Dois ou três comentários sobre o show dos Stones

Visto pela TV, é claro.

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Alguém bem que podia fazer a caridade de avisar a Jagger que, quando ele rebola aquela sua bunda seca, o resultado não é bonito.

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É impressão minha ou o único que ainda se diverte ali é Ron Wood?

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Os velhinhos destruíram Get Off Of My Cloud. Destruíram. Pareciam uma banda cover de segunda que tinha aprendido a canção alguns momentos antes. A princípio pensei que é nisso que dá tocar a mesma canção por 40 anos; mas aí lembrei de Satisfaction. E eles tocaram melhor canções difíceis de serem tocadas ao vivo, como You Can’t Always Get What You Want. Não tem explicação.

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É um prazer ver Bobby Keys ainda tocando. Eu jurava que aquele Stone honorário (o outro é Chuck Leavell, o tecladista) já tinha batido as botas. Os anos 70 não acabaram.

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Eu não deixo de ficar espantado cada vez que vejo Keith Richards. Agora eu já sei por que a heroína não o matou. Ele já estava morto. Keith Richards é uma múmia, sempre foi, a gente é que não percebeu. Só não entendo por que o pessoal do combate às drogas não o utiliza em uma campanha. Até já imaginei o cartaz a ser pregado nas escolas. Uma foto dele, e o título: “A heroína mata. E quando não mata, deixa você assim.”

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Conclusão lógica vendo o estado de Mick Jagger e o de Keith Richards: cocaína faz bem. Heroína não faz bem.

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O único sorriso dado por Charlie Watts foi no final de Satisfaction. Como quem diz: “Oba, esta merda já está acabando.”

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A moça ao meu lado:

— Essa Luciana Gimenez é uma valente, pra deitar com esse cacareco.

— Que nada. Valente é quem dá pruns pés-rapados sem um puto no bolso. Como eu.

A verdade dói.

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Mas a verdade é que os maus velhinhos dão um show de verdade, e uma aula de profissionalismo. Mick Jagger tem o direito adquirido de enrolar durante um show, mas isso é algo que nem parece passar por sua cabeça.

É basicamente o show de sempre: as músicas novas são via de regra ruins, as antigas são invariavelmente boas. Os backing vocals eram fracos. Jagger e Richards parecem evitar até mesmo olhar um para o outro. A impressão que se tem — a julgar por depoimentos de quem foi aos shows dos dois e por DVDs e transmissões ao vivo — é a de que um show da nova turnê de McCartney é mais interessante. Mas os Stones ainda são os Stones. Se bem que, olhando para o rosto mumificado de Richards, a cara de aidético chapadão de Ron Wood e a expressão de Charlie “eu – tive – hepatite – e – agora – vivo – cansado” Watts, não serão por muito tempo.

O santo e o filósofo

Vi que a Companhia das Letras relançou “O Julgamento de Sócrates” de I. F. Stone, agora em edição de bolso, mais barata.

É um belo livro, principalmente por desmistificar alguns dos mitos que rodeiam o filósofo grego. Ao longo de 2500 anos, e dependendo de cada época, várias versões sobre as razões de sua morte circularam com uma certa desenvoltura, baseadas, é verdade, nas alegações da acusação. Uma diz que foi condenado a tomar cicuta por pregar contra os deuses gregos. Outra — versão mais corrente em tempos mais puritanos — dizia que “corrupção dos jovens atenienses” era apenas um eufemismo para o fato de ele ser “um velho sodomita que atacava jovens indefesos”.

O que o livro de Stone mostra é que os motivos para a morte de Sócrates foram políticos, não religiosos ou sexuais. Os gregos não podiam ligar menos para os seus deuses, uma comunidade heterogênea de assassinos, ladrões, cornos, ninfomaníacas e tarados. Pregar contra eles não significava muita coisa, e essa tradição de tolerância era tão forte que séculos mais tarde, decadente e em ruínas, Atenas recebeu São Paulo de maneira bem diferente das outras, onde era invariavelmente aplaudido ou expulso: simplesmente riu dele.

