Essa gente diferenciada e suas religiões nada cordiais

Em política costuma-se dizer que evangélicos podem eleger bancadas fortes nos parlamentos, mas não conseguem chegar ao executivo; porque ainda são minoria, e porque na hora H o resto da sociedade — católica, atéia, xintoísta — se une contra eles. Marcelo Crivella deve ter algo a dizer sobre isso.

Lembro disso porque me incomoda ver alguém falando em “vida dura de ateus”, como neste texto da Eliane Brum republicado pelo Milton há alguns dias. Alguém — não lembro quem nem onde, infelizmente; mas um comentário do Matheus Lopes a esse post no Milton diz basicamente a mesma coisa, e este post do Gravataí Merengue deixa tudo mais claro — já disse que nunca viu um ateu ser perseguido ou espancado por ser ateu. Eu também não vi. Ateus não andam por aí com estrelas amarelas pregadas na roupa. Além disso, ateísmo é praticamente a outra religião da classe média brasileira, muitas vezes disfarçado sob agnosticismo.

Eu gostaria apenas que todas as mulheres que apanham de seus maridos e não podem fazer nada por causa de suas famílias, os negros que nascem pobres e estão condenados a morrerem pobres, e os homossexuais que apanham e morrem apenas porque algum enrustido tem medo do reflexo de si próprio que vê neles tivessem uma vida igualmente dura. Quem entrou na justiça contra o direito de alguém ser ateu, assim como entram contra as cotas, sociais ou raciais? Quantos ateus andam apanhando de uma hipotética Brigada São Tomás de Torquemada, como gays em todo o país estão apanhando?

Isso é mimimi de classe média que está desacostumada ao contraditório, ainda que medíocre, porque ficou fácil defender as idéias de sempre.

Esse, no entanto, não é o ponto principal. O que me impressionou de verdade no texto da Eliane Brum foi o quanto há de preconceito de classe nele. Porque o problema com os evangélicos não é propriamente religioso. É social. O crescimento dos evangélicos assusta em grande parte porque representa a ascensão das classes mais baixas, e cada vez mais o desconforto da antiga classe média é impressionante. Aquela gente feia e brega ocupando sua poltrona nos aviões, lotando os shoppings no dia posterior ao pagamento, causando com seus carros — ônibus não devia ser suficiente para eles? — congestionamentos cada vez maiores; tudo isso tem gerado na velha classe média uma sensação de desconforto e de insatisfação que muitas vezes parece não ter causa definida.

A impressão que o texto me deixou foi essa, a de que o neopentecostalismo incomoda mesmo porque é a religião pouco sofisticada de gente diferenciada, que agora resolve se sentir superior à classe média.

Afinal de contas, a vida naquele táxi foi dura por quê? Porque o sujeito tentou fazer proselitismo? Porque ele demonstrou ter uma certa “pena” por ela ser atéia? — a “superioridade” que ela percebeu em sua atitude a incomodou o bastante para ser notada no texto.

Ele não bateu na jornalista, não a xingou, não a obrigou a fazer nada. Riu. Discutiu, expôs suas idéias, por pobres que sejam. Pelo que li, também posso dizer que o taxista foi respeitoso. Tentou ser simpático e a convidou para se juntar a ele na tal Igreja. Grande parte do que a jornalista inferiu (“O taxista estava confuso. A passageira era ateia, mas parecia do bem. Era tranquila, doce e divertida”) exsuda um paternalismo e um senso de superioridade tão grandes (além do fato de que elogio em boca própria é sempre estranho) que é difícil não ver, nisso, o mais básico preconceito de classe. É quase como se o taxista, além de ser burro por ser evangélico, tivesse esquecido qual o seu lugar ao se achar melhor que uma atéia de classe média.

Crenças, quaisquer que sejam elas, fazem isso com as pessoas. Evangélicos no entanto não estão sozinhos nisso; ateus também costumam se sentir superiores aos pobres supersticiosos que ainda acreditam numa noção de sobrenatural criada na pré-história, assim como uma certa elite cultural se julga superior a quem gosta de Calypso — que por sua vez despreza essa elite que “não sabe se divertir”.

É aí que entra o viés de classe, talvez não percebido pela jornalista. Um preconceito que fica ainda mais claro quando ela fala na tolerância da Igreja Católica ao ateísmo.

Associar as igrejas evangélicas à intolerância enquanto livra a cara da ICAR só pode ser brincadeira. Primeiro, porque em vários campos as igrejas neopentecostais são mais tolerantes que a igreja do papa Bento — costumam ser mais liberais em termos de costumes, por exemplo, aceitando divórcios e uso de preservativos. Segundo, porque basta olhar para as últimas eleições para ver que essa tolerância católica (procure no YouTube por “Dilma e aborto) não tem absolutamente nada de proverbial.

