Mil posts depois

Este blog completou um ano e só depois percebi; decidi que não ia deixar o milésimo post passar em branco. Ontem foi o dia.

Ele nasceu como “Pensamentos Mal Passados”, um trocadilho bobo com a atitude de transmitir alguma coisa e a analogia imediata com um bife mal-passado. O primeiro post foi sobre o fim do Netscape, meu companheiro desde os primeiros dias de internet.

Demorou algumas semanas até ele ter uma cara própria. E é esse ainda o seu principal problema. Até hoje não sei direito o que ele é. Sei o que não é: não é um blog jornalístico, não é um blog literário, não é uma coleção de links, não é um diário online.

A única unidade temática que consigo ver nele é o fato de os posts terem sido escritos por mim. É por isso que, cada vez mais, a impressão que ele me dá é a de que é uma versão meio torta de um diário. Por isso a mudança de nome. Como eu já disse antes, o blog nasceu como uma forma de tirar da cabeça um montão de bobagens, para desocupar espaço; e acabou tendo uma dialética própria, me fazendo pensar em mais e mais bobagens.

É um blog um pouco elitista e meio cabotino. Elitista no sentido de se dar ao luxo de emitir as opiniões que bem entende, e até de mudá-las quando acha que deve; cabotino porque talvez, no fundo, ele seja pouco mais que uma tentativa de dizer “olha como o que eu penso é importante”, quando, na verdade, nada é tão importante assim.

Até o começo do ano este blog era lido regularmente por poucas pessoas: Mônica, Daniela, Paulo, Plataformista, Tuzi, Lau e o Humbert Humbert Bia Desses, só o a Mônica, o Bia e o Paulo continua aqui. Os outros, ao que parece, enjoaram. De lá para cá a média diária de visitas únicas mais que decuplicou — primeiro graças a um texto que fiz para o blog da Tata, depois com os elogios do Alexandre Cruz Almeida e do Inagaki, elogios que provavelmente não mereço (mas que faço questão de espalhar, claro, pelo orgulho que me dão).

Hoje os websites que mais trazem visitantes são o Liberal Libertário Libertino, o Pensar Enlouquece e o Tiro e Queda, nessa ordem. A maioria, no entanto, tem o blog em seus bookmarks. Obrigado.

Provavelmente, um dos meus maiores orgulhos hoje em dia é ver que um bocado de gente faz do blog leitura diária. É, provavelmente, o maior elogio que posso receber. E embora a minha pernosticidade não mostre, sou grato por isso. Ainda lembro que no começo eu não fazia questão de incluir comentários, e depois ainda relutei em colocar um medidor; perdoai-me, Senhor, eu não sabia o que fazia.

Não acho que os textos daqui, com raríssimas exceções, caibam em qualquer outra mídia que não esta: um blog. Não é suficientemente profundo para constituir um livro. Não é exatamente jornalístico. De qualquer forma, como acho que deveria entrar em uma Academia Qualquer de Letras e assim, pelo menos, ter um lugar onde cair morto — os imortais têm um mausoléu legal –, eu deveria pensar nisso.

Lembro de poucas coisas que tenham me dado tanto prazer durante tanto tempo quanto este blog. Eu, que normalmente me comporto como uma quenga volúvel e leviana que enjoa rápido das coisas, gosto cada vez mais dele. Talvez seja o fato de não ter nenhuma obrigação de atualizá-lo seja o que me faz postar quase religiosamente. De alguns posts gosto muito, da maioria não; mas gosto do ato de postar.

No fim das contas, de publicitário eu estou virando blogueiro. Não é ruim. Não é, mesmo.

Inté, cabocla

Fiquei sabendo que a novelinha mais simpática dos últimos tempos vai acabar.

Nos últimos meses venho acompanhando “Cabocla” pelo seu site na Globo. Chego lá, vejo as sinopses dos capítulos e pronto, já sei o que acontece. Com uma semana de antecedência. Gosto de sinopses desde os tempos em que escrevia um programa de rádio sobre TV — o que é engraçado, porque normalmente não assisto TV. A gente ganha a vida de umas formas esquisitas.

Mas ontem parei para assistir, coisa que não faço há tempos (por exemplo, fiquei sabendo que a novela das 7 se chama “Começar de Novo”. Eu ainda estava nos tempos do Paco). Ontem vi um capítulo, pela primeira vez em muito tempo; no último a que assisti, depois de outro tanto longe, Tobias queria dar uma chifrada em Luiz e Tomé ainda estava vivo.