A taça de cicuta tampouco se deve ao prazer com Sócrates se deleitava com seus discípulos. A pederastia era, mais que aceita, incentivada pelos gregos, e a tradição cretense do harpaghè — o rapto ritualizado de um jovem por um homem mais velho — é uma prova disso, embora possa-se levar em conta o fato de que a civilização minóica era bastante diferente da ateniense; nesse caso pode-se citar a velha e boa Esparta e seus soldados amantes. Em todo caso, o que Sócrates fazia da sua bunda não era da conta de ninguém e ele certamente não teria que prestar contas por isso.

Mas os atenienses tinham muito orgulho de sua democracia. Além de uma experiência política brilhante, era esse sistema que possibilitava o crescimento intelectual e artístico da cidade-estado. O que Stone demonstra em seu livro é que o crime de Sócrates foi investir justamente contra essa democracia. E isso era intolerável.

O caso de Sócrates lembra outro, o de Santo Estêvão, o primeiro mártir cristão. Um dos sete primeiros diáconos escolhidos entre judeus de língua grega, tinha um ardor cristão tão grande — esse ardor revolucionário que costuma vaporizar o juízo dos fanáticos — que o fez declarar que o judaísmo deveria desaparecer para dar lugar ao cristianismo, então apenas uma seita judaica. É a falta de tolerância típica do cristianismo (ironicamente herdada do judaísmo e aprimorada), que mais tarde evoluiria e tentaria fazer o mesmo com praticamente todas as outras religiões com que tivesse contato. O cristianismo é uma cortesã bela e fútil que não admite concorrência.

Estevão foi levado ao sinédrio. Considerando-se que esse mesmo sinédrio já tinha dado fim a outro barbudinho, um tal de Jesus, condenar um zé-ninguém chamado Estevão sei-lá-das-quantas era moleza. Como o governador romano não estava em Jerusalém, o povo com pressa se encarregou do caso e tacou pedra nos cornos de Estevão. Entre os presentes ao apedrejamento estava um jovem fariseu chamado Saulo de Tarso, que mais tarde seria ofuscado por uma luz esquisita na estrada de Damasco.

Há um paralelo interessante entre as mortes de Sócrates e de Santo Estevão. Ambos foram mortos pelo regime em que viviam, que lhes possibilitava a formação de um sistema de pensamento próprio e livre e que preferiam ver extinto. Nos dois casos, foram mortes que, à luz do sistema legal em que viviam, devem ser consideradas justas. A queda de Atenas, no caso de Sócrates, e a supremacia do cristianismo, no caso de Estevão, se encarregariam de recuperar suas reputações.

A volta de “O Julgamento de Sócrates” às livrarias é um bom motivo para ler um pouco mais sobre um dos acontecimentos mais importantes da história mundial. Ao perfil de pedra fundamental da filosofia ocidental é acrescentado um aspecto mais sombrio: o oligarca elitista que sentia pouco à vontade em um regime em que sua classe tinha absoluta liberdade, um sujeito com profundas aspirações autoritárias e anti-democráticas, se me lembro bem de um livro lido há mais de 15 anos. É um livro que, definitivamente, vale a pena.

Marmelada, Edkallen, marmelada

Só pode ser provocação, só pode.

A gente passa uns diazinhos longe do mundo, aí vem o Edkallen sacanear. Vem e diz que alguém fez uma eleição esquisita para escolher a maior banda de rock de todos os tempos, e o resultado foi Pink Floyd em primeiro lugar, seguido pelo Led Zeppelin, Rolling Stones e The Who. Os Beatles não entraram sequer entre os 10 primeiros.

Curioso. Para ficar apenas nas quatro primeiras bandas, o fato é que todas foram maiores e mais influentes que os chatos do Pink Floyd. Até hoje se ouve ecos de sua música, de um jeito que o PF jamais conseguiu.

