Chechênia

O artigo ponderado do Antônio Carlos sobre a tragédia na escola russa é excelente: informativo e com um excelente ponto de vista.

O único comentário a se fazer é sobre a imbecilidade de uma opinião como a de Emir Sader, citado no post do AC. O que se nota é a condenação da atitude de Putin praticamente a priori, enquanto se deixa de lado a questão principal: terroristas invadiram uma escola e fizeram de centenas de crianças reféns. Esse complexo de esquerdistinha do terceiro mundo faz com que, às vezes, consigamos perder a noção do que é certo ou errado. Talvez a ação da repressão tenha sido canalha, provavelmente foi equivocada, certamente foi incompetente — mas não foram eles quem fizeram de crianças reféns.

Não interessa quem é Putin ou o que é o problema checheno. O que interessa é que, ao invadir uma escola, terroristas deixam de ter quaisquer razões que possam alegar, porque deixam de ser humanas. Ultrapassam um limite que não pode ser ultrapassado. Os tais terroristas são monstros, ponto. Não merecem absolutamente nada. E depois que isso for reconhecido, aí, sim, se pode começar a discutir qualquer outra coisa.

Ao reclamar que “as potências ocidentais concentrarão a condenação nos ‘terroristas'”– assim mesmo, entre aspas –, o Emir Sader, homem com história respeitável, se torna um idiota.

Boyz N The Hood

O cinegrafista prepara a câmera para filmar uma passeata no centro de Aracaju.

Um menino de rua de seus 11 anos, gordinho, fica parado em frente a ele, com expressão séria.

“Ô, guri, sai da frente.”

“Você não vai filmar aqui, não.”

O cinegrafista suspira e se volta para o outro lado, esperando que o menino se canse e ele possa trabalhar em paz.

“Você filma o lado de lá. Mas desse lado você não filma.”

Amor de mãe

Notícia de cantinho de página do Globo de ontem: autoridades esperam a chegada de um número muito grande de prostitutas à convenção democrata em Boston.

Sei que é bater na mesma tecla, mas uma vez mais eu não entendo a razão do auê. Mães orgulhosas, afinal, têm o direito de ver o ápice da carreira de seus filhos.

Eu e Cristóvam Buarque no PSDB

Dia desses uma amiga comunista de longa data me disse que eu tinha me tornado PSDBista, seja lá o que isso for.

Embora eu ache que seja fácil ser comunista numa beira de piscina num final de tarde, em volta do meu uísque e da cerveja dela, fiquei pensando na acusação, injusta por eu ser antigo militante do PDF, Partido do Dinheiro Fácil.

Primeiro achei que era só um exemplo da síndrome que vem acometendo a esquerda, que entrou numa espécie de adesão irrestrita ao governo — ou então se perde nas oposições ensolaradas de Heloísa Helena ou noturnas da velha direita.

Mas agora, lendo a entrevista do Cristóvam Buarque à Época, percebi isso não importa, porque tem mais gente no meu PSDB. Isso é um bom sinal.

Diálogos de guerra

Imagine o seguinte diálogo no Salão Oval da Casa Branca:

Bush: “É claro que as pessoas não querem a guerra. Por que um pobre coitado numa fazenda qualquer iria querer arriscar sua vida, quando o máximo que ele pode ganhar com isso é conseguir voltar inteiro à sua fazenda? Naturalmente, as pessoas comuns não querem a guerra. Nem no Iraque, nem na Inglaterra, nem no Irã e, para todos os efeitos, nem mesmo na América. Isso a gente já sabe. Mas, no fim das contas, são os líderes do país que determinam a política a ser seguida, e é sempre uma simples questão de arrebanhar o povo, quer seja em uma democracia, uma ditadura fascista, um parlamento ou uma ditadura comunista.”

Gilbert: “Há uma diferença. Em uma democracia, o povo tem alguma voz na questão através de seus representantes eleitos, e nos Estados Unidos somente o Congresso pode declarar guerras.”

Bush: “Ah, tudo isso é muito bonito, mas, com voz ou sem voz, o povo sempre pode ser levado a apoiar seus líderes. Isso é fácil. Tudo o que você tem a fazer é dizer a eles que estão sendo atacados e denunciar os pacifistas por falta de patriotismo e por expor o país ao perigo. Funciona da mesma maneira em qualquer país.”

Se o diálogo parece bem plausível, é porque ele já foi travado uma vez. Há muito tempo, na verdade. A diferença é que, no lugar de Bush, estava Hermann Göring, fundador da Gestapo. É só substituir Rússia por Iraque, América por Irã, e Alemanha por América. Sieg heil, América.

Göering e Speer

Quando lembro do nazismo prefiro não pensar em psicopatas como Hitler, Himmler e Goebbels. Tentar explicar o nazismo a partir de homens como eles é reforçar a idéia de que o fenômeno é inexplicável, porque loucura não se explica.

Mas o nazismo não era constituído apenas de loucos. E é aí que entram Speer e Göering.

