Atavismo

Acabei de achar uma tese de doutorado que cita uma carta, de 1879, em que a Condessa de Barral conta os progressos do meu trisavô ao avô dele. “A carta é destinada a um amigo da Província de Sergipe, no norte do Brasil, e trata do ‘jovem V. Galvão’, que, sob os cuidados da escrevente, estuda em um internato francês”

Considerando que a Condessa de Barral era amante de D. Pedro II, e levando-se em consideração a proximidade dela com o jovem Valois Galvão, a conclusão é lógica e esperada, quase óbvia para quem conhece a história passada, e graças a Deus superada e esquecida, dessa família: esses Galvão sempre foram chegados numa quenga.

Joffre

E daí que hoje eu lembrei do velho Joffre Galvão, que há muito, muito tempo, dois anos antes de morrer, me disse: “Rafa, se eu não foder, vou fazer o quê da vida?”

E eu bebo uma garrafa de vinho em homenagem ao velho Joffre, que não bebia.

Triste fim de Tróia

Acabei de descobrir que Tróia não tem mais acento. Troia. Parece trolha. Os gregos de Agamenon, os atenienses, os persas, os espartanos, os macedônios de Alexandre, os romanos, todo mundo meteu a mão na desgraçada do Helesponto, todo mundo tirou sua lasquinha, como se a gloriosa Tróia de Páris fora uma prostituta bêbada em um fim de noite, pobre guardiã do Dardanelos — e agora ela é destruída mais uma vez pela reforma ortográfica do dr. Houaiss. Sina triste, a dessa cidade.

Super-Heróis

Acho que ainda não vi ninguém mencionando isso: mas entre as invenções do século XX, uma das mais importantes foram os super-heróis.

Na verdade, considerando que o automóvel, o telefone, a transmissão de energia elétrica e o cinema foram criados no século XIX, os super-heróis são uma das poucas grandes invenções do século passado, provavelmente tão importante quanto o avião, o computador, a internet e as viagens espaciais. Depois que dois garotos americanos trivializaram um conceito nietzscheano e criaram o Super-Homem, as coisas mudaram definitivamente, e talvez não para melhor.

Até o início do século passado, os heróis eram humanos, sempre. D’Artagnan, o Corsário Negro, Allan Quatermain, Jim Hawkins. Mesmo o Tarzan, se não era comum, era gente como a gente, sem nenhum superpoder. Com a chegada dos quadrinhos, os primeiros heróis seguiam essa risca: o Fantasma, Flash Gordon e o Príncipe Valente eram pessoas normais, com as habilidades possíveis, mesmo que eventualmente exageradas ou em ambientes improváveis, como a selva africana ou o planeta Mongo.

Mas havia um aspecto ainda mais importante, quase antagônico ao panorama atual: o sobre-humano era sempre associado ao mal. Tinha sido assim durante séculos. Dr. Hyde, Drácula, o monstro de Frankenstein: a moral subjacente a todos eles era a de que a busca pelo além não podia terminar bem, como não terminou para Adão nem para Prometeu. O modelo ideal era o humano: imperfeito, fraco, mas familiar e acessível. Um herói era aquele que se superava e fazia, talvez melhor, tudo aquilo que qualquer um pode fazer, e não alguém que tinha grandes poderes e com eles grandes responsabilidades.

Por isso, até o início do século passado um garoto qualquer poderia ter como heróis e modelos alguém que, ao menos em teoria, ele podia ser. Bem ou mal, ele sabia que, com esforço e nas circunstâncias adequadas, poderia sobreviver na selva como um Tarzan, desvendar um crime impossível como Sherlock Holmes, domesticar um lobo como o Fantasma.

O Superman representou uma ruptura nesse modelo e deu início a uma nova era. Mas mesmo ele começou timidamente. O Superman de 1938 era mais forte, saltava mais alto, corria mais rápido, mas ainda era uma evolução apenas, não algo totalmente diferente, e só existia em comparação com o demasiado humano. Apenas com o passar do tempo ele adentraria o campo do improvável, voando, usando uma tal visão de raio X, essas coisinhas do Superman. E ainda assim, os outros heróis importantes desse início de era ainda eram “normais”, como o Batman ou mesmo o Capitão América.

