Uns tão George Foreman, outros tão Muhammad Ali

O Bia fez um post sobre sua luta favorita no cinema. Deu Bruce Lee versus Kareem Abdul-Jabbar na cabeça.

Minha luta favorita é outra.

Sylvia Saint versus Rocco Siffredi.

Embora eu admita que John Holmes versus Cicciolina chega bem perto.

Sobre os fenômenos incompreensíveis

Entre as tantas coisas que não entendo, que olho com olhos asininos e opacos e boca aberta da estupidez, estão aqueles sujeitos que colocam moças em suas costas durante shows de rock.

Sempre tem um ou dois, garotos cujas namoradas afoitas se balançam sobre suas costas, enquanto o coitado fica ali embaixo, fazendo força para não derrubar a moça que pula sobre seus ombros.

Talvez eu não entenda porque para carregar nas costas já tenho a minha cruz, uma cruz pesada demais, às vezes intolerável; uma moça bonita estrebuchando sobre meus ombros seria mais do que eu poderia agüentar.

Por não compreender o fenômeno tento imaginar o sujeito ali embaixo, feliz da vida porque a namorada está encarapitada em suas costas, se balançando e fazendo gracinhas para os músicos no palco, quem sabe até mostrando os peitos? Mas ela sequer está do lado certo, está atrás dele e não na frente como deveria ser, apertando com força a sua cabeça; a única compensação que o sujeito pode ter é uma lombalgia, um torcicolo, algo assim.

E imagino que no dia seguinte ela lhe dá um pé na bunda, e o coitado se recrimina por ter se sujeitado a papel tão ridículo e se o show foi filmado ele pode rever e dizer aos amigos: “Tá vendo aquela gata ali? Eu sou o otário embaixo dela”, e eles rirão de sua cara, algo assim, e disso ficará apenas a lembrança de ter pago, um dia, um mico por uma mulher que o vento levou.

Ou melhor, não. Talvez haja, sim, uma compensação, pelo menos a única compensação válida em que consigo pensar: a lembrança boa e permanente de que um dia seu pescoço foi o melhor lugar do mundo, e que durante alguams horas ele poderia aspirar o melhor perfume que pode existir.

A semântica do nazismo

Perdi o bonde e não me meti na discussão entre o Idelber e o Pedro Dória sobre a Palestina. No entanto os dois se retiraram prematura e graciosamente da discussão — o que é ruim, porque no final das contas ela seria extremamente útil para o resto de nós. São dois sujeitos que entendem do assunto, extremamente capazes e de cuja discussão se poderia tirar boas lições, dos dois lados. Fica a expectativa pelos resultados da discussão sobre o livro The Ethnic Cleansing of Palestine.

No entanto, do ponto de vista da argumentação, o Idelber estava com a razão. Ele tocou no cerne da questão quando lembrou que hoje a Palestina luta por apenas 22% do seu território original. O Idelber também viu o que chamou de brincadeirinha semântica, e esse foi o ponto que me chamou a atenção. É algo que costuma acontecer sempre que se fala em Israel: termina-se na discussão sobre o nazismo e sua aplicação ou não à situação atual.

Essencialmente os defensores de Israel não admitem que se faça comparações com o nazismo. É aparentemente uma posição facilmente defensável, porque apesar das chacinas, da política que forçosamente adquire a cada dia feições racistas, Israel não construiu ainda um sistema de extermínio como os campos de concentração alemães no leste europeu durante a II Guerra Mundial. Independente da visão que se tenha sobre as ações israelenses, ninguém pode afirmar que existe uma Treblinka ou Auschwitz em Israel. Logo, Israel não pode ser comparado ao III Reich. A argumentação faz sentido. Mas não passa de um desvio da questão central.

O problema é que o Holocausto não define o nazismo.

O Holocausto foi apenas — se é que se pode usar a palavra “apenas” ao falar de uma aberração desse porte — o ponto final em uma política sistemática de perseguição aos judeus. É por isso que, do ponto de vista de definição do nazismo, as Leis de Nuremberg são mais significativas do que Auschwitz. Não foi com os campos de concentração que Hitler completou o trabalho iniciado por Bismarck e unificou de vez a Alemanha. Foi propondo um Estado forte e centralizador, encerrando a bagunça da república de Weimar, e fomentando e capitalizando o anti-semitismo enraizado no povo alemão. É esse anti-semitismo como política de Estado que pode definir o nazismo e diferenciá-lo de outros tipos de fascismo. O Holocausto foi apenas uma conseqüência dele, ao mesmo tempo lógica e circunstancial, acelerada ou mesmo definida pela logística de uma guerra que perdiam.

