O tubarão cabeça-chata é comum em todo o Brasil, em especial na costa nordestina, e mais especificamente no Ceará. Mede até 3 metros e meio e sua dieta é composta principalmente de surfistas pernambucanos. É considerada uma espécie alegre e amigável, e tem mania de contar piadas. Se ameaçado, costuma reagir com um “arre égua, macho!”.
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Sobre esse pessoal que só gosta de matinho
Eu não gosto de militantes vegetarianos. Me dão preguiça, sempre deram. Mas de uns tempos para cá começam a incomodar.
A minha preguiça era principalmente estética, e obviamente não se aplica apenas aos militantes. Eu realmente não consigo compreender o que leva uma pessoa em sã consciência a abjurar o sabor do sangue que escorre de uma picanha mal passada, ou aquele fenômeno da natureza comparável à aurora boreal: aquilo que chamam de marmorização da carne de vitela. O bichinho, coitado, vai morrer de qualquer jeito, mais cedo ou mais tarde; que seja para vir parar na minha barriga. Eu sinceramente acho a vida dos vegetarianos mais pobre, e tenho pena deles por isso. É como se faltasse algo — uma costela, por exemplo. Vegetarianismo, para mim, não é consciência: é deformação de caráter.
Mas os militantes, aqueles que fazem de sua vida uma pregação constante, estão passando a me irritar. Talvez porque adquiriram mais e mais visibilidade; talvez porque, como acontece com virtualmente todo movimento, à medida que esse negócio de comer só mato vai se espalhando como metástase e tendo suas ideias mais aceitas, vai desenvolvendo também um certo tipo de proselitismo fundamentalista, uma certeza puritana de que só eles estão certos e que é dever sagrado de cada um levar a Boa Nova aos gentios, salvar o mundo dos meus pecados.
É basicamente a mesma certeza bovina de evangélicos e antitabagistas, sonhando com um mundo chato, sem sabor. A diferença está na aceitação e, principalmente, na composição social. Porque eu, pelo menos, não conheço vegetariano pobre: são sempre de classe média ou ricos. Não é à toa que esse negócio é mais forte na Europa, especialmente na sede do antigo Império Britânico. Vegetarianismo e suas variações são perversões de sociedade rica e autocomplacente, que acha que alimentos nascem em sacos de papel alumínio e que supermercados são chocadeiras de ovos orgânicos. Pobre — e aqui incluo a nova classe C — não pode se dar a esse luxo; precisa antes passar ao nível de comer aquilo que os vegetarianos, de barriga cheia, desprezam. Imagine o sujeito que mora no sertão do Piauí se dando ao desfrute de dispensar um bife de alcatra. Seria linchado pelos seus conterrâneos, e com razão.
Essas coisas — e as roupas feitas de fibras naturais, cultivadas no estilo príncipe Charles, em que se fala carinhosa e às vezes até libidinosamente com as plantas — são coisas de rico porque, se não fosse tudo isso a que esse pessoal hoje pode se dar ao luxo de virar as costas, a galinha de granja, a soja transgênica, mesmo os agrotóxicos que possibilitaram os aumentos constantes de safras e de áreas cultivadas, ao mesmo tempo em que barateavam os preços, a profecia de Malthus se teria cumprido já há algum tempo.
Que Deus abençoe as granjas e os frangos criados nelas. Antes delas, o Barão de Itararé dizia que quando pobre comia frango, um dos dois estava doente. Ou seja: foi esse frango criado em condições aparentemente desumanas, repleto de hormônios para que possa ser abatido o quanto antes, que possibilitou a inversão desse estado deletério das coisas. Sem isso, sem esse ganho de escala, frango continuaria sendo iguaria para poucos.
Talvez seja verdade o que dizem, que esses frangos fazem mal à saúde em longo prazo. Mas, se fazem, eu sou capaz de apostar que os pobres que hoje comem seu franguinho ensopado vão morrer mais felizes daqui a uns 30 anos do que aqueles que só tinham farinha e, eventualmente, jabá de jumento para comer e morreriam depois de amanhã.
Os militantes europeus que protestavam contra a soja transgênica no Brasil (num momento em que virtualmente todos os grandes produtores brasileiros já tinham aderido a ela, a propósito, e o processo já era irreversível) não ligam em subsidiar a sua agricultura cara e ineficiente em detrimento da agricultura dos países do terceiro mundo. São aqueles que podem dar mais de 25 euros num quilo de filé mignon (é o Allan quem me faz o favor de informar, e a ele sou eternamente grato; também me diz que a carne italiana não tem lá muito gosto, e minha admiração pela bota diminui um pouquinho). São os pobres coitados que, com paladar embotado e sustentados pela certeza messiânica de estarem sendo superiores à humanidade animalesca, já não sabem a diferença entre acém e filé mignon.
