Uma caixinha de surpresas chamada Abu Ghraib

Via Ed Cone: o jornalista Seymour Hersh diz que o governo americano tem video-tapes de garotos sendo sodomizados em Abu Ghraib.

O pior, segundo Hersh, é a trilha sonora, que consiste basicamente nos urros dos rapazes.

Obviamente, para esses garotos, viver sob a invasão americana é muito melhor que sob a ditadura sanguinária de Saddam. Sem falar naqueles que se vêm no meio do fogo cruzado entre soldados bonzinhos e terroristas compassivos.

Viva a liberdade e a democracia.

Porto da Barra

Eu não gosto de praia. Não consigo lembrar quando foi a última vez que fui a uma.

Não foi sempre assim, no entanto. Fui criado no Porto da Barra, e como estudava à tarde ia para lá todas as manhãs.

Porto da BarraA Barra é uma praia especial. É uma praia de baía, que ainda por cima fica numa enseada e tem, para completar, um velho ancoradouro que funciona como quebra-mar. É uma praia tranqüila, espremida entre rochas, e com uma concentração mais alta de sal; é por isso que é a única praia em que consigo boiar.

Foi lá que aprendi a nadar. Foi onde dei meus primeiros e últimos passos na chatíssima arte de pescar. Peguei um baiacu pequenininho, antes que uma moréia mastigasse meu anzol, e com exceção de umas traíras muitos anos depois, foi o único peixe que peguei até hoje.

Talvez tenha deixado de gostar de praia quando vim morar em Aracaju, começo da década de 80. Além da fealdade das praias sergipanas, Aracaju não tem a cultura de praia que se vê na Barra ou em Ipanema. Provavelmente por ser uma cidade que cresceu às margens de um rio, Aracaju não via a praia como uma coisa cotidiana, tão próxima. Na verdade, até há uns 50 anos aracajuanos iam veranear na praia de Atalaia. Ir à praia em Aracaju significa se preparar para passar a maior parte do dia fora, sentar numa mesa de bar, comer caranguejo ou qualquer outra coisa, e então voltar para casa com a sensação de que realmente aproveitou seu dia.

A minha cultura específica era sair de casa andando, passar algumas horas na praia, tomar um mate (no Rio; em Salvador não tinha mate gelado), uma limonada ou um picolé, e voltar aí pelas 11 da manhã. A diferença de abordagem deve ter tirado toda a graça da praia para mim. A praia deixou de ser uma parte do cotidiano para se tornar um evento semanal. Já não era a mesma coisa.

No Porto da Barra havia os pescadores que chegavam e me davam os peixes menores, com os quais eu inventava brincadeiras. Uma vez fiquei empolgado ao pedir e ganhar uma cabeça de tubarão. Peguei aquilo e levei para casa, junto ao peito, para no dia seguinte descobrir o estrago que a pele dele fez em mim. A cabeça, por minha insistência, ficou no congelador por alguns dias, até que alguém chegou à conclusão que mais valia me traumatizar do que continuar com aquela coisa inútil entulhando tudo.

E não, eu não fazia idéia do que fazer com aquela cabeça de tubarão. Acho que a melhor idéia que tive foi empalhar aquilo. Eu via filmes demais.

Nunca ganhei uma cabeça de tubarão em qualquer outra praia. E essa é outra explicação para o fato de eu não gostar delas.

Escravos de Jó

Admito ter uma tendência incontrolável a inventar bobagens.

Há alguns anos resolvi convencer uma moça, numa manhã meio tediosa, de que a música infantil “Escravos de Jó” era uma ode ao homossexualismo que já estava aí por mais de dois mil anos.

Segundo a minha explicação, a cantiga vinha dos acampamentos militares espartanos, famosos por incentivar namoros entre seus soldados, que assim lutariam com mais bravura. Esses soldados eram normalmente recrutados entre os escravos. Jó teria sido um famoso general, amante de Péricles numa das mais belas páginas da história antiga devido à rivalidade entre suas cidades. Ele escrevera alguns livros, hoje perdidos, estabelecendo a relação entre guerra e homossexualismo.