Esse é um tema mais complexo que poderia parecer à primeira vista. Implica, por exemplo, imputar a responsabilidade pelo nazismo não apenas ao Partido Nazista, mas à maioria do povo alemão. Por isso é mais fácil reduzir a discussão sobre sua natureza ao Holocausto, adotando uma explicação simplista, politicamente carregada e infelizmente obscurantista. Deixa-se de lado um aspecto interessante: de certa forma, os campos de extermínio representavam apenas uma solução burocrática e pragmática, o que uma filósofa chata chamou de “banalização do mal”. É provavelmente o aspecto mais aterrador do nazismo; mas não é o que o define.

Há alguns anos, um historiador chamado Bryan Mark Rigg publicou um livro chamado “Os Soldados Judeus de Hitler”, em que contava a história dos mischlinge — como os nazistas chamavam os filhos de judeus com alemães, “mestiços”, “meio-sangues” — que lutaram na Wermacht como estratégia de sobrevivência. Rigg apontava as complexidades que circundavam as relações sociais e étnicas na Alemanha nazista. É um livro fácil de ler, interessante e curioso. No entanto, foi recebido com má vontade pela maior parte da comunidade de historiadores do Holocausto. As perguntas que se faziam: “Quem quereria saber sobre 100 mil mischlinge que lutaram no exército de Hitler?” e “Isso não é novidade e é totalmente irrelevante para o julgamento do Holocausto e do Terceiro Reich”.

É assustador que historiadores julguem um fato histórico nada desprezível — 100 mil pessoas com algum nível de identificação com a cultura judaica integrando um exército engajado no extermínio do seu povo — como irrelevante. Ou que achem que isso não leva alguma luz para a compreensão do processo social do anti-semitismo na Alemanha. É estranho, mas compreensível, e os motivos vão além da razão histórica. E é basicamente o mesmo raciocínio que leva à escolha do Holocausto como padrão do nazismo. O Holocausto foi tão obviamente monstruoso — e, em suas características próprias, irrepetível — que é fácil utilizá-lo como padrão e como justificativa, porque é algo contra o qual não há argumento racional possível. Dessa forma, Israel pode cometer as atrocidades que quiser, porque a não ser que retome a fabricação do Zyklon-B e construa crematórios, mecanizando e sistematizando a chacina de um povo, jamais poderá ser comparados aos nazistas.

E terão razão. Não dá para comparar o que Israel vem perpetrando na Palestina ao Holocausto. Mas dá para comparar à Kristallnacht, às Leis de Nuremberg, à perseguição, humilhação e execução de milhares de pessoas. As ações de Israel hoje são muito semelhantes — na verdade, pode-se até alegar que ainda mais atrozes — ao processo de limpeza étnica que culminou nos guetos e nos campos de concentração, e é por isso que se pode, sim, comparar o Estado de Israel à Alemanha nazista.

Há alguns anos, o Pedro Dória comentou o caso de Wissam Tayem, um violinista palestino vítima de constrangimentos semelhantes aos dos judeus na Alemanha nazista. Mais ou menos na mesma época o então ministro da Justiça de Israel, Yosef Lapid, que viveu no gueto de Budapeste durante a II Guerra, via o sofrimento das mulheres na Faixa de Gaza como igual ao de sua avó naquele gueto. A essência do anti-semitismo nazista não estava nos campos de concentração. Estava nos guetos, na vida miserável que judeus eram forçados a levar, na negação de sua cidadania e, por fim, de sua humanidade. O Holocausto não surgiu do nada; foi preparado por dezenas, talvez centenas de leis excludentes e por atos grandes ou pequenos de perseguição social e étnica aos judeus. O muro que Israel construiu na Faixa de Gaza não leva a resultados muito diferentes do Gueto de Varsóvia.

Esse ponto leva a outro, mais complexo. O que se tenta mostrar como uma política de governo em relação à Palestina é na verdade uma política nacional, com um forte apoio de parte da população israelense. A perseguição aos palestinos não é mais obra do Likud ou dos trabalhistas: é obra de todo o povo de Israel. Como o nazismo foi obra e responsabilidade de todo o povo alemão.

