Por que admirar os judeus…

Provavelmente, nenhum outro povo foi tão perseguido pelo simples fato de ser o que era, e nenhum outro povo conseguiu manter sua identidade cultural com tamanha força. Durante a Idade Média, judeus foram perseguidos de todas as formas possíveis, e isso continuou até muito recentemente — em 1947 foram proibidos de ter posses no Iraque, por exemplo.

Poucos povos têm o valor, a determinação e a capacidade de suportar o sofrimento que os judeus demonstraram em 2000 anos de perseguição (tá, eles querem mais, incluindo o cativeiro egípcio, mas ali era diferente; os judeus sofriam tanto, por exemplo, como os filisteus, cujo grande crime era ocupar antes uma terra que Deus prometeu a Moisés mas esqueceu de avisar ao resto do mundo).

…mas o que acontece de errado…

Muita gente compara os 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas aos 20 milhões de negros escravizados no Novo Mundo. Mas a conta não é essa. O que torna o Holocausto diferente é que os nazistas montaram uma máquina para matar em larga escala, algo até então inédito na História, e a razão era puramente racial.

Com o fim da II Guerra Mundial as coisas melhoraram, e muito, para os judeus. Se o anti-semitismo foi regra até então, depois disso todo mundo passou a ter vergonha de dizer que odeia judeus. Foi um avanço.

Acontece que de lá para cá foi-se criando a percepção esquisita de que, de repente, os judeus passaram a monopolizar o papel de vítimas do mundo. Há uns cinco anos alguém resolveu fazer um memorial ou algo parecido em homenagem aos homossexuais mortos pelos nazistas (a bicharada foi tão perseguida quanto os judeus, embora não pelos mesmos motivos). Os judeus de Nova York chiaram, e a tal homenagem morreu. Há vários outros exemplos.

Em “As Origens do Totalitarismo”, Hannan Arendt chega a justificar a raiva que o povo alemão sentia dos judeus pela sua riqueza (como se todo judeu fosse rico, o que até justificaria boa parte das crenças absurdas anti-semitas). Ela até inventa o conceito de “riqueza que não explora”, o que é uma pérola da imbecilidade, mas compreensível pela sua origem.

Mas as coisas pioraram, mesmo, por causa das atitudes tomadas pelo Estado de Israel.

…e faz o mundo voltar a detestar judeus…

Todo o capital social acumulado pela expiação no Holocausto vem sendo sistematicamente destruída pelos crimes cometidos por Israel.

Há alguns meses o parlamento de Israel aprovou uma lei (por 53 votos a 25) proibindo o casamento entre judeus e palestinos; aos já casados a lei oferece três belas alternativas: viverem separados, irem morar em território palestino ou simplesmente abandonarem o país. Digam o que quiserem, mas é uma lei puramente racista.

Pelo visto sentem saudades da Lei de Proteção ao Sangue Alemão, editada pelo III Reich. Ela proibia o casamento, e até mesmo a boa e velha sacanagem, entre alemães e judeus. A lei chegou a prever a pena de morte aos infratores.

E agora israel constrói um muro que reedita o Gueto de Varsóvia — com a diferença importante de que agora estão do outro lado, sempre mais confortável.

É a grande ironia da História: os judeus acabaram se tornando os novos nazistas.

…o que é compreensível diante de Ariel "Sabra e Chatila" Sharon

Cada vez mais fica difícil defender ou simplesmente justificar uma nação que tem como presidente um genocida como Sharon.

Sharon está no mesmo nível de Hitler, Milosevic e outros criminosos insanos. É um assassino, e está destruindo um povo. Cabe a qualquer judeu que tenha orgulho de sua história, além da sabedoria gerada por milênios de sofrimento — ou pelo menos um mínimo de compaixão — repudiar esse monstro.

Mas se o seu povo lhe dá razão e o reelege, isso diz tanto sobre o criminoso quanto sobre o povo. E aí, a todos aqueles que denunciavam o absurdo do anti-semitismo, fica cada vez mais difícil continuar. E mais cedo ou mais tarde eles vão simplesmente calar ou baixar a cabeça quando ouvirem alguém falar em um “judeu filho da puta”.

Chá das 5

Mudando um pouquinho de assunto, alguém notou que Lula, no show de Paulinho da Viola em Brasília, parecia um lorde inglês com seu chapéu panamá e sua roupa de “Sir, I’m in the tropics!“? Lindo. E os bobos achando que Fernando Henrique era o máximo da elegância.

Por que Benedita deve pedir para sair

Os jornais de hoje trazem como manchete a acusação do advogado da ministra Benedita da Silva de que a Comissão de Ética do Governo não é composta por gente com autoridade moral suficiente para dar lições de ética à ministra, aquela que resolveu orar na Argentina enquanto metia a mão no Erário.

Há algo de muito errado quando um membro de um governo coloca em dúvida a honestidade dos outros. O advogado de Benedita, que tem procuração legal para agir em seu nome e portanto é Benedita, chamou todos de desonestos. Por muito menos os “radicais livres” foram defenestrados.

