A Gisele Lemper grita e se vira — agora sabes — porque sufoca.
Author Archives: Rafael
O dia em que quase fui Pelé
Apesar do meu histórico deplorável em qualquer coisa que se refira a esportes que não aqueles doces que tornam a vida mais agradável, lembrei de um momento em que as coisas não pareceram tão feias.
Foi uma competição de futebol. “Gol fechado”, como chamávamos: duas sandálias, separadas 3 passos uma da outra, marcando o gol; e dois times de duas pessoas. Quem fizesse 3 gols primeiro ganhava o jogo. O lateral era de quem gritasse mais alto.
O meu time estava longe de ser o favorito. O time de China e Vieira era considerado imbatível: os dois eram muito bons. O meu time era completado por Fábio. No conjunto era muito inferior ao de China e Vieira, mas Fábio, individualmente, era o melhor driblador do lugar. Só não era muito inteligente.
Foi quando percebi que a vitória era muito simples. Eu era mau jogador, mas tinha duas qualidades. A primeira era correr mais que qualquer outro, em distâncias muito curtas; a segunda era conseguir colocar a bola exatamente onde eu queria.
Se fôssemos jogar como os outros times iríamos perder. Não conseguiríamos ficar com a bola tempo suficiente. Então descobri a solução.
Eu sairia com a bola. Quando o primeiro marcador se aproximasse, eu passaria para Fábio. E sairia correndo desembestadamente, sabendo que não conseguiriam me acompanhar. Fábio levaria a bola e passaria o primeiro marcador.
O segundo jogador teria que ir atrás dele. Fábio então passaria para mim e, de onde estivesse, eu faria o gol.
Perceber qual era a tática não adiantava muito. Porque se o segundo jogador resolvesse me marcar, Fábio avançaria sozinho.
Nossos jogos eram rápidos. Ganhamos o campeonato sem problemas.
Mas essa vitória solitária ainda não conseguiu me fazer esquecer a humilhação sofrida diante daquele tabuleiro miserável.
Teoria rafaeliana sobre a hegemonia do futebol brasileiro
Uma das teorias rafaelianas reza que o segredo para a hegemonia do futebol brasileiro é a exportação dos nossos maiores craques.
Como todas as teorias rafaelianas, essa tem lógica, e nada mais que isso.
Preste atenção ao campeonato italiano ou ao espanhol. São os melhores campeonatos de futebol do mundo. Os melhores jogadores estão lá, dão um espetáculo mais bonito de se ver que o campeonato brasileiro ou sua versão de segunda, a Copa do Brasil.
Agora veja os desempenhos desses mesmos países nas Copas do Mundo. São pífios, sempre. Da Itália tricampeã do mundo só resta o amor imorredouro à retranca. A Espanha tem melhorado, mas isso não quer dizer muita coisa.
Estou convencido de que a razão é a profusão de jogadores estrangeiros nos times desses países. Na hora em que são obrigados a se apoiar apenas nos seus compatriotas, o resultado é que precisam se resignar a jogadores de segunda, porque seus times não tiveram tempo ou vontade de desenvolver talentos: os lugares já estão ocupados por estrangeiros, mais rentáveis.
Sempre que vejo alguém reclamar do êxodo de brasileiros para o futebol internacional, fico pensando como eles não conseguem perceber a maravilha que é isso para o futebol brasileiro. Nossos Kakás, Cafus, Roberto Carlos, Ronaldinhos são a nossa vanguarda de ataque. Insidiosamente minamos a estrutura de renovação do futebol desses países, damos a eles o circo enquanto tiramos o seu pão.
Chegaria a desconfiar que se trata de uma estratégia maquiavélica da CBF, se não soubesse que tudo em que eles conseguem pensar é em quanto vão receber esse mês, da forma que for.
Se Zico não tivesse voltado de Udine, Márcio, do Bangu, não teria estourado seu joelho. E ainda que não fôssemos campeões em 1986 (no máximo adiaríamos a derrota para a final com a Argentina, ou semi-final, já não lembro), a história da seleção brasileira teria sido outra.
Eu não reclamo dos “estrangeiros”. Nunca. São eles que fazem do futebol brasileiro o melhor do mundo.
Boyz N The Hood
O cinegrafista prepara a câmera para filmar uma passeata no centro de Aracaju.
Um menino de rua de seus 11 anos, gordinho, fica parado em frente a ele, com expressão séria.
“Ô, guri, sai da frente.”
“Você não vai filmar aqui, não.”
O cinegrafista suspira e se volta para o outro lado, esperando que o menino se canse e ele possa trabalhar em paz.
“Você filma o lado de lá. Mas desse lado você não filma.”