Republicado em 25 de setembro de 2010

O compromisso do poeta

Fim de tarde, comecinho de noite, a entrevista acabou e todo mundo foi embora, ficamos apenas o dono da casa, o poeta que tem uma pinimba com os ingleses e eu, diante de uma garrafa de uísque que não bebo. Fala o poeta, desdenhando um comentário sobre as crônicas que nos manda por e-mail; talvez por ser poeta ele possa se dar ao luxo de fazer pouco delas:

“Sabe qual é o meu compromisso, Rafael? É com a poesia, essa peste.”

Eu abro um sorriso porque agora ele entra numa seara que não é a minha, e nessas horas sorrir é tudo o que você pode fazer.

“Essa danada tem um chicote que me açoita.”

E o meu sorriso bovino continua, porque eu não conheço essa vadia, com chicote ou sem chicote. Ela não liga para mim, nunca ligou, e quando me viu disse que não estava interessada e passou por mim de queixo levantado e arzinho insolente de vós quem sois. Para gente assim a minha vontade é esticar o pé para que ela se estabaque no chão numa queda, daquelas quedas que tiram para sempre a empáfia que possamos ter — você sabe, aquelas quedas de pernas abertas para o ar, que deixam o mundo ver suas vergonhas e lhe dão calafrios toda vez que voltam à sua lembrança, mesmo muitos anos depois. É nesses termos que eu e essa rapariga chamada poesia estamos, sempre estivemos.

Então me perdoe, poeta, porque é a inveja que me faz falar assim, inveja e despeito de quem pode assumir esses compromissos e estar à altura deles; eu normalmente não estou à altura sequer dos compromissos de que desdenho. Mas se um dia essa senhora que se finge doce, apenas finge, chegar perto de mim depois de tantos anos me esnobando e destratando, eu não me responsabilizo pelo que farei com o chicote dela.

Homenagem póstuma ao Dia Internacional da Mulher

E por causa dessa correria toda, desses dias que invadem as noites sem oferecer uma mínima compensação em troca, acabei deixando passar em branco o Dia Internacional da Mulher.

Já tinha pensado em assumir algum compromisso sério com a classe, algo como prometer publicamente neste blog não bater em mulher nenhuma no seu dia; mas isso não era direito, porque sou um cavalheiro que nunca rejeita o pedido de uma dama, e vai que por uma dessas quebradas da vida me deparo com uma moça que peça isso com jeitinho doce e irresistível, então me diz, o que é que eu faço?

Eu, que não tenho boa reputação entre as mulheres porque as que gostam de mim me chamam de cafajeste e as que não gostam de mim me chamam de cafajeste, resolvi então que não iria dizer nada.

Mas isso seria uma falta de cortesia absurda e impensável, e eu sou um homem antigo em gostos e deveres. Lembrei então do velho Kid Morengueira, ídolo e modelo de sempre. Porque o Moreira sabia das coisas, sabia desses negócios de ética e cavalheirismo em seu terno branco. Portanto aqui vai minha homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Faço minhas as suas palavras. Nesta vida tem mesmo coisas que não se faz.

Na subida do morro me contaram
Que você bateu na minha nêga
Isso não é direito
Bater numa mulher
Que não é sua
Deixou a nêga quase nua
No meio da rua
A nêga quase que virou presunto
Eu não gostei daquele assunto
Hoje venho resolvido
Vou lhe mandar para a cidade
De pé junto
Vou lhe tornar em um defunto

Você mesmo sabe
Que eu já fui um malandro malvado
Somente estou regenerado
Cheio de malícia
Dei trabalho à polícia
Pra cachorro
Dei até no dono do morro
Mas nunca abusei
De uma mulher
Que fosse de um amigo
Agora me zanguei consigo
Hoje venho animado
A lhe deixar todo cortado
Vou dar-lhe um castigo
Meto-lhe o aço no abdômen
E tiro fora o seu umbigo

Vocês não se afobem
Que o homem dessa vez
Não vai morrer
Se ele voltar dou pra valer
Vocês botem terra nesse sangue
Não é guerra, é brincadeira
Vou desguiando na carreira
A justa já vem
E vocês digam
Que estou me aprontando
Enquanto eu vou me desguiando
Vocês vão ao distrito
Ao delerusca se desculpando
Foi um malandro apaixonado
Que acabou se suicidando.

Fragmentos de um diálogo amoroso entreouvido na praia

“Meu amor, você gosta de estar comigo?”

“Se eu não gostasse você já tinha levado um pé na bunda.”

“Putz, como você é grosso!”

(…)

“Amor, você me trocaria por uma mulher milionária, lindíssima e inteligente?”

“Nunca. Você continua sendo muito mais linda e inteligente.”