As outras acusações do advogado são curiosas, coisas de advogado burro que não sabe até onde ir. A mais engraçada diz mais respeito ao seu senso de ética que à sua inteligência: “Fizeram um incêndio, um verdadeiro escândalo por uma quantia ridícula de R$ 3 mil de uma viagem a Buenos Aires.”

Alguém deveria dizer a esse advogado que, em primeiro lugar, essa quantia que ele chama de ridícula é mais do que dezenas de milhões de brasileiros conseguem ganhar em um ano de trabalho duro. E que não é o valor que importa: é o fato de esse dinheiro não pertencer a Benedita, e sim ao povo brasileiro. Eu, por exemplo, não simpatizo muito com a idéia de ela usar o meu dinheiro para dar suas oradas. Sempre achei que os evangélicos já tinham bastante dinheiro, aquele que tiram do bolso dos ot… ops, fiéis. Não precisam roubar o meu.

Um governo que se diz ético não pode se dar ao luxo de ter entre seus integrantes alguém que tem o péssimo costume de achar que dinheiro público pode ser usado para fins particulares, desde que seja um “valor ridículo”.

Se já esqueceram, é bom lembrar que não é a primeira vez que Benedita faz essa mistura pouco saudável entre dinheiro público e assuntos de sua igreja. Quando era vice-governadora ela cometeu a mesma confusão. O pior é saber que ela faz isso não por ser ignorante e não saber que o Brasil é um Estado laico, mas sim porque sabe muito bem qual é seu principal reduto eleitoral.

Por tudo isso, pela palhaçada que está cometendo e pela capacidade de se complicar ainda mais, Benedita deveria sair do governo.

Comentário do Comentário

O Paulo, mais sensato que eu, falou uma verdade: é mais adequado falar em grande atitude do que definir precipitadamente o Gabeira como um grande homem a partir do episódio de sua saída do PT.

Mas o que é um grande homem, senão suas grandes atitudes?

Gabeira

Há muitos anos, um amigo — eu tinha 18 e ele uns 40 — me contou um episódio interessante de sua vida.

Rio de Janeiro, 1968. Num bar, um amigo o convida para uma ação revolucionária: seqüestrar um determinado embaixador.

Esse meu amigo olha para o grupo e solta: “O quê? Esses malucos e aquele viadinho ali, seqüestrando um embaixador? Esqueçam meu nome.”

O nome do “viadinho” era Fernando Gabeira.

Os anos passaram e esse amigo meu morreu, por excesso de uísque e de cocaína, mas principalmente por excesso de angústia, desconfio. E esse tempo serviu para ir me acostumando aos poucos ao Gabeira.

O Gabeira que conheci era aquele “viadinho” de tanguinha de crochê, que voltou do exílio com umas conversas esquisitas; aquele a quem me acostumei era o defensor do cânhamo e de outras bobagens de importância nula no Congresso Nacional, o ponta de lança de todos os babacas do país. Não era alguém que eu, definitivamente, respeitasse. Hay que endurecerse — e o resto frase não importava.

Mas como dizia Collor, devidamente citado no discurso de Gabeira de anteontem, “o tempo é senhor da razão”.

A dignidade que o Gabeira demonstrou ao sair do PT, simplesmente por discordar dos caminhos que o governo está seguindo, é praticamente o contrário da postura barulhenta dos Babás e Genros da vida. E sem deixar de respeitar seus ideais e sua história com uma elegância e uma coerência que não se viu entre os radicais livres. Mais que isso, dá à sua trajetória uma força que, até agora, eu não reconhecia.

Eu, pessoalmente, não faço nenhum reparo ao discurso de saída de Gabeira. E agora, ao ver que aquele sujeito é muito mais do que eu pensava, tenho a certeza de que o “viadinho” que embarcou naquela aventura em 1968 se tornou um homem. Um grande homem.

Meus filhos da puta, mais uma vez

Plataformista, na verdade a minha admiração pelos “meus filhos da puta” passa longe da questão política. É uma questão de verve pessoal. Ainda que ela, sou obrigado a confessar, em grande parte derive de sua canalhice.

Já fiz campanhas para candidatos de todos os tipos, do PCdoB ao PFL. Já escrevi discursos e comerciais para gente honesta e para gente desonesta. Para bons e maus produtos e serviços também, mas isso não vem ao caso. E uma das coisas que aprendi é que honestidade e honradez não são exclusivos de nenhum partido ou tendência política. Já vi gente decente em partidos de direita e gente que não vale o que a minha gata enterra em partidos de esquerda.

É por isso que há muito tempo passei a avaliar pessoas e políticos por critérios basicamente pessoais. Não me interessam as posições de alguém, desde que sejam defendidas com honestidade intelectual. Me reservo, no entanto, o direito de concordar ou discordar delas. Decência pessoal ajuda, também. Mas quando lembro que adquiri uma antipatia irredutível a Jorge Luís Borges por causa de sua atitude canalha frente à ditadura argentina, acho que posições firmes demais nem sempre são um bom sinal.