Era fácil. O verso “Escravos de Jó jogavam caxangá” significava que os escravos sexuais de Jó faziam brincadeiras entre eles. Caxangá, em grego vulgar arcaico, era uma dança sensual, vinda da Turquia, em que os órgãos sexuais dos dançarinos se tocavam.

“Tira, bota deixa o zabelê (ou Zé Pereira) entrar” — referência clara à penetração e à necessária permissão da parte passiva.

“Guerreiros com guerreiros fazem zig-zig-zá” — novamente, referências aos jogos sexuais; aqui está configurada uma orgia, realizada alegremente nos acampamentos dos valorosos espartanos.

Ela acreditou.

Por isso a minha tese de que é fácil convencer as pessoas de quaisquer absurdos que você queira. Basta que alguém não conheça o assunto e você reforce sua teoria com alguns dados pretensamente históricos: elas normalmente têm preguiça de checar. É mais fácil acreditar em você. As pessoas partem do princípio de que ninguém é tão idiota a ponto de inventar uma história dessas.

Tadinhas.

Esse foi o mais próximo da semiótica que já cheguei em toda a minha vida. Uma besteira combina com a outra.

Tiro e Queda, Ano III

O Tiro e Queda, site do qual o Bia, menos que idealizador e um dos principais motores, é o síndico, está completando 2 anos.

O TQ é é uma espécie de tribuna livre de Limeira, cidade do interior de São Paulo. Não é um site político ou literário; é, basicamente, um lugar onde um bocado de gente boa pode falar.

O mais interessante é que nesses 3 anos, pela sua importância no cotidiano da cidade, o TQ já se tornou um referencial, a ponto de merecer citação em monografia e de ser o tema de trabalhos finais de curso. Isso não é pouco. É provavelmente o maior elogio que se pode fazer a uma meio de comunicação (e talvez uma vitória do Bia, que não é bacharel em jornalismo, mas é jornalista).

Criou sua cota de barulho, também. Dá para imaginar a importância que o site adquiriu na cidade; esse tipo de provocação intelectual é importante, principalmente em cidades pequenas.

O que faz a diferença do TQ é a liberdade dada pelo Bia. A Mônica, que escreve quando Deus dá bom tempo, tem um depoimento simples a dar sobre sua experiência no TQ; e as dezenas de outros colaboradores e colunistas podem falar o mesmo.

O Tiro e Queda, que vem se sustentando sem anunciantes ou patrocínio, está precisando de dinheiro. Se você não tem, leia, divulgue. Já é um começo. E mesmo que Limeira não lhe interesse, esse é o tipo de coisa que é sempre necessária. Em qualquer lugar.

Moqueca

Do UOL Notícias:

Um simples limão pode conter resposta para a prevenção da Aids, permitindo a elaboração de um gel vaginal capaz de destruir o HIV, protegendo milhões de mulheres durante as relações sexuais, de acordo com a pesquisa de uma equipe australiana, inspirada nas antigas tradições rurais do sudeste asiático. Na região, o suco de limão é usado como contraceptivo pelas mulheres, pois sua acidez mata os espermatozóides.

Peixe sempre foi bem com limão.

B. O.

— Eu queria registrar uma ocorrência. Furtaram minha carteira, com todos os meus documentos.

— Certo. Nome, por favor?

— Rafael Galvão.

— Tem algum documento aí?

— Minha carteira…

— Ah, claro. Data de nascimento?

— 20/02/71.

— Idade?

— …

— Idade?

— 33 anos.

— Residência?

— Blá blá blá, Ed. Stephanie.

— E… S…

— Não. S-T-E-P-H-A-N-I-E.

— OK. O que tinha na carteira?

— Isso, aquilo, um cartão de crédito Diners, aquilo, isso.

— Eu não sei escrever Diners.

— D-I-N-E-R-S.