Dentre as perversões desse pessoal, uma em especial é curiosa: uma tendência tatibitate ao antropomorfismo, agregando emoções e qualidades humanas a animais, e tentando nos fazer crer que somos todos iguais, nós e os bichinhos. Vi há algum tempo uma dessas imagens de Facebook em que havia dois gráficos: uma com um desenho de um homem acima dos outros animais, outra com o homem no mesmo nível e uma pergunta, algo tipo “Dá para entender agora”?
É essa arrogância que é irritante (a única arrogância que toleramos é a nossa, afinal). Porque não é que a gente não entenda a maneira como eles pensam. A gente entende. Só que acha uma grande imbecilidade. É muito triste ter que dizer a um adulto que não, nós não somos iguais aos outros animais desde o momento em que amarramos uma lasca de sílex a um pedaço de pau, e passamos a transformar o mundo em que vivemos, em vez de apenas nos adaptarmos. Não é só uma questão de desejo. Ou melhor: somos diferentes desde a hora em que aprendemos a fazer fogo e cozinhamos a carne de um bichinho fofinho como um mamute para que ela ficasse mais macia.
Essa “superioridade” nos obriga a concessões, claro. Não se trata aqui de continuar a defender aquele modelo de consumo que viabilizou a evolução econômica do mundo e levou mais qualidade de vida para cada vez mais pessoas. O processo civilizatório custou caro ao planeta, claro; mas a questão não é voltar as costas a tudo isso, é saber como garantir essas conquistas. É saber se o mundo pode pagar de maneira permanente esses custos, e garantir as condições para isso.
Há algumas semanas vi uma coisa no Facebook que me deixou meio bobo, meio descrente: o germe de uma campanha em prol da construção de um hospital veterinário público. É a classe média, velha e nova, sentindo o peso da ração e das vacinas no orçamento familiar. (Não duvido que daqui a pouco venham a pedir que as farmácias populares deem ração de graça.)
A saúde pública tem problemas muito graves: de gestão, de profissionais e de dinheiro. Vem melhorando nos últimos anos, universalizando-se aos poucos; mas só um gestor irresponsável e canalha teria a pachorra de dizer que ela funciona a contento. No entanto um grupo de gente doida acha que a situação dos cachorrinhos de madame e dos gatos que pouco a pouco vão se tornando os animais de estimação preferenciais de um mundo fragmentado, substituindo aos poucos as relações humanas, deve merecer a mesma atenção.
Eu gostaria de acreditar que esse pessoal que pede a um Estado problemático — que não consegue garantir saúde para todos os seus cidadãos — dinheiro para um hospital veterinário público jamais foi aos corredores de um pronto-socorro público de grande porte. Mas já há algum tempo acho que não faz diferença. Que é uma questão simples: é gente mais preocupada com os bichos bonitinhos que criam do que com pobres malcheirosos gemendo numa maca, no corredor de um hospital.
O que me assustou foi a tentativa de mobilização, a ideia imbecil de pressionar o Estado para que ele cuide dos seus poodles e yorkshires. É paradoxal que justamente essa capacidade de raciocínio, essa consciência de nossa existência e de nossa finitude que nos faz humanos traga dentro de si justamente o germe de sua autodestruição. É para isso que esse pessoal quer lutar? Por sorte o conceito de luta deles é diferente, consiste em dar likes em fotos no Facebook. Eu teria medo desse pessoal realmente organizado, porque algo neles me lembra o “Planeta dos Macacos”, com seus arremedos de civilização.
E a classe C incomoda muita gente
Um dos textos mais bobos publicados na imprensa brasileira nos últimos tempos, o artigo “Sobre a Classe Média” de Artur Xexéo na revista do Globo do último domingo já chegou às redes sociais. Nele, Xexéo reclama do incômodo que a ascensão da classe C está causando em quem, como ele, representa a “Velha Classe Média”. É um artigo leve; é preciso lembrar que um caso bizarro como o do Ed Motta reclamando de gente feia é a exceção, que em suas melhores encarnações aquela classe média de Ipanema-Leblon é doce, tranquilinha e sorridente. O texto do Xexéo traz isso, essa condescendência e essa suavidade que mascaram um grande preconceito e um enorme incômodo da Velha Classe Média ao se ver diante de ex-pobres nos mesmos lugares que ela.
