Pesos e medidas

Da coluna da Belisa Ribeiro:

Desrespeito
Um hacker fez um link no site de pesquisa Google. Quem digita a expressão “déspota cachaceiro” é remetido para a página oficial da Presidência da República. A Secom enviará nota à empresa solicitando providências.

O engraçado é que eu digito bastard e não vou parar no site da Casa Branca.

Isso é injusto.

Carreira Solo

O Carreira Solo é um blog que se destaca dos demais. A maioria nos pretendemos ensaístas, cronistas, ficionistas, filósofos; o Mauro Amaral escreve um blog dirigido a profissionais, e é uma das iniciativas mais interessantes que a blogosfera nacional produziu.

Ultimamente ele vem escrevendo um mini-curso para aqueles que escolheram — ou foram escolhidos para — a vida de freelance. Pode ser comparado a uma espécie de Você S.A. com os dois pés na realidade. É uma das coisas interessantes da internet: o compartilhamento de experiências e a formação de comunidades. De certa forma, é um dos blogs mais americanos que temos, e uma iniciativa que vale a pena acompanhar. E isso, pelo menos nesse sentido, é um elogio.

(Além disso, em algum lugar no site há o portfólio do Mauro. É muito bom. Copiei alguns anúncios, há alguns meses, para escrever um post, mas como tantos e tantos outros, o post nunca foi escrito. Acho que não precisa.)

Cavalo árabe

Há algum tempo, perguntada sobre o cavalo árabe, a princesa Anne da Inglaterra deu o veredito: “It’s a useless horse“.

Minha primeira reação foi dizer que inútil é ela, parasita de um sistema feudal e ainda por cima feia como o cão. Mas a verdade é que o que ela falou tem sentido.

O árabe é lento demais para correr, pequeno demais para saltar, fraco demais para lidar com gado, fogoso demais para ser um cavalo de passeio. Já foi considerado o melhor aprimorador de raças (ainda é o único admitido em qualquer uma, se não me engano), mas é cada vez mais dispensável. Sua única aplicação restante, em um mundo de raças altamente especializadas, parece ser em enduros. É pouco.

Mas o comentário sobre a inutilidade do árabe só podia ter mesmo saído de alguém como a Anne. Porque não há, nunca houve, cavalo mais bonito que o árabe. É a cabeça mais bela que o mundo eqüino já viu. E quem viu um árabe galopar, com o rabo levantado, sabe que não há outro cavalo no mundo que lhe chegue aos pés.

Sua inutilidade só pode ser reconhecida por quem não consegue olhar de verdade para a beleza válida em si mesma.

Na capa da Hippus rediviva a propaganda de um garanhão árabe recém-chegado dos Estados Unidos. Seu nome é “Order Me a Shine”, como um gentleman inglês pedindo ao seu mordomo que aranje um engraxate.

Dentro da revista há algumas fotos, e o choque é enorme. O que eu vejo é um cavalo musculoso, quase um quarto-de-milha. É uma “nova linhagem” americana, que pelo que pude perceber quer criar cavalos de trabalho, que compitam em provas de apartação, laço, tambor, etc.

Nunca me identifiquei tanto com um esnobe inglês quanto ao ver isso. Porque é essa praticidade americana, incapaz de olhos para o que não seja útil ou lucrativo, que torna tudo mais rasteiro.

Os beduínos árabes demoraram séculos aperfeiçoando as linhagens de seus cavalos. Criaram cavalos resistentes e úteis, mas sempre, e acima de tudo, belos. E então um americano vem e destrói tudo.

O século americano está durando tempo demais.

Três livros

O primeiro é um livro de Rex Stout.

O título traduzido é terrível: The Doorbell Rang se tornou “A Milionária Perseguida”. Milionária perseguida, até onde sei, é o nome que a Xuxa dá à sua… Ah, esquece.

The Doorbell Rang é mais um livro da Colecção Vampiro. É de 1965, um dos últimos da série de Nero Wolfe. Tem todos os elementos de um típico “Wolfe”. Os personagens são os mesmos e desempenham os papéis de sempre. Pode-se esperar de Wolfe a genialidade dedutiva e, de Archie Goodwin, o bom humor que suaviza um pouco o sujeito durão. Os mesmos coadjuvantes estão a postos, cada um desempenhando a contento seus papéis.