Mas já não havia mais volta. O princípio básico do herói, a sua humanidade, tinha sido rompido ali. Aos poucos outros foram surgindo, como o Capitão Marvel e o Tocha Humana, ainda nos anos 40, e mais tarde o Quarteto Fantástico e o Homem-Aranha: heróis que já não precisavam respeitar sequer a mínima fímbria de plausibilidade; e talvez como resposta a esse novo que ele tinha anunciado, em pouco mais de dois anos o próprio Superman passou a voar e fazer essas coisinhas do Superman.

Mais que isso, os super-heróis tomaram conta do imaginário como virtualmente nenhum personagem de ficção antes dele. Hoje o Homem-Aranha é mais famoso que Jesus Cristo, e está na psique coletiva de maneira muito mais constante e intensa do que, por exemplo, Aquiles ou o Rei Artur. Eu não perderia um tostão se apostasse que o Batman é muito mais conhecido do que o Barão de Charlus.

Mas acho que algo importante mudou quando os heróis passaram a ter essa dimensão sobre-humana. E não consigo deixar de imaginar que talvez isso tenha algo a ver com essa era estranha, ansiosa e frustrante em que as pessoas vivem. Talvez seja como se o impossível tivesse deixado de ser realmente impossível, e essa noção tenha contaminado, em algum nível muito profundo, a maneira como as pessoas enxergam o mundo. Super-heróis talvez sejam uma face do hedonismo quase mandatório que se tornou a regra das sociedades atuais. Talvez. Certo, mesmo, é que essa invenção do século XX encontrou no século XXI ninho farto para crescer e tomar conta da imaginação de todos.

***

No século XXI esse processo avançou ainda mais.

Demorou até os super-heróis chegarem adequadamente ao cinema — sem contar desenhos animados como os do Superman pelo Max Fleischer ou a fantasticamente tosca série da Marvel dos anos 60 na TV.

Mas em 1979 o primeiro grande filme de super-heróis, Superman, concorreu apenas a Oscars técnicos, como edição, música original, som. Agora, filmes de super-heróis concorrem ao Oscar de melhor filme. É uma mudança significativa não apenas de sua importância na indústria cinematográfica, mas da própria sensibilidade da plateia. O processo de transformação e mitos desses personagens — feitos com a única intenção de vender revistas e garantir o leite das crianças — se completou.

O século XXI tem sido a era dos filmes de super-heróis por uma única razão: porque agora é possível fazê-los. Não há mais limites. Em 1978 o Hulk de Lou Ferrigno precisava de uma boa dose de boa vontade para ser encarado como tal. Hoje isso não é mais problema, e o Hulk pode ser feito como seus autores o conceberam (por que, mesmo depois de três filmes diferentes, ainda não conseguiram é um mistério para mim).

Mais que isso, o cinema é a nova casa dos super-heróis. As vendas de revistas em quadrinhos caem a cada ano. Não é de admirar: nas bancas — eu sou um ser do século passado; ainda gosto de bancas de jornal —, de vez em quando folheio algumas revistas e vejo um tal de “Aranhaverso” com um bocado de Homens-Aranha, um Peter Parker que agora é o dono milionário de uma empresa de tecnologia, e o Bruce Wayne não é, de novo, o Batman. O mundo dos super-heróis alcançou um nível de pseudo-complexidade que as torna distantes do que eu, pelo menos, entendia como quadrinhos.

Isso me incomodava até que vi a notícia de que a Marvel tinha cancelado os títulos do Quarteto Fantástico, virtualmente apagando a presença da marca nas bancas, para esvaziar a força de mercado dos personagens e forçar a Fox a lhe devolver os direitos cinematográficos sobre o grupo.

Se a Marvel faz isso com um dos seus super-heróis mais queridos — foi o Quarteto que deu início à revolução dos quadrinhos que a ela empreendeu a partir do início dos anos 60 —, a razão é muito simples: hoje, as revistas não são realmente importantes. Os filmes são. Enquanto a venda de revistas lhe gera milhões de dólares por ano, os filmes geram bilhões a cada nova edição — e alimentam a venda de merchandising de todo tipo, que rendem ainda mais. Mais vale fazer um filme do que editar 300 revistas. Não importa que a fórmula pareça estar se esgotando: é para assistir a esses filmes que as pessoas continuam indo ao cinema.