Uma coisa deve ficar bem clara: ao contrário do que diz o texto, o catolicismo não mantém, nunca manteve relação de tolerância com o ateísmo; aliás, tudo o que essas igrejas neopentecostais fazem é copiar procedimentos de evangelização dos primeiros tempos do cristianismo. Quem mantém relação de tolerância são os católicos. Não porque são católicos, mas porque são de classe média, educados em um meio sociocultural naturalmente tolerante, a não ser quando se sente ameaçado pela classe C. Na verdade — e isso os ateus que reclamam de perseguição costumam esquecer — toleram o ateísmo muito mais do que toleram outras religiões associadas às classes mais baixas, como o candomblé e, agora, o protestantismo. Ateísmo é religião de rico, que pode pensar e chegar a conclusões racionais, e essas coisas de rico são vistas com bons olhos pela classe média.

A condescendência com a Igreja Católica, clara no texto, é um dos grandes sintomas desse preconceito de classe disfarçado. Ela não incomoda porque, afinal de contas, faz parte do status quo. Não importa o quanto combata o direito ao aborto, o uso de camisinha, não importa que faça campanha para candidatos de direita — ela é tolerante porque é a religião de uma classe média pouco religiosa, e por isso não representa mal nenhum; afinal, essa classe média pode fazer aborto quando quiser.

Em vez de se alarmar com a “inevitável” destruição do brazilian way of life por essa horda de pobres evangélicos e evangelizadores, essa classe média iluminada devia se perguntar por que, afinal, as igrejas neopentecostais têm crescido tanto. Que respostas elas oferecem ao povo. O fato é que essas igrejas melhoram de verdade a vida dos seus fiéis. Não por causa de uma eventual noção de Deus, mas por causa do apoio de grupo que podem dar em um tempo de desagregação social. Talvez elas devolvam ao indivíduo um senso de propósito e senso de tribo, algo cada vez mais raro na sociedade da informação. Não sei. O que sei é que como antes se reclamava dos pretos macumbeiros, dos ebós no meio das encruzilhadas, e como os franceses hoje reclamam dos muçulmanos com suas burcas e véus, a classe média brasileira se apavora com o crescimento dessa religião de gente diferenciada.

***

Se em vez de ateísmo o tema em questão fosse tabagismo, por exemplo, o diálogo seria bem parecido:

– Esse cigarro no seu bolso… Você fuma?
– Fumo.
– Deus me livre! Para de fumar.
– Não, eu não quero. Eu gosto de fumar.
– Deus me livre!
– Engraçado isso. Eu respeito a sua escolha, mas você não respeita a minha.
– (riso nervoso).
– Eu sou uma pessoa decente, honesta, trato as pessoas com respeito, trabalho duro e tento fazer a minha parte para o mundo ser um lugar melhor. Por que eu seria pior por gostar de fumar?
– Porque cigarro mata.
– E daí?
– A gente precisa viver com qualidade de vida. Se você não parar de fumar, não vai ter qualidade de vida.
– Mas eu não quero isso, eu quero fumar.
– Deus me livre!
– Eu não acredito nisso de qualidade de vida, porque qualidade de vida significa ficar contente como fico ao acender um cigarro. Acredito em viver cada dia da melhor forma possível.
– Acho que você é maratonista.
– Não, já disse a você. Sou fumante.
– É que o câncer não te pegou ainda. Mas ele vai pegar.
– Olha, sinceramente, acho difícil que o câncer vá me pegar. É mais fácil o enfisema. Mas sabe o que acho curioso? Que eu não queira fazer você fumar, mas você queira acabar com o meu direito de fumar. Não acho que você seja pior do que eu por ser anti-tabagista, mas você parece achar que é melhor do que eu porque não fuma. Não era Jesus que pregava a tolerância?
– É, talvez seja melhor a gente mudar de assunto…

Milhares de fumantes em todo o país ouvem isso todos os dias. Nem por isso saem por aí dizendo que “o anti-tabagismo está destruindo a cordialidade brasileira”.

Thor Heyerdahl

A revista Náutica de setembro passado trouxe uma matéria sobre Thor Heyerdahl e sua famosa expedição Kon Tiki. A revista dá a entender que a teoria que Heyerdahl defendia era válida e provável. Aí lembrei de uma National Geographic antiga, de janeiro de 1971, que traz na capa um relato da viagem do Ra II, também construiído por Heyerdahl.

