Un hypocrite lecteur

Normalmente este blog não publicaria um comentário marcadamente anti-semita, já que considera o anti-semitismo não apenas um caso terminal de burrice atávica, mas um exemplo cabal de canalhice. Anti-semitas são lixo.

Acontece que o comentário do Pablo Daniel Huber a este post é muito curioso:

Cai na real meu, vc não sabe o que tá falando..
Só vou comentar a questão do Pio XII, o que vc queria que ele fizese? Enfretasse Hitler? E desque quando os judeus se importaram com alguém que está sendo massacrado? Por que o papa, que não tem nada a ver com eles, teria que defendê-los? É só porque quando alguém não defende os judeus é mal falado. Cai na real cara, vai estudar mais sobre história antes de ficar falando bobagem. A igreja nunca foi santa, como por exemplo na Idade Média, mas já melhorou muito. Quanto ao conservadorismo do Papa João Paulo II, ele apenas seguiu os príncipios da igreja, que diga-se de passagem embora eu não siga, mas acho que são corretos…..

Hoje foi um dia longo e eu não estou com a mínima paciência para argumentar. Você vai me perdoar por isso, Pablo. Mas tenho umas perguntas a fazer:

1 – O que eu queria que Pio XII fizesse? É, enfrentar Hitler, o que podia ser feito de maneira sutil. Não seria o primeiro nem o único. Mas longe de mim comparar uma reles autoridade papal aos milhões de pessoas comuns que combateram o sujeito.

2 – Eu vou estudar história, sim; mas você promete que estuda também, além de fazer um pequeno curso na Socila?

3 – Por que o Papa teria que defender os judeus? Você está querendo me dizer que judeus não são filhos de Deus? Que Deus não é o Pai de todos?

4 – A Igreja nunca foi santa? Deus do céu, agora tudo é permitido (atenção: essa é uma citação de Dostoiévski em “Os Irmãos Karamazov”. Se você não conhece, vá estudar um pouco de literatura).

5 – Os princípios da Igreja incluem aceitar racismo e genocídios?

6 – Eu ia falar da sua hipocrisia ao não seguir os princípios da Igreja, embora os considere corretos. Mas não, não vale a pena. Em vez disso, vou à missa amanhã rezar por sua alma. Porque tu vai pro inferno, cabra.

Desculpem o tom desaforado do post, mas tive um dia duro e a minha paciência tem o tamanho inversamente proporcional ao meu sono. Amanhã voltamos à fofura normal deste blog, com toda a doçura que mamãe me deu.

"Meu herói"

Que me perdoem os fãs de Dylan. Que me perdoem os fãs de Lou Reed.

O maior letrista do rock and roll se chama Chuck Berry e, en passant, foi também o sujeito que chegou para todos aqueles meninos brancos tocando guitarra e disse: “Olha, moleque, é assim que se faz.”

Há uns 15 anos, como lembrou o Marcus em um comentário aqui há alguns meses, Little Richard fez um longo discurso — daquele jeito escandaloso que só o velho Penniman tem — dizendo que era o arquiteto do rock and roll e que mesmo assim os ingratos não lhe davam um Grammy. É quase verdade: a importância de Richard é descomunal. Mas o rock só se tornou o que foi por causa de Chuck Berry.

Quem disse que o rock and roll dos anos 50 era apenas sobre garotas e carros certamente nunca ouviu Berry. Suas letras são, em uma palavra, fantásticas. Mas sua importância é desprezada em favor da sua contribuição ao papel da guitarra.

No entanto, se o papel de Berry como instrumentista foi fundamental, sob certos aspectos foi pouco original. Ele basicamente transferiu velhos riffs do blues para o novo ritmo. Foi pioneiro, certo, e pode reivindicar com justiça o título de inventor da guitarra no rock. Mas tecnicamente ele não criou aquele estilo. Recriou, no máximo.

Agora, as suas letras são outra conversa. Elas são única e exclusivamente suas. E são brilhantes.