E digitando lentamente, lentamente, lentamente, as unhas muito sujas, aliança no anular direito, ele escreveu que moro no edifício Esphane.

Cabocla

Ruins são apenas a abertura e a música que a acompanha. A abertura porque aqueles desenhos computadorizados têm pouco a ver com o conteúdo da novela, implicam uma modernidade da qual a novela corre léguas. E a música porque é simplesmente medíocre. Está longe de Nélson Gonçalves e sua pinta de anos 30.

De resto, Cabocla é uma bela novelinha.

Podem falar o que quiserem da teledramaturgia brasileira, e eu provavelmente vou concordar com tudo. A técnica cinematográfica é atrasada, os diálogos são fracos, a maioria esmagadora dos atores é ruim. É, eu também concordo. Concordo também que em raríssimos momentos, levando em conta seu volume de produção, atingiu um nível realmente bom de qualidade artística.

Mas Cabocla tem aquele jeitinho de vida do interior, a água da bacia sendo jogada fora pela janela, o jeito disfarçado de olhar. Tem uma doçura que as novelas brasileiras perderam há muito tempo. Não lembro muita coisa da novela original, da qual via alguns capítulos à força; mas não pode ser melhor que a atual.

É uma bela novelinha porque parece ter tão poucas pretensões — ao contrário das “Celebridades” e “Senhoras do Destino” da vida — que é como uma história contada num boteco de vila do interior. É doce, simples.

Finalmente, tem a Patrícia Pillar. Eu queria saber o que é aquilo: aquela mulher é linda mesmo careca, comprovadamente. E nessa novela ela se deu o direito de exagerar.

Resenha de “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”

Aconteceu alguma coisa nas últimas semanas, e a maioria das pessoas que vêm parar aqui através dos mecanismos de busca como o Google estão atrás de resenhas prontas. “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” é, individualmente, o mais procurado.

Como é preferível receber esses visitantes aos tarados de antigamente, e para evitar que a galera saia de mãos vazias, aqui vai um resumo bem sucinto da novela de Jorge Amado, livro curto mas extremamente profundo.

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água

É o principal livro da fase espírita de Jorge Amado. Foi escrito pouco depois de o autor se desligar do Partido Comunista, em seguida ao XX Congresso do PCUS, no qual Nikita Kruschev denunciou os crimes de Stálin.

A fase espírita de Amado foi uma espécie de intervalo entre sua fase marxista, exemplificada pela trilogia “Subterrâneos da Liberdade”, e a declaradamente folclórica, inaugurada em “Gabriela, Cravo e Canela”.

Essa fase, no entanto, duraria pouco, e englobaria apenas mais um livro: “Mar Morto”. Logo depois o escritor se converteria definitivamente ao candomblé, com o qual sempre havia flertado, e se tornaria ogã de um dos maiores terreiros da Bahia, o de Mãe Menininha do Gantois.

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” conta a história de Quincas, homem rude da região do cais de Salvador. Trabalhador incansável, militante comunista e, como quase todos os grandes personagens de Jorge Amado, extremamente mulherengo. É apelidado de “Berro D’Água” por ter o costume de, depois de beber um número enorme de copos de cachaça, gritar “Epahei!”, saudação de Iansã.

Quincas morre já no primeiro capítulo, vítima de um tiro desferido por um policial durante uma greve dos estivadores por melhores condições de trabalho, na Praça da Inglaterra.

Ateu como todo bom comunista, Quincas se vê, então, vagando numa espécie de limbo. Não demora muito até que um espírito de luz, Sem-Pernas (personagem de outro grande livro de Jorge Amado, “Terras do Sem Fim”, cuja morte em um bordel, nos braços de Rosa Palmeirão, é um dos momentos mais poéticos da obra amadiana), finalmente esclareça qual a sua missão: acompanhar o policial que o matou e, ao perdoá-lo e guiá-lo, resgatar sua dívida para com Deus e todos aqueles que magoou em vida.

