Um post sobre Jerry Lewis que provavelmente não será escrito

O pior de tudo é que o tempo vai passar e Jerry Lewis vai morrer e eu não vou ter escrito um post adequado ao seu gênio.

Jerry Lewis foi o maior comediante americano da segunda metade do século XX. Eu não tenho dúvidas. Acho que tinha mesmo todos os defeitos que apontam nele — e eu tenho dificuldade em achar que fez grandes filmes por serem episódicos demais, caminhando numa linha tênue entre a narrativa e o encadeamento puro e simples de gags — mas ao mesmo tempo tinha também todas as qualidades possíveis, uma inventidade absurda e um faro excelente para a grande gag

Jerry passou por um processo semelhante ao de Hitchcock. Foi preciso que os franceses da Cahiers du Cinéma dissessem que ele era um grande comediante para que as pessoas, com aquela cara de bunda que é peculiar a quem não consegue ver adiante do nariz, dissessem “é mesmo”. Os críticos então admitiram o que milhões de pessoas já sabiam: que Jerry Lewis cumpria como ninguém o seu ofício de fazer rir.

Infelizmente, disseram isso quado Jerry já era um comediante decadente. A obra de Jerry foi perdendo qualidade ao longo da segunda metade dos anos 60. Seus filmes foram ficando repetitivos, as piadas foram ficando sem graça, seu tipo físico foi se tornando inadequado ao personagem que continuava interpretando. Jerry protagonizou grandes fiascos nessa época. Mas a sua obra nos anos 50 é indelével — sua parceria com Dean Martin foi antológica, tão grande quanto outras duplas, como Laurel & Hardy e os Três Patetas — assim como a do começo dos 60. Jerry construiu um personagem anárquico, inadequado ao sistema, que encontrava respaldo e ematia em praticamente todo mundo. Há um tanto de subversão quase ingênua em Jerry Lewis; talvez o melhor exemplo seja a cena do grupo de ginástica em “O Meninão” (refilmagem de “The Major and the Minor, de Billy Wilder). A sua incapacidade de seguir o conjunto desarruma tudo, leva à bagunça total, à desordem — e foi isso que os franceses viram nele e mostraram para o resto do mundo, essa selvageria e anarquia ingênuas, mas não tanto.

Ele deve estar fazendo 81 ou 82 anos agora, e essa idade o aproxima da morte. Escreveu um livro há pouco tempo falando de sua parceria com Dean Martin, e ao contrário do que poderiam esperar, foi um livro carinhoso. Lembro do dia em que Dean Martin morreu, e foi uma das duas ou três vezes, em toda a minha vida, em que fiquei triste porque alguém que eu não conhecia tinha morrido.

Mas acima de tudo, Jerry Lewis é um companheiro de infância e um dos meus últimos heróis. Eu e todo mundo que cresceu nos anos 70 assistíamos aos filmes de Jerry Lewis na Sessão Tarde — era um tempo em que a Sessão da Tarde exibia bons filmes, com Errol Flynn e Charlie Chaplin e Johnny Weissmuler e John Wayne mais uns tantos por aí. O primeiro a que assisti foi “O Rei do Laço”, um dos últimos de sua parceria com Dean Martin. Em seguida vi praticamente todos os filmes que importavam. “Errado Pra Cachorro”, “O Bagunceiro Arrumadinho”,”O Otário”, The Caddy, Artists and Models, Hollywood or Bust, Rock-a-Bye Baby — a lista é grande demais para caber aqui. Jerry Lewis tem uma filmografia que não é apenas extensa — tem momentos absolutamente geniais, como a gag final de “O Otário” e tantas outras. Eu tive a honra de ver um de seus últimos filmes no cinema — Hardly Working; era um filme ruim, mas eu vou poder dizer um dia que pude assistir a um filme de Jerry Lewis no cinema.

No fim das contas, acho que poderia escrever um post longo e bom sobre um dos meus heróis, mas não tenho tempo. Depois eu escrevo sobre ele. Um dia. Só espero que esse dia chegue.

Um adeus a Easy Rawlins

Meu escritor policial favorito da atualidade é Walter Mosley — mais precisamente a série com as desventuras de Easy Rawlins, como atestam alguns posts antigos neste blog. Seus outros personagens, Fearless Jones e Socrates Fortlow, nunca chamaram minha atenção e eu não sei dizer se são bons ou ruins.

