Na livraria, no setor de saldos e promoções, um livro me chama a atenção.
“Ainda Lembro”, de Jean Wyllys.
Pois é, seu Jean. Você ainda lembra. A gente, bem… A gente já esqueceu.
Na livraria, no setor de saldos e promoções, um livro me chama a atenção.
“Ainda Lembro”, de Jean Wyllys.
Pois é, seu Jean. Você ainda lembra. A gente, bem… A gente já esqueceu.

Jojo was a man, etc.
Phil Spector, o produtor legendário que estragou os Ramones e, segundo Paul McCartney, o último disco dos Beatles, deu o ar da graça. Ele não andava falando muito, a não ser em depoimentos na polícia para se defender da acusação de assassinato de uma moça.
Agora ele resolveu falar sobre o Let it Be. Também aqui Spector se defende, basicamente: diz que salvou o disco, esculhamba a versão recente patrocinada por McCartney, o Let it Be… Naked, e outras pequenas coisas.
A história resumida: no final de 1968, os Beatles tiveram a idéia de fazer um documentário sobre o processo de preparação de um novo show e um novo disco, que se chamaria Get Back. Tudo deveria ser ao vivo — “sem truques”, exigiu Lennon. As gravações e filmagens começaram no segundo dia de 1969 e duraram um mês. Foram um inferno, de acordo com todos os envolvidos. A banda estava indo para o buraco, e não fazia questão de manter a elegância.
George Martin cansou de tanta baixaria no estúdio e abandonou o projeto. O engenheiro de som Glyn Johns, transformado em produtor, apresentou uma primeira mixagem do álbum, depois uma segunda. Esta versão chegou a ser distribuída para algumas rádios (e foi resenhada pela Rolling Stone), mas recolhida logo depois. A situação era tão feia que até mesmo a banda, envolvida com o fim iminente, abandonou o projeto. McCartney ainda conseguiria fazê-los voltar para gravar o Abbey Road, com várias canções ensaiadas durante aquelas sessões no inverno londrino, e que se tornaria seu canto de cisne. Lennon e Harrison então chamariam Phil Spector — provavelmente o produtor mais famoso da história do pop, idolatrado por gente boa como Brian Wilson — para ver o que ele podia fazer daquele material disponível. Spector se trancou com as fitas e emergiu com o Let it Be — um disco esquisito, para dizer o mínimo.
Eu fazia parte daquele grupo que achava que Spector tinha salvo o disco. Concordava com a versão de Lennon porque o que se via no filme Let it Be era uma mixórdia confusa, e achava difícil que se conseguisse tirar algo dali. Mas Lennon estava errado, e eu também. Spector não salvou o Let it Be.
O fato é que nenhum dos dois produtos — a versão de Glyn Johns ou a de Phil Spector — era grande coisa. Nenhum produtor, por melhor que fosse, poderia fazer uma obra-prima a partir do material que os Beatles deixaram em suas mãos. Aquilo era inferior a praticamente tudo o que os Beatles já tinham feito em sua carreira. Claro que se podia fazer um grande disco com aquelas canções; bastava colocar a banda em estúdio e gravar do modo tradicional, como fizeram mais tarde com o Abbey Road. Mas àquela altura isso era impossível. Johns e Spector tiveram que trabalhar com o que tinham.
Mas a versão de Johns era mais orgânica. Com boa vontade, assim como os ouvintes acreditaram que o Sgt. Pepper’s era um disco conceitual, Get Back tinha a cara de um disco ao vivo, ou ao menos a representação de um processo de criação. A abordagem de Johns estava correta. Aquele era um disco mal acabado, confuso, cheio de erros — mas era essa a proposta original de Lennon e de todo o grupo. Havia, afinal de contas, um conceito por trás daquilo tudo, e Johns conseguiu traduzi-lo adequadamente — algo que Michael Lindsay-Hogg, diretor do filme, não conseguiu, a propósito. Get Back, como concebido por Johns, é um exercício de iconoclastia que faz todo o sentido no mundo fragmentado de 1969. De certo modo, chega a ser avant garde — “french for shit“, segundo o Harrison de alguns anos antes.
A versão de Johns tinha defeitos, obviamente. Ele nem sempre escolheu as melhores versões disponíveis. Algumas canções não precisavam estar lá, como Teddy Boy, que nunca chegou a um ponto aceitável de entrosamento, tosca até pelos padrões do disco. Não havia nenhuma necessidade de colocar Rocker e Save The Last Dance For Me — entre as musiquinhas que os Beatles improvisavam no estúdio pode-se citar umas cinco, pelo menos, que tinham melhor qualidade.
Ainda assim, o disco produzido por Glyn Johns tirava o melhor de uma situação extremamente adversa. Assumia que aquilo era uma gravação desleixada e e a transformava em um retrato sobre a intimidade de uma banda. A versão de Johns aparentava um sentido; a de Spector é apenas a tentativa desastrada de transformar um material ruim em algo comercial. A abordagem de Johns é mais inteligente, porque não tenta tirar leite de pedra, e os resultados são mais satisfatórios.