Certo, os órfãos de Syd Barrett têm muitos fãs. A Banda Calypso também. Mas nunca fizeram o sucesso comercial do Led Zeppelin, por exemplo. Comercialmente os anos 70, década em que o PF fez mais sucesso, foram do Led Zep e dos Wings de Paul McCartney (sem contar sucessos menos influentes, como Peter Frampton, Bay City Rollers, etc.). Os chatos do PF apenas ocuparam um pequeno nicho, que aliás ocupam até hoje — o Dark Side of The Moon ficou mais de 500 semanas nas paradas de sucesso. Talvez esse nicho aumente ou diminua de acordo com a oferta de cannabis no mercado, mas é um nicho consistente e regular.

Acontece que não é isso que conta. É a capacidade de uma banda de influenciar o som de uma época e das seguintes. Nesse caso, falar dos viciadinhos de Mick Jagger é covardia. Se alguma dessas 10 bandas merece o título, são os Rolling Stones. Seguida pelo Who e pelo Led Zep. São bandas que deixaram um legado muito maior que os maluquetes edipianos. Virtualmente todas as bandas de rock do mundo devem algo a essas duas bandas. Mick Jagger e Robert Plant definiram o physique du rôle do cantor de rock. Pete Townshend e Keith Richards sedimentaram o papel do guitarrista. Roger Waters só encheu o saco com seus lamentos e sua fraude intelectual — dizer que “nós não precisamos de educação” é cuspir no prato que comeu, porque foi a reforma educacional da Inglaterra no pós-guerra que possibilitou a grande explosão do rock um pouco mais inteligente naquelas plagas.

Mas isso era de se esperar. Basta olhar para os outros colocados. Guns ‘n’ Roses. Bon Jovi. Essa votação foi certamente feita por gente que descobriu o rock através das Spice Girls e de Rick Astley.

O horror. O horror e a decadência.

…E no terceiro dia

Em 1980, os Beatles já tinham deixado de pertencer ao imaginário popular. Se hoje eles são um mito, na época eram apenas uma grande banda que tinha acabado.

Aqueles eram os anos da discoteca. Quem não viveu aquilo, ainda que marginalmente, não tem idéia do que era. Disco music era o verdadeiro mainstream, e as pessoas lotavam discotecas e se vestiam como Tony Manero; pior, tentavam dançar como ele, sem conseguir.

O rock, por sua vez, tinha passado por outras ondas, como o progressivo e o punk. Para os poucos que ainda ouviam a música dos anos 60, que não perdiam tempo com os Bay City Rollers, os Wings de Paul McCartney ofereciam um substituto quase aceitável. Mas os grandes nomes da época eram Led Zeppelin e Peter Frampton. Os Beatles eram passado, mais do que nunca. Pensando bem, é assim que as ocisas devem ser.

Mas então apareceu Mark David Chapman e deu cinco tiros nas costas de John Lennon.

Em 1980, John Lennon era um artista decadente. Antes de se retirar de cena, em 1975, seus discos vinham vendendo cada vez menos — e as críticas, depois de um início promissor com duas obras-primas, eram cada vez mais negativas. Seu álbum de retorno, Double Fantasy, vinha tendo péssimas vendas; talvez porque, depois de um hiato de 5 anos, as pessoas esperassem que o “beatle avant garde” aparecesse com algo realmente novo, e não com o pastiche dos anjos 50 que apresentava ali.

Os tiros de Chapman se encarregaram de criar um mito. E assim como as vendas do Double Fantasy dispararamn a partir dali, o ostracismo dos Beatles começou a chegar ao fim.

Mas não foi só por isso. Era preciso algo mais. E esse algo mais foi uma hecatombe chamada “anos 80”.

Os anos 80 foram a década em que os protagonistas dos anos 60, sem exceção, viraram dinossauros anacrônicos. Por exemplo, com a discutível exceção de Tattoo You, os Rolling Stones não lançaram um disco sequer aceitável naquela década miserável. Mas eles morreram de fato quando os Sex Pistols apareceram gritando por anarquia no Reino Unido. O vínculo emocional que existia entre os artistas dos anos 60 e seu público, e que fez daquela década algo especial, acabava ali. Eles não tinham mais o que dizer.