Mais uma vez, mais um livro lido, continuo sem compreender a fama dos livros de Wolfe. Têm a densidade psicológica de uma jarra de vidro. Neste livro, especificamente, um crime é cometido e chega-se ao final sem saber sequer quais as motivações reais do crime. Stout parece tão decidido a criar um padrão matemático, uma variação americana — e portanto mais “real” — do romance cerebral inglês que esquece algo básico: o crime é uma das coisas mais humanas que se pode imaginar. É um livro fraco, mais um da série, nada mais que isso.

Stout é um bom escritor policial. Sim, sim, seus livros são boa leitura. São agradáveis, em muitos momentos são inteligentes. Mas se é que é possível comparar literatura policial à navegação em alto mar, Nero Wolfe é apenas um barquinho fazendo navegação de cabotagem. A ele falta o que os legítimos noir têm de sobra:  densidade psicológica, um mergulho um pouco mais profundo nas razões de um crime.

Vou continuar lendo seus livros. São um grande passatempo. Mas sem nunca esperar mais do que é justo. Não é muito.

***

“A Travessura de Casper Holmes”, por seu lado, é mais um excelente Chester Himes. Himes não era exatamente um autor policial, como Stout ou Chandler. Era um escritor, e a série a que este pertence, dos detetives Grave Digger Jones e Coffin Ed, é só uma parte de uma literatura muito mais extensa.

Himes fazia literatura negra em um país onde isso é mais importante. O que ele descreve, principalmente, é a forma como os negros americanos se relacionam com o mundo branco à sua volta. Não é uma visão condescendente; não há espaço para uma dicotomia burra entre negros bonzinhos e brancos ruins. É isso que dá a Himes uma densidade literária altamente recomendável em romances policiais.

Talvez seja forçação de barra classificar Himes como autor policial, porque o que realmente importa nele é muito menos o crime do que a crônica de um momento importante da sociedade americana: o período entre o fim da II Guerra e as transformações sociais que acarretou e a explosão das lutas pelos direitos civis da década de 60. Mas seus livros são, acima de tudo, uma crônica da violência, como todo e qualquer tipo de racismo, e talvez por isso se encaixem tão bem na literatura noir.

Chester Himes — assim como seu descendente direto, Walter Mosley — é, principalmente, um grande escritor.

***

E um Maigret.

Li meu primeiro e último Maigret há quase 20 anos. Já conhecia aqueles arremedos de noir como Mickey Spillane e Frank Gruber, ainda tinha um mínimo de respeito por Agatha Christie, e o que li não me agradou em nada.

Tantos livros, tão pouco tempo; e eu decidi que não iria dar a ninguém mais de uma chance, porque o tempo que me resta é muito pouco para que eu perca tempo lendo livros ruins.

Com o tempo o preconceito foi se arraigando, a distância ajudava— todo preconceito se baseia na ignorância, afinal —; via a fama, para mim injustificada, de Nero Wolfe e achava que Maigret também deveria ser assim, aquela coisa meio esquemática, uma espécie de Poirot menos esnobe e sem aquela cabeça de Humpty Dumpty.

Comprei “A Velha Senhora” porque por 3 reais eu compro até livro de poesia de gente que não conheço.

E o que vi foi uma coisa totalmente diferente.

Se há dois personagens totalmente diferentes entre si são Maigret e Nero Wolfe. Enquanto este é apenas um Sherlock Holmes mais gordo, mais preguiçoso e mais viado, aquele é um homem tão comum que chega a assustar. Maigret é a vitória da classe média. E tem toda a doçura humana que falta a Wolfe. É a imersão na psique dos personagens que faz com que os crimes sejam solucionados. E é essa atenção aos aspectos psicológicos que o diferencia de tantos outros personagens de terceira que pululam nos livros policiais.

Descobrir Maigret com 20 anos de atraso é provavelmente a maior prova da minha estupidez. Eu tenho que pedir perdão a mim mesmo.