Talvez o aeroporto seja o lugar onde as frustrações e o desconforto desse pessoal sejam mais evidentes. É altamente simbólico, isso. O aeroporto era um dos lugares em que a pequena burguesia, para usar termos antigos como a Velha Classe Média, se sentia superior à patuleia e mais próxima dos ricos. Porque pobre paulista, por exemplo, não ia para Porto Seguro de avião; pegava um ônibus para Pindamonhangaba no Terminal do Tietê e passava uns dias na casa de uma irmã. A ascensão social das duas classes mudou isso: para Porto Seguro agora vão os ex-pobres, enquanto a Velha Classe Média passa uns dias na Europa todo santo ano.
O problema é que tem mais gente esperando ser atendida, as filas aumentaram, aquele povo mais feio ocupa atravanca o diacho do aeroporto. No entanto não dá para reclamar disso, porque cá entre nós seria indigno de uma classe que afeta uma elegância que raramente tem, é quase como reclamar de preto no mesmo clube que você.
Aí a classe média reclama dos cereais nos aviões.
É tão bobo, isso, tão bobo colocar a culpa pela barra de cereal na Nova Classe C. Alguém podia dizer ao Xexéo que essa culpa não é dela. Porque esse processo, comum no mundo inteiro, não tem nada a ver com a afluência recente desse grupo socioeconômico no Brasil. Tem a ver com corte de custos em terra e começou bem antes do governo Lula. Na verdade é a classe C que está possibilitando que a Velha Classe Média possa continuar a viajar de avião, dando mais fôlego a um setor que, a julgar por sua história, é cronicamente inviável — e viajar para a Europa, ainda por cima. Eu, pelo menos, venho de um tempo distante em que só os ricos viajavam para lá.
Mas a VCM precisa de um bode expiatório para justificar o que ela não tem coragem de dizer: que não quer pegar filas maiores, que não quer aquela gente perto demais, que se sentiria mais confortável com a plebe atulhada nos ônibus da Itapemirim. Então fica achando motivos para implicar.
Essa reação, esse desconforto generalizado, podem ser vistos em outros lugares. No incômodo causado pelos evangélicos, enquanto a intolerância católica é mais aceita. Na reação de tanta gente à proliferação dos ciclomotores em 36 prestações, quando o problema aí é a falta de uma legislação mais rigorosa e maior fiscalização. Essa Velha Classe Média tem vergonha de dizer que a classe C a incomoda. Tem vergonha de dizer que não gosta de viajar ao lado de gente mais feia, de assumir que para ela a culpa pelos engarrafamentos maiores é dos outros que agora têm carros e não deixam mais as ruas exclusivamente para eles, que não gosta das concessões que é obrigada a fazer. Isso não seria polido; e a Velha Classe Média, sejamos justos, sempre teve pruridos em excesso.
Para fins de implicância disfarçada, normalmente não há nada como preconceito cultural. Mas não para o Xexéo. Ele é o sujeito que teve coragem de escrever que “Eu quero de volta o meu filme legendado na TV e torço pela possibilidade de passar um intervalo comercial inteirinho sem assistir a um anúncio do Supermarket”. Porque na melhor das hipóteses ele deve estar gagá e lembrando de um tempo que nunca existiu. Na TV aberta filmes legendados só eram exibidos uma vez por semana, por força de lei, em horários muito ingratos como a meia-noite da segunda-feira. Na TV por assinatura, essa de que ele provavelmente reclama agora, os filmes legendados continuam aí, em canais como Telecine Premium, Cult e Fox. O que o incomoda, no fundo, é a simples existência dos filmes dublados — e o viralatismo que os faz, em vez de pressionar os canais a disponibilizar filmes simultaneamente dublados e legendados, tentar tirar o doce da boca dos pobres. Eles jamais assumirão; mas é a diversidade que incomoda o Xexéo e toda a Velha Classe Média. (Quanto aos comerciais, faz mesmo diferença se é anúncio de Supermarket ou Chanel?)
Mais bobagem ao reclamar que “a tal Classe C ama música em alto volume”. Bobagem porque as outras também gostam, principalmente quando se trata de rock and roll — e aposto que um ou outro tem um orgulho danado de ouvir ópera bem alto para impressionar os vizinhos: “L’amour est un oiseau rebelle que nul ne peut apprivoiser” tem efeito melhor do que “Ai, se eu te pego, ai, ai se eu pego”. Mesmo no subúrbio.