Mas o enterro, mesmo, foi nos anos 80.

O mais curioso é que os ídolos dos anos 70 seguiram o mesmo caminho, cedo demais. Seria de se esperar que durassem pelo menos dez outros anos, assim como o pessoal dos anos 60. Mas tão rapidamente como surgiram, eles sumiram — infelizmente não antes que o Clash definisse o som da nova década com Rock the Casbah, assim como os Beatles definiram os 60 com Please Please Me. Foi esse vazio, criado pelo conjunto de fim dos grandes e a morte de John Lennon — que é única por não ser o final de um exercício aplicado de auto-destruição como as mortes de Joplin ou Jim Morrison, mas uma agressão gratuita e inexplicável — quie possibilitou a volta dos Beatles.

O fato de os Beatles passarem a ser venerados a partir dos anos 80 não é exatamente um reconhecimento de sua grandeza; esse reconhecimento veio 20 anos antes, por gente boa como Leonard Bernstein. É, antes de tudo, o sinal de que um vazio muito grande existia naquela década perdida.

Paulo Francis

A Primeira Leitura de janeiro trouxe um artigo sobre Paulo Francis, comemorando os 40 anos de lançamento de seu primeiro livro. A matéria, assinada por Bruno Garschagen, é francamente elogiosa; os depoimentos de amigos e admiradores também.

Há ali pelo menos uma falha, não muito grave: não inclui na bibliografia de Francis o seu último livro, “Waal: O Dicionário da Corte de Paulo Francis”, coletânea de trechos de artigos organizada por Daniel Piza e publicada em 1996. Curiosamente, todas as citações de Francis incluídas ali estão nesse livro.

A matéria também traz uma análise interessante das características do texto e das colunas de Paulo Francis: lembra que o seu estilo é uma espécie de precursor do que hoje se vê nos blogs. É verdade: o estilo pessoal de Francis casa, à perfeição, com os blogs deste início de século. Era pessoal, variado, “quente”.

Paulo Francis era brilhante. Não é preciso procurar muito para ver isso:

Dylan era idolatrado. É ainda, por alguns. Fez algumas coisas infelizes como ter um caso com a amiga de Mogadon Suplicy, Joan Baez. Fico imaginando os dois brigando e como arma final ele cantando “Blowin’ in the wind” e ela “Guantanamera”. É pior que barulho de murro em parede de quarto.

É impossível não cair na gargalhada ao ler trechos como esse, e é impossível não reconhecer o talento absurdo do sujeito. O problema começa quando se tenta alçá-lo a referência cultural do país.

A matéria, por exemplo, atribui “rigor intelectual” a Francis. Falso. Francis não era rigoroso sequer ao checar suas informações. Parecia preferir confiar em sua cultura, bastante vasta. Na verdade, o adjetivo que se aplicaria mais facilmente seria “abrangente”. E nisso ele era insuperável, como nenhum outro jornalista brasileiro jamais foi.

Era esse o seu papel, o de jornalista. Informava e, no máximo, podia servir de guia. O que ele escrevia, apesar de sua erudição e de sua verve, era quase sempre superficial, como é adequado a um jornal. Em tempos sem internet, muito do que ele escrevia era um reflexo do que acontecia na imprensa cultural de Nova York. E isso era extremamente válido e importante.

A matéria diz ainda que Francis morreu “no melhor de sua forma e como o jornalista mais influente do país”. E as coisas não são assim tão simples.

A década de 90 não foi muito generosa com ele. Começou com uma discussão pública e bastante áspera com Caio Túlio Costa, então ombudsman da Folha de S. Paulo. Costa era, em todos os aspectos, um jornalista inferior a Francis: mas estava certo ao questionar os seus critérios jornalísticos, e Francis, se sentindo desprestigiado, acabou saindo da Folha e indo para O Estado de S. Paulo. Tinha perdido aquela.

Ir para o Estadão foi um mau movimento. Ali não havia a pluralidade e a efervescência da Folha. Francis passou a falar principalmente para conservadores como ele, e boa parte da repercussão que tinha se perdeu.