Mosley não é um sujeito conhecido no Brasil como deveria. Dele foi publicado aqui, até onde sei, “O Diabo Veste Azul”, “Uma Morte em Vermelho” e “Quem Matou Nola Payne?”, título idiota para o original Little Scarlet: acredite, o que menos importa em Little Scarlet é quem matou a pobre Nola. Uma pesquisa rápida no Google mostra, pelo menos a princípio, que as únicas pessoas que falaram de Mosley em português, além de resenhas de lançamentos e de referências ao filme “O Diabo Veste Azul”, foram Filthy McNasty e eu.

É uma pena que tão pouca gente pareça conhecer o sujeito. Ainda mais quando damos uma olhada no panorama desse segmento do mercado editorial. A cada ano as editoras jogam para cima dos leitores uma infinidade de livros policiais fracos, apenas porque são novos. Relegam os clássicos a nada; o melhorzinho deles a ser publicado com razoável constância é Rex Stout — mas apesar dos tantos elogios, aquele gordo viado e seboso do Nero Wolfe não é tudo isso que dizem dele; não passa de Agatha Christie depois de duas semanas de férias no Brooklyn. Fariam melhor se apenas publicassem e republicassem a Santíssima Trindade: o Pai Dashiell Hammett, o Filho Raymond Chandler e o Espírito Santo Ross MacDonald.

(Durante anos achei que tinha inventado esse negócio de “Santíssima Trindade” do roman noir. Me achava genial por isso. Mas há algum tempo descobri que o conceito foi cunhado há décadas por um escritor chamado Michael Avallone, exatamente nessa ordem. É tão triste chegar às portas dos 40 anos e descobrir que não se é gênio coisa nenhuma, nem mesmo um gênio de segunda.)

(A propósito, Dashiell Hammet vem tendo alguns de seus romances — que um dia pertenceram à Brasiliense — republicados pela Companhia das Letras; infelizmente deixam de lado os contos do Continental Op, justamente aqueles que definiram, de uma vez por todas, o noir.)

A inspiração óbvia de Mosley é Chester Himes — o mais bem-sucedido autor a misturar a questão racial a romances policiais. Mas enquanto os policiais strictu sensu de Himes com Coffin Ed e Grave Digger Jones tendem ao caricato, uma espécie de Mickey Spillane com mais melanina e protesto social, a série de Easy Rawlins é um pequeno clássico moderno, porque além de razoável qualidade literária dentro dos limites possíveis da literatura policial, atende perfeitamente aos requisitos convencionais do melhor noir, algo que muitas vezes falta a Himes.

A diferença básica entre o roman noir e a tradição inglesa é a ambigüidade moral, a idéia de que o crime é um produto orgânico da sociedade e não uma anomalia dela, como nos quebra-cabeças de Agatha Christie; alia-se a isso uma percepção acurada dessa mesma sociedade, e então temos os elementos que fazem do noir um gênero superior ao modelo inglês tradicional. Mas a qualidade literária é outro grande diferencial. Da extrema limpeza estilística de Hammett à razoável profundidade psicológica de MacDonald, do ponto de vista literário se vai mais além do que nos romances de, por exemplo, Edgar Wallace. Obviamente, o simples fato de ser literatura policial implica uma série de convenções; mas isso não exclui observações mais profundas acerca da sociedade.

(Outro parêntesis em um texto preguiçoso já cheio deles: literatura policial é clichê e convenção, mas nem sempre fáceis. Bukowski, por exemplo, se deu mal com seu Pulp; Luís Fernando Veríssimo também, com seu “Jardim do Diabo”. Boa literatura policial não é tão fácil como parece.)

Como acontece com qualquer série, a produção é irregular. Obras excelentes como “O Diabo Veste Azul”, Little Scarlet e Cinammon Kiss convivem com livros bons como A Red Death e A Little Yellow Dog, e fracos como White Butterfly, Black Betty, Gone Fishin’ e Bad Boy Brawly Brown. Mas essa divisão entre obras boas e ruins importa pouco, porque no final das contas o que vemos neles é a evolução do personagem e também da questão racial americana. A série acaba oferecendo um painel interessante sobre a evolução das relações raciais nos Estados Unidos, do racismo claro e declarado dos anos 40 às mudanças acontecidas nos anos 60. Nos primeiros livros da série, ambientados no pós-guerra, Easy Rawlins é um homem cheio de ódio e raiva, atento a pequenas e grandes demonstrações de racismo e preconceito; mas à medida que o tempo vai passando e a sociedade americana vai se moldando ao fato de ser uma sociedade multirracial de classes, essas relações vão se tornando menos conflituosas. O quebra-quebra de Watts é um momento decisivo; mas a ascensão do movimento hippie também. É o acompanhamento dessa evolução que coloca Mosley um pouco acima da média dos escritores policiais. E, claro, o excelente personagem que criou: Easy Rawlins é vivo, conturbado, um herói torturado e trágico que ao mesmo tempo em que resolve mistérios policiais, tem que lidar com uma sociedade conflituosa e com os seus próprios problemas.