A viagem do Ra II foi feita para que Heyerdahl tentasse provar uma das teorias curiosas que costumava elaborar: como egípcios e mesoamericanos construíram pirâmides, deveria ter havido algum contato entre eles antes da descoberta da América por Colombo. Para provar essa teoria Heyerdahl construiu um barco de junco e viajou até a América. A primeira não deu certo e ele afundou a 600 milhas náuticas de Barbados. Construiu um novo barco, o Ra II, e aos trancos e barrancos conseguiu chegar à ilha, com o barco fazendo água e meio submerso.

Com isso, Heyerdahl mostrou que a sua teoria era possível.

Mas ele já era famoso muito antes disso. No final dos anos 40, tentou provar que a Polinésia foi povoada pelos sul-americanos. Partiu do princípio de que ventos e correntes marítimas favoráveis, no sentido leste-oeste, tornavam a sua teoria mais plausível do que a ideia normalmente aceita, de que as ilhas do Pacífico Sul — a última região do globo povoada pelo homem, há coisa de pouco mais de mil anos — foram povoadas no sentido oeste-leste. Apontou uma série de indícios linguísticos para embasar sua teoria. Precisava provar também que era possível à tecnologia dos nativos incas da época navegar em direção ao oeste através do maior oceano do mundo. Com a expedição Kon-Tiki, construiu uma balsa para provar sua teoria. Depois de pouco mais de 3 meses no mar acabou dando nas ilhas Tuamotu.

Assim como provaria mais tarde com o Ra II, ele mostrou que era possível, disso não há dúvida. O problema é que nem tudo que é possível é provável. Heyerdahl esqueceu do óbvio: toda a história da exploração por mar se dá no contravento, ou na certeza de sua existência. Não há outra maneira possível.

A explicação é muito simples: velejar contra o vento — especialmente antes da invenção da vela latina, aquela triangular — era a única garantia que qualquer explorador tinha de que conseguiria voltar, caso sua busca não desse em nada. A viagem mais difícil seria a de ida; e quando a comida e água começassem a terminar, era só dar meia-volta que chegariam rapidamente em casa, dentro de um período de tempo facilmente demarcável — e muito menor que a viagem de ida.

Resumindo, um explorador só saía mar afora tendo a certeza da volta.

Colombo só velejou rumo à América, achando que ia encontrar a China, porque já conhecia o regime de ventos do Atlântico Norte, com ventos de leste à altura das Canárias e de oeste um pouco mais acima. Cabral só chegou ao Brasil porque tentava refinar a descoberta de Vasco da Gama de que, afastando-se da costa da África, havia a garantia de ventos melhores — ele apenas afastou-se demais. Os vikings e os irlandeses só chegaram à Islândia, à Groenlândia e à Terra Nova porque conheciam os ventos e a geografia da região e sabiam quais seriam as condições de volta. Um dos tantos motivos que impediram que os chineses, muito mais avançados em navegação do que os europeus até o século XVI, chegassem à América foi a dependência confortável do regime de monções do Índico, que garantiam vento de popa na ida e na volta em um espaço perfeitamente delimitado e que lhes trazia lucros suficientes no comércio.

Nenhum navegador, por melhor que fosse, sairia Pacífico afora a favor do vento, porque isso seria garantia de morte certa. Esse era o principal elemento lógico que tornava a teoria de Heyerdahl fantasiosa. Se a matemática favorecia os sul-americanos, já que a ilha de Páscoa é mais próxima do continente, esses outros fatores se revelavam muito mais importantes.

Ou seja: era possível chegar à ilha de Páscoa com a tecnologia disponível na época. O problema era ter a vontade e a falta de juízo para fazer isso. Heyerdahl só fez essa viagem porque sabia que havia terra a oeste. Difícil seria fazer uma bobagem dessas sem saber absolutamente nada além da certeza de que seria extremamente difícil voltar.

Essa é a principal razão pela qual americanos em geral não tinham absolutamente nenhuma tradição de navegação. A terra e a navegação costeira lhes oferecia tudo de que precisavam; e o regime de ventos e correntes marítimas como a do Brasil não incentivavam muito esse tipo de exploração. Era exatamente o contrário do que acontecia com os polinésios, com pouca terra, condições favoráveis e a mais fantástica habilidade marinheira de toda a história da humanidade.

