Era bonito ser histérica

A crônica de Nelson Rodrigues, escrita há mais de 40 anos, chegou ontem ao meu e-mail enviada pelo Bródi “Tom” Negão. Sem conhecer adjetivos suficientes para defini-la, ainda de boca aberta e fascinado, eu apenas a republico aqui.

Era bonito ser histérica

“Beijarei o punhal que matar Pinheiro Machado” — soluçou o orador. E, realmente, enfiou a mão no colete, ou cinto, e de lá arrancou, com ágil ferocidade, o punhal homicida. Logo, à vista de todos, beijou, chorando, o punhal. As lágrimas deslizavam pela face cava. E o orador, prolongando o efeito cênico, ainda ficou, por algum tempo, com o punhal erguido e profético. Um uivo unânime subiu das entranhas do silêncio. O comício veio abaixo. Sujeitos atiravam para o ar os chapéus de palha.

Mas resta de pé a pergunta: — Por que exatamente o punhal? Por que o ódio havia de ter a forma esguia e diáfana do punhal? 1915. Era o Brasil do fraque e do espartilho. Nas salas de visitas, havia sempre uma escarradeira de louça, com flores desenhadas em relevo. Eu tinha meus três anos e estava em Pernambuco. Três anos. Aos três anos, o sujeito começa a inventar o mundo. Minha família morava na praia. E eu começava a inventar o mundo. Primeiro, foi o mar. Não, não. Primeiro, inventei o caju selvagem e a pitanga brava.

Para os meus três anos, o mar, antes de ser paisagem, foi cheiro. Não era concha, nem espuma. Cheiro. Meu pai, antes de ser figura, gesto, bengala ou pura palavra, também foi cheiro. Ninguém tinha nome na minha primeira infância. A estrela-do-mar não se chamava estrela, nem o mar era mar. Só quando cheguei ao Rio, em 1916, é que tudo deixou de ser maravilhosamente anônimo.

Eis o que eu queria dizer — o primeiro nome que ouvi foi o de Pinheiro Machado. Alguém se chamava Pinheiro Machado. A princípio, ele não foi um destino, um perfil, um fraque, mas tão-somente um nome. Um nome solto no ar, quase um brinquedo auditivo. Eu não inventara ainda a morte, não inventara ainda o punhal, nem a palavra “defunto”.

Escrevi, não sei onde, que foi um suicida que me revelara a morte e me ensinara a morrer. Engano, engano. Foi Pinheiro Machado. Sim, Pinheiro Machado. E, súbito, eu aprendia que o homem morre e que o homem mata. Ainda hoje, e até nas minhas crônicas esportivas, falo muito, com uma constância obsessiva, no assassinato de Pinheiro Machado. Uns acham graça e ninguém entende a insistência cruel. Ah, eu teria de explicar que há, em qualquer infância, uma antologia de mortos; e, para o menino que fui, Pinheiro Machado é um desses mortos fundamentais.

Mas repito a pergunta: — Por que havia de ser o punhal? Pinheiro Machado podia ser assassinado a tiro, a bala. Pouco antes, um jornalista fora assassinado em Pernambuco. Chamava-se Trajano Chacon. Três ou quatro se juntaram e o mataram, a cano de chumbo. Não faca, punhal ou revólver. No caso de Pinheiro Machado, quero crer que o punhal convinha mais à retórica. Na época do soneto, era mais parnasiano. O orador podia tirar o punhal, beijá-lo, quase lambê-lo.

Muitos e muitos anos depois, me vejo subindo a escadaria da Biblioteca Nacional. Estou crispado como o criminoso que vai reler a notícia do próprio crime. Lá dentro, peço a coleção do Correio da Manhã de 1915. Dou o mês do assassinato. Não me lembro se é permitido fumar na sala de leitura; em caso afirmativo, tiro um cigarro e o acendo (guardo o palito na própria caixa). Enquanto não vem a coleção, começo a tecer uma pequena fantasia homicida. Não é mais o Manso de Paiva, mas eu que me escondo atrás de uma coluna. Entra Pinheiro Machado, de fraque. Os rapapés o envolvem: — “Senador! Senador!”. É agora. Corro e mato Pinheiro Machado. Sou assassino. Em seguida, imagino a experiência inversa, de vítima. A dor fulminante da punhalada. Não tenho tempo nem para o espanto, nem para o grito.

O funcionário trouxe a coleção. Começo a ficar tenso. Encontro a edição do crime. Primeiro, passo os olhos no dia, mês e ano (sou um fascinado pelas datas dos velhos jornais e dos velhos túmulos). A manchete rasga as suas oito colunas: — ASSASSINADO o GENERAL PINHEIRO MACHADO! Ao bater estas notas, sinto o abismo entre as duas manchetes: — a de Pinheiro Machado era um berro gráfico, um uivo impresso; a de Kennedy, estupidamente impessoal, crassamente informativa. Ah, as manchetes de hoje não se espantam, nem se desgrenham, nem reconhecem a catástrofe.

O Correio da Manhã conta tudo. Estou vendo Pinheiro Machado, de fraque, chegando ao Hotel dos Estrangeiros. Lá está o seu lindo perfil de moeda. Vinha falar com dois políticos de São Paulo. Era um voluptuoso, um lúbrico do Poder. Sua conquista política era um jogo amoroso. O olho ficava mais doce, lascivo, translúcido. Amorosamente, Pinheiro Machado abriu os braços, enlaçando os dois políticos. E assim, entre um e outro, caminha o general, muito olhado. Claro que todos se voltavam para ver o homem que, segundo os comícios e os jornais, era o autor de todos os presidentes.

Pouco antes, chegava da Europa Irineu Machado, um dos grandes tribunos da época. Era homem de falar dez horas sem parar (antigamente, tínhamos mais oradores do que hoje camelôs de caneta-tinteiro). E Irineu Machado disse, em comício: — “Matar Pinheiro Machado não é ser assassino. É ser caçador”. Ele não estava improvisando nada. A frase fora criada, recriada, até chegar à sua forma exata, inapelável e assassina.

