Os gostos de Maomé

O meu problema, o que ainda vai me levar para a cova muito antes do meu tempo já exíguo é a facilidade com que eu aceito desafios. Me sinto o próprio Marty McFly. Ainda mais porque o Bia pede para fazerem um post sobre Maomé, mas ele mesmo não é macho o bastante para isso. O Bia é aquele moço que fica no canto da sala instigando os outros a brigarem, dando risadinhas abafadas.

A idéia de um Maomé engajado em atos sexuais heterodoxos é interessante. Mas também seria provocação demais. Sobre Jesus, que me perdoem os cristãos, a gente pode falar o que quiser — afinal, tudo o que se sabe dele é o que dizem os evangelhos e uma citaçãozinha de nada em Flávio Josefo. Sem bases concretas, é fácil fazer piadas bobas sobre um sujeito andando por aí acompanhado de doze homens.

Maomé, ao contrário, é um personagem histórico mais sólido. Provavelmente porque o seu impacto imediato foi muito maior e mais amplo que o de Jesus. Independente do seu papel histórico, Jesus foi uma criação dos seus apóstolos, principalmente de São Paulo. Com Maomé foi diferente. A começar pelo Alcorão, melhor fonte histórica do que os evangelhos. Além disso, sua atuação política foi mais clara e mais efetiva. Ou seja: o histórico heterossexual de Maomé torna qualquer elocubração acerca de suas preferências provocação pura e simples, o tipo de coisa que aquele jornal dinamarquês fez.

De qualquer forma, o preceito aplicado a Jesus se aplica igualmente a Maomé. Maomé podia ser a maior bichona deste mundo. Podia dar a bunda com a mão na cabeça para não perder o juízo. Podia ser hábil na arte de prestar favores orais aos peregrinos que vagavam entre Meca e Medina. Podia usar a pobre da Khadijah para arranjar homens (“Você pode comer a moça, mas antes tem que me comer”). Podia correr para o alto das mesquitas para viver com algum discípulo a mais bela história de amor e suor. Podia se ajoelhar em direção à Meca sabendo que atrás de si um mujahid olhava para seu traseiro com cobiça e desejo. É tão difícil assim imaginar Maomé apoiado sobre a Caaba enquanto um tuaregue daqueles bem brutos faz-lhe a festa?

Para Maomé, no mais verdadeiro espírito ecumênico, vale o mesmo que para Jesus. Maomé podia fazer qualquer coisa, e nada disso faria de sua mensagem algo menos verdadeiro, nem ele menos digno de respeito.

Adeus ao Movable Type

Durante quase cinco anos, este blog rodou sobre uma plataforma específica de blogagem, o Movable Type.

Foi o Movable Type, e sua simplicidade e variedade de recursos, que me fez sair do Blogger.

Dutrante muitos anos não tive nenhuma queixa. Nos entendíamos bem, eu e ele. Mas na semana passada, por algum motivo, ele deu um pau federal. O pessoal do suporte disse que era problema com um banco de dados corrompido, pode ser. Mas como fazia tempo que eu precisava atualizar a versão do MT, decidi que não iria reinstalar aquela versão do bicho.

A idéia lógica seria migrar para o MT 4, mas não consegui. Nem sequer a ajuda do Tiagón foi suficiente para me guiar na instalação de algo que era muito simples e que agora simplesmente não conseguia rodar.

O MT hoje tem duas versões, Movable Type Open Source e Movable Type Personal. Eu sequer conseguir rodar a versão Open Source — até porque o movimento do código livre está mais interessado no WordPress do que no MT. A versão Personal rodou — mas apenas se eu usasse HTML em vez de PHP, o que seria impensável.

Era trabalho demais para mim. Ainda mais porque, como uso o método Michael Corleone para lidar com coisas inanimadas — “tudo é pessoal” –, eu não perdoava o MT por ter dado um problema tão grave justamente numa semana difícil. E ter-me feito sacrificar meu domingo em busca de uma solução para o blog. Isso é imperdoável.

E assim, a partir do dia da graça de hoje, este blog passa a rodar o WordPress. Não porque tenho alguma admiração — ou deixo de ter — pelo movimento do código livre; não porque acho o WP melhor ou pior. Mas porque funciona, e essa é a única razão válida para qualquer coisa.

Fica aqui a tristeza por ver o que fizeram do Movable Type. Era um grande software. Lá pelos idos de 2003, 2004, todos gostavam dele. Quando lançaram a versão 3, e mudaram seu sistema de preços, a comunidade do código livre caiu de pau em cima deles, considerados traidores do movimento. Mesmo assim tinham um bom programa nas mãos. A versão 4 tentou remendar as coisas, criando essa tal versão Open Source e correndo atrás até mesmo do look and feel do WP, mas não acho que tenha mais jeito: eles perderam o bonde da história.

