Sobre o Windows

O Doni escreveu há algumas semanas um post dizendo que o Linux é o melhor de todos os sistemas operacionais.

Eu gosto do Windows. Acho os computadores da Apple uma gracinha, as coisas mais lindas que existem; mas são computadores caros demais que só fazem sentido em nichos específicos, particularmente edição de vídeo e, como me lembrou a Lucia Malla uma vez, edição de imagens muito grandes. Todo o resto um PC com Windows faz, mais rápido e por metade do preço. O MacOs é um excelente sistema operacional, mas com péssima relação custo/benefício.

Quanto ao Linux, eu prefiro nem começar (e antes que alguém diga que é só antipatia, eu gostaria de lembrar que já instalei algumas versões do Linux no meu computador, do Red Hat 8 às últimas versões do Ubuntu). Ao lado estão os programas que mais uso no computador, com exceção do Word. Para alguns deles, o Linux certamente oferece algumas alternativas quase razoáveis. Para internet e aplicativos de escritório, por exemplo, o Linux pode quebrar o galho — embora qualquer comparação do OpenOffice com o Microsoft Office seja, principalmente, um exercício de boa vontade.

Mas para praticamente todo o resto, eu preciso do Windows. Tenho a impressão de que se as pessoas passassem menos tempo inventando versões diferentes para o Linux e se concentrassem em aplicativos realmente úteis, e melhores que os da Microsoft, o cenário seria um pouco melhor. O mundo do Linux é confuso, excessivamente variado para quem, como eu, não quer perder tempo brincando com um sistema operacional. O melhor exemplo que posso dar é a página de download do VLC, o melhor media player disponível: uma versão para o Windows, uma para o MacOS — e uma porrada de versões para as porradas de versões do Linux.

O Doni que me perdôe, mas definitivamente o Linux não é essa maravilha toda. Se fosse, a essa altura os computadores de todo o mundo estariam usando esse sistema operacional. Mas as pessoas preferem o trabalho de comprar ou piratear o Windows do que simplesmente passar pela pequena tortura que é fazer as coisas funcionarem no Linux. É um raciocínio simples e lógico: se alguém prefere o trabalho de piratear alguma coisa em vez de simplesmente utilizar o que é gratuito, é porque o objeto pirateado lhe traz mais vantagens.

Eu já vi bastante gente comprar computadores que vêm com o Linux pré-instalado e passar para o Windows. E não é gente com alguma necessidade específica em informática: pessoas que simplesmente querem acessar internet, usar programas de escritório e jogar um pouquinho.

O virtual monopólio do Windows, antigamente, era explicado pela base instalada de programas. As pessoas usavam o bicho porque os outros usavam. Mas à medida que mais necessidades são resolvidas na internet, com a consolidação do cloud computing, essa explicação se torna mais insuficiente. Infelizmente, os defensores do Linux não explicam esse pessoal. Provavelmente porque sua mentalidade é excessivamente técnica. Vêem as qualidades intrínsecas do sistema operacional, com mentalidade de engenheiro, e esquecem da vida real. Não é isso que as pessoas querem. Eu, pelo menos, quero um sistema operacional que simplesmente possibilite as coisas que eu preciso fazer. O MacOS é suficientemente bom, mas caro demais. O Linux é barato, mas não resolve os meus problemas. Me resta o Windows.

***

O post do Doni me lembrou que à medida que o tempo passa vou ficando cada vez mais burro nessas coisas de computador. E gosto disso.

Já vão longe os tempos em que eu mexia no config.sys e no autoexec.bat do Windows 3.1. Hoje quero basicamente usar o que já vem pronto. O jeito como aprendi a usar um computador, há cerca de 15 anos, ainda é o meu preferido. Gosto de cada coisa em sua pasta. Não gosto dessas coisas virtuais, desses atalhos que a Microsoft insiste em fazer em nome de uma tal “usabilidade” tipo “Meus Documentos”. Prefiro coisas mais cartesianas e mais óbvias. Talvez por isso ainda use tanto o Windows Explorer.

Antigamente, a primeira coisa que eu fazia quando comprava um computador era particionar o HD em dois (com o velho FDisk do DOS). Hoje meu computador já vem com dois HDs, e assim separo um disco para programas e outro para arquivos. É mais prático assim, porque tenho mania de formatar o HD de vez em quando: acredito piamente que o Windows é biodegradável e estraga com o uso. Um HD externo faz com que eu não precise mais gravar constantes DVDs de backup. Mas gravo assim mesmo, do que é mais importante. Seguro morreu de velho. Não gosto dessas coisas de backup na internet. Sou um velho que guarda dinheiro no colchão.

Uso o Firefox desde as versões 0.x. Nunca usei o Internet Explorer (com exceção de uns meses malditos entre o Netscape 4.74, ruim de doer, e o lançamento do Netscape 7, substituído logo em seguida pelas primeiras versões realmente funcionais do Mozilla). Já experimentei o Opera, muito tempo atrás, mas nem me dei ao trabalho de olhar o Google Chrome.

Durante muito tempo usei o Zone Alarm e o Norton Antivírus. Hoje uso o Avast!, e o firewall do Windows quebra bem o meu galho. O PGP garante que os dados mais importantes para mim continuem seguros.

Não costumo rodar jogos no computador, que instalava eventualmente para minha filha, apenas — ela gosta de arrebentar alienígenas e de mandar pingüins para o espaço. Mas o Chess Titans, que vem com o Vista, é perfeitamente adequado para mim: eu, que sou um jogador de xadrez abaixo do medíocre, vivo ganhando do computador porque no Chess Titans dá para roubar. Já joguei, no entanto — e até hoje, considero os melhores jogos da história –, SimCity, Civilization e Quake I, os dois últimos por mais de dez anos. Nunca gostei de video-games (Atari ou Nintendo não me dizem absolutamente nada) e não sei pegar num joystick. Nunca vou saber.

