que julgam que a sua fé nos ditos da Igreja os tornam superiores a essas tentações carnais do demônio, e são eles que pregam soluções imbecis como a “abstinência” em detrimento de medidas preventivas como o incentivo ao uso da camisinha. Pior: dão à camisinha um poder que ela não tem. É nessa tergiversação e nessa inversão da realidade que o proselitismo desses desvairados traz problemas.

O post do Pedro me deixa com um problema nas mãos porque, como disse nos comentários ao post anterior, eu não discuto seriamente com esse pessoal. Não discuto porque é lhes dar uma legitimidade intelectual que eles não têm; não discuto porque, em seu proselitismo fanático, eles tentam impor ao mundo uma visão irreal e prejudicial. Não por ignorância, mas por obscurantismo. Há 400 anos, era esse pessoal que fazia Galileu voltar atrás e dizer que o sol girava em volta da terra, porque se o Homem era o centro da Criação era assim que as coisas tinham que ser. Sua postura atual contra o uso de preservativos é só a versão recauchutada — e, graças a Deus, menos poderosa.

Traduzindo: eu não discuto a sério porque não reconheço inteligência nos seus argumentos. Mais que isso, eu os acho absolutamente nocivos: misturam questões de saúde pública com uma noção específica e inalcançável do mundo que só diz respeito a eles.

Esse tipo de militante religioso é deletério por ser obtuso e por querer tornar sua obtusidade universal.

Embora reconheça ingenuidade no Bruno, ele basicamente repete os mesmos argumentos. Tem o cuidado de citar sua namorada, coitada, que não tem nada a ver com a história, talvez para evitar que eu o chame, também, de “donzelão” (mas me deixa com outras perguntas, também). O que é engraçado, porque se eu sou o “donzelão dos argumentos”, os deles são mais rodados que Maria Madalena; a vida é engraçada. A base deles é a seguinte: “a camisinha incita à promiscuidade”. A única diferença é que o Pedro estrutura sua argumentação de maneira formalmente mais sofisticada, inlusive usando a palavra-mãe de todas as argumentações, “ora”. Pedro, eu acho esses “oras” podres de chique.

Quanto à citação que o Pedro me acusa de fazer sem saber (Mater et Magister em vez de Mater et Magistra), na verdade não vem da encíclica papal, que nunca li (mas confesso ter tido uma queda impressionante por pornografia na adolescência, Pedro). Vem de uma escola com esse nome. Mas fiz uma busca rápida no Google, e as 12 páginas com resultados que citam a encíclica indiscriminadamente pelos dois nomes talvez ponham um pouco de dúvida na certeza cheia de fé do rapaz. Mas eu é que não vou brigar por esse detalhe, nem tampouco ler tudo isso só para provar que o Pedro fez uma correção errada. Se estou errado, tudo bem. Essa simples página do Vaticano, usando as duas expressões, talvez seja o suficiente para mostrar uma coisa: que eles têm uma tendência a encarar o seu jeito de ver as coisas como o único existente.

P.S.: Pedro, adorei os “sonhos erótico-profanadores”. Ui.

Mater et magister

O Bruno caiu aqui de pára-quedas e deixou um longo comentário a um post, que comento abaixo.

Infelizmente a mídia conseguiu fazer uma lavagem cerebral nas mentes obtusas de muitos desinformados (grande maioria da população) sobre o tema “Igreja Católica, aids e uso da camisinha”. Colocando a Igreja como uma instituição retrógrada e ignorante, ridiculariza-a por ser contrária ao uso dos preservativos. Os chamados meios de “informação” (neste assunto são desinformantes e deformantes), obscurecem os verdadeiros motivos da discordância da Igreja com relação ao uso do preservativo, buscando colocar a população contra a mesma. Iludindo os telespectadores, leitores, etc, dão a entender que a Igreja condena simplesmente o uso do preservativo e nada mais. Ora, por que não entrevistam uma autoridade da Igreja? Por que colocam em um horário de grande pico de audiência alguém capacitado para falar em nome da Igreja?.