A versão de Phil Spector tirou boa parte da espontaneidade que se podia perceber no Get Back. Não apenas ao colocar cordas e corais em canções como The Long and Winding Road, mas ao picotar o disco e tirar a organicidade que, bem ou mal, a versão de Glyn Johns tinha. Por exemplo, é só ver o que ele fez com Dig It. Essa canção era um problema, por ser longa demais. A versão de Johns é basicamente a que aparece no filme Let it Be — que não é uma versão completa. Spector mutilou a música ainda mais, transformando-a em apenas uma vinheta perdida em meio a duas canções. Seria melhor tirá-la, ou colocar a versão de Johns (do meio para o final) para abrir o disco — “can you dig it?”
Spector está errado. Só está certo ao falar mal do Let it Be… Naked, um lixo sem razão.
Falando em Dig It, a canção é uma mostra de como as coisas são confusas quando se trata dos Beatles. Ela nasceu de uma jam session, com Billy Preston nos teclados e George Martin nas maracas. Por isso, está registrada como composta por todos os quatro Beatles. Mas é John quem improvisa a maior parte das letras. Talvez por isso, sempre que alguém se refere à canção, diz que é dos quatro, mas principalmente de John.
A gravação incluída no Get Back, com mais de 4 minutos e musicalmente mais interessante, mostra uma participação muito maior dos outros — principalmente de McCartney — na definição da canção. Só isso já deveria bastar para colocar em dúvida essa presunção de que Dig It é de Lennon.
Mas há uma outra canção que me intriga. No More Rhine Tapes, um dos melhores discos piratas tirados das sessões do Let it Be, ela tem o nome de Get Off e dura cinco minutos. É basicamente um bluesinho de 12 compassos. Paul canta: “White power!” e John responde: “Get off!” Aí começa uma brincadeira de perguntas e respostas entre Paul e John — Paul citando nomes e John gritando “Get off!“, quanto Ringo segura a base e George sola e arpeja durante a música. Entre os nomes desprezados por Lennon estão Judy Garland, Wilson Pickett e uma porção de outros, gente boa e ruim.
A música pára. Eles voltam. E Paul solta a frase: “Can you dig it?“, uma evolução da brincadeira do “get off“. “Winston Churchill; can you dig it?” A música continua evoluindo a partir daí.
A canção não tem maracas nem teclados, o que quer dizer que provavelmente foi gravada nos estúdios Twickenham, antes de George sair e antes dele convidar Billy Preston para amenizar o clima no estúdio. A Dig It como se tornou conhecida é quase certamente uma evolução dessa Get Off.
Não seria justo creditar a canção a qualquer um dos Beatles. É uma obra coletiva, uma brincadeira de estúdio. Mas a insistência de “beatleólogos” em definir um autor específico para cada canção acaba levando a distorções como essa.
Era começo de setembro e eu tinha comprado uns livros na Amazon.
Normalmente compro mais de 10 livros por vez, para diluir um pouco o custo do frete e tornar o negócio um pouco mais vantajoso. Ia demorar mais de um mês para que os livros chegassem, um pouco menos que isso até chegar a fatura. É uma espera agradável, essa, que só quem gosta de livros como objetos pode entender.
E então estourou a crise americana e o dólar disparou, e teve início o meu padecer.
A cada variação para cima eu via o o fim dos tempos à minha frente, a cada variação para baixo sentia um alívio desconfiado e temeroso. Antevia um cenário apocalíptico em que eu acabaria pagando mais de 100 reais de diferença.
Não que 100 reais sejam quantia suficiente para fazer alguém entrar em desespero. Também não é pouco, ao contrário do que o rico leitor aí possa dizer com um eventual franzir de sobrancelhas e lábio torcido de tanto esnobismo. Com 100 reais eu poderia pegar ônibus para o trabalho durante quase dois meses, mais se tivesse vale-transporte; poderia comer algumas vezes no McDonald’s; poderia alugar uns vinte filmes; pagar pouco menos de um mês de TV, comprar mais uns dois ou três livros na Amazon. Mais que isso: investindo 100 reais, dizem os mesmos especialistas que levaram o sistema americano à bancarrota, eu poderia chegar a um milhão em sei lá quantos séculos.
Mas não importa o valor de 100 reais. O caso é que compro livros na Amazon porque, afinal, eles oferecem melhor relação custo/benefício: hardcovers na língua original por um preço semelhante às brochuras traduzidas aqui, sem falar nos livros disponíveis apenas em inglês. Preço é fator determinante na Amazon, portanto, e porque o sistema americano pediu concordata eu teria que pagar mais que isso.
Justo eu, periférico do sistema, sem dinheiro no banco e sem parentes importantes; justo eu, que passei toda a minha vida criticando exatamente aquele sistema que ora se esboroa em hipotecas. Nada poderia ser tão injusto, e era essa injustiça que me incomodava, que me fazia mais triste e mais angustiado: a perspectiva de pagar um ágio que acima de tudo me parecia indevido, uma ironia macabra semelhante ao atleta abstêmio que é atropelado por um caminhão de cerveja.