E no fim das contas sobrou para mim. Os danos são poucos, mas bem variados: vários links antigos para este blog foram quebrados. E quem lia este blog por rss terá que assinar tudo de novo; a seguir, os novos links:

Posts: http://www.rafael.galvao.org/feed/
Comentários: http://www.rafael.galvao.org/comments/feed/

Pois é.

Um meme achado por aí

Vi o meme na Luma e resolvi me meter na conversa mesmo sem ser convidado:

1 – Por que você resolveu criar o blogue?

Eu queria um lugar onde pudesse escrever as bobagens que mandava para amigos por e-mail, e um lugar onde pudesse escrever de maneira diferente do que costumava escrever, com textos mais longos, sem muita regra. Exercício.

Mas acho que a pergunta que importa não é essa. Começar um blog é muito fácil. A pergunta que realmente importa é: por que você mantém um blog?

E eu não tenho uma resposta a essa pergunta. Talvez porque eu goste de escrever, talvez porque eu goste de dar opinião sem base sobre qualquer coisa, talvez porque eu goste de irritar as pessoas.

2 – O que te dá mais prazer em blogar?

Elogios. Eu sou viciado em elogios, é uma doença que me acompanha desde a mais tenra idade. Eu comia elogios no café da manhã. E quando ninguém me elogia, o que aliás é excessivamente comum, eu me auto-elogio. Por falar nisso, eu já disse hoje que sou quase lindo?

3. Indique um blogue bom e um que você não gosta e porque.

Não posso indicar um blog de que não gosto porque não leio blogs de que não gosto. Ler blogs de que não se gosta é uma ocupação masoquista para quem tem tempo livre à disposição, e eu não tenho.

De resto, a verdade é que não sou grande leitor de blogs, por falta de tempo. Não tenho internet em casa. Isso me tira a chance de descobrir coisa boa e me faz ficar cada vez mais defasado tecnologicamente; fico mais conservador e não acompanho essas novidades de Facebook, Second Life, etc.

No fim das contas, eu recomendo os blogs que estão aqui ao lado, no meu blogroll.

4. Qual o tipo de música e quais suas bandas favoritas?

Rock and roll, blues, jazz e soul. Beatles.

5. Qual o assunto que você gosta mais de postar?

Pergunta difícil e que também não sei responder. Qualquer coisa. O que vier à minha mente angelical.

Mas acho que gostaria de escrever textos mais longos, analíticos e seriamente embasados, aquelas coisas que dão respeito, sabe? Mas me falta tempo. Eu queria fazer um post sobre cotas, sobre as razões pelas quais mudei minha opinião nos últimos anos (uma pista está aqui e aqui), mas me falta tempo objetivo e subjetivo; escrever por escrever não vale a pena. E como se isso não bastasse, problema maior seria acompanhar a discussão subseqüente.

Aí eu escrevo qualquer besteira e torço para não ser muito esculhambado.

6. Seaquinevasseceusavaesqui?

Eu não falo russo, camarada. É a sua.

7. Você é casado, solteiro, separado, enrolado, desquitado, chutado, viúvo ou outros?

Vivo levando tanto pé na bunda, coitado de mim, que nem sei mais. Ninguém me ama. Ninguém me quer.

8. Por que você deu este nome ao seu blogue?

Porque nome bonito estava em falta. Um muambeiro ficou de me arranjar um melhor, mas a Receita pegou o idiota no Galeão.

9. Qual o último blogue que visitou?

Acho que o Liberal Libertário Libertino, procurando um post sobre o qual eu queria falar.

10. Por que resolveu participar deste meme?

Porque eu não tinha assunto para hoje.

Era bonito ser histérica

A crônica de Nelson Rodrigues, escrita há mais de 40 anos, chegou ontem ao meu e-mail enviada pelo Bródi “Tom” Negão. Sem conhecer adjetivos suficientes para defini-la, ainda de boca aberta e fascinado, eu apenas a republico aqui.

Era bonito ser histérica

“Beijarei o punhal que matar Pinheiro Machado” — soluçou o orador. E, realmente, enfiou a mão no colete, ou cinto, e de lá arrancou, com ágil ferocidade, o punhal homicida. Logo, à vista de todos, beijou, chorando, o punhal. As lágrimas deslizavam pela face cava. E o orador, prolongando o efeito cênico, ainda ficou, por algum tempo, com o punhal erguido e profético. Um uivo unânime subiu das entranhas do silêncio. O comício veio abaixo. Sujeitos atiravam para o ar os chapéus de palha.