O lado bom de Jayson Blair
Tenho cá minhas dúvidas quanto à malignidade de Jayson Blair, o repórter que causou uma crise no New York Times por ter inventado boa parte das histórias que publicava.
Não se trata aqui de parâmetros internos do jornalismo. Para um jornal a meta tem que ser a melhor reportagem de maneira absolutamente verídica. Isso não está em consideração.
Mas boa parte da crítica sobre Blair veio de gente que não tem nada a ver com jornalismo. Gente que se sentiu enganada e traída porque uma reportagem que provavemente não leram não era restrita à mais absoluta verdade, checada e confirmada. E esses talvez estejam se apegando demais a um parâmetro que na verdade lhes diz muito pouco.
Por exemplo, imagine uma reportagem sobre alguma coisa relativamente pouco importante na numa vila perdida no interior do Butão. É só uma história de cunho humano; digamos, uma família e sua luta para sobreviver diante de um fato específico e restrito ao lugar, o que talvez seja incompreensível se você não mora no Butão.
Isso não vai mudar sua vida. Você, provavelmente, vai esquecer os detalhes da matéria assim que virar a página da revista. Você não vai tomar nenhuma decisão em função da miséria de uma família butanesa. Nada de ruim vai acontecer em sua vida por causa dessa reportagem. Então, por que se preocupar se o sujeito realmente foi lá e entrevistou a tal família ou algumas outras pessoas?
Mas uma história bem escrita, com alguma imaginação, pode lhe ajudar a pensar melhor sobre o mundo em que se vive. Lembre-se de quando era criança: a África e Tarzan e do Fantasma, imaginária e irreal, lhe interessava mais ou menos do que a África dos tutsis e dos hutus?
Uma cena imaginada pode ser mais verdadeira do que uma real, porque pode alcançar alturas que a realidade raramente atinge. Principalmente porque, por ser imaginária, não precisa deixar de ser verdade.
Não sei se era Marx ou Engels que dizia ter aprendido mais sobre a França da primeira metade do século XIX com Balzac do que com livros de história. A ficção pode dar uma dimensão maior às coisas, disso ninguém tenha dúvida. E pode ajudar a compreender a realidade, no que é realmente importante, de uma forma muito mais completa que uma noticiazinha escrita sem nenhum brilho.
carreirasolo reloaded
O carreirasolo, um dos blogs mais interessantes da blogosfera nacional, mudou. O endereço é www.carreirasolo.org.
O carreirasolo traz uma série de dicas para o pessoal que, como o título avisa, se aventura na carreira as vezes doce, às vezes amarga — mas sempre difícil — do que os americanos chamam de free agent.
Pessoalmente, acho que vale também para quem tem um emprego certinho.
Afinal, nunca se sabe.
Maluquices
Só atualizando: o Fred Silva publicou nos comentários um link para um fotolog com fotos da tal “louca dos shoppings”, que já tem um nome: Velha Punk. Como disse a Isadora, é a cara do Michael Jackson. Mas seu sorriso triste é mais simpático. Outra diferença é que ela parece ser consumista demais para ser comunista, ou seja: não come criancinhas.
E o blog vai sair, sim, Reginaldo. Só não agora, por absoluta falta de tempo. Mas no começo de outubro, no máximo, ele está no ar. Eu acho uma boa idéia, o mais perto que eu consigo chegar da poesia.
Tata, que tal fazer um favor a este seu eterno apaixonado e dar de presente um layout para o blog?
Carlos Zéfiro e eu
Em 1981 um sujeito foi até a agência onde meu pai trabalhava.
Era ilustrador e tinha uns 50 anos. Havia trazido algumas peças, e tinha carinho especial por um jornal ilustrado, ou algo parecido, que estava tentando lançar e cuja boneca trazia consigo. Talvez trouxesse outras coisas de que não me lembro. Eu dormia às 8 da noite, e já tinha dormido em algum canto quando ele chegou. Acordei umas duas horas depois.
Eu tinha 10 anos, e naquela noite aprendi muitas coisas. Uma de suas histórias era sobre um pracinha brasileiro que, na Itália da II Guerra, sofria de “paúra” — foi quando li a palavra pela primeira vez. A capa do seu jornal trazia um alferes Joaquim José da Silva Xavier jovem, bonito, barbeado. Ele explicou que a iconografia tradicional de Tiradentes era uma mistificação, que por ser alferes Tiradentes seria necessariamente enforcado com a barba feita, em respeito à honra e hierarquia militares. Sua barba, seus cabelos longos eram apenas a tentativa da história oficial de aproximá-lo de Cristo e criar um herói nacional de caráter semi-divino e inspirador.