Um último golpe seria o livro “Vida e Obra do Plagiário Paulo Francis”, de Fernando Jorge. O livro se dedicava a encontrar incoerências e coisas do tipo na obra de Francis. É curioso que Francis, que se antecipou aos blogs em 20 anos, pelo menos, tenha sido vítima de um fenômeno tipicamente blogueiro: o stalker, o desocupado que se dedica a um parasitismo deletério e obcecado, que alguns consideram uma espécie de homenagem e que outros, como eu, acham apenas um retrato pé-no-saco de uma mediocridade profunda. O stalker é um fã no espelho, aqueles espelhos de parques de diversões onde tudo é invertido e distorcido. De qualquer forma, o livro deve ter sido um golpe e tanto para Francis. E dizem que, quando morreu, estava deprimido diante do processo milionário que a Petrobras movia contra ele.

Em todos esses casos, os desafetos de Francis apontavam seus defeitos como jornalista. Perdiam de vista o que era essencial nele: sua noção do que era bom e mau em cultura, sua coragem em defender seus pontos de vista sem transigir com a demagogia, sua capacidade de provocar politicamente seus leitores. Ao mesmo tempo, mostram que é uma temeridade tentar fazer dele um pensador.

Havia muito de impostura intelectual em Francis. Por exemplo:

O socialismo, segundo Marx, só poderia ser concretizado em países que tivessem atingido o limite do desenvolvimento capitalista e este, gerando uma classe operária consciente de seus direitos e politicamente ativa, soçobraria em face da revolução proletária. Para ser franco, acho isso moralismo judaico.

Parece uma análise brilhante e original em sua “franqueza”. Não é. Foi tirada de Edmund Wilson em “Rumo à Estação Finlândia”, e é uma redução até um pouco inepta do pensamento de Wilson. No entanto, Francis faz parecer que é sua.

(E na minha opinião os dois estão errados. A fé marxista em uma nova moral proletária deve menos ao Talmud que a Rousseau. E desde Lênin ninguém além de anti-marxistas leva essa questão moral muito a sério.)

Essa impostura pode até ser aceitável em um jornalista cultural, embora com restrições. Mas é intolerável em um intelectual a ser tomado como modelo. Definitivamente, Paulo Francis não era um sujeito que se levasse muito a sério.

Mesmo assim, há um número enorme de viúvas de Francis entre a direita. É engraçado que normalmente esqueçam onde e como Francis ascendeu à fama: como jornalista de esquerda na Última Hora de Samuel Wainer, e depois no Pasquim. Ao contrário de suas viúvas, Francis normalmente sabia do que estava falando: trotskista de formação e grande leitor de Freud, tinha uma solidez cultural que a maioria da direita, hoje, nem sonha em ter.

Talvez por isso ele venha adquirindo uma dimensão que não deveria ter. Mas isso não é de agora. Francis morreu com menos de duas semanas de diferença em relação a Darcy Ribeiro. A importância de cada um deles não pode ser sequer comparada. Darcy foi antropólogo, ministro, senador, fundador da UNB; Paulo Francis foi apenas um jornalista. No entanto, o finado Francis mereceu a capa da Veja, enquanto o defunto Darcy ganhou meras duas páginas na seção de obituários da mesma revista. É assim que criamos nossas referências culturais.

Dois filmes e uma geração

Aí pela metade dos anos 50 os Estados Unidos inventaram essa coisa chata que se chama adolescência. E o filme que entrou para o imaginário popular como a definição dessa geração foi “Juventude Transviada”, de Nicholas Ray.

Das cenas iniciais, com James Dean deitado na calçada em posição fetal enquanto coloca um boneco de corda para dormir com ele — certamente tirando dele mais afeto que de sua família tipicamente americana — ao final, em que a juventude age como redentora da sociedade ao impor valores mais puros e transparentes, o filme se tornou o símbolo cinematográfico da maior revolução de costumes na América, desde os anos 20. Curiosamente o filme não tem sequer quatro compassos de rock and roll, numa trilha unicamente jazzística; isso não importa.

