De comentários e de desejos sexuais

O João Neto é um caso clássico de alucinado. Lê este blog há alguns anos, mandou muitos e-mails que não foram respondidos e então descobriu que, a depender do conteúdo, seus comentários aqui seriam liberados.

Foi como abrir uma porteira. O João Neto está sempre aqui, comentando. É o tipo de gente que lê um blog apenas para reclamar ou xingar, que transfere para o blogueiro uma eventual relação mal-resolvida com o pai. O João Neto é um fã ao avesso.

Não importa que este blog aqui ande muito meia bomba: ele sempre está por aqui. De vez em quando alguns dos seus comentários são liberados, outras vezes são relegados ao nada.

Mas o último comentário do sujeito merece um post (e eu tenho a impressão de que finalmente atendi a um antigo sonho do sujeito) :

Dois pontos:

1)A classe média de qualquer cidade, estado ou páis é a pior coisa que existe em quaisquer quesitos, então não fique irritado com Sào Paulo.
2) São Paulo é uma cidade maravilhosa e ninguém, de nenhum outro estado do Brasil, tem sequer condição de dar opinião, quanto mais falar mal. A única cidade que importa no Brasil é São Paulo o resto é resto. Fique nesta sua cidade porcaria, com sua qualidade de vida bucólica e não venha aqui. Pare de criticar quem é melhor que vocês em tudo. Aquela estória: “Se o baiano gosta tanta da Bahia, porque não fica lá?”, vale pra você também!

É curioso como em poucas linhas o João Neto consegue falar tanta coisa: “a única cidade que importa no Brasil”, “sua cidade porcaria”, “não venha aqui”, “melhor que vocês em tudo”.

O João é burro mas não sabe, ou se recusa a admitir. E sem querer, justificou para sempre a minha política de moderação de comentários.

***

Outro comentário que chama a atenção é o do Cayo:

Descubri seu site buscando informações na Net sobre a nova reforma ortográfica, e tenho de confessar uma coisa que não tem nada a ver com o assunto: a foto nela estampada é de deixar qualquer podólatra (como eu) louco. Só para constar…

É extremamente agradável saber que meus membros inferiores fazem o mesmo sucesso que os superiores. Ou melhor, seria. Porque a foto daí de cima não é minha: foi arranjada às pressas nas internet. Veio bem a calhar porque meus pés são feios que doem, e só servem para andar, dar topada, chutar gato e doer no fim do dia.

Mas como seria bom ser um símbolo sexual para alguém. Me sinto como a mulher feia que, diante de um elogio educado ouvido de um desconhecido cortês na rua, fica horas no espelho admirando a sua beleza recém-descoberta, percebendo-se finalmente uma Ana Hickman. Elogios: quanto mais imerecidos, mais agradáveis.

Por isso é com pesar que me vejo forçado a abdicar dos meus sonhos de símbolo sexual de pé, e a dizer ao Cayo que não, que os pés que tanto chamaram a sua atenção não são os meus, que os delírios eróticos devem ser direcionados a um sujeito desconhecido. E digo isso com tristeza e com pesar; colocando um véu sobre o espelho, porque sei que ele nunca mais vai dizer que eu sou bonito como a Ana Hickman.

Sumpaulo

Foi basicamente o seguinte: chegar a Sumpaulo na segunda pela manhã, embarcar para o Rio na terça às sete horas e voltar a Sumpaulo ao meio-dia para uma maratona que só terminou na sexta. Tudo isso acordando às três, cinco horas da manhã — para um sujeito que só consegue dormir tarde, esses horários significam uma variante mais terrível de tortura chinesa. Junte a isso uma série de compromissos pequenos, e o que se tem é um sujeito cansado, que chegava à noite ao hotel e não tinha ânimo para muita coisa, ainda por cima com um pequeno problema no ouvido causado pelo excesos de vôos turbulentos em pouco tempo.