Pelo que consigo lembrar dele, o sujeito era um grande desenhista, de traço acadêmico, mas extremamente sólido. Pertencia a uma geração em que o respeito à anatomia e ao desenho, ao detalhe, eram fundamentais; uma época em que artistas primeiro aprendiam a técnica para só então se aventurarem a quebrá-la. Os que conseguiam transcender se tornavam estrelas; os que não conseguiam se restringiam à batalha cotidiana.
Mais tarde foram comer algo num restaurante que ficava no térreo do edifício Sulacap, na praça Castro Alves. Àquela hora, madrugada avançada, eu estava em um novo mundo. E sempre aprendendo: ele falaria que tatu transmite lepra, coisa de que jamais esqueci.
Depois daquela noite eu nunca mais veria o sujeito. Ele não conseguiu os freelances que queria, e eu só não esqueceria dele porque, afinal, tinha aprendido muito naquelas poucas horas.
10 anos depois, a Playboy trazia Ísis de Oliveira na capa e, no miolo, uma matéria revelando a identidade de Carlos Zéfiro. Era um funcionário público e co-autor de alguns sambas, como “A Flor e o Espinho”, chamado Alcides Caminha.
Junto com o furo de reportagem ela trazia outra, desta vez não tão interessante: um baiano tinha tentado aplicar um golpe na revista se dizendo passar por Carlos Zéfiro. Mas a revista foi avisada a tempo e revelou a fraude que tinham tentado lhe aplicar. O engraçado é que o sujeito tinha um traço infinitamente melhor que Carlos Zéfiro. Mas, infelizmente — embora tenha provavelmente desenhado algumas histórias pornográficas –, não era Zéfiro.
E minha mãe, ao ver o nome do sujeito, comentou comigo: “Você lembra dele, Rafael? Ele foi uma vez na agência, atrás do seu pai.”
A canalhice da Telemar
Ontem cancelei minha conta na Globo.com. Migrei para o Fácil, que oferecia acesso DSL gratuito. Estava esperando apenas transferir os textos do meu blog antigo.
A exigência de provedor para o Velox é uma excrescência canalha, feita para roubar o usuário. A rede utilizada é a da Telemar, e a exigência de autenticação por um provedor é só uma maneira imoral de garantir os lucros dos provedores. Você paga uma fortuna por um serviço que dura, se tanto, dois segundos. E se você não desconectar o computador, paga por um serviço que não utiliza hora nenhuma.
Hoje, há alguns minutos, a Telemar simplesmente cortou o meu acesso. Sem aviso. E só depois de me deixar esperando horas no suporte técnico do Velox me explicaram que eles haviam rescindido o contrato com a Fácil.
De repente, eu fiquei sem internet banda larga.
Certo.
Adorei.
Adorei ainda mais porque, por outro lado, quem usa o Velox Empresarial não precisa de provedor. É autenticado diretamente na Telemar. E por algum erro daquelas sumidades, o mesmo número de usuário e senha (especificamente o número da linha) pode ser utilizado por duas pessoas diferentes, em duas linhas diferentes, ao mesmo tempo. E parece que a Telemar não tem como corrigir esse problema.
O que mostra que a canalhice legal é pior do que parece.
Peter Parker
Peter Parker é um poodle, mas não sabe disso.
Talvez a culpa seja de minha sobrinha. Desde que ele chegou, ela o pegava no colo como um bebê — e é provavelmente daí que vem a sua incapacidade de saber que é um cachorro.
Peter não gosta de dormir em sua cama; prefere o chão, no verão, ou um sofá ou poltrona, no inverno. Tampouco dorme enrolado sobre si mesmo como outros cachorros: se estende no chão, às vezes com a cabeça sobre um dos braços esticados, como uma pessoa faria.
Acima de tudo, Peter é um encostado. Literalmente. Se senta e se recosta na parede, porque assim é mais fácil de enfrentar a vida. É assim qeu ele olha para casa aprendendo os seus mistérios, aprendendo a conhecer as pessoas. Desconfio que Peter seja baiano. Gosta de travesseiros, e de bonecos de de pelúcia. Como qualquer outra criança de um ano.
Peter tem alguns problemas de adaptação ao mundo. Quando passeia, não costuma olhar para outros cachorros — e quando olha é com a mesma curiosidade que se vê em seus donos. O senso de territorialidade não lhe é exatamente inerente, e ele não faz a mínima questão de marcar sua área a partir de postes e muros. Ao passear prefere olhar o mundo.
Enquanto escrevo isto ele está deitado na porta, olhando para fora, como se estivesse me protegendo. Deve ser porque, no fundo, há ainda um senso canino dele. Por alguma razão que nunca vou poder explicar, Peter gosta de mim. Às vezes vem até aqui e arranha meu braço, pedindo um cafuné. Ele não sabe que eu detesto cachorros.
Ou, o que é mais provável, sabe, sim. Mas ninguém jamais o convencerá de que ele é um poodle.