Era apenas uma frase. Mas aí é que está: — nada se fazia então sem frase. Para tudo era preciso uma frase. Repito: — uma frase tanto fazia uma adúltera como um ministro. E aquilo que Irineu Machado berrara foi de uma prodigiosa eficácia homicida. Caçar Pinheiro Machado, simplesmente caçar. Manso de Paiva estava ouvindo. E se não fosse Manso de Paiva seria outro Manso de Paiva. Até as senhoras eram Mansos de Paiva. A punhalada amadurecia no coração do povo. Mas volto ao Hotel dos Estrangeiros. Passa o caudilho com os outros dois. Ouvia-se o seu riso cálido, vital. Uma dama olha Pinheiro por detrás do leque como uma Butterfly.

Tudo teve a progressão fulminante da catástrofe. Manso de Paiva sai da coluna; corre, tira o punhal e o enterra até o fim nas costas do caudilho, pouco abaixo da nuca. Pinheiro soluça: — “Mataste-me, canalha!”. Mas Osvaldo Paixão, contemporâneo do episódio, orador de vários comícios ferocíssimos, retifica. Segundo ele, as últimas palavras de Pinheiro foram estas: — “Apunhalaste-me, canalha!”. Quero crer que ele tenha dito apenas: “Canalha”. Mas cabe perguntar: — que canalha? Ou, por outra: o caudilho estava com dois paulistas. Morreu certo de que um deles era o “canalha”.

(Preciso falar de Guimarães Rosa.) Ah, em 1915, as mulheres tinham um repertório de gritos que as novas gerações não usam, nem conhecem, Era bonito “ser histérica”. Muitas simulavam seus ataques, como o dostoievskiano Smerdiakov. Mas, quando Pinheiro caiu, as damas presentes não fingiam nada. Elas se esganiçavam, e rolavam pelas cadeiras, ou sapateavam como espanholas. Naquela época, uma notícia levava meia hora para ir de uma esquina à outra esquina. Mas toda a cidade ou, mais do que isso, o Brasil soube do assassinato, com uma instantaneidade brutalíssima.

E ninguém percebeu que, com Pinheiro Machado, morria também o fraque.

[4/12/1967]

As vidas de John Lennon

Há exatamente 20 anos, um livro sobre John Lennon se tornou objeto de debate na mídia de fofocas: The Lives of John Lennon, escrito por Albert Goldman. Aparentemente, o livro tentava destruir a imagem do ex-beatle, tirando uma porção de sujeira de baixo do tapete e fazendo revelações inesperadas para passar uma mensagem clara: Lennon, o ídolo que entrou para a memória da humanidade como um pacifista que sonhava com um mundo sem posses, era um canalha viciado em drogas e com problemas sérios de relacionamento com as pessoas.

Goldman não era um neófito no jogo de esculhambar celebridades. Tinha na bagagem outro livro bastante conhecido: Elvis, em que fomos apresentados ao sujeito também viciado em drogas, com sérios problemas sexuais, uma imagem bem diferente do revolucionário dos anos 50 e até mesmo do semi-retardado inofensivo dos filmes dos anos 60.

De modo geral, aquele livro de Goldman sobre Elvis foi aceito como verdade. Até hoje, é essa a imagem que temos de Elvis: um junkie gordo e decadente e de poucos recursos artísticos, incapaz de superar o próprio complexo de Édipo.

No caso de Lennon, no entanto, nenhum exercício de iconoclastia parece conseguir sucesso duradouro. Há algo a mais na aura que cerca os Beatles há quase cinqüenta anos, e esse algo parece ser teflon. Isso não vale apenas para Lennon: McCartney, por exemplo, vai passar para a história como a imagem acabada do bom marido e pai de família — o que significa “esquecer” canalhices como sua recusa em reconhecer a paternidade de uma ou duas crianças (mas gastando bastante dinheiro em acordos extra-judiciais), e casos deliciosos como um fim de semana numa casa em Los Angeles em 1967, quando colocou uma starlet loura em um dos quartos, uma das prostitutas negras mais famosas da Califórnia em outro, e passou o fim de semana alternando-se entre elas, até que Peggy Lipton (atriz inglesa com quem Paul costumava sair, e que na época era sucesso na ilha com o seriado The Mod Squad) chegou de surpresa para fazer uma declaração de amor e bateu a cara na porta, porque Linda Eastman, sua futura mulher, ligara e Paul estava correndo para ela. (A propósito, como já deveria ser óbvio, eu sou um eterno fã de McCartney.)

E no entanto o livro de Goldman tem muitos méritos. De modo geral é um retrato acurado de Lennon, embora cruel, e por vezes uma boa análise da sua personalidade bastante complexa. Goldman acerta ao investigar a insegurança de Lennon, sua extrema crueldade (era pouco recomendável ser um deficiente físico perto dele: uma de suas diversões era chegar perto de mendigos aleijados na rua e perguntar: “Onde estão suas pernas, amigo? Fugiram com sua mulher?” Ele também não gostava de homossexuais nem de judeus).

Os problemas com drogas também são bem delineados. Para o folclore pop, os viciados em heroína dos anos 60 eram Janis Joplin, Eric Clapton, Keith Richards; Goldman mostra a extensão do vício em Lennon e, principalmente, em Yoko. E aqui cabe lembrar uma das principais queixas de Lennon sobre McCartney. Ele reclamava que o parceiro compunha 20 canções e então arrastava a banda para o estúdio. Dizia isso para ressaltar o papel dominador de McCartney. No entanto Goldman faz uma pergunta óbvia: não fosse a diligência de McCartney, quando os Beatles gravariam, já que Lennon estava imerso em um constante torpor de heroína e Harrison se perdia em ommms indianos?

O grande mérito de Goldman é que, embora se delicie com as fofocas típicas nesse tipo de livro, sua ética de trabalho é válida e quase honesta. Ele fez um trabalho decente de entrevistas e de checagem de fatos. Seu arquivo é até hoje uma boa fonte para quem escreve livros sobre os Beatles, como Bob Spitz, cujo “The Beatles – A Biografia” foi lançado recentemente no Brasil e, embora com defeitos, é a melhor biografia dos Beatles disponível atualmente em português.