É nessas horas que podemos ver como funcionam os grotões da mente humana, e é um funcionamento estranho, esse. Porque algo inexplicável às vezes nos faz querer prolongar e intensificar uma agonia além do necessário, além mesmo do saudável; mente estúpida, essa, que parece achar que se eu me angustiar ainda mais o motivo da aflição vai passar mais rápido. Foi por isso, para acalentar esse pequeno purgatório, que instalei um gadget no sidebar do computador para acompanhar em tempo real a cotação do dólar.
E isso é tão estranho, porque me lembra que eu nunca quis ser operador da bolsa. Sempre olhei intrigado para aqueles moços alucinados se esgoelando e levantando as mãos em atitude súplice, coitados, e achava que havia meios mais dignos de ganhar a vida. É a fidalguia atávica dos Galvão, essa coisa de se achar cool demais para se prestar a cenas públicas de desespero e vexame, não importa o quanto isso renda, porque o recato e a compostura são mais importantes que dinheiro, é isso o que a gente leva desta vida, o dinheiro se bem utilizado ficou com aquelas moças ao longo dos anos.
Mas aquelas cotações mudando constantemente na minha frente me tornaram um operador silencioso e fracassado da bolsa — não, me tornaram algo muito pior que eles; porque enquanto eles ganham rios de dinheiro em troca de sua dignidade, eu estava descendo a esse ponto tão baixo por uns 100 reais, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais, mas de qualquer forma insuficientes para me fazer abrir mão daquela dignidade que deveria ser o meu ideal de vida.
A cada subida ou descida do dólar eu fazia questão de anunciar em alto e bom som os novos resultados. O Paulinho e o Edson, na minha frente, riam do meu sofrimento com descaso superior, preocupando-se em escrever os textos da campanha, que a gente tinha um prefeito para eleger. Enquanto isso eu, eterno desocupado, ficava pensando no meu prejuízo. Não exatamente no prejuízo, para ser franco, que franqueza é o que me resta a esta altura: mas no ultraje que seria pagar 100 reais a mais por uns poucos livros vagabundos. Não era o dinheiro que importava, pelo menos não muito: eu tinha firmado um trato com a Providência, estabelecido as regras do jogo com suficiente antecedência; mas ela, de repente e sem aviso, descumpriu o acordo, tirou um ás roubado da manga, e impôs novas condições sem sequer me consultar. Isso não é coisa que se faça. Há que se ter um mínimo de retidão e de caráter nesse negócio de viver, e minha ruína foi achar que essa regra não se aplicava apenas a mim, mas também às Parcas, aquelas vadias.
A campanha acabou, eu fechei o meu computador e só fui abri-lo dia desses. Aquelas poucas centenas de dólares dos livros foram pagas, e até agora não fiz questão de saber de quanto foi o ágio que covardemente me obrigaram a pagar. Tem coisas na vida que é melhor deixar para lá. E pensando assim, talvez algum dia eu esqueça que fui humilhado e obrigado a pagar 100 reais, talvez mais, talvez menos, por causa de uns livrinhos.
É um tanto perturbador perceber que sempre estive pelo menos 10 anos atrasado em relação a mim mesmo.
O Catarro Verde publicou uma carta do publicitário Fábio Fernandes, da F/Nazca Saatchi & Saatchi, reduzindo o também publicitário Nizan Guanaes, da DM9 e Africa, a pouco menos que nada. A carta era um e-mail particular aos funcionários da agência de Fernandes, mas esse tipo de coisa, nesse mercado, sempre é convenientemente vazado. Não é uma carta elegante. Fernandes não poupa adjetivos negativos para definir Nizan, e enumera termos semelhantes utilizados pelo baiano.
Aparentemente, o bate-boca conjuga de maneira brutal interesses comerciais e egos. Os dois brigam por contas gigantescas. Os dois se odeiam. Diz-se que essa briga é antiga. Que um chamava o outro de gordo, enquanto tinha sua masculinidade questionada. (História velha que circula no meio: Nizan foi fazer uma visita à sua ex-agência, a Artplan. De um extremo do corredor, Fabio grita: “Cada vez mais gordo, hein, Nizan?” E Nizan responde: “Cada vez mais viado, hein, Fabio?”)
São dois egos fenomenais, condizentes com enormes talentos, e uma capacidade ainda maior para descer aos níveis mais baixos de picuinha.
Apesar de a carta não passar, aparentemente, de baixaria absolutamente dispensável — dois homens crescidos e bem-sucedidos xingando a mãe do outro —, ela tem pontos realmente interessantes. Se deixarmos de lado a discussão sobre o valor de cada um, e debatermos o teor das idéias que os dois defendem, podemos ver que o que está em discussão é a própria natureza da atividade publicitária em tempos de transformação.