Nenhum dos dois era um louco furioso. Eram basicamente oportunistas que viam no partido nazista uma grande oportunidade de ascensão social. Seriam comunistas na União Soviética, democratas nos Estados Unidos, militariam no PTB varguista. Seu anti-semitismo, que existia, não chegava à insanidade de Hitler. Sua coesão ideológica não ultrapassava os limites da loucura. Não seriam eles a propor Auschwitz, em condições normais.

Acho que o Holocausto foi o maior crime que já se cometeu contra a humanidade por uma razão: nunca, antes, se concebeu a idéia de industrializar a morte de seres humanos.

Mas para que se compreenda esse fenômeno é preciso lembrar que o nazismo, sob certos aspectos, foi muito mais mundano do que parece. Não foi uma epifania, foi apenas um resultado. É por isso que acredito, firmemente, que o nazismo é responsabilidade do povo alemão, sim. E culpa também. Só foi possível porque Hitler soube, magistralmente, explorar o sentimento de humilhação e derrota do povo; mas também porque o sentimento anti-semita era generalizado e, naquele momento, estava mais forte do que nunca. Hitler deu aos alemães o que eles queriam naquele momento. Se a coisa saiu do controle são outros quinhentos, que a essa altura não valem nada. Não se trata de marcar os ombros dos alemães de hoje com uma flor de lis, mas lembrar que isso aconteceu e que não deveria se repetir.

É falso classificar o nazismo como um evento isolado, uma espécie de explosão de irracionalismo em um momento específico da história. Não foi: foi um processo longo de formação da própria identidade nacional, de um sistema de crenças e ideologias que permitiram a cristalização de noções como o arianismo e o anti-semitismo como política de Estado.

Aquele foi um crime contra todos nós, porque uma das coisas que nos fazem humanos é dar um valor específico e sagrado à vida. Acho também que o grande erro dos judeus é não perceber esse fato. Se entendessem, não estariam cometendo crimes cada vez mais semelhantes na Palestina. A idéia de Golda Meir, citada pelo André Kenji, de que “depois do que os nazistas fizeram conosco podemos fazer o que quisermos” é uma prova disso. Esse, infelizmente, não é apenas o pensamento de uma ativista sionista em um momento de ruptura: virou a própria consciência da maioria dos israelenses. De certa forma, hoje em dia são os próprios judeus que minimizam a importância do Holocausto, ao tentar fazer dele um crime contra um povo, e não contra toda a humanidade. É como o Roger falou.

É de acordo com essa visão canalha que eles hoje proíbem casamentos de judeus com palestinos, exatamente como os nazistas fizeram a eles com a Lei de Proteção ao Sangue Alemão. E reconstroem o Gueto de Varsóvia, mas agora do outro lado. E assim criam as condições para que crianças palestinas se disponham ao suicídio terrorista. Não são mais suas crianças, e portanto não é tão hediondo assim.

Tudo isso porque acreditam, como Golda Meir, que sua cota de dor os libera para impingir a mesma dor em outros. É o que torna o Estado de Israel, hoje, desprezível e criminoso. E é o que os coloca, para mim, no mesmo nível de Göering e de Speer.

O Nazir falou das outras nações que fizeram vista grossa para o crescimento do nazismo. Eu acho que foi pior: apoiaram, porque naquele momento o nazismo lhes parecia melhor do que a alternativa comunista. Mas acho, também, que isso diz mais respeito à geopolítica (e aí não existem mesmo países inocentes) do que a questões mais claramente humanitárias. O que mancha, acima do normal, a história da Alemanha não é tanto a guerra — o expansionismo alemão foi uma das causas da Primeira, e nem por isso se julga a Alemanha uma criminosa naquele momento –, mas o anti-semitismo. É isso que não se pode esquecer.

O inimigo do meu inimigo

Uma conspiração de oficiais nazistas para assassinar Hitler no final da II Guerra já foi tema de vários filmes, e agora os conspiradores foram reconhecidos pelo primeiro-ministro Gerhard Schroeder como “patriotas“.

O reconhecimento tardio não é apenas um equívoco histórico. É também uma tentativa da Alemanha de se reconciliar a qualquer custo com a herança mais maldita que um país já carregou. Mostra que o desconforto alemão com a sua história está longe de acabar.

O reconhecimento tardio passa por cima de várias questões importantes. Por uma analogia torta, tenta fazer da tentativa de golpe de Estado uma espécie de ápice da resistência alemã. Tenta fazer crer ao mundo que o nazismo, afinal, não foi a coroação de um longo processo de formação da identidade nacional, e sim a conseqüência de um putsch numa cervejaria de Munique, restrito a uns poucos alucinados. Que a culpa pelo Holocausto não é da Alemanha, mas de uma excrescência histórica específica e impossível de se repetir, antes ou depois.

Infelizmente, não houve absolutamente nada de heróico nesse complô. O que se via ali eram oficiais nazistas, participantes entusiasmados da aventura expansionista e anti-semita alemã, desesperados ante o fracasso iminente. A tentativa de golpe nem longe se assemelha, por exemplo, à atuação dos maquis franceses. Não se tratava de resistência popular ao nazismo, nem mesmo de divergências ideológicas internas. O que estava em jogo, ali, eram as peles daqueles oficiais. Mais que “patriotas”, eram políticos oportunistas que se viam encurralados, percebendo que o sonho megalomaníaco tinha acabado, e que precisavam de um expediente que lhes permitisse escapar a um destino que, acertadamente, adivinhavam problemático.