Já houve um tempo em que virtualmente todos os programas do meu computador eram pirateados, a começar pelo Windows. Hoje, com exceção do próprio Windows, que já vem instalado, e do Office, que compro porque me evita dor de cabeça, dou preferência a programas open source. Não porque me incomode com a filosofia por trás deles, mas porque são bons, gratuitos e simplificam minha vida. A Adobe, no entanto, ainda continua me incitando à marginalidade.

Alguns programas não entram no meu computador. O Nero, por exemplo — há uma infinidade de programas gratuitos e infinitamente mais leves que fazem a mesma coisa. No meu caso, um já vem instalado de fábrica, e eu fico com ele mesmo. De modo geral, a exuberância de programas gratuitos à disposição não me diz muita coisa. Eu não gosto da maioria dos programas incensados por aí. Acho o Picasa, por exemplo, uma coisa meio tosca que só emporcalha o computador. Minhas fotos eu resolvo com o Photoshop e o Windows Explorer.

Olhando para trás, vejo que há poucos programas que abandonei ao longo do tempo. Troquei o CuteFTP pelo Filezilla, Eudora pelo Thunderbird, ICQ pelo Windows Messenger. Com o surgimento do DivX experimentei um bocado de players: mas nada bate o VLC. Já usei o iMesh para trocar arquivos, fiquei com o eMule durante muito tempo, mas o µtorrent é bem razoável e quebra o galho, embora eu baixe poucos arquivos hoje em dia. Não tenho mais paciência.

Outros programas foram embora porque não são mais necessários. WSGopher, Secret Agent (um leitor de cache da web, algo bem útil há 15 anos), Trumpet WinSock, Free Agent (leitor de newsgroups Usenet que o excesso de informação me fez abandonar), mIRC. Usei tudo isso. Não uso mais, e já há algum tempo.

Não me imagino com uma página no Twitter. Tenho perfil no Orkut e no Facebook, mas entro ali só de vez em quando, quando alguém me adiciona. Não consigo me comunicar através daquilo. Prefiro o Messenger, e gosto muito de e-mail. Gosto ainda mais do meu e-mail no meu computador, embora o Gmail seja tão bom que quase me faz acostumar com webmail. Perdi a conta do número de e-mails que já tive; mas o tempo passou e hoje uso basicamente duas, além do e-mail do trabalho.

Resumindo, eu sou um velho que gosta das coisas do jeito antigo.

Sobre os comentários a Dilma

Os comentaristas do post anterior têm, todos, um mérito: as críticas a Dilma Rousseff são basicamente as mesmas que seriam feitas a um Mercadante. De modo geral são críticas ideológicas, e não sexistas. É um bom começo.

Isso não quer dizer que sejam todos merecedores de muita atenção. O comentário do Rogério beira o ridículo: “é também patético vcs agora quererem impor a candidatura de dilma goela abaixo da população brasileira”. Até ontem, pelo menos, este era um país livre. Qualquer pessoa que queira ser candidata a presidente pode ser. Isso não é empurrar nada goela abaixo de ninguém; é simplesmente fazer uso de um direito. Quem não gosta da Dilma, do Serra, do Aécio ou do Maluf, faça o seguinte: não vote. Confundir um direito individual e de um partido com imposição é uma das maiores bobagens que já li. Mas gente como o Rogério não tem lá muito apreço à democracia nem consegue apreender corretamente o seu significado.

A hipótese levantada pelo Navegador, na minha opinião, é um equívoco. Achar que dar de mão beijada o governo ao PSDB/DEM significaria uma volta mais fácil de Lula em 2014 é bobagem. Porque isso simplesmente não existe. Nunca. Em lugar nenhum do mundo. Não se entrega o poder a um adversário. Curiosamente, é o mesmo argumento que eu vi dirigido a Fernando Henrique Cardoso em 2002. Não era verdade, e Serra perdeu por seus deméritos (e pelos de Fernando Henrique). Mas se fosse, bastaria olhar para o governo Lula para ver que FH teria feito uma grande bobagem.

Não é por outra razão que Serra está unificando o PSDB paulista, comprando Alckmin com a promessa do governo de São Paulo em 2010 e isolando cada vez mais Aécio Neves. Não importa o que se diz hoje: Aécio não vai marchar ao lado do PT em 2010, aconteça o que acontecer. Porque ele sabe que essas coisas não existem.

O João Neto, meu troll de estimação, falou em “queima de amigos” por Lula. É um pensamento meio torto e, na minha opinião, meio ingênuo. Primeiro, por julgar que política (ainda mais política feita pelo PT paulista, aquele ninho de anjos do céu) é feita como uma reunião de amigos. A princípio, eu não tenho nenhuma simpatia ou antipatia por Dilma Rousseff. Na verdade, até há alguns meses eu defendia uma candidatura de Ciro Gomes e Pedro Simon, mesmo sabendo que o Simon não é mais o que era antigamente. De qualquer forma, minha simpatia é pelo projeto de governo que hoje Lula capitaneia — mais que simpático, eu sou parte indireta dele. Se Dilma Rousseff for o nome que vai conseguir aglutinar as forças de esquerda e manter esse modelo de governo, e melhorá-lo, então estamos com ela. E não me interessa se fulano ou sicrano ficou pelo caminho. Isso interessa apenas à oposição, que na falta de argumento melhor tenta reviver o mensalão — como se a derrota vergonhosa de 2006 não os tivesse feito aprender. Uma consultoria em marketing político não lhes faria mal.