Mas este não é um post para falar de Easy Rawlins, porque já falei antes. Este é um texto para carpir a sua morte. Uma espécie de eulogia meio sem graça.

Há algumas semanas li Blonde Faith, publicado ano passado, o décimo primeiro da série de Rawlins. No final do livro há um acidente de carro e Rawlins, sentindo que vai morrer, desmaia, “and then the world turned black“. Mosley já tinha avisado que aquele seria o último livro da série. Pelo visto está cansado de Easy Rawlins, como Conan Doyle cansou de Sherlock Holmes. Dono de uma carreira razoavelmente diversificada e bem-sucedida, Easy Rawlins pode parecer a Mosley restritiva — como os Beatles pareceram restritivos a John Lennon.

Mas Mosley sabe como funciona o mercado, e não teve coragem de matar de maneira irrevogável o seu personagem. Além disso, anunciar um livro como o último de uma série bem sucedida é um truque de marketing já velho, desde que se deixe o final em aberto para a possibilidade de eventualmente retomar a série. Assim como Doyle retomou o viciado em ópio, não seria surpresa se daqui a alguns anos Easy Rawlins voltasse, tendo sido resgatado do acidente feio e mancando da perna esquerda.

Para quem gosta de boa literatura policial, como eu, essa é uma última esperança.

O Cavaleiro das Trevas assusta novamente

“O Cavaleiro das Trevas” corrige os erros de Batman Begins e vai além.

Ao contrário da opinião geral, Batman Begins foi um filme medíocre. Se sustentava aparentemente porque a comparação com seus antecessores era muito fácil: os filmes feitos a partir do Batman de Tim Burton eram ruins demais. Batman Begins era melhor que eles — mas não passava muito de um filme mediano, que recorria a elementos fáceis do cinemão comercial, como o aprendizado no gelo citado pelo Bia, onde faltou apenas Pat Morita falando frases de efeito tipo “Falcão, Campeão dos Campeões” para o Karate Kid.

“O Cavaleiro das Trevas”, no entanto, evitou a maior parte dessas armadilhas. Com as bases, boas e ruins, de um possível universo próprio já estabelecido, foi buscar nos quadrinhos pontos de apoio para se transformar no que é de longe a melhor adaptação do Batman já feita para o cinema. Nolan criou esse universo a partir de elementos das principais histórias do Batman. Por todo o filme perpassam referências de momentos importantes dos quadrinhos, principalmente de “O Longo Dia das Bruxas”, do final dos anos 90, uma das melhores histórias do Batman em todos os tempos — enquanto o primeiro foi buscar suas referências em Blind Justice. Um espectador atento encontra também referências a várias outras histórias clássicas, como a motocicleta de “Ano 1”, e tudo isso é combinado de maneira a tornar a história do pesonagem consistente e clara, mesmo para quem o acompanha há muito tempo pelos quadrinhos.

A espetacularização do Batman de que o Bia se queixa não é um defeito. Ela equivale a alguém que, vendo o Batman borderline de Frank Miller, reclama que bom mesmo é o detetive de Dennis O’Neill — ou alguém que diante desse detetive sente saudades do Batman ingênuo de Jerry Robinson. O Batman de Nolan é adequado aos tempos e à audiência; e consegue isso sem abrir mão do caráter soturno e doentio do Batman.

O filme tem falhas, claro. O uniforme de Robocop é a mais grave — “Homem-Aranha” provou há quase uma década que é possível fazer uniformes para super-heróis no cinema condizentes com os quadrinhos (e o Doni, aqui, dá o link para um video que coloca isso na prática), embora o filme perceba isso e tente dar uma solução, ainda longe de ser sequer suficiente. Um Batman que voa — ou melhor, plana — é exagero desnecessário. A mudança na origem do Duas Caras também não faria falta — um apelo fácil ao melodrama típico do cinema. E Bruce Wayne, apesar de bem interpretado por Christian Bale, o Batmãe, é pouco aproveitado e explorado: sua paixão por Rachel Dawes acaba se mostrando superficial e artificial.

O filme tem boas atuações, algo nem sempre comum em filmes de ação. Michael Caine e Morgan Freeman dão o de sempre; mas esses são grandes atores, cujo arroz com feijão costuma ser mais que suficiente. Gary Oldman está adequado como o Comissário Gordon, Aaron Ekhardt não faz feio como Harvey Dent, e Eric Roberts faz um bom vilão — mas ele sempre fez, até porque para isso basta mostrar o rosto na tela; e percebendo o erro grotesco que foi usar Katie Holmes no primeiro filme, substituíram-na por Maggie Gyllenhaal. A surpresa é Christian Bale, que resolve muito bem a dicotomia entre as personalidades distintas de Bruce Wayne e do Batman.

E, claro, o Coringa de Heath Ledger.

Há um problema com quase todos os que comentam a história do Batman. Comungam da impressão de que o seriado debochado dos anos 60 praticamente destruiu o Batman. E isso não é verdade. O Batrman vinha em decadência desde os anos 50, em parte por causa da perseguição política de que os quadrinhos foram vítimas, em parte devida à esquisitice hipocritamente puritana daquela década americana. O seriado retomou a popularidade do Batman e reacendeu o interesse pelo pedófilo notívago. Sem o público criado pelo seriado, Dennis O’Neal e Neal Adams não poderiam iniciar a reformulação do Batman, transformação completada por Frank Miller nos anos 80 em “O Cavaleiro das Trevas” e “Ano 1”, e consolidada por Allan Moore em “A Piada Mortal”.

Acima de tudo, aquele seriado deu um grande Coringa. Cesar Romero insistia em não raspar o bigode, para não acabar com sua imagem de amante latino, mas mesmo assim fez um Coringa antológico e definitivo em sua histrionice e teatralidade. Romero definiu o modelo do Coringa para sempre, e Jack Nicholson, no “Batman” de Tim Burton, não conseguiu lhe ser superior.

Heath Ledger consegue. Todo o filme é uma tour de force de Ledger em sua recriação do Coringa. Até agora, a loucura do Coringa era caricata e histriônica; a de Ledger é muito mais que isso, é tão obviamente letal que, antes de despertar interesse, lhe desperta medo. Ledger construiu um Coringa moderno e admirável: baixou o tom de voz, incorporou tiques psicóticos como lamber os lábios todo o tempo e deu ao Coringa aspectos de decadência física que o tornam mais louco ao mesmo tempo que mais real. Esse Coringa é muito mais sério que seus predecessores; mas a morte é algo mais sério do que uma revista quadrinhos. Incrivelmente, é muito mais parecido com o Lon Chaney de The Man Who Laughs que inspirou o Coringa.

Nos quadrinhos, o Coringa não usa mais maquiagem. Sua pele e seu riso foram deformados por elementos químicos no episódio que lhe deu origem, retratado em “A Piada Mortal”. No filme, de maneira quase lampedusiana, isso muda para não mudar. O diretor Christopher Nolan mantém e potencializa esse elemento quadrinístico ao transformar o riso do Coringa em uma cicatriz escarninha, mas ao utilizar a maquiagem que hesita entre o gótico e e circense reforça a idéia do Coringa como espelho invertido do Batman: os dois se disfarçam, cada um de sua própria forma, que afinal de contas não é tão diferente assim. E essa é, afinal, a essência do duelo eterno entre o Batman e do Coringa.

Pequena introdução à discografia de Paul McCartney

E então, sem ter o que fazer, resolvi fazer uma pequena lista dos discos de Paul McCartney.

Coisa chata, mesmo, só para fãs do sujeito.

Na lista não entram discos ao vivo, mesmo que todos eles tenham canções inéditas, nem os discos de música eletrônica ou, ainda, as peças de música erudita — acredite em mim, coisas como Liverpool Oratorio deixam os piores discos desta lista parecendo obras-primas. Além disso, a base são os LPs originais, o que quer dizer que deixa de lado vários compactos, muitos deles brilhantes, que foram mais tarde incluídos como faixas bônus nos CDs. Para mim, incluir esses compactos no disco original é como colocar Penny Lane e Strawberry Fields Forever numa reedição do Sgt. Pepper’s. É a mesma razão pela qual incluo uma coletânea que juntou uma série de compactos de McCartney que não existiam nos LPs.