Foi contra isso que Heyerdahl se “insurgiu”. Quando se defende a sua teoria boba, a única razão é o que parece ser uma certa arrogância europeia, ainda que extremamente sutil. Parece ser um raciocínio curioso: como é o que os incas, maias e astecas chegaram a civilizações tão imponentes e não se aventuraram no mar? É mais ou menos como se perguntar por que portugueses e espanhóis esperaram até o século XV para atender ao que parecia ser a sua vocação natural, e transformaram a Europa de um continente vagabundo e atrasado na civilização que dominaria o mundo nos séculos seguintes. Heyerdahl parecia acreditar que grandes civilizações como a europeia necessariamente dariam grandes exploradores. A tese de Heyerdahl era burra e arrogante — a começar pela idéia de que a Europa era “grande” naquele momento, o que não condiz com o desprezo com os orientais receberam um Vasco da Gama andrajoso, sujo e mendicante –, e é impressionante como ainda hoje tantas pessoas, provavelmente entusiasmadas com a aventura em si do Kon Tiki, digna de todos os elogios possíveis, celebram essa teoria.

A página em português da Wikipedia, de uma mediocridade assombrosa, não contesta a tese de Heyerdahl. A versão em inglês é mais completa; lembra que a comunidade científica nunca levou a teoria do norueguês muito a sério, e que pesquisas de DNA recentes provaram que a teoria de Heyerdahl é só uma grande bobagem bonitinha.

O triste é precisar de exames tecnologicamente sofisticados para provar que uma bobagem é só uma bobagem.

A vingança dos clones

E-mail recebido de repente, não mais que de repente:

A. Gusmão
to rafael.galvao, me

Boa tarde Rafael.
Favor fazer o depósito referente a 23/12/2010 no valor de R$ 950,00.
Banco itau
Ag.: XXXX (fica em Copacabana)
Cc.: XXXXX

Até onde sei não tenho nada alugado no Rio, e tampouco conheço algum Gusmão. Isso, no entanto, obviamente não podia ser empecilho para uma resposta adequada e respeitosa, porque credores merecem sempre alguma explicação. Pelo menos os dos outros, porque aos meus já estou acostumado e não ligo mais.

Caro A.,

Infelizmente, não posso pagar agora.

Para não parecer que deixo de pagar por má vontade, coisa que minha saudosa mãe ensinou a nunca fazer, deixo abaixo uma rápida explicação das tribulações por que tenho passado nos últimos meses.

Minha mãe faleceu e minha mulher decidiu se separar de mim, levando consigo muitos dos bens que amealhamos juntos. A esta altura, ela está se divertindo com o meu melhor amigo, ou melhor, ex-amigo. O mesmo para o qual emprestei uma soma considerável há alguns meses, e que, se não me pagou até agora, dificilmente pagará.

Além disso, estou de aviso prévio no emprego; meu hábito de beber incomodou a um dos chefes, que tem me perseguido desde que entrou na empresa. Como medida de precaução, subloquei um quarto para uma amiga que, desde que a Help fechou, também tem passado por sérias dificuldades. Os vizinhos têm estranhado o constante entra e sai de homens do meu apartamento — já que, como o senhor sabe, eu sempre fui um homem caseiro —, mas essa medida me ajudará a pagar o aluguel eventualmente.

Por tudo isso, peço a sua compreensão no sentido de me dar um prazo para regularizar minha dívida.

Obrigado.

Eu até começo a aceitar que tenha clones poetas, carnavalescos e quetais mundo afora. Mas caloteiro, não. Aí já é sacanagem.

***

Mas não terminou por aí: Nova carta para seu Gusmão.

Sobre o debate de ontem

O debate de ontem entre os candidatos à presidência me incomodou. E não foi apenas a dificuldade pessoal de Dilma em elaborar um discurso persuasivo, sedutor, chegando ao ponto de parecer menos simpática que, último entre todos, Serra.

A ênfase excessiva na privatização como está sendo feita, a não ser que as pesquisas me digam que estou errado, me parece um erro. 2010 não é 2006. Talvez a demonização de Serra como privatista, de maneira genérica, não seja tão eficiente hoje quanto a perspectiva de que tudo aquilo que os brasileiros conquistaram no governo Lula seja perdido com o modo de Serra governar.

(Um comercial de Serra veiculado naquele momento faz ataques pessoais a Dilma, colocando em dúvida a sua capacidade de gerenciar crises. Certamente é um comercial mais eficiente, mesmo mentindo, mesmo apelando para a baixaria, do que comerciais conceituais condenando a privatização.)

Por exemplo, Dilma precisa aproveitar as oportunidades que aparecerem para lembrar que “eles” passaram oito anos dizendo que o Bolsa Família não prestava, que era bolsa-esmola. Eles nunca entenderam o que o Bolsa Família representa para quem agora sabe que no dia certo vai ter o dinheiro para comprar pão e leite para seus filhos. Ela precisa olhar para a câmera e falar para cada brasileiro: “Você lembra: eles diziam que o Bolsa Família era salário para vagabundo, para gente que não queria trabalhar. Agora, só para se eleger, dizem que vão até criar o décimo-terceiro do Bolsa Família. Será que eles acham que alguém acredita nisso?”