Isso dá um nível quase suficiente de credibilidade ao livro, inicialmente atacado como um punhado de mentiras — afinal, Lennon e Ono reescreveram a sua vida como uma espécie de conto de fadas da nova era. The Lives of John Lennon foi se afirmando com o tempo, para consolo de Goldman, que morreu tentando defendê-lo. Revelações feitas ali pela primeira vez seriam depois admitidas por seus protagonistas — como o episódio em que Lennon, com Yoko numa festa, arrastou a namorada de Jerry Rubin para um quarto e deixou sua mulher e o namorado da moça na sala, ouvindo o aiaiai; Yoko finalmente mencionaria o episódio no livreto que acompanha o John Lennon Anthology, em 1998. Fica a impressão que outras revelações do livro (como o vício de Yoko durante todos os anos 70) são verdadeiras.

Mas Goldman também erra, e muito. Por todo o livro, parece haver uma necessidade de destruir por completo o mito de Lennon, o que o faz tirar conclusões tendenciosas e, por vezes, sem base. Por exemplo, ele parece encarar Allen Klein, o pivô financeiro da separação dos Beatles, como quase um anjo, incorrendo no erro contrário à narrativa oficial. Exagera a rivalidade entre Lennon e McCartney, simplificando em excesso a dinâmica da relação entre os dois e reduzindo a virtualmente nada a amizade profunda e a confiança artística que sempre os uniu.

Goldman afirma categoricamente que Lennon e o empresário dos Beatles, Brian Epstein, tiveram relações sexuais durante uma famosa viagem à Espanha, em 1963. Eu também acho isso. Mas o fato é que o único envolvido a se pronunciar publicamente sobre o assunto, o próprio Lennon, disse que foi “intenso, mas não consumado”. O que aconteceu realmente sempre foi um segredo, e foi para a cova com os dois. Goldman erra ao tomar como fato algo que não passa de especulação. É um erro grave para um historiador.

Aqui e ali, outros erros aparecem. Goldman faz uma boa análise do que Drive My Car quer dizer sobre a psique de Lennon — uma análise bastante acurada se a canção não fosse principalmente de Paul McCartney. Ao mesmo tempo, Goldman lembra acertadamente o fiasco que foi a carreira solo de Lennon, que começou com um álbum absolutamente genial, o John Lennon/Plastic Ono Band, comercializou-se bastante com o belíssimo Imagine e então despencou para bobagens redundantes e medíocres como o Mind Games.

O livro de Goldman é um livro para fãs: a compreensão dos mecanismos e processos por trás dos Beatles é útil para nós. Mas não interessa a mais ninguém. Porque o que realmente importa, nos Beatles e em John Lennon, é a música. E para isso não é necessário livro de fofocas nenhum.

A diferença entre Walt Disney e Maurício de Sousa

Minha infância foi passada entre revistinhas em quadrinhos da Disney. As revistas de Maurício de Sousa já existiam, mas ainda não eram as mais vendidas nem estavam entre minhas preferidas. Eu sou de outro tempo, uma época em que as revistas Disney no Brasil traziam histórias de Carl Barks e de um grande italiano chamado Marco Rota.

De lá para cá, muita coisa mudou. O Estúdio Maurício de Sousa se consolidou como o maior do Brasil, e suas revistas (que passaram da Abril para a Globo e mais recentemente para a Panini) são campeãs de vendas. As revistas Disney decaem a cada dia, e estão longe de representar o portento que representaram nos anos 70 e começo dos 80. Pior, nos anos 80 e 90 protagonizaram uma crise criativa impressionante, protagonizada por histórias ruins dos estúdios italianos — que já tiveram grandes criadores, como o Rota citado acima —, enredos neuróticos que raramente conseguiam um final adequado.

Mas a coisa parece ter mudado. Uma nova geração — na qual se sobressai Don Rosa — deu fôlego novo aos quadrinhos Disney. E ajudou a lembrar uma diferença fundamental entre os quadrinhos Disney e os de Maurício de Sousa.

O universo dos quadrinhos Disney é infinitamente superior ao de Maurício.

Lendo uma história de Barks ou de Don Rosa (descoberta tardia que devo ao Ina), uma criança tem acesso a um universo muito mais amplo que aquele mostrado pelas historinhas de Maurício de Sousa. As histórias da Disney tendem a ser mais universais. O horizonte não está circunscrito à rua, ou mesmo ao seu país. Há um mundo inteiro lá fora.

Talvez isso se deva ao papel geopolítico desempenhado pelos Estados Unidos a partir da I Guerra, quem sabe, ou mesmo à própria concepção de quadrinhos americana, ou ainda à composição do público leitor. Seja qual for a razão, a diferença pode ser exemplificada em uma constatação simples: enquanto o Cebolinha sonha em ser o dono da rua, o Tio Patinhas sonha em ser dono do mundo.

Com a cidade de Patópolis, a Disney criou um universo próprio e relativamente complexo que reflete, ainda que de maneira necessariamente infantilizada e esquemática, uma cidade real, com toda a sua complexidade social. Enquanto isso, os quadrinhos de Maurício de Sousa são simples, limitados, quase alienados. Alguém sabe no que o pai do Cebolinha ou o da Mônica trabalham? As histórias de Maurício de Sousa têm a idade mental de seus personagens: seis anos.

São boas histórias, mas mal saem do quarteirão onde esses meninos moram. Projetam uma imagem onírica da infância, que parecem viver no limite entre o campo e a cidade. O universo oferecido por elas às crianças é restrito, limita-se em grande parte à exploração do que já é conhecido — as brigas para saber quem é o dono da rua, o gato bobo que apronta das suas, ecologia piegas e simplista nas histórias do Papa-Capim. No fim das contas, as histórias do Maurício de Sousa não ensinam nada de maneira consistente: apenas trabalham emoções fáceis de maneira simplória.

