As alegrias que o Google me dá (XXX)

simpatias para quem te fez sofrer
Um murro no olho. Um pontapé na boca no estômago. São as únicas simpatias em que posso pensar. E isso porque eu sou uma pessoa boa. Se eu fosse mau, sei de uns métodos de tortura bastante eficientes.

como seria o brasil hoje se tivesse dado certo essa colonização holandesa
Seria uma maravilha. A nossa capital, em vez de Rio de Janeiro ou, depois, Brasília, se chamaria Johannesburg. A Liberdade, em Salvador, se chamaria Soweto. Até aí tudo bem, eu encararia na boa. Mas para comer aquela neguinha da bundinha empinada e do peitinho bem duro lá no Cabula VI, eu teria que lutar contra o preconceito e contra a ordem social. E aí, meu amigo, a coisa ia ficar preta e eu ia partir para o terrorismo.

sou podofilo e quero ver fotos de pes bonito
Este blog aceita e tolera a sua quota de tarados. Mas entende também que é preciso restringir um pouco as coisas, e dividir o mercado em nichos específicos. Uma espécie de segmentação da tara. Podolatria — a arte de tirar uma meia como se tira uma calcinha — é domínio exclusivo do Alex.

videos curtos de mulheres fazendo um boquete
Ou “vídeos de mulheres pagando um boquete em um moço com ejaculação precoce”.

porque os numeros romanos nao tiveram sucesso
Esse povo é complicado. Esses algarismos foram os oficiais do império romano e mesmo hoje, mais de 2000 anos depois, ainda são usados. Mas o mané aí acha que não tiveram sucesso. Tudo bem. Então eu vou responder o seguinte: por causa da inflação. Quando nego viu que tinha que gastar MMMMDCCCLXXXVIII sestércios para comprar uma biga semi-nova, ano 577, preferiu se voltar para os arábicos. Era mais fácil até para pechinchar.

como os cristães eram mortos no coliseu eo porque?
Alguns cristãos era engolidos por leões, outros trucidados por gladiadores (isso no Coliseu. Fora dele, Gibbon conta que aqueles malucos se jogavam em fogueiras com a alegria de mártires, mais ou menos como homens-bomba islâmicos hoje estilhaçam ônibus escolares). Por quê? Ah, rapaz, porque aqueles fanáticos do aleluia eram chatos de doer. Os romanos deliravam ao ver aqueles enjoados fazendo cara de tacho enquanto eram perfurados pelos gládios.

musica com uma sainha pequenininha
Uma música desfrutável, que não se respeita, né? É música brega, feita para se ouvir enquanto se dança com a puta mais bonitinha do cabaré, e se tenta passar a mão em sua bunda, por sob a sainha pequenininha.

por que as mulheres são escrotas?
Elas não são escrotas. Você é que é um babaca. Acostume-se a isso.

por que o brasileiro não reconhece suas qualidades
Porque passa tanto tempo sem ver as coitadas, sem ligar para elas, sem nem saber que existem, que quando as encontra por acaso na rua não sabe mais quem são.

sorte de hoje com o amor
A sua, minha filha? Nenhuma. Nenhuma, mesmo. Jogue no bicho que você ganha mais.

manual do suicídio
Juro que se tivesse um eu te dava. Te mandava por Sedex, até entregava pessoalmente. Porque se até para se matar você precisa de um manual, a coisa está realmente feia e você não tem mais jeito.

frases no preterito mais que perfeito
O pretérito mais que perfeito é um absurdo da língua portuguesa que deveria ser imediatamente extinto. Porque não existe um passado perfeito, muito menos um “mais que perfeito”: todos eles são imperfeitos, em todos mudaríamos alguma coisa, de todos nos arrependemos.

por que algumas pessoas acordam a noite com a boca seca?
Porque vazam, não é não?

como um homem do signo de cancer faz sexo com imagens
Igualzinho a um homem de sagitário ou de capricórnio. A punheta diante de uma foto de, sei lá, Scarlett Johannson é um valor universal. Hermenauta, qual é mesmo o seu signo?

eu sou pobre pobre pobre de marré marré marré
Ih, rapaz, é mesmo? O que você quer que eu diga? Eu não posso te consolar. Eu não posso dizer que você vai ficar rico porque detesto mentir. Você vai continuar pobre. Mas eu também estou no mesmo barco, com as mesmas perspectivas, então não se zangue comigo e aceite o que lhe digo: você se fodeu.

eu quero ver fotos de goiania
Por quê? Tanta coisa bonita por aí — Paris, Roma, Praga, Salvador ou Rio — e você quer ver fotos de Goiânia. Já sei: você é michê, né?