Duas boas surpresinhas: a atuação perfeita de Cosme dos Santos, que deixou para trás os tiques de tiziu, de estereótipo do criadinho negro, e se tornou um grande ator, maduro; e o fato de que a novela continua com o mesmo equilíbrio doce com que começou. “Cabocla” só tem um defeito: uma abertura ruim com uma música fraca. Agora percebi que talvez não seja a música o problema — embora faça falta o vozeirão de Nelson Gonçalves cantando que seu olhar está me dizendo que você está me querendo. O problema é que imagem e música parecem eternamente divorciadas por diferenças incorrigíveis. Mas no geral a novela parece ser melhor que a primeira versão, apesar de eu lembrar quase nada dela.

E a Ritinha, meu Deus. A Ritinha é uma coisa. Uma coisa. No capítulo de ontem ela casou com o Chico, e os corações de todos nós se aqueeceram um pouquinho. É mais um motivo para eu gostar da novelinha que não assisto. O Chico é a redenção dos feios e dos bobos. Porque se até ele pode casar com a Ritinha, então todos nós, que a despeito da realidade não nos achamos nem bobos nem feios como o Chico, então todos nós temos salvação.

As alegrias que o Google me dá (XII)

pena de morte estudo comparação vantagens
Entre os vários tipos o enforcamento é considerado o mais barato, porque a corda pode ser reaproveitada várias vezes. O fuzilamento é o mais rápido. E a cadeira elétrica é a mais gostosa de se ver, porque é sempre bom ver churrasquinho de gente.

foto lady diana morta
Falando sério: eu preferia os tarados atrás de fotos da Diana nua.

visava ao circunstancial ao episodio esta perseguição
Falou bonito, hein?

redação do q vc entendeu sobre a poesia pátria
Sinceridade? Eu não entendi nada. Antes daqueles malucos que comiam gente e diziam que seus pais foram reis e que não gostavam de lirismo funcionário público ainda dava para entender alguma coisa. Mas depois virou uma bagunça só. E piorou com uns tais pedreiros, um pessoal que mexia com concreto. Aí, meu filho, esculhambou tudo de vez.

papai mamou seios
E o pior, caro tarado, é que foram os de sua mãe.

sapiosexual
Vulgo aneurisma: aquele que come cabeça.

letras de músicas que criticavam o governo e que foram proibidas nas décadas de 64 à 85
Como, por exemplo, as famosíssimas “Costa e Silva e Ricardão”, “Castello Branco é um baixinho invocado”, “Médici, que merda” e “Os gases de Geisel”?

marqueteiros fracassam em 2004
Ah, a baba que escorre da boca aberta em um esgar… Eles só não percebem que, para cada “marqueteiro” derrotado no segundo turno, outro “marqueteiro” elegeu seu candidato. Exatamente como nos anos anteriores.

brancura desconfortavel das classes
Pelo menos para os brancos, sua brancura é bastante confortável. Ruim é ser negro numa sociedade veladamente racista.

pessoas esquisitas
Veio ao lugar certo. Fique por aqui e você vai ver coisas de que até Asmodeu duvida.

namorar garota 10 anos mais nova
Oi, Bia. Tudo bem?

fui no tororo beber agua nao achei autor
Você acha uma bela morena e ainda reclama? Tem gente que não se contenta com nada, mesmo.

extra-terrestre caso roosevelt estados unidos
Quando Franklin Roosevelt se apaixonou por aquela inca venusiana ele sabia que estava entrando em uma fria. As relações dos Estados Unidos com o Japão iam de mal a pior, e sua amada assinara, pouco tempo antes, um contrato com a Panasonic. Foram como Romeu e Julieta. Quando os EUA declararam guerra ao Japão, eles não puderam mais se ver. Roosevelt morreu durante a guerra, sem poder se despedir de sua amada. A inca venusiana enlouqueceu de dor. E, naquele dia, jurou que se vingaria dos japoneses que a separaram do seu grande amor, começando então uma longa batalha contra o Nacional Kid e seus radinhos de pilha.

lúcia mccartney contos 1967 resumo
Por que alguém procura resumos de contos que, em vários casos, têm apenas uma página? E por que alguém se priva, conscientemente, do prazer que é ler o melhor livro de contos da literatura brasileira? Me perdoe, meu amigo, mas você é um mané.