Isso não é necessariamente ruim. Algumas histórias da Turma da Mônica são brilhantes, e todas são agradáveis. São leitura segura para todos, e com o adicional da “brasilidade”, interessantes para todos. Como o Allan disse uma vez, são no mínimo “certinhas”.

Mas, enquanto isso, não posso esquecer que foi numa história do Zé Carioca que eu soube que existiu um navio chamado Lusitânia, torpedeado durante a I Guerra Mundial. Talvez tenha sido numa história dele, também, que eu soube que nos Andes existia uma ave chamada condor. E com certeza foi lendo as aventuras da Maga Patalójika que soube de um vulcão na Itália chamado Vesúvio. São inúmeras as palavras que vi pela primeira vez em alguma revista Disney. Dervixe, rúpia, sarraceno são apenas algumas delas.

As histórias de Maurício de Sousa trabalham com o conhecido de crianças pequenas, é essa a sua matéria prima. Mas as histórias da Disney apresentavam o novo, e dialogavam com o mundo exterior de uma forma que Maurício de Sousa prefere evitar. E essa diferença é fundamental. Nos quadrinhos Disney as aventuras se estendem pelo mundo inteiro; pelas savanas africanas, pelas selvas brasileiras, pelos desertos asiáticos. O mundo de Disney é infinitamente maior que o de Maurício de Sousa, mais colorido, mais diverso. É essa compreensão do mundo, essa idéia de que a aventura não está apenas no bairro e no universo limitado de crianças de seis anos, que faz das histórias da família Pato algo superior.

Que se danem Mattelart e Dorfman, autores de um livro que qualquer pessoa com juízo se deveria recusar a ler, chamado “Para Ler o Pato Donald”, uma espécie de denúncia do caráter imperialista dos quadrinhos Disney. Nunca li o livro, apenas folheei, e tenho certeza de que sua análise está correta. Mas é preciso ser um canalha para tentar destruir um universo tão bom.

Republicado em 27 de setembro de 2010

Quando vale a pena ver de novo

Sempre que penso em Gus Van Sant, o pobre diabo que refilmou “Psicose,”sinto uma mistura de pena e admiração. Pena porque é preciso ser um imbecil para tentar refilmar um filme como o clássico de Hitch; admiração porque também é preciso muita coragem, daquele tipo meio insano que normalmente leva ao suicídio.

Refilmagens são um vício doentio de Hollywood, normalmente avessa a riscos e pronta a cavalgar um sucesso até que ele morra de cansaço, com a boca espumando. É enorme a lista de grandes filmes que, por algum pecado inconfessável cometido por seus autores, mereceram a sina de ser refilmados.

O problema é que quando um sujeito resolve refilmar um clássico absoluto, ele tem a certeza de que vai ser pior. Um idiota refilmou The Big Sleep com Robert Mitchum no lugar de Humphrey Bogart e alguém no lugar de Lauren Bacall. Van Sant barbarizou “Psicose”. Dezenas de outros poderiam ser citados. E em todos esses casos, os resultados eram previsíveis: os filmes seriam pequenas tragédias patéticas.

Mas há exceções, e é delas que trata este post. A idéia não é minha: é de um blog americano de cinema, coisa de dois ou três anos atrás.

Há um grande filão a ser aproveitado, do ponto de vista criativo. Em vez de perder tempo refilmando clássicos, esses sujeitos de Hollywood fariam melhor se pegassem filmes que poderiam ser grandes, mas não foram, e tentassem fazer algo melhor deles. Filmes que tinham um potencial não realizado, que foram prejudicados por um mau diretor, maus atores, maus cinegrafistas, qualquer coisa.

Isso não é garantia de que o filme vá ser necessariamente melhor, claro. É sempre um risco que se corre. Sweet November, por exemplo, é um filme infinitamente inferior ao original; mas o primeiro não era exatamente uma obra de perfeição (embora seja um dos meus filmes preferidos), e o impacto acaba sendo bastante relativizado. A diferença entre original e revisão não é tão grande. Aconteceu o mesmo quando o eternamente superestimado Tim Burton refilmou “A Fantástica Fábrica de Chocolates”.

Um bom exemplo é “Highlander”.

As pessoas parecem esquecer, mas aquele era um filme que tinha tudo para ser grande. O argumento do filme é excelente, pela simplicidade, por brincar com o sonho da imortalidade. É um filme que, se resumido em cinco ou dez linhas, é admiravelmente bem resolvido. (Esqueça-se, aqui, que duas ou três seqüências desastradas fizeram de tudo para destruir a sua magia, inventando explicações burras para o que não precisava ser explicado e tentando arrancar a última gota de suco que o filme original porventura tivesse.)

Os problemas do filme são mais notáveis na direção. Russell Mulcahy não é mais que um Tony Scott piorado — muito piorado. É mais um egresso daquela onda inglesa de diretores de comerciais que conseguiram dirigir longas, nos famigerados anos 80. Trouxe consigo nenhum talento para dirigir cinema mas todos os vícios da TV — iluminação excessivamente estilizada, câmera que briga com a cena, edição à beira de um colapso nervoso, sonoplastia estridente e por vezes inoportuna.

Os problemas de “Highlander”, claro, não estão apenas no diretor inepto. O roteiro tem falhas gritantes, como uma perseguição policial boba e, principalmente, a insistência idiota em tornar o duelo final um confronto entre o bem e o mal, quando a beleza potencial do filme não está nisso, está no fato simples, não explicado e quase divino de que “só pode haver um”. Não se trata de mocinhos contra bandidos, mas algo que deveria se assemelhar a um fenômeno natural e absolutamente distante da dicotomia típica de filmes B. Um roteiro menos esquemático, com menos concessões ao gosto da platéia com QI inferior a 60, que explorasse mais a angústia existencialista de personagens singulares sem cair na verborragia intelectualóide poderia, sim, ser uma obra prima.