Só para constar, foi uma viagem cansativa e pouco proveitosa na perna paulistana; triste ao ver que o negócio publicitário está virando uma idiotice burra cega e autofágica, e que eventos que já foram importantes se tornam a cada dia caça-níqueis estúpidos; irritante ao constatar mais uma vez a grosseria antipática dos paulistanos de classe média e a delicadeza do povão, numa generalização que, claro, admite uma infinidade de exceções; mas que valeu a pena por umas poucas horinhas em que levaram um paraíba em Sumpaulo, com a namorada e um amigo, para um restaurante nordestino.

Foi bom matar a saudade do Doni, conhecer o Hermenauta e a Lu, o Ina, a Olívia e o Roger, o Branco Leone e a dona Leone, o Ratapulgo — que me lembra alguém que conheço, mas não consigo lembrar quem, exatamente.

Para um sujeito cansado, funcionando a meio vapor, ficam alguns detalhes bobos, simples. Como a suavidade e a tranqüilidade da voz do Hermê, a beleza e a delicadeza das mãos do Ina (instintivamente recolhidas diante da constatação; o Ina é tímido). Ou a genial camiseta azul da Olívia (Era What would Phillip Marlowe do?, se não me engano?).

E ficam também as desculpas, por ter aproveitado tão pouco, por ter conversado tão pouco mesmo sabendo que poderia aproveitar muito mais. Sumpaulo é uma cidade ingrata, principalmente para quem está de passagem com uma série de compromissos e saiu de uma cidade que foi eleita recentemente pelo Ministério da Saúde a capital brasileira que oferece melhor qualidade de vida aos seus moradores. Mas então a gente fica lembrando que logo no primeiro dia encontrou um monte de gente que fez a viagem valer a pena.

Blogagem coletiva

O David Santos informa que hoje é dia de fazer uma blogagem coletiva. Fiquei sabendo agora, pelo seu comentário.

Então lá vai:

“O que você faz para acabar com o analfabetismo no Brasil?”

Minha resposta é simples, embora talvez pouco agradável:

Porra nenhuma.

Blogoseira em chamas — ou quase

Discussão curiosa, essa que está se espalhando na blogoseira a respeito do que chamam de monetização (eu chamo de descolar um troco) dos blogs.

É uma espécie de guerra verbal entre militantes de duas visões diferentes de blogoseira. Um lado vê a bichinha como uma oportunidade de ganhar dinheiro, uma espécie de nova fronteira; outro vê a dita como uma grande plataforma de comunicação social, também uma espécie de nova fronteira. É essa diferença de visões que gera a discussão.

Mas essa discussão já está cansando. Porque não tem solução, até porque não há realmente um problema. Principalmente porque estão partindo de um pressuposto errado.

O principal equívoco nessa discussão é o fato que os dois lados estão tentando definir o que deve ser a blogoseira, a partir de suas próprias visões de mundo. E isso é impossível: blogs, afinal de contas, não passam muito de uma ferramenta, e o que faz a diferença é a maneira como ele é utilizado. Isso quer dizer que tantos tipos de blogs e abordagens existem quanto existem pessoas diferentes neste mundo. Esse é um universo amplo demais. E que evolui a despeito das visões das pessoas envolvidas.

Ou seja, independente das vontades individuais ou mesmo de grupos, a blgooseira vai fatalmente comportar todas essas manifestações. Vai haver espaço para condomínios idealistas como o Verbeat ou o Insanus, e para empresas como o Interney.

Não há nada mais válido e justo do que alguém querer viver do que escreve em um blog. Nem tampouco de alguém que quer — e aqui eu parto descaradamente para a auto-defesa — usar a internet para falar as bobagens que bem entender, brigar com pseudo-feministas e quetais. Ou para quem quer simplesmente comer uma moça bonitinha e gostosinha e com bom remelexo, porque blogs para comer mulher são sempre uma boa alternativa, é só fazer uns textinhos bonitinhos beirando a pieguice, dizer que é gente boa, que respeita o sexo feminino — essas coisas que nego diz na cara de pau por causa da danada da testosterona.