Em segundo lugar, o João Neto tenta minimizar o que foi uma ascensão absolutamente natural e espontânea de Dilma Rousseff. E negar um fato simples: ela se afirmou como pré-candidata por seu próprio mérito, por sua competência.

O Roberto Procópio está enganado ao comparar Dilma a Lula. Porque os dois desempenham papéis diferentes; o de Dilma é o de fazer as coisas andarem. (E a Marina Silva é mais palatável a quem? Só se for à oposição. Pessoalmente, acho a Marina fascinante. Me bati com ela uma vez no aeroporto de Salvador — e ela tem um quê de verdadeira superioridade humana que me impressiona e me fascina. Mas eleição não é concurso de miss simpatia. A Marina passa, além de uma certa “limitação temática”, fraqueza e doçura excessivas para quem deve comandar um país, e provavelmente seria massacrada nas urnas por um Aécio ou um Serra. Além disso, em termos de percepção eleitoral, o país em questão precisa mais de um discurso consistente, pragmático e crível de justiça social e desenvolvimento do que de defesa da Amazônia. Esse é um tema caro às classes médias e altas que moram em cidades grandes. Mas tente dizer isso ao nordestino que passava fome em Cabrobó ou ao empresário agrícola ou industrial que precisa de incentivos à exportação. Pode-se dizer que a Marina Silva é a Cristovam Buarque do ambientalismo.)

Mas ao mesmo tempo discordo do Gui Losilla quando ele diz que o problema do governo Lula não foi o mensalão, e sim a imprensa. Na verdade, foram os dois. Não dá para negar os desvios éticos de gente como aquele rapaz do Land Rover. Mas também não dá para deixar passar em branco a hipocrisia e a canalhice de grande parte da imprensa, que juntou no mesmo balaio alhos e bugalhos — o caso da Angela Guadagnin, para mim, foi exemplar –, e que desde o início perseguiu o governo Lula com uma ferocidade inaudita mesmo nos primeiros tempos da última ditadura militar. A questão ética, por sinal, é um tema que precisa ser visitado e encarado de frente.

É também em reconhecimento ao caso do mensalão que a candidatura da Dilma se torna mais forte. Não fosse isso, é provável que o candidato mais forte hoje fosse José Dirceu. Mas os escorregões éticos do PT fizeram com que, pelo menos por enquanto, a melhor candidata à sucessão de Lula seja uma mulher que há 8 anos ninguém conhecia. De qualquer forma, isso não interessa. A história das eleições brasileiras é pródiga em candidatos fortíssimos que a vida deixou para trás em menos de quatro anos: Ulysses Guimarães, Leonel Brizola, o próprio Lula em 1994. Em 1997, o candidato provável do PSDB/DEM à presidência em 2002 era Luís Eduardo Magalhães; mas política não se faz com antedência.

É bom lembrar que, nesta eleição, uma das principais qualidades do candidato da esquerda deverá ser a capacidade de receber os votos de Lula. Sozinho, ele é o maior eleitor do país. Serra, que hoje tem 41% das intenções de voto, sabe disso. É por isso que um ponto do post anterior devia ser visto com atenção. Se referia ao desgaste que se deveria esperar de um governo em fim de segundo mandato. É praticamente uma lei da política a presunção de que um segundo mandato é sempre inferior ao primeiro, e mais desgastante. Foi o que aconteceu com Fernando Henrique, por exemplo. E José Sarney nem mesmo precisou de um segundo mandato para ser execrado. No entanto, o que se vê até agora — e lembrando que ainda é cedo para tomar tais coisas como garantidas — é um governo cada vez mais sólido, algo inédito neste país, e a melhor prova possível de sua competência. É contra esse governo atípico que a oposição vai ter que encontrar alternativas e críticas suficientes.

Mas novamente, a oposição comete os erros de sempre. Talvez por não poder evitá-los. Em vez de discutir o modelo de governo que a Dilma vai defender, fica na periferia dos argumentos. Ninguém apresenta uma alternativa de desenvolvimento social ao Bolsa Família que tanto criticam. Ninguém apresenta um modelo diferente de política cultural. Ninguém discute se as obras do PAC são necessárias ou não, ou como se pode melhorar.

Diante desse quadro é justo imaginar: não apresentam alternativas porque não têm.

Começa a campanha contra Dilma Rousseff

A revista Época desta semana traz uma matéria com chamada de capa sobre as cirurgias plásticas a que a ministra Dilma Rousseff teria se submetido. Faz um detalhamento das operações, além de investigar suas razões e possíveis conseqüências políticas, e se justifica dessa forma:

Num comportamento inapropriado, já que todo evento que tem implicações com a saúde de um ministro deve ser tratado com transparência, sua assessoria nem sequer confirmava a realização da cirurgia.

Essa afirmação da Época é um exemplo claro de hipocrisia e de segundas intenções. A diverticulite do presidente Tancredo Neves era de interesse público. A saúde frágil do vice-presidente José Alencar, também. Cirurgias plásticas de ordem meramente estética, como as feitas por Dilma, não são questão de saúde e não interessam a ninguém.

Não se costuma ver na mídia perguntas sobre os cabelos tingidos de José Sarney, ou mesmo a retirada das bolsas sob os olhos de José Serra e de Fernando Henrique Cardoso — a não ser quando servem para justificar ataques como esse. O passado de Dilma Rousseff como guerrilheira e opositora da ditadura militar, ainda que remoto e pouco relevante hoje, é uma informação importante para o cidadão brasileiro. Se ela levantou ou não uma pálpebra, é no máximo assunto de tablóides de fofocas de novela. É a esse nível que a Época se rebaixa quando explora esse assunto.