Para que os conspiradores pudessem ser chamados com justiça de “patriotas” seria preciso que se insurgissem contra a base ideológica do nazismo. Seria preciso que acreditassem que o anti-semitismo foi o maior crime já cometido contra o gênero humano; e se isso for pedir demais, deveriam ao menos ter bem claro que as políticas interna e externa nazistas eram moralmente erradas, e não apenas um erro estratégico. Eles não discordavam do arcabouço moral ou ideológico do nazismo: basicamente, achavam apenas que tudo aquilo tinha sido mal conduzido. O problema de Hitler era não ter feito as coisas direito.

Há dois elementos básicos que constituem o nazismo. Um é o totalitarismo político combinado ao tradicional expansionismo teutônico; mas o que realmente o diferencia de outros regimes totalitários, como o fascismo, é o seu conteúdo anti-semita. Nisso a chata da Hannah Arendt (que criou o conceito delirante de “riqueza que não explora”) está corretíssima. A noção hedionda de que se pode estabelecer um sistema mecânico e extremamente funcional para a eliminação total de um povo cujo único crime era descender da tribo de Judá, e transformar isso em política de Estado, foi um momento único na história, e não pode ser esquecido ou minimizado com a glorificação de meros oportunistas.

Não era a Solução Final que horrorizava os conspiradores, muito menos o anti-semitismo; não era sequer a guerra que causou a morte de bem mais de 30 milhões de pessoas. O que os amedrontava era a perspectiva de declínio e queda, de fim de suas carreiras. Não são mais patriotas que Himmler tentando negociar a rendição alemã em meio ao caos de uma Berlim em ruínas, pouco antes de ser expulso do partido por Hitler.

E isso não é patriotismo. É política barata, pragmática, que qualquer vereador de cidade pequena entende e pratica. É sobrevivência. Seria preciso que se revoltassem contra a Noite dos Cristais, contra as meninas judias trancadas nos porões da Alemanha e escrevendo diários de desespero, contra os milhões morrendo na Rússia. Mas não fizeram isso, fizeram apenas o que qualquer rato faz quando o navio está afundando.

Louvar a memória de golpistas de última hora não é resgatar a dignidade alemã. É manipulação barata que visa, unicamente, maquiar a história e tornar um passado degradante algo mais palatável. A Alemanha, 60 anos depois da grande mancha em sua alma, ainda precisa desesperadamente de alguns exemplos que mostrem que o nazismo não pode ser confundido com a própria identidade nacional naquele momento.

Simplismos desse tipo ajudam a obscurecer a compreensão do mais aterrador fenômeno de massas já visto. Dão a ele uma dimensão extraodinária que o desliga do seu processo de construção. Levam o nazismo ao território dos contos de fadas, removendo-o da realidade, dos pequenos oportunismos dos Speer e Göering da vida, e o tornam tão fantástico que é apenas como se fosse um sonho maluco já esquecido.

Talvez isso possa servir de acalanto ao sentimento de honra alemã. Talvez. Se acreditam que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”, talvez isso possa servir como um consolo mínimo. Mas ao fazerem isso se afastam da verdade, e o consolo não se torna sequer um analgésico. Não dá para encontrar a paz com mentiras. A dor e a vergonha vão continuar.

Uma caixinha de surpresas chamada Abu Ghraib

Via Ed Cone: o jornalista Seymour Hersh diz que o governo americano tem video-tapes de garotos sendo sodomizados em Abu Ghraib.

O pior, segundo Hersh, é a trilha sonora, que consiste basicamente nos urros dos rapazes.

Obviamente, para esses garotos, viver sob a invasão americana é muito melhor que sob a ditadura sanguinária de Saddam. Sem falar naqueles que se vêm no meio do fogo cruzado entre soldados bonzinhos e terroristas compassivos.

Viva a liberdade e a democracia.

BBB

Não, a sigla não é para o programa da Globo: é para o Big Brother Bush.

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos está alistando 400 mil pessoas para servirem como espiões de comportamento suspeito em áreas públicas, de acordo com essa matéria da Time pinçada no Boing Boing.

Os EUA já viram isso antes. E não tem muito tempo: um clima semelhante, mas menos abrangente e muito menos nocivo, foi visto no final da década de 40, com o mccarthismo. Mas agora os vilões não são os comunistas: são os muçulmanos. E para acabar com eles, o governo americano está incentivando todos a se tornarem delatores, como aqueles que criticavam na União Soviética.

Eddie Dean of Fort Smith, Ark., also has little doubt about his ability to identify Muslims: “You can tell where they’re from. You can hear their accents. They’re not real clean people.”

Lentamente, a administração americana está trasnformando o país que um dia foi o paraíso da liberdade individual em uma cidade-estado medieval. Está construindo a antítese do que se orgulham em chamar de América. Não seria de espantar que em breve venham a promover queima pública de bruxas. E vai mudar de nome, de uma vez por todas, para Salem.