significados de tamanho não é documento
Só um: desculpa. Talvez mais outros dois: consolo barato e auto-engano.

a professora e o mecanico fazendo sexo em hoteis
Você já viu o salário de uma professora, menino tarado? Viu como andam vestidos os mecânicos? Eles não têm dinheiro para fazer sexo ou qualquer outra coisa em hotéis. No máximo em um motelzinho vagabundo, daqueles de 10 reais a hora. Ou atrás da moita. Ou encostados numa árvore numa viela escura. Em vez de arranjar uma fantasia cara assim, seja mais esperto e tenha como fetiche essa coisa mais rústica, mais animal, esse retorno à natureza. Até para ser fetichista é preciso um pouco de método e senso de realidade.

quero jogar o jogo dabarbie e ser sua baba
E isso é tudo o que você quer ser na vida? Babá da Barbie? Por que essa juventude se contenta com tão pouco? No meu tempo a gente queria ser advogado, médico, uns poucos iludidos queriam ser policiais ou bombeiros. Mas babá? Babá eu nunca vi. Acho que eu não tinha amigas tão degeneradas assim.

penes acima de vinte e cinco centimetro
O sujeito, insatisfeito com a sua insignificância, em sua inocência acha que se tivesse um pênis de 25 centímetros a glória sorriria para ele e as mulheres se jogariam aos seus pés. Senhor, tende piedade dos pequenininhos, eles não sabem o que querem.

videos de homens q chupam o proprio penis
Procure pelo filme “O Anão Superdotado e Corcundinha”, que fez um certo sucesso em 1988 com trilha sonora de Nelson Ned.

bumdas feias
Se forem mais feias que o seu português, amigo, devem ser piores que a bunda da Yoko Ono.

pensamentos eu te quero
Nada tão triste como um amor não correspondido. Você quer ter pensamentos, mas eles não querem você.

mulheres casadas com 40 anos apaixonadas por menino de 20 que fazer?
Comer os bichinhos. Se as coroas não comem os garotos, quem vai comer? Por isso, minha amiga, se jogue. Imagino que seu marido tenha lá seus 50 anos. Não funciona mais como funcionava antigamente — isso se a senhora teve sorte e ele funcionou algum dia. Então, no seu caso o garoto de 20 anos vai representar um sopro de vida — essa vida que é doce, mas é dura — no seu cotidiano sexual. Talvez ele ainda precise ser burilado, mas do alto dos seus 40 anos a senhora deve ter aprendido alguma coisa e poderá guiar o garoto ingênuo e ansioso. Portanto, minha senhora apaixonada, deixe-se amar. Deixe-se levar pelo sentimento que lhe inunda o coração e lhe torna a vida rósea. E coma o rapaz com gosto, coma bem comido até perder o fôlego, até esfolar o moço, porque em 20 anos você vai ser só rugas e pelancas e aí o meninão vai lhe trocar por duas de 30.

porque foi criado o estado de israel?
Ah, eu sei que vou procurar sarna para me coçar. Sei que vai aparecer gente aqui dando carteirada de professor e justificando Israel com o cativeiro no Egito. Sei que vão me chamar de Goebbels da caatinga, de Himmler do mangue. Sei inclusive que ninguém vai entender a piada e vai achar que eu acho que tudo se resume a isso, mesmo. Mas só se vive uma vez. Então eu respondo: para foder os palestinos.

os paises que moram na mesopotâmia
Eram vários, mas parece que um se mudou para um bairro melhor. Aquele estava ficando muito violento. E a vizinhança era ruim.

fatos da historia capitoes da arei que comprovem o periodo moderno
É nisso que dá. O menino passa o dia ouvindo Linkin’ Park e Slipknot, batendo punheta e tentando sem sucesso comer as amigas através do MSN. Aí, quando chega a hora da prova, passa uma vergonha dessas. Vai fazer algo de útil da sua vida, vagabundo.

ele tem penis pequeno e virado pra cima
Não reclame. Tenho visto casos muito piores neste blog. Mas olha, o pênis dele é virado para cima de ousado que é. Devia estar virado para baixo, envergonhado, triste pela sina miserável que lhe foi imposta.

declaração de amor para rafael
Dispenso. Eu quero é dinheiro.

eu tenho 14 anos se eu vazer cademia eu creço porque eu tenho medo de vazer cademia e nao creçer
O problema não é você ser baixinho. O problema não é você ser fanho. O problema é você ser quase analfabeto. Esqueça a academia e vá para a escola.