As alegrias que o Google me dá (XIII)

jorge amado e a diferença entre seu livro e filme a morte e a morte de quincas berro d’água
Basicamente, a principal diferença entre um livro e um filme é que um filme é necessariamente mais superficial. No caso específico de “Quincas” a diferença é ainda mais profunda: o livro foi escrito e o filme não foi feito.

como aleijadinho descobriu seu talento
Foi aos poucos. Quando seu dedo caiu, ele resolveu esculpir uma lápide diferente. Quando uma orelha caiu, resolveu fazer uma estatueta. E assim, de pedacinho em pedacinho, ele percebeu que tinha virado um grande escultor — e que várias partes do seu corpo estavam faltando.

cartinha para o papai noel engraçada
“Querido Papai Noel: neste Natal eu quero ganhar uma viagem para o Taiti, uma Ferrari e um Rolex. O senhor poderia entregar aqui, no Morro do Vai Quem Quer?”

sexo kerry bush download brasil safada
Um doce para quem conseguir descobrir como essas seis palavras se relacionam umas com as outras. Eu não consegui.

resumo curto pequeno e objetivo memórias póstumas de brás cubas
Homem morre e escreve um livro. (Mais curto e mais objetivo que isso você não consegue, amigo. Juro.)

qual era a deficiência de beethoven
Ele era surdo. Qual a sua?

aleijadinho era negro existe foto dele?
Aleijadinho viveu no século XVIII, época em que as câmeras digitais começavam a substituir as de 35mm. Algumas fotos sobreviveram à Devassa de Vila Rica, mulher de hábitos absolutamente depravados e promíscuos que passou o rodo em homens como Tiradentes, Tomás Antônio Gonzaga e no próprio Toinho Lisboa. E são essas fotos, descobertas recentemente, que revelam uma grande surpresa histórica: Aleijadinho não era negro. Era japonês.

coração valente o rei tinha o direito de tirar a virgindade
O conceito, pelo menos, existia. Se chamava droit du seigneur. Era um costume correto. Afinal de contas, ser rei não é só aproveitar as benesses; tem que fazer as coisas chatas também. O triste é que era pouco ou nada usado, porque os camponeses, aqueles idiotas, não gostavam da idéia. Sei lá, deve ter a ver com aquela noção católica de que a gente tem que sofrer muito em vida, entende? No pain, no gain.

como manter uma vaca
Arranje um bom cartão de crédito. Senão ela vai dizer que você não a ama mais, vai dizer que poderia ter escolhido um homem mais bem sucedido, essas coisas.

siglas usadas cartoes credito disfarçar fatura
Tola. Você acha que seu marido está saindo com uma vaca (ver item acima) e pagando as contas com cartão de crédito, não é? Tola, repito. Motéis não dão um vacilo desses, ou pelo menos as empresas de cartões de crédito. Em vez de ficar preocupada com isso, procurando coisas onde não vai achar, se preocupe em ser uma esposa melhor e menos chata. Por outro lado, se seu marido anda pagando as farras dele com cartão, se separe, porque ele é um idiota.

resumo do livro olga de machado de assis
Conta a história de uma moça do Morro do Livramento que tinha olhos de ressaca, moça pobre mas limpinha. É uma história bonita. Você não viu o filme do Glauber Rocha, não?

fotos homens mexicanos nus
Deus do céu, por que você quer se castigar dessa forma? Que pecado hediondo você cometeu para merecer tamanha penitência?

nessas eleições de 2004 nos estados unidos a alguma diferencia para o brasil
O sujeito tem razão. No fundo, não há nenhuma. Eles continuam como superpotência e a gente continua na periferia. Vamos continuar o mesmo bando de cucarachos analfabetos de antes.

adolescentes de sergipe que querem namorar
Ah, não. Está começando cedo demais. Daqui a pouco os bebês já nascem com um perfil no Mercado de Carne Par Perfeito.

fotos de como obturar con amalgama
Eu imagino esse dentista. O paciente deitado ali, bocão aberto, e ele com a broca na mão enquanto olha para a tela do computador, seguindo o tutorial. “Ahora yo meto la brueca aqui…” Se bem que pode até dar certo. Deus protege os tolos.