A era das revistas em quadrinhos passou. Mas os super-heróis se tornaram maiores que elas. São novos deuses de uma sociedade cada vez mais descrente. Para o alto, avante e amém.

O tempo que passa

Da primeira vez que fui a Paris, décadas atrás, eu olhava para os velhinhos com quem cruzava na rua, alguns deles sobraçando baguetes, outros com aquele indefectível boné coroando um rosto curtido pelo tempo, e pensava: esse sujeito atravessou a II Guerra, aquele talvez tenha lutado na Resistência.

Depois os velhinhos começaram a rarear. Ou melhor, as suas histórias começaram a rarear.

Agora, eu olhava para os velhinhos e no máximo podia pensar: esse aí viu as barricadas de 68.

O passado não é mais como era antigamente.

Cinderela 77

Imagino que um bocado de gente já tenha visto isso, o último capítulo de “Cinderela 77”, uma novela da Tupi exibida em — surpresa! — 1977. Mas não custa postar aqui.

(É a maravilha da internet, especificamente do YouTube. A maior parte das gentes louva o link com o futuro que essas coisas de internet propiciam; eu sou grato pela chance de acertar as contas com o passado. De repente, um mundo de informações que pareciam perdidas para sempre no último grotão de minha memória reaparece aqui. Ninguém jamais vai saber o quanto sou grato ao YouTube por essas coisas. Eu vi capítulos dessa novela nessa época. Odiava novelas e desprezava quaisquer coisas associadas a elas — mal-estar que o tempo e a velhice destruíram, substituindo-as por uma condescendência extemporânea; mas lembro do robô que falava “PT saudações” [as gerações mais novas imaginarão que ele se referia ao Partido dos Trabalhadores e não a telegramas, pobres gerações ignorantes de um passado inútil] e de Sandoval. Eu sempre gostei dos vilões.)

Olhando agora, em retrospecto, fico impressionado com o uso da metalinguagem nessa novela.

Nos anos 70, a Tupi era uma empresa que respondia pelos erros de julgamento (e familiares) de Assis Chateaubriand e estava condenada ao fim. Reclamem o quanto quiserem, apontem as teorias conspiracionistas que desejarem: a verdade é que Figueiredo só apressou o desenlace inevitável. Ela mal pagava seus funcionários, se pagava. As condições técnicas eram terríveis. A sensação de fim cada vez mais próximo era inevitável, apenas contrabalançada pela fé na força de sua história.

Em diversos lugres vejo pessoas lembrando dos bons tempos da Tupi, muito parecidas com as que lamentam o fim da PanAir. A verdade é que tudo aquilo era heróico, sim, mas também era trágico. Conheço bem o espírito de improviso que fez parte do universo da TV durante muito tempo, e acho que ele só é bonito em retrospecto. Imagino quantos comerciais não foram editados clandestinamente na TV Tupi, quando o jabá era praticamente institucionalizado. Imagino o clima de “cada um por si e Deus que se foda” que a situação decadente da TV propiciava.

Mas quando vejo a liberdade criativa que era possível na Tupi, tudo isso acaba parecendo valer a pena.

A Tupi já tinha inventado a telenovela moderna com “Beto Rockefeller”, quase 10 anos antes. Há alguns capítulos disponíveis no YouTube, tirados do site da Cinemateca Brasileira, e eles são fascinantes. A linguagem se assemelha, em vários momentos, à do Cinema Novo, e imagino que se deva à mesma falta de dinheiro e de tecnologia. Os atores trazem muitas vezes os vícios do teatro, as marcações rígidas, o apego excessivo aos rr ditos corrrrretamente. Mas conseguem passar a emoção necessária, ao contrário dos atores despreparados que se vê nas novelas de hoje em dia.

É por tudo isso que fico impressionado com a liberdade criativa de que uma novela como “Cinderela 77” pôde desfrutar. Uma novela feita para o público do início da noite com resultado é fascinante, e quem tem alguma familiaridade com as tragédias gregas vai encontrar um bocado de pontos de convergência. E depois, se não for pedir demais, compare com as novelas pasteurizadas e engessadas da Globo hoje.