simpatia para separar o namorado dos amigos
Aí está ela, em todo o seu esplendor. A louca. A mulher que elevou a insegurança e o ciúme ao nível máximo, que deixaria o namorado trancado em casa, se pudesse. A mulher insensata que destrói a vida do seu namorado sem saber que destrói também a sua. Ah, triste sina a do namorado dessa moça.

live fast die young
And leave a beautiful widow, please.

putaria com velho
A única putaria que se pode fazer com velho é tirar a roupa na frente dele e cantar: “A pipa do vovô não sobe mais…”

rafael eu te amo
Que bom. Você tem bom gosto. Só não entendo por que mais gente não me ama também. Eu sou um doce. Um dia eu entendo isso.

mulheres transando e fazendo coisas nojentas
Quer apostar quanto que esse aí é do tipo que gosta de apanhar e ainda grita “me bate, mamãe!, me bate, mamãe!”? Imagino o grau de culpa que sente esse rapaz ao imaginar qualquer coisa que remotamente lembre a palavra sexo.

casais liberais e maridos que gostem de ver sua mulheres fudendo com outros machos gauchos
Casais liberais são fáceis de achar no Rio Grande do Sul. Difícil é achar um macho gaúcho.

a vida nos ensina amar amar a vida nos ensina tambem a dar
Se você for bonitinha e gostosinha e vadia, pode dar para mim. E deixe que eu agradeço à sua professora.

anatomia da vagina da cachorra
Não basta ser zoófilo. Tem que se dedicar. É preciso saber onde se está entrando. O zoófilo consciente faz assim: estuda a vagina da cachorra porque não é só ele que deve ter prazer. Cachorras também gozam. E zoófilos legais gozam por último.

imagens gays dando o rabinho para gays
Taí. Eu nunca vi uma frase tão bonitinha, tão doce, tão pueril. Fofa, fofa. Eu só faço uma pergunta, que essa independe de orientação sexual: por que “rabinho”? O que você, meu caro, tem contra um rabão daqueles que param o trânsito? Alguns valores, eu não canso de repetir, não podem ser deixados de lado jamais.

porque a saliva é branca?
Porque ela não engoliu.

Música do dia

Música que anda fazendo certo sucesso aqui pelas bandas do norte, de uma banda de forró eletrônico chamada Aviões do Forró:

Você até que é bonitinha
Mas é abestalhada
Pegou o gordinho aqui
Agora está apaixonada

Pois é.

O meme dos cinco livros

O ídolo de Reinaldo Azevedo, o Hermenauta, me passa um meme meio confuso, que ao que tudo indica a gente interpreta como quiser.

Cinco livros.

Quando vi o meme lembrei de um post que eu tinha escrito sobre livros que, de uma forma ou de outra, foram importantes em algum momento. No momento, não ando lendo nem bula de remédio. Por isso resolvi reciclar o post, acrescentando uma ou outra coisa, porque vida de preguiçoso é assim mesmo. Dizem que a crise é a mãe da criatividade? Mentira. A mãe da criatividade é a preguiça. A preguiça é o motor do mundo.

Quis fazer uma listinha com os 10 livros que de uma maneira ou outra mudaram a minha vida, mas não consegui imaginar um só que me tenha feito dar uma guinada no meu modo de ver o mundo. Por mais que eu goste deles, um livro é só um livro. Devo ter lido, por exemplo, “O Apanhador no Campo de Centeio” tarde demais, rápido demais, porque nunca achei que tivesse nada em comum com Holden Caulfield, ou que o sujeito fosse um modelo que eu deveria seguir. Para mim é só mais um livro; nunca consegui compreender, de verdade, o impacto que ele teve em uma geração inteira.

Em vez disso fiz a lista dos livros que foram importantes em algum momento. Não são os que mais gostei ou admirei — muitos estão longe disso, e a melhor prova é que a lista não inclui nenhum Balzac. Mesmo assim não chegam a 10, não que eu lembre. E fiquei envergonhado ao ver que não posso dizer que “A Montanha Mágica” ou “No Caminho de Swann” foram tão importantes. Cada um recebe o que merece.

As Aventuras de Tom Sawyer, Mark Twain
Durante um tempo — fim da década de 70, começo da de 80 — eu queria ser Tom Sawyer e viver numa cidadezinha quase rural, às margens de um rio onde pudesse brincar de pirata.

O Cobrador, Rubem Fonseca
A linguagem do conto que dá título ao livro foi uma porrada. Literatura urgente, seca, brilhante. Durante anos fui alucinado por Fonseca, que hoje se arrasta repetindo as mesmas palavras, cada vez mais débeis. E ele conseguiu me surpreender mais uma vez, com “Lúcia McCartney”, provavelmente o melhor livro de contos da literatura brasileira. Não é todo escritor que consegue isso.