Mas há outro filme que poderia reivindicar esse lugar. Chama-se Jailhouse Rock e é estrelado pelo ícone máximo dessa era: Elvis Presley, quando ainda era The Pelvis, e não The Putz.

Jailhouse Rock tem um momento grandioso e emblemático. Os pais da namorada de Elvis estão discutindo jazz e pedem a sua opinião. Coltrane? Brubeck?

A resposta de Elvis, ex-presidiário que tenta gravar um disco, não poderia ser mais desdenhosa:

“Eu não ligo a mínima para esse pessoal”.

É isso.

“Juventude Transviada” dá voz aos problemas de uma geração de maneira verdadeira e cristalina, e a analisa a partir de uma perspectiva intelectualizada enquanto a insere em um contexto social específico. É isso que faz do filme melhor cinema. Mas Jailhouse Rock, feito alguns anos depois, celebra uma subcultura em todo o seu esplendor, no momento em que corta o seu cordão umbilical. É uma celebração da arrogância e da ignorância que caracterizariam, para sempre, a adolescência.

O que aquela geração diz através da boca de Elvis é que ela se basta, que não precisa do respaldo ou da herança da geração anterior. Diz isso nos seus termos, na sua linguagem, e ao som de sua música. Não precisa da sofisticação emprestada ao jazz, e essa talvez seja a diferença fundamental, por sutil que seja, entre “Juventude Transviada” e Jailhouse Rock.

Ela já não está interessada em contemporizações. Em “Juventude Transviada”, o objetivo parece ser a concórdia entre duas gerações diferentes e conflituosas. A ordem social é mantida, apenas renovada pela juventude (o pai de James Dean lhe prometendo ser mais forte, antes mesmo que o cadáver de Sal Mineo esfrie, é o melhor exemplo: um pai forte é condição primordial para qualquer sociedade patriarcal). O eixo está nos valores da família tradicional; tudo o que se pede é um pouco mais de de ar fresco, um pouco de harmonia, equilíbrio e honestidade. Isso é puro Lampedusa.

Em Jailhouse Rock nada disso interessa mais, e se abre um fosso que não dá margem a remendos. Absolutamente consciente de sua força, aquela nova juventude estabelece um mundo à parte e sem ponto de contato. O jazz aqui já não vale nada, porque eles encontraram sua própria voz. A nova ordem não pede; apenas declara seus interesses, e a reação da geração anterior já não interessa. O mundo, eles já sabem, é dos adolescentes.

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É uma história bonita e triunfante, mas ela não acaba aqui. A juventude parafraseava ali, sem saber e sem se dar conta do paralelo histórico, Baldur von Schirach, chefe da Juventude Hitlerista: “Caiam foram, velhos!”, e iria mais além e criaria a contra-cultura dos anos 60, o momento em que alcançou sua maturidade, em mais de um sentido.

Mas eles também envelheceriam e se integrariam perfeitamente à velha ordem. De segmento máximo de mercado cederiam espaço a velhos, crianças e gays. E Elvis Presley terminaria seus dias cantando para velhas gordas na capital mundial do brega, Las Vegas, como uma paródia patética do jovem carbonário de 20 anos antes.

O papa de Hitler

Um artigo curioso na Primeira Leitura de dezembro: Hugo Estenssoro faz uma resenha de The Mith of Hitler’s Pope, do rabino David G. Dalin. O livro procura derrubar a idéia de que o papa Pio XII fez vista grossa à perseguição dos judeus pelos nazistas.

Não li o livro, o que faz deste post apenas um comentário sobre a resenha e sobre os aspectos ressaltados nela.

O problema de Dalin, como apresentado, parece ser a fraqueza de grande parte da argumentação. Dalin torce ao máximo interpretações, inclusive retirando-as de seu contexto histórico, para recriar a imagem que teve o papa até 1963: a de um líder que, embora pudesse ter feito mais, ao menos fez sua parte. E isso é uma inverdade.