Mas resta de pé a pergunta: — Por que exatamente o punhal? Por que o ódio havia de ter a forma esguia e diáfana do punhal? 1915. Era o Brasil do fraque e do espartilho. Nas salas de visitas, havia sempre uma escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo. Eu tinha meus três anos e estava em Pernambuco. Três anos. Aos três anos, o sujeito começa a inventar o mundo. Minha família morava na praia. E eu começava a inventar o mundo. Primeiro, foi o mar. Não, não. Primeiro, inventei o caju selvagem e a pitanga brava.

Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo.

Eis o que eu queria dizer — o primeiro nome que ouvi foi o de Pinheiro Machado. Alguém se chamava Pinheiro Machado. A princípio, ele não foi um destino, um perfil, um fraque, mas tão-somente um nome. Um nome solto no ar, quase um brinquedo auditivo. Eu não inventara ainda a morte, não inventara ainda o punhal, nem a palavra “defunto”.

Escrevi, não sei onde, que foi um suicida que me revelara a morte e me ensinara a morrer. Engano, engano. Foi Pinheiro Machado. Sim, Pinheiro Machado. E, súbito, eu aprendia que o homem morre e que o homem mata. Ainda hoje, e até nas minhas crônicas esportivas, falo muito, com uma constância obsessiva, no assassinato de Pinheiro Machado. Uns acham graça e ninguém entende a insistência cruel. Ah, eu teria de explicar que há, em qualquer infância, uma antologia de mortos; e, para o menino que fui, Pinheiro Machado é um desses mortos fundamentais.

Mas repito a pergunta: — Por que havia de ser o punhal? Pinheiro Machado podia ser assassinado a tiro, a bala. Pouco antes, um jornalista fora assassinado em Pernambuco. Chamava-se Trajano Chacon. Três ou quatro se juntaram e o mataram, a cano de chumbo. Não faca, punhal ou revólver. No caso de Pinheiro Machado, quero crer que o punhal convinha mais à retórica. Na época do soneto, era mais parnasiano. O orador podia tirar o punhal, beijá-lo, quase lambê-lo.

Muitos e muitos anos depois, me vejo subindo a escadaria da Biblioteca Nacional. Estou crispado como o criminoso que vai reler a notícia do próprio crime. Lá dentro, peço a coleção do Correio da Manhã de 1915. Dou o mês do assassinato. Não me lembro se é permitido fumar na sala de leitura; em caso afirmativo, tiro um cigarro e o acendo (guardo o palito na própria caixa). Enquanto não vem a coleção, começo a tecer uma pequena fantasia homicida. Não é mais o Manso de Paiva, mas eu que me escondo atrás de uma coluna. Entra Pinheiro Machado, de fraque. Os rapapés o envolvem: — “Senador! Senador!”. É agora. Corro e mato Pinheiro Machado. Sou assassino. Em seguida, imagino a experiência inversa, de vítima. A dor fulminante da punhalada. Não tenho tempo nem para o espanto, nem para o grito.

O funcionário trouxe a coleção. Começo a ficar tenso. Encontro a edição do crime. Primeiro, passo os olhos no dia, mês e ano (sou um fascinado pelas datas dos velhos jornais e dos velhos túmulos). A manchete rasga as suas oito colunas: — ASSASSINADO o GENERAL PINHEIRO MACHADO! Ao bater estas notas, sinto o abismo entre as duas manchetes: — a de Pinheiro Machado era um berro gráfico, um uivo impresso; a de Kennedy, estupidamente impessoal, crassamente informativa. Ah, as manchetes de hoje não se espantam, nem se desgrenham, nem reconhecem a catástrofe.

O Correio da Manhã conta tudo. Estou vendo Pinheiro Machado, de fraque, chegando ao Hotel dos Estrangeiros. Lá está o seu lindo perfil de moeda. Vinha falar com dois políticos de São Paulo. Era um voluptuoso, um lúbrico do Poder. Sua conquista política era um jogo amoroso. O olho ficava mais doce, lascivo, translúcido. Amorosamente, Pinheiro Machado abriu os braços, enlaçando os dois políticos. E assim, entre um e outro, caminha o general, muito olhado. Claro que todos se voltavam para ver o homem que, segundo os comícios e os jornais, era o autor de todos os presidentes.

Pouco antes, chegava da Europa Irineu Machado, um dos grandes tribunos da época. Era homem de falar dez horas sem parar (antigamente, tínhamos mais oradores do que hoje camelôs de caneta-tinteiro). E Irineu Machado disse, em comício: — “Matar Pinheiro Machado não é ser assassino. É ser caçador”. Ele não estava improvisando nada. A frase fora criada, recriada, até chegar à sua forma exata, inapelável e assassina.