O Fabio Fernandes se posiciona como um defensor intransigente da criatividade como elemento central da publicidade, e ataca as relativamente novas posições de Nizan, que agora minimiza o valor intrínseco da criação e diz que “idéia boa tem que ser copiada”, provavelmente o maior crime que se pode pedir para um criador publicitário cometer.
Curiosamente, poucas pessoas têm mais qualificações para falar de criatividade publicitária do que Nizan Guanaes. Fale-se dele o que quiser — e o Fabio Fernandes, decididamente, quer: que seu caráter é duvidoso, que suas práticas comerciais podem ser ruins e nocivas —, mas nada disso obscurece o fato de que Nizan foi um dos grandes redatores publicitários da história. Escrevo isso mesmo lembrando que a campanha para a Caixa Econômica que o colocou no cenário publicitário nacional, no início dos anos 80, guardava uma semelhança estarrecedora com uma campanha da Propeg baiana para a Casaforte, caderneta de poupança do Banco Econômico, veiculada alguns anos antes.
Essa é uma geração filha de Washington Olivetto. Foi ele quem inaugurou o que o Edson, um ótimo redator carioca, chama de Era de Narciso: uma época em que publicitários passaram a ter tanta exposição — às vezes mais — quanto o seu trabalho e os resultados que geravam para seus clientes. É uma geração que inclui, além do Nizan e do Fabio, o Eduardo Fischer, o Marcelo Serpa e vários outros.
Para essa geração, a criatividade é o verdadeiro diferencial de uma agência de publicidade. Isso não está de todo errado, e a defesa da criatividade sempre foi correta e necessária, até o ponto em que não podia mais ser distinguida da valorização do passe dos profissionais.
Na leitura da carta, pode-se considerar o Fabio Fernandes como um paladino desse tipo de visão, mesmo nos seus extremos negativos:
Na publicidade (…) há bundões prontos a gastar mais para contratar uma meia dúzia de artistas famosos, cantando um jingle com uma logomarca formada por funcionários da empresa, do que se “arriscarem” a criar um posicionamento de verdade, uma linguagem proprietária, um estilo único e próprio.
Esse discurso até meio corporativo é vazio, no fundo. Não apenas reflete uma certa arrogância típica de criadores publicitários, que julgam sempre saber o que é melhor para uma empresa, mais até do que aqueles que a comandam efetivamente, que pisam o chão de fábrica e acompanham o dia a dia do caixa; a questão é que eventualmente o posicionamento mais eficiente pode ser, exatamente, um artista famoso cantando um jingle com uma logomarca formada por funcionários da empresa. Estilo único e próprio só é realmente interessante se vender; se não, é absolutamente dispensável. A partir desse ponto sua defesa passa a ser questionável, porque o que entra em jogo não é mais o interesse do cliente, mas o dos profissionais e das agências, que têm como único capital a idéia original.
Repetindo um chavão antigo, que pode ser torcido para praticamente qualquer fim, propaganda criativa é a que vende o seu produto. O varejo sabe disso há muito tempo, com sua repetição constante de clichês e fórmulas testadas e comprovadas: vide Lojas Marabraz, Casas Bahia, Ponto Frio, Ricardo Eletro. Por isso, o que interessa a uma agência nem sempre é o que interessa ao cliente. A apologia absoluta da criatividade, quando em detrimento da adequação mercadológica, é um equívoco.
Essa abordagem pejorativa dos clientes que se negam a reconhecer o brilho e a maravilha da atividade criativa publicitária — e por isso são chamados pelo Fabio Fernandes de “bundões” e “cagões” — chega a ser incômoda. E irresponsável. Além de tudo, é fácil também. Se uma campanha aparentemente brilhante dá errado, é o anunciante quem vai sofrer as conseqüências. A agência vai ter outras peças maravilhosas em seu currículo para apresentar a novos prospects, ganhou um bom dinheiro e no máximo sofreu um revés momentâneo. É muito fácil apostar com o dinheiro dos outros.
Em nome dessa cultura de originalidade, crimes de marketing foram cometidos ao longo dos tempos. A Brahma saiu da Fischer e imediatamente perdeu o conceito de “A número 1”. Bastou a Kaiser abandonar a DPZ e, de repente, o baixinho foi aposentado. Nada disso fez bem àquelas marcas; mas garantiu louros temporários para diretores de marketing e donos de agência, que se mostraram capazes de criar algo novo. Mostraram que são criativos, que podem criar um “posicionamento”, ainda que momentâneo e ineficiente.
Está aqui o verdadeiro ponto que vale a pena ser discutido na carta do Fabio Fernandes. O discurso empalmado por ele tem mais a ver com a necessidade das agências (ou seja, da criação) do que com a dos anunciantes. Para citar um exemplo que apenas tangencia esse tipo de briga, em marketing político criatividade é importante — mas por criatividade entende-se muitas coisas mais, além de um bom texto ou uma grande idéia para um comercial. Criatividade, nesse caso, poderia ser até mesmo copiar um comercial ou uma fórmula que já deu certo, se isso fosse benéfico.