A resenha afirma que Dalin “consegue também fundamentar suas afirmações com erudição e elegância. Assinala, por exemplo, que Hitler dificilmente teria desenvolvido planos de seqüestrar o papa se ele fosse seu aliado”. Não consigo ver a elegância em simplesmente dar uma opinião na base do “se”, mas essa afirmação equivale a dizer que Hitler dificilmente teria invadido a União Soviética se Stalin fosse seu aliado. No entanto, foi exatamente isso o que aconteceu. Dalin parece subestimar o que há de temporário em política para justificar os atos do papa, e parece não entender que alianças são quase sempre efêmeras — ainda mais em tempo de guerra. Hitler, mesmo tendo entre seus defeitos uma ignorância crassa e um profundo eurocentrismo — uma das razões para perder a guerra –, sabia disso.

“A decisão de acolher uns 3 mil judeus em Castelgandolfo, durante a ocupação alemã de 1943, foi simplesmente um ato de coragem”, como afirma o livro? Talvez. Mas essa coragem talvez empalideça quando imaginamos as manchetes do dia seguinte, em caso contrário: “Vaticano se recusa a acolher uns 3 mil refugiados judeus”. O custo moral, mas principalmente político, para o Vaticano seria muito maior, e Pio XII sabia disso. Não se está dizendo aqui que o asilo dado tenha sido resultado de covardia; apenas relativizando a “coragem” que julgam ver ali.

É preciso lembrar que, além de líder espiritual, o papa era o chefe de um Estado soberano. E dentro dessas condições parece humilhante comparar 3 mil judeus salvos principalmente por falta de opção aos 1200 que Oskar Schindler, trabalhando dentro do sistema e sem metade das garantias de que o papa dispunha. Se os 3 mil refugiados representam um ato de coragem para um homem com o poder papal, os judeus de Schindler representam um ato divino.

“O fato de Pio 12 não ter excomungado Adolf Hitler ou os carrascos dos judeus (…) é uma questão bem mais complexa, embora a secular história da Igreja demonstre que os resultados são quase sempre contraproducentes”. Provavelmente o imperador alemão Henique IV, humilhado e ajoelhado na neve de Canossa, aonde tinha ido suplicar ao papa Gregório VII a suspensão sua excomunhão, pensava nesses aspectos curiosos das coisas de Deus. Certo, é preciso admitir que no século XX excomunhões significam pouco ou nada. Mas há uma diferença entre “contraproducente” e “ineficaz”.

Dalin tem razão ao afirmar que “não há razões concretas para pensar, como fica claro com o material exposto no livro, que um enfrentamento aberto com o Terceiro Reich teria melhorado ou aumentado a capacidade do Vaticano para contrariar, evitar ou atenuar a barbárie nazista”. Assim como São Paulo não tinha nenhuma razão para acreditar que ser apedrejado em Listra ou açoitado em Filipos faria alguma coisa pelo crescimento do cristianismo. Se se posicionar abertamente contra o nazismo, e reconhecer o crime contra a humanidade na perseguição aos judeus, poderia ou não ter surtido algum efeito, é algo que pode ser deixado à imaginação de cada um. O certo é que o silêncio de Pio XII não fez absolutamente nada nesse sentido.

É esse o defeito principal nessa abordagem do papel da Igreja Católica em relação a essa crise. Ela borra a linha que separa heróis de covardes — ou, se essa palavra parece muito forte, de “prudentes”. Pode-se aceitar do alemão comum o silêncio, até mesmo a colaboração. Mas tal atitude é inaceitável no líder espiritual de milhões de almas. É a coragem que, por exemplo, os primeiros cristãos tinham de sobra, ainda que em meio a uma névoa de fanatismo. A coragem que milhares de cristãos alemãos tiveram ao esconder judeus em suas casas. A mesma coragem que faltou a Pio XII.

Agora é seu

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa

Desde ontem a obra de Fernando Pessoa está em domínio público, como foi lembrado pela Cláudia.