A letra de Memphis é de uma beleza doce e singular; é provavelmente a minha preferida, desde que, há uns 10, 15 anos, eu passei a prestar atenção à poesia de Chuck Berry:

Long distance information, give me Memphis Tennessee
Help me find the party trying to get in touch with me
She could not leave her number, but I know who placed the call
‘Cause my uncle took the message and he wrote it on the wall

Help me, information, get in touch with my Marie
She’s the only one who’d phone me here from Memphis Tennessee
Her home is on the south side, high up on a ridge
Just a half a mile from the Mississippi Bridge

Help me, information, more than that I cannot add
Only that I miss her and all the fun we had
But we were pulled apart because her mom did not agree
And tore apart our happy home in Memphis Tennessee

Last time I saw Marie she’s waving me good-bye
With hurry home drops on her cheek that trickled from her eye
Marie is only six years old, information please
Try to put me through to her in Memphis Tennessee

Blowin’ in the Wind é linda, mesmo quando trucidada pelo Eduardo Suplicy; mas não tem um décimo da verdade e do sentimento que se percebe nessas linhas de Chuck Berry. E verdade e sentimento não podem obscurecer o fato de que a canção é admiravelmente bem construída do ponto de vista estrutural.

Em vários momentos ele atinge a beleza triste que normalmente associamos aos cantores de blues. Em Back to Memphis, por exemplo, um belo retrato de um fenômeno social dado sob uma ótica bem individual:

I’ve been struggling up here, child, trying to make a living
Everybody wants to take, nobody like giving
I wish I was in Memphis back home there with my Mama
The only clothes I got left that ain’t rags is my pajamas
No brotherly love, no help, no danger
Just a great big town full of cold hearted strangers

I went hungry in New York and Chicago was no better
But today, my dear mother wrote and told me in her letter
Son, come back to Memphis and live here with your Mama
You can walk down Beale Street, honey, wearing your pajamas
You know home folks here, we let do just what you want to
And I born you and raised you right here on the corner

I’m going to leave here in the morning and walk down to the station
I’ve got just enough money to pay my transportation
I’m going back to Memphis, back home with my Mama
If I have to ride that bus barefooted in pajamas
Back home in Memphis, no moaning and groaning
I know everything will be all right in the morning

O que Berry canta aqui é a migração de negros do sul agrícola para o norte industrializado, movimento típico de quase todo o século XX. É algo muito próximo do blues, mas com uma sofisticação poética dificilmente encontrada ali.

Por outro lado Havana Moon, à parte a delicadeza de sua melodia, traz uma história de desencontro e destruição de um sonho; mas conta também uma história de diferença social que talvez Berry só possa cantar por ser negro e conseguir, mesmo de forma sutil, dar de maneira clara e convincente o ponto de vista das classes inferiores:

Havana moon, havana moon
Me all alone with jug of rum
Me stand and wait for boat to come
It’s long the night, it’s quiet the dock
The boat she late since 12 o’clock
Me watch the tide easin’ in
Is low the moon, but high the wind

Havana moon, havana moon
Me all alone, me open the rum
It’s long the wait for boat to come
American girl come back to me
We’ll sail away across the sea
We’ll dock in new york, the buildings high
We’ll find a home up in the sky

Havana moon, havana moon
Me still alone, me sip on the rum
Me wonder where the boat she come
To bring me love, ow! sweet little thing
She rock and roll, she dance and sing
She hold me tight, she touch me lips
Me eyes they close, me heart she flip

Havana moon, havana moon
But still alone, me drinkin’ the rum
Begin to think the boat no come
American girl, she tell a lie
She say till then, she mean goodbye

Havana moon, havana moon
Me lay down alone, was good the rum
Me fall asleep, the boat she come
The girl she look till come the dawn
She weep and cry, return for home
The whistle blow, me open me eyes
Was bright the sun, was blue the sky
Me grab me shoes, me jump and run
Me see the boat head for horizon
Havana moon, is gone the rum
The boat she sail, me love she gone
Havana moon, havana moon

Eu cometi um erro durante alguns anos. Ouvi Berry pela sua guitarra, pela sua voz — ela tem uma ironia e uma sensualidade que todas as versões de suas músicas feitas por gente como os Beatles e os Rolling Stones não conseguem reproduzir –, pela sua música. Era pouco. Eu deveria ter entendido imediatamente a razão pela qual John Lennon, um artista para quem letra e música sempre foram indissociáveis, apresentou Berry em um programa de TV em 1974 chamando-o de “meu herói”. As pessoas devem ouvir Chuck Berry também por suas letras. E reconhecer, de uma vez por todas, que o pai da guitarra do rock foi também o seu primeiro poeta.

Mudando para não mudar

Belo comentário do Roger ao último post. No dia em que ele (que quase — quase, não cheguemos a tanto — faz com que eu me envergonhe de pegar no pé dos goianos) resolver escrever seu próprio blog este aqui fica mais pobre.

Mas eu discordo.

Não sei se fé é sinônimo de imutabilidade, o princípio básico do que disse o Roger. Acho que em primeiro lugar é preciso definir o seu objeto.