Beleza Negra, Anna Sewell
Não sei se o meu fascínio por cavalos veio antes ou depois de ler este livro; provavelmente antes. Mas ele foi fundamental para me dar uma visão humanista da relação homem-cavalo. Obviamente, essa viadagem de “humanismo” foi pras picas no dia que o primeiro cavalo tentou me derrubar e eu me vi obrigado a mostrar quem mandava naquela bodega.

Como Era Verde Meu Vale, Richard Llewellyn
Já falei sobre ele, mas é sempre bom lembrar: a linguagem do livro é divina. Há algo de épico nela, de quase bíblico. E eu recomendo a tradução do livro em português. Essa grandiosidade fica ainda mais presente nela, o que configura um caso raro de tradução à altura do original, eventualmente até melhor.

O Relatório Hite, Shere Hite
Ah, eu recomendo que todo adolescente do sexo masculino leia esse livro. Vai lhe poupar muitos erros na vida e ensinar muitos atalhos, porque só o caminho da salvação é pedregoso, e o que interessa aqui é sacanagem, não contemplação: atalhos são fundamentais. Acima de tudo, é imprescindível que ele nunca esqueça que a meta é superar o conhecimento inestimável contido ali.

Minha Vida, Meus Amores, Frank Harris
Autobiografia de um sujeito que marcou época como editor de uma revista na virada do século XIX para o XX, com uma mistura interessante de sacanagem, literatura e muita mentira. Eis ali um sujeito que soube viver. E que me mostrou o valor da persistência. Infelizmente só li o primeiro volume, que tem cenas memoráveis como a coroa casada que lhe paga um boquete, engole e diz que essa é a maior prova de amor que ele podia receber. É uma boa definição de amor. O livro foi banido em vários países por causa de sua temática e linguagem — que, hoje, é rebuscada e rococó. Mas até hoje lembro de expressões singelíssimas como “páramos do prazer” (que significa “uma gozada fenomenal”) e “relicário do prazer” (nome chique para boceta).

Brás, Bexiga e Barra Funda, Antonio de Alcântara Machado
Outro daqueles livros que trazem uma linguagem fantástica. Eu fiquei fascinado pela rapidez quase telegráfica, pela concisão do sujeito. É um pequeno grande livro, aqueles que lhe deixam bobos na adolescência, e que mostram que um texto pode ter mil e uma possibilidades.

A Experiência Burguesa – Da Rainha Vitória a Freud, Peter Gay
Livro do autor de uma excelente biografia de Freud, que me fez entrar em contato com o básico do pensamento freudiano. É algo próximo ao que chamam de psico-história e é fascinante e erudito. Para um pseudo-marxista ignorante como eu, era uma visão de mundo completamente diferente. São cinco volumes imensos, ao todo, e cada um deles vale a pena.

Pranto por Ignacio Sanchez Mejías, Federico García Lorca
Foi o livro que me ensinou a gostar de poesia.

Diário

Um bom chianti; Bob Dylan cantando Thunder On The Mountain; um bom texto para um VT; meu motorista feliz porque o dia foi leve e ele pôde ir para casa antes das dez, um desses dias raros em que ele pôde até almoçar antes das cinco — embora eu ainda não –; um dia em que ninguém teve que ouvir meus gritos; as mulheres da minha vida na sala desenhando flores.

De repente, a gente não pode querer muito mais da vida.

Daqueles que usam sapatos maiores que seu pé

Comentário a um post sobre o nêmesis deste blog, o pinto pequeno:

q besteira de vcs tudo por causa do tamanho. q merda é essa o meu é pequeno tamabem e daí?
Por: marcao | junho 29, 2007 11:12 PM

Marcão? Marcão?

A primeira vez que vi Vanusa Spindler

O Ina me pede para falar das cinco capas inesquecíveis da Playboy.

Eu não sou exatamente um leitor da Playboy. E se fosse, preferiria a americana, com uma posição política clara e um certo engajamento social, dentro do contexto americano, que falta à versão nacional, periódico vagabundo que finge ser revista para gente fina quando não passa muito de material para punheteiros.

Cinco capas inesquecíveis, portanto, talvez seja algo que não dê para lembrar. Mas há uma, uma só, que não me sai da cabeça, nunca saiu, uma tão preciosa que mesmo hoje ainda lembro da primeira vez em que a vi. O tempo não parou — são quase 20 anos –, e a lembrança não passou, sequer ficou mais pálida. Epifanias não são algo muito comum na vida da gente.