E há espaço para todas essas manifestações. A questão é que a escolha quem faz é o leitor. Por tudo isso, a discussão é boba e desnecessária. Cada um faça o seu, como quiser. É tão simples.

(Obviamente, quem me vê falando assim acha que eu não gostaria de ganhar dinheiro com o meu blog. Equívoco, dos grandes. É claro que eu gostaria. Eu gostaria de acordar todo dia no começo da tarde, sentar diante do computador, escrever duas ou três bobagens, e depois ter a noite e a madrugada livres sabendo que no fim do mês teria dinheiro suficiente para as minhas garrafas de Jack Daniel’s. Mas também gostaria de ganhar dinheiro como gigolô de velhinhas carentes, mesmo gordo demais para isso; comer velhinhas carentes não deve contar como luxúria, não deve ser pecado sequer venial. No fim das contas, eu gostaria de ganhar dinheiro de qualquer jeito, velho avarento que sou, Gobseck da caatinga. Eu gostaria de tantas coisas.)

As vozes da taba

No caderno Eu&Fim de Semana do Valor de sexta-feira passada, Wanderley Guilherme dos Santos escreveu tudo o que eu queria dizer sobre eleições americanas mas não tinha tido saco.

Num artigo intitulado “Nem Obama nem Hillary. Não sou americano”, Wanderley resume bem a situação. Faz notar o seu espanto diante da extensão do envolvimento do que chama a intelectualidade nacional com a campanha eleitoral americana. E nota um equívoco primário na expectativa de que “a vitória de um ou de outra trará modificações de espetaculares conseqüências para o resto do mundo e, portanto, para o Brasil”. Wanderley aponta para o que chama de sunken costs para lembrar que as mudanças, se vierem, serão gradativas, não importa quem ganhe. Porque os Estados Unidos são muito maiores que seus presidentes.

O artigo de Wanderley me lembrou que essa situação é a exatamente a mesma na blogosfera. A discussão das eleições americanas é talvez o principal tema nos blogs brasileiros atualmente. E nisso o equívoco é ainda maior. Porque enquanto Hillary e Obama jogam seu xadrez político, no Brasil começam a se definir os cenários das eleições em milhares de municípios.

Goste-se ou não, reclame-se ou não da falta de glamour nas eleições em João Pessoa ou Chapecó — nem de longe comparáveis à briga pela eleição do grande imperador ociental –, elas são de importância fundamental para o país. Em outubro se definirá uma parte significativa da configuração política nacional para os próximos anos. Muitos dos candidatos a prefeito ou vereador serão candidatos à Câmara ou ao Senado Federal em 2010. É essa configuração que definirá a correlação de forças naquelas eleições, é ela que vai influir pesadamente na política de alianças de todos os partidos nos próximos dois anos; e se não fosse por isso, é daí que vão sair os pedidos de verbas, quando menos. Eleições municipais são o varejo da política, digamos assim; mas o mundo não vive de atacadistas.

Do ponto de vista interno, essas eleições municipais são muito mais importantes do que a eleição de Clinton ou Obama, até mesmo que a eleição de McCain. É essa política de varejo que cria a política nacional. É ali, nos municípios, que em última análise se definem os avanços e os retrocessos deste país.

À grande mídia nacional, claro, isso importa pouco. Centra-se fogo nas eleições das duas maiores cidades do país, às vezes incluindo Salvador e Belo Horizonte, e sem contar Brasília. E só. Enquanto isso, dezenas de outras capitais, e milhares de pequenas cidades e redutos eleitorais de políticos nacionalmente importantes, simplesmente não existem.