Isso não quer dizer que eu ache que a Globo destruiu a criatividade na TV. Pelo contrário. Ao contrário de outros comunistas velhos de guerra, tenho uma admiração sem tamanho pela tal Vênus Platinada. Mas para mim, pessoalmente, rever essa novela significa rever padrões estéticos que definiram a base do meu modo de ver TV, e que já foram superados há mais tempo do que ouso contar. Mas representa acima de tudo um deslumbramento com o talento, a ousadia e o amor que você vê em cada frame. Não se faz mais TV aberta como antigamente.

(Este post é um oferecimento da Associação dos Leitores Revoltados com a Cagada na Cabeça de Rafael Naqueles que Falam que “Minha Infância Foi Melhor Que a Sua”.)

Infância

Há uma série de coisas que me irritam no Facebook; mas tem uma, em particular, que me faz pensar em como as pessoas conseguem usar qualquer coisinha de nada para se autoconferir uma nesga de grandeza imaginária e ter o direito putativo de serem arrogantes no pouquíssimo que acham que podem ser.

São aqueles posts que falam que sua infância foi melhor que a atual. “Você viveu isso ou isso? Parabéns, sua infância foi a melhor”, e daí para baixo.

Eu gosto muito da minha infância. Nostálgico jamais arrependido, gosto de lembrar dela, dos elementos que a fizeram. Sigo grupos de outros saudosistas que viveram o mesmo que eu, como Imagens Antigas de Salvador, Aracaju Como Eu Via, Imagens Antigas do Rio de Janeiro. Gosto da minha infância, repito; mas não porque ela foi melhor que as outras, de outros tempos. Gosto porque foi a minha infância, a única que tive e da qual às vezes tenho dúvidas de que saí. Gosto como alguém gosta de jenipapo.

É por isso que quando vejo alguém se vangloriando por ter andado de carrinho de rolimã, por exemplo, tenho a certeza de que o nível de estupidez mundial não dá sinais de arrefecer.

Eu andei, também. Tenho uma cicatriz no pé para provar. E que merda, isso. Sinceramente, em vez de andar de carrinho de rolimã eu queria era ter dinheiro para comprar o CP-500 que era bonitão mas que nunca tive e por isso eu tinha que me contentar em ir para a rua brincar.

Joguei bola de gude joguei bafo quase aprendi a rodar pião joguei bola e fiz gols porque eu colocava a bola onde queria quebrei braço quebrei cabeça quebrei braço de novo vi todas as unhas dos pés irem embora nas topadas mas elas sempre voltavam e Maura a empregada fazia o melhor bolo de laranja fui ao circo ver o domador de leões brinquei todas aquelas brincadeiras violentas que os meninos brincavam sofri bullying na escola e fiz bullying também porque o mundo é um grande sistema de compensações e talvez eu seja um pouco menos estressado porque briguei muito na rua e levei murro e levei chute mas bati mais do que apanhei.

O que me consola bastante.

Mas grandes merdas, tudo isso. Para começar, essa meninada faz mais sexo e mais cedo do que a minha geração, criada numa pequena província de muro baixo. E só por isso ela já é melhor (em compensação não viveu as históricas tragicômicas que eu posso contar). Mais que isso, faz sexo com menos preocupações, com menos culpa. Eu fui adolescente em uma década em que a Aids era razão de pânico absoluto.

Posso até lamentar que não leiam mais as historinhas Disney que eu lia; eles certamente não sentem a mínima falta. E se estranho a maneira cada vez mais diferente com que se relacionam, utilizando a internet e estabelecendo novos padrões, o fato é que essa é uma geração que está avançando em uma nova fronteira, instaurando uma nova normalidade. Não é pior, nem melhor. É só diferente.