Mas que não se diga que o texto do Xexéo é totalmente desprovido de qualidades. Há um ponto que a Velha Classe Média poderia levantar, com mais razão do que ao fazer picuinha com cereal.
Para todos nós, a classe C se tornou uma espécie de panaceia universal. É justificativa para tudo. E acaba obscurecendo o fato de que a Velha Classe Média (que gosta de ser chamada assim, percebo agora pelo texto do Xexéo, porque lembra vagamente o seu conceito deturpado de “quatrocentão”; como quem diz “eu viajo na classe econômica dos aviões há mais tempo do que você!”) tem, sim, uma certa razão.
O afluxo de uma quantidade alta de consumidores fez com que a qualidade de muitos serviços diminuísse sensivelmente. É cada vez mais comum ouvir justificativas do tipo “o trânsito está pior, mas poxa, deixa para lá porque isso quer dizer mais pobre com carro”. E essa é uma atitude equivocada. É preciso encontrar soluções para isso, e não apenas tolerar.
Mais de 20 anos atrás, li uma entrevista muito interessante com o Stephen Kanitz na revista Imprensa. Ele apontava um caminho para o desenvolvimento do país; o investimento na classe C. E dava como exemplo o videocassete: em vez da indústria apostar em VCRs sofisticados, com 739 cabeças (alguém lembra disso?), era melhor fazer aparelhos mais simples, com duas cabeças apenas, e vendê-los mais barato. Me pareceu válido, na época. E de certa forma foi isso que a ascensão da Nova Classe C possibilitou.
O desafio agora é outro, não é oferecer produtos e serviços de segunda para esse pessoal ascendente. É oferecer mais qualidade por preços mais baixos. E quem não entende isso não entende a classe C. É o caso desse pessoal. Fossem mais inteligentes e deixariam um pouco de lado seus preconceitos de classe, se juntariam ao “diferenciados” para exigir mais. Sairiam ganhando. Mas essa Velha Classe Média não consegue ver isso, assim como viralatas não conseguem ver em cores. E por isso acabamos lendo artigos como esse.
Seu Gusmão, mais uma vez
Duvido que alguém acredite nisso que vem a seguir, porque até para mim parece história de mineiro mentiroso. Mas eu tenho os e-mails para provar.
O caso é que o senhor Gusmão, que já foi motivo deste e deste posts, respondeu ao último e-mail que lhe mandei, logo depois que o enviei. Isso já tem algumas semanas:
Em primeiro lugar, Sr Rafael, nunca lhe faltei com o respeito. Sempre achei o Sr. uma pessoa digna. O sr. nunca tem um meio de comunicacao certo pois tem infinitos e mails e mil telefones. Era so entrar em comunicacao como fazem meus outros inquilinos que a gente sempre resolve as situações inexperadas, mas para isso precisa de COMUNICACAO. Sei que o sr. passa por uma situaçao dificil mas nao sabia que chegava a tanto como fazer programa mas isso nao cabe a mim julgar. Por outro lado eu VIVO somente dos meus alugueres, por isso tenho que ficar preocupado em recebe los, pois tenho inumeos compromissos como plano de saude, cartao de credito, condominios caros, remedios que tomo para pressão carissimos e para sindrome do intestino irritavel.. Pois é . fica entao o Sr sabendo que não e so o Sr. que passa dificuldades.Nao sou nenhum cara rico para me dar esse luxo. Todos tem problemas na vida, e se eu pudesse nao tinha esses apartamentos que volta e meia me dão so dor de cabeça.
alem disso passei muito mal todo o mes de fevereiro, ficando em CTI por dez vezes consecutivas com minha pressao a 21×12, por meus remedios de pressao nao surtirem mais efeitos. tive que muda los e so ontem melhorei, e isso tudo me incomoda demais. Outra coisa. nao sabia que o Sr sublocava o apartamento o que e proibido no nosso contrato, mas ate relevo isso pelo seu pagamento sempre efetuado pelo sr e por sempre ter sido boa pessoa comigo, mas se o Sr. nao estiver satisfeito, podemos encerrar nosso contrato, ja que se passou o prazo do mesmo. Nao quero o seu mal mas tambem nao quero o meu.Ps achei desnecessario isso tudo e podemos conversar
Dr. Antonio Gusmao
E eu me compadeci do senhor Gusmão. Certo, ele tem a mania de lascar um “dotô” na assinatura, mas esse tipo de asneira é perdoável em advogado. Isso e carro grande: são compensações, você entende. O que me comoveu foi o fato de que qualquer pessoa que se recusa a entender o despautério absoluto que era aquele e-mail que enviei não poderia ser totalmente má; ou pelo menos deveria ser tratada com certo cuidado. Além disso, pessoas boas não merecem que outras pessoas boas sacaneiem com eles.