Além disso, Dilma parece ter uma tendência a ficar no varejo das coisas. Tem domínio dos números; mas números são importantes, mesmo, quando fornecem a base para a construção de um sistema de valores que represente a importância do governo de que ela foi parte fundamental.

Ela acaba se comportando mais como a excelente administradora que é, a mulher que pode fazer o Brasil continuar a crescer, do que uma candidata a um cargo político eleitoral. Esquece de contextualizar o que representa o governo Lula, esquece de trabalhar valores como a satisfação dos brasileiros com as suas vidas e a esperança no futuro para ficar em dados burocráticos. Pelo menos nesse debate, faltou a ela a capacidade retórica de construir um raciocínio político que extrapolasse os dados puros e deixasse claro que ela é a única pessoa que pode dar continuidade a um governo que é muito mais do que as obras que realizou. Dilma não está conseguindo captar e comunicar os valores do governo Lula.

Quando Serra insistiu nos recursos do FAT, dizendo que havia emprego de sobra e trabalhador qualificado de menos, ela primeiro deveria aproveitar e lembrar que isso é um grande exemplo do crescimento do país durante o governo Lula; no tempo do governo dele e de FHC era diferente, faltava emprego, o Brasil não crescia, como cresce hoje a 7,5% ao ano. E então ela engatava a segunda e explicava o que significa o número de escolas técnicas construídas. Mostrava que o governo ampliou o acesso ao ensino profissionalizante, explicava a filosofia por trás disso. Deveria mostrar que, mesmo mantendo a qualificação dos trabalhadores, o Governo Lula está oferecendo chances aos jovens que nunca foram oferecidas.

Quando Serra mencionou estradas — embora eu tenha a impressão de que ali havia uma pegadinha, que não sei qual é — ela deveria ter lembrado, antes de mais nada, a herança maldita. Deveria lembrar que ela e Lula — não ela, não Lula: ela e Lula –, ao chegar ao governo, encontraram as estradas destruídas por FHC. Devia falar diretamente ao telespectador: você lembra como era, sabe como era difícil. Serra e Alckmin resolveram isso privatizando estradas, vendendo o patrimônio do povo paulista, e criando pedágios e mais pedágios nas rodovias de São Paulo; é assim que eles fazem o cidadão pagar por um serviço que deveria ser público, e hoje um cidadão tem que pagar sei lá quantos reais — eu não sei o valor; ela tem obrigação de saber — para ir do Rio a São Paulo. Agora, para você ver a diferença entre o nosso governo e o deles: nós também encontramos as rodovias abandonadas no Sul, no Nordeste. Mas em vez de privatizar, nós investimos na recuperação e ampliação das estradas em todo o país. Neste exato momento, enquanto o Serra cobra pedágio, nós estamos duplicando rodovias em Sergipe, em X, em Y. Ao todo, investimos três vezes mais do que o Governo de Serra e FHC. É claro que não pudemos fazer tudo o que era necessário. Ainda falta fazer muito, é claro — segue lista de obras principais, incluindo as do Mato Grosso. E termina: é isso que está em jogo agora. O eleitor vai decidir entre dois modos bem diferentes de governar: se quer as estradas pelas quais passam todos os dias privatizadas, cobrando pedágios absurdos e extorsivos, ou vai eleger um governo que investe o dinheiro público em obras importantes para o futuro e para mais brasileiros.

Dilma domina os números. Mas precisa dominar, acima de tudo, os conceitos. A discussão sobre números interessa a Serra, porque é ele quem precisa desconstruir a obra do governo Lula; Dilma não precisa reafirmá-la de maneira absoluta até porque os 80% de aprovação popular do governo Lula não se devem aos seus belos olhos. Em vez disso, ela precisa retomar o seu significado. Dilma precisa, acima de tudo, evocar a mágica de uma obra sem precedentes na história deste país.

Dilma e o aborto

Dilma caiu na armadilha do aborto e Serra ganhou uma batalha importante. É uma armadilha muito semelhante à que Alckmin caiu em 2006; a diferença é que daquela vez era a privatização.

Já tinha caído antes, na verdade.

Mas na tal “Mensagem da Dilma” sobre o tema, veiculada hoje, ela assumiu uma posição clara, e disse que é “pessoalmente contra o aborto” e defende “a manutenção da legislação atual sobre o assunto”.

O que Dilma deveria dizer é que aborto é uma questão a ser resolvida pelo Legislativo, e se eximir de uma responsabilidade que, afinal, não é sua.