Mas a investida contra Dilma tem razão de ser: hoje, ela é reconhecida como a sucessora potencial de Lula.

A grande esperança da oposição, até agora, tinha sido a aposta na ausência de um candidato forte para suceder Lula. Finalmente reconhecendo que, mais que um político ou estadista, Lula é um dos maiores heróis nacionais na história, costumava ver como vantagem a idéia de que tinha candidatos mas não tinha programa, enquanto o governo tinha programa mas não tinha candidatos. (A propósito, este blog sempre achou que é mais fácil arranjar um candidato do que desenvolver um programa.)

O cenário era ainda mais promissor para a oposição porque, ao final das eleições de 2008, analistas políticos se apressaram em afirmar que o tão temido poder de transferência de votos de Lula era muito menor que o imaginado, já que o governo perdeu as eleições em várias capitais.

Mas uma eleição municipal não é a mesma coisa que uma eleição presidencial em termos de capacidade de transferência de votos do presidente em exercício. Cada dia mais atento, o eleitor brasileiro sabe diferenciar essas esferas. Uma eleição municipal é basicamente dominada por temas e interesses locais. Uma eleição presidencial tem forçosamente como referencial o atual mandatário e a avaliação que se faz do seu governo.

É por isso que na eleição presidencial de 2010 nós teremos Lula dizendo ao povo brasileiro: “A Dilma sou eu na presidência”. E por Lula na presidência entenda-se o cada vez mais forte e eficiente sistema de distribuição de renda simbolizado pelo Bolsa Família. A condução firme da política econômica. Uma posição internacional cada vez mais visível, sólida e influente. O Brasil que Lula vai deixar em 2011 é um país melhor do que aquele que o elegeu. Seus índices de popularidade alarmantes — para a oposição, ao menos — são o melhor exemplo disso. Em 2010, o que se terá será a disputa entre o modo de governo capitaneado por Lula e as alternativas pouco simpáticas às classes mais baixas representadas pelo PSDB e pelo PFL.

Hoje a oposição deposita suas fichas em José Serra e Aécio Neves, governadores de dois dos mais importantes (e eleitoralmente densos) Estados brasileiros. Guardadas as devidas proporções e diferenças, esperam em Aécio um novo Collor para bater Brizola, como em 1989, e em Serra um novo Fernando Henrique para vencer um Lula, como em 1994. Seria o bastante, caso o governo continuasse sem um candidato forte e sofresse o que normalmente é um desgaste natural depois de 6, 7 anos de governo.

Mas o fortalecimento crescente de Dilma começa a mudar esse panorama.

Primeiro, Dilma foi levada na conta de boi de piranha, uma pré-candidata destinada a servir de alvo da oposição enquanto o governo preparava seu candidato real. Essa era, por exemplo, a opinião deste blog. Talvez fosse uma opinião equivocada. Porque intencionalmente ou não, Dilma Rousseff se consolidou de maneira surpreendente. Tem cada vez mais pontos positivos a seu favor, e se firma a cada dia como uma boa receptora dos votos do presidente Lula. Como possível candidata, vai se mostrando um nome ao mesmo tempo leve e sólido, sem as resistências que, por exemplo, um Ciro Gomes encontraria.

Dilma é uma mulher, o que por si só já representa um sopro importante de renovação. É uma política com ampla experiência administrativa e comprovadamente competente. Atravessou incólume o escândalo do mensalão, e não paira nenhuma suspeita sobre sua honestidade — mesmo no comando de um orçamento gigantesco, como o do PAC. Ou seja, a cada dia se consolida mais como o nome ideal para substituir o governo mais bem-sucedido da história democrática do país. É infensa até ao mais idiota dos argumentos contra Lula:ela tem mestrado em economia.

A matéria da Época é apenas uma das primeiras das muitas que virão por aí. Logo depois, na última página da revista, assinada pela Ruth Aquino — uma espécie de Lya Luft da Época, uma boa tradução daquele pensamento de classe média do Leblon — a matéria mostra indiretamente a que veio:

Para salvar vidas, as estradas federais precisam de uma plástica radical com a da Dilma.

Vem mais por aí. A partir de agora, Dilma Rousseff vai ser alvo de chumbo grosso. As eleições de 2010 estão começando.

Rafael Galvão, agora especialista em Nostradamus

Parece brincadeira.

Há alguns anos, o Marcus repassou por e-mail — e por sacanagem — uns trechos de Nostradamus como uma profecia sobre a tsunami que tinha acabado de assolar uma parte do Índico. Eu fiz um post brincando com as centúrias do grande apotecário e picareta francês. E ainda procurei mais algumas para provar que com boa vontade, elas podem significar o que quiser.

Entre as centúrias que achei e que achei interessantes, estava uma que eu podia “interpretar” facilmente:

To an old leader will be born an idiot heir,
weak both in knowledge and in war.
The leader of France is feared by his sister,
battlefields divided, conceded to the soldiers.

Meu comentário na época foi esse: “É Bush. Quer apostar que é Bush?” Podia ter dito também que os soldados eram a Halliburton ou a Blackwater.

Agora eu acho que talvez Nostradamus estivesse certo. E se estava, agora me intitulo o mais novo hermeneuta no sujeito, vigarista de séculos atrás mas que, ao menos e sem saber, definiu antecipadamente George W. Bush.

Os que defendem o genocídio palestino

A coluna da Cora Rónai em O Globo, também publicada em seu blog, é um insulto à memória dos palestinos assassinados por Israel e uma ofensa a quem tem algum respeito pela humanidade.