Boa pergunta, Bruno. Não sei. Talvez porque, da última vez que colocaram, um padre italiano falou que reprodução assistida é coisa do demônio. Quem sabe?

Mas as pessoas não costumam falar da ignorância da Igreja Católica. Elas sabem que sua postura deriva de um compromisso doutrinário com uma determinada concepção de vida. Elas só chamam de retrógrada, mesmo.

As propagandas e o programa de combate a aids somente fomenta que devemos nos proteger das doenças, do risco de gravidez indesejada. Mas como ficaria os valores morais? Estes não fazem parte das propagandas. O que importa é “se divertir”, é “aproveitar o carnaval” é “curtir a vida” é “não importar de que lado esteja (anjo ou diabo)”, mas com a final frase “desde que use camisinha”. Ou seja, eu usando camisinha eu posso ter uma vida libertina, sexo sem compromisso, tratar as mulheres como objeto, adulterar, etc, pois eu estarei seguro, e é isto que me importa, e o resto que se dane. Quando se entrega o preservativo ou estimula o seu uso é como se dissesse:
_ Você é livre pra fazer o que quiser, use isto (camisinha) assim estará “garantido” a sua segurança.

Se eu usar camisinha eu posso ter tudo isso aí? Libertinagem, sexo sem compromisso, tratar mulheres como objeto? Você promete? Onde é que compra? Posso comprar mais de uma? Posso dar uns tapinhas na bunda, também?

Certa vez pude comprovar a influência que as campanhas têm sobre as pessoas. Logo após receber 2 preservativos da campanha, imediata e pretendidamente joguei-os fora. Vendo o que fiz, uma das pessoas da campanha, em tom ignorante, me perguntou porque fizera aquilo, que o preservativo não era para ser jogado fora, que se eu não quisesse usá-lo que desse a outra pessoa. Disse àquela pessoa que uma vez que os preservativos fossem meus poderia fazer deles o que quisesse, como não preciso deles, os joguei fora. Não dei a outras pessoas para que essas assim como eu não se sentissem pressionadas a usá-los e o que tinha feito somente foi um teste para comprovar o que eu já havia pensado. Recolhendo os preservativos, sem falar mais nada os deu a outro. A atitude dela é apenas o reflexo do que pensa a maioria das pessoas em relação ao uso dos preservativos. Uma vez que eu tenha a camisinha à mão eu tenho que utilizá-la.

Felizmente a Igreja Católica não faz mais com que seus prosélitos queimem hereges e blasfemos. Agora eles simplesmente jogam camisinhas fora. E o tom da moça não foi “ignorante”: foi de incompreensão diante da estupidez. No mínimo da falta de educação.

De qualquer forma, se a simples posse de uma camisinha lhe faz sentir pressionado a utilizá-la, eu fico pensando nas noites em claro que você tem passado em sessões de auto-flagelação, tentando tirar aqueles pensamentos impuros de sua cabeça, tentando domar aquele calor que sobe pelo seu corpo.

Pior: não é nem uma dominatrix que está fazendo essa sacanagem com você. Ui.

Há anos atrás eu lia numa revista adolescente, um rapaz de mais ou menos 16 anos relatando como foi a 1ª relação sexual que teve quando tinha 14 anos, “estava sozinho com minha namorada na casa dos pais dela, lembrei que tinha ganhado do MS 1 preservativo, perguntei a ela se estava afim de transar, ela topou e aí rolou”. Somente pela linguagem, com que este rapaz relata o assunto, já se denota a imaturidade e irresponsabilidade perante o modo com que trata coisas sérias, e pior, as expõe a terceiros. Se esta camisinha tivesse se rompida (o que não é raro), poderia ter havido mais uma criança de 14 anos grávida e talvez até como uma doença sexualmente transmissível. Se este ao invés de camisinha tivesse recebido instrução sobre valores humanos, não teria corrido este risco.