Esse é só um exemplo que serve para demonstrar bem a teoria. E claro que nem todo filme potencialmente bom, mas mal feito, pode ser refilmado. Grease é um bom exemplo. Como cinema propriamente dito, o filme é ruim, mal dirigido, mal sonorizado, com cara de seriado de TV americano dos anos 70; é inferior ao musical original da Broadway e mesmo ao livro de Ron de Christoforo. Mas nenhuma refilmagem poderia oferecer o que ele dá: a empatia perfeita de John Travolta e Olívia Newton-John.

A idéia de refilmar filmes quase bons não tem nada de genial; é extremamente óbvia. Mas o óbvio é um tanto fugidio a alguns; e se seguissem esse conselho, gente como Gus Van Sant não conpsuracariam suas biografias com deslizes do tipo de “Psicose”.

A Love Supreme

O Tiagón deve estar dando pulos de felicidade.

A Barracuda lançou “A Love Supreme – A Criação do Álbum Clássico de John Coltrane”, livro do Ashley Kahn (autor de “Kind of Blue”) que conta a gênese do disco homônimo de John Coltrane.

A Love Supreme é um daqueles discos que se tornaram referenciais absolutos do jazz, obras-primas necessárias para a compreensão do que a música popular teve de superior no século XX — a era em que a música erudita, com umas exceções aqui e ali, virou basicamente trilha sonora de filme. Para muita gente, este blogueiro não incluído, é o melhor disco de toda a história do jazz. O livro de Kahn lhe faz justiça ao explicar a evolução musical de Coltrane de maneira simples e abrangente, detalhar as gravações e explorar a importância histórica do disco. Não possui o impacto do outro livro de Kahn publicado pela Barracuda, “Kind of Blue”, provavelmente por seguir a mesma fórmula estrutural, mas é uma daquelas obras importantes para aqueles que querem entender um pouco mais de jazz.

A minha edição tem um defeito: as indicações das entrevistas que serviram de base para o livro (aqueles numerozinhos ao longo do livro) estão faltando, por um erro de editoração. Isso, no entanto, serve para reforçar uma tese que defendo há muito tempo: a não ser que você esteja precise de uma bibliografia que justifique o que você está escrevendo, 99% das notas de rodapé apresentadas em um livro são completamente dispensáveis. A ausência dos indicadores, embora eles façam falta aqui e ali, acaba tornando a leitura mais fluida, embora continue sendo um defeito.

O maior mérito do livro, no entanto, talvez esteja no fato de finalmente elucidar a razão pela qual tanta gente tem A Love Supreme em tão alta conta.

Ao longo dos anos, criou-se uma espécie de competição informal e inofensiva sobre qual disco era melhor, Kind of Blue ou A Love Supreme. Não é uma discussão importante, porque se trata de dois álbuns fabulosos. Mas é uma bobagenzinha que diz muito sobre a maneira como determinados fatores externos influenciam na percepção da música.

Pessoas como eu, provavelmente mais formalistas, vêm o Kind of Blue como um disco melhor — a grande obra prima do gênero — porque representa uma síntese brilhante de 50 anos de jazz, a começar pelo blues de So What. Em Kind of Blue, Miles Davis conseguiu sintetizar a história evolutiva do jazz ao mesmo tempo em que apontava novos caminhos, com uma elegância que jamais seria alcançada novamente.

Outros, no entanto, preferem A Love Supreme e sua busca espiritual, exemplificada já nos títulos das canções: Acknowledgement, Resolution, Pursuance/Psalm.

Não é nem de longe uma escolha insensata. É um disco fantástico, sob qualquer ângulo. Mas se o disco ganha em inventividade, em ousadia, por outro lado não tem o rigor e a perfeição estética de Kind of Blue; e uma pergunta que muita gente se faz (agora, sim: este blogueiro incluído) é por que tanta gente tem o disco em tão alta conta.

É provavelmente aí que está a maior qualidade do livro: ele permite vislumbrar que o álbum de Coltrane ascendeu à importância que tem — principalmente na esfera do rock e do pop — por questões extra-musicais.

A Love Supreme só poderia ter alcançado o status que alcançou em sua época, os anos 60. Foi a ideologia expressa por Coltrane em seu disco, a sua espiritualidade, que combinou perfeitamente com aqueles tempos. Os títulos, então, são fundamentais para que se aprecie a música, e para que se dê a ela a dimensão que alcançou. Direcionam a compreensão a partir de elementos que não deveriam ser fundamentais. Porque música é mais que isso. Apenas como contraponto, não interessam os títulos de Kind of Blue. Saber quem foi Freddie Freeloader não faz diferença. Interessa pura e simplesmente a música.

Isso não quer dizer, claro, que o disco valha apenas por essa razão. Nem de longe. A Love Supreme é um clássico absoluto, uma experiência fantástica para quem gosta de jazz. Com esse disco, Coltrane conseguiu dar um passo à frente em relação ao que se fazia então do jazz — e sem as porteiras escancaradas, por exemplo, de Ornette Coleman ou Herbie Hancock. O livro de Ashley Kahn é uma biópsia honesta do disco, e uma boa homenagem.

 

Dos prazeres baratos

Estou longe de ser um bibliófilo. Não posso dizer que conheço os mistérios da coleção de livros como hobby sério, e nunca fiz um ex-libris para mim (mas há algumas semanas uma senhora na Kosmos, um bom sebo no Rio, me deu o endereço de um encadernador sério: Largo de São Francisco de Paula, 01. L.C. Encadernação, e o telefone é [21] 2252-6051. Vi o trabalho do sujeito, que não conheço, e me pareceu decente. A quem interessar possa).

Mas eu tenho um prazer bobo e inconseqüente. Não é o do bibliófilo, é o do alfarrabista, aquele sujeito que compra e vende livros velhos na esperança de achar uma raridade que vai fazer seu trabalho valer a pena.

Como sabe qualquer pessoa que tenha tido o desprazer de andar comigo pelo centro do Rio ou de São Paulo, eu gosto de sebos. Se tenho pena de dar 100 reais numa edição de “Sobrados e Mucambos”, que só consegui ler em 2006 porque ganhei de presente, fico feliz quando consigo comprar uma dezena de livros de uma só vez, até por mais que isso. Ou, de preferência, por quaisquer dez ou vinte reais.