porque os samurais usam aquelas roupas??
Compartilho solidariamente a sua estupefação. Com os mesmos dois pontos de interrogação.

mitos e lendas do folclore islamico folclore islamico
O Leafar é o mais famoso deles. É com ele que os pais educam seus filhos. Dizem que, se não comerem seus tabules, quando crescerem o Leafar vai entrar em seus haréns e traçar todas as suas mulheres.

fichamento manifesto comunista
Um espectro ronda a educação: o espectro do plágio. Plagiadores de todos os países, tomai vergonha na cara! Nada tendes a perder senão a ignorância que vos torna uns toupeiras!

contra-razões de apelação gratis
Que coisa. O sujeito deve estar arrancando a roupa do corpo do cliente, alegando que são as custas. E no entanto fica procurando modelos gratuitos de peças jurídicas na internet. Depois dizem que é implicância minha.

quero ver fotos dos mamonas apos a morte
Espíritos não baixam neste blog. Procure um centro espírita.

porque so os pobres ficam presos?
Porque são pobres. Se fossem ricos pagavam um bom advogado, um que pelo menos soubesse o que é um habeas corpus.

guia de sobrevivencia aeromocas
O primeiro capítulo é: “Como sobreviver àquele bêbado da primeira classe que não pára de passar a mão no seu rabo”. O segundo é “Como encher de porrada aquele bêbado da econômica que tenta sem sucesso passar a mão no seu rabo”.

putas ambiguas
Devem ser putas de filmes franceses, né? Uma teoria rafaeliana diz que se pode definir o caráter nacional de um povo pelas putas de seus filmes. Putas alemãs são duras, rígidas, revoltadas. Brasileiras são tristes, amarguradas e maternais. Americanas são peruas com maquiagem excessiva e peitos redondos de silicone. Já as francesas são putas com aquele eterno ar de questionamento existencial, aquele it indefinível de dúvida eterna… E enquanto tiram sua meia de seda, com aquele ar de quem é muito superior aos francos que está recebendo, perguntam o que você acha da representação ontológica da dialética burguesa em Baudrillard.

namorado tira foto de namorada em motel de juiz de fora em 2004
Deve ter um namorado tirando foto da namorada em um motel de Jijifora a cada minuto. Para ela é uma forma de realizar com segurança a fantasia de posar para a Playboy. Ele, daqui a alguns anos, vai poder olhar a foto e dizer “É… Essa eu comi…” É também uma garantia de que se ela fizer alguma sacanagem ele poderá vazar a foto na internet. Finalmente, sempre há o risco de ela ficar famosa algum dia; e aí ele ganha uma grana.

vibrador em gel prejudica a saúde?
Alguém pode me explicar, pelo amor de Deus, o que esse sujeito quis saber? E o que ele anda fazendo?

monografia romance policial preciso de um exemplo
Que desespero, hein? Você escolheu romances policiais como tema de sua monografia e descobriu que até isso é difícil.

desenhos da arte grega como o coliseu
O Coliseu foi construído em 64 D.C. por ordem do estratego grego Vespasianopoulos. Foi palco de grandes shows gospel, principalmente de Fídias Apóstolo e os Leões do Ritmo. Durante o reinado de Kostas Constantinopoulos um pedaço do Coliseu desabou. Foi quando se descobriu que o engenheiro Nagiopoulos Nahasopoulos tinha usado material impróprio em sua construção.

pés femininos na cara
Alexandre, no seu blog tem um link para cá. Por que você vem pelo Google?

penis aumentar o tamanho de graça
Miudinho, vou te dar um conselho tão bom que deveria ser vendido, a preço exorbitante: deixe essa palhaçada de lado e arranje uma mulher pequena.

o tamanho do penis influencia num relacionamento
Não, Minduim. Se ela te amar de verdade, não vai ligar para pequenos — pequenos, mesmo — detalhes anatômicos seus.

penis qual o tamanho para um adolescente
Sinto informar, ô pequerrucho: é maior que isso aí que não balança entre suas pernas.