Era apenas uma frase. Mas aí é que está: — nada se fazia então sem frase. Para tudo era preciso uma frase. Repito: — uma frase tanto fazia uma adúltera como um ministro. E aquilo que Irineu Machado berrara foi de uma prodigiosa eficácia homicida. Caçar Pinheiro Machado, simplesmente caçar. Manso de Paiva estava ouvindo. E se não fosse Manso de Paiva seria outro Manso de Paiva. Até as senhoras eram Mansos de Paiva. A punhalada amadurecia no coração do povo. Mas volto ao Hotel dos Estrangeiros. Passa o caudilho com os outros dois. Ouvia-se o seu riso cálido, vital. Uma dama olha Pinheiro por detrás do leque como uma Butterfly.

Tudo teve a progressão fulminante da catástrofe. Manso de Paiva sai da coluna; corre, tira o punhal e o enterra até o fim nas costas do caudilho, pouco abaixo da nuca. Pinheiro soluça: — “Mataste-me, canalha!”. Mas Osvaldo Paixão, contemporâneo do episódio, orador de vários comícios ferocíssimos, retifica. Segundo ele, as últimas palavras de Pinheiro foram estas: — “Apunhalaste-me, canalha!”. Quero crer que ele tenha dito apenas: “Canalha”. Mas cabe perguntar: — que canalha? Ou, por outra: o caudilho estava com dois paulistas. Morreu certo de que um deles era o “canalha”.

(Preciso falar de Guimarães Rosa.) Ah, em 1915, as mulheres tinham um repertório de gritos que as novas gerações não usam, nem conhecem, Era bonito “ser histérica”. Muitas simulavam seus ataques, como o dostoievskiano Smerdiakov. Mas, quando Pinheiro caiu, as damas presentes não fingiam nada. Elas se esganiçavam, e rolavam pelas cadeiras, ou sapateavam como espanholas. Naquela época, uma notícia levava meia hora para ir de uma esquina à outra esquina. Mas toda a cidade ou, mais do que isso, o Brasil soube do assassinato, com uma instantaneidade brutalíssima.

E ninguém percebeu que, com Pinheiro Machado, morria também o fraque.

[4/12/1967]

Carta do Além

É isso, basta um sinal vermelho para que alguém lhe entregue um panfleto qualquer.

O panfleto era assinado por uma tal Sociedade Bíblica Ebenézer. Nome estranho, Ebenézer, parece personagem sovina de Dickens. Trazia umas silhuetas de saguaros ao entardecer — o que saguaros têm a ver com o tema eu não consigo perceber — e o texto que segue abaixo:

Carta do Além

Imagine se o diabo resolvesse escrever uma carta para alguém aqui da Terra.

Dessas pessoas folgadas, que não estão nem aí com Deus ou a igreja. Creio que ela seria mais ou menos assim:

“Caro amigo”:

Saudações infernais!

Estou tão ansioso por nosso encontro final que resolvi escrever-lhe afim (sic) de manifestar minha paixão por você. Você é tão perverso, orgulhoso, malvado e rancoroso!

A característica que mais admiro em você é esse seu desprezo por Deus. Noto que você transgride todos os mandamentos da Bíblia. Particularmente estou torcendo para que você adquira logo uma doença. Com sua vida promíscua, creio que isto não vai demorar.

Também torço para que você se arrebente quando dirigir bêbado. Isto o traria logo para os meus braços, numa união eterna.

Outro dia, quando se livrou daquele chato que, com a Bíblia na mão, insistia que você mudasse de vida, nós fizemos a maior festa.

Para encerrar, espero que você permaneça firme. Fuja da igreja. Nunca ouça ou veja aqueles programas que falam do meu maior inimigo — Jesus.

Atenciosamente,
Satanás.

Esta carta é uma peça de ficção. Mas o seu conteúdo é verdadeiro. Se você não gostou do que nela está escrito, vai gostar menos ainda de ir para o inferno. Ainda dá tempo de se arrepender de seus pecados e se entregar a Jesus.

Agora olha a sacanagem, a sinuca de bico em que me meteram. De um lado Satanás (Sassá para os íntimos) declarando sua paixão por mim, sem que algum dia eu tivesse lhe dado um vislumbre sequer de ousadia para tanto. Do outro Cristo — para não deixá-Lo por baixo, vamos chamá-Lo de Jejê — querendo que eu me entregue a Ele; justo o bonzão do Jejê, o grande moralista, o sujeito que sempre disse que antes do casamento a gente não deve fazer essas coisas de safadeza.

Ou seja, é todo mundo querendo me foder, que eu sei bem aonde essas coisas de paixão e entrega acabam levando.

É de bom alvitre lembrar a esses dois malandros que sou moço de boa família e de bons princípios. Não vou me entregando assim a qualquer uma, quanto mais a um barbudinho com cara de trotskista e a um corno vermelho que nem aqueles itabaianenses que trabalham de sol a sol roubando cargas de caminhão.