“Ah, meu Deus, que lindo! Você é tão fofo…”

“Tá vendo como você é? Quando eu falo a verdade você diz que eu sou um grosso. Quando eu minto descaradamente, você vem toda cheia de dengo.”

Rafael Galvão, o visionário da paixão

Há alguns anos, criei uma empresa virtual chamada GhostLovers, Inc.

Sua missão empresarial era possibilitar àqueles que a Providência não dotou de boa capacidade de expressão encontrar a sua cara-metade na internet; poderíamos também desempenhar a nefanda função de encerrar, em seu lugar, um namoro — ou relacionamento, como dizem esses modernos.

Seríamos algo como Cyranos de Bergerac cibernéticos, à disposição, caros Christians, para a conquista de vossas Roxanes ou, simplesmente, para um bom pé na bunda, com ou sem estilo, maldade ou piedade.

Cheguei a oferecer uma amostra grátis dos nossos serviços, mostrando o que fazer quando a ninfeta com quem você está saindo resolve lhe abandonar.

Era uma empresa promissora, mas sou forçado a admitir que virtual demais. Nunca foi a lugar nenhum. Talvez porque eu seja um sujeito de idéias modestas, não de grandes empreendimentos; talvez porque se a idéia de ajudar pessoas com problemas com o vernáculo me parecia muito boa, por outro lado a perspectiva de encarar uma mulher aos prantos feria um restinho de princípios éticos que ainda tenho. A GhostLovers, Inc ficou por aí, uma idéia esquecida em algum lugar.

Mas uma boa idéia não fica no limbo por muito tempo. Um chinês chamado Che acreditou numa premissa semelhante. E montou uma agência de término de namoros.

Ao Che, os meus votos de boa sorte. Sem despeito, sem inveja, sem tristeza. Porque não posso evitar notar que a sua empresa destina-se apenas a matar o amor, não a criá-lo ou fazê-lo crescer, ninando-o com juízo. Lá no fundo deste velho coração, fica a impressão de que falta algo na empresa do Che. Ele diz que pode “passar as informações de forma clara”, quando não era isso de que a GhostLover’s tratava; para nós, o que valia era o jogo jogado com a cabeça fria, com a certeza de que estaríamos aproximando duas pessoas que talvez viessem a se amar para sempre.

No fim das contas, o Che só destrói, não constrói. E este velho blogueiro ainda acredita no amor.

Que o Che fique rico destruindo os sonhos de alguém.

Eu não vim ao mundo para explicar nada

E-mail recebido:

Olá Rafael,
Li sua resenha sobre o livro “A morte e a morte de Quincas Berro d’água” e fiquei um pouco confuso. De acordo com outros artigos, o livro trata da morte repentina de um boêmio que abandonou a família e tem o corpo sacado do velório pelos amigos, que o levam para passar uma última noite nas ruas de Salvador. Ao final, ele é levado pelo mar. Escrevi só para tirar a dúvida, porque ainda não li o livro, mas pesquisei na internet, depois de ler uma matéria na Veja. (isso foi publicado há anos). E “País do Carnaval” é o primeiro livro de Jorge Amado, que ele escreveu aos 19 anos. Esse eu li, e nem é muito bom.

A resenha em questão é esta aqui. Vou enviar e-mail ao rapaz afirmando que sim, que tenho certeza da pertinência de minha resenha, escrita após a leitura da edição crítica lançada pela Gallimard, cotejada com o texto consolidado da segunda edição revista lançada pela José Olympio. Vou também lhe passar detalhes da minha conversa com o crítico literário inglês Terry Gillian, em 2001, na qual baseei muitas das opiniões contidas ali.

E hoje eu vou dormir feliz, com a consciência limpa e uma convicção inabalável de que fiz algo realmente bom.

A Love Supreme

O Tiagón deve estar dando pulos de felicidade.

A Barracuda lançou “A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane”, livro do Ashley Kahn (autor de “Kind of Blue”) que conta a gênese do disco homônimo de John Coltrane.

A Love Supreme é um daqueles discos que se tornaram referenciais absolutos do jazz, obras-primas necessárias para a compreensão do que a música popular teve de superior no século XX — a era em que a música erudita, com umas exceções aqui e ali, virou basicamente trilha sonora de filme. Para muita gente, este blogueiro não incluído, é o melhor disco de toda a história do jazz. O livro de Kahn lhe faz justiça ao explicar a evolução musical de Coltrane de maneira simples e abrangente, detalhar as gravações e explorar a importância histórica do disco. Não possui o impacto do outro livro de Kahn publicado pela Barracuda, “Kind of Blue”, provavelmente por seguir a mesma fórmula estrutural, mas é uma daquelas obras importantes para aqueles que querem entender um pouco mais de jazz.