É esse vácuo que a blogoseira poderia aproveitar. Ao se debruçar sobre o seu universo local poderia fazer diferença, oferecendo ao mundo uma perspectiva que, normalmente, apenas jornais locais oferecem. Mas esses jornais locais têm limites de circulação, coisa que um blog não tem. A partir de pequenos pedaços, a blogoseira poderia enriquecer o debate nacional e a cultura política do país.

No entanto, de modo geral parece perder tempo se limitando a reproduzir ou, no máximo, interpretar o que a mídia — e por mídia entenda-se também os grandes blogs — diz. Desempenha apenas o seu papel de caixa de ressonância. Um papel legítimo, nada desprezível — mas muito inferior ao que poderia exercer.

Talvez isso reflita uma certa alienação da tal “intelectualidade” tupi, que se contenta em refletir o mesmo comportamento antigo, e que diante de um meio novo e cheio de possibilidades, o utiliza apenas para repetir as mesmas coisas. Os índios da taba continuam repetindo o que ouvem o branco falar.

Amazing comments

Comentário recebido por este blog durante o fim de semana, a um dos posts mais agradáveis da história deste blog, sobre a trégua de Natal da I Guerra Mundial. O (ou a) comentarista se diz chamar “não te entereça“:

oi meu querido profisional da inteligencia artificial….
digo que vc e um grade nerde que nao sabe bem o que quer da vida….
odeio pessoas que contam aquilo que poderia ter acontecido…
mais nao gostei nem um pouco das informaçoes que vc me deu…
pois ao inves de me tirar uma duvida colocou outra..
por isso meu caro colega….
digo-lhe que vc deveria estudar mais um pouco antes de vir escrever alguma coisa na internet….
seu burro iguinorante…
vê se vai ler um pouco mais…
seu retardado ….
seu idiota…
entre outras coisas que prefiro nem comentar….
bjinhos e desejo que vc estude um pouco mais …
para poder escrever igual a gente inteligente….
fica com Deus,pois o Diabo ta de ferias….

E depois disso, eu escrevo o quê? O resto é silêncio.

A diferença entre Walt Disney e Maurício de Sousa

Minha infância foi passada entre revistinhas em quadrinhos da Disney. As revistas de Maurício de Sousa já existiam, mas ainda não eram as mais vendidas nem estavam entre minhas preferidas. Eu sou de outro tempo, uma época em que as revistas Disney no Brasil traziam histórias de Carl Barks e de um grande italiano chamado Marco Rota.

De lá para cá, muita coisa mudou. O Estúdio Maurício de Sousa se consolidou como o maior do Brasil, e suas revistas (que passaram da Abril para a Globo e mais recentemente para a Panini) são campeãs de vendas. As revistas Disney decaem a cada dia, e estão longe de representar o portento que representaram nos anos 70 e começo dos 80. Pior, nos anos 80 e 90 protagonizaram uma crise criativa impressionante, protagonizada por histórias ruins dos estúdios italianos — que já tiveram grandes criadores, como o Rota citado acima —, enredos neuróticos que raramente conseguiam um final adequado.

Mas a coisa parece ter mudado. Uma nova geração — na qual se sobressai Don Rosa — deu fôlego novo aos quadrinhos Disney. E ajudou a lembrar uma diferença fundamental entre os quadrinhos Disney e os de Maurício de Sousa.

O universo dos quadrinhos Disney é infinitamente superior ao de Maurício.

Lendo uma história de Barks ou de Don Rosa (descoberta tardia que devo ao Ina), uma criança tem acesso a um universo muito mais amplo que aquele mostrado pelas historinhas de Maurício de Sousa. As histórias da Disney tendem a ser mais universais. O horizonte não está circunscrito à rua, ou mesmo ao seu país. Há um mundo inteiro lá fora.

Talvez isso se deva ao papel geopolítico desempenhado pelos Estados Unidos a partir da I Guerra, quem sabe, ou mesmo à própria concepção de quadrinhos americana, ou ainda à composição do público leitor. Seja qual for a razão, a diferença pode ser exemplificada em uma constatação simples: enquanto o Cebolinha sonha em ser o dono da rua, o Tio Patinhas sonha em ser dono do mundo.