Ao menos nesse aspecto o Nizan parece estar à frente. O negócio publicitário está mudando muito além desta crise temporária, e isso às vezes é assustador. Aparentemente, ele percebeu isso e se posicionou diante de um novo mercado; também aparentemente, o Fabio mantém o mesmo discurso de antigamente. Não sei se é suficiente. Apenas como exemplo: hoje, tão importante quando uma boa idéia criativa é uma boa idéia de mídia — e não está longe o tempo em que planejamento de mídia vai ser mais importante que a criação em si. Propaganda está ficando mais cara para o anunciante e, sim, o elemento humano encontrável principalmente nas agências é cada vez mais importante. Mas — e é isso que assusta essa geração — esse elemento talvez não seja a criação com sacadas geniais.
Já devo ter dito algumas vezes por aqui que me sinto um afortunado por ter podido assistir à televisão nos anos 70.
Não é nostalgia boba de um sujeito mais velho do que parece. É que a programação da TV aberta naqueles tempos era realmente melhor. Talvez por não ser obrigada a nivelar excessivamente por baixo sua programação, já que não tinha a concorrência das TVs a cabo e da internet, a TV aberta conseguia equilibrar razoavelmente apelo popular e qualidade estética: foi nessa época que se firmou o tal padrão Globo de qualidade.
Além disso, a maior parte dos filmes que exibia eram antigos; o que quer dizer que em vez de assistir a espetáculos escatologicamente dementes como Thunderpants, podíamos assistir a “O Gavião e a Flecha”, com Burt Lancaster, bons faroestes com John Wayne e filmes de Jerry Lewis e Charles Chaplin. Assisti a The African Queen pela primeira vez na Sessão da Tarde; duvido que isso seja possível hoje em dia.
E mesmo com tantas opções, Disneylândia era um dos meus programas favoritos. Todos os sábados à tarde, “o mundo maravilhoso de Disney” exibia um filme, às vezes em duas partes. Eram obras dirigidas ao público infantil, e alguns deles, a exemplo de “O Tesouro de Matecumbe”, eram quadrinizados depois e apareciam em revistas como o Almanaque Disney.
(O mais engraçado é que um dos meus sonhos na época era poder ver os desenhos animados de que a Disneylândia exibia trechos [e também o Clube do Mickey, nos fins de tarde da TV Tupi] — ou seja, aquela quantidade enorme de curta-metragens que a Disney tinha produzido ao longo de mais de meio século. Eu já tinha visto alguns no cinema — antes do videocassete a Disney reprisava seus filmes periodicamente —, como “Cinderela”, “A Bela Adormecida” e Mickey and Seal, e alguns na TV, como Pluto’s Blue Note e Bongo, e achava que eram melhores que os filmes a que assistia. No início dos anos 80 meu sonho foi realizado. A Disneylândia deixou de exibir os filmes e se concentrou nos desenhos. Foi a pior coisa que podiam ter feito. Depois de algumas semanas, tudo aquilo se tornou extremamente chato, ao contrário dos filmes exibidos anteriormente. Moral: a gente deve ter cuidado com o que deseja.)
Durante muitos, muitos anos procurei saber mais sobre os poucos filmes de que me lembrava. Uma esperança apareceu com o IMDb, mas ele nunca conseguiu me dar a resposta — até que a anta aqui finalmente fizesse a pergunta certa.
É uma boa sensação reencontrar alguns filmes cujas lembranças lhe acompanharam pela maior parte de sua vida.
Child of Glass, de 1978, é um deles. Conta a história de um menino que se muda para uma plantation colonial no sul dos EUA e tem que encontrar uma boneca para que o fantasma de uma menina possa descansar em paz. Ele encontra a boneca em um vão dentro de um poço. Assisti a esse filme no ano seguinte ao de sua produção, mas não era comum exibirem filmes tão novos. Vi o segundo episódio de A Country Coyote Goes to Hollywood, por exemplo, no dia 30 de março de 1979. Estava sozinho em casa porque todos tinham saído — mas nada me faria deixar de ver a conclusão da história de um coiote perdido nas colinas de Hollywood, filmada em 1965.
Foi com Barry of the Great St. Bernard (1977), no início do inverno baiano de 1980, que conheci a história dos São Bernardos que salvavam vidas nas montanhas da Suíça. Lembro da imagem final, com a estátua que ergueram em homenagem ao cão Barry — só não sei por que a Linha Maginot me vem à memória sempre que lembro dessa imagem. Assisti a esse filme um pouco depois de Fire on Kelly Mountain, de 1973, em que pela primeira vez na minha vida vi um daqueles labirintos para hamsters. Por alguma razão, sempre achei que o ator principal desse filme era Kurt Russell. O IMDb me informou que era Larry Wilcox, que depois faria o John Baker de CHiPs.