Na Igreja, o objeto básico não muda. É a existência de Deus como criador de todos e a possibilidade de salvação através da fé n’Ele. Nisso, sim, o Roger tem razão. Na hora em que deixar de acreditar nisso, a Igreja acaba. Mas esse ponto nunca esteve em discussão, provavelmente por óbvio demais. Esse ponto são os dedos da Igreja. O resto, todo o resto, são os anéis.

Acho que o problema central da idéia do Roger é a crença em uma Igreja monolítica, imutável ao longo dos tempos. É algo que a história sempre desmentiu. Como ele disse, “dependendo do tempo e intensidade das mudanças, talvez, um dia, nada reste do que chamamos de Igreja Católica Apostólica Romana, apenas o nome.” Isso é um erro, na minha opinião. Que vai de encontro à própria idéia fundamental da Igreja.

Porque, em primeiro lugar, é preciso saber a qual Igreja nos referimos. A que acredita na Santíssima Trindade? Essa idéia é posterior à sua constituição: foi estabelecida no Concílio de Nicéia, no século IV. A que acredita na Imaculada Conceição, por sua vez, é quase um bebê: definido em 1854 (pondo fim a uma tradição de indefinição que vem desde o Concílio de Trento) é um dogma tão recente que chega a ser curioso que em pleno XIX, o século do trem e da eletricidade e da crença no progresso como algo intrinsecamente bom, ainda se discutisse isso e se chegasse a definições tão aparentemente desnecessárias.

A idéia de exigir dos cristãos uma unidade de crença é um equívoco porque essa unidade nunca existiu. Por exemplo, até hoje a idéia de que o hímen de Maria não foi para o espaço quando Jesus nasceu (dizem que ele era meio cabeçudo, sabe como é; a Igreja Rafaélica de Todos os Tostões, sempre presente nessas árduas pelejas teológicas, defende que o Sujeito fez um baita estrago na moça) não é um consenso entre os fiéis, mesmo entre padres.

Uma das coisas que sempre me fascinaram no cristianismo foi o seu diálogo constante com o meio ambiente. Há entre os romanos uma crença mais ou menos vaga numa deusa mãe? Deifiquemos Maria, porque assim vamos estabelecer pontos de contato suficientes com os gentios e facilitar nosso apostolado. E assim o cristianismo se apropriou de uma imensidão de elementos pagãos, tornando-se atual e desejável. Foi justamente essa flexibilidade aliada à necessidade patológica de proselitismo, em oposição à rigidez e auto-suficiência do judaísmo, que fez o cristianismo se multiplicar como os peixes de Jesus e tornou a Igreja Católica uma instituição milenar e, durante a maior parte de sua história, poderosíssima.

É impossível esquecer que o cristianismo surgiu da mudança. E que ao longo dos tempos ele vem mudando continuamente, e enfrentando movimentos cismáticos quando não muda. Dogmas são acrescentados, outros são deixados de lado. Porque é feita de seres humanos, ela está sujeita a todo tipo de interferência política: divergências, retrocessos, evoluções. Por isso é um equívoco falar numa Igreja monolítica; o que sempre houve, dentro dela, foram correntes e tendências dominantes. O conflito entre elas, mais que natural, é que a leva para a frente. Há o movimento de resistência sim, como disse o Roger, mas por baixo dele há o de mudança, e às vezes ele é mais forte.

Foi justamente quando a Igreja se recusou a mudar em questões importantes que foi se enfraquecendo como instituição. Uma postura mais maleável em relação à necessidade histórica personificada em Lutero talvez pudesse ter evitado o maior de seus cismas. Ao mesmo tempo, ela precisa saber quando ser intransigente: se tivesse cedido às dezenas, talvez centenas de pequenas dissensões ela teria perdido, sim, sua unidade. Mas o critério de avaliação não é o da fé: é a possibilidade de alienar um número maior de fiéis ao abraçar idéias minoritárias. Humano, demasiado humano, e o mais político possível.

A própria noção de Deus muda. A idéia de um Deus de perdão, que aceita o seu arrependimento, foi uma mudança decisiva em relação ao Deus de 2 mil anos atrás. É esse o cerne do cristianismo. Por sua vez, essa nova visão influenciou a religião-mãe: a relação judaica com Deus mudou enormemente, em parte pela evolução dos tempos, em parte por uma relação dialética com o cristianismo.