Com a cidade de Patópolis, a Disney criou um universo próprio e relativamente complexo que reflete, ainda que de maneira necessariamente infantilizada e esquemática, uma cidade real, com toda a sua complexidade social. Enquanto isso, os quadrinhos de Maurício de Sousa são simples, limitados, quase alienados. Alguém sabe no que o pai do Cebolinha ou o da Mônica trabalham? As histórias de Maurício de Sousa têm a idade mental de seus personagens: seis anos.

São boas histórias, mas mal saem do quarteirão onde esses meninos moram. Projetam uma imagem onírica da infância, que parecem viver no limite entre o campo e a cidade. O universo oferecido por elas às crianças é restrito, limita-se em grande parte à exploração do que já é conhecido — as brigas para saber quem é o dono da rua, o gato bobo que apronta das suas, ecologia piegas e simplista nas histórias do Papa-Capim. No fim das contas, as histórias do Maurício de Sousa não ensinam nada de maneira consistente: apenas trabalham emoções fáceis de maneira simplória.

Isso não é necessariamente ruim. Algumas histórias da Turma da Mônica são brilhantes, e todas são agradáveis. São leitura segura para todos, e com o adicional da “brasilidade”, interessantes para todos. Como o Allan disse uma vez, são no mínimo “certinhas”.

Mas, enquanto isso, não posso esquecer que foi numa história do Zé Carioca que eu soube que existiu um navio chamado Lusitânia, torpedeado durante a I Guerra Mundial. Talvez tenha sido numa história dele, também, que eu soube que nos Andes existia uma ave chamada condor. E com certeza foi lendo as aventuras da Maga Patalójika que soube de um vulcão na Itália chamado Vesúvio. São inúmeras as palavras que vi pela primeira vez em alguma revista Disney. Dervixe, rúpia, sarraceno são apenas algumas delas.

As histórias de Maurício de Sousa trabalham com o conhecido de crianças pequenas, é essa a sua matéria prima. Mas as histórias da Disney apresentavam o novo, e dialogavam com o mundo exterior de uma forma que Maurício de Sousa prefere evitar. E essa diferença é fundamental. Nos quadrinhos Disney as aventuras se estendem pelo mundo inteiro; pelas savanas africanas, pelas selvas brasileiras, pelos desertos asiáticos. O mundo de Disney é infinitamente maior que o de Maurício de Sousa, mais colorido, mais diverso. É essa compreensão do mundo, essa idéia de que a aventura não está apenas no bairro e no universo limitado de crianças de seis anos, que faz das histórias da família Pato algo superior.

Que se danem Mattelart e Dorfman, autores de um livro que qualquer pessoa com juízo se deveria recusar a ler, chamado “Para Ler o Pato Donald”, uma espécie de denúncia do caráter imperialista dos quadrinhos Disney. Nunca li o livro, apenas folheei, e tenho certeza de que sua análise está correta. Mas é preciso ser um canalha para tentar destruir um universo tão bom.

Republicado em 27 de setembro de 2010

Quando vale a pena ver de novo

Sempre que penso em Gus Van Sant, o pobre diabo que refilmou “Psicose,”sinto uma mistura de pena e admiração. Pena porque é preciso ser um imbecil para tentar refilmar um filme como o clássico de Hitch; admiração porque também é preciso muita coragem, daquele tipo meio insano que normalmente leva ao suicídio.

Refilmagens são um vício doentio de Hollywood, normalmente avessa a riscos e pronta a cavalgar um sucesso até que ele morra de cansaço, com a boca espumando. É enorme a lista de grandes filmes que, por algum pecado inconfessável cometido por seus autores, mereceram a sina de ser refilmados.