Procurar por esse filmes no IMDb me lembrou de pelo menos mais um que vi, mas do qual não guardava nenhuma grande recordação: Charlie, the Lonesome Cougar, de 1967. Isso me lembra que Walt Disney, com todas as críticas que se faz aos seus métodos, fez mais pelo ambientalismo que dezenas de ONGs juntas. Em tempos de Our Common Future, foi graças a filmes como esses e a True-Life Adventure Series (além, claro, de programas como “Mundo Animal” e “Mundo Selvagem”) que a geração que cresceu nos anos 70 passou a ter maior consciência ambiental. Só alguns irrecuperáveis, como eu, continuavam preferindo a idéia de safáris em que caçariam animais selvagens como leões e elefantes, apenas pelo prazer de se provarem capazes de matar animais maiores e mais fortes que eles.
O que fica de tudo isso é o fato de que esses filmes cumpriam uma dupla missão de maneira ímpar: entretinham e educavam ao mesmo tempo. Por causa deles, toda a minha geração estava próxima da história e cultura americanas. Por um lado isso era bom, porque informação nunca é demais; por outro, graças à televisão nos tornamos cada vez mais distantes das tradições brasileiras. De certa forma, perdemos o contato com elementos importantes de nossa cultura como lendas como o saci-pererê e brincadeiras como pião e bolas de gude. A vida é assim mesmo.
Infelizmente não consegui achar um filme específico, exibido no final do primeiro semestre de 1980. Ele contava a história de um menino rico, mimado e preconceituoso que naufragava numa ilha deserta acompanhado apenas por um velho negro. Se não me engano, o menino ficava temporariamente cego no naufrágio. O filme contava como ele virava uma pessoa melhor ao conviver com o velho. No final aparecia um daqueles furacões caribenhos e o velho se amarrava a uma árvore, com o menino entre eles. Protegendo o garoto assim, o velho morria, e nos dias seguintes finalmente chegava o resgate, claro. O filme era basicamente uma variação mais óbvia e boba sobre o bom “Capitão Coragem”, com Spencer Tracy. Nunca consegui encontrar nada sobre esse filme, e ele não consta na relação do IMDb, o que me leva a desconfiar que não o vi em Disneylândia e que não era uma produção Disney, embora tivesse todas as características.
Tudo isso é coisa de cerca de 30 anos atrás. É mais de um quarto de século. As coisas mudaram muito desde então, nem sempre para melhor. Na época Salvador tinha apenas dois canais de televisão, a TV Aratu que retransmitia a Rede Globo e a TV Itapoan, afiliada à Tupi. Hoje há centenas à disposição, mas não me parece que a TV tenha importância tão grande na formação cultural de alguém — até porque Pucca não tem condições de formar nada.
O mais interessante é que se Disneylândia acabou, hoje temos um canal inteiro com a programação da Disney. Mas o Disney Channel não se compara à Disneylândia. Se concentram em exibir produções recentes, provavelmente mais comerciais, como High School Musical e seriados irritantes como Hannah Montana. Isso, claro, faz parte dos novos tempos, e reclamar do novo é que mostra nostalgia boba. Mas acho que não faria mal algum se reservassem um espaçozinho nas madrugadas para exibir esse acervo absurdamente bom que a Disney tem.
UPDATE: Child of Glass está disponível no YouTube.
Este é um blog, não um fotolog, como devem saber mesmo os mais desavisados.
Sem talento ou vocação para artes visuais, eu penso em termos de palavras, raramente de imagens. Esse tipo de raciocínio se reflete na pobreza de fotos e ilustrações neste espaço. Se uma imagem vale mais que mil palavras, é da filosofia do blog preferir duas mil palavras a uma única imagem.
Sou, por isso, uma das pessoas menos para falar de charges ou sugerir alguma coisa. Mas mesmo reconhecendo minha incapacidade nessa área, para mim turva e inalcançável, de formas, linhas e cores, estou impressionado por não ter visto ainda a charge que melhor definiria o momento de crise atual.
Um toureiro de frente para aquele touro que se transformou no símbolo de Wall Street, com o estoque levantado, apenas esperando o momento certo de enfiá-lo na nuca do pobre miúra e acabar com a sua miséria.
Vi o programa eleitoral do Kassab e o da Marta na última sexta-feira. E Deus do céu, como o programa do Kassab é tão melhor que o da Marta. Tão bom que ele nem precisaria dessa campanha de imprensa em sua defesa que se vê agora, primeiro com o caso das insinuações acerca de suas opções sexuais, agora com o possível depoimento de Nicéia Pitta — dois eventos muito diferentes entre si, mas tratados da mesma forma pela imprensa.
Segundo após segundo, o que se vê no Kassab é uma afirmação constante do valor da sua obra. Mostra, em linguagem clara e eficiente, o que ele fez e como isso se transformou em benefícios para o povo paulistano. Dosa corretamente o número de aparições do candidato. Humaniza a campanha com exemplos de pessoas cujas vidas melhoraram por causa do seu trabalho à frente da Prefeitura.
O programa da Marta, em vez disso, parece perdido, como se lhe faltasse um eixo suficientemente claro. É difícil fazer um julgamento minimamente correto de uma campanha eleitoral a partir de apenas um programa, mas o da Marta parece ter defeitos estruturais que provavelmente não se limitaram à sexta-feira.