Em não tendo escolha, a princípio eu tenderia para Sassá, porque Jejê tem barba enquanto Sassá tem um rabo enorme, e rabos me são agradáveis.

Mas confesso que a sua cartinha me deixou um pouco chateado. Não por querer que eu me arrebente dirigindindo bêbado, porque isso é coisa de mulher rejeitada e, além do mais, não gosto e dirijo muito pouco, muito menos bêbado. Tampouco por me chamar de perverso, essa é a menor das sacanagens. Não. Posso ser orgulhoso, confesso, mas perverso, não. Todas as maldades que faço têm motivo de força maior, uma provocação. São reações, apenas. Eu gosto mesmo é do pecado da preguiça. Me deixe quieto no meu canto e não faço maldade a ninguém, porque antes de ser orgulhoso eu sou baiano. E não fui eu quem se livrou daquele chato. Foi ele que não quis me pagar o dízimo e foi embora, irritado. É impressionante como esse pessoal manda sua fé e sua atividade missionária para os quintos quando você pede um dinheirinho a eles.

O verdadeiro problema na cartinha do Sassá foi dizer que levo uma vida promíscua. Por que o deboche, assim tão desnecessário? Ele sabe que isso era tudo o que eu queria: uma vida promíscua e estróina, cheia de mulheres daquelas que inspiram um samba de Lupicínio Rodrigues. Por uma vida promíscua eu iria dez vezes para o inferno, feliz da vida, encangado no pescoço de uma negona do Cabula, deixando para trás uma vida de bandalheira. Era assim que eu queria viver: na orgia, na esbórnia, rodeado de mulheres, muitas mulheres, as mais vagabundas e cachorras e depravadas e ninfomaníacas que possa haver neste mundo. Daquelas que botam as mãos nos quartos, quebram assim para a esquerda e perguntam “Você tá pensando que eu sou o quê, hein?”, para que você entenda que são justamente o que você está pensando e siga o ritual comme il faut. Sassá sabe que sou um homem de desejos tão simples, não quero muito da vida em meu ascetismo.

Mas essa vida maravilhosa está além da minha capacidade, e esse Satanás filho da mãe sabe disso. Aí vem esse coisa ruim tripudiar, me humilhar porque afinal estou tão aquém dos meus sonhos. É essa a enorme sacanagem sutil no título da carta do Sassá: leia-se “Carta do além da sua capacidade, Rafael seu otário”.

Fiquei tão chateado com o deboche de Sassá que a despeito do seu rabo enorme talvez me entregue mesmo a Jejê, com um suspiro resignado. Sei a desgraça que me espera ali. Só peço que seja gentil. Eu não gosto dessas coisas, muito menos da posição a que Ele quer me submeter, estamos invertendo as coisas aqui. O caminho dos céus não vale tudo isso. A perdição antes da salvação, é assim que eu gostaria de viver se pudesse, mas o deboche do Sassá mostra que devo perder minhas esperanças, e sem esperanças uma eternidade de sofrimento é tudo o que me resta.

As vidas de John Lennon

Há exatamente 20 anos, um livro sobre John Lennon se tornou objeto de debate na mídia de fofocas: The Lives of John Lennon, escrito por Albert Goldman. Aparentemente, o livro tentava destruir a imagem do ex-beatle, tirando uma porção de sujeira de baixo do tapete e fazendo revelações inesperadas para passar uma mensagem clara: Lennon, o ídolo que entrou para a memória da humanidade como um pacifista que sonhava com um mundo sem posses, era um canalha viciado em drogas e com problemas sérios de relacionamento com as pessoas.

Goldman não era um neófito no jogo de esculhambar celebridades. Tinha na bagagem outro livro bastante conhecido: Elvis, em que fomos apresentados ao sujeito também viciado em drogas, com sérios problemas sexuais, uma imagem bem diferente do revolucionário dos anos 50 e até mesmo do semi-retardado inofensivo dos filmes dos anos 60.

De modo geral, aquele livro de Goldman sobre Elvis foi aceito como verdade. Até hoje, é essa a imagem que temos de Elvis: um junkie gordo e decadente e de poucos recursos artísticos, incapaz de superar o próprio complexo de Édipo.

