Marmelada, Edkallen, marmelada

Só pode ser provocação, só pode.

A gente passa uns diazinhos longe do mundo, aí vem o Edkallen sacanear. Vem e diz que alguém fez uma eleição esquisita para escolher a maior banda de rock de todos os tempos, e o resultado foi Pink Floyd em primeiro lugar, seguido pelo Led Zeppelin, Rolling Stones e The Who. Os Beatles não entraram sequer entre os 10 primeiros.

Curioso. Para ficar apenas nas quatro primeiras bandas, o fato é que todas foram maiores e mais influentes que os chatos do Pink Floyd. Até hoje se ouve ecos de sua música, de um jeito que o PF jamais conseguiu.

Certo, os órfãos de Syd Barrett têm muitos fãs. A Banda Calypso também. Mas nunca fizeram o sucesso comercial do Led Zeppelin, por exemplo. Comercialmente os anos 70, década em que o PF fez mais sucesso, foram do Led Zep e dos Wings de Paul McCartney (sem contar sucessos menos influentes, como Peter Frampton, Bay City Rollers, etc.). Os chatos do PF apenas ocuparam um pequeno nicho, que aliás ocupam até hoje — o Dark Side of The Moon ficou mais de 500 semanas nas paradas de sucesso. Talvez esse nicho aumente ou diminua de acordo com a oferta de cannabis no mercado, mas é um nicho consistente e regular.

Acontece que não é isso que conta. É a capacidade de uma banda de influenciar o som de uma época e das seguintes. Nesse caso, falar dos viciadinhos de Mick Jagger é covardia. Se alguma dessas 10 bandas merece o título, são os Rolling Stones. Seguida pelo Who e pelo Led Zep. São bandas que deixaram um legado muito maior que os maluquetes edipianos. Virtualmente todas as bandas de rock do mundo devem algo a essas duas bandas. Mick Jagger e Robert Plant definiram o physique du rôle do cantor de rock. Pete Townshend e Keith Richards sedimentaram o papel do guitarrista. Roger Waters só encheu o saco com seus lamentos e sua fraude intelectual — dizer que “nós não precisamos de educação” é cuspir no prato que comeu, porque foi a reforma educacional da Inglaterra no pós-guerra que possibilitou a grande explosão do rock um pouco mais inteligente naquelas plagas.

Mas isso era de se esperar. Basta olhar para os outros colocados. Guns ‘n’ Roses. Bon Jovi. Essa votação foi certamente feita por gente que descobriu o rock através das Spice Girls e de Rick Astley.

O horror. O horror e a decadência.

…E no terceiro dia

Em 1980, os Beatles já tinham deixado de pertencer ao imaginário popular. Se hoje eles são um mito, na época eram apenas uma grande banda que tinha acabado.

Aqueles eram os anos da discoteca. Quem não viveu aquilo, ainda que marginalmente, não tem idéia do que era. Disco music era o verdadeiro mainstream, e as pessoas lotavam discotecas e se vestiam como Tony Manero; pior, tentavam dançar como ele, sem conseguir.

O rock, por sua vez, tinha passado por outras ondas, como o progressivo e o punk. Para os poucos que ainda ouviam a música dos anos 60, que não perdiam tempo com os Bay City Rollers, os Wings de Paul McCartney ofereciam um substituto quase aceitável. Mas os grandes nomes da época eram Led Zeppelin e Peter Frampton. Os Beatles eram passado, mais do que nunca. Pensando bem, é assim que as ocisas devem ser.

Mas então apareceu Mark David Chapman e deu cinco tiros nas costas de John Lennon.

Em 1980, John Lennon era um artista decadente. Antes de se retirar de cena, em 1975, seus discos vinham vendendo cada vez menos — e as críticas, depois de um início promissor com duas obras-primas, eram cada vez mais negativas. Seu álbum de retorno, Double Fantasy, vinha tendo péssimas vendas; talvez porque, depois de um hiato de 5 anos, as pessoas esperassem que o “beatle avant garde” aparecesse com algo realmente novo, e não com o pastiche dos anjos 50 que apresentava ali.

Os tiros de Chapman se encarregaram de criar um mito. E assim como as vendas do Double Fantasy dispararamn a partir dali, o ostracismo dos Beatles começou a chegar ao fim.

Mas não foi só por isso. Era preciso algo mais. E esse algo mais foi uma hecatombe chamada “anos 80”.