Deixa estar

No primeiro quarto de século depois do fim dos Beatles, apenas um disco inédito (sem contar o Let it Be, um álbum póstumo, de certa forma) foi lançado pela EMI/Apple: o Live at the Hollywood Bowl, em 1977.

De repente, em 1994, a Apple decidiu abrir seus arquivos. A partir daí foram lançados o Live at the BBC, o projeto Anthology, e finalmente o pior de todos, o Let it Be… Naked. Relançaram também em DVD ou nos cinemas a maioria dos filmes da banda, como A Hard Day’s Night, Help!, Magical Mystery Tour e o desenho animado Yellow Submarine.

Mas ainda está faltando um grande projeto, talvez o último deles: o relançamento do filme Let it Be.

A história do filme é simples: logo após o fim das gravações do “Álbum Branco” — quando a coisa começou a ficar feia para os Beatles –, e sentindo que a crise era muito séria, McCartney resolveu que estava na hora de voltarem a tocar ao vivo, porque isso poderia recolocar a banda nos trilhos. As sugestões que foram surgindo a partir daí incluíam um show num anfiteatro vazio no norte da África, que se encheria aos poucos com gente de todas as cores, credos e raças, idéia depois reciclada pelo Pink Floyd em Pompéia.

Apesar de toda a grandiosidade das idéias, àquela altura já seria uma grande vantagem simplesmente juntar os quatro beatles em qualquer lugar. Se resignaram a gravar um documentário para a TV mostrando a banda no processo de gravação de um novo disco. A idéia seria mostrar os Beatles “sem as calças”, como dizia Lennon. Ensaiando, gravando suas músicas ao vivo como nos primeiros tempos. Tudo deveria ser o mais natural possível.

Até isso deu errado. Com os Beatles apenas adiando um fim inevitável, o filme foi posto de lado e acabou sendo lançado nos cinemas, o que explica os ângulos esquisitos de várias tomadas. O disco com parte da trilha sonora seria lançado um mês após o anúncio oficial do fim dos Beatles.

É quase impossível fazer uma análise objetiva de Let it Be porque aquilo não é bem um filme, é James Stewart apontando o binóculo para o apartamento de Raymond Burr.

Do ponto de vista cinematográfico Let it Be é um fime horroroso. É mal dirigido, mal editado — é um fracasso tosco. Michael Lindsay-Hogg, o diretor, poderia ter feito um trabalho bem melhor dentro das diretivas “naturalistas” que recebeu. Não fez, e acima de tudo Let it Be é um filme extremamente chato.

Mas é também um documento importante.

Ele acabou entrando para a história como o registro do processo de desintegração da banda mais influente da história. Mas na verdade não é isso que ele mostra. Se tivesse sido lançado exatamente como é, mas a banda não tivesse se separado naquele momento, ele seria visto como uma alegoria da superação: o filme começa em um ambiente muito tenso, nos estúdios de Twickenham, melhora quando vão para a Apple e tem sua apoteose no show no telhado, interrompido pela polícia. Poderia ser visto como uma prova de que o amor pela música e a camaradagem entre quatro sujeitos que cresceram juntos supera tudo.

Infelizmente os Beatles se separaram menos de um ano depois das gravações e, para todo mundo, o filme é um epitáfio.

A Apple vem realizando um trabalho incessante em cima do filme. Há anos vem trabalhando nele — e algumas cenas do filme restaurado já foram vistas no Anthology. Ainda não se sabe quando será lançado, e a cada Natal os boatos redobram. Talvez tenha ficado mais fácil depois da morte de George Harrison, um dos que mais carregavam mágoas daquela época, mas ainda é um tema de que nenhum dos sobreviventes gosta de falar com honestidade. O Let it Be é o retrato mais acabado do que são as relações entre os ex-beatles: um saco de gatos em que dinheiro e mágoas desempenham papéis equivalentes.

Mas eles sabem que, quando relançarem o filme, as vendas em DVD vão ser excelentes. E o dinheiro pode até ser equivalente às mágoas, mas Paul McCartney, Ringo Starr, Yoko Ono e Olivia Harrison sabem que mágoas não enchem bolsos.