principais hábitos das crianças sauditas
Assim que acordam tomam seu copo de leite de camela e vão com o papai supervisionar seu campo de petróleo. É costume entre as famílias mais ricas dar um poço com baixa produção para o primogênito, para que ele aprenda a cuidar dele, o que inclui chicotear os trabalhadores. Almoçam quibe cru com tahine e suco de tâmaras. À tarde montam em seus cavalos árabes de longa linhagem e treinam um pouco, enquanto o papai se diverte em seu harém. E à noite, escondidos dos pais, vão fazer curso de terrorismo em uma das Bin Laden Escolas Associadas.

tropicalismo estilo das roupas masculinas
Não tinha muita diferença, tinha? Pô, bicho, você não entendeu mesmo o espírito da coisa.

existe racismo judeu em nossos dias explique
Você não teve sequer a decência de mudar a pergunta feita pela professora, não é? Você é podre.

hemingway – resumo – hills like white elephants
Você não sabe quão honrado me sinto, amigo, ao ver que pelo menos uma alma entre os tantos tarados que aparecem por aqui está procurando por boa literatura. O único problema é que eu não gosto de Hemingway. Mas que essa passou perto, passou.

jogos de corrida de carro que dem para jogar nesse computador
Claro que o Google, onisciente, sabe qual é esse computador. Ele sabe tudo, por que não saberia que diabo de computador você está usando, né?

mulheres brutas fotos
Você quer uma mulher que lhe jogue na parede e lhe chame de lagartixa, não é? Uma que lhe pegue no colo, lhe deite no solo e lhe faça quase um homem. Sinto, mas eu sou baiano. Eu não gosto de brutalidade, sabe? Eu gosto é de cafuné. Bunda grande também ajuda.

acupuntura é heresia
Se você enfia uma agulha no saco do padre, é.

resumo livros de adelaide e carraro
Ai. Ui. Ai, que bom. Mais. Mais.

perguntas universo putas
Taí, boa questão. Quais perguntas são mais comuns no universo das prostitutas. Este blog não pretende dar uma resposta, mas apenas iniciar um franco debate sobre o assunto:
1 – Será que ele vai pagar o combinado?
2 – Se ele pagar mais, aceito dispensar a camisinha?
3 – Se eu beijar na boca posso me apaixonar?
4 – Em caso de calote, quando devo parar com a discussão e apelar para a gilete?

indices ou suspeita do anti-cristo
Olha, eu tenho uma suspeita. Acho que o Duda Mendonça, pelo tanto que o detonaram, é o próximo.

1000000000000 en numeros romanos
Para que você faz uma pergunta dessas? Por que esse exercício de curiosidade inútil? Os romanos não tinham necessidade desse número, porque jamais tiveram um trilhão de nada. E olha, você também não vai ter.

blogs sobre erros de português em anúncios publicitário
Querendo pegar nós no contrapé, hein?

sic radical filme deficientes sexo
Acho que a palavra que você quis usar foi sick, pois não?

globo paraibinha novela
É curioso que alguém ainda se lembre dessa novela de Ivani Ribeiro, que a Globo levou ao ar no fim da década de 70. “A Paraibinha” conta a história de Darlene, que sai do interior de Pernambuco para o Rio de Janeiro. Leva uma carta para um parente, mas no meio do caminho essa carta é roubada por um homem que durante toda a novela será conhecido como o “Homem do Méier”. Chegando ao Rio, se apresenta a esse parente, que a coloca para trabalhar em sua fábrica. Lá ela faz amizade com três mulheres: Ada, Pola e Araci. A partir daí a vida de Darlene é uma divisão entre o trabalho e seu envolvimento com dois homens: Constâncio, que representa o verdadeiro amor, e um industrial inglês cujo nome esqueci. Foi uma novela que não fez nenhum sucesso e acabou sendo cancelada em três meses.

masturbar caes
Seu amor pelos animais, definitivamente, me comove. É tão lindo ver a que ponto as pessoas estão dispostas a ir em prol do bem estar dos seus animais de estimação. Adoro isso.

galvão cruzadas
Até onde sei, não havia nenhum Galvão nas cruzadas. Reza a lenda que a família vem de Pedro Galvão, um membro da corte portuguesa. Em outras palavas, um puxa-saco miserável que vivia bajulando reis. E a covardia proverbial dos homens da família é a melhor prova disso.