Por isso, falar na impossibilidade de mudanças dentro da Igreja é quase uma heresia. Quer um exemplo? O velho e bom Belzebu, Mefistófeles, Belial, Lúcifer. Se na tradição judaica era apenas um anjo caído, uma analogia à necessidade de aceitar estoicamente os desígnios divinos, no cristianismo ele adquiriu quase o status de um outro deus. Era uma resposta ao dualismo persa. Aos poucos, foi adquirindo vida própria e se tornando um instrumento teológico — cínicos dirão que de dominação — importante. E mesmo isso, à medida que foi se tornando desnecessário, foi caindo em desuso. Hoje as principais correntes da Igreja mal lembram do pobre Satanás — que etimologicamente significa “adversário”. A sorte é que Neil Gaiman e Garth Ennis, assim como todo o pessoal da Vertigo, ainda lembram dele.

No fim das contas, o que fica em mim é a impressão de que a idéia de que no momento em que mudar ela terá sucumbido é muito mais a projeção de uma noção particular de fé do que um fato. Basta olhar para trás, para os tantos e tantos concílios, para as idas e vindas da obra edificada por Pedro — o sujeito que negou conhecer Cristo 3 vezes (parêntesis: alguém consegue imaginar sofisma mais belo e mais eficiente que esse?) — para ver que a Igreja, 1800 anos de Lampedusa, já sabia que as coisas têm que mudar para continuar as mesmas.

Ratz e homens

Até agora não entendi por que estão fazendo tanto auê com o Papa Ratzi, de uma forma que fica parecendo que com ele começa o fim dos tempos.

Bento XVI vai ser um papa de pouca importância na história. Pode-se alegar (como o Ina, em um papo via MSN) que João XXIII foi eleito em circunstâncias semelhantes; mas além da saúde frágil que o deve levar para o caixão de pinho em relativamente pouco tempo, Ratzinger não representa muito mais que a continuidade da linha teológica central de Wojtyla.

Em primeiro lugar, estão dando a Bento XVI uma importância que ele não merece por uma analogia falsa com João Paulo II. Esperam daquele uma atitividade e uma influência semelhantes às de Wojtyla. É como se este tivesse redefinido, de maneira imutável, o papel do Papa no mundo.

Mas basta comparar uma foto dos dois e ver que isso é impossível. Não dá para negar a impressão dissonante que os dois causam: João Paulo lembra um avô saudável e bem sucedido em sua aposentaria confortável enquanto esquia; Bento parece apenas um velho sibarita viciado em morfina criado nas masmorras do Vaticano.

Numa época em que imagem é quase tudo, isso deve ter alguma importância. Seu passado vinculado à Juventude Hitlerista — menos importante do que pode parecer à primeira vista — no máximo é um ponto a favor: é até possível que, em uma necessidade dialética de negar seu passado, Bento se torne um dos papas mais ecumênicos da História, superando inclusive seu predecessor. E mesmo isso é irrelevante: seu eventual ecumenismo vai ser muito mais um resultado de exigências históricas do que uma tentativa de apagar essa mancha em seu passado de sargento Schultz dizendo Ja wohl, Mein Kommandant.

Mas o principal, mesmo, é que a Igreja, no fim das contas, não tem toda essa importância. Ela é contra o uso de preservativos e as pessoas continuam se protegendo com camisinhas; é contra o sexo fora do casamento e não consta que motéis andem vazios; é mais fácil uma pia senhora rezar uma Ave Maria antes de deitar-se languidamente. Essa postura católica está perfeitamente exemplificada na piada publicada pelo Barnabé e republicada pelo Velho do Farol (de volta após longo e tenebroso inverno).

Isso não quer dizer que ela não possa ser melhor do que o que tem sido. Ela tem a obrigação de se adequar aos novos tempos. É por isso que o Alex errou no seu último post sobre a Igreja. Ela é um movimento civil, sim. É composto por pessoas que se organizam em função de idéias comuns; que elas julguem tomar suas decisões a partir de inspirações do Espírito Santo não faz diferença. Além disso, as pessoas sempre mudaram de religião; o cristianismo, aliás, só existe a partir de uma mudança dessas, quando judeus decidiram que era hora de novos ventos, mais adequados a uma situação política naquele momento irreversível, o Império Romano. Ao longo da História houve outras, também; citar Lutero é tão natural que chega a ser redundante. Mas mesmo internamente a história da Igreja Católica é a história da mudança. Foi assim que ela sobreviveu: criando novos dogmas, eliminando outros, adequando-se a novas exigências históricas.

Essas mudanças continuam. A diferença é que hoje elas não têm a importância que tinham na Europa do século XVII. Não voltarão a ter. E é por isso que se está dando atenção demais ao velho Ratz.

Who, the Who?