Ainda lembro da primeira vez que vi Vanusa Spindler. 1989, primeiro semestre — olhar a capa agora me aviva a memória, era junho, aquele mês de luz suave e ar fresco. Eu vinha andando pelo Campo Grande, quase em frente ao teatro Castro Alves, vindo da Vitória e indo em direção ao Forte de São Pedro. Então tive uma visão, numa banca de jornal.

Ela estava lá, de semi-perfil, mas olhando para mim — ou assim queriam que eu acreditasse, e eu acreditei; acreditei em tantas coisas naquela manhã. Vestia um macacão vermelho de corrida de carros — eu lembrava dela com macacão vermelho, e é assim que ela vai permanecer –, aberto o suficiente para deixar seus seios à mostra.

Ver os seios de Vanusa Spindler pela primeira vez é como ver o mar pela primeira vez, é como ver o Rio de Janeiro pela primeira vez, é como ter bebido leite azedo a vida inteira e só então descobrir o mel. É como dar o primeiro beijo, é quase como saber, pela primeira vez, o que é estar dentro de uma mulher.

Com Vanusa Spindler uma geração inteira descobria que a perfeição existe e é possível.

Me apaixonei, perdidamente, irrecuperavelmente. Vanusa — antes um nome tão feio, mas de repente um som angelical que fazia promessas que deveriam ser sempre cumpridas, como aquele sorriso que ela dava para mim. Eu comprei aquela revista. E se a capa era apaixonante, as fotos no miolo eram daquelas que definem uma vida.

Não eram só os seios da Vanusa Spindler. Havia mais, muito mais. A boca, os pêlos — ah, os pêlos –, tudo naquelas fotos evocava dias e noites trancados, isolados do mundo, ela vestida com a sua maior camisa, que nela chegava aos joelhos, e acordando com a cabeça coberta por causa do frio do ar-condicionado; ou sentada na beira do sofá, quase caindo — há tantas imagens que podem ser lembradas agora, depois que 20 anos se passaram. A Vanusa lhe fazia imaginar coisas que você procuraria pelo resto da vida.

Mas isso foi há quase 20 anos. São essas duas décadas que me fazem ter uma certeza: eu não gostaria de ver a Vanusa Spindler novamente. 20 anos, quase, costumam ser cruéis para seios — mas são violentamente sádicos com seios que só existem assim, como quimera, como um ideal platônico inalcançável; é a inveja que o tempo sente de sua beleza arredondada e firme. E quando ele implica com algo como os seios da Vanusa Spindler, supernovas que por definição brilham incomparavelmente por um átimo e se apagam para nunca mais, então o seu trabalho mesquinho é ainda mais perverso. Supernovas cegam, e é essa cegueira que me faz ter certeza de que não, eu não quero ver o que o tempo trouxe para essa mulher, tenha sido ele bom ou malvado.

Tudo isso para não esquecer da primeira vez que vi Vanusa Spindler.

Republicado em 03 de setembro de 2010

Últimas notícias do .cu

Depois de ser gentilmente convocado a se retirar de Cuba, Alex viu que estava com problemas sérios. Seu .cu, tão útil até então, não servia para mais nada. Ele não tinha dinheiro para ir embora, não podia pegar um avião, sequer carona em um cruzeiro.

Em compensação, assim que a notícia de que ele tinha sido mandado embora do país começou a circular, dissidentes cubanos viram no Alex sua chance de fugir para Miami. Choveram convites para que o Alex os acompanhasse em suas embarcações improvisadas rumo à Flórida. Miami, para quem não sabe, é o grande sonho dos cubanos. Maior até que para os muambeiros brasileiros de classe média. Com a garantia de que ninguém tentaria segurar o Alex, a sua companhia passou a ser extremamente desejada. Ele era um salvo-conduto para todos.

O Alex demorou a se decidir, mas as crises de abstinência dos mata-ratos de 8 centavos o pressionaram. Finalmente aceitou a oferta do santero que o havia traído: o macumbeiro tinha caído em desgraça ante o regime por não conseguir encontrar um chupador de pés para salvar Fidel Castro que, coitado, agonizava enquanto babava o seu charuto de maconha.

Ao chegar à praia, Alex ficou impressionado com o barco improvisado pelo santero. Era um velho Studebaker 1956 sobre câmaras de ar de pneus de caminhão, que garantiriam sua flutuação. Como vela, uma colcha vermelha bordada com a cara do Che. E um pequeno motor, que antigamente movia uma máquina de caldo de cana.

Além deles, outras 14 pessoas seguiriam naquele barco rumo ao sonho americano e ao sub-emprego cucaracho.