Deveria lembrar a sua própria história e mostrar o que significou, para uma mulher perseguida por uma ditadura sanguinária, ter coragem de gerar uma filha e lutar por ela. O que significou trabalhar para sustentá-la, acompanhar o seu crescimento, estar ao seu lado quando ela estava triste e quando ela estava alegre. Mostrar o orgulho que ela tem pela pessoa que formou.

Dilma deveria mostrar a alegria que sentiu ao pegar, pela primeira vez, o neto recém-nascido em seus braços. Mostrar o valor da família não em declarações que parecem saídas de alguém acuado, mas em seu próprio sentimento e humanidade. A história de Dilma é suficiente para revelar ao Brasil o seu valor como pessoa e como mulher — porque não são mais valores políticos que estão em pauta, mas valores pessoais. E deveria fazer isso de maneira psoitiva, não defensiva.

Maluf fez isso em um comercial antológico. Depois de uma frase infeliz sobre estupro — o famoso “estupra, mas não mata” –, ele reuniu toda a família e deixou claro que não era a favor daquilo. Mostrou que era a favor da família, que valorizava aquilo que tinha — e como um homem que amava tanto a sua família, com tantas mulheres em casa que obviamente amava, poderia ser a favor de algo hediondo como o estupro?

Já vi gente dizendo que não quer vencer a eleição a qualquer preço, e não abre mão de princípios e quetais. Esse é o discurso mais acomodado, mais esnobe que eu conheço. Essa história cai bem em mesa de bar, quando um monte de gente fica dando a explicação que bem entender sobre as razões do sucesso ou do fracasso de uma campanha.

Porque eu quero. Custe o que custar. Com os votos de quem for necessário. Para mim, voto não tem cheiro, não tem cor, não tem sequer ideologia. Voto é voto, e ponto final. O voto de um evangélico tem exatamente o mesmo peso do de um ateu — e Dilma será a presidente de todos, não de um só segmento social. Além disso, tenho como certo uma coisa simples: campanha é uma coisa, governo é outra. A discussão sobre o que deve ser o governo do ponto de vista de uma blogosfera progressista que defende o direito ao aborto, descriminalização da maconha ou coisa do tipo — plataformas que numa campanha eleitoral beiram a imbecilidade e só servem para afastar eleitores — deve ser iniciada no dia 1o de novembro; mas até lá o que importa é fazer o possível e o necessário para ganhar a eleição.

Sob esse aspecto, a campanha de Serra está mais acertada. É um candidato mentiroso, falso, baixo — mas ele faz o discurso que deve ser feito.

Dilma não está fazendo isso. Sua campanha está errada. Se fizeram um primeiro programa eleitoral que para mim — que já vi e fiz mais programas eleitorais que a imensa maioria dos mortais — é o melhor da história, de repente eles resolveram, em pleno segundo turno, privilegiar a informação e a comparação de governos, investindo em um discurso excessivamente racional. Esses são dados que devem sempre estar presentes, claro, mas a esta altura é preciso mais que isso. Não é mais questão de levantar razões para votar ou não na Dilma. Depois de dois meses de campanha na TV e no rádio, as pessoas já sabem o que o governo Lula fez e que Dilma é a candidata de Lula. O que se discute agora é quem é o melhor para sucedê-lo; e essa não será uma escolha feita de modo racional. Comparar governos talvez não seja a estratégia mais eficaz. Ou investir num conceito como o Serra Mil Caras — que sinceramente me parece inócuo.

O que Dilma deve recuperar é a emoção que esteve presente, de maneira magistral e insuperável, no primeiro programa. É a presença de Lula ao seu lado, lhe emprestando o carisma que ela, definitivamente, não tem. E a mensagem deve ser de paz e amor — a mensagem que Lulinha, ainda longe de ser o herói nacional que é hoje, passou em 2002. Dilma deve mostrar que é a garantia de que as pessoas vão continuar cada vez mais felizes, porque comem, porque vão à universidade, porque podem trabalhar, porque vão saber que Lula, através dela, continua olhando por eles.

Não é só a economia, estúpido. É também a emoção.

Enquanto isso, a militância poderia fazer algo que o NPTO está fazendo.

Se o primeiro turno deixou alguma lição, foi a de que as notícias sobre a morte da mídia foram muito exageradas. Foi a sua atuação que conseguiu valorizar Marina Silva (que merece um post e um mea culpa meus) e forçar um segundo turno que parecia remoto quinze dias antes. Não será no Twitter, no Facebook ou nos blogs que a eleição será ganha. É na rua. Se cada eleitor de Dilma se dedicar a conseguir pelo menos um voto nesses quinze dias que restam, nós ganhamos fácil a eleição.