É uma das mais claras e veementes defesas de Israel na atual crise — e nisso é preciso admirar a senhora, porque é preciso coragem para tentar justificar o indefensável, fechar os olhos para a carnificina e mentir descaradamente. Abaixo seguem alguns trechos comentados dessa coluna/post. O texto integral está no blog da Cora Rónai.

No momento, nada que se diga ou se mostre em favor de Israel terá qualquer efeito. Para além da presente guerra propriamente dita, há outra que, há tempos, foi perdida pelo país — cuja capacidade de fazer propaganda, ao contrário do que acredita tanta gente, é inversamente proporcional ao seu poderio militar.

A Cora Rónai está falando de algum país que não conhecemos. Há 40 anos Israel é um país opressor. Poucos países contaram com tamanha boa vontade quanto Israel — e para isso inverteram valores, chamaram de “luta pela existência” o que era apenas opressão. Foi necessário que anos de abusos, de invasões, de limpeza étnica passassem para que uma parte do mundo se conscientizasse do crime contra a humanidade que Israel vem cometendo há décadas. E se isso não é boa propaganda, eu não sei o que é.

Além da amizade com os Estados Unidos, vilão preferido de meio mundo, e do questionável rótulo de “direita” que lhe foi pespegado, há uma série de fatores culturais e políticos que atuam permanentemente contra Israel. Para ficar apenas num ponto de óbvio apelo emocional, seus mortos e feridos nunca são filmados ou fotografados, salvo em hospitais ou caixões e, ocasionalmente, pela imprensa estrangeira. Os mortos tampouco são exibidos em procissões; eles tem sido, atentado após atentado, guerra após guerra, mortos que se contam em números – mas o que é um número diante da foto de uma criança morta?!

Se as fotos de crianças assassinadas por Israel não sensibilizam a Cora Rónai, talvez os números sensibilizem.

Até ontem pela manhã, eram 1054 palestinos mortos desde o início da chacina. Desses, 100 eram mulheres. 255 eram crianças. Outros 4870 ficaram feridos.

13 israelenses morreram até agora. 10 militares, 3 civis.

É um insulto à inteligência de qualquer pessoa sequer pensar comparar as duas situações.

(Mais dados e análises excelentes podem ser encontrados no Idelber, que vem fazendo uma cobertura brilhante do genocídio perpetrado por Israel na Palestina.)

Ao mesmo tempo, ao longo dos últimos anos, quando foguetes do Hamas eram lançados sobre o sul de Israel, as crianças iam para abrigos subterrâneos, e não para o meio da rua, providencialmente armadas com estilingues. Ora, a foto de uma escola (vazia) destruída por um “míssil caseiro” (seja isso lá o que for) não tem uma fração do impacto da foto de um garoto de estilingue diante de um cenário de destruição.

A Cora Rónai deve saber, por exemplo, que o Hamas voltou a lançar foguetes depois que Israel, mais uma vez, quebrou o cessar-fogo.

Mas não interessa a ninguém que se preste ao papelão de defender Israel, neste momento, lembrar da história da região. Em vez disso, a torção de fatos, os sofismas primários, as imagens fáceis.

Isso não justifica matança alguma, seja de um lado, seja de outro; mas o fato é que criou-se, assim, a singular percepção de um povo intrinsecamente mau e sanguinário, que ataca criancinhas por pura maldade, contra um povo intrinsecamente bom e coitado, que só explode civis por falta de escolha.

O último argumento dos defensores dos crimes de Israel é esse: o maniqueísmo bobo, piegas, e um eterno colocar-se no papel de vítima. Mas a Cora está errada. A máquina de propaganda isralense criou justamente a imagem contrária: eles eram um país vítima enquanto os palestinos eram terroristas — embora falar em “matança de um lado e de outro”, dados os números, seja um despautério. Uma frase de Golda Meir não em sai da cabeça: “Depois do que os nazistas fizeram conosco, podemos tudo”. Agora Israel mostrou o que acha que pode.

Por ser um país desenvolvido cercado de vizinhos em diferentes estágios de “civilização”, Israel paga, guardadas as devidas proporções, o preço que a classe média paga, no Brasil, em relação à criminalidade nas comunidades carentes: para uma certa visão míope, é sempre a culpada, porque, em tese, nessa forma enviesada de análise, os bandidos são sempre inocentes – são apenas pobres reagindo à desigualdade social (o que, claro está, é uma baita ofensa à imensa maioria dos pobres, que sofrem na miséria sem nunca pensar em delinqüir). Enquanto isso, os verdadeiros culpados pelas desigualdades, lá como cá, não são mencionados nem en passant – e, ainda que o fossem, continuariam onde sempre estiveram, ou seja, nem aí.

Esse parágrafo é tão podre que dá vergonha de comentar. Ela define Israel como uma ilha de civilização em meio a um mar de barbárie; é a inveja do desenvolvimento de Israel a causa de todo esse caos. E a isso junta os seus próprios preconceitos de classe, o esnobismo profundo de certa elite — ela diria intelligentsia, talvez — brasileira. O Abundacanalha já falou sobre esse trecho. Não é preciso dizer mais nada.

Já os líderes mundiais que não perderam tempo em se declarar contra a “reação desproporcional” de Israel pouco estão se lixando para o sofrimento das vítimas. Se a sua preocupação fosse realmente humanitária, o Sudão, por exemplo, não sairia das manchetes; só que as vítimas do Sudão não dão ibope. Quando a China entrou de sola no Tibete, ainda outro dia, ouviram-se, no máximo, ligeiros resmungos protocolares – e, ainda assim, só porque o Dalai Lama é um véinho carismático, com bom transito em Hollywood.