O problema é que quando um sujeito resolve refilmar um clássico absoluto, ele tem a certeza de que vai ser pior. Um idiota refilmou The Big Sleep com Robert Mitchum no lugar de Humphrey Bogart e alguém no lugar de Lauren Bacall. Van Sant barbarizou “Psicose”. Dezenas de outros poderiam ser citados. E em todos esses casos, os resultados eram previsíveis: os filmes seriam pequenas tragédias patéticas.

Mas há exceções, e é delas que trata este post. A idéia não é minha: é de um blog americano de cinema, coisa de dois ou três anos atrás.

Há um grande filão a ser aproveitado, do ponto de vista criativo. Em vez de perder tempo refilmando clássicos, esses sujeitos de Hollywood fariam melhor se pegassem filmes que poderiam ser grandes, mas não foram, e tentassem fazer algo melhor deles. Filmes que tinham um potencial não realizado, que foram prejudicados por um mau diretor, maus atores, maus cinegrafistas, qualquer coisa.

Isso não é garantia de que o filme vá ser necessariamente melhor, claro. É sempre um risco que se corre. Sweet November, por exemplo, é um filme infinitamente inferior ao original; mas o primeiro não era exatamente uma obra de perfeição (embora seja um dos meus filmes preferidos), e o impacto acaba sendo bastante relativizado. A diferença entre original e revisão não é tão grande. Aconteceu o mesmo quando o eternamente superestimado Tim Burton refilmou “A Fantástica Fábrica de Chocolates”.

Um bom exemplo é “Highlander”.

As pessoas parecem esquecer, mas aquele era um filme que tinha tudo para ser grande. O argumento do filme é excelente, pela simplicidade, por brincar com o sonho da imortalidade. É um filme que, se resumido em cinco ou dez linhas, é admiravelmente bem resolvido. (Esqueça-se, aqui, que duas ou três seqüências desastradas fizeram de tudo para destruir a sua magia, inventando explicações burras para o que não precisava ser explicado e tentando arrancar a última gota de suco que o filme original porventura tivesse.)

Os problemas do filme são mais notáveis na direção. Russell Mulcahy não é mais que um Tony Scott piorado — muito piorado. É mais um egresso daquela onda inglesa de diretores de comerciais que conseguiram dirigir longas, nos famigerados anos 80. Trouxe consigo nenhum talento para dirigir cinema mas todos os vícios da TV — iluminação excessivamente estilizada, câmera que briga com a cena, edição à beira de um colapso nervoso, sonoplastia estridente e por vezes inoportuna.

Os problemas de “Highlander”, claro, não estão apenas no diretor inepto. O roteiro tem falhas gritantes, como uma perseguição policial boba e, principalmente, a insistência idiota em tornar o duelo final um confronto entre o bem e o mal, quando a beleza potencial do filme não está nisso, está no fato simples, não explicado e quase divino de que “só pode haver um”. Não se trata de mocinhos contra bandidos, mas algo que deveria se assemelhar a um fenômeno natural e absolutamente distante da dicotomia típica de filmes B. Um roteiro menos esquemático, com menos concessões ao gosto da platéia com QI inferior a 60, que explorasse mais a angústia existencialista de personagens singulares sem cair na verborragia intelectualóide poderia, sim, ser uma obra prima.

Esse é só um exemplo que serve para demonstrar bem a teoria. E claro que nem todo filme potencialmente bom, mas mal feito, pode ser refilmado. Grease é um bom exemplo. Como cinema propriamente dito, o filme é ruim, mal dirigido, mal sonorizado, com cara de seriado de TV americano dos anos 70; é inferior ao musical original da Broadway e mesmo ao livro de Ron de Christoforo. Mas nenhuma refilmagem poderia oferecer o que ele dá: a empatia perfeita de John Travolta e Olívia Newton-John.

A idéia de refilmar filmes quase bons não tem nada de genial; é extremamente óbvia. Mas o óbvio é um tanto fugidio a alguns; e se seguissem esse conselho, gente como Gus Van Sant não conpsuracariam suas biografias com deslizes do tipo de “Psicose”.