Um Cara, dizer que McCartney é um chato em um blog de beatlemaníaco é não ter amor à vida… Mas eu mesmo já passei o atestado de óbito de McCartney algumas vezes aqui.

Isso não quer dizer, em primeiro lugar, que o sujeito não seja um gênio absoluto. Ele é. Isso é indiscutível. Em segundo, tampouco implica que ele não seja um baixista formidável. Ele é. Mais que isso, é provavelmente o baixista mais influente da história, e essa é a razão pela qual o coloco como o melhor (deixando de lado gênios como Entwistle e James Jamerson, só para citar alguns). Com boa vontade, poderia colocá-lo também como guitarrista (ele é ótimo), como baterista (ele é bom) ou como tecladista (ele é razoável). O sujeito é um gênio. Ponto final.

Flavio, escolas falam, sim. É para isso que elas existem. E a frase é creditada, quase universalmente, ao Van der Rohen.

Telêmaco, eu nunca consegui gostar muito do John Paul Jones. Acho o baixista mais superestimado do rock. E o Bonzo não entraria na minha banda pela mesma razão do Hendrix: geniais, mas uma banda é um conjunto em que cada peça deve funcionar em função da outra. Eu prefiro um baterista sólido mas discreto como Ringo. A mesma razão pela qual coloco McCartney no baixo: independente de ser genial, ele sabe se controlar. Só consigo lembrar de um exemplo em que McCartney exagerou no baixo: Something, de Harrison.

Se me permite uma opinião, acho que há um equívoco nas guitarras. Harrison e Clapton juntos são redundantes. Ambos são solistas. Enquanto isso, o aspecto provavelmente mais subestimado de Lennon é que ele era um grande guitarrista rítmico. Se alguém quer um exemplo, ouça Clarabella, com os Beatles. em que ele toca apenas harmônica. Falta alguma coisa. A música não tem a coesão sonora típica dos Beatles. E o que falta é justamente a guitarra de Lennon.

Além disso, me perdoe, mas Harrison não é um guitarrista genial, não. É excelente, claro. Melódico e provavelmente o rei do slide. Mas eu consigo pensar em uma dezena de guitarristas infinitamente melhores que ele.

Umberto, eu nunca vi o Rock and Roll Circus. Mas ouvi Yer Blues com Lennon. É Keith Richards no baixo, não é? Aquele baixo é fantástico.

Reginaldo, o meu é com certeza um caso de velhice. Mas há um problema. Eu não vivi os anos 60. Mas durante muito tempo ouvi com atenção boa parte do que foi feito, e é difícil ouvir muita coisa nova sem catar as referências. Que me perdoem os roqueiros, mas a coisa mais vibrante e significativa hoje em dia é um gênero do qual sequer gosto muito: o rap. Quanto ao Roberto de Carvalho… Ele matou a Rita Lee! Você quer matar minha banda também?

O Bia ouviu o Velvet Underground na adolescência e nunca mais foi o mesmo. O Bia só se apaixona uma vez, e é um amor infinito e imortal. Não importa que ele ame uma baranga.

André, bela notícia: o Intelligentsia está de volta. Fora isso, a frase do Lennon tem que ser entendida dentro do contexto: era só um ataque a McCartney (dos mais leves, considerando a letra de How Do ou Sleep?. Quis dizer que o egomaníaco do Paul estava tão alucinado que se achava melhor que Ringo.

No fim das contas, a superbanda de cada um reflete suas preferências. Essa é a graça da coisa.

Quando eu encontrar uma mulher moderna

Ontem teve texto meu no Kit Básico da Mulher Moderna.

O texto é o seguinte:

Quando eu encontrar uma mulher moderna

O problema é definir o que é mulher moderna.

E eu não consigo, juro.

Certo, conheço as definições. Aquela conversa de três turnos. Aquele papo de ser mulher, mãe, profissional.

Bobagem.

Tavez eu seja machista. Talvez. Mas isso, no fundo, não me importa muito.

Talvez eu ache apenas que não existe mulher moderna, antiga ou qualquer coisa do tipo. Existe apenas mulher.

Que seja machismo dizer, por exemplo, que por mais belas que sejam suas conquistas, ainda não há nada melhor que cafuné numa tarde fresca de sábado, só você e ela, esquecidos do mundo e da vida. Tudo bem, eu não ligo. Eu sou só um paraíba, mesmo, e na minha terra as coisas ainda são simples, tão simples que às vezes a gente se assusta com essas coisas de modernidade.

Que seja machismo dizer que não há nada melhor do que olhar no olho dela, e se perder em tudo o que ele consegue dizer sem palavras, e perceber de repente que não há nada mais importante que aquilo.