Continue reading

A memória dos grandes

Das lendas vivas dos anos 60, apenas duas mantêm uma trajetória criativa significativa quase meio século depois: Bob Dylan e Paul McCartney. Os Rolling Stones, a outra lenda, estão no mesmo nível de um Chuck Berry e Little Richard, ou de Elvis em 1975, vivendo de shows em que reapresentam incessantemente um repertório brilhante composto décadas atrás; o que muda é apenas a magnitude. Apenas para comparação, nos últimos vinte e poucos anos os Stones lançaram apenas quatro discos com canções inéditas, todos medíocres, e são três compositores na banda. Nesse mesmo período de tempo McCartney lançou doze, incluindo dois discos de covers e três de música erudita, com alguns pontos altos.

O penúltimo último álbum de McCartney, Chaos and Creation in the Backyard, foi recebido com aplausos generalizados, inclusive por este blog. Menos de dois anos depois, e em meio a um dos divórcios mais públicos e escandalosos dos últimos anos, ele apareceu com um novo disco, Memory Almost Full.

Normalmente as pessoas resenham um álbum assim que ele é lançado. Mas algo de estranho acontece com McCartney: as pessoas elogiam seus discos durante o lançamento enquanto detonam o anterior, e esse processo segue infinitamente: a obvra elogiada hoje é detonada amanhã. Talvez a música de McCartney pareça biodegradável, não sei; por via das dúvidas, resolvi só publicar este texto pelo menos um ano depois do lançamento do disco.

Que a capa tenebrosa, provavelmente a pior de McCartney em quase meio século de carreira, não sirva de prelúdio ao conteúdo do disco: Memory Almost Full é um excelente álbum.

É curioso notar que, do ponto de vista do conjunto, Chaos and Creation é um disco melhor. É mais coeso, é claramente um álbum concebido como uma entidade única e orgânica. Mas Memory Almost Full tem uma vantagem nada desprezível: é um disco com melhores canções pop. Aqui se vê de volta o bom e velho Paul McCartney, com ecos dos Wings e uma capacidade de criar boas melodias que parecia perdida quando ele entrou em sua sétima década de vida.

O mais interessante é que, de repente, as letras de McCartney passaram a ser pessoais. É impossível ouvir o disco e deixar de pensar que algumas das faixas são respostas à crise por que ele passou nos últimos anos.

O disco foi gravado em dois momentos diferentes. O primeiro, em 2003, com a banda que o acompanha em shows e que estava presente em Driving Rain, disco de 2001. O segundo, a partir de 2006, com McCartney tocando todos os instrumentos. Depois do clique segue um comentário faixa a faixa.

Continue reading

Manuais Disney

Durante muito tempo, em vez de dormir cedo, me pegava imaginando que para muito pouca gente os manuais Disney foram importantes como para mim. Conhecia pouquíssimas pessoas que lembravam deles com o mesmo fervor que eu.

Isso mudou com a internet. Um bocadinho de gente compartilha suas lembranças. A Wikipedia tem uma lista deles. Infelizmente, ela parece conter alguns erros. Uma lista bem completa — com fotos das capas de cada um — pode ser encontrada aqui.

Os manuais eram livros ilustrados sobre algum assunto específico, pequenas enciclopédias para crianças publicada entre os anos 70 e começo dos 80. É bom descobrir que mais gente gostava daqueles livrinhos.

Mas melhores que essas referências na rede são as lembranças que tenho deles. Tive, e ainda tenho, uma boa parte desses manuais. Fizeram parte da minha infância, como as balas Soft — aquelas que matavam crianças sufocadas —, a Sessão da Tarde e o Sítio do Picapau Amarelo.

Olhando para eles agora, preciso admitir que me forneceram boa parte do conhecimento sobre o mundo necessário a uma criança — e nisso a minha geração foi privilegiada em relação à imediatamente posterior. Eles combinavam, de maneira equilibrada e adequada, lazer e informação. Certamente não entendo muito mais de carros hoje do que entendia depois de ler o Autorama. E quase tudo o que sei sobre esportes e olimpíadas vem do Manual dos Jogos Olímpicos, com o Pateta como protagonista (que comprei uns poucos meses depois das Olimpíadas de Moscou).

Naquela mesma época ainda comprei o Manual do Detetive, que não tinha nada a ver com a Disney e trazia uma lupa como brinde, além de um monte de informações que moldaram a minha paranóia — como nunca andar encostado a muros e prestar atenção a quem anda na mesma rua que eu. Anos antes minha irmã teve o Manual da Mônica, onde aprendi, por exemplo, a história do jogo do bicho. Tive ainda o Manual do Mandrake; hoje nem Mandrake existe mais.

Não tive alguns manuais, como o do Tio Patinhas, que falava de economia; do Mickey, se não me engano sobre polícia e espionagem; do Gastão (que eu nunca soube direito sobre o que era); e do Professor Pardal, sobre invenções. Não os comprei por que não estavam disponíveis na época. Depois foram reunidos numa certa “Biblioteca do Escoteiro Mirim”, mas a minha época já tinha passado.

O Manual do Zé Carioca, lançado para aproveitar a Copa de 1974 e relançado em 1978, falava obviamente de futebol. O Autorama falava de automóveis. O Manual do Peninha era uma aula sobre jornalismo e sua história, e imagino que deva ter inspirado muita gente a se tornar jornalista; o Marmota lembra dele. O Manual da Vovó Donalda era sobre culinária. E não esqueço de comprar o Magirama em 1978, em Aracaju, e começar a leitura sentado na calçada do aeroporto enquanto perdia um vôo para Salvador.

Ver as páginas sobre os manuais confirmou minhas lembranças de que o último lançado — sem contar reedições medíocres — foi o Manual da Televisão, que comprei em 1985. Ainda o tenho e folheio de vez em quando. É excelente. Uma boa aula resumida de como funcionava uma emissora de TV.

E de todos aqueles manuais, o melhor era o Manual do Escoteiro Mirim.

O Manual do Escoteiro Mirim fornecia um amontoado de informações inestimáveis para uma criança; tinha até um pequeno dicionário de inglês, francês e acho que italiano e espanhol. Além disso, criou em mim uma vontade imensa de ser escoteiro, até o santo dia de 1982 em que vi as roupas ridículas que eles usavam, as bermudas, os lenços e os meiões de jogador de futebol de várzea, e decidi que minha auto-estima era muito maior que aquilo. Os escoteiros daqui sequer tinham chapéus de guaxinim, usavam umas boinas de produtor cultural desempregado. Decididamente, aqueles garotos com roupas esquisitas eram terceiro-mundistas demais para mim. Pareciam aprendizes de soldado raso. E mais tarde eu teria uma briga por jornal com o coordenador dos meninos liderados por um imbecil em Aracaju, o que enterrou de vez qualquer ilusão que eventualmente ainda tivesse a respeito deles.

Mas o que importa é que em 1979 aquele manual, junto com “As Aventuras de Tom Sawyer”, era minha leitura preferida. Li tanto que ele se desfez em pedaços, e comprei um novo volume em 1981. Tenho esse até hoje, sem capa, com muitas páginas faltando, mas uma lembrança legítima de que um dia, quem diria, eu fui criança.

O que mais se aproxima daqueles manuais, hoje em dia, é o “Livro Perigoso Para Garotos”. É um bom livro que deveria ser dado para qualquer menino aí pelos seus oito, dez anos. Mas mesmo que eu seja suspeito para falar, porque quase 30 anos já se passaram desde que lia o Manual do Escoteiro Mirim com absoluto deslumbramento, fica em mim a impressão de que a série de manuais Disney acabavam sendo mais completos e mais interessantes.

Em outubro do ano passado, no Rio, achei alguns desses manuais em uns sebos da rua Passos, e estavam em bom estado. No momento em que escrevo isto, eles estão sobre a minha mesa de trabalho, em casa. Estão quase destruídos. Minha filha e meus sobrinhos fizeram um bom trabalho com eles. Normalmente não gosto de ver livros destroçados, mas com esses não me incomodei. Mais uma vez, eles cumpriram seu papel. Não poderiam querer destino melhor que esse.

Tomates podres

Eu não conhecia o Rottentomatoes, site que atribui notas a filmes em votações populares. (Na verdade estou ao largo de boa parte da evolução da internet nos últimos anos, e a propósito uso celular apenas para fazer e receber ligações.) Descobri que ele existia através de um post em que o Hermê falava da aprovação recorde, ali, de “WALL-E”, o novo desenho animado da Disney/Pixar. Depois vi várias referências ao site que tinham passado despercebidas por mim.

Assisti a “WALL-E”, ontem. Ótimo filme, certamente melhor que o “Kung Fu Panda” que vem por aí, com a mesma fórmula batida. Mas é só isso: um bom filme. Uma história previsível — como afinal deve ser em um desenho animado para crianças — com pelo menos um bom elemento narrativo: as idas e vindas do namoro dos dois robozinhos, WALL-E e EVA, são mostradas de maneira sensível e doce.

E isso é tudo. Nenhuma novidade real além da evolução técnica da animação computadorizada. Nenhuma revolução técnica. Nenhuma invenção narrativa. Não é “Rei Leão”. Não é “A Bela e a Fera”. “Branca de Neve”, nem pensar. Não é à toa que a maior parte das resenhas publicadas por aqui fala de questões técnicas como movimento de câmera — assim como falavam da textura dos pêlos dos personagens em “Monstros S.A.”

Mas segundo o Rottentomatoes, esse filme é genial. 96% de aprovação, feito raro naquelas paragens segundo informa o Hermê.

É esse o problema nesse tipo de site e de atitude: o nível de avaliação crítica do Rottentomatoes é inexoravelmente baixo. É um exemplo já clássico de uma tendência cada vez mais consolidada de utilizar o julgamento comunitário em detrimento da opiniões de “especialistas”. Ou seja, em vez de ler o que uma Pauline Kael tem a dizer, é melhor ver o que cinqüenta Zés da Silva acharam. Se 60% da humanidade gostou de um filme tipo “Homem de Ferro”, é porque o ele é necessariamente bom. É um raciocínio bastante lógico, ainda que simplório: as pessoas tendem a confiar cada vez mais nos seus iguais, porque assim acham que aumentam sua margem de segurança. É um processo análogo ao que faz você ler este blog meia-bomba em vez de castigar um Proust ou Dostoiévski ou o New York Times, mas não serei eu a reclamar disso.

Isso não é uma condenação generalizada do site. Certamente há boas resenhas ali dentro — mas seria preciso paciência de Jó para garimpá-las em meio a uma tonelada de opiniões tolas. Não vale a pena. É por isso que o Rottentomatoes e tudo o que ele representa são um mau sinal. Pode parecer elitismo, mas não é. As pessoas não vão assistir a bobagens como Transformers ou Indiana Jones por causa de suas qualidades cinematográficas, em primeiro lugar. Vão porque ir ao cinema é cada vez mais um evento eminentemente social — e é isso que vai impedir que salas de exibição se esboroem diante de televisores OLED de 60 polegadas. Sua função se limita cada vez mais ao entretenimento puro e simples, deixando de lado outras funções do cinema como arte; a crítica que sempre se fez à televisão, a de que entorpece seus telespectadores, é cada vez mais aplicável ao cinema. A média é ruim, muito ruim; e os nossos padrões estão cada vez mais baixos.

Quem gosta de cinema conhece muito bem a sensação de desconforto ao ouvir aquele amigo de gosto duvidoso elogiar um filme de, digamos, Steven Seagal. Só o fato de saber que são sinceros, que realmente gostam daquilo é o que nos impede de dar uma resposta malcriada. Isso e mais educação e o medo sempre justificado de levar uma porrada nas fuças. É esse tipo de público que está satisfeito com padrões como o do Rottentomatoes.

Sites comunitários como o Rottentomatoes apenas dão uma aparente legitimidade ao senso comum — à mediocridade, no sentido estrito da palavra. Legitima um mundo em que arte é medida em termos quantitativos. Gostamos cada vez mais de não destoar das estatísticas, de gostar do que todos gostam, de ter a força da opinião da maioria como desculpa por não termos mais nenhuma. O nome do site está correto: estamos virando, no fim das contas, um cesto de tomates podres.

O fim da crítica de cinema

Tenho a impressão de que a principal função dos críticos de cinema será avisar aos espectadores se eles devem ou não ficar no cinema até o fim dos créditos de encerramento, para ver ou não aquelas pequenas codas que viraram mania nos filmes e principalmente nos desenhos animados. Será uma função nobre e honrosa, e vai dar a única informação realmente útil em suas resenhas.

Porque o estado da crítica de cinema nunca foi tão ruim. E quando falo em crítica não me refiro sequer a artigos de fôlego médio — tenho em mente um ensaio antológico de Robert Warshow sobre “Luzes da Ribalta”, de Chaplin, ou ainda a belíssima e sensível resenha de “Hiroshima Mon Amour”, por Moniz Vianna, como exemplos. Em vez disso, falo de crítica leve, a resenha diária a ser entregue no prazo de fechamento do jornal, como as pequenas obras-primas de simplicidade e argúcia de Francisco Luiz de Almeida Salles.

Quando a Folha de S. Paulo dedicou duas ou três páginas a “Onde Os Fracos Não Têm Vez”, trouxe entrevistas com o diretor e o ator, valores investidos na produção, repercussão na mídia, o diabo. Talvez aquele não fosse um grande publieditorial, talvez fosse mesmo um bom trabalho de reportagem — mas faltava a ele uma avaliação aprofundada do filme, que se apoiasse numa boa análise da obra em vez de apenas reverberar a opinião da mídia em geral, inclusive usando os mesmos clichês, ou falar do “impacto” social da obra.

É um tipo de abordagem cada vez mais comum, que pouco a pouco veio substituindo a crítica cinematográfica como se entendia. De crítica, mesmo, fica apenas o nome. Se assemelha mais aos resultados de uma campanha de marketing do que à apreciação racional de uma nova obra.

Parece ter havido uma contaminação irreversível e completa do exercício da crítica pelos press releases. É cada vez mais difícil achar uma resenha realmente boa, que permita um olhar adequado ou novo sobre o filme — um exercício de criação sobre uma obra de arte. Todos parecem trabalhar a partir do que a máquina de relações públicas da indústria quer que se diga. Não é implicância minha: pegue qualquer lançamento e procure o que se diz dele. Há sempre referências à indústria, ao mercado — tudo isso mascarando uma profunda indigência crítica.

(Nos Estados Unidos a situação é marginalmente melhor. Ainda há bons criticos como A. O. Scott e Manohla Dargis no New York Times, e o Roger Ebert [de quem nunca consegui saber se gosto ou não] está voltando para a crítica de jornal. Mas lá também a síndrome do press release parece ter tomado conta do cenário.)

Hoje estamos mais para Dulce Damasceno de Brito do que para Moniz Vianna. Ou, para usar figuras mais recentes, e ressalvadas as diferenças e dimensões, mais para Ana Maria Bahiana do que para Inácio Araújo.

Talvez o baixo nível geral do cinema no século XXI contribua para isso. Nunca, no pouco mais de um século do cinema, a produção cinematográfica foi tão homogeneamente medíocre, tão repleta de pequenos nadas repetitivos. Talvez a indústria em si seja mais interessante do que seus produtos. Talvez a formação de grandes estruturas de comunicação e entretenimento tenha feito de nossos críticos seres menos criativos, menos aplicados, menos corajosos. Mas a isso se alia também o baixo nível cultural dos jornalistas, um estado que tende a se espalhar cada vez mais, sem perspectivas de quimioterapia eficiente.

Cinema é uma arte derivada. Para interpretá-lo, é necessário levar em consideração outras artes e disciplinas. Não basta se trancar numa sala com uma pilha de DVDs durante semanas a fio para entendê-lo realmente (embora o conhecimento estritamente cinematográfico seja indispensável, e mesmo esse anda em falta). Não dá para avaliar, por exemplo, “Era Uma Vez no Oeste” tendo em vista apenas a evolução do western, de Tom Mix a John Wayne a Clint Eastwood, embora esse seja o ponto principal: é preciso entender o que era o mundo em 1969, ver por que a abordagem ideológica do processo de colonização do oeste americano sofria, ali, uma mudança importante e sutil.

E no entanto, quando se vê uma resenha de cinema em uma revista ou jornal, não parece haver nada a mais que a simples copidescagem do material de divulgação do filme — quando muito referências aqui e ali a opiniões emitidas lá fora e antes, nem sempre creditadas. Não há idéias, muito menos novas idéias, e o empréstimo de linhas inteiras de pensamento parece ter se tornado a norma. Por exemplo, a crítica a Superman Returns na Veja tinha sido inspirada, nitidamente, na resenha do New York Times — um exemplo de pobreza intelectual ainda pior que a original, que já não era muito boa.

No fim das contas, o único lugar onde ainda se encontra algo aprofundado é na crítica acadêmica — e essa costuma ser chata, pedante, com seus “signos” e “paradigmas”. Apesar de sua pretensão, não costuma formar um público melhor, porque é necessariamente restrita, elitista e inacessível a boa parte das pessas. É a crítica de jornal e revista, aquela mais simples e despretensiosa, que forma bons espectadores, por exercer um papel social mais importante e efetivo. Crítica de cinema não precisa de semiótica e quejandos. Precisa apenas de inteligência e talento. E é da falta disso que quem gosta de cinema tem todo o direito de reclamar.

Republicado em 09 de outubro de 2010