Sobre um blog antigo chamado Bombordo

Talvez as pessoas tenham esquecido rápido demais do Bombordo, um blog sobre política que o Verbeat publicou durante alguns meses, há coisa de dois anos. Dele sobrou apenas a homepage; nem mesmo os artigos estão disponíveis.

Originário de uma lista de discussões, o Bombordo congregava uma porção de blogueiros de centro e de esquerda. O momento era adequadíssimo: em um ano importante como 2006, ano de eleições presidenciais, o Bombordo tinha tudo para se afirmar como uma espécie de think tank de centro-esquerda. Gente boa como o Hermenauta e o Sergio Leoo escreviam lá. No seu blog, o Sergio Leo tinha feito uma cobertura da crise do gás boliviano de fazer inveja a qualquer jornal brasileiro, principalmente pela qualidade das análises feitas. O Hermenauta tinha um dos blogs mais filhos da puta que eu conheço.

No entanto, o Bombordo derivou e soçobrou.

O problema era o seu lastro. O transcorrer dos fatos mostrou que o Bombordo estava totalmente desconectado da realidade. Aquele era um ano extremamente importante do ponto de vista político. A polarização partidária e, acima de tudo, a discussão ideológica entre dois projetos diferentes de governo mobilizaram a sociedade. Enquanto isso o Bombordo se debruçava sobre a situação política em um fim de mundo qualquer dos Estados Unidos. Para um blog que pretendia oferecer uma alternativa política, ele simplesmente não tinha o que oferecer. Não conseguia sequer entender que o seu assunto era o Brasil.

Esse distanciamento da realidade era resultado de uma conjunção de fatores. Um deles era a liberdade excessiva em relação aos blogueiros que escreviam. Um exemplo do quão pernicioso isso pode ser está em um post que considero antológico, sobre a entrada da Starbucks no Brasil. No texto, uma grande preocupação com a provável destruição da tradição do cafezinho brasileiro. Ou seja, o post demonstrava um total e absoluto alheamento à situação real, simplesmente porque não conhecia o país em que a Starbucks estava abrindo filiais. Não se pode falar de alguma coisa estando virado de costas para ele. Uma bobagem deste tamanho cabe em um blog pessoal, mas não em um empreendimento coletivo mais ambicioso.

Essa ignorância e essa falta de controle impossibilitaram que o Bombordo enfunasse suas velas. Um blog político não pode estar distante da realidade, dos fatos que fazem a evolução política do país. Não pode se negar a falar do que é importante naquele momento. Além disso, é preciso ter um direcionamento explícito; do contrário, não tem valor maior que qualquer blog individual por aí. E não se pode oferecer alternativas de pensamento sem que eles estejam solidamente baseados na realidade.

De qualquer forma, a proposta inicial do Bombordo tinha tudo para oferecer uma boa alternativa de esquerda. E poderia ser retomada hoje. Essa é a razão deste post: uma sugestão para o Tiagón e para o Gaijin, ou para o Ina e o Edney.

Seria preciso, acima de tudo, acabar com o que o “democratismo”: essa idéia ingênua de que todo mundo é igual e de que todo mundo tem os mesmos direitos; de que se alguém escreveu algo, tem que ser publicado. É preciso ordem no galinheiro, uma pauta mínima, umas regrinhas sobre o conteúdo. Ou seja, uma linha editorial clara e definida. Além disso, alguém tem que dirigir a coisa, e não ficar preocupado em ferir suscetibilidades. Não é porque fulano escreveu um texto de que gosta muito que ele tem que ser necessariamente publicado — porque pode não ser bom, ou mesmo bom, pode não ser adequado. Um bom blog tem que atacar os problemas atuais e oferecer boas análises sobre eles.

Se eu fosse o Tiagón e o Gaijin, ou o Ina e o Edney, eu tentaria trazer o Bombordo de volta.