A minha edição tem um defeito: as indicações das entrevistas que serviram de base para o livro (aqueles numerozinhos ao longo do livro) estão faltando, por um erro de editoração. Isso, no entanto, serve para reforçar uma tese que defendo há muito tempo: a não ser que você esteja precise de uma bibliografia que justifique o que você está escrevendo, 99% das notas de rodapé apresentadas em um livro são completamente dispensáveis. A ausência dos indicadores, embora eles façam falta aqui e ali, acaba tornando a leitura mais fluida, embora continue sendo um defeito.

O maior mérito do livro, no entanto, talvez esteja no fato de finalmente elucidar a razão pela qual tanta gente tem A Love Supreme em tão alta conta.

Ao longo dos anos, criou-se uma espécie de competição informal e inofensiva sobre qual disco era melhor, Kind of Blue ou A Love Supreme. Não é uma discussão importante, porque se trata de dois álbuns fabulosos. Mas é uma bobagenzinha que diz muito sobre a maneira como determinados fatores externos influenciam na percepção da música.

Pessoas como eu, provavelmente mais formalistas, vêm o Kind of Blue como um disco melhor — a grande obra prima do gênero — porque representa uma síntese brilhante de 50 anos de jazz, a começar pelo blues de So What. Em Kind of Blue, Miles Davis conseguiu sintetizar a história evolutiva do jazz ao mesmo tempo em que apontava novos caminhos, com uma elegância que jamais seria alcançada novamente.

Outros, no entanto, preferem A Love Supreme e sua busca espiritual, exemplificada já nos títulos das canções: Acknowledgement, Resolution, Pursuance/Psalm.

Não é nem de longe uma escolha insensata. É um disco fantástico, sob qualquer ângulo. Mas se o disco ganha em inventividade, em ousadia, por outro lado não tem o rigor e a perfeição estética de Kind of Blue; e uma pergunta que muita gente se faz (agora, sim: este blogueiro incluído) é por que tanta gente tem o disco em tão alta conta.

É provavelmente aí que está a maior qualidade do livro: ele permite vislumbrar que o álbum de Coltrane ascendeu à importância que tem — principalmente na esfera do rock e do pop — por questões extra-musicais.

A Love Supreme só poderia ter alcançado o status que alcançou em sua época, os anos 60. Foi a ideologia expressa por Coltrane em seu disco, a sua espiritualidade, que combinou perfeitamente com aqueles tempos. Os títulos, então, são fundamentais para que se aprecie a música, e para que se dê a ela a dimensão que alcançou. Direcionam a compreensão a partir de elementos que não deveriam ser fundamentais. Porque música é mais que isso. Apenas como contraponto, não interessam os títulos de Kind of Blue. Saber quem foi Freddie Freeloader não faz diferença. Interessa pura e simplesmente a música.

Isso não quer dizer, claro, que o disco valha apenas por essa razão. Nem de longe. A Love Supreme é um clássico absoluto, uma experiência fantástica para quem gosta de jazz. Com esse disco, Coltrane conseguiu dar um passo à frente em relação ao que se fazia então do jazz — e sem as porteiras escancaradas, por exemplo, de Ornette Coleman ou Herbie Hancock. O livro de Ashley Kahn é uma biópsia honesta do disco, e uma boa homenagem.

 

Mulher Frankenstein Para Onanistas Fetichentos

Quem inventou o negócio foi o Bia, uns 3 anos atrás.

A idéia é fazer uma mulher ideal a partir das melhores partes de mulheres diferentes.

Como diz a Tata, homem tem alma de açougueiro, e sempre vê uma parte boa numa mulher feia. Não custa imaginar uma mulher inteira feita de partes boas.

Então fica assim a brincadeira: eu digo uma parte do corpo que gostaria de ver na Mulher Frankenstein para Onanistas Fetichentos e passo a bola para outra pessoa. Só uma. Essa pessoa fica obrigada, então, a acrescentar mais um elemento na dita senhora e indicar uma pessoa para continuar a brincadeira.

Vamos ver onde vai parar.

Eu começo:

A voz da Peta Wilson, a Nikita do seriado de TV.

E embora por uma questão de justiça devesse passar para o Bia, e tenha imaginado que com o Alex eu poderia começar a mulher de baixo para cima, eu passo a batata para o Idelber.