No caso de ACM, é preciso separar as duas coisas. Muito do mito de ACM se deve à agressividade com que vai ao ataque, à facilidade como intimida seus adversários (embora não tenha conseguido com Itamar…). Mas na questão política, ele não é muito diferente de seus colegas. Por exemplo, no episódio da violação do painel de votação do planalto ninguém falou de gente como Heloísa Helena, paladina da moralidade enquanto faz acordos pouco éticos com Renan Calheiros. Os exemplos são muitos. ACM pode ser o retrato do diabo, mas é igual a muitos outros.

No fim das contas, o que fica é a constatação de que ACM é um bom administrador. É um sujeito que tem visão estratégica. Salvador hoje não é o caos absoluto graças, em boa parte, às suas intervenções no cenário urbano da cidade. É digno de admiração também o nível de respeito à cultura baiana que se percebe nele. Bem ou mal, bom ou mau, ACM é baiano. O episódio de como a Bahia levou a Ford (o início da investida baiana se deu numa Besta, saindo do aeroporto Dois de Julho, em maio de 1999) depois que ela desistiu do Rio Grande do Sul mostra que o sujeito e seu grupo sabem como fazer as coisas. Anos lidando com incompetentes de todos os tipos me ensinaram a valorizar a competência dos outros.

Enquanto isso, homens dignos e invejáveis como Waldir Pires, sem uma mancha sequer em sua biografia, fazem um governo horroroso. O que é melhor para o povo? Certamente não é credo político. Já acompanhei de perto governos de esquerda e de direita, e a conclusão triste a que cheguei é que, na maioria deles, o povo ganha mais quando simplesmente vende seu voto. Nem que seja por uma dentadura.

Lembro de uma conversa entre a politicamente correta Letícia Sabatella e Popó no “Altas Horas”. Naquela conversa fiada de programa chato de TV, Popó perguntou se ela gostava de boxe. Não. Ele perguntou então algo sobre ela ter, pelo menos, orgulho da luta do Popó como exemplo brasileiro. A resposta da Sabatella: “Não. Tenho pena.”

Popó pode ter origem humilde, mas é um gentleman e fingiu que não ouviu. Minha origem é um pouco menos humilde, mas meu pavio é muito mais curto e minha vaidade veio com defeito de fabricação no item ABS. Na mesma hora, eu teria respondido diferente: “Não sei por quê. Eu sou o melhor do mundo no que faço e você é só uma atrizinha de merda casada com outro atorzinho de merda” (na hora de xingar, nunca é demais xingar a família toda).

Para a Sabatella, como para muita gente, é fácil sair por aí dizendo que é de esquerda, se internar em acampamentos de sem-terras (que, acredite em mim, fede como poucas coisas) e dar uma de Rosa de Luxemburgo dos trópicos. Mas respeito ao povo, mesmo, é outra coisa. E tratá-lo como igual.

Gente como a Sabatella deve achar um absurdo a frase de Figueiredo. É politicamente incorreto dizer que povo fede. Mas quem diz isso certamente nunca pegou um ônibus para o subúrbio às 6 da tarde. Ou nunca viu um sujeito empestear um elevador às 9 da manhã, porque já estava no batente desde as 4. Para mim essa é uma atitude elitista, porque no seu cerne há uma condescendência paternalista típica de quem se acha superior àquilo. É fácil se horrorizar com essa constatação sentadinho numa poltrona confortável, morando em um “bairro bom”. Enquanto isso, o povo, mesmo, não tem nenhum pudor de debochar dos próprios odores.

(E, em último caso, é até uma questão de estética olfativa. Eu realmente prefiro o cheiro de cavalos suados a cheiro de gente suada e cansada. Também gosto de cheiro de curral e de leite sendo tirado. Tem gente que prefere perfumes da Avon, ora.)

Bem, isso tem pouco a ver com a minha admiração, como falei no início. Eu gosto de boas frases. Gosto de inventidade. Gosto da sinceridade de alguns deles, e da inteligência de outros. Esses são valores que independem de política. São universais. É por isso que gosto desses filhos da puta.

Mas, se isso serve de contrapeso, eu também sou um grande fã da Irmã Dulce.

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Outra noticiazinha da Wired:

Bad Samaritan
A 62-year-old retired Florida schoolteacher will likely go to jail for traveling to Iraq as a human shield. To many, Faith Fippinger is a humanitarian, but to the U.S. government she’s a criminal. For three months, she taught in Iraqi schools and worked in hospitals. Back home, a letter from the U.S. Treasury Department informed her that going to Iraq and spending money there breached the U.S. economic embargo. Supporters argue her right to freedom of travel and speech and accuse the Bush administration of making an example of her. “It’s in regimes like Saddam Hussein’s where that freedom is not allowed,” Fippinger said. The U.S. Treasury Department says freedom of speech is a right but breaking the law of the United States is not a privilege.

Estou começando a ficar com vergonha daquelas defesas que fiz dos ideais americanos.