fotos de crianças com sindrome de dow
Procure em sites americanos. O fenômeno de crianças com Síndrome de Dow-Jones é recente, e se caracteriza por meninos que desde a mais tenra idade acompanham o Bloomberg em busca das oscilações da Bolsa de Nova York. Há uma variação, das crianças com Síndrome de Nasdaq. Aquela gurizada meio nerd, sabe como é.

os homens preferem peitos ou bunda?
Olha, amigo… Por que ficar indeciso entre um refrigerante e a batatinha, se você pode simplesmente pedir o número 1 e levar a batatinha, o refrigerante e o Big Mac?

dow right reclamações
Sai daqui! Já! Passa! Xô! Você tá querendo que meu blog seja tirado do ar por ordem judicial, miserável? Fora!

foguetinho de ar
Vulgo flato, é isso?

o que significa tequinologia
Significa que você precisa urgentemente de umas aulinhas de português.

homens que procuram namoradas
Quantos anos, ela? 25? 30? Eu não sei. Mas sei que ela cansou daquela vida de bar em bar, de olhares que não se concretizam em afagos, de chegar de madrugada em casa e ver aquela cama vazia, esperando o seu corpo cansado do pior cansaço que há, o cansaço do amor que não se dá.

Cansou também das madrugadas na internet, de homens grosseiros, eles também solitários e se sentindo incompetentes para o mundo, que mascaram sua fragilidade dizendo coisas como “vou fazer isso e aquilo com vc, gostoza”.

Ela agora decidiu que sua vida vai mudar, que não vai mais perder energia em buscas inúteis, que vai juntar sua solidão à de um homem que também cansou de tudo isso, e que agora quer uma mulher para quem possa olhar pela manhã e dizer “eu te amo”.

E no entanto a busca é vazia, porque assim como ela esses homens que procuram namoradas estão procurando a princesa encantada que não existe, que pode ser uma Amélia, uma Florence Nightingale ou uma Carly Fiorina, algo que eles não conseguem ver e que não sabem o que é; porque não podem, porque elas não existem.

Ele procura uma namorada, ela procura um namorado, e no entanto vão em caminhos tão iguais que nunca se cruzam, e provavelmente jamais se encontrarão.

A vida é assim mesmo.

Na poltrona ao lado

Olhando para o lado de soslaio, como quem não quer nada:

Ricardo Montero, o Homem Baile, escreve alguns dos melhores contos curtos que já vi na internet.

Alguns dos contos são brilhantes, com um senso de humor surpreendente, e uma leveza que tem sido difícil de encontrar ultimamente; e assim eis um belíssimo blog que andou passando despercebido por tempo demais.

***

A Mônica, do Monicômio, está escrevendo uma série sobre sua vida na terra do xador.

Ela já tinha ensaiado algo sobre o assunto nos tempos do Blogger, mas só agora parece resolvida a contar tudo, e a experiência de uma menina em um lugar em estado de guerra como o Iraque não pode deixar de ser muito, muito interessante.

***

É hoje. Nos últimos dias descobri que Kerry, além de ter tocado um baixo muito do vagabundo numa banda chamada The Electras, pastiche medíocre dos Shadows e ruim de doer (e que está aproveitando o sucesso de seu antigo integrante para descolar um troco), tem como disco favorito o Abbey Road, dos Beatles. Ninguém que tenha o Abbey Road como disco favorito pode ser má pessoa. E o sujeito encontrou John Lennon uma vez.

Se você vota nos Estados Unidos, além de dar meus pêsames eu queria pedir que você votasse em Kerry. No mínimo porque ele gosta do Abbey Road. No máximo, porque o mundo com Bush Jr. vai ser um porre. E, como é praxe, nós cá na periferia vamos pagar o pato pelos americanos fazerem uma burrada tão grande.

Lembranças da academia

Da série “por que eu não gostava do curso de direito”.

Em 95, empolgado com a internet, tive a idéia de fazer uma daquelas pesquisas porcamente financiadas pelo CNPq (na verdade, como eu estava duro como pão de anteontem, precisava que a universidade financiasse a cachaça que eu tomava nos bares próximos à universidade. Era a única razão pela qual eu ainda ia àquele cu-de-mundo — e se alguém vê conflito de interesses aí, aviso que não havia nenhum: juro que aprendia mais nos bares que na universidade).

O assunto — ou aquilo que eles chamam de “objeto de pesquisa” ou outro nome mais feio — seria o direito e suas relações com a internet. Eu tinha a impressão de que havia uma série de questões jurídicas que a Internet iria afetar; na época eu não pensava em direitos autorais e circulação de conteúdo, mas principalmente direito penal e civil.

Falei com o professor encarregado de orientar os alunos, depois que soube que não poderia fazer a pesquisa sozinho. E ele disse não. Alegou que ainda era um tema novo demais. Não adiantou dizer que era para isso, afinal, que servia uma pesquisa, para dar respostas ou pelo menos instigar mais perguntas. A resposta continuou sendo não.

Típico da mentalidade acadêmica, mas mais típico ainda dos “operadores do direito”: fazer pesquisas apenas sobre o que já se sabe. Eu não entendia. Foi quando compreendi que é esse o espírito do direito que se ensinava ali: “restrinja-se a não estragar o que outros fizeram antes de você”.

E ainda hoje tem gente que não consegue entender por que abandonei aquele curso.

E o vento levou o domínio público

O Projeto Gutemberg (para quem não conhece, uma das mais antigas e mais louváveis iniciativa da internet, em que se disponibiliza textos clássicos — de Shakespeare a Ésquilo — que tenham caído em domínio público para download) está sendo processado pelo espólio da autora de “…E o Vento Levou.”

O Projeto Gutemberg Austrália está disponibilizando uma cópia do livro para donwload, porque lá ele já caiu em domínio público. No entanto, os advogados argumentam que o livro pode ser baixado nos Estados Unidos, onde essa conversa de DP é cada vez mais ficção.

É uma questão interessante, e é só a ponta do iceberg sobre o que eu considero um dos grandes problemas culturais deste começo de século: a maneira como direitos autorais estão acabando com o progresso da cultura. Detalhes aqui.

É mais um episódio da luta que envolve o direito autoral e o domínio público. Editoras e gravadoras vêm se mobilizando contra o compartilhamento de arquivos e contra o acesso livre a obras de domínio público há algum tempo. Dizem que isso está destruindo o ganha-pão dos artistas. E que destrói também acultura e a motivação para que se crie arte.

Artistas sempre existiram. Sempre vão existir. As pessoas não escrevem livros exatamente porque os querem publicados; escrevem porque precisam. Se o mercado cultural dependeu, durante muito tempo, das distribuidoras de conteúdo, a cultura em si nunca dependeu de nada além de talento.

O problema com o direito autoral extrapola a idéia de que um artista deve poder ganhar dinheiro com sua obra. Ninguém discute isso. Mas quando esse direito se perpetua décadas após sua morte, quando se transforma cultura em mais uma commodity de um mercado meio insano, a coisa muda de figura. O atual estágio do direito autoral caminha em uma direção: a de que as pessoas terão que pagar para pensar.

Uma coisa é garantir que um artista viva de sua obra; outra coisa é tentar controlar a forma como a cultura se expande e se transforma. É só imaginar um mundo em que Ticiano não pudesse pintar seus quadros porque fulano já tinha usado aquele tom de amarelo antes e se tem uma idéia até razoável do que querem que este mundo se torne.

Já disseram que se as regras que regulam o direito autoral americano hoje existissem há algumas décadas, Walt Disney jamais poderia ter produzido Branca de Neve.

Mi hermano Bush

Se venho dizendo há um ano, quase, que Bush vai perder estas eleições é por uma razão muito simples. Nunca, antes, vi tamanha indignação tomando corpo entre os americanos contra seu presidente. A mobilização contra Bush era desproporcional à média histórica americana, acostumada há muito a levar suas eleições com o mínimo de importância possível.

Quando um povo se revolta dessa forma contra um governante, quando este consegue alcançar um índice tão grande de rejeição, sua derrota é praticamente certa, nos Estados Unidos ou em Cochabamba.

Isso foi antes de Abu Ghraib, dos explosivos que sumiram, do último escândalo da Halliburton. Agora, o que era apenas impressão se tornou quase uma certeza.

Nem mesmo o vídeo de Bin Laden que apareceu anteontem deve mudar isso. Provavelmente reforçará as certezas dos simpatizantes de Bush e Kerry, porque seu discurso é tão ambíguo que à primeira vista me parece poder ser interpretado a seu favor pelos dois candidatos.

Mas sempre há a possibilidade de George Jr. vencer. Como já disseram algumas pessoas, não é o povo ou o Colégio Eleitoral quem elege o presidente americano: é a Suprema Corte.

Essa possibilidade é uma das mais aterrorizantes que se pode imaginar.

Até as eleições de 2000 havia apenas a rivalidade normal entre republicanos e democratas. Admitia-se a diferença ideológica porque ela não era mais importante que o business as usual. O que quer dizer que você podia ser democrata, mas se um republicano ganhasse, tudo bem, a vida é assim mesmo. Mesmo em 2000, com o escândalo da Flórida, a indignação diante da roubalheira se manteve em níveis civilizados. Aquilo foi feio, foi ridículo, mas ainda não chegava a tornar a oposição ao presidente eleito algo visceral, praticamente um imperativo moral.

Mas nesses últimos dois anos Bush conseguiu o privilégio de deixar os Estados Unidos tao ou mais divididos quanto nos anos 60. Provavelmente mais, mais até que durante a época do New Deal. Em termos de divisão, só perde para os Estados Unidos que precederam a Guerra de Secessão. E a isso soma-se o ter justificado o anti-americanismo latente em todo o mundo, tornando a vida de seus cidadãos muito mais difícil.

É esse país que um Bush reeleito vai encontrar. Uma oposição mais forte do que nunca, um tipo de oposição visceral e raivosa que há muito tempo um presidente americano não encontrava, nem mesmo ele. Metade dos americanos se julga humilhada e roubada. Mesmo tendo chegado à presidência em uma eleição roubada, um eventual segundo mandato de Bush vai ser o verdadeiro retrato da ilegitimidade.

Cá embaixo sabemos bem o que é isso. Sabemos o que foi eleger um presidente sem respaldo moral como Collor. Sabemos o que é ter passado um século divididos entre polarizações de todos os tipos — paulistas contra o resto do Brasil, civis contra militares.

A essa altura os americanos já esqueceram o que é isso. Resta saber quem vai pronunciar o discurso de Gettysburg, nesse caso.

Enquanto isso, seja bem-vindo ao que já chamaram de latinização da política americana. Aye.

O Haiti não é aqui

Vendo este post no Geógrafos Sem Fronteiras, concluí que a decisão de mandar tropas de paz brasileiras para o Haiti foi um erro.

Fizemos tudo errado.

Deveríamos ter mandado macumbeiros. Bons pais de santo baianos para enfrentar os vodouisants com as armas deles.

Em vez de nossos soldados ficarem expostos a balas e granadas, sob a mira de milícias cheias de ódio iríamos encher as ruas do Haiti com ebós. Pipoca, farofa, galinhas pretas são melhores do que pólvora.

E no final os tambores iriam tocar saudando a despedida de Omolu. Iansã guardaria sua espada e seus raios, Xangô imporia finalmente sua justiça. Ossain curaria as feridas de um povo que já sofreu mais do que deveria e Oxumaré reiniciaria um novo ciclo de paz e estenderia seu arco-íris pela ilha. Oxum dançaria, mexeria seus ombros em convite, e tomaria os haitianos pela mão e os levaria ao amor.

E à noite, sob as vistas de Oxalá, o Haiti se reconfortaria em paz no regaço de Iemanjá.

Arthur

Fui ver “Rei Arthur” e, esperando uma tragédia, até que não achei tão ruim assim. Só fraco.

O problema é que historicamente é altamente improvável. Há, realmente, uma suposição de que Artur é descendente de um tal Lucius Artorius Castus, dalmaciano que comandou tropas auxiliares romanas chamadas de sármatas na repressão a um levante em Armorica. Mas os estudiosos arturianos rejeitam essa tese como altamente improvável. Se é que Artur tem origem em um só homem, o mais provável é que tenha sido um rei bretão.

Fora isso, o filme tem aspectos agradáveis. Deixa de lado o caso entre Guinevere e Lancelot, que não pertence às crônicas arturianas originais, tendo sido introduzido por Chrétien de Troyes no século XII atendendo a pedidos bem especiais. Tenta dar alguma consistência histórica à lenda, embora tome mais licenças poéticas do que deveria.

No final, é um filme fraco por uma razão: não é historicamente fiel mas não tem sua contrapartida, o lirismo da lenda. É só mais um filme que acompanha a onda de sua época, que ultimamente parece ser a de fazer épicos que ficam no meio termo, sempre. Por exemplo, esquece a traição de Lancelot, mas não prescinde do personagem, que não existia originalmente.

O filme é, pelo menos, melhor que “Gladiador”. Se é que isso é um consolo.