Enquanto isso, para o Helio Jesuíno que veio cobrar post aqui, eu repito o que disse antes: minha guerra ganhei no primeiro turno. E agora com licença que eu vou ali escrever um panfleto para Déda e Dilma, que vai ser lido, ou pelo menos visto, por muito mais gente que os leitores deste blog, que obviamente volta à hibernação.

Lembranças de Dilma Rousseff

Durante uns dois anos, este blog foi invadido por bobos de direita que insistiam que o PSDB/DEM voltaria ao poder em 2010. Gente que olhava de cima para a candidata escolhida pelo presidente que odiavam, uma tal de Dilma Rousseff.

Abaixo seguem trechos de três posts distintos publicados aqui, mais de um ano atrás.

E um recado a todo aqueles que, com mais ou menos inteligência, tentaram contradizer o que já devia estar claro como o dia:

Vocês são uns idiotas.

22/01/2009 – A grande esperança da oposição, até agora, tinha sido a aposta na ausência de um candidato forte para suceder Lula. Finalmente reconhecendo que, mais que um político ou estadista, Lula é um dos maiores heróis nacionais na história, costumava ver como vantagem a idéia de que tinha candidatos mas não tinha programa, enquanto o governo tinha programa mas não tinha candidatos. (A propósito, este blog sempre achou que é mais fácil arranjar um candidato do que desenvolver um programa.)

(…) ao final das eleições de 2008, analistas políticos se apressaram em afirmar que o tão temido poder de transferência de votos de Lula era muito menor que o imaginado, já que o governo perdeu as eleições em várias capitais.

Mas uma eleição municipal não é a mesma coisa que uma eleição presidencial em termos de capacidade de transferência de votos do presidente em exercício. Cada dia mais atento, o eleitor brasileiro sabe diferenciar essas esferas. Uma eleição municipal é basicamente dominada por temas e interesses locais. Uma eleição presidencial tem forçosamente como referencial o atual mandatário e a avaliação que se faz do seu governo.

É por isso que na eleição presidencial de 2010 nós teremos Lula dizendo ao povo brasileiro: “A Dilma sou eu na presidência”. E por Lula na presidência entenda-se o cada vez mais forte e eficiente sistema de distribuição de renda simbolizado pelo Bolsa Família. A condução firme da política econômica. Uma posição internacional cada vez mais visível, sólida e influente. O Brasil que Lula vai deixar em 2011 é um país melhor do que aquele que o elegeu. Seus índices de popularidade alarmantes — para a oposição, ao menos — são o melhor exemplo disso. Em 2010, o que se terá será a disputa entre o modo de governo capitaneado por Lula e as alternativas pouco simpáticas às classes mais baixas representadas pelo PSDB e pelo PFL.

(…) Dilma Rousseff se consolidou de maneira surpreendente. Tem cada vez mais pontos positivos a seu favor, e se firma a cada dia como uma boa receptora dos votos do presidente Lula. Como possível candidata, vai se mostrando um nome ao mesmo tempo leve e sólido, sem as resistências que, por exemplo, um Ciro Gomes encontraria.

Dilma é uma mulher, o que por si só já representa um sopro importante de renovação. É uma política com ampla experiência administrativa e comprovadamente competente. Atravessou incólume o escândalo do mensalão, e não paira nenhuma suspeita sobre sua honestidade — mesmo no comando de um orçamento gigantesco, como o do PAC. Ou seja, a cada dia se consolida mais como o nome ideal para substituir o governo mais bem-sucedido da história democrática do país. É infensa até ao mais idiota dos argumentos contra Lula: ela tem mestrado em economia.

07/06/2009 – Em 2010, assim como em 2006, não vão adiantar factóides. Será preciso, ainda que isso a aterrorize, que a oposição apresente um programa de governo real e palpável. É algo que a sociedade vai cobrar dela. Ao contrário do que os saudosos do Plano Real possam imaginar, as eleições de 2010 não serão iguais às de 1994. O PSDB não vai estar na situação; e o povo não vai estar desesperado correndo de uma inflação de três dígitos. O país que a oposição vai enfrentar no ano que vem estará mais estruturado e mais bem encaminhado.

Resumindo: a oposição vai ter a inglória tarefa de apresentar conserto para um país que dá certo.

(..)

Qual é o projeto de Serra?

É preciso que a oposição faça a si mesma algumas perguntas. A primeira delas é: o que José Serra vai fazer de melhor como presidente? Sem cair na estupidez de dizer que este é um país que não funciona — porque, pela primeira vez em décadas, as pessoas finalmente sentem que ele melhora a cada dia –, o que Serra tem a apresentar que seja melhor do que Lula vem fazendo?