Bruno, senta aqui do meu lado. Está na hora de você aprender uns fatos sobre a vida, que o padre não pode te ensinar.

Em primeiro lugar, não é bem assim que as coisas funcionam, tá? Bem que queríamos: já imaginou você, do nada, dizer para a gostosa à sua frente “olha, tenho uma camisinha, vamos transar?” e ela aceitar? Deus, isso seria o paraíso. Mas não é assim que as coisas acontecem e o rapaz provavelmente omitiu uma porção de detalhes.

Como você é leigo no assunto eu vou explicar.

Normalmente, no caso de dois namorados, é preciso um longo processo para que se chegue a esse momento. Algum tempo de reconhecimento, sabe como é — bem, talvez não saiba.

Primeiro uma mão nos peitinhos, prontamente repelidos. Mas não desista, quem não arrisca não petisca. Continue tentando. À medida que a intimidade aumenta, e com ela a confiança, as coisas seguem seu curso naturalmente. Mãos. Bocas. São adolescentes, é tudo novo, é preciso um pouco mais de tempo, você entende. Até que, depois de dias planejando o que fazer — como aquele apaixonado por uma moça que mora no cu do judas e toda noite aparece na porta da casa dela, dizendo que “eu estava passando por perto…” — ele aparece com uma camisinha, isso depois de saber que a moça está subindo pelas paredes.

Não incluo aqui, claro, os casos fortuitos de sexo casual, libertinagem e etc. Esses só acontecem quando você tem muita sorte. E, claro, quando você tem uma camisinha no bolso, cujo poder demoníaco lhe força a fazer coisas indizíveis e absolutamente indecentes.

Finalmente, como é que o pobre rapaz, ainda virgem e na flor dos seus 14 anos, podia já ter uma doença venérea? Você realmente implicou com o sujeito.

Quando a Igreja exorta a seus fiéis a não usarem camisinha, o que Ela pede aos solteiros é que sejam castos, e deste modo não pratiquem a fornicação, aos casados, o adultério e aos homossexuais o homossexualismo. Do mesmo modo aos casados, Ela pede a castidade conjugal, que não use de maneira descontrolada o sexo com a finalidade somente do prazer, que não tente controlar a vida usando o preservativo como método antincepcional.

A essa altura eu tenho uma grande dúvida e várias hipóteses:

Hipótese 1: Você é casado e só dá no couro da patroa com fins exclusivamente reprodutivos.
Hipótese 1.1: Você teve umas três relações sexuais em toda a vida, porque leite, escola e planos de saúde estão pela hora da morte, e isso é broxante;
Hipótese 1.1.1: Você agradeceu a Deus por ela não ter engravidado em uma dessas e você teve a chance de dar mais uma, que não estava no roteiro, e depois teve que se penitenciar por ter se alegrado com algo tão torpe.
Hipótese 1.2: Você está cheio de filhos e eu quero ser seu amigo, porque você é rico e eu, como disse ao Brigatti, já estou de saco cheio de só ter amigo pobre.

Hipótese 2: Você é solteiro.
Hipótese 2.1: Você é donzelão e vive às custas de muita oração e banho gelado.
Hipótese 2.2: Você é um punheteiro.
Hipótese 2.2.1: Isso aí também não é pecado?

Finalmente, por uma convenção da gramática portuguesa, os pronomes relativos a Deus usam maiúsculas. Os da Igreja, não. Mas parece que para muita gente há uma confusão grande entre Deus e Igreja.