Que seja machismo achar que não há nada tão bom quanto o gosto de uma mulher, quanto o seu cheiro. Que não há nada tão bom quanto ouvir sua respiração bem pertinho do ouvido, que nao há nada tão bom quanto sentir sua mão no seu rosto, passeando com calma, perdida e sem direção.

E posso ser machista, sim, mas essa acusação não vai me fazer deixar de achar que não há nada como se perder no olhar da mulher amada, que nao há nada como ver o seu sorriso, que nao há nada como sentir movimentos involuntários e incontroláveis.

Eu sou machista. Fazer o quê?

O resto? Ah, o resto não é tão importante. O resto são as circunstâncias. E as circunstâncias apenas tiram de uma mulher o que ela tem de melhor. A capacidade de enfrentar desafios, de dar o melhor de si, de se superar.

Mas isso não quer dizer que ela seja esse segmento de marketing que chamam de mulher moderna.

Não quer dizer porque ela não precisa disso.

Talvez seja por essas razões sem juízo que eu ache que isso de mulher de moderna, se não é errado, não é tão certo assim. Para mim, não existe isso de mulher moderna, de mulher antiga. Existe apenas mulher.

Graças a Deus.

Cajueiro dos papagaios

Semana retrasada a produção do programa do Paulo Lobo, que fala sobre as ruas de Aracaju, me convidou para dar uma entrevista rápida. Quando fomos gravar, Paulinho me disse: “Quando me contaram eu pensei: mas logo o Rafael? Ele não gosta de Aracaju!”

Fama é uma coisa horrorosa, embora nem sempre seja verdadeira. A minha é de que não gosto de Aracaju. Paciência. Agora parece que ela está se espalhando. Uma moça chamada Joilma deixou este comentário aqui:

Olá Rafael,
Como pude perceber seu grande problema não é ‘praia’ e sim, o local onde está a praia. Aracaju tem praias belíssimas,a orla mais bonita do Brasil e cada um aproveita essa beleza como pode e como gosta. Nada impede que vc pesque, nade, caminhe horas e horas, só depende de vc, que aliás, é vc que tem que se adaptar ao lugar e não o lugar aos seus costumes. Do contrário, meu caro, mude-se para Salvador ou pegue um ônibus todos os finais de semana caminhe chupando picolé ou tomando suco de limão e retorne no fim da tarde.
Afinal, se a prainha da Barra é tão maravilhosa e inesquecível porque mudou-se de lá?
Ter o privilégio de comer caranguejo e os melhores frutos do mar na orla mais bonita e estreuturada do Brasil é para poucos,é privilégio daqueles que sabem ver a antureza com os olhos da diversidade. Reveja seus conceitos.
Até breve!!!!!

Fui olhar o post para ver se tinha batido demais em Sergipe. Não tinha. Apenas contei que tinha perdido o hábito de ir à praia quando vim para cá. E que as praias daqui são feias. Só isso.

Ah, mas isso é inaceitável. Não gostar de tudo o que é sergipano é um ataque imperdoável à “sergipanidade”, seja lá o que ela for. Não dizer que esta é a cidade mais bonitinha do Brasil é fazer com que alguns sergipanos mais sem noção subam nos tamancos — ou nas alpercatas — para defender os brios de sua terra e as belezas inexistentes de sua cidade.

Nesse aspecto, Sergipe foi amaldiçoado pela natureza. As praias de Aracaju são feias, de águas turvas. Há várias explicações para isso. Uma é o rio São Francisco, cujas águas são trazidas para o sul pelas correntes marinhas. O resultado, como pode ser visto na foto ao lado, é trágico. Acima fica Alagoas, cujas praias são provavelmente as mais belas do Brasil. Abaixo, com as águas barrentas já se dissipando, fica a Bahia. A outra explicação é a inexistência de recifes na costa para evitar as partículas em suspensão.

Isso não são conceitos, são fatos, e fatos não podem ser revistos, apenas aceitados mesmo que batam de frente com seus conceitos.

A Joilma tem razão quanto à orla. É bonita, e está ficando linda; ficaria ainda mais se o governo não desviasse tanto dinheiro da obra. Tavez não seja a mais bonita do Brasil porque uma orla não se define de maneira tão simples, mas está entre elas. O detalhe é que a intervenção humana (e mesmo assim apenas a parte da praia; atravessando a rua já no primeiro quarteirão a feiúra impera) não consegue dar um jeito nas águas feias da praia de Atalaia.