No caso de Lennon, no entanto, nenhum exercício de iconoclastia parece conseguir sucesso duradouro. Há algo a mais na aura que cerca os Beatles há quase cinqüenta anos, e esse algo parece ser teflon. Isso não vale apenas para Lennon: McCartney, por exemplo, vai passar para a história como a imagem acabada do bom marido e pai de família — o que significa “esquecer” canalhices como sua recusa em reconhecer a paternidade de uma ou duas crianças (mas gastando bastante dinheiro em acordos extra-judiciais), e casos deliciosos como um fim de semana numa casa em Los Angeles em 1967, quando colocou uma starlet loura em um dos quartos, uma das prostitutas negras mais famosas da Califórnia em outro, e passou o fim de semana alternando-se entre elas, até que Peggy Lipton (atriz inglesa com quem Paul costumava sair, e que na época era sucesso na ilha com o seriado The Mod Squad) chegou de surpresa para fazer uma declaração de amor e bateu a cara na porta, porque Linda Eastman, sua futura mulher, ligara e Paul estava correndo para ela. (A propósito, como já deveria ser óbvio, eu sou um eterno fã de McCartney.)

E no entanto o livro de Goldman tem muitos méritos. De modo geral é um retrato acurado de Lennon, embora cruel, e por vezes uma boa análise da sua personalidade bastante complexa. Goldman acerta ao investigar a insegurança de Lennon, sua extrema crueldade (era pouco recomendável ser um deficiente físico perto dele: uma de suas diversões era chegar perto de mendigos aleijados na rua e perguntar: “Onde estão suas pernas, amigo? Fugiram com sua mulher?” Ele também não gostava de homossexuais nem de judeus).

Os problemas com drogas também são bem delineados. Para o folclore pop, os viciados em heroína dos anos 60 eram Janis Joplin, Eric Clapton, Keith Richards; Goldman mostra a extensão do vício em Lennon e, principalmente, em Yoko. E aqui cabe lembrar uma das principais queixas de Lennon sobre McCartney. Ele reclamava que o parceiro compunha 20 canções e então arrastava a banda para o estúdio. Dizia isso para ressaltar o papel dominador de McCartney. No entanto Goldman faz uma pergunta óbvia: não fosse a diligência de McCartney, quando os Beatles gravariam, já que Lennon estava imerso em um constante torpor de heroína e Harrison se perdia em ommms indianos?

O grande mérito de Goldman é que, embora se delicie com as fofocas típicas nesse tipo de livro, sua ética de trabalho é válida e quase honesta. Ele fez um trabalho decente de entrevistas e de checagem de fatos. Seu arquivo é até hoje uma boa fonte para quem escreve livros sobre os Beatles, como Bob Spitz, cujo “The Beatles – A Biografia” foi lançado recentemente no Brasil e, embora com defeitos, é a melhor biografia dos Beatles disponível atualmente em português.

Isso dá um nível quase suficiente de credibilidade ao livro, inicialmente atacado como um punhado de mentiras — afinal, Lennon e Ono reescreveram a sua vida como uma espécie de conto de fadas da nova era. The Lives of John Lennon foi se afirmando com o tempo, para consolo de Goldman, que morreu tentando defendê-lo. Revelações feitas ali pela primeira vez seriam depois admitidas por seus protagonistas — como o episódio em que Lennon, com Yoko numa festa, arrastou a namorada de Jerry Rubin para um quarto e deixou sua mulher e o namorado da moça na sala, ouvindo o aiaiai; Yoko finalmente mencionaria o episódio no livreto que acompanha o John Lennon Anthology, em 1998. Fica a impressão que outras revelações do livro (como o vício de Yoko durante todos os anos 70) são verdadeiras.

Mas Goldman também erra, e muito. Por todo o livro, parece haver uma necessidade de destruir por completo o mito de Lennon, o que o faz tirar conclusões tendenciosas e, por vezes, sem base. Por exemplo, ele parece encarar Allen Klein, o pivô financeiro da separação dos Beatles, como quase um anjo, incorrendo no erro contrário à narrativa oficial. Exagera a rivalidade entre Lennon e McCartney, simplificando em excesso a dinâmica da relação entre os dois e reduzindo a virtualmente nada a amizade profunda e a confiança artística que sempre os uniu.

Goldman afirma categoricamente que Lennon e o empresário dos Beatles, Brian Epstein, tiveram relações sexuais durante uma famosa viagem à Espanha, em 1963. Eu também acho isso. Mas o fato é que o único envolvido a se pronunciar publicamente sobre o assunto, o próprio Lennon, disse que foi “intenso, mas não consumado”. O que aconteceu realmente sempre foi um segredo, e foi para a cova com os dois. Goldman erra ao tomar como fato algo que não passa de especulação. É um erro grave para um historiador.

Aqui e ali, outros erros aparecem. Goldman faz uma boa análise do que Drive My Car quer dizer sobre a psique de Lennon — uma análise bastante acurada se a canção não fosse principalmente de Paul McCartney. Ao mesmo tempo, Goldman lembra acertadamente o fiasco que foi a carreira solo de Lennon, que começou com um álbum absolutamente genial, o John Lennon/Plastic Ono Band, comercializou-se bastante com o belíssimo Imagine e então despencou para bobagens redundantes e medíocres como o Mind Games.