conceito de revista semanal
Períodico hebdomadário que resume e analisa os fatos da semana e veicula matérias pagas sem as classificar como publicidade; como, por exemplo, matérias da Monsanto se for a Veja e do BNDES se for a Carta Capital.

rafael e galvao tem um caso sapiosexual
Eu só queria saber quem é o doente que acredita que eu, Rafael Galvão, seria capaz de uma coisa dessas. Esse pessoal com tara tão esquisita devia namorar uma biblioteca.

vibrador em gel prejudica a saúde?
Ahn… Eu não sei. Mas acho que há alternativas melhores, sabe?

você tem que rebolar pra ganhar o meu carinho você tem que rebolar pra ficar perto de mim
Tudo bem, eu fico longe.

putas dando
Bobinho. Putas não dão. Putas vendem.

tem algum problema tranzar naqueles dias?
Pergunte à arrumadeira do motel.

frases ditas por grandes genios
Fique por perto.

desvantagens do disco duro
Não podem ser maiores que as do pinto mole.

paris hilton noivo vergonha da familia
Olha, tudo bem que a moça é exibida demais e faz saliência (sem tanto talento assim) pensando em um público imaginário. Mas daí a ser a vergonha da família?

curiosidades suburbios de salvador
Na Engomadeira eu vi um casal rolando no chão, não nas lides do amor, mas no embate da porrada. No Cabula eu vi um homem bater a cabeça da mãe de seus filhos em um poste. Quer mais?

brasão galvão
Acho que vou fazer um. Vai mostrar um dragão, um cavaleiro com uma lança e um Galvão correndo apavorado.

onibus lotado e aquele homem se esfregando em mim
Vem cá: isso é trauma ou fantasia?

prostituição é uma profissão?
Boa pergunta. Eu diria que é uma carreira. Na qual se sobe simplesmente ficando deitado.

biquinis canadenses
Você deve estar se referindo àqueles casacos extremamente grossos que as esquimós usavam para agüentar o frio de rachar, não?

lenda romana de asterix e obelix
Não é lenda. É verdade. Em 50 A.C., os centuriões romanos Goscinnius e Uderzius eram os responsáveis pelas tropas romanas na Gália. Mas foram mortos em uma batalha contra um tal Vercigentorix, que a história se encarregou de esquecer. Então Júlio César em pessoa alistou dois traidores (os tais Asterix e Obelix em questão) para comandar um grande ataque à última aldeia que resistia. Asterix e Obelix entraram para a história dessa forma torpe.

sinônimo chitaozinho e xororo mp3
Deixa ver… Música ruim?

modelo no sambodromo com itamar sem calcinha
Itamar também estava sem calcinha? Como ele pôde? Para você ver a injustiça que cometeram com a Lílian Ramos.

datilografo não existe mais foto
Quem disse isso? Eu não digito, eu datilografo. Para mim, a palavra datilografar faz muito mais sentido que digitar — que deveria significar “apontar”. E tem umas fotos minhas espalhadas por este blog.

tomahawk rafael galvao
O passado me condena.

o melhor do filme porno frances
Eu nem sabia que franceses faziam filmes pornôs. Mas devem ser interessantes: “Ai… Ui… Ai, meu Deleuze… Ai, meu Deleuze… Isso… Mais… Me desconstrói! Me desconstrói! Me enche de semiótica! Aaaaai… Aaaaaaaaai…. Foucaaaaaaaaaaaaaault!”

ebós de amor para oxum
A moça já não confia mais em seus dotes e prendas para manter o seu homem.

O desespero é tamanho que, não sabendo mais o que fazer para manter ao seu lado aquele que ela sabe ser o grande amor de sua vida, ela recorre a uma indicação de uma amiga.

Mãe Gorete, ao ver a moça, sugere que ela faça um despacho para Oxum, para que ela e seu amado vivam apaixonadamente juntos para sempre.

A moça apaixonada e canalha pega suas economias e entrega a mãe Gorete, para que ela compre cachaça, pipoca, batom, calcinhas de renda vermelha — mas galinha não, porque galinha é a outra e as coisas podem dar errado. A moça apaixonada e canalha então entrega uma mecha de cabelos de seu amado e espera.