Isso é o que existe de mais engraçado em alguns sergipanos. Essa suscetibilidade imediata, e a capacidade de se irritar sempre que alguém ousa falar que Aracaju não é a cidade mais “bonitinha” do Brasil, a revolta com tudo o que fala de Aracaju sem reverências descabidas.

Pois bem, Joilma, deixa eu te falar uma coisa. Aracaju é uma cidade bonitinha porque é agradável, boa de se morar, arrumadinha e porque seu povo, quando não cospe seu eventual complexo de inferioridade, é bastante simpático. Mas isso não quer dizer que ela seja lá grandes coisas do ponto de vista estético. Para começar, é um “deserto arquitetônico” — e a expressão nem é minha, é de um guia turístico inglês. Seu traçado quadriculado, à la Manhattan, impede grandes variações urbanas — e isso sem a exuberância arquitetônica novaiorquina.

Aracaju foi fundada há 150 anos, mas existe, mesmo, há uns 50 — época em que investimentos públicos a reboque da descoberta de petróleo em Sergipe trouxeram um pouco mais de desenvolvimento para a cidade, através da Petrobras e o BNB. É até hoje uma cidade eminentemente de classe média, baseada no funcionalismo público. Tem qualidades como um déficit habitacional mínimo se comparado a outras cidades. Aracaju não sobe muito alto, mas também não desce muito baixo.

O problema é que alguns sergipanos, com uma auto-estima talvez baixa por morarem em um Estado que não tem a proeminência de vizinhos ilustres como a Bahia ou Pernambuco, não conseguem perceber que isso é uma qualidade e resolve inventar algumas inexistentes. Acabam vendo beleza onde ela não existe.

Mas embora a Joilma mostre um certo grau incômodo de burrice quando diz que meu “problema não é ‘praia’, e sim o local onde está a praia”, já que em todos os anos morando no Rio eu fui para a praia menos vezes do que os dedos que o Lula tem na mão esquerda; que eu tenho que me adaptar a um lugar quando isso nunca esteve em questão; quando pergunta com aquele ar de ignorância arrogante por que eu saí de Salvador quando mais inteligente seria perguntar por que eu me mudei do Rio; mesmo com tudo isso, talvez ela tenha razão. Eu vou fazer como a Lucia Malla, cujo avô é nome de avenida aqui mas nem isso faz com que more em Aju City. Eu vou me mudar para a Coréia.

A propósito: eu não costumo comer caranguejo. Comida trabalhosa e suja demais. Mas, se os sergipanos têm esse orgulho todo de seus crustáceos, não serei eu a contar que o caranguejo do Beach Park, em Fortaleza, é muito melhor que o que você encontra em qualquer bar sergipano. E que a casquinha de caranguejo do Bar no Marcelo, na praia da Tabuba, também no Ceará, é a melhor que alguém já provou.

Se eu disser isso a Joilma me processa. Ou então se suicida.

The Who

Reza a lenda que quando o Who foi gravar My Generation Roger Daltrey, ainda sem saber direito a letra da música, gaguejou involutariamente em “Why don’t you all f-f-f-fade away“. Isso fez a música.

E estragou, também. Toda a música é gaguejada. Enche o saco. Não sabiam que, como dizia o Bauhaus, menos é mais.

Falo isso porque voltei a ouvir bastante o Who depois de muito tempo.

Eu torço o nariz para Keith Moon. Acho exagerado. Nisso estou na excelente companhia de Pete Townshend, que depois reclamaria que nunca pôde escrever uma grande balada para o Who porque Moon só sabia descer a porrada. Quando o usam como ponto de comparação para descer a lenha em Ringo Starr, eu sempre lembro que os ex-beatles, mesmo quando emaranhados em uma rede de processos e contra-processos, xingando-se publicamente uns aos outros, sempre foram unânimes em dizer que Ringo era o melhor baterista do mundo; e sempre que monto minha superbanda pop imaginária coloco Ringo na bateria.

(A saber: Robert Plant no vocal, John Lennon na guitarra base, Eric Clapton na guitarra solo, McCartney no baixo, Elton John calado nos teclados, Ringo Starr na bateria, Jimmy Page e Brian Wilson produzindo canções individualmente e George Martin supervisionando tudo; e antes que reclamem da falta de Hendrix, e mesmo de Bonzo Bonham, lembrem que eu estou montando uma banda, não uma constelação. A coisa tem que funcionar, e funcionar bem).

Roger Daltrey é um vocalista no nível de George Harrison. No baixo nível. Para mim, o Who é uma belíssima combinação de três grandes talentos e um vocalista bonitinho que balançava o microfone de uma forma meio gay mas muito eficiente.