O erro (pecado), não estará no uso do preservativo, mas no motivo porque se usa. Ou seja, se uma pessoa solteira pratica sexo com outra solteira, independente de estar usando ou não camisinha o pecado foi a fornicação. Ou se uma casada tem relacionamento extra conjugal, seja o sexo feito com camisinha ou não o pecado foi o adultério. Quando alguém não tendo domínio de si adultera ou fornica, torna-se necessário o uso do preservativo, não como um método 100% seguro (pois não é), mas com a intenção de evitar um mal maior, como uma doença sexualmente transmissível, e uma gravidez seguida de aborto (observe como um erro conduz a outros).

Vou te dizer uma coisa, Bruno, e não me leve a mal por isso, porque eu só quero o seu bem. Depois de ver as conseqüências terríveis que você inconscientemente associa ao sexo (doenças venéreas, aids, abortos, danação eterna no segundo círculo do inferno), e ver o tanto de culpa que você carrega, eu juro que se fosse mulher ia querer distância de você. Para evitar ser obrigada a lhe colocar um par de chifres na testa. Sabe como é. Eu ia ter necessidades, você entende.

Uma mulher (ou homem) que suspeite que seu (a) cônjuge a (o) esteja traindo tem não só o direito de usar preservativo desde que seja por motivos de preservação da saúde. Como ação primária deve abster-se do sexo e pedir exames que comprovem que seu (a) cônjuge esteja livre de doenças. A Igreja jamais fará campanha a favor da camisinha, pois vão distorcer, e falar que Ela liberou o sexo livre.

E aí, faz o quê? Pede o divórcio?

Ah, desculpe. Esqueci. A Madre Educadora não permite o divórcio.

RESUMINDO:
A Igreja Católica como Mãe e Educadora apresenta o melhor e mais barato programa de combate a todas as doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez fora do matrimonio. Este programa é baseado não na distribuição irresponsável de preservativos, mas na educação, valorização da população. Mas a mídia como se fosse o pior vírus, destorce, prestando um grande serviço de desinformação. Culpando a Igreja pela disseminação da aids, ela (mídia) apresenta um programa caro e fracassado. Quem ouve a igreja não adultera, fornica e pratica o homossexualismo, portanto não precisa usar preservativo. Os que não ouvem, pouco vão se importar com o que a Igreja pensa sobre a camisinha. Dizer que a Igreja terá que pedir perdão às vítimas da aids é uma grande hipocrisia.

Certo.

Agora, olha, fala baixo. Porque se você falar muito alto o padre Joseph Smith, daquela paróquia em Boston, vai te ouvir. E aí vai se atrapalhar no boquete que está pagando naquele menininho.

Mas finalmente concordo com você: a Igreja não tem que pedir perdão aos portadores de HIV. Eles deram ouvidos às besteiras que ela disse porque quiseram.

E já que concordamos em uma coisa, e podemos nos considerar amigos, queria te pedir um favor: você conhece alguma freira gostosinha? Me apresenta? Tenho até vergonha de confessar, mas fico imaginando como deve ser, ahn…, educativo bater com um crucifixo na bunda de uma freira, hábito levantado, enquanto… Ah, esquece.

Que tem que pedir o perdão são os que incentivam o “sexo livre” o “aproveitar o carnaval” o “faça sexo seguro” “etc, etc, etc”. A camisinha tem um índice de mais ou menos 83 a 93% de segurança, a castidade que a igreja pede a seus fieis tem 99,9999% (porque nada é 100%) de segurança. Termino com a frase de um padre católico: “A CAMISINHA PREVINE A AIDS, A CASTIDADE E A FIDELIDADE ACABAM COM A AIDS”.

Um dia vão te mostrar as pesquisas que mostram que aqueles que dizem se comprometer a praticar a abstinência têm os mesmos índices de gravidez e doenças venéreas que as pessoas, digamos e sem ofensa, normais. Mas aí você vai dizer que elas não ouviram a voz da Mãe e Educadora.

Em vez disso, ouviram os gemidos, as juras de amor, sentiram o cheiro do suor.

Pobres coitados. Se perderam diante das portas do paraíso. Rezemos por suas almas.