Dá para justificar um erro com outro? Eu acho que não. Tentar desviar a atenção para o Sudão é uma atitude covarde e suja. E mais que isso, mostra a impossibilidade de justificar os atos de Israel. É o homicida falando do latrocida.

Isso sem falar no antissemitismo que, invariavelmente, aproveita para dar as caras quando tem a ótima desculpa de uma guerra para acobertá-lo. “Israelense” e “judeu” não são sinônimos; há incontáveis cidadãos israelenses que não são judeus, como há milhões de judeus que não são israelenses. Ainda assim, os dois termos se equivalem para efeitos de noticiário, de artigos, de posts enraivecidos em blogs. Seria até compreensível se a mesma equivalência servisse para “palestinos” e “muçulmanos”, mas esta é sempre cuidadosamente evitada. Às vezes, o uso (ou a omissão) das palavras revela muito mais do que o seu significado.

Qualquer pessoa que já tenha questionado as atitudes de Israel já foi chamado de anti-semita (ou antissemita, como querem os novos). A Cora apenas repete os mesmos argumentos de sempre. Mas esquece de dizer que os termos “judeu” e “israelense” parecem muitas vezes equivalentes porque Israel é um Estado formado sob a premissa judaica.

Apoiar os palestinos, o Hamas, o Hezbollah e os países árabes de modo geral, é chique, é bacana e é uma garantia de popularidade com a soi disant “esquerda”. Israel não terá o apoio da intelligentsia – que em geral é de uma extrema covardia e ignorantsia – nem se for completamente aniquilado, como quer o Hamas. Aí ainda vamos ouvir o “fizeram por onde” que tanto se disse em relação ao ataque ao WTC; as Nações Unidas vão fazer tsk, tsk, o Papa vai condenar vagamente o exagero – e estaremos conversados.

Até agora, não vi ninguém apoiando o Hamas ou o Hezbollah. No máximo, o que se tenta é compreender como a opressão israelense levou uma parcela do povo palestino à radicalização e à resistência. O Hamas não é simpático a ninguém; mas queira a Cora Rónai ou não, a sua luta é hoje a luta de todo um povo. É uma resistência legítima — assim como era legítima a resistência judaica anterior à fundação de Israel. Mas os judeus que explodiam hotéis eram heróis, como Ben Gurion; os palestinos que tentam resistir à ocupação por um país que pode chegar ao nível de genocídio a que Israel chegou são terroristas.

Mas a verdade é que eu nem devia estar falando sobre isso. Minha opinião é descartada de saída em qualquer discussão a respeito do Oriente Médio: como venho de uma família dizimada pelo Holocausto, sou suspeita e, portanto, não posso me manifestar. Cansei de ouvir isso até de pessoas supostamente inteligentes – e, de cansada, não discuto mais. Se o que você diz não vale nada a priori, o mais sensato é seguir os conselhos do professor Higgins, e falar apenas sobre o tempo e a saúde.

Então a Cora Rónai não pode falar? Mentira. Tanto pode que está falando. E pode muito mais que a “internet” da qual ela reclama, porque fala do alto de uma coluna em um dos maiores jornais brasileiros. Ela pode e faz. Isto aqui vai ter algumas centenas de leitores. A Cora Rónai tem centenas de milhares. Se há um tipo de pessoa que não pode posar de vítima é uma jornalista tarimbada e com anos de experiência.

E ela fala apelando para o velho argumento do Holocausto, lugar comum para todos que tentam justificar as atrocidades israelenses. Mas o Holocausto já não justifica Israel. Deixou de justificar, na verdade, há muitos anos, quando Israel violou o acordo que possibilitou a sua criação.

Como é, tem feito muito calor por aí?

Tem, dona Cora. Mas um calor menor que o das bombas explodindo na Palestina.

Carta aberta aos jogadores do meu Flamengo

Oi, gentes.

Eu sei que não sou um torcedor fanático, e que vocês nunca ouviram falar de mim. Para falar a verdade, não assisto a um jogo inteiro de futebol desde aquele fatídico Brasil x França, e mesmo então estava mais interessado na bunda enorme à minha frente do que em Ronaldo se arrastando pelo campo.

Mas hoje eu tenho um pedido muito sério a fazer a vocês.

Sabe, eu estava acordado vendo o Flamengo ser campeão da Libertadores debaixo das pancadas do Cobreloa; campeão mundial dando aquele baile no Liverpool; pentacapeão brasileiro em cima de times como o Atlético Mineiro (o que deixou o Idelber traumatizado e meio tantã pelo resto da vida, coitado) e Santos. Obina não pode ser meu ídolo porque vi Zico, Leandro, Júnior, Adílio, Andrade e Mozer tratando a bola como quem trata a mulher amada.

Eu tenho lembranças que a maior parte dos flamenguistas hoje vivos não tem; são elas que me dão o direito de escrever esta carta a vocês.

Neste século, passei grande parte do tempo relegado a apenas torcer contra o rebaixamento do Flamengo. Já estava até acostumado a passar as últimas rodadas do Brasileirão angustiado a cada novo jogo, porque o fantasma do rebaixamento estava sempre presente.

Foi com uma certa surpresa que vi vocês melhorarem este ano, quando pela primeira vez em muito, muito tempo tiveram chance real de ser campeões. Eu fico feliz por vocês. Parabéns pela campanha valorosa. Parabéns por terem feito do Flamengo novamente um time de que seus torcedores não têm vergonha.

Mas agora vocês têm um dever cívico a cumprir. Algo que é maior do que vocês, maior que suas carreiras, maior que qualquer coisa em que vocês possam pensar.