Há exceções, claro. A TV aberta era realmente melhor que a atual — a variedade de atrações numa mesma programação me impressiona até hoje —, e o fato de haver poucas opções fazia com que ela tivesse um papel importante, já desaparecido, de unificação da conversa (“Bestão, você não viu mesmo SWAT ontem?”, e droga, agora eu tinha que dar uma porrada no babaca que disse isso, porque eu caía no sono às 8 da noite e não tinha tempo de ver SWAT porra nenhuma). Para quem, como eu, gostava de filmes — ainda era cedo para gostar de cinema — a programação era infinitamente melhor. Era fácil ver tantos dos grandes clássicos dos anos 50. Chaplin era exibido na Sessão da Tarde.

Mas se alguém realmente acha que a sua infância foi melhor que porque assistiu a “O Homem de Seis Milhões de Dólares”, que pena que se contente com tão pouco. A propósito, os meninos de hoje também podem ver o seriado, e na hora que quiserem, porque ele está no YouTube — enquanto na minha época a gente via quando a TVs deixavam. Eles só não veem graça nele, e eu entendo.

A meninada tem Netflix, tem torrents para assistirem o que quiserem quando quiserem, têm Spotify para ouvir a música ruim que se faz hoje — mas é a música deles, do seu tempo, como eu tinha que aturar a música ruim do meu. Sua noção de tempo para esse tipo de relação com o mundo e com a informação e o entretenimento é provavelmente o sonho de todo menino de minha época, que não tendo nada disso se contentava em subir em árvores, como macacos vinham fazendo já havia milhões de anos.

Em virtualmente todo e qualquer aspecto, a infância de hoje é melhor que a de antigamente.

E sempre que vejo algum sujeito encher a boca para falar de como brincou de carrinho de rolimã, eu penso: besta, brincou porque não tinha internet.

Do livro “Fatos Históricos que o Mundo Não Conhece”

Em dezembro de 1961 minha mãe ia para o circo, quando foi proibida de ir no último instante. Naquele dia o circo pegaria fogo, feriria 800 pessoas e mataria outras 500, inclusive amigos dela. Mais tarde, indiretamente e por meios diferentes, a tragédia daria ao mundo os profetas Gentileza e Rafael Galvão.

“Dona Olga não tirou essa fotografia em vão.”

Eis uma confissão desnecessária: eu estou longe, muito longe de ser um sujeito modesto. Não tenho culpa, foi Deus que me fez assim.

Mas sempre que leio esses anúncios, tenho a certeza de que precisaria comer muito feijão até ser um redator tão bom.

(Outros três títulos dessa mesma campanha: “Não trabalha na Prefeitura, mas já tapou muito buraco por aí”; “Já passou dos 30. Mas podem vir quente que ela está fervendo.”; e “Roubaram a mulher do Romeu. Juro por Deus que não fui eu”.)

Essa campanha tem quase 40 anos, e foi veiculada em 1978 pela Publivendas, em Salvador. São os textos que me fascinam, que me impressionam além do normal.

São praticamente crônicas da vida comum. Contam detalhes da vida do ouvinte de rádio que mesmo hoje, quatro décadas depois, ainda são verdadeiros. É uma campanha absolutamentebrilhante.

E ela acabou participando de um episódio curioso na minha vida.

Olhando para trás, é assustador que esse episódio já tenha um quarto de século — fazendo aniversário por esses dias, se já não fez.

Eu trabalhava em uma agência de Aracaju e estava fazendo uma campanha para uma rádio local. A primeira campanha que fiz ficou legal, mas foi rejeitada pelo dono da agência.

Fiz uma segunda. E essa ficou muito boa. Leve, engraçada, abrangia os públicos-alvo da rádio. Brincava com nomes locais famosos e tentava se aproximar do universo dos ouvintes. Ela foi rejeitada também.

E aí eu cansei. Tá certo, vamos brincar.

Datilografei os títulos dessa campanha e levei para o sujeito que tomava as decisões. Joguei o melhor papo de vendedor que eu tinha — o que não devia ser grande coisa, porque se eu vendesse bem não seria redator. De novo: “Não tá bom.”

Era a minha deixa.

“Olha, essa campanha ganhou não apenas o Colunistas de melhor campanha de jornal, mas também o Melhores da Década. Mas se você não gostou, paciência. Eles não entendem nada mesmo.”

Pedi demissão uma semana depois.

(A propósito, o título deste post é a legenda do anúncio da dona Olga.)