A graça de um sebo não está nos livros raros e corretamente avaliados — e portanto caros, como uma primeira edição dos “Sermões” do Padre Vieira que esteve à venda há alguns anos por 3 mil reais. Está nos livros que se pode comprar por um real, ou três por cinco, e nas pequenas raridades escondidas em estantes empoeiradas e aparentemente desconhecidas dos próprios livreiros.

Em qualquer sebo, a minha preferência é pelos balcões de livros baratos. É onde se pode encontrar bons livros por preços ao alcance de todo mundo. Por isso me irrita quando vejo alguém — principalmente professores — reclamando que livros são caros. Livros novos são caros, sim, mas você pode achar bons exemplares por um real. Quem reclama que livro é caro é porque não quer ler e fica arranjando desculpa. Os balcões de livros baratos atendem perfeitamente ao objetivo primário de qualquer livro: ser lido.

Mas há também o que se poderia chamar de livros normais de sebo.

Posso dar um exemplo simples: há anos procuro uma edição barata de “Ascensão e Queda do III Reich”, de William Shirer. A edição brasileira, em 4 volumes, está esgotada há décadas mas é encontrável nos sebos com alguma facilidade, sempre por volta de 150 reais. Não pago. Li a maior parte do livro no começo da adolescência e queria reler há bastante tempo, mas não pago quase meio salário mínimo por isso. Não vale a pena.

No fim de outubro, na Livraria São José, na Primeiro de Março, achei uma edição comemorativa do livro, no original em inglês. Capa dura, sem sinais de que sequer foi lido. 40 reais. Comprei. E fiz um grande negócio, porque não vou ter que me sujeitar ao tradutor e tenho a garantia de que quaisquer correções históricas já foram feitas. E continuo rindo de todos aqueles que tentaram me arrancar 150 reais por ele.

Essa é a minha mania. É o que me deixa próximo de um alfarrabista e distante de um bibliófilo como o José Mindlin. Mas aos poucos vou me especializando — se é que se pode chamar tal atividade bissexta e normalmente casual de especialização — em um tipo de livro específico que só se encontra em sebos: primeiras edições de livros americanos.

São sempre o melhor negócio a ser feito em um sebo brasileiro. Por exemplo, há muito tempo comprei uma primeira edição de Quiet Days in Clichy, de Henry Miller, por 3 reais, um dólar na época. Já contei o caso aqui. Na minha última visita ao Abebooks.com, o livro chegava a ser cotado por 3714.36 dólares. Mesmo que o meu valha muito menos, ainda acho que fiz um bom negócio. Certamente venderia o livro por ao menos 10 dólares, o que já me daria um bom retorno percentual do investimento. 1000%.

Tenho outros pequenos orgulhos do tipo. Entre outras, uma primeira edição de Billy Bathgate, de E. L. Doctorow, e outra de The Information, de Martin Amis, compradas uns dois anos atrás por dez reais, cada, no antigo Imperial, sebo que funcionava no Paço Imperial e que hoje deu lugar a um desses ambientes que misturam livros caros, CDs e bar (um dia ainda entendo por que alguém em sã consciência inventa de vender CDs nos dias de hoje), esses sambas do crioulo doido que viraram mania porque dão a a impressão de ser algo sofisticado.

Gosto de saber que esses livros valem muito mais do que paguei por eles. É bobo, eu sei, mas isso me dá uma sensação de esperteza que me falta em praticamente todas as outras áreas da vida cotidiana.

Comentando os comentários

Malavolta,
A narração em off de “Cidade de Deus” (um vício comum no kinemanacional e que normalmente indica insuficiência do roteiro) me incomoda, pelo amadorismo. Mas é realmente muito bom. E é também o filme brasileiro mais influente em termos internacionais nos últimos tempos. É só ver os filmes de Tony Scott.

André,
Comecei a ver “Era Uma Vez no México” semana passada; desliguei para assistir à primeira temporada de “Roma”. Minah primeira impressão foi a de que era uma tentativa de transpor o western spaghetti para o terceiro mundo atual, sem muito sucesso. Uns diriam que isso é o trabalho de um “autor”. Tem algumas similaridades com Sin City, mas este é um trabalho bem concebido e acabado, enquanto o outro é só lixo, mesmo.

Emanuelle,
Eu me sinto realmente feliz ao contribuir para o aumento da produtividade nacional. 🙂

Bia,
É verdade, você já tinha me falado de “O Labirinto do Fauno”. E não é moda dizer que você é exagerado. É uma constatação básica e antiga…

Bruno,
Talvez essa futilidade que você aponta em Almodóvar seja provavelmente a sua grande qualidade. A forma como trabalha isso, esse jogo de aparências, é brilhante. Mudando de assunto, você disse algo de que eu não tinha me tocado até agora: “Fale Com Ela” é realmente o trabalho mais masculino de Almodóvar. Perfeito. E só uma correção: “Magnólia” é de 99, século passado.

Madson,
Spielberg para mim tem um grande filme, “Tubarão”, que eu incluo entre os 100 melhores da história. E tem um filme brilhante, que poderia ser a sua grande obra-prima, mas cujo final ele estraga: “A Lista de Schindler“. Mas normalmente, no minha opinião, falta substância a ele, que tem uma tendência à emoção fácil, mesmo à pieguice. Por exemplo, aí pelo final dos anos 80 dois filmes foram lançados na mesma época.

Victor,
Eu acho que o problema do Shyamalan é mais grave. Diz respeito ao esgotamento da temática que ele escolheu e à falta de capacidade de escrever um bom roteiro dentro dessas amarras que ele criou para si, essa necessidade da reviravolta final, da grande surpresa, dentro de um clima narrativo de fantasia. Porque o grande trunfo de “O Sexto Sentido” é justamente isso, um roteiro brilhante; “A Vila” é um filme que, embora eu tenha achado muito fraco, merece ser revisto dentro da ótica do Bia e do Ina. Mas o resto é ruim com toda a certeza do mundo. “Sinais” é muito fraco, “A Dama na Água” é simplesmente medíocre. No final das contas, talvez Shyamalan fosse apenas um diretor limitado que acertou de primeira e nunca mais conseguiu repetir o seu sucesso.