Milhares de cubanos, que já conheciam a fama de Alejandro Cruz y Almeida, El Boquita de Oro, se amontoavam na praia. Queriam se despedir da lenda boqueteira. Brandiam bandeirinhas vermelhas com o rosto de Che. Até mesmo o negão que protagonizou com o Alex o mal-entendido do primeiro e-mail apareceu: “¡Alex, deja tu .cu conmigo!”; mas o .cu do Alex já tinha sido confiscado pelas autoridades, estava gasto, não prestava para mais nada.

Os exilados já se afastavam da praia quando Raúl Castro apareceu correndo, botando os bofes para fora. “¡Joder! Que me esperen por favor! ¡Dejen que yo me vaya con ustedes!”

Os fugitivos ficaram com medo e pararam.

“Acaso no sabeis que há pasado. Fidel está muy mejor, así, de golpe. Allaran a una jinetera, una amiga del Alex, que le chupo los pies con mucho gusto. Así que cuando se puso mejor, lo primer que hizo ha sido mandar a matar la desdichada de mi mujer. Pobrecita, Vilma. Pero no pasa nada, ella estaba toda estropeada. Entonces que Fidel me ha dicho: ‘¿Sabes porque te vas a ser siempre el segundo, come mierda? Porque no tienes cojonnes para hacer lo que debe ser hecho. No tienes cojones, puto cabrón. Yo si, te teria matado, acaso estuvieras tal como yo, en la cama. Pero no mataste, ahora te toca a ti irte de Cuba como en 24 horas, o entonces te mandaré al paredón.’ ¡Por favor, ayudenme!”

Havia algo de generoso, de altruísta naquele grupo de dissidentes maltrapilhos. Aquele era o homem que os havia perseguido; mas deram a mão a ele.

“Tienes um charuto?”, perguntou o Raúl.

Ao ouvir essas palavras o Alex surtou. Fazia dois dias que não fumava os estoura-peitos de 8 centavos. Avançou para quebrar a cara do Raúl.

“¡Hijo, no hagas eso!”

“Tu hijo um carajo, viadón! Segundón! Segundón!”

O barco, obra-prima da engenharia americana d’antanho combinada à criatividade cubana d’agora, zarpou. A previsão meteorológica para aqueles dias anunciava tempo bom, quase uma calmaria cabraliana. Mas no fim da tarde daquele primeiro dia um furacão se abateu sobre eles como um soneto de Vinícius: de repente, não mais que de repente. Era o Katrina, com saudades do Alex. A colcha bordada com a cara do Che saiu voando em direção a Cuba. Os passageiros se seguraram como puderam. E tão rápido quanto chegou, Katrina se afastou, moça volúvel e intensa.

O barco estava à deriva.

Dois, três dias se passaram. O fantasma de Cabrera Infante começou a aparecer para o Alex. O último taco foi dividido por 17 pessoas. A morte lenta se aproximava.

Talvez nem tão lenta assim. No horizonte apareceu um barco da Marinha cubana. Os exilados se apavoraram. “Vamos morrer!”, gritaram — como se o prognóstico anterior fosse melhor. O barco se aproximou e, em um megafone, um policial costeiro avisou:

“Hemos venido coger a Raúl Castro. Fidel le ha perdonado.”

“¿Que va a pasar a los demás? ¿Nos llevarán hasta Miami? Volver a Cuba todavia nos parece mejor que volvernos comida de tiburones.”

“Ustedes a la mierda.”

E foram embora. O Alex, desesperado, tentou uma última cartada: “Papá! Papá Raúl! No mi esquieça! Yo soy tu hijo, lembra? Yo te amo, papazito Raúl!” Do barco, coberto por um cobertor vermelho bordado com a cara do Che e fumando um Romeo y Julieta, Raúl não falou nada. Mas deu uma banana para o Alex.

A calmaria se prolongou por dias. Sem saber onde estavam, os exilados começaram a delirar. Dois se mataram a mordidas, um achando que o outro era um frango assado. Outro se jogou no mar para pegar um peixe e foi comido pelos tubarões. O Alex já não via o fantasma do Cabrera Infante; agora era o Pedro Juan Gutierrez, que lhe aparecia à noite e dizia palavrões ao seu ouvido.

Na sétima noite, esgotados, todos dormiram. Menos o santero. Ele resolveu pedir as boas graças dos orixás e começou a fazer um despacho no barco. Mas não tinha bode, não tinha galinha, não tinha sequer mungunzá para oferecer a Oxalá; então acendeu uma vela.

O Alex não sabe direito, mas parece que a vela caiu e furou uma das bóias de câmara de ar de caminhão. Com o peso excessivo, outra estourou, iniciando uma reação em cadeia; e o velho Studebaker 1956 começou a afundar.