O policial, que se chama Juca Badaró, é um homem longe de Deus que, embora não seja intrinsecamente mau, segue na vida sem valores firmes e sem direção. Caberá a Quincas colocá-lo no caminho certo.

A partir daí, o livro transcorre como uma espécie de romance de formação, em que o espírito de Quincas cria as mais inverídicas situações para fazer com que Juca enxergue o trabalho de Deus em sua existência, alternando momentos hilariantes e profundamente emotivos. Em sua missão, Quincas é ajudado involuntariamente pela mulher por quem Juca se apaixona, a professora Teresa B. Figueiredo. Ela ensina a Juca — e indiretamente a Quincas — o valor do amor. Ao mesmo tempo, através de Juca, Quincas consegue reparar muito do que fez de errado enquanto vivo.

Só depois que esses trabalhos forem realizados é que Quincas poderá, finalmente, morrer pela segunda vez, e dessa vez definitivamente.

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” é considerado por críticos literários importantes, como José Ramos Tinhorão e Paulo Emílio Salles Gomes, um romance atípico de Jorge Amado, longe de sua temática eminentemente baiana e/ou política. O livro é solidamente baseado no “Evangelho Segundo o Espiritismo” de Allan Kardec, e justamente por essa razão foi mais tarde desprezado por seu autor, que via nele o registro de uma fase de sua vida que preferia esquecer.

Outros elementos a serem notados no livro são as referências óbvias a um dos maiores clássicos da literatura brasileira, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e a extrema semelhança estrutural com “A Comédia Humana” de Balzac.

Com “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, Jorge Amado faz uma profissão de fé espírita, ao mesmo tempo em que lança profundas indagações sobre o sentido da vida. A dupla de críticos ingleses Terry Gillian e Michael Palin, autores de “O Cânon Ocidental”, considera este romance uma verdadeira aula de metafísica, embora aponte algumas falhas estruturais e de linguagem que o prejudicam um pouco.

O livro é pontuado por participações de outros grandes personagens de Jorge Amado, como Vadinho (protagonista de “Seara Vermelha”) e Antônio Balduíno, que fez sua primeira aparição como um dos “Capitães da Areia” e teria papel importante na obra-prima da maturidade de Amado, o livro que inaugura sua fase folclórica: “O País do Carnaval”.

Felicidade por decreto

Uma cidade do Rio Grande do Sul se chama Feliz.

Quem nasce ali é felizense.

Eu nunca consegui entender por que razão, com tantos vereadores aprovando leis idiotas toda semana em todas as câmaras municipais do país, não aparece alguém para propor uma lei que torne os naturais de Feliz simplesmente felizes. Que se danem as regras da última flor do Lácio, que de inculta virou pernóstica. A gramática não deve subjugar, nunca, a poesia. Porque gramática sem poesia vira aritmética.

— Eu sou capixaba, e você?

— Eu sou feliz.

Os outros, coitados, teríamos que nos contentar em ser cariocas, recifenses, soteropolitanos. Pobres cidadãos sem nenhum lirismo.

Gente ocupada

Eu não confio em gente ocupada.

Isso começou há alguns anos. Fui visitar um cliente que me deu um chá de cadeira e se desculpou dizendo que era um homem muito ocupado.

Achei engraçado e como cliente sempre tem razão preferi calar minha boca.

Mas ele chegava às 9, saía para almoçar ao meio dia, voltava à 3 e meia e ia para casa às 6. Ele era ocupado. Eu vivia saindo da agência às duas da manhã, nunca saía antes das 10, mas não me achava ocupado.

Porque tempo é uma coisa engraçada, e depende de como você o vê. Eu sabia que sempre tinha tempo para fazer o que queria; e aprendi que os outros também.

O que eu demorei para aprender foi que as pessoas costumam valorizar demais o próprio tempo. Porque sabem que os outros têm a mania esquisita de dar mais credibilidade a quem diz nunca ter tempo para nada.

O mundo é composto de fugitivos de manicômios, eu sei.