Cine Tamoio

Semana passada este blog recebeu um comentário de um estudante da Unibahia, fazendo uma pergunta sobre o cine Tamoio. Curiosamente, eu soube que o Tamoio tinha fechado (para se transformar — adivinha? — em uma igreja evangélica) por outro comentário, deixado aqui em fevereiro ou março.

Olá Rafael!
Apesar de você discorrer sobre o filme “Em algum lugar do passado”, não é este o motivo que me traz aqui. Sou estudante de jornalismo da Unibahia e estou fazendo um trabalho sobre o fechamento do cine Tamoio, como você cita sua visita a este cenema gostaria de contar com sua ajuda para desenvolver o trabalho. Você se importa em me relatar suas experiência no cine Tamoio e como você se sente por ele ter virado uma igreja evangélica?
Caso seja possível envie um e-mail para xxx@xxx
Obrigada pela atenção,
Cássia Carneiro.

Cássia,

Faz muito tempo desde a última vez que entrei no Tamoio. Foi em 1993, acho, para assistir a “Corpo de Evidência”, filme ruim com a Madonna e o Willem Dafoe. Na verdade, a época em que mais fui àquele cinema foi no começo dos anos 80.

Em primeiro lugar, o Tamoio é só mais um. Todos os cinemas do centro de Salvador fecharam as portas ou, com “sorte”, se transformaram em exibidores de filmes pornográficos, adiando um pouco o primeiro fim, que é inevitável. Um ou outro, esses foram os destinos do Excelsior, do Jandaia, do Pax, do Bristol, Liceu, Astor, Tupi, do Popular. Duvido que a maioria dos soteropolitanos na casa dos 20 anos sequer lembre de todos esses cinemas.

O problema é que não há saída para os cinemas de centro. Seu fechamento progressivo é o resultado de um processo de modernização das cidades, de migração da classe média consumidora para os shopping centers. Não dá para evitar. É até uma prova do valor desses cinemas, como elemento cultural urbano, que tenham sobrevivido tanto tempo mesmo décadas depois de todas as lojas chiques terem ido embora da rua Chile. O Tamoio sobreviveu à Sloper por muito tempo.

Para que esses cinemas sobrevivam é preciso fazer o que o Unibanco fez com o Glauber Rocha aí em Salvador. Mas mesmo esse não é exatamente um “cinema de centro”; está mais para um “míni-shopping cultural” no centro da cidade, com várias salas de exibição. Um exemplo melhor seria o que a Petrobras fez com o Odeon, no Rio. Em qualquer desses casos, é um investimento que tem pouco a ver com o mercado.

Há um outro lado, também. Eu acho meio irônico que, sempre que um cinema feche as portas (e quando é para virar igreja evangélica a grita parece ser maior, talvez porque a classe média católica se assuste com o crescimento das igrejas pentecostais entre os pobres), as pessoas reclamem, chorem suas saudades dos velhos tempos. Elas só não se fazem uma pergunta simples: há quanto tempo elas não iam para aqueles cinemas, preferindo o conforto e a maior adequação social dos cinemas de shopping? As pessoas parecem esperar que cinemas funcionem sozinhos, apenas para manter uma paisagem urbana familiar, talvez a sensação de que as coisas continuam como eram. Mas isso é impossível.

De certo modo há uma grande hipocrisia em tudo isso, como é típico da classe média.

De qualquer forma, eu acho melhor que um cinema desativado vire igreja do que estacionamento ou loja. Pelo menos eles continuam, de uma maneira meio torta, fazendo o que sempre fizeram: criando sonhos.

Um abraço, e espero que tenha ajudado,
Rafael

Infância

Em 1977 eu cheguei à alfabetização — naquela época, nos breus da ditadura, chamava-se ainda pré-primário –, já sabendo ler e escrever. Minha mãe tinha me ensinado uns dois anos antes. E eu escrevia normalmente, em letra cursiva.