A impressão que o programa de sexta passou é de que Marta parece ter medo. Não vi nenhuma grande reafirmação dos méritos do seu governo; apenas uma tentativa de fazê-la parecer mais simpática conversando com o povão na rua — e uma simpatia forçada e desnecessária, porque Marta não parece muito à vontade perto do povão.
Pior, não vi nenhuma tentativa séria de desconstrução séria e conseqüente da administração Kassab. É inadmissível, por exemplo, que o programa de Marta não tente aproveitar as crises recentes de segurança em São Paulo. Tanto a greve dos policiais civis — cuja responsabilidade o Serra, de maneira competente, tentou jogar imediatamente nas costas do PT — quanto o absoluto despreparo da polícia no caso das meninas mantidas reféns pelo namorado de uma delas poderiam, sim, ser aproveitadas. É algo legítimo — aliás, muito mais legítimo que perguntas sobre as preferências sexuais de Kassab.
O Duda Mendonça diz, no seu livro “Casos e Coisas”, que quem bate, perde. Não parecem ter dito isso à campanha do Kassab, para a sua sorte. Todo o tempo ele estabelece uma comparação entre a sua administração e a da Marta. Não se furta a bater quando necessário, nem se omite quando é hora de dar alguma resposta; o segredo está no equilíbrio do tom usado e no fato de sempre bater enquanto apresenta um exemplo positivo seu.
O curioso é que, até onde sei, Kassab é situação e Marta é oposição. O papel de apontar as falhas, de desconstruir o adversário deveria ser preferencialmente dela. Não dele.
É impressionante também ver que o programa de Marta não tem emoção, não tem humor, não tem nada. Enquanto isso o texto do programa do Kassab é leve, emotivo, trabalha a experiência do paulistano sob o governo Kassab. Abusa de jingles temáticos que cumprem funções importantes, batendo em Marta com graça.
Se uma campanha eleitoral fosse uma partida de futebol, alguém poderia dizer que o programa de Kassab domina todos os fundamentos com maestria, enquanto o time da Marta se mostra perdido em campo.
E finalmente há a diferença crucial entre as imagens dos dois candidatos.
Há alguns meses, depois de ver o primeiro programa de Marta durante a campanha de 2004, reclamei que enfocavam a candidata em plano aberto, reforçando uma distância e antipatia que já vinham se tornando sua marca registrada. Mas aproximar a câmera de Marta foi pior: seu rosto é uma massa deformada de plásticas toscas e botox. A sensação de estranheza causada por aquele rosto que não move um músculo sequer ao falar é ruim, e tira a atenção do conteúdo de sua fala.
Enquanto isso o Kassab, com aquele sotaque de Chico Bento e cara de menino cabeçudo, oferece ao eleitor a confiança e a intimidade que sempre estiveram ausentes em Marta. Em vantagem por ser candidato à reeleição, Kassab transmite simplicidade e humildade. Faz o básico — admitir que não deu para fazer tudo em dois anos –, mas assume a sua responsabilidade e mostra confiança na sua própria capacidade. Já a Marta, enquanto continua com aquela lenga-lenga de dizer que “quer ser prefeita”, se refere à “sua equipe”. Outra bobagem. Equipe era necessária para Lula, que precisava se sobrepor à imagem de despreparado; agora o povo quer é alguém que possa governar direito, e pelo visto, e infelizmente, já decidiram que esse alguém é Kassab.
Por e-mail, recebo a denúncia de que um colunista da revista Trip, Henrique Goldman, confessou um estupro cometido décadas atrás. Ela dá também o link para um post da Carla Rodrigues, indignada contra o sujeito e mobilizando leitores para uma petição online.
Aí vou ler o artigo e o post e vejo que as pessoas estão ficando loucas. E que a histeria pseudo-feminista pode atingir dimensões que quase chegam à demência.
(Diante da repercussão negativa, autor e revista apareceram com a justificativa de que o texto é ficcional. Eu acredito neles, porque o Papai Noel, o Saci e o Curupira me visitaram ontem e disseram que é verdade. De qualquer forma, as reações covardes do colunista e da revista são muito mais graves do que a publicação do texto. Em algum momento eles enganaram seus leitores. A questão agora é saber se foi quando publicaram um texto ficcional fazendo-o parecer real ou quando fugiram de suas responsabilidades dizendo ser ficção um texto real.)
A jornalista Carla Rodrigues deveria ter, pelo menos, lido direito o artigo antes de discutir estupro dessa maneira ultrajada. Se lesse, veria que nada do que o Henrique fez constitui legalmente estupro, como qualquer advogado pode explicar sem pensar muito. A coisa é ainda pior, porque tecnicamente quem poderia ter cometido atentado violento ao pudor — e não estupro — seria a pobre da empregada. Ela é quem tinha 20 ou 30 anos. O rapaz tinha apenas 14. E insistência não é violência. Ao acusar Henrique Goldman de estupro, Carla Rodrigues não mostrou apenas um feminismo falso, principalmente porque construído sobre premissas falsas: descupriu o seu próprio papel como jornalista.