Vocês precisam perder o próximo jogo contra o Atlético Paranaense. Abram as pernas. Deixem que o Atlético ganhe de vocês. Admitimos até uma goleada.

Porque perdendo vocês vão ajudar o Vasco da Gama a ser rebaixado, e esse é um prêmio indiscutível, um troféu quase tão grande e importante quanto o primeiro título brasileiro.

Vocês já perderam tanto quando não podiam. Já nos deram tantas tristezas — como agora mesmo, cedendo um empate bobo ao Goiás. Agora vocês precisam perder novamente, porque com esta derrota vocês vão mandar o Vasco para o lugar que lhe é direito, e nada pode ser tão bom quanto isso.

Vocês têm a obrigação moral de perder o próximo jogo. Esse será a sua grande contribuição para a imensa torcida flamenguista espalhada por este país tão grande.

Eu sei que para os cartolas do Flamengo a vitória agora é importante, e eles devem estar fazendo uma enorme pressão sobre vocês. Com a Libertadores eles poderão ganhar mais dinheiro, pouco importando se vocês serão campeões ou não.

Mas a disputa pela Libertadores é efêmera — ainda mais efêmera porque nós sabemos que vocês não vão longe. O rebaixamento do Vasco é eterno. Não importa que ele volte à primeira divisão no ano que vem, o que é bem provável: esse estigma vai estar sempre presente, e pelo menos por mais alguns anos nós vamos continuar sendo o único time carioca a nunca ter ido para a Segundona.

A gente sabe que, depois das quartas-de-final da Libertadores, quando provavelmente seremos desclassificados, vocês serão esquecidos pela eternidade. Mas se vocês perderem o próximo jogo, poderão ser lembrados eternamente como o time que deixou o Vasco da Gama ser rebaixado. E terão conquistado um título inédito para o Flamengo: o único time carioca a não ser rebaixado para a Segundona.

Isso é mais do que vocês poderiam sonhar.

Sim, eu sei que pelo bem do futebol carioca talvez fosse melhor que o Vasco não fosse rebaixado. Que o fantasma malfazejo do Eurico Miranda espreita um homem decente como Roberto Dinamite. Que pessoas de quem gosto muito, mas muito mesmo — como o Bruno — vão ficar tristes. Sei também que a derrota do nosso Flamengo no próximo jogo não é garantia do rebaixamento do Vasco. E espero sinceramente que eles voltem à primeira no ano que vem, porque Roberto Dinamite merece isso. Mas agora vocês têm que perder, têm que fazer sua parte no rebaixamento do time de São Januário, e ao perder vocês serão ovacionados por todos nós, porque nós que tínhamos perdido as esperanças de ter uma grande alegria com vocês vemos agora que estávamos errados, que vocês podem entrar para a história do Flamengo, porque terão mandado o Vasco da Gama para a segunda divisão.

Nizan Guanaes, Fabio Fernandes e a saborosa mistura de ódio e interesses comerciais escondendo um debate razoável

O Catarro Verde publicou uma carta do publicitário Fábio Fernandes, da F/Nazca Saatchi & Saatchi, reduzindo o também publicitário Nizan Guanaes, da DM9 e Africa, a pouco menos que nada. A carta era um e-mail particular aos funcionários da agência de Fernandes, mas esse tipo de coisa, nesse mercado, sempre é convenientemente vazado. Não é uma carta elegante. Fernandes não poupa adjetivos negativos para definir Nizan, e enumera termos semelhantes utilizados pelo baiano.

Aparentemente, o bate-boca conjuga de maneira brutal interesses comerciais e egos. Os dois brigam por contas gigantescas. Os dois se odeiam. Diz-se que essa briga é antiga. Que um chamava o outro de gordo, enquanto tinha sua masculinidade questionada. (História velha que circula no meio: Nizan foi fazer uma visita à sua ex-agência, a Artplan. De um extremo do corredor, Fabio grita: “Cada vez mais gordo, hein, Nizan?” E Nizan responde: “Cada vez mais viado, hein, Fabio?”)

São dois egos fenomenais, condizentes com enormes talentos, e uma capacidade ainda maior para descer aos níveis mais baixos de picuinha.
Apesar de a carta não passar, aparentemente, de baixaria absolutamente dispensável — dois homens crescidos e bem-sucedidos xingando a mãe do outro —, ela tem pontos realmente interessantes. Se deixarmos de lado a discussão sobre o valor de cada um, e debatermos o teor das idéias que os dois defendem, podemos ver que o que está em discussão é a própria natureza da atividade publicitária em tempos de transformação.

O Fabio Fernandes se posiciona como um defensor intransigente da criatividade como elemento central da publicidade, e ataca as relativamente novas posições de Nizan, que agora minimiza o valor intrínseco da criação e diz que “idéia boa tem que ser copiada”, provavelmente o maior crime que se pode pedir para um criador publicitário cometer.

Curiosamente, poucas pessoas têm mais qualificações para falar de criatividade publicitária do que Nizan Guanaes. Fale-se dele o que quiser — e o Fabio Fernandes, decididamente, quer: que seu caráter é duvidoso, que suas práticas comerciais podem ser ruins e nocivas —, mas nada disso obscurece o fato de que Nizan foi um dos grandes redatores publicitários da história. Escrevo isso mesmo lembrando que a campanha para a Caixa Econômica que o colocou no cenário publicitário nacional, no início dos anos 80, guardava uma semelhança estarrecedora com uma campanha da Propeg baiana para a Casaforte, caderneta de poupança do Banco Econômico, veiculada alguns anos antes.