É uma das primeiras lembranças, se não a primeira, que tenho da escola: a professora tentando me fazer escrever em letra de forma porque era assim que as outras crianças estavam aprendendo, me fazendo regredir a um ponto pelo qual, aliás, eu nunca tinha passado.

Depois as pessoas não entendem por que nunca gostei da escola.

Seara Vermelha

O Grilo vê “Seara Vermelha” de uma forma exatamente contrária à minha. Acha que o problema é o realismo socialista em si (“O problema maior é que JA escreve de modo a tentar convencer o leitor que a solução é o comunismo”).

Em termos literários, o realismo socialista nunca foi um problema. Não há nada de errado — a não ser que você jogue em cima de uma obra literária todos os seus conceitos ideológicos — em escrever um final de livro dentro desses parâmetros, como não havia no naturalismo. É só uma escola a mais, não é melhor ou pior que o realismo fantástico, ou que Chaplin e Paulette Godard terminando “Tempos Modernos” seguindo estrada afora. O realismo socialista só se transformaria em problema com o zhdanovismo.

Se esse fosse o problema de Jorge Amado, então praticamente toda a sua primeira fase seria ruim. Ele tentou convencer a todos que o comunismo era a redenção em vários outros livros, com bons resultados artísticos. Pedro Bala, líder dos Capitães da Areia, se torna líder sindicalista (mas Jorge Amado não deixa que o futuro do proletariado atrapalhe uma das mortes mais belas da literatura mundial, a de Sem Pernas). Linda, personagem de “Suor”, vira militante de distribuir panfleto na rua e levar porrada da polícia. Os exemplos são muitos.

Em todos esses casos, são transformações — ou evoluções — lógicas, conseqüentes, aceitáveis dentro de um ambiente urbano, e onde saiu praticamente todo o movimento comunista brasileiro.

Mas os problemas do sertão nordestino nunca tiveram muito a ver com o comunismo, e o próprio fato de o Ismael notar que há algum problema naquele final é um indício de que há, sim, quebra narrativa ali. Ainda que historicamente não seja exatamente um absurdo (não foram poucos os sertanejos que se tornaram militantes comunistas ao migrar para as cidades, e o personagem é uma fotografia de José Praxedes, líder da Revolução de 1935 em Natal), o resultado é mais ou menos como contar a história de uma favela a partir de um ganhador da loteria. Para utilizar uma linguagem marxista, as contradições sociais da região se manifestavam de várias formas — mas a militância comunista certamente era a menor delas. Mesmo um velho comunista como eu não consegue sentir verdade nessa situação.

Um dos defeitos desse final vem do fato de enxertar um ambiente urbano em um livro que se passou inteiro no interior do país. Até aquele momento, cada segmento se relaciona harmoniosamente com o outro, estão todos dentro de um mesmo mecanismo social; o panorama revolucionário traçado em Natal não tem absolutamente nada a ver com o resto do livro.

O outro problema é o final revolucionário, quase um corpo estranho dentro do que seria um dos mais completos painéis da realidade sertaneja. É aquele painel, e não a saga da família retirante ou a de cada irmão, que faz de “Seara Vermelha” um grande livro, ao mostrar um sertão dividido entre as principais forças existentes na época: a natureza pouco dócil, o messianismo religioso, o cangaço, um Estado ineficiente e repressor. E Jorge Amado avança pelo livro sem cair naquela armadilha que fez com tanta gente considerasse um exemplo acabado do atraso como Canudos um marco imaculado de resistência, e bandidos como Lampião heróis populares.

Se terminasse o livro ali, “Seara Vermelha” seria a “Ilusões Perdidas” da literatura brasileira.

Mas com a história do último filho o livro se apequena, recua diante da grandeza do painel que traçava e o transforma em mero pretexto para sua profissão de fé. É isso que possibilita a leitura reducionista que o Grilo faz; e é isso que faz de “Seara Vermelha” uma promessa não cumprida.