De início o Alex se segurou em um exemplar de “O Estado e a Revolução”, de Lênin; o Ladrão Boliviano usou “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Engels; o santero boiava e rezava para Iemanjá. As correntes foram afastando uns dos outros, e quando o Alex se deu conta, perto dele só estava o Ladrão Boliviano.

O Alex não se entregaria. E começou a nadar em direção ao oeste, seguido pelo seu amigo de Guantánamo.

Foi quando um tubarão arrancou as pernas do Ladrão Boliviano. Mesmo assim ele continuou nadando em direção à liberdade. Veio outro tubarão e arrancou os braços do coitado, que a partir daquele momento jamais voltaria a bater carteiras. Levaria o braço à testa, se braço ainda houvesse, e disse:

“Vete Alex, salvate! ¡Me muero! No mires hacia trás. ¡Pero vertas una lagrimita por mi cuando mirar a un niño golfo robando a una viejita!” E começou a afundar.

Mas o Alex não deixaria o Ladrão Boliviano. Outro deixaria, tentaria se salvar. Mas não o Alex. Nunca. Tantas lembranças das noites passadas em Guantánamo. E por isso, mesmo sabendo que ainda havia milhas a vencer, que a jornada seria árdua e quase impossível, ele foi forte: “Se segura em mí, amigo, y yo te levaré à libertad!”.

O Alex nadou. Nadou além de suas últimas forças com os tubarões atrás, atiçados pelo sangue na água. Estava prestes a desistir, já tinha abandonado as esperanças de voltar a ver o Oliver, quando viu a costa. E de algum lugar, talvez das lembranças dos pés chupados ao longo de 30 anos, conseguiu forças para salvar a si e ao Ladrão Boliviano.

Chegaram à praia.

O Alex, extenuado, disse: “Guapo, estoy fodido”. O Ladrão Boliviano começou a chorar. “Desculpame, Alex, pero no habia outra manera de cogerte.”

O Alex não ligou. Olhou em volta para ver onde estavam: umas cabanas de pescadores, apenas. “Nossa, Miami é uma bosta”, pensou. Já se preparava para desmaiar de cansaço quando viu policiais mexicanos se aproximando. Eles estavam no México. Seriam salvos. Mas sabia que desde que o Fox virou presidente os mexicanos olham enviesado para os cubanos. Então fez um apelo: “Yo soy brasileño!”, para garantir que não seria mandado de volta para Havana.

Os policiais mexicanos começaram a chutar a cara do Alex. “Brasileño de mierda, no les queremos aqui! ¡Desgraciados! Ustedes vienen y quitan todos los trabajos de nuestros inmigrantes ilegales. Por su culpa, miles de mexicanos no pueden ser busboys en EUA y llevan una vida de miséria aqui. Brasileños jodidos. No saben nada de lo que tenemos que pasar por su culpa. ¡Necesitamos el dinero norte americano, hijos de puta!”

Foi quando um deles reconheceu: “¡Callate! Que estás hablando con el Boquita de Oro!” A fama do Alex já tinha atravessado o golfo e chegado à terra da tortilla. E então os policiais fizeram fila e deram os pés para o Alex lamber.

Com os beiços inchados e ensangüentados, o Alex caiu de boca nos pés calejados dos policiais ali mesmo, na praia, sob o murmurejar suave das ondas.

Sangue, areia e chulé. O Alex nunca tinha feito algo parecido, e aquelas sensações novas invadiram o seu corpo. Ele se sentia Tyrone Power cortejando Rita Hayworth, ou vice-versa, e ficou excitado. Os mexicanos notaram o aumento do volume nas calças do Alex e, incomodados, deram-lhe um chute no saco e uma coronhada na cabeça. Mas o Alex estava enlouquecido; e chupava seus pés com a fúria e o abandono dos amantes que sabem que aquela é a última vez. Ele sabia que ia morrer, e agradecia aos deuses dos pés pela morte linda que lhe fora concedida.

Mas chegou a hora de colocar nesta história um deus ex-machina, que deveria ter aparecido no e-mail anterior mas faltou porque tinha dançado salsa até amanhecer. Agentes da polícia secreta cubana (os originais, aqueles com uma vasta pentelheira) chegaram e mataram os policiais mexicanos. Alex Castro não podia morrer ao fugir de Cuba. Seria má propaganda para o regime. Os sujeitos pegaram o Alex e o Ladrão Boliviano, levaram-nos para um hotel vagabundo em Monterrey e desapareceram, que um deus ex-machina não pode ficar no mesmo lugar por muito tempo.