No seu quarto, dezenas de velas aromáticas; no seu corpo, calcinha de renda branca e sutiã fácil de tirar com apenas uma mão.

Mas é em vão que a moça espera, por um homem que nunca voltará. Porque Oxum, volúvel e caprichosa, ouviu o recado dado por intermédio de mãe Gorete; e com o dinheiro que a moça apaixonada e canalha lhe entregou, mãe Gorete por sua vez faz uma farra inesquecível com o seu namorado, por quem nunca fez nenhum ebó porque sabe que o amor está muito, muito acima dessas coisas.

Rita

Eu nunca namorei uma Rita.

Já namorei mulheres com nomes bonitos e feios, até com nomes esquisitos. E dessas que se perderam pela vida, já andei até com mulheres cujos nomes eram tão insignificantes que esqueci.

Mas sei que nunca namorei uma Rita, porque se namorasse eu não esqueceria.

Rita é um daqueles nomes aos quais a gente normalmente nem liga, mas que acabam deixando uma sensação boa na gente. Dizem que o nome é um diminutivo de Margherita. Mas não tem jeito de flor nem gosto de tequila, embora seja isso mesmo, um nome que nasceu como diminutivo, oferecendo uma intimidade e um carinho que “Maria Eduarda” não consegue oferecer.

Rita tem gosto de jabuticaba. É namoro no portão, uma mão hesitante descendo dos ombros em uma sessão de “Férias de Amor”. Rita é vestidinho de algodão no meio da canela e um olhar meio tímido e oblíquo que tenta lhe dizer o que a língua não tem coragem de falar.

Mas não pode ser Rita de Cássia, nunca. Tem que ser só Rita. Talvez se pudesse abrir uma exceção, se ela fosse tão unicamente Rita que, ao ouvir seu nome de batismo, as pessoas estranhassem e imediatamente decidissem nunca mais chamá-la por esse nome, porque por alguma razão Rita, e apenas Rita, é a única forma como concebem a sua existência.

Se namorasse uma Rita, eu nem me importaria se um dia ela levasse meu sorriso no seu.

Eu soube que ela estava

Eu soube que ela estava doente numa noite de abril.

A primeira reação foi de incredulidade, porque ela era a última pessoa que poderia ter câncer, esse tipo de câncer. A idéia está lá, você sabe que é verdade, mas ao mesmo tempo parece não ser. E então vem a raiva por isso estar acontecendo, as perguntas do por quê isso está acontecendo. Não há resposta. Nunca há.

E à medida que o tempo passa você tenta se acostumar com a idéia, passa a simplesmente conviver com isso.

Durante a campanha deste ano o plano era simples: acabar e voltar imediamente para o Rio, para pelo menos poder me despedir dela. Quando vim para Aracaju ninguém sabia que ela estava doente. Nos meus relatórios quase diários sobre a campanha, eu podia notar que ela estava feliz, também. Ambos contávamos os dias para a minha volta, embora por razões diferentes. Ela não sabia que tinha câncer e minha volta seria só isso, uma volta — e talvez pudéssemos ir para a Colombo, para comer meu viradinho de banana e bomba de creme com coca-cola enquanto ela tomava um chope, e rir quando o garçom, coitado, trouxesse a coca para ela e o chope para mim. Ou caminhar de braços dados pela rua do Ouvidor quando eu fosse tomar meu mate.

Mas quando a campanha acabou eu fui proibido de voltar. Já não fazia sentido, nem para mim nem para ela.

É se contentar com as lembranças, pelo menos. Foi ela quem me deu o nome de Rafael. Na maior parte dos momentos mais importantes da minha vida ela estava lá. Estava no meu casamento, orgulhosa com um vestido azul. Esteve ao meu lado durante a minha separação. Mais que amor, eu sinto falta de sua lealdade.