Quais as suas propostas para melhorar a distribuição de renda no país? Como ele fará com que o Brasil seja mais respeitado no exterior? O que ele pretende fazer para, sem passar por cima do jogo democrático e da separação de poderes, aumentar o nível de governabilidade do país?

Algumas armadilhas vão aparecer no seu caminho. Como justificar que, depois de oito anos dizendo que o Bolsa Família não presta, eles vão à TV e ao rádio dizer que não pretendem acabar com o programa? (Na verdade, eles já estão correndo atrás do prejuízo. Há cerca de duas semanas, o DEM e o PSDB de Sergipe realizaram um mini-seminário de um dia, com a presença do deputado federal carioca Rodrigo Maia, sobre Bolsa-Família. No que é um passo acertado, e uma correção de rumo há muito devida, a oposição resolveu deixar de lado a sua resistência irracional e aprender como é que se faz.)

Essas não são as únicas questões que vão aparecer diante da oposição. Eles vão precisar responder outras perguntas mais simples e que dão direito a menos tergiversações. Por exemplo: o que, no mandato de José Serra como governador de São Paulo, dá àqueles que o apóiam a convicção de que ele será melhor presidente do que Dilma? Com exceção de obras superfaturadas, crateras de metrô e livros didáticos heterodoxos, o que o governador de São Paulo vai poder apresentar como credenciais para que o povo brasileiro volte as costas ao projeto de Lula e vote nele?

Até agora, a neo-UDN tem apenas gritado e reclamado. Nesses oito anos, sua maneira de fazer oposição tem se mostrado aética e, definitivamente, nem um pouco republicana. Isso pode ser creditado ao seu desconforto nessa posição, em última análise. Mas isso são águas passadas. Do que se vai falar agora é de futuro. É de concepção de país. Pode ser uma perspectiva assustadora; mas é inevitável.

Está na hora de a oposição tirar a cabeça do buraco de onde grita “Está tudo errado!” e tentar mostrar às pessoas, afinal de contas, por que votar em Serra.

23/07/2009 – Qualquer tucano sabe que, ao escolher Dilma Rousseff como sua candidata à presidência, Lula fez uma escolha magistral. Dilma é uma mulher com qualidades “masculinas”, provavelmente o melhor meio-termo possível em política: pode representar uma mistura de renovação com segurança. Uma mulher forte, de história invejável e competência administrativa reconhecida. Uma mulher identificada, acima de tudo, com o governo Lula, muito mais do que outras personalidades petistas, que sempre tiveram carreiras paralelas à do presidente — e aqui se pode citar um Aloísio Mercadante ou uma Marta Suplicy. Dilma atravessou incólume a crise do mensalão, e está à frente de um dos mais importantes projetos de infra-estrutura do país, o PAC. Assustados, tucanos apontam pesquisas que indicam Serra na frente — mas mesmo eles sabem que isso, a esta altura, não significa nada, significa apenas que ela está crescendo, o que é um cenário ainda pior do que o que eles gostariam.

O PSDB sabe que quando Lula aparecer na TV e no rádio, colocar a mão no ombro de Dilma e disser “Dilma sou eu na presidência, mas ainda melhor”, milhões de brasileiros decidirão imediatamente os seus votos.

O que eles ainda não conseguiram entender com clareza é a razão disso.

Vale a pena ver de novo

Funcionava assim: chegava o meio do ano e eu republicava o que achava serem os melhores posts antigos.

Isso na em tempos idos, em que tinha post todo dia neste blog zumbi.

Agora chegou o momento de fazer a minha parte para enterrar de vez o que o meu Estado tem de pior. É a hora de reeleger Déda governador — e de quebra dar uma mãozinha indireta à minha futura presidente.

Dessa vez eu vou aproveitar para, com a republicação desses posts antigos, dar um pouquinho de vida a um blog que sofre com a minha falta de tempo crônica.

Vai ter post dia sim, dia não pelos próximos meses, coisa que não acontece neste blog já há um bom tempo. Alguns deles, acredite, são bonzinhos. São antigos, é verdade, mas como dizia o poeta panela velha é que faz panela boa — e eu sou um velhinho que prefere um bom post velho do que um mau post novo.

Conselho para o jornal Olé

Na edição passada vocês recomendaram ao torcedores brasileiros que, diante da derrota do Brasil para a Holanda, a gente comprasse uma TV de LCD para poder ver o resto da Copa.

Devolvo agora o conselho. Mas comprem um maior, para poder enxergar o placar.