Os melhores filmes do século

O Bia fez um post com os oito melhores filmes do século. Na verdade a conversa original era sobre cinco, mas o Bia é um exagerado. O curioso é que ele fica dizendo que eu defendo “A Noviça Rebelde” (o que é apenas uma meia verdade: acho o filme brilhante, só que é daqueles dos quais não se precisa falar muito), mas é ele quem elogia qualquer porcaria transposta para celulóide.

Agora é a minha vez.

Dogville
De longe, é o melhor, mais consistente e mais profundo filme deste século. E aqui tenho que dar o crédito que o Bia merece. Em um comentário bem antigo, ele anteviu perfeitamente a importância do filme, enquanto eu me recusava a assisti-lo por achar, imbecilmente, que era teatro filmado:

escuta: viste DOGVILLE? rapas, vi ontem e estou INACREDITÁVEL até agora! um dos mais importantes filmes da nossa ERA.

Era a época em que o Bia ainda tinha o Tiro e Queda e escrevia como o Cardoso. Isso foi há muito tempo, antes que o blog domasse o rapaz. Antes que ele casasse e antes que a Lia nascesse e antes que ele voltasse para a televisão.

Hoje o Bia elogia o Shyamalan.

Medos Privados em Lugares Públicos
Alain Resnais é o último dos grandes cineastas franceses, levando-se em consideração que Godard morreu há décadas e apenas esqueceu de deitar. O sujeito foi capaz de fazer Hiroshima, Mon Amour, e ainda hoje mostra que sabe o que faz. “Medos Privados em Lugares Públicos” é tudo o que Closer gostaria de ser.

O Labirinto do Fauno
Na verdade o filme que deu origem a esse conversa toda. É um filme brilhante, de uma sensibilidade e delicadeza asssustadores.

Sin City
Embora saudado como o grande filme derivado dos quadrinhos, ele é muito mais que isso. É a melhor releitura do film noir feita desde Blade Runner, e ainda mais radical.

Sobre Meninos e Lobos e Fale Com Ela
Não há nada demais em “Sobre Meninos e Lobos”, do ponto de vista formal. Mas é um exemplo perfeito de domínio da arte narrativa. Eastwood é hoje um dos principais diretores americanos.

Já Almodóvar tem uma carreira que, mesmo nos piores momentos, é brilhante. “Fale Com Ela” é o seu filme mais equilibrado, o mais delicado, em que os exageros que se vê, por exemplo, em “Ata-me” (certamente um de seus melhores filmes) estão maduros e totalmente sob controle.

Anatomia do comportamento de manés na internet – o caso do professor Anselmo

Um rapaz chamado Anselmo deixou um comentário neste post, sobre Lampião.

rafael qualé a suaformação? eu sou formado em historia pela ufs. Fiz minha monografia sobre lampião,ou seja sei um pouquinho sobre ele.

Aqui o professor Anselmo apresenta suas credenciais. Ficamos sabendo que ele se formou em História pela Universidade Federal de Sergipe, a mesma em que cursei Direito. Isso deveria nos aproximar, não fosse um pequeno detalhe: ele parece ter muito orgulho por ter estudado na UFS, enquanto eu a tomo pelo que realmente é: uma universidade periférica, sem recursos e sem nenhuma tradição em produção de conhecimento. Não é exatamente uma UFRJ.

Um sujeito que dá carteirada de UFS pode muito bem envenenar um Celta e sair por aí achando que tem uma Ferrari.

Por alguma razão, professores de história gostam de dar carteiradas neste blog. Uma delas foi uma professora que insistiu em negar os jornais dizendo que determinadas leis anti-palestinas não tinham sido promulgadas em 2003 em Israel, e defendeu a tese esquisita de que um casamento entre judeus e alemães na Alemanha nazista prejudicava o alemão em vez de proteger o judeu, tese que não encontra respaldo em historiadores como, por exemplo, Shirer ou Bryan Mark Rigg.

Não estou reclamando — pelo menos não muito. Antes isso que o bando de malucos que vem aqui atrás de “pinto pequeno”.

acho q vc tem que estudar mais sobre lampião,seu modo de vida e as condições do sertão naquela época. comece estudando frederico pernambucano de mello, em seu livro guerreiros do sol vc encontrará muitos argumentos para escrever de forma coerente e convicente.

O autor que o professor Anselmo cita é realmente bom. O livro também, um entre vários. Pernambucano de Mello é um dos grandes pesquisadores nacionais sobre o ciclo do cangaço, e mais especificamente sobre Lampião, de quem tem boas relíquias. Era muito próximo de Vera Ferreira, neta de Lampião, mas os dois brigaram. Dizem que Vera não suportou ver o sujeito ganhando dinheiro com a memória do seu avô, algo mais ou menos na linha do que aconteceu com o livro “Estrela Solitária”, de Ruy Castro sobre Garrincha. Eu não sei. Eu não estava lá.

Mesmo assim o professor precisa aprender a dar carteiradas com mais aplomb. Citar apenas um autor não indica a erudição desejada, e sim pobreza de recursos. Não é que o professor Anselmo só tenha lido isso, claro; mas soa mal. Uma carteirada, para ser realmente efetiva, precisa de um pouquinho mais de elaboração.

No lugar dele eu teria citado também outros autores que gostam do assunto. Para fazer uma média demagógica, citaria os sergipanos José Anderson Nascimento e o folclórico Alcino Costa, nem que fosse para contestá-los e dizer que estão errados e que não são sérios. Ou então autores reconhecidos nacionalmente, para mostrar que informações de um e outro se complementam. Citar um autor só é carteirada de segunda.

Viu, Anselmo? Carteirada se dá assim. Aprenda.

(Sobre Alcino, sujeito simpaticíssimo: ex-prefeito de um município do alto sertão sergipano, é um apaixonado pelo cangaço. Vi pelo menos um de seus livros, ainda em manuscrito. Pode-se discordar de suas conclusões, de muitas coisas. Mas não fazer o que o professor Anselmo provavelmente faria: dizer que ele não conhece o assunto porque não escreveu uma monografia.)

também acho que lampião foi um bandido, mas não podemos dizer simplesmente que ele foi um bandido e pronto, devemos argumentar através de evidencias, e é isso que falta em vc e o torna um tremendo amador no assunto.

E aí as coisas complicam. O que o professor diz é basicamente o seguinte: “você está certo, mas é um amador e não pode falar do assunto”. Eu não sei o que leva uma pessoa a brigar com um texto com o qual ele basicamente concorda. Deve ser excesso de tempo livre. Não é possível que ele seja tão burro a ponto de esperar, em um blog de variedades em que a principal diversão do autor é liberar comentários bobos para ter assunto no dia seguinte, uma tese de mestrado.

Acho que é isso: o digno lente sentiu falta da bibliografia no final do post.

O pior é que o professor Anselmo, que se quer especialista no assunto, tampouco dá evidências. Não cita nada. Não diz o que está errado; não diz nada além do fato de que escreveu uma monografia que nós não lemos — e que dificilmente vamos ler. E esse tipo de discussão é desprezada até em blogs, superficiais por natureza. No fim das contas, o professor Anselmo é despreparado até para discutir com amadores em um blog. Isso faz do catedrático um mané típico de internet, e eu não queria vê-lo enfrentando um debate realmente sério na “academia”. Ao dileto docente faltariam fôlego e talento.

O mais engraçado é que há evidências neste blog, sim, dentro dos limites que textos em blogs podem ter. Aliás, o texto que motivou o comentário do Anselmo começa com a narrativa de um deles, acontecido com membros da minha família.

vc deve aprender sobre o assunto para depois expor sua própria opinião. Deve aprender sobre a colonização do sertão que foi diferente da do litoral, saber que a violência no sertão foi utilizada desde colonização, que o uso da violência era um pre-requisito para a sobrevivência sobrevivência, enfim.

Então foi para isso que o professor Anselmo gastou o dinheiro dos contribuintes? Para escrever obviedades em blogs alheios? O arroz cheio de bicarbonato de sódio do restaurante universitário deve ter-lhe feito mal. Porque quando alguém acha que só ele e sua monografia sabem da gênese da violência no sertão, esse alguém tem problemas sérios. O Anselmo fala platitudes como quem faz uma revelação, como quem anuncia o Apocalipse à patuléia ignara. E no entanto não diz mais que o óbvio, o comum, conhecimento rasteiro.

O problema, mesmo, é que eu e a torcida do Flamengo sabemos de tudo isso. A diferença é que não precisei passar quatro anos na universidade para chegar à conclusão de que Lampião era um bandido.

O ilustre catedrático Anselmo parece ser jovem, pela atitude e pelo péssimo estilo. Tem aquela arrogância típica de quem aprendeu as primeiras letras na universidade e, de repente, se acha o grande conhecedor do assunto sobre o qual escreveu uma monografia. É essa coisa de juventude que o faz perpetrar bobagens como essa.

Fico por aqui, porque não estou aqui para te ensinar nada.

E eu tenho sérias dúvidas de que conseguiria.

É só uma crítica construtiva.

A minha também, professor Anselmo. A minha também.

Estude exaustivamente sobre o assunto, beba em vários autores de opiniões contrárias e depois forme sua própria opinião, só assim você estará capacitado pra falar sobre um assunto tão complexo sobre “Lampião: bandido ou herói? ok.

Por que diabos um sujeito acha que eu iria “estudar exaustivamente” Lampião, quando tenho mais o que fazer, é um mistério. Ele não entende que isto aqui é um blog, só um blog, nada mais que um blog? Prefiro me espantar com as palavras do rapaz, com a sua arrogância cega. O professor não sabe o que li ou deixei de ler, com quem conversei ou deixei de conversar. Mas sabe que escreveu uma monografia de conclusão de curso, e isso o credencia. Então faz questão de mitificar a matéria sobre a qual aprendeu alguma coisa, falando do “assunto complexo” que é — mesmo quando se trata de um dos temas que ajudaram a definir a auto-imagem de toda uma região. Ele tem que se valorizar, afinal. E se isso não é possível no meio acadêmico, que seja num blog.

Apenas um idiota espera de um blog a profundidade de uma tese de mestrado; mas é preciso ser mais que isso para discutir de maneira tão boba, baseado apenas em um argumento de autoridade pífio e fácil. É preciso ser um autêntico mané.

Republicado em 21 de setembro de 2010

It's a man's world

Mônica me pergunta:

— Rafael, a Nova ainda existe?

— Existe. E vai existir enquanto existir mulher mal comida neste mundo.

Um dia eu descubro por que este país não tem sequer uma revista feminina decente. A Marie Claire começou bem, mas descambou rapidinho para matérias do tipo “Fiz uma suruba com o meu neto e minha nora”. A Cláudia, que se segurou bem durante décadas, desceu o nível e hoje é uma vendedora de alface na feira. E a Nova, que sempre foi isso mesmo, consolo intelectual para mulheres mal comidas e mal empregadas, deve continuar a mesma coisa, com artigos traduzidos da Cosmopolitan onde americanas neuróticas e semi-histéricas ante o “tic-tac do relógio biológico” tentam ensinar as bobas a segurar o seu homem com 1.375 posições sexuais.

De repente dá até saudade daquelas fotonovelas italianas da Gande Hotel, Sétimo Céu e Capricho.

E por tudo isso eu tenho a impressão, cada vez mais forte, de que revista boa era a Mini Fiesta, com suas fotonovelas de putaria e seus relatos “verídicos” de casos eróticos.

A Mini Fiesta, pelo menos, era honesta.