O problema é que só sou gente boa lá no fundo. Por isso foi preciso um acordo, e eu e as vozes na minha cabeça, essas que me fazem responder às pessoas, chegamos a um compromisso: eu não continuaria sacaneando o seu Gusmão, mas tampouco esclareceria as coisas. Não respondi ao e-mail.
Mas aí, algumas semanas depois, no Sábado de Aleluia, recebi mais uma mensagem do sujeito:
Sr. Rafael. Por favor entrar em contato pois precisamos conversar sobre o imovel.
Opa. Esse e-mail me deixou intranqüilo. Fiquei pensando que seu Gusmão, coitado, com sua pressão a 21×12, é do tipo que guarda rancor. Imaginei o seu dotô trancado em seu escritório repleto de livros antigos de direito, puto com aquele Rafael que ainda por cima violava o contrato e sublocava o apartamento, e imaginando as medidas cabíveis para ferrar de vez o rapaz.
O meu doppelganger pode ser um caloteiro safado, mas não merece perder o apartamento. E seu Gusmão pode ser uma anta, mas não merece perder um inquilino por causa de um mal-entendido.
Eu disse: no fundo sou gente boa. Um e-mail, então, serviria para resolver as coisas, para esclarecer o mal-entendido causado pela estupidez do seu Gusmão.
Caro senhor Gusmão,
O senhor vem mandando e-mails para o endereço errado há algum tempo. Eu respondi há algumas semanas, como se fosse o Rafael Galvão que é seu inquilino, dizendo que tinha perdido o emprego, sublocado o apartamento e etc., esperando que o senhor percebesse que estava mandando e-mails para o endereço errado.
No entanto o senhor não percebeu, e até respondeu o e-mail. Por isso, peço que corrija os endereços que o senhor tem aí. O e-mail xxxxx@gmail.com não pertence ao seu inquilino. E eu sequer moro no Rio de Janeiro.
Obrigado,
Rafael
Pronto. Fiz minha parte, ia dormir tranqüilo no Sábado de Aleluia, e nem ia precisar ver o filme do Zefirelli para isso. Não esperava mais resposta. No máximo um e-mail me esculhambando, me chamando de irresponsável, cafajeste — essas coisas às quais, sinceramente, eu já estou acostumado e nem ligo mais.
Mas eu não contava com a mente analítica e inquieta do dr. Antônio Gusmão. Ele respondeu com um e-mail de uma linha só:
COMO E ISSO SE O PAGAMENTO CONFERE COM O DEPOSITO BANCARIO? PODE ME EXPLICAR ISSO?
E aí chega. Porque eu tenho cá meus limites, e eles normalmente são ultrapassados por desafios, principalmente aqueles mais estúpidos.
Caro senhor Gusmão,
O senhor tem razão. Me pegou. Este e-mail realmente pertence ao seu inquilino caloteiro que nunca paga o aluguel em dia. Por isso, continue mandando seus e-mails para cá. Eu prometo que, assim que recebê-los, vou correndo ao banco pagar o aluguel imediatamente.
Nada como perceber que um sujeito não diz a verdade por um detalhe tão simples, não é? Claro. “Como é isso se o pagamento confere com o depósito bancário?” Eu obviamente não faço idéia do que o senhor está falando, mas isso não interessa. Obviamente, não posso explicar isso, nem acho que valha a pena. O importante é que o senhor tem a verdadeira alma do detetive. Uma mente inquisitória, que não se detém até encontrar a verdade. Senhor Gusmão, o senhor poderia ter sido um Einstein.
Eu andava dizendo por aí que o senhor não era lá um corretor dos mais espertos.
Como eu estava enganado.
Um abraço,
Rafael
Aí eu pensei que tudo tinha terminado, que o senhor Gusmão tinha ficado satisfeito com o e-mail — se ele não era capaz de entender a brincadeira anterior, era improvável que entendesse o sarcasmo nessa mensagem.