Das gargalhadas que dávamos, ela com seu jeito calmo mas soltando umas farpas aqui e ali. Ou ela deitada no sofá, pernas no meu colo, assistindo televisão e rindo. Do dia em que enchi a lata de vinho no almoço, rindo com ela, e tive que ir à Tijuca, resolver alguma coisa. Ou das perguntas que eu lhe fazia este ano pelo telefone: “Ô, velhota, cê tá cuidando bem dos meus livros?”, “Falaí, você tá é feliz porque eu tô longe, né?”, e eu sabia que ela iria fingir indignação, ou sorrir e dizer “Você sabe que não…”

Talvez a melhor definição dela tenha sido dada pela mulher do seu sobrinho e médico: “Se você a virar pelo avesso, não vai encontrar um defeito”. Ela tinha defeitos, sim, e sabia disso. Mas sua sobrinha não mentiu: se havia uma característica que a definia era uma bondade quase limites, uma generosidade que pouca gente conhece: e os meninos de rua que a rodeavam pedindo um real, que ela dava para todos eles, sabiam disso. Como sua irmã disse hoje, “as pessoas especiais vão embora no sábado, dia de Nossa Senhora”.

Eu pensava que assim que ela morresse — e nos últimos meses essa idéia esteve presente em cada hora do meu dia — o que iria ficar não seria dor, seria alívio e saudade. Foram mais de seis meses para me acostumar com a idéia. Talvez essa seja a única vantagem do câncer, lhe dar tempo para se acostumar com algo que, do contrário, lhe pega de surpresa. Eu estava enganado. Mas acho que se ela pudesse me ouvir agora diria que não, que eu tinha razão, que o que tem que ficar mesmo é só a saudade — mas só um pouco, porque saudade demais não é bom.

Agora, a única coisa que eu poderia fazer era escrever algo bonito para ela. Não posso. Porque nada do que eu escreva pode sair bonito; só doído. A dor vai passar, eu sei, e vai ficar só a saudade. Mas até lá dói.

Ela faria 77 anos amanhã.

Simpatia para ser vadia

A imagem da moça não me sai da cabeça: moça pura, na casa dos vinte, com um desejo que queima sua carne mas que não é tão forte quanto tudo aquilo que está na sua cabeça.

Foi ela quem foi parar no Monicômio atrás de uma informação que talvez seja fundamental para o seu futuro: “macumba para ser vadia”.

Ela cansou. Cansou mesmo. Ela queria ser mais solta, queria reagir melhor a toques grosseiros de homens apressados, queria ser como suas amigas e dormir hoje com um, amanhã com outro. Ela queria desencanar, porque algo lhe diz que ela não está adequada ao mundo em que vive. Seu comportamento talvez fosse louvável em 1904; mas agora, duas guerras mundiais e um sem-número de revoluções depois, ela é como um peixe fora d’água.

Sente que se conseguisse ser diferente, se suas pernas abrissem com menos hesitações, ela seria mais feliz. Talvez se ela passasse a usar lentes de contato, quem sabe? Talvez se mudasse a cor do batom.

Assim como até hoje ela não conseguiu ver graça na vida que leva, aquela vida insossa regrada por preconceitos que sua mãe colocou em sua cabeça desde cedo, também a vida com que sonha está começando errado. Porque para ser vadia ela não precisaria de macumba, não precisaria que a Mãe Gorete de Oxum tirasse o seu dinheiro para lhe dizer o óbvio.

Para ser vadia ninguém precisa da ajuda dos orixás, não precisa de banhos nem de ebós na encruzilhada, não precisa sequer da pombagira. Para ser vadia, vadia de verdade, daquelas que as senhoras de Santana olham com nariz torcido, ela precisa fazer apenas uma coisa: dar.

Portanto dê, minha filha. Dê muito. Dê o quanto quiser: sentada, deitada, em pé, de ponta-cabeça. Dê com a mão na cabeça para não perder o juízo.

Mas simplesmente dar não caracteriza ninguém como vadia. No máximo fica uma fama de promíscua, o que se resolve quando achar um inocente que se case com você.

Para ser uma vadia, mesmo, você precisa apenas misturar prazer e negócios. Precisa se conscientizar que seu capital de giro está entre suas pernas.

Isso não quer dizer cobrar pelo que você dá, porque então você não seria vadia, você seria uma puta. Há uma diferença; talvez pequena, mas há.

Uma verdadeira vadia funciona em função de presentes. Não pagamentos, repito: mas presentes, vantagens, agrados. Mas, diferente das prostitutas que batem calçada, ela não dá para receber presentes; ela recebe presentes por dar. Há uma troca, claro, mas enquanto prostituição é uma profissão, o ser vadia é só um modo de vida

Portanto, minha querida moça cheia de dúvidas, esqueça essa conversa de macumba. Um copo com água deixado de lado por sete dias só vai lhe trazer mosquitos da dengue agora que o verão está começando; um despacho só vai lhe custar o dinheiro que seria melhor aproveitado em um conjunto de lingerie tão provocante que ultrapassa o limite do bom gosto.

Deixe a macumba de lado. A não ser, claro, que uma de suas fantasias seja dar em um terreiro ao som dos atabaques que imploram a descida de Oxum. Em vez disso, lembre-se de Chico Buarque:

Se acaso me quiseres
Sou dessas mulheres
Que só dizem sim
Por uma jóia falsa
Um sonho de valsa
Um cinema, um botequim…

Ralouin

Era domingo e minha filha, depois de me deixar a par das posições dos candidatos a prefeito na última pesquisa, me lembrou: “Hoje é Halloween”.

Eu não posso ser acusado de xenófobo. Meu escritor preferido é um francês, seguido de perto por um russo. Minha banda preferida é inglesa e a música de que gosto foi criada por uns descendentes de africanos nos Estados Unidos. Troco praticamente qualquer filme brasileiro por um bom exemplar da Hollywood dos anos 30 e 40. Chego mesmo a achar que essa mania de valorizar em excesso o que é brasileiro e virar o rosto para o que vem de fora é um sinônimo incorrigível de burrice, sem volta.

Mas quando o assunto é Halloween eu viro o mais reacionário dos xenófobos, o mais nativista dos idiotas.

O Halloween começou a virar moda por aqui aí pelo final da década de 80, quando os cursos de inglês proliferaram e resolveram encontrar um diferencial de marketing. A isso juntou-se a tradicional mania brasileira de aproveitar qualquer motivo para fazer festa.

Se o Halloween é produto do conflito dialético entre a antiga cultura celta e os novos costumes cristãos na Irlanda, tudo bem, não se pode negar que é uma história bonita. Mas a mim não diz absolutamente nada. A minha tradição é outra. É a do Caipora fumando na floresta, do Curupira e seus pés invertidos confundindo os caçadores; é a história da mula sem cabeça que passa as noites a pagar o preço de seus amores com o padre. É a história do Boitatá.

E ainda que as tradições indígenas pareçam pouco, o que não são, há a belíssima cosmogonia iorubá. A história de como Iemanjá deu à luz os orixás é de uma beleza impressionante — e há várias mais, tão arquetípicas quanto a mitologia grega. Infelizmente não temos um Jung para codificar esses arquétipos em um livro que faça sucesso nas universidades, onde se aprende a dizer da boca para fora que os valores brasileiros são lindos (porque um alemão disse isso ou algo parecido); mas se tivéssemos ele provavelmente descartado como um idiota forçador de barra.

Eu não entendo por que um bando de bobos se veste de bruxa para dizer “travessura ou gostosura” na porta dos outros, quando essa pequena chantagem sempre foi um costume de Exu — que ao contrário do que o povo parece pensar, é menos identificado com o diabo do que com esse mesmo trickster que inspirou o trick or treat.

É apenas a ignorância que nos faz valorizar o Halloween e menosprezar aspectos de uma cultura que viemos desenvolvendo e depurando por centenas de anos.

O resultado é que as crianças de hoje em dia conhecem melhor a versão pasteurizada de uma tradição cultural que não é delas do que algumas das mais belas lendas brasileiras. Como a do Negrinho do Pastoreio, lenda de uma beleza lírica tão grande que nenhum Halloween com seu Jack o’ Lantern poderá jamais alcançar.

Que me desculpem aqueles que se empolgam e se vestem de bruxa e de duendes no dia 31 de outubro. Mas o Halloween é uma comemoração de bocós que não pensam.

Assim que minha filha chegar a gente vai ter uma conversa séria.