Bem, é isso. O e-mail do Alex termina aí. Ele está no México, e está bem. Volta para o Brasil em poucos dias. Disse que o Ladrão Boliviano está se recuperando, e pretende ficar em Mérida: já recebeu uma proposta de emprego em um campeonato anual de arremesso de anões — foi criada uma categoria especial para ele, a categoria “cotocos”. Mas chora sempre que lembra que breve chegará o dia em que terá que se separar do seu amigo brasileiro. O Alex também ouviu falar da jinetera. Depois de lamber o pé monstruoso e salvar a vida de Fidel, ela agora está por cima da carne seca. Não bate mais calçada, e sua grande diversão é sair à noite pelas ruas de Cuba em seu novo Packard 1948 e cuspir na cabeça das outras jineteras. Quanto ao santero que o dedurou, conseguiu se salvar apesar de Iemanjá tê-lo mandado à merda; hoje é pastor da Universal, e segundo as más línguas do Malecón — que ainda é conhecido por Maricón, graças ao Alex — é servido todas as noites por aquele grupo de presos que tentou currar o nosso herói. É um homem feliz. E o Raúl, o pai putativo do Alex, continua presente às solenidades oficiais, sempre dois passos atrás de Fidel, cuja morte espera com um misto de ansiedade e tristeza.

As pessoas em Cuba, nas noites quentes de verão, sentam na amurada diante da praia de Varadero e lembram os bons tempos de Alejandro Cruz y Almeida, El Boquita de Oro. Contam histórias que presenciaram e histórias de que apenas ouviram falar. A lenda cresce a cada dia, fica mais rica, peripatética, e detalhes são criados a cada nova noite em que, com seus charutos de um peso, os cubanos se reúnem para rememorar a espantosa saga de Alex. Todos hoje conhecem as histórias do grande Alejandro, como conhecem o navegar intrépido do Granma; o seu duelo com Fidel, a forma como nadou até Miami com cinco aleijados engatados em seu rabo, o dia em que chupou os pés de 5 mil pessoas em uma hora, a rebelião que comandou em Sierra Maestra, o modo como renegou seu pai Raúl Castro e adotou um novo nome para lutar pelo socialismo. Nos terreiros de santería derramam rum para Alejandro antes de Exu; e falam do seu .cu mágico. Uns dizem que ele desapareceu no ar, durante o legendário duelo com Fidel, mas que voltará à frente de um exército de chupadores de pé quando chegar a hora de levar Cuba de volta ao socialismo. Alejandro Cruz y Almeida é hoje um herói nacional, como o Che foi um dia. Cuba hoje está coberta de colchas vermelhas bordadas com a cara do Alex; ele trouxe de volta o espírito da revolução, quando bandeiras rubro-negras tremulavam em cada casa, comemorando a conquista da dignidade. Estão pensando até em mudar o nome da Biblioteca José Martí para Biblioteca Nacional Alequito Boca de Oro. Assim que Fidel morrer.

Mas para mim, que contei a sua história tal como me foi relatada por ele mesmo — sem aumentar ou diminuir, que licença poética é dispensada por tão bela e educativa história —, não sobrou nada. O filho da puta não trouxe mesmo a porra do meu Cohiba.

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Republicado em 30 de agosto de 2010

Uma resposta, finalmente

Há na vida alguns mistérios sem resposta, aquelas perguntas que nos fazemos há tantos séculos e que ainda não conseguimos responder. De onde viemos? Quem somos nós? Qual piteco é o elo perdido? O que é a física quântica? Há vida fora deste planeta? Deus existe? O que havia antes do Big Bang? Jesus Cristo era superstar?

Mas o mais insolúvel dos mistérios mais insolúveis diz respeito a uma coisa pequena, que só a rarefação da cultura pop pode sustentar.

Por que super-heróis usam aquelas roupas espalhafatosas de lycra? O que os faz sair assim, no meio da rua e sob a vista das gentes, com uma malha mais ridícula que as calças xadrez de que artistas tanto gostam? Por que um sujeito, que graças ao sol amarelo é um semi-deus, insiste em usar a cueca (vermelha, ainda por cima) sobre as calças?

De onde vem essa sexualidade dúbia que permeia os justiceiros mascarados? Por que o Batman ceva o Robin (e quando ele cresce, é imediatamente trocado por um mais novo)? Por que as capas esvoaçantes nas noites escuras, como Clóvis Bornay vestindo “Delírio de Afrodite em Casbah” em noite de carnaval?

Essas perguntas finalmente têm resposta. Super-heróis foram crianças vítimas de abuso sexual, como o Homem-Aranha.