Essa é uma geração filha de Washington Olivetto. Foi ele quem inaugurou o que o Edson, um ótimo redator carioca, chama de Era de Narciso: uma época em que publicitários passaram a ter tanta exposição — às vezes mais — quanto o seu trabalho e os resultados que geravam para seus clientes. É uma geração que inclui, além do Nizan e do Fabio, o Eduardo Fischer, o Marcelo Serpa e vários outros.
Para essa geração, a criatividade é o verdadeiro diferencial de uma agência de publicidade. Isso não está de todo errado, e a defesa da criatividade sempre foi correta e necessária, até o ponto em que não podia mais ser distinguida da valorização do passe dos profissionais.

Na leitura da carta, pode-se considerar o Fabio Fernandes como um paladino desse tipo de visão, mesmo nos seus extremos negativos:

Na publicidade (…) há bundões prontos a gastar mais para contratar uma meia dúzia de artistas famosos, cantando um jingle com uma logomarca formada por funcionários da empresa, do que se “arriscarem” a criar um posicionamento de verdade, uma linguagem proprietária, um estilo único e próprio.

Esse discurso até meio corporativo é vazio, no fundo. Não apenas reflete uma certa arrogância típica de criadores publicitários, que julgam sempre saber o que é melhor para uma empresa, mais até do que aqueles que a comandam efetivamente, que pisam o chão de fábrica e acompanham o dia a dia do caixa; a questão é que eventualmente o posicionamento mais eficiente pode ser, exatamente, um artista famoso cantando um jingle com uma logomarca formada por funcionários da empresa. Estilo único e próprio só é realmente interessante se vender; se não, é absolutamente dispensável. A partir desse ponto sua defesa passa a ser questionável, porque o que entra em jogo não é mais o interesse do cliente, mas o dos profissionais e das agências, que têm como único capital a idéia original.

Repetindo um chavão antigo, que pode ser torcido para praticamente qualquer fim, propaganda criativa é a que vende o seu produto. O varejo sabe disso há muito tempo, com sua repetição constante de clichês e fórmulas testadas e comprovadas: vide Lojas Marabraz, Casas Bahia, Ponto Frio, Ricardo Eletro. Por isso, o que interessa a uma agência nem sempre é o que interessa ao cliente. A apologia absoluta da criatividade, quando em detrimento da adequação mercadológica, é um equívoco.

Essa abordagem pejorativa dos clientes que se negam a reconhecer o brilho e a maravilha da atividade criativa publicitária — e por isso são chamados pelo Fabio Fernandes de “bundões” e “cagões” — chega a ser incômoda. E irresponsável. Além de tudo, é fácil também. Se uma campanha aparentemente brilhante dá errado, é o anunciante quem vai sofrer as conseqüências. A agência vai ter outras peças maravilhosas em seu currículo para apresentar a novos prospects, ganhou um bom dinheiro e no máximo sofreu um revés momentâneo. É muito fácil apostar com o dinheiro dos outros.

Em nome dessa cultura de originalidade, crimes de marketing foram cometidos ao longo dos tempos. A Brahma saiu da Fischer e imediatamente perdeu o conceito de “A número 1”. Bastou a Kaiser abandonar a DPZ e, de repente, o baixinho foi aposentado. Nada disso fez bem àquelas marcas; mas garantiu louros temporários para diretores de marketing e donos de agência, que se mostraram capazes de criar algo novo. Mostraram que são criativos, que podem criar um “posicionamento”, ainda que momentâneo e ineficiente.

Está aqui o verdadeiro ponto que vale a pena ser discutido na carta do Fabio Fernandes. O discurso empalmado por ele tem mais a ver com a necessidade das agências (ou seja, da criação) do que com a dos anunciantes. Para citar um exemplo que apenas tangencia esse tipo de briga, em marketing político criatividade é importante — mas por criatividade entende-se muitas coisas mais, além de um bom texto ou uma grande idéia para um comercial. Criatividade, nesse caso, poderia ser até mesmo copiar um comercial ou uma fórmula que já deu certo, se isso fosse benéfico.

Ao menos nesse aspecto o Nizan parece estar à frente. O negócio publicitário está mudando muito além desta crise temporária, e isso às vezes é assustador. Aparentemente, ele percebeu isso e se posicionou diante de um novo mercado; também aparentemente, o Fabio mantém o mesmo discurso de antigamente. Não sei se é suficiente. Apenas como exemplo: hoje, tão importante quando uma boa idéia criativa é uma boa idéia de mídia — e não está longe o tempo em que planejamento de mídia vai ser mais importante que a criação em si. Propaganda está ficando mais cara para o anunciante e, sim, o elemento humano encontrável principalmente nas agências é cada vez mais importante. Mas — e é isso que assusta essa geração — esse elemento talvez não seja a criação com sacadas geniais.

Tauromaquia

Este é um blog, não um fotolog, como devem saber mesmo os mais desavisados.

Sem talento ou vocação para artes visuais, eu penso em termos de palavras, raramente de imagens. Esse tipo de raciocínio se reflete na pobreza de fotos e ilustrações neste espaço. Se uma imagem vale mais que mil palavras, é da filosofia do blog preferir duas mil palavras a uma única imagem.

Sou, por isso, uma das pessoas menos para falar de charges ou sugerir alguma coisa. Mas mesmo reconhecendo minha incapacidade nessa área, para mim turva e inalcançável, de formas, linhas e cores, estou impressionado por não ter visto ainda a charge que melhor definiria o momento de crise atual.

Um toureiro de frente para aquele touro que se transformou no símbolo de Wall Street, com o estoque levantado, apenas esperando o momento certo de enfiá-lo na nuca do pobre miúra e acabar com a sua miséria.