Mas não é o danado entendeu? E no dia seguinte, em vez de comer um ovo de Páscoa, respondeu com um e-mail duro para mim:
Sr. Rafael. O que mas detesto nesta vida sao tribulacoes como esta acontecendo conosco. Acho que como esta o nosso relacionamento, o melhor para nos dois e encerrar definitivamente com isso, pois esta tanto fazendo mal a mim como ao sr. Nunca passei por isso e espero que nunca mais aconteça. O que quero e que nos encerremos nosso compromisso, ja que o contrato terminou e nao ha mais dialogo entre nos. Fui no apartamento ontem e vi que esta vazio faz tempo e que os recibos se acumulam. O que queria e que o sr. nos liberasse do nosso compromisso permitindo a mim a entrada do mesmo, ja que o sr. nao vem ao Rio e o mesmo se encontra abandonado.
Desculpe por qualquer coisaAntonio Gusmao
Logo depois, um adendo:
em tempo: Podemos encerrar de comum acordo tudo isso sem o sr. nao me dever mais nada, encerrando assim, pelo bem estar de nos dois. O sr. por estarem dificuldades, e eu para viver mais tranquilo, pois ja parei ate em hospital , pela pressao alta que tenho, nao so pelo sr. mas com coisas que acontecem na vida cotidiana que maltratam a gente. Acho que seria bom tanto para o sr. e para mim.
E assim o pobre do caloteiro homônimo ficou ameaçado de perder seu apartamento. Tudo bem que não o usava (eu faço idéia do por quê, julgando por um dos e-mails do sujeito), mas se ele o mantinha era por alguma razão. E assim, contrariando os meus mais básicos instintos, respondi mais uma vez, uma última tentativa de mostrar a luz para o cérebro hipertenso do senhor Gusmão:
Senhor Gusmão,
Eu não ia mais responder aos seus e-mails, porque o senhor pelo visto se recusa a acreditar que está enviando mensagens à pessoa errada.
Vou repetir mais uma vez: este e-mail específico, xxxxx@gmail.com, não pertence ao seu inquilino. Os outros e-mails para os quais o senhor manda mensagens eu não sei; mas se o senhor não percebeu, é só deste que o senhor recebe e-mails desaforados com histórias malucas.
Ou seja: não é o seu inquilino que está lhe mandando e-mails dizendo barbaridades. É uma pessoa para a qual o senhor mandou mensagens por engano.
Eu não sei quem é o Rafael Galvão que aluga o seu apartamento. E não deveria estar preocupado com ele. Mas odiaria saber que ele perdeu um apartamento por minha causa. Meu homônimo pode ser um caloteiro, a julgar pelos seus constantes e-mails de cobrança, mas acho que nem ele merece ter um contrato de locação cancelado porque o senhor enviou e-mails a outra pessoa por engano, e não entendeu que era tudo uma brincadeira.
(Cá para nós: sublocação a uma prostituta da Help? Piloto de provas de fábrica de supositórios? O senhor nunca percebeu que isso era uma grande brincadeira, do tipo que só quem não tem nada a ver com a história escreveria? Eu sei que há um monte de Rafaéis Galvão por aí, mas duvido que algum deles fosse idiota a ponto de mandar um e-mail a seu senhorio dizendo que sublocava o apartamento.)
Obviamente, eu estou fazendo o que posso para evitar que o senhor tome uma decisão impensada. Além disso, não gostaria que o meu sósia onomástico perdesse o apartamento, nem que o senhor perdesse um aluguel. No entanto, eu já fiz o que posso. Se o senhor se recusa a entender o que está acontecendo, paciência.
Boa sorte a vocês dois, e um abraço,
Rafael
Quer saber? Seu Gusmão e meu clone que se virem para resolver isso. Porque se esse Rafael Galvão pagasse as drogas de suas contas em dia, e se a mãe do seu Gusmão tivesse dado miolo de boi para ele quando era pequeno, para ficar esperto, nada disso teria acontecido.
Nova carta para seu Gusmão
Um tempão atrás publiquei a resposta que dei a um sujeito que me mandou um e-mail cobrando de um dos meus tantos homônimos o aluguel de um imóvel em Copacabana. Esse doppelganger caloteiro vive atrasando o aluguel. E por alguma razão seu locador acha que o meu e-mail é o dele.
A resposta, no entanto, não sensibilizou o sujeito. Ele continua mandando e-mails para mim, me cobrando algo que não devo. Deve ser mau corretor, porque sequer sabe o e-mail correto de seu cliente. Por isso escrevi um novo e-mail para ele na esperança de que esse senhor finalmente entenda que está mandando e-mails para a pessoa errada.
Seu Gusmão,
Olha, eu venho evitando falar isso faz tempo: mas o senhor é muito chato.
O senhor sabe que estou passando por uma fase delicada na vida. Perdi o emprego, perdi a mulher, as coisas começaram a dar errado para mim de repente. E mesmo assim o senhor vive me mandando esses e-mails de cobrança.
Eu estou me esforçando, de maneiras que o senhor nem imagina. Mas mesmo assim, mesmo sublocando o apartamento para uma amiga que trabalhava na Help e agora recebe seus clientes aqui em casa, nem sempre é possível pagar o aluguel em dia.
O senhor quer mesmo saber por que eu atraso?
Eu lhe disse que tinha perdido o emprego, o senhor lembra? Não me foi possível arranjar uma colocação à altura da anterior. Inicialmente fui ser piloto de provas numa fábrica de supositórios. Não é o melhor emprego que há por aí, e isso me deixava com uma certa má vontade em relação ao mundo, mas serve para o senhor entender o que estou disposto a fazer para lhe pagar os aluguéis que lhe devo.
Infelizmente fui demitido por causa do meu hábito de beber. Então agora eu faço vida.
É, seu Gusmão. VI-DA. V-I-VI-D-A-DA — vida. Tudo isso para pagar o aluguel que o senhor me cobra.
Olha, seu Gusmão, é uma vida dura, sabe? Mas até que compensa. Alguns clientes são delicados, tratam bem a gente, levam até para jantar no Giraffa’s da Barata Ribeiro.
Mas claro que nem todo dia é bom, porque a crise, o senhor sabe, está chegando até nós. O dinheiro é difícil. Tem dias — e eu não falo isso apenas para conquistar a sua simpatia — que a gente sai só pelo sanduíche do Cervantes com Fanta.
Certo, eu atraso de vez em quando. Mas eu pago essa merda, não pago? Cá entre nós, não é sequer um grande apartamento esse que alugo do senhor. Mesmo assim, todo mês o senhor me manda uma cobrança que nós dois sabemos ser desnecessária. Eu vou pagar. Eu sempre pago, não importa que para isso eu tenha que sair com 20 numa noite só.
Eu só peço ao senhor um pouco de compreensão.
Portanto, o senhor tem duas alternativas. Ou para de me mandar essas cobranças, ou então me arranja uns clientes assim, tipo cheios da grana, para que eu possa pagar tudo em dia.
Este seu criado,
Rafael Galvão
***
Mas seu Gustmão não desistiu de receber o seu dinheiro: Seu Gusmão, mais uma vez.
Por que o Brasil não vai ganhar a Copa de 2014
O Brasil conquistou o tricampeonato mundial em 1970. Só conseguiu ser tetra em 1994, 24 anos depois.
A Itália conquistou o tricampeonato mundial em 1982. Só conseguiu ser tetra em 2006, 24 anos depois.
A Alemanha conquistou o tricampeonato mundial em 1990.
Jesus Manero
Eu sei que tem gente por aí, gente desocupada que redundantemente não tem o que fazer, que diz que não levo religião a sério.
Na verdade eu levo. Levo tanto que até hoje tento descobrir como é que o puto do Moisés atravessou o Mar Vermelho. Se parar para pensar numa bobagem dessas não é levar a sério, eu não sei mais o que é.
Quem não leva essa merda a sério é o pessoal do Jesus Manero — o site mais abençoado da internet. O mané aqui nem sabia que essa pérola existia. Agora estou rindo há horas enquanto passo o arquivo do site em revista.
Disney e o passado
Um site magnífico para quem lembra das revistinhas Disney de eras passadas: o Vila Xurupita’s Brazilian Covers apresenta todas as capas das revistas Disney publicadas no Brasil nesses pouco mais de 60 anos, de maneira bem simples e organizada.
Mas há outro ainda mais completo, o InDucks, um banco de dados abrangente com cada história incluída em cada revista Disney publicada em vários países, o que inclui o Brasil. É um trabalho hercúleo de documentação, e um tesouro de informação ao mesmo tempo pouco importante e inestimável. Pouco importante porque são só revistas em quadrinhos de algumas vidas atrás, útil apenas para sessões sem sentido de nostalgia; inestimável porque para muita gente que não tem medo de sessões sem sentido de nostalgia é um documento acurado de parte de suas vidas.
Deve ser o meu caso. De muitas dessas capas lembrei imediatamente. Algumas apenas sei que tive, pela época em que foram publicadas, embora não lembrasse delas. Mas lembro bem, por exemplo, dos números 1470 da Pato Donald e 1471 da Zé Carioca, quando as suas logomarca foram mudadas depois de 30 anos. Comprei a Mickey 340 e a 341, agora também com logomarca diferente. Foi lendo a Zé Carioca comemorativa de 20 anos da revista, em julho de 1981, que fiquei sabendo do torpedeamento do Lusitânia — infelizmente, só fui descobrir quando, e que diabos aquilo tinha significado, muitos anos depois. Li a Tio Patinhas 170, em 1979, e descobri a palavra “sarraceno”. Na Tio Patinhas de Ouro 2 ouvi falar de uns sujeitos na Pérsia — que já não existia àquela época — chamados dervixes.
Era o tempo em que as revistas traziam impresso um pequeno aviso na capa: “Manaus, Santarém, Boa Vista, Altamira, Macapá, Porto Velho, Rio Branco, Jiparaná (via aérea): Cr$ 00,00 – CÓD. 0051” — e isso significava, basicamente, um aumento de cerca de 30% no preço de capa. Era um Brasil diferente e a região Norte ficava mais longe. Tão longe que até hoje eu não sei onde fica Jiparaná.
O site avivou algumas lembranças antigas, mas também corrigiu outras. Sempre achei que a primeira Almanaque Disney que eu havia comprado tinha sido a 90; na verdade foi a 76, em setembro de 1977. Há muitos anos comecei um post neste blog dizendo que “Ainda lembro do dia em que comprei o meu primeiro Almanaque Disney. Foi em agosto de 1977.” Eu estava errado. Na verdade foi em setembro, e comprei porque, de brinde, vinham umas moedas douradas; crianças, macacos e corvos gostam de coisas que brilham. A confusão vem porque nesses meses eu morava num hotel em Salvador. Também achava que tinha comprado a “Anos de Ouro do Mickey” no final daquele ano, mas isso aconteceu dois anos depois — mas do local eu não esqueci: na banca do Renato, um sujeito que me lembrava o Emerson Fittipaldi, banca que fica ainda hoje no Largo da Barra.
Além disso, ver a palavra “Bingola” — um joguinho de tabuleiro com tampinhas de Coca-Cola, se não me engano — nas capas de várias revistas me lembrou que eu brinquei com isso, o que quer dizer que comprei, ou pelo menos li, outras revistas antes da tal Almanaque Disney 76. (Uma busca por “Bingola” mostrou que há por aí gente mais maluca do que eu, gente que guardou suas tampinhas até hoje. Ano passado um sujeito estava vendendo sua coleção por 1.500 reais no Mercado Livre.)
É impressionante que eu ainda consiga lembrar de capas de revistas que li mais de 30 anos atrás. É difícil saber se a minha fascinação por elas — e o valor que lhes dou — vem do seu valor real ou porque elas simplesmente fizeram parte de minha vida e de minha formação — ou seja, no final das contas essas revistas não eram tão boas assim, eu é que era suficientemente ignorante para julgá-las excelentes. Talvez seja uma mistura dos dois; reler as histórias publicadas nessa época mostra que, se minha memória afetiva talvez tenha aumentado sua importância, ao mesmo tempo elas são infinitamente superiores ao que se tem publicado da Disney ultimamente, com exceção das histórias de Don Rosa.
O melhor nessas revistas é que havia um universo variado de personagens e temáticas. Não eram apenas os personagens tradicionais de Disney, aqueles que até hoje vivem em Patópolis; mas havia uma variedade de elementos paralelos — as histórias das Aristogatas, de Banzé, Hawita e tantos outros, e quadrinizações dos filmes das Disney — que emprestavam àquelas revistas uma abrangência que outras não têm. Além disso havia uyma seção aparentemente retirada da série True-Life Adventures, com informações sobre o mundo animal, e os cartuns da Zoo Disney. Havia também um bom núcleo de histórias brasileiras, especialmente as do Zé Carioca e do 00-ZÉro.
E algo de que eu tinha esquecido: um bando de meninos e meninas maluquinhos, na faixa dos 8, 10 anos, que queriam se corresponder com outras crianças e davam seus endereços publicamente — algