Por que todos, absolutamente todos os banheiros de empregada têm exatamente o mesmo cheiro, não importa a região do país ou quem o ocupa?
Author Archives: Rafael
As alegrias que o Google me dá (XXXIV)
filmes de sexo mostrando mulher casada perdendo a virgindade
Por que uma mulher que se manteve virgem até o casamento iria soltar a franga dessa forma e fazer um filminho à la Paris Hilton justamente na noite de núpcias é um mistério. E por que há tanta gente fazendo esse tipo de pergunta que se equilibra entre o doentio e o idiota é um mistério maior ainda.
qual a mulher da bunda mais feia do mundo
Isso não existe. Cada bunda tem lá seus encantos, se não estéticos, ao menos práticos. Reconhecer o valor absoluto da bunda como acima de questões menores como essa é o que nos difere dos outros animais.
o homem se apaixona depois de fazer sexo
Sinto destruir suas ilusões, minha filha. Sinto também estragar os planos do cafajeste que está tentando comer você com essa conversa mole, porque não há nada que eu respeite mais que uma boa cafajestada. Mas depois que ele comer, a coisa vai mudar de figura. De qualquer forma, posso te dar um conselho: dê para ele. Um homem capaz de tamanho cinismo, dono de tamanha cara de pau, merece que você lhe dê uma chance.
redator publicitario o que faz
Um redator publicitário não faz. Refaz. Essa é a triste sina dos coitados. Minha teoria é que existe nas trevas uma Seita da Refação que ilude jovens universitários com promessas de uma carreira glamourosa, apenas para condená-los a uma existência triste refazendo textos.
fundo 157 herdeiros
A pobreza é uma coisa tão triste. Mal enterraram o sujeito e lá vem a família correndo atrás de cada centavo que o coitado possa ter deixado de gastar na vida, inclusive de um tal fundo que ninguém mais lembrava que existia.
rafinha era pobre
E continua sendo, amigo. Você acha que minha dor vem de onde? Eu vivo tentando, mas não consigo ficar rico. Desse jeito vou acabar tendo que trabalhar.
é pecado a mulher evangélica fazer boquete
Como é duro ser evangélico. O sujeito está lá, com seus desejos queimando sua carne e turvando seus pensamentos, e fica se perguntando se é pecado aquilo que ele queria pedir à sua mulher. E eu não sei o que responder. Não apenas por não entender de teologia. Mas porque se disser que não é, o sujeito pode pedir à mulher que caia de boca nele, e se depois descobrir que é pecado vai me amaldiçoar para todo o sempre e eu vou para o inferno. Por outro lado, se eu disser que é, o sujeito vai acabar arranjando uma gentia qualquer, que satisfaça de bom grado seus desejos orais. É melhor não mexer nisso.
associação dos corno de alagoas
Ninguém me contou, eu vi. Em Pajuçara, Maceió, uma academia de ginástica faz questão de alardear: só para mulheres. Me disseram que isso vem do machismo dos alagoanos, que não gostam muito da idéia de ver homens sarados e fortões perto de suas mulheres. Mas já que existe uma associação dos cornos de Alagoas — gente que faz reuniões com outros homens enquanto sua mulher se diverte no aiaiai –, isso quer dizer que independente das maneiras com as quais os másculos alagoanos cerceiam suas mulheres, suas testas continuam a ser enfeitadas. O que me leva a levantar a hipótese de que nessas academias só para mulheres grassam as mais devassas, mais depravadas orgias lésbicas do país. Os alagoanos, coitados, andam perdendo suas mulheres para outras mulheres saradas e fortonas.
foto de como fica a vagina depois do estupro
Estragadinha.
clitoris cabeludos
Diz aí, amiguinho: tu nunca viu um clitoris antes em sua vida, viu?
frase perfeita pra ganhar qualquer mulher numa balada
Eu tenho as minhas preferidas, e se você segui-las vai se dar bem. Se aproxime da moça e pergunte: “E então, gata, tamos aí nessas carnes?” Ela vai ficar surpresa por um instante. Aí você, rapidamente, dá uma porrada nos cornos dela e arrasta para casa.
video – cavalo tarado batendo punheta
Ei, mané… Cavalo não tem mão. Tem pata. Com casco. Um dedo só. Não dá. Não dá.
homens que chupam o proprio pau
São os famosos auto-viados.
frases pra garota endesisa com o namoro
Minha filha, decida-se logo, por favor. Porque uma chance dessas não aparece todo dia. Não é todo mundo que quer namorar uma anta como você.
eu tenho penis pequeno
Vai desculpando, amigo, mas isso aqui não é reunião do PPA — Pintos Pequenos Anônimos: “Oi, meu nome é José e eu tenho pinto pequeno.” Aqui você não vai achar um ombro amigo, não vai achar consolo. Só um escroto fazendo graça fácil das misérias dos outros.
penis pequeno e ruim
eu tenho um penis grande
E depois tem gente que ainda vem aqui dizer que este não é um blog democrático. Este blog é procurado pelos bem e pelos mal dotados. Mais democrático, impossível.
guerra dos civis pagando boquete
Eu não sabia que tinha gente nesse mundo fazendo guerra para pagar um boquete. Para você ver a que ponto a coisa chegou. Pior para os militares que, por pagarem um boquete, acabaram se ferrando. A vida dos civis é tão melhor.
jabour no manhattan connection porque ele saiu?
Sei lá. Vergonha, talvez.
ensinar a fazer sexo e a bater punheta
Bicho, até entendo que você precise de ajuda para aprender a fazer sexo. Eu pensava que as pessoas já nasciam sabendo, mas a vida e este blog me mostram a cada dia que esse não é o caso. Se você precisa aprender a se masturbar você tem problemas mais sérios do que imagina. De qualquer forma, melhor que te ensinem masturbação em vez de sexo, porque neste caso você pode dar cria, e o mundo não precisa de mais gente assim, se é que você me perdoa o laivo eugênico.
o traido conformado
O rapaz ainda está sob choque, se recusa a pronunciar a palavra “corno”, como se isso acabasse com a galhada que enfeita sua testa. Mas já sabe que não vai fazer nada, então quer saber como fazem aqueles que se conformam com o destino cruel. Pelo menos é um rapaz sensato. Admirável. Não é tão melhor que sair por aí com um revólver atrás do sujeito que apenas deu um pouquinho de felicidade à sua mulher?
mulheres da região de limeira para transar
Se não achar, e se pagar bem, eu conheço um baixinho narigudo aí que até topa.
quantas pessoas há em goiânia
Depende. Agora que estão proibindo a entrada de brasileiras de fino trato na Espanha, a população deve aumentar consideravelmente.
ver o caso da mulher que colocou fogo no penis do parceiro em goiania
Ela achava que a relação estava muito fria. E o babaca do marido — goiano, né? — se dizendo o máximo, que era o maior michê das paradas, que era “quente”. Aí ela resolveu esquentar mesmo a coisa. E depois fugiu com uma caravana de Uruaçu para a Espanha.
meu vento sera tua herança
“O Vento Será Tua Herança” é um filme antigo, baseado em um episódio real sobre o ensino do evolucionismo nos EUA do começo do século. Dizem que é um filme fraco. Foi refilmado há alguns anos, e esse eu posso dizer que é fraco do ponto de vista cinematográfico, mas além de certo interesse sociológico tem o duelo de dois grandes atores: Jack Lemmon e George C. Scott. Já “Meu Vento Será Tua Herança” deve ser a autobiografia do peidão que fez essa busca aí.
o que é que farias para que os seus alunos aprendesse a ler correctamente
Em primeiro lugar, ensinaria concordância verbal. Porque ler eles talvez já saibam, mas não têm como aprender a escrever.
o que aconteceu co adof ritler
Adof Ritler era o filho de Zé de Rita, agricultor de uma cidadezinha no interior de Sergipe. Zé de Rita era cafuzo, pequenininho, cabeça grande e testa estreita, mas por alguma razão achava que aquele tal de Hitler era um cabra macho admirável, hômi que enfrentou os americanos e os russos. E assim batizou o seu primogênito. O cartório reclamou, disse que não podia, mas ele insistiu. O tabelião corrigiu a grafia, ele perguntou se o tabelião era viado. Ficou Adof Ritler mesmo, o que facilitou a vida de milhares de analfabetos depois. Adof teve uma vida difícil, se acabou na cachaça, e então abandonou a mulher e sumiu no mundo. Ninguém sabe por que ele agiu assim, por que era tão confuso. Dizem que porque tinha um testículo só, mas isso é fofoca, sabe como é.
cartas de amor para uma pessoa presa
Presidente Prudente, 10/03/2007
Meu grande amor,
Desde que a juíza proferiu a sentença que lhe tirou de mim, minha vida tem sido um eterno morrer de saudades. A dor que sua ausência me causa é tão grande que me faltam palavras para descrevê-la. Espero ansiosamente pelos dias de visita, em que terei você novamente em meus braços. Eu não consigo viver sem você. E no dia em que você finalmente cumprir seus 30 anos de sentença, eu estarei lá fora esperando por você. Eu te amo para sempre, sempre, sempre, sempre.
Presidente Prudente, 05/08/2007
Caro Fernandinho,
Muitas saudades. Não deu para ir aí nos dois últimos finais de semana porque estava muito ocupada. As coisas aqui fora têm melhorado, apesar da falta que você me faz. Mas o Carlinhos, que você não conhece, tem me ajudado muito. Tem sido um grande amigo, me oferecendo o ombro quando preciso, com todo o respeito. Vou aí no próximo dia de visita, se possível.
Presidente Prudente, 10/03/2008
Fernando,
Adeus. Conheci um outro alguém. Vou ser feliz com o Carlinhos. Não me procure mais. Me esqueça. De qualquer forma dizem que você é a mulherzinha do xerife aí da sua cela, não vai mesmo sentir a minha falta.
Uma velha caixa de correio
A gente se acostuma a tudo, às coisas boas e às coisas ruins — verdade que mais facilmente às boas; mas se acostuma também às coisas ruins, e convive e sobrevive a elas, porque no fundo todos nós somos isso: sobreviventes.
De vez em quando preciso lembrar que vivo em uma era de maravilhas, que essas coisas boas e ruins a que já me acostumei não me acompanharam sempre, que já vivi sem elas e não senti falta, nenhuma necessidade premente. Mas também preciso lembrar de quando em vez que a cada nova maravilha corresponde uma transformação, e algo se vai para nunca mais voltar.
Eu preciso lembrar que nasci e vivi em uma era sem celular, sem internet, sem computador, um mundo em que havia apenas dois canais de televisão, TV Aratu/Globo e TV Itapoã/Tupi, e a maior parte dos programas de TV era ainda produzida em preto e branco, principalmente os telejornais locais, e que alguns programas eram orgulhosamente transmitidos “via satélite pela Embratel”; preciso até lembrar que a Embratel era estatal, então.
E mesmo o meu mundo já era diferente daquele de 200, 300 anos atrás, quando ainda girava mais devagar, muito mais. Era um mundo que não mudava para as pessoas. Certo, havia uma guerra aqui, outra ali, mas as coisas não mudavam, e o mundo que o rodeava quando nasceu continuava o mesmo quando finalmente fechava os olhos para sempre. Já era um mundo em transformação rápida, mas ainda parecia que então tudo tinha um caráter mais permanente, ou pelo menos estável.
De qualquer forma o problema não é esse. É perceber que a cada nova maravilha que aparece e se imiscui em nossas vidas, outra desaparece.
Nasci em um tempo em que ainda se escreviam cartas. Os mais velhos que eu podem dizer que mesmo então já não era como antes, quando o telefone não existia ou, se existia, era caro demais e inacessível para a maioria, mas eu sei — e as memórias deles não vão diminuir as minhas — que as pessoas ainda escreviam cartas. Escreviam para contar as novidades, para declarar amor, para romper amizades. E ao escrever elas fixavam para sempre a sua história, sua existência deixava de ser efêmera e transitória para existir de verdade; passava a ser mais que uma memória nos corações e mentes dos outros e então se materializava.
Uma carta era mais pessoal que um livro, porque ali estava sua letra, única, individual, algo que não poderiam refazer ao interpretar o que estava escrito. Algo que sequer tinha interferência de outra pessoa, como tem por exemplo um filme ou uma fotografia. Porque ali não está só você, está você e o olhar de outra pessoa. Colocar sua letra no papel quase significava tornar-se imortal como as pedras de Stonehenge.
Em 1983, voltando da escola, achei na rua um pacote de cartas datadas de 1946. Um homem e uma mulher se correspondiam porque tinham um assunto em comum, espiritismo e a organização do movimento espírita, embora ali estivessem apenas algumas das cartas dele. As cartas eram escritas em bela caligrafia — outro item que vai desaparecendo à medida que vamos nos tornando mais rápidos nos teclados de computador — por uma caneta tinteiro que deixava a letra mais elegante, sutil, engrossando seu traço nos lugares adequados e dando uma personalidade que esferográfica alguma jamais vai conseguir dar.
Não eram cartas de amantes, mas de colegas, talvez amigos. O que os unia não era uma afinidade pessoal, e sim o mesmo objetivo de vida. Tinham o tom respeitoso do seu tempo, quando beijar a mão de uma senhora não era ainda sinal de afetação, quando uma grande honra que você poderia prestar a um amigo era pedir que ele dançasse com a sua mulher, e ele saberia se comportar à altura de tão grande distinção.
O e-mail, as mensagens instantâneas e o celular acabaram de vez com cartas pessoais como essas. E caixas de correio como a da foto vão se extinguindo, porque cartas agora apenas de propaganda ou de cobrança, e essas são colocadas às toneladas diretamente nas agências de correio, impessoais como os traços de uma Garamond ou Helvética na tela do computador. Por isso tirei essa foto, porque um dia quero me lembrar delas e dos tantos aerogramas que mandei para minha avó e que ela guardou até o fim de sua vida, e que agora voltaram a mim. Quero poder explicar à minha filha o mundo que conheci, contar como mandávamos cartas para as pessoas que amávamos, e poder mostrar exatamente como elas eram; talvez até mostrar a esquina em que uma delas ficava, e explicar a longa trajetória por que um sentimento passava até poder ser decodificado a quilômetros dali.
Dez anos atrás, um anúncio para Shreve, Crump & Low dizia que “Daqui a cem anos, ninguém vai encontrar seu e-mail carinhosamente envolto em fita e escondido debaixo da cama”. O anúncio tem razão, e foi isso que nós perdemos junto com as caixas de correio.
Republicado em 07 de outubro de 2010
Minutos de sabedoria
Don’t let anybody kid you. It’s all personal, every bit of business. Every piece of shit every man has to eat every day of his life is personal. They call it business. OK. But it’s personal as hell. You know where I learned that from? The Don. My old man. The Godfather. If a bolt of lightning hit a friend of his the old man would take it personal. He took my going into the Marines personal. That’s what makes him great. The Great Don. He takes everything personal. Like God. He knows every feather that falls from the tail of a sparrow or however the hell it goes. Right? And you know something? Accidents don’t happen to people who take accidents as a personal insult.
Michael Corleone
É verdade que há palavras e imagens em excesso aqui para que se possa chamar isso de alta literatura. E daí?
Tem gente que decora a Bíblia. Eu decoro “O Poderoso Chefão”.
A névoa cinza-azulada da vingança
Não entendo como há tanta gente que insiste em ser desagradável, gratuitamente.
Eu fumo. Fumo porque a fumaça é gasosa, porque se fosse líquida seria coca-cola e eu beberia. Fumo muito. Mas procuro respeitar os não fumantes. Isso quer dizer nunca fumar onde não é permitido e evitar fumar em lugares fechados. É a única forma de chegarmos a uma convivência sem muitos sobressaltos.
Ao mesmo tempo espero que respeitem os meus direitos, apesar da propaganda maciça que busca nos tornar cidadãos de segunda classe. Se fumar não é proibido — ainda — neste país, eu tenho o direito de fumar onde não é interditado. É simples assim, e é impressionante como os zelotes anti-tabagistas se dispõem alegremente a passar por cima de um conceito tão simples de liberdade em nome de sua própria paranóia.
Domingo, em Maceió. Eu tinha acabado de tomar o café da manhã numa pousadinha e estava lá fora com a Mônica, fumando. Aparentemente eu poderia fumar no hall, mas por que incomodar desnecessariamente os não fumantes? Lá fora era mais sensato e respeitoso.
Eu estava de costas para a entrada; foi a Mônica quem viu a velha primeiro. Ela chegou na porta, nos viu fumando e fez o gesto de quem abana o ar à sua frente, de quem afasta a fedentina dos seu nariz delicado — embora o rosto da velha não tivesse nada de delicado, apenas ventas largas e rugas crestadas de sol que devem ter vindo não da idade, mas do azedume do seu espírito. Ela ainda não tinha sentido o cheiro de fumaça; mas o seu espírito de porco, a sua chatice de velha ranheta precisava se manifestar. Ela viu alguém fumando e, com a certeza estúpida que a idade provecta dá a algumas criaturas, resolveu manifestar o seu desagrado — essas coisas que quem não está satisfeito com a vida que leva faz ao ver outras pessoas felizes.
Então ela passou por nós abanando o ar, carregando uma sacola para um táxi estacionado em frente. Voltou do táxi fazendo o mesmo gesto, a mesma cara de fedor, mas agora soprando o ar com força pelas narinas, mais ou menos como faz um cavalo cansado — e aquela égua devia mesmo estar cansada da vida ruim que deve levar.
A velha desgraçada queria se fazer notar, estava dando o recado que achava necessário. Eu não entendi recado nenhum, sou meio estúpido para essas coisas, mas fiquei pensando que ela tinha cara de peidona — parecia ser daquelas velhas que passam as tardes de domingo sentadas numa cadeira de balanço assistindo ao Sílvio Santos e soltando flatos em tons e sons diferentes até a hora de dormir, indiferente ao som e ao mau cheiro. Era essa velha que fazia questão de insultar dois fumantes pacatos que se tinham recolhido para poder fumar em paz seus cigarros.
“Mônica, me avise quando ela estiver voltando.”
Não demorou muito. Daí a pouco ela passou de novo, as duas mãos ocupadas com pacotes — talvez renda de bilros, talvez artesanato alagoano, talvez remédios para a sua artrite, quem sabe até receitas de algum charlatão para curar os seus maus bofes.
Enchi os pulmões com a maior quantidade de fumaça que pude armazenar.
Esperei os passos se aproximarem.
E então, com a sincronia perfeita que só se vê em boas equipes de nado sincronizado, soltei em sua direção a maior baforada que já dei em todas as minhas décadas como fumante. Densa, concentrada — o tipo que se pode soltar abrindo bem a glote. E a velha atravessou galhardamente a belíssima nuvem de fumaça cinza-azulada, sem poder dar tapas no ar porque suas mãos estavam ocupadas, e fez uma expressão de raiva e desespero, e começou a tossir, e eu a acompanhei com os olhos até o táxi, onde ela entrou ainda tossindo.
E nesse instante eu me senti bem e me senti em paz, e você precisava ter visto o meu sorriso, e se fosse noite eu teria dormido com a consciência de que a justiça tinha sido feita, teria dormido o sono das crianças tranqüilas.
Talvez a velha esteja tossindo ainda hoje, e esse pensamento, embora improvável, me faz sentir melhor.
Republicado em 05 de outubro de 2010
Autopsicografia
Ninguém notou, mas aí em cima da foto do banner tem uma pequena aba chamada “Sobre o autor”. Ela leva a uma página que conta tudo o que você não queria saber sobre Rafael, e nunca teve vontade de perguntar.
Sobre o bis
A revista Men’s Health traz uma manchete chamativa na edição que está nas bancas:
Como fazer com que ela peça bis
Ou algo assim.
E eu imagino a legião de bobos correndo a comprar a revista, ansiosos pelo segredo que será revelado aos seus olhos inocentes.
Tolos: a questão não é fazer a moça pedir bis, ansiosa e insatisfeita. É fazê-la incapaz de articular uma palavra sequer, com um sorriso de orelha a orelha e um olhar esgazeado que vaga pelo vazio.
Mulheres quase perfeitas
Ninguém vai acreditar em mim, mas eu já fui o queridinho das mulheres por aqui.
Aconteceu há alguns anos. Eu fiz um post de uma linha, a Tata viu e me pediu para desenvolver o tema para que ela publicasse em seu blog.
O texto já estava nas suas mãos em menos de meia hora. Era só uma daquelas verdades que eu considero universais: mulheres perfeitas demais são pouco atraentes. Eu não gosto de mulheres de revista, aquelas mulheres que não parecem ter um só defeito ao qual você possa se apegar e reconhecer como a sua marca de singularidade neste mundo. Nunca gostei, nunca vou gostar.
Ele deve ter apelado às mulheres que têm celulite demais, estrias demais, peitos grandes, pequenos ou caídos demais, pernas grossas ou finas demais para os seus próprios padrões — algo em torno de 99,999% da parcela feminina da humanidade. Deve ser o texto deste blog mais republicado por aí.
Deve ter feito tanto sucesso porque podia ser lido como um elogio a elas, porque mulheres e homens gostam de ser elogiados pelos seus defeitos.
Foi um idílio bom que durou até o dia em que eu resolvi falar de adolescentes de 30 anos. Falava de uma amiga, que mesmo agora que se aproxima dos 40 como eu continua mais ou menos da mesma forma, ainda esperando o príncipe encantado e dispensando o que aparece porque além da esquina pode vir algo melhor.
Publiquei o post pela primeira vez quando ninguém lia este blog, e ele passou em branco, claro. Republiquei novamente quando o blog era razoavelmente lido — e o resultado foi uma avalanche de mulheres dizendo que não, que eu era um porco chauvinista e que elas não eram assim, que o meu problema era que eu não comia ninguém, e que isso era bem feito. (Que eu não comia era verdade, como continua sendo; mas precisava dizer que era bem feito?)
Carapuças são vestidas inadvertidamente por gente demais neste mundo; mas felizmente apenas uma parcela bem menor, a menos favorecida por Atena, se ergue nas patas traseiras e manifesta o seu desagrado com zurros altos demais.
A impressão que tenho às vezes é que mulheres demais acharam que o primeiro post era uma declaração de amor a elas, ou ao que julgam representar; mas isso não é verdade; assim como não é verdade que o post sobre adolescentes de 30 anos é uma declaração de guerra a mulheres que se julgam enquadrar na categoria.
Lembrei dos velhos tempos porque o blog Mulheres Impossíveis republicou o texto dia desses. É um bom texto. Continuo assinando embaixo. Continuo não gostando de mulheres perfeitas, ou aparentemente perfeitas. Gosto dos pequenos defeitos. Mas de lá para cá passei a ser mais cauteloso quando falo de mulheres.
Até porque há mais adolescentes de 30 do que mulheres perfeitas por aí.
A inexorável jornada
Quando eu nasci a capacidade do Maracanã era de 200 mil pessoas, e ele era o maior estádio de futebol do mundo.
Hoje a capacidade do Maracanã é de 92 mil pessoas, e ele já não é o maior estádio do mundo.
Na próxima reforma, para a Copa de 14, sua capacidade vai diminuir para 86.100 espectadores.
O Maracanã vai se apequenando à medida que o meu tempo neste vale vai se esgotando.
Quando eu morrer o Maracanã será menor que o Batistão de Aracaju.
A fuga das andorinhas
Uma manchete no Estadão semana passada me chamou a atenção e começou a despertar em mim algo que lembra o princípio do pânico, ou no mínimo a sensação de quase paralisia que se tem quando se percebe uma catástrofe inevitável.
75 mil prostitutas brasileiras trabalham na Europa.
Durante muitos anos, vi de longe o terror da sociedade brasileira diante do que chamavam de evasão de cérebros — hoje, cada vez mais anglicizados, acho que chamariam de brain drain. Se referiam ao êxodo de cientistas brasileiros para centros tecnológicos mais desenvolvidos, principalmente os Estados Unidos, mas também vários países europeus. Então se queixavam que a sociedade brasileira não dava o devido valor aos seus cientistas, e que o Estado não cumpria sua obrigação de incentivar o desenvolvimento científico deste país.
Depois, principalmente a partir dos anos 80, foi a vez dos jogadores de futebol, atraídos pelo dinheiro do Oriente Médio, depois da Itália, então da Alemanha e finalmente de qualquer país de segunda que investisse uns tostões no futebol de seu país.
Agora é a vez das nossas alcouceiras abandonarem o Brasil. 75 mil putas brasileiras no além mar. Eu sequer sabia que existiam tantas lúmias neste país — embora esse não seja, em absoluto, um número inacreditável. Muito menos que havia tantas rascoas sobrando, um excedente considerável a ponto de abastecer os pobres europeus deficientes em bunda como somos deficientes em ferro.
Este blog horrorizado se pergunta, com aquela indignação de deputado oposicionista quando encontra o que imagina ser um filão de escândalos no governo: onde estão as autoridades brasileiras que não tomam providências diante de fato tão grave, que transcorre debaixo de nossos narizes sem que façamos alguma coisa?
Não é possível que até agora não se tenha percebido a tragédia que se anuncia. Um país sem putas é um país chato, e um país chato não recebe turistas. Veja só o exemplo da Holanda. Que país agradável, aquele — e ali estão as pituriscas nas vitrines, o mais legítimo produto nacional mostrado com orgulho para os olhos admirados e invejosos do mundo; e quando não dão conta importam messalinas do Leste, que agregam mais ao produto interno bruto do que os tradicionais bares de haxixe.
Sem as cortesãs, o que vai ser do turismo em Fortaleza, e em Natal, e no Rio de Janeiro? Alguém realmente acha que vem turista da Dinamarca ou da Itália só para ver pobre em favela? Que aqueles operários alemães bebedores de cerveja vêm para cá apenas para se esconder de tiroteio no morro, ou ainda contemplar a natureza bucólica da Chapada dos Guimarães em meio a arrotos de cevada e lúpulo?
Precisamos cuidar do que é nosso. Estão fazendo de nós a nova colônia européia. Antes tiravam nosso pau-brasil, nosso ouro, nosso açúcar; agora nos tiram nossas vulgívagas.
Talvez seja culpa do governo. Esse negócio de incentivar a exportação para trazer divisas, em vez de fortalecer o mercado interno e atrair turistas, não podia dar certo. Mas o impacto a ser causado caso nosso plantel de rameiras seja extinto pela migração é muito maior que isso.
Sem as putas, o que vai ser da nossa produção teledramatúrgica? Quem vai aparecer em reality shows dizendo que é modelo e que “tá com um projeto aí”? Quem vai ser assistente de palco de programa ao vivo?
O êxodo das palomas vai levar nossa economia ao colapso. E por isso, preservar nossas putas é dever de todos nós.
A mesma sociedade que se indignava diante da saída dos nossos cientistas agora precisa protestar contra a evasão das nossas zoinas. E aqui cabe a indignação perante uma sociedade hipócrita que finge pavor quando vê cientistas indo para o MIT, mas que não se importa quando galdranas goianas se mudam em massa para a Espanha, para pegar o touro à unha. A sociedade brasileira tem o dever de se manifestar veementemente contra esse crime de lesa-pátria. O Congresso Nacional, em vez de perder tempo com o cupuaçu, precisa regular urgentemente sobre o assunto — quem sabe até estabelecendo cotas, um limite de meretrizes que podem sair legalmente deste país a cada ano, preservando o mercado nacional.
Tudo isso é fundamental, porque por mais ufanistas que possamos ser, a verdade é que há poucas coisas em que somos realmente bons. Fazemos samba melhor que todo mundo. Nossos jogadores de futebol, grosso modo, são os melhores do mundo. Que agora reconhece o talento, disposição e seriedade com que nossas vadias se dedicam ao seu mister.
Que a sociedade brasileira cuide de nossas putas. Que o Estado garanta a todas elas o direito a uma vida sadia e digna e ao mais recompensador exercício de sua profissão. Que não caiam mais no canto da sereia do neo-liberalismo das Oropa ou dos States, porque tudo a que ele nos levou foi a isso, foi à debandada de nossas mulheres de amor.
São essas raparigas, padrão mundial em sua área, que devemos preservar. Herdamos uma longa e bela tradição de putas — e por que agora vamos esquecer tantos séculos de aprimoramento genético e tecnológico, as tantas polacas e madames francesas trazidas para racear nossas marafonas com requinte e elegância? Como brasileiros e, principalmente, como seres humanos temos a obrigação de deixar um país e um mundo melhores para nossos filhos e netos. E não um país que afunda em direção ao oblívio, em meio a uma revoada de periquitas, que avoam para a Europa em busca de ninhos melhores.
Republicado em 03 de outubro de 2010