Os anos 80 foram a década em que os protagonistas dos anos 60, sem exceção, viraram dinossauros anacrônicos. Por exemplo, com a discutível exceção de Tattoo You, os Rolling Stones não lançaram um disco sequer aceitável naquela década miserável. Mas eles morreram de fato quando os Sex Pistols apareceram gritando por anarquia no Reino Unido. O vínculo emocional que existia entre os artistas dos anos 60 e seu público, e que fez daquela década algo especial, acabava ali. Eles não tinham mais o que dizer.

Mas o enterro, mesmo, foi nos anos 80.

O mais curioso é que os ídolos dos anos 70 seguiram o mesmo caminho, cedo demais. Seria de se esperar que durassem pelo menos dez outros anos, assim como o pessoal dos anos 60. Mas tão rapidamente como surgiram, eles sumiram — infelizmente não antes que o Clash definisse o som da nova década com Rock the Casbah, assim como os Beatles definiram os 60 com Please Please Me. Foi esse vazio, criado pelo conjunto de fim dos grandes e a morte de John Lennon — que é única por não ser o final de um exercício aplicado de auto-destruição como as mortes de Joplin ou Jim Morrison, mas uma agressão gratuita e inexplicável — quie possibilitou a volta dos Beatles.

O fato de os Beatles passarem a ser venerados a partir dos anos 80 não é exatamente um reconhecimento de sua grandeza; esse reconhecimento veio 20 anos antes, por gente boa como Leonard Bernstein. É, antes de tudo, o sinal de que um vazio muito grande existia naquela década perdida.

Aquela cidade no fim do mundo

Quem leu Monteiro Lobato na infância — não, quem leu “O Minotauro” quando era criança não pode ter deixado de sentir uma vontade imensa de conhecer Atenas, por causa da descrição que ele faz daquele mundo. É mágico: Péricles e Aspásia, Sócrates e Alcebíades. Estão todos lá, os nomes que a civilização ocidental pronuncia com respeito há 2500 anos.

A minha Atenas não era a de Sócrates e Aristóteles, ou mesmo de Sófocles e Aristófanes; era a de Péricles e Alcibíades e Temístocles, mas principalmente a de Fídias e Ictinos, a representação concreta e palpável de uma era curta — pouco mais de 50 anos — em que o Homem finalmente chegou ao seu ápice, pelo menos até aquele momento.

Conhecer Atenas se torna um desejo importante, nesse caso. Aí você quebra a cara.

É pior se você dá o azar de chegar pelos aviões da Olympia, sucatas que parecem os aviões da Vasp em fim de carreira e onde as aeromoças vendem cigarros americanos, muambeiras a 8 mil pés de altitude. Os aviões dão a impressão de estar remendados, e você acha que segurar o bicho para ele não desmontar quando pousa é um dever cívico, quando não um simples exercício de sobrevivência.

Vista do alto, Atenas é um amontoado de prédios pequenos e brancos, sempre brancos, que se espalha sobre terreno irregular ao pé de montanhas pedregosas, como um câncer em estado avançado de metástase. São prédios de cinco ou seis andares, com varandas que vão de um extremo a outro onde senhoras estendem a roupa lavada. É só mais uma cidade turca, em sua arquitetura mediterrânea.

Mas não é isso que você vai ver em Atenas. São os vestígios de sua época de ouro.

Se em Roma o acúmulo de 2000 anos de história lhe faz encontrar uma maravilha após a outra, o melhor resumo da história ocidental, em Atenas os restos mirrados se espalham com timidez, duas colunas enegrecidas pela poluição perdidas no caminho para o Pireu, ou o exemplo mais melancólico de todos, o Muro de Temístocles.

Essa sempre foi uma de minhas passagens preferidas da Idade de Ouro de Atenas. Logo após o fim das guerras persas, vencidas pela frota ateniense, pela infantaria espartana e pela inteligência de Temístocles, os atenienses voltaram para sua cidade e a encontraram destruída. Enquantro a reconstruíam, Temístocles decidiu construir uma muralha para proteger a cidade. Esparta protestou. Temístocles então aceitou ir até Esparta para discutir o assunto. Isso, claro, enquanto ganhava tempo e a construção terminava. Os espartanos não gostaram nem um pouco de ser enrolados por Temístocles, e algumas décadas mais tarde, vencendo a Guerra do Peloponeso, demoliram a muralha.

Sem o Muro de Temístocles talvez não houvesse o século de Péricles. Mas hoje suas fundações são uma mera atração menor na escada entre o lobby e o restaurante de um hotel, o Divanis Acropolis, protegidas por uma parede de vidro, pobres e isoladas de qualquer significado. Um pedaço da história do mundo indevidamente privatizado para hóspedes, diminuído além do aceitável. O que restou do Muro parece um macaco na jaula, com toda a sua melancolia — a única diferença é que o muro não se masturba na sua frente.

O Fórum Romano, ainda que em ruínas, oferece um visão vívido do que foi o Império Romano, dá a sensação de um conjunto orgânico. É impossível visitar o Coliseu e não imaginar os mecanismos que ofereciam, a uma população cada vez mais embrutecida, espetáculos incrivelmente sofisticados (e sanguinários). Mas Atenas é apenas um amontoado de cacarecos caindo aos pedaços, perdidos em meio a uma cidade feia. Há mais Atenas no British Museum do que em Atenas.

Em Paris você pode se perder pelos bulevares e vielas, pode virar uma esquina desavisadamente e dar de cara com a casa onde morou Moliére. Pode simplesmente sair andando sem direção, sentindo a atmosfera da cidade. Mas tentar fazer isso em Atenas é uma temeridade, e os letreiros que mais lembram fórmulas matemáticas fazem com que você se arrependa de não ter aprendido matemática no colégio; porque talvez você assim tivesse uma chance, e em vez disso você se sente um analfabeto disléxico, e arriscar qualquer coisa em seu inglês ou francês vagabundos lhe deixa com a impressão de que o mundo é cheio de idiotas que não lhe compreendem, e então você finalmente se dá conta de que o idiota é você, em primeiro lugar por ter ido àquele buraco, e volta derrotado ao hotel.

E você volta para ser roubado por um bando de japoneses. Me roubaram um livro de Dashiell Hammett lá, livro que eu tinha comprado na Shakespeare & Co. Foram uns japoneses miseráveis, eu tenho certeza. Você sabe que há japoneses por perto por causa do clique-clique incansável das máquinas, e o barulho deles no hotel me distraiu e eu esqueci o livro no lobby e algum desgraçado daqueles tirou os olhos de sua máquina fotográfica e passou os cinco dedos no meu livro em vez de deixar na recepção.

Mas há a Acrópole, claro. Talvez ela compense tudo isso, e de lá, diante do Parthenon e do templo de Posseidon, você vê ao longe o templo de Hefaístos e o Areópago, de onde São Paulo pregou aos ouvidos debochados dos atenienses; mas se o Parthenon compensa aquela grande decepção, só compensa uma vez, nenhuma mais.

Da próxima vez em que eu quiser visitar Atenas eu vou fazer uma viagem igual à que Des Esseintes, do “Às Avessas” de J.-K. Huysmans, faz à Inglaterra. Ele vai a um restaurante inglês em Paris, e comendo a comida inglesa e olhando caras inglesas, e juntando tudo à leitura de alguns livros de Dickens, ele tem toda a experiência intelectual de que precisa, e pode criar memórias tão verdadeiras quanto se fosse lá; talvez mais, até.

Há um restaurante grego no início da Saint André des Arts, com decoração saída diretamente de um pesadelo de Zorba, que o faz parecido com um autêntico puteiro sergipano. Vou até lá comer aquela comida horrorosa, mas antes assisto a um documentário qualquer, desses da BBC de Londres, sobre a grande Atenas de Péricles. E minhas lembranças dessa viagem serão mais verdadeiras que quaisquer outras, enquanto caminho até a Pont Neuf.

Os grilhões que vos prendem

Cada um permaneça no estado em que foi chamado. Foste chamado sendo escravo? Não te preocupes com isso; e, mesmo podendo fazer-te livre, antes aproveita-te da tua escravidão. Pois aquele que, sendo escravo, foi chamado pelo Senhor, é liberto do Senhor; e, igualmente, aquele que, livre, foi chamado, é escravo de Cristo. Fostes comprados e pagos, não vos façais escravos dos homens. Irmãos: persevere cada um diante de Deus na condição em que foi chamado.

1Coríntios 7, 20-24

Para quem tinha alguma dúvida sobre a razão pela qual o cristianismo passou de uma entre tantas seitas judaicas a religião oficial do Império Romano em pouco menos de 300 anos.

Paulo Francis

A Primeira Leitura de janeiro trouxe um artigo sobre Paulo Francis, comemorando os 40 anos de lançamento de seu primeiro livro. A matéria, assinada por Bruno Garschagen, é francamente elogiosa; os depoimentos de amigos e admiradores também.

Há ali pelo menos uma falha, não muito grave: não inclui na bibliografia de Francis o seu último livro, “Waal: O Dicionário da Corte de Paulo Francis”, coletânea de trechos de artigos organizada por Daniel Piza e publicada em 1996. Curiosamente, todas as citações de Francis incluídas ali estão nesse livro.

A matéria também traz uma análise interessante das características do texto e das colunas de Paulo Francis: lembra que o seu estilo é uma espécie de precursor do que hoje se vê nos blogs. É verdade: o estilo pessoal de Francis casa, à perfeição, com os blogs deste início de século. Era pessoal, variado, “quente”.

Paulo Francis era brilhante. Não é preciso procurar muito para ver isso:

Dylan era idolatrado. É ainda, por alguns. Fez algumas coisas infelizes como ter um caso com a amiga de Mogadon Suplicy, Joan Baez. Fico imaginando os dois brigando e como arma final ele cantando “Blowin’ in the wind” e ela “Guantanamera”. É pior que barulho de murro em parede de quarto.

É impossível não cair na gargalhada ao ler trechos como esse, e é impossível não reconhecer o talento absurdo do sujeito. O problema começa quando se tenta alçá-lo a referência cultural do país.

A matéria, por exemplo, atribui “rigor intelectual” a Francis. Falso. Francis não era rigoroso sequer ao checar suas informações. Parecia preferir confiar em sua cultura, bastante vasta. Na verdade, o adjetivo que se aplicaria mais facilmente seria “abrangente”. E nisso ele era insuperável, como nenhum outro jornalista brasileiro jamais foi.

Era esse o seu papel, o de jornalista. Informava e, no máximo, podia servir de guia. O que ele escrevia, apesar de sua erudição e de sua verve, era quase sempre superficial, como é adequado a um jornal. Em tempos sem internet, muito do que ele escrevia era um reflexo do que acontecia na imprensa cultural de Nova York. E isso era extremamente válido e importante.

A matéria diz ainda que Francis morreu “no melhor de sua forma e como o jornalista mais influente do país”. E as coisas não são assim tão simples.

A década de 90 não foi muito generosa com ele. Começou com uma discussão pública e bastante áspera com Caio Túlio Costa, então ombudsman da Folha de S. Paulo. Costa era, em todos os aspectos, um jornalista inferior a Francis: mas estava certo ao questionar os seus critérios jornalísticos, e Francis, se sentindo desprestigiado, acabou saindo da Folha e indo para O Estado de S. Paulo. Tinha perdido aquela.

Ir para o Estadão foi um mau movimento. Ali não havia a pluralidade e a efervescência da Folha. Francis passou a falar principalmente para conservadores como ele, e boa parte da repercussão que tinha se perdeu.

Um último golpe seria o livro “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis”, de Fernando Jorge. O livro se dedicava a encontrar incoerências e coisas do tipo na obra de Francis. É curioso que Francis, que se antecipou aos blogs em 20 anos, pelo menos, tenha sido vítima de um fenômeno tipicamente blogueiro: o stalker, o desocupado que se dedica a um parasitismo deletério e obcecado, que alguns consideram uma espécie de homenagem e que outros, como eu, acham apenas um retrato pé-no-saco de uma mediocridade profunda. O stalker é um fã no espelho, aqueles espelhos de parques de diversões onde tudo é invertido e distorcido. De qualquer forma, o livro deve ter sido um golpe e tanto para Francis. E dizem que, quando morreu, estava deprimido diante do processo milionário que a Petrobras movia contra ele.

Em todos esses casos, os desafetos de Francis apontavam seus defeitos como jornalista. Perdiam de vista o que era essencial nele: sua noção do que era bom e mau em cultura, sua coragem em defender seus pontos de vista sem transigir com a demagogia, sua capacidade de provocar politicamente seus leitores. Ao mesmo tempo, mostram que é uma temeridade tentar fazer dele um pensador.

Havia muito de impostura intelectual em Francis. Por exemplo:

O socialismo, segundo Marx, só poderia ser concretizado em países que tivessem atingido o limite do desenvolvimento capitalista e este, gerando uma classe operária consciente de seus direitos e politicamente ativa, soçobraria em face da revolução proletária. Para ser franco, acho isso moralismo judaico.

Parece uma análise brilhante e original em sua “franqueza”. Não é. Foi tirada de Edmund Wilson em “Rumo à Estação Finlândia”, e é uma redução até um pouco inepta do pensamento de Wilson. No entanto, Francis faz parecer que é sua.

(E na minha opinião os dois estão errados. A fé marxista em uma nova moral proletária deve menos ao Talmud que a Rousseau. E desde Lênin ninguém além de anti-marxistas leva essa questão moral muito a sério.)

Essa impostura pode até ser aceitável em um jornalista cultural, embora com restrições. Mas é intolerável em um intelectual a ser tomado como modelo. Definitivamente, Paulo Francis não era um sujeito que se levasse muito a sério.

Mesmo assim, há um número enorme de viúvas de Francis entre a direita. É engraçado que normalmente esqueçam onde e como Francis ascendeu à fama: como jornalista de esquerda na Última Hora de Samuel Wainer, e depois no Pasquim. Ao contrário de suas viúvas, Francis normalmente sabia do que estava falando: trotskista de formação e grande leitor de Freud, tinha uma solidez cultural que a maioria da direita, hoje, nem sonha em ter.

Talvez por isso ele venha adquirindo uma dimensão que não deveria ter. Mas isso não é de agora. Francis morreu com menos de duas semanas de diferença em relação a Darcy Ribeiro. A importância de cada um deles não pode ser sequer comparada. Darcy foi antropólogo, ministro, senador, fundador da UNB; Paulo Francis foi apenas um jornalista. No entanto, o finado Francis mereceu a capa da Veja, enquanto o defunto Darcy ganhou meras duas páginas na seção de obituários da mesma revista. É assim que criamos nossas referências culturais.

Aos homens de pouca fé

O deputado João Fontes foi eleito pelo PT, foi expulso em 2003 junto com Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro e fundou o P-SOL. No entanto, preocupado com o fato de o novo partido não lhe garantir legenda para a reeleição em 2006, passou para o PDT — embora em entrevista recente Heloísa Helena tenha se referido a Fontes como militante do P-SOL.

Agora João Fontes está processando o jornalista sergipano Luiz Eduardo Costa, por causa desse artigo:

JOÃO FONTES VOA, É A HORA DAS MARIPOSAS

As grandes crises políticas como essa que atravessamos, trazendo à luz as mais horripilantes e pustulentas feridas morais da Nação, podem se transformar no momento propício no esvoaçar das mariposas. Aquela luz à qual metaforicamente aludimos, nessa era midiática em que vivemos, se confunde com a luz real, ofuscante, dos holofotes e dos flashes. Através do avassalador processo da comunicação de massa, as crises ganham repercussão, se agigantam, dominam as conversas, transformam-se no grande e quase exclusivo assunto nacional. Cenário perfeito, luminoso, atraente, para o voejar das mariposas, aquelas criaturas ególatras, que precisam aparecer, dardejar em torno das luzes, sem ligar para o risco iminente das queimaduras, fatídica interrupção do borboletear desvairado.
O desatino verbal, a ânsia de estar sob os holofotes, fazem do deputado João Fontes uma dessas trêfegas mariposas que se lançam frenéticas em direção à exposição das luzes, ao instante de glória luminosa que logo se esvai em cinzas.
O deputado João Mariposa fez da busca dos holofotes o frenesi da torturada existência, a razão única da sua desarrazoada trajetória política.
Para João Mariposa, a meta única, exclusiva, são os holofotes, os flashes, agora mais do que nunca acompanhando a cena política.
Para João Mariposa não existem códigos morais, preceitos éticos, normas de comportamento, regras de civilidade, até mesmo as mínimas noções de elegância ou decência pessoal, que ele não venha a transgredir, a espezinhar, porque tudo desaparece tragado pela avidez enorme do seu desmesurado ego.
João Fontes realiza o seu destino de mariposa, não importa que tenha caluniado, agredido, levianamente acusado, desrespeitado, ultrapassado os limites da dignidade, do respeito humano e do bom senso. O João Mariposa dardeja feliz, realizado, sob as luzes da exposição pública, e isso para ele justifica tudo.
Esse comportamento trêfego faz de João Mariposa, em primeiro lugar, um inconseqüente, e em segundo um hipócrita.
Sabem quanto o João, mariposa moralista que almeja ser exemplo de ética, declarou como gastos de campanha ao TER? Magérrimos quarenta mil reais. Lembram da campanha suntuosa que ele fez?
João, o mariposa, saía das reuniões dos idealistas que compõem o CONAL, o conselho de leigos da Igreja Católica, e ia comprar votos, fazer exatamente aquilo que dizia condenar.
A campanha eleitoral de João, que lhe rendeu escassos 28 mil votos, (foi o menos votado, elegendo-se na esteira dos votos de Heleno Silva e Jackson Barreto, que formaram expressiva legenda) não custou, segundo observadores, menos de um milhão de reais.
Onde ele conseguiu o dinheiro? Quem o financiou?
Mesmo com toda a desfaçatez, toda a hipocrisia do mundo, ninguém acreditará se João disser que gastou apenas quarenta mil reais, ou que tirou um milhão do próprio bolso.
As dobradinhas que João Fontes fez com candidatos a deputado estadual em Laranjeiras, Aquidabã, Itabaiana e em Capela, onde exorbitou em gastos, não foram concretizadas apenas com base em simpatias mútuas.
A hipocrisia fica evidente, o moralismo se transforma em mero disfarce para iludir bem intencionadas e desavisadas pessoas.
O jornalista e digno integrante do CONAL, Rosalvo Nogueira, um dos cabos eleitorais mais entusiasmados de João Fontes, se declara agora decepcionado, indignado mesmo, com o João Mariposa.
Num momento equivocado o honrado senador Valadares, então governador de Sergipe, fez João Fontes presidente da ENERGIPE, talvez como homenagem ao seu pai, o honrado e exemplar homem público Benjamin Fontes, que fora antes eficiente presidente da estatal.
Quem se dedicar ao trabalho de remexer os relatórios do DENAE, órgão que controlava as estatais de energia e de água, verificará que a gestão de João Fontes foi temerária, desastrada e irresponsável. Com a idéia fixa de ser candidato a Prefeito de Aracaju, ele fez da ENERGIPE um comitê eleitoral. Elevou desmesuradamente a folha de pagamentos da empresa, nomeou gente em excesso, inverteu prioridades, e enquanto Aracaju estava sob ameaça de blecaute por falta de sub-estações, dedicou-se ao projeto desnecessário e megalomaníaco da construção do suntuoso Palácio das Luzes, idéia desatinada que o governador Valadares logo mandou arquivar. A ENERGIPE tornou-se, segundo os relatórios, uma empresa pouco confiável, que perdeu créditos e investimentos, até ser recuperada nas gestões que se sucederam.
Era João Fontes ensaiando o bater de asas, e transformando-se no João Mariposa.

São óbvios os pontos sobre os quais o processo de João Fontes foi construído. Mas depois de ler esse artigo, cheguei à conclusão que o problema de Luiz Eduardo Costa é falta de fé.

Ele não acredita — assim como a maioria do povo sergipano — que o deputado tenha sido eleito depois de uma campanha de apenas 10 mil dólares. As pessoas sabem que uma eleição para deputado federal custa mais que isso, em condições normais. A eleição de João Fontes é um caso único no mundo, e por isso pessoas materialistas como Luiz eduardo Costa não conseguem ver o que há de divino em tudo isso.

Se ele prestasse atenção, veria que — ainda mais lembrando-se que foi um candidato apoiado pela Igreja — João Fontes está no lugar errado: seu lugar é o panteão de santos da Igreja Católica, e não um ninho de cobras venais como o Congresso Nacional.

Porque ele nada mais deve ter feito do que a multiplicação dos peixes.

Além da imaginação

Durante toda a vida me espantei com a estupidez de quem acredita em discos voadores.

Nunca adiantaram as considerações lógicas, as leis da física, porque a qualquer delas objetavam com a experiência de um amigo do cunhado do primo, ou mesmo com aquela luz inexplicável que viram um dia. Ou com o imponderável, com as possibilidades bnas quais não conseguimos pensar — e os mais ilustrados acenavam com as incógnitas além da física quântica, e os mais românticos retrucavam com o lirismo presciente da imaginação.

Então deixei de discutir, eu que sempre soube que fé não se discute, e os deixei lá com com seus delírios e alucinações.

Mas lembrei de um velho anúncio de cigarros Winston, e de repente aquele sorriso produzido pela certeza de estar certo voltou.

Se os alienígenas são inteligentes o bastante para viajar através do espaço, por que continuam a abduzir as pessoas mais idiotas da Terra?

Dois filmes e uma geração

Aí pela metade dos anos 50 os Estados Unidos inventaram essa coisa chata que se chama adolescência. E o filme que entrou para o imaginário popular como a definição dessa geração foi “Juventude Transviada”, de Nicholas Ray.

Das cenas iniciais, com James Dean deitado na calçada em posição fetal enquanto coloca um boneco de corda para dormir com ele — certamente tirando dele mais afeto que de sua família tipicamente americana — ao final, em que a juventude age como redentora da sociedade ao impor valores mais puros e transparentes, o filme se tornou o símbolo cinematográfico da maior revolução de costumes na América, desde os anos 20. Curiosamente o filme não tem sequer quatro compassos de rock and roll, numa trilha unicamente jazzística; isso não importa.

Mas há outro filme que poderia reivindicar esse lugar. Chama-se Jailhouse Rock e é estrelado pelo ícone máximo dessa era: Elvis Presley, quando ainda era The Pelvis, e não The Putz.

Jailhouse Rock tem um momento grandioso e emblemático. Os pais da namorada de Elvis estão discutindo jazz e pedem a sua opinião. Coltrane? Brubeck?

A resposta de Elvis, ex-presidiário que tenta gravar um disco, não poderia ser mais desdenhosa:

“Eu não ligo a mínima para esse pessoal”.

É isso.

“Juventude Transviada” dá voz aos problemas de uma geração de maneira verdadeira e cristalina, e a analisa a partir de uma perspectiva intelectualizada enquanto a insere em um contexto social específico. É isso que faz do filme melhor cinema. Mas Jailhouse Rock, feito alguns anos depois, celebra uma subcultura em todo o seu esplendor, no momento em que corta o seu cordão umbilical. É uma celebração da arrogância e da ignorância que caracterizariam, para sempre, a adolescência.

O que aquela geração diz através da boca de Elvis é que ela se basta, que não precisa do respaldo ou da herança da geração anterior. Diz isso nos seus termos, na sua linguagem, e ao som de sua música. Não precisa da sofisticação emprestada ao jazz, e essa talvez seja a diferença fundamental, por sutil que seja, entre “Juventude Transviada” e Jailhouse Rock.

Ela já não está interessada em contemporizações. Em “Juventude Transviada”, o objetivo parece ser a concórdia entre duas gerações diferentes e conflituosas. A ordem social é mantida, apenas renovada pela juventude (o pai de James Dean lhe prometendo ser mais forte, antes mesmo que o cadáver de Sal Mineo esfrie, é o melhor exemplo: um pai forte é condição primordial para qualquer sociedade patriarcal). O eixo está nos valores da família tradicional; tudo o que se pede é um pouco mais de de ar fresco, um pouco de harmonia, equilíbrio e honestidade. Isso é puro Lampedusa.

Em Jailhouse Rock nada disso interessa mais, e se abre um fosso que não dá margem a remendos. Absolutamente consciente de sua força, aquela nova juventude estabelece um mundo à parte e sem ponto de contato. O jazz aqui já não vale nada, porque eles encontraram sua própria voz. A nova ordem não pede; apenas declara seus interesses, e a reação da geração anterior já não interessa. O mundo, eles já sabem, é dos adolescentes.

***

É uma história bonita e triunfante, mas ela não acaba aqui. A juventude parafraseava ali, sem saber e sem se dar conta do paralelo histórico, Baldur von Schirach, chefe da Juventude Hitlerista: “Caiam foram, velhos!”, e iria mais além e criaria a contra-cultura dos anos 60, o momento em que alcançou sua maturidade, em mais de um sentido.

Mas eles também envelheceriam e se integrariam perfeitamente à velha ordem. De segmento máximo de mercado cederiam espaço a velhos, crianças e gays. E Elvis Presley terminaria seus dias cantando para velhas gordas na capital mundial do brega, Las Vegas, como uma paródia patética do jovem carbonário de 20 anos antes.