O livro de Goldman é um livro para fãs: a compreensão dos mecanismos e processos por trás dos Beatles é útil para nós. Mas não interessa a mais ninguém. Porque o que realmente importa, nos Beatles e em John Lennon, é a música. E para isso não é necessário livro de fofocas nenhum.

A carinhosa senhora Amair e o seu doce pequeno comentário

Normalmente este blog não se presta ao papel de correio elegante.

Mas o comentário e pedido deixado aqui pela senhora Amair é singelo o suficiente para merecer um reforço e uma pequena moção de apoio.

Eu mulher de 56 anos, divorciada, quero muito conhecer homens, viuvos, ou divorciados, do rio assima de 50 anos com residencia fixa, que tenha pret de vir se casar novamente com senhore carinhosa, trab, fiel.E evangelica da Igreja do Nazareno

O e-mail da dona Amair fica retido para sua segurança e obediência às normas auto-impostas deste blog, mas excepcionalmente está à disposição de senhores que se encaixem no perfil acima e que queiram estabelecer contato com ela.

Fica desde já esclarecido que a Igreja do Nazareno não tem nada a ver com o antigo personagem de Chico Anysio.

A menina e o padre

Talvez o que mais impressione na reação popular à morte da menina Isabella Nardoni e à do padre Adelir de Carli seja a diferença dos critérios do público.

Não se trata apenas da algazarra canalha e baixa criada pela imprensa em torno da morte da menina, e de forma diferente no caso da morte do padre aviador. Se ela explora o mundo cão, só podemos imputar-lhe a hipocrisia do discurso ético, que traveste de “interesse público” o que é pouco mais que briga por audiência e vendas; mas ela faz isso porque é o que queremos ver, de certo modo ela apenas dá o que pedimos.

Há tanta hipocrisia em tudo isso. Estamos chocados como se nunca tivéssemos visto algo parecido.

No entanto, em todo o país assistentes sociais se irritam com a abordagem dada ao caso Nardoni, porque sabem mais do que isso. Para eles é revoltante assistir à explosão de indignação da opinião pública, esse ultraje diante do vislumbre da possibilidade de crueldade e insensatez humanas, algo tão fora de seus padrões éticos altíssimos. Porque assistentes sociais vêm casos como esse todos os dias — há algumas semanas um pai sergipano trancou o filho em um quarto escuro no seu casebre e o espancou até a morte, mas isso não se transformou em suíte de jornal. Assistentes sociais vêem mais, na verdade. Vêem também pais estuprando e violentando filhos, pais torturando filhos, pais utilizando os filhos para pedir esmola. Isso acontece todos os dias. Essa é a matéria-prima de seu trabalho.

Nada disso, no entanto, gera sequer uma parcela da indignação que se vê na reação à morte da menina. Não porque não são noticiados, porque são, essa também é matéria prima dos jornais; mas porque acontece com pobres, gente abaixo dessas pessoas que se horrorizam antes um vislumbre do que o ser humano pode ter de pior, abaixo do seu nível de sofisticação social e familiar.

Porque esse tipo de desgraça é aparentemente raro na classe média. A mesma classe média que, absolutamente infensa à miséria cotidiana, aproveita uma chance rara como o assassinato de uma menina para fingir tão completamente uma indignação digna de Pessoa. E que faz isso, talvez, porque sabe que essa reação é compartilhada pelos seus iguais, e assim se torna uma indignação confortável e segura.

A diferença entre a morte dessa menina e a dos outros está no fato de ela ser jogada da janela? Se está, então somos todos imbecis, porque morte é morte, é esse substantivo que conta, e não os adjetivos. Morreu queimado ou espancado, qual é realmente a diferença? Mas parecemos ter uma facilidade confortável para transformar o fato principal em um mero detalhe, enquanto damos ao acessório destaque prioritário. Talvez porque se reconhecêssemos que o problema aí é tão somente o assassinato da menina, e não o local ou a forma, então teríamos também que nos indignar com o menino morto na favela, a menina estuprada na rua, e tanta indignação nos cansaria e tiraria o foco de nossas próprias vidas.

Horrorizarmo-nos ao ponto da histeria coletiva com a morte da menina enquanto ignoramos as centenas de outros assassinatos de crianças todos os anos é hipocrisia e depõe contra todos nós.

Mas é a diferença entre as reações à morte da menina e a do padre que chama a atenção e que revela, de maneira ainda mais clara, a miséria humana de todos nós. Tenha sido o padre idiota ou não, arrogante ou não, essencialmente foi um ser humano que morreu. Se foi por sua culpa, isso apenas diz que não há outros culpados, ao contrário da menina.

Isso, no entanto, não dá direito a que os mesmos que se ultrajam e enojam com a morte da menina riam do padre otário.

Para nós, não importa o desespero do padre ao se ver diante da morte, ele não vale o mesmo que a dor da menina. As duas mortes nos fazem felizes, por motivos diversos. A menina caindo do sexto andar nos faz sentir vivos e capazes de sentir pena e solidariedade humanas; a morte do padre nos faz felizes porque somos melhores que ele, somos mais espertos e mais inteligentes. Podemos vir a morrer atropelados por um policial bêbado, podemos nos estraçalhar em um avião — mas não, nós não vamos ser estúpidos o bastante para morrer da mesma forma que o padre, e isso nos faz sentir bem. Ninguém pensa em rir da menina porque, afinal, ela teve o azar de estar do lugar errado e na hora errada. Preferimos nos reconfortar com o fato que, por ser uma criança, ela não tinha escolha nem chance, enquanto o padre, o imbecil, procurou a própria morte.

Como se isso tornasse uma morte menos “morte”.

Isabella vira anjo, o padre é indicado ao Darwin Awards. Embora por motivos diferentes, as duas mortes são dignas de pena; no entanto, uma gera comoção nacional e a outra vira a grande piada do país.

E assim a vida continua. O padre vai ser esquecido logo. Em alguns meses ninguém lembrará da menina, porque a dor dos outros tem prazo de validade curto. E vamos esperar outro evento assim, porque então poderemos voltar a mostrar nossa humanidade indignada, caso seja outra menina assassinada, ou rir daqueles que nos parecem burros demais para merecer continuar vivendo.

Republicado em 01 de outubro de 2010

Da incompreensão e da injustiça humanas

Olha o que é a vida.

Você passa uma existência inteira tendo que lidar com uma falsa imagem de cafajeste e machista. Sua namorada, a mulher da sua vida, diz que você é cafajeste. A sua mãe, a outra mulher da sua vida, diz que você é cafajeste. Suas amigas dizem que você é cafajeste. A sua filha graças a Deus ainda não sabe o que é isso, e se depender da escopeta encostada atrás da porta não vai descobrir nunca, mas nem mesmo ela acredita nas histórias que você conta.

Ter fama de cafajeste é ruim e prejudicial, porque a moda é ser sensível, este é um século inapropriado para pobres paraíbas pouco sofisticados. Ter fama de cafajeste não vale a pena, isso é certo. Porque toda e qualquer mulher que você conheça tem uma amiga que diz “olha, ele é um cafajeste, vá com calma”, e por causa disso você acaba tendo que se esforçar mais, por causa de uma sociedade incompreensiva você acaba acuado, e para sobreviver se vê obrigado a utilizar, sim, de expedientes que talvez, com muita má vontade, pudessem ser considerados cafajestes, e faz sua aquela canção da Lílian: “Eu sou rebelde porque o mundo quis assim”. É ruim porque você não esquece de ter passado anos na universidade atrás de uma bunda — e ah, que bunda — que dizia que não daria para você porque você era safado, mentira vil e soez, mas ela dizia isso com convicção e certeza infundadas, e sabe você o mal que essas calúnias faziam à sua reputação na universidade, que já não era das melhores.

Tudo isso acontece enquanto você sabe que tem uma alma sensível e doce, que o gosto atávico por putaria e safadeza não faz de você menos humano e sensível, muito menos cafajeste. Você sabe como é bom ver o pôr do sol atrás das montanhas e o nascer do sol na praia, se enternece ao ver a lua emergindo amarela do mar, Iemanjá se desnudando diante de seus filhos. É essa discrepância entre o que percebem em você e o que você sente que entristece a sua alma.

E então você se aquieta, encontra uma mulher que ama e deixa de se preocupar com a imagem que o mundo faz de você, porque agora não passa os dias e as noites atento a oportunidades escondidas por um sutiã malcriado ou um jeans apertado, e se não pode deixar de olhar para peitos e bundas na rua não é como se olhasse para alvos em potencial, mas sim porque anos e anos de prática lhe deram uma capacidade formidável de avaliação e compreensão, além de uma acurada compreensão estética, visual e tátil, habilidade que não pode ser desperdiçada e que para seu orgulho deveria ser passada de geração a geração.

É justamente aí, quando você parecia ter superado todas essas injustiças, quando você finalmente tinha se erguido acima das gentes, que vem o desgraçado do Sergio Leo e esculhamba você.

E então você fica numa dúvida atroz que lhe consome os dias e atormenta as noites, porque não sabe se agradece ao sujeito por perceber que afinal de contas você tem uma alma feminina e sensível, como sempre tentou mostrar sem sucesso às pessoas, ou se manda o filho da puta tomar no olho do cu.

Republicado em 29 de setembro de 2010