Não custa lembrar que nos Estados Unidos essa mulher seria exposta à execração pública, como a professora Debra Lafave e algumas outras. A mãe indignada iria à imprensa falar da violência que o seu filho (aquele menino ali, com um sorriso feliz no rosto) sofreu nas mãos de uma depravada sexual. A boa sociedade puritana se escandalizaria, enquanto a legião de six-packers invejaria a sorte do garoto e lembraria de suas fantasias sexuais adolescentes com mulheres mais velhas; alguns mais sensíveis poderiam fazer um filme como “Houve Uma Vez Um Verão”.
O que torna incômoda a reação histérica do pessoal é a torção dos fatos em função de uma visão de mundo que beira as raias do absurdo politicamente correto. Há, principalmente, um grau extremo de hipocrisia em tudo isso: sabe Deus quantos homens brasileiros tiveram suas iniciações sexuais com empregadas domésticas — se a vida ao redor não foi suficiente para que elas soubessem disso já há algum tempo, bastaria olhar os tantos filmes brasileiros que abordam o tema, às vezes com razoável grau de poesia. Fazer um escândalo porque alguém falou abertamente sobre o tema e transformar isso em um caso criminal é um despautério.
Se em vez de enxergar estupros onde nenhum foi cometido o pessoal que está indignado discutisse o ponto realmente incômodo no conteúdo do artigo — o quanto da escravidão subsiste ainda nas relações entre patrões e empregados, principalmente os domésticos — esse pessoal faria um favor grande ao país. No entanto, preferem discutir bobagens sobre bases inexistentes.
Eu recomendaria a todas essas moças que fazem auê em torno desses fatos que lessem as posições de Camille Paglia sobre o assunto — estupro — incluídas no livro Sex, Art and American Culture. Faria bem à sua cultura geral e talvez tirasse um pouco da ansiedade e neurose que as pessoas estão associando a sexo ultimamente.
A campanha da Marta Suplicy fez um comercial com uma série perguntas sobre a história e o comportamento de Kassab e o céu da mídia caiu. O assunto virou pauta grande: Marta insinuou que Kassab é gay.
O Idelber, como sempre (ou quase sempre: não devo esquecer jamais que o sujeito é um trotskista safado), faz uma análise impecável do episódio. Não há o que acrescentar a ele.
Mas eu posso dar uns pitacos, digamos, técnicos.
Ética é, ou deveria ser, atributo recomendável a qualquer campanha. Não por ingenuidade, como aquela que o pessoal da oposição cobra do governo sem nunca tê-la praticado (ingenuidade, favor lembrar, não é burrice, atributo ultimamente bastante aplicável a essa oposição), mas porque é geralmente mais eficiente. Mesmo assim, e embora eu seja o primeiro defensor da idéia de que a única ideologia de uma campanha deva ser a vitória, e que para isso você usa as armas que tiver à disposição, acho também que uma campanha eleitoral cumpre um papel cívico importante. Insinuações sobre a sexualidade de um candidato deveriam ser algo totalmente banido de campanhas. A intimidade de uma pessoa pública não interessa a ninguém.
Além disso, particularmente não gosto desses comerciais vagos demais. Parecem, sempre, covardes. Não sei até que ponto são eficazes, e certamente funcionam de maneira diferente em circunstâncias diferentes. Há jeitos e jeitos de bater e desconstruir; eu, pessoalmente, não considero esse um dos melhores. Sempre me passam a impressão de serem insidiosos demais. E embora eu possa estar errado, acho que há jeitos mais eficazes de alcançar o efeito desejado.
Convicções à parte, o mais interessante no comercial é que a lebre levantada sobre a sexualidade do Kassab faz parte de um conjunto grande de perguntas. Para a maior parte das pessoas, principalmente as classes C e D, a insinuação sobre a sexualidade de Kassab pode passar despercebida. Eles se esforçaram para ser sutis.
Mas a mídia indignada em defesa de Kassab amplificou desnecessariamente essa questão. O que era apenas um item meio obscuro virou ponto central da peça e da campanha. Talvez a equipe de Marta tenha sido sutil demais; mas contaram com a ajuda da imprensa, que na ânsia de defender Kassab bem pode ter dado um tiro no próprio pé.
Não conheço o eleitorado paulistano. Não sei como reage a insinuações sobre a sexualidade de um candidato (em Sergipe, por exemplo, elas não costumam ser bem recebidas e são contraproducentes); lembro apenas que Quércia sempre sobreviveu a essa insinuações, embora com muito menos consistência que as feitas em relação a Kassab.
Mas sei que dificilmente Kassab tomará a palavra para dizer que é hetero ou homossexual. E a discussão, se continuar, se dará em um campo desfavorável para ele — desfavorável não por sua opção sexual, mas porque ele não terá nenhum controle sobre ela. E para isso ele terá contado com a ajuda inestimável daqueles que tentavam defendê-lo.