Mas o Who tinha dois gênios.

Não conheço grandes solos de Pete Townshend. Alguém conhece? Mas o sujeito tem uma importância que, com um pouco de boa vontade, quase chega perto da de Chuck Berry e Jimi Hendrix na definição do papel da guitarra no rock.

E John Entwistle. Não é segredo que considero McCartney o maior baixista pop do mundo. Mas quase aceito quando colocam Entwistle nesse posto. Se alguém quer saber como o Who conseguia aquele som tendo um só guitarrista, basta prestar atenção ao baixo.

E no entanto, mesmo sendo brilhante, mesmo sendo uma das bandas mais influentes da história, o Who soa limitado, com características definidas que não mudam de disco para disco. Foi isso que sempre me fez desconsiderar muito de sua contribuição para a música.

Mas eu vivo em uma época em que bandas que fazem a mesma coisa, disco após disco, são aclamadas como a salvação do rock a cada semana. Minha opinião tem mudado assustadoramente.

A rosa púrpura da digitalização

A essa altura todo mundo já sabe que os projetores de cinema de 35 mm estão condenados. Em no máximo uma década devem ser substituídos por projetores digitais, que exibirão não rolos de filmes, mas um arquivo digital.

A digitalização, à primeira vista, parece trazer apenas vantagens. As cópias não se deteriorarão com o uso. O custo de distribuição vai baixar, porque copiar um arquivo digital não custa nada, ao contrário das cópias em celulóide. Na hora em que um filme estiver disponível no Brasil todos os Estados poderão exibi-lo ao mesmo tempo, não precisarão mais esperar a disponibilidade de cópias. Filmes de baixo orçamento não precisarão mais ter lançamentos restritos por outras razões que não as de mercado.

Mas essa mudança deve trazer, logo, outra discussão.

Até há uns 20 anos, os filmes exibidos pela TV eram telecinados, exibidos diretamente de um projetor para a TV através de uma máquina especial (o telecine, óbvio). Traziam riscos, sujeira — fios de cabelo, por exemplo. Aí eles começaram a transferir os filmes para vídeo. O primeiro filme que assisti assim foi “Nunca Fui Santa”, com Marilyn Monroe e Rock Hudson, em 1986.

Parecia uma coisa maravilhosa, porque aquela limpeza era uma grande novidade. Mas havia um detalhe: se celulóide e videoteipe eram praticamente antagônicos (o celulóide oferecia mais profundidade e maior espectro de cores, entre outras vantagens, mas o mais importante, do ponto de vista do espectador, sempre foi a textura superior do filme), essa diferença havia baixado. Agora o filme tinha um quê de vídeo.

Filmes são exibidos a uma razão de 24 quadros por segundo. É um pouco menos que o vídeo, de 30 — mas bem menos que a maioria dos videogames, que passam bastante disso.

A digitalização torna definitivamente possível uma outra mudança, dessa vez importantíssima: o aumento no frame rate, fazendo com que filmes sejam captados a uma razão de, sei lá, 150 quadros por segundo, tornando-o cada vez mais semelhante ao olho humano.

É isso que me incomoda. Porque eu não quero um cinema cada vez mais parecido com a vida real. Eu quero cinema parecido com cinema. Não quero me imaginar como o personagem de Mia Farrow em “A Rosa Púrpura do Cairo”, misturando uma coisa e outra, até a mais completa loucura.

A maravilha da vida em derredor

Nem sempre concordo com aquele trotskista vingativo, mas os posts e a discussão sobre racismo e cotas que estão se desenrolando n’O Biscoito Fino e a Massa são uma das melhores coisas que o Idelber já publicou.

Este blog já bordejou o assunto algumas vezes. Mas nunca com a concisão, categoria, correção acadêmica e contundência do que se está vendo no Biscoito.

Ali está a blogosfera que faz diferença, que discute o país. E que mostra que o que realmente faz um blog são os seus comentários.

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O NemoNox acabou de lançar um projeto brilhante: A Casa das Mil Portas é um projeto literário contendo microcontos (ou seja, contos com no máximo 50 letras) de uma infinidade de autores.

O resultado é fascinante. E vale a pena participar.

Um exemplo de microconto — e para mim, o maior conto que Hemingway não precisou escrever — é esse:

For sale. Baby shoes. Never worn.

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O André Kenji montou uma lista de discussão por e-mail, a blogprog, para juntar o pessoal que ainda não consegue ver o fim da história. Até agora, fazemos parte eu, ele, o Idelber, o Smart Shade of Blue.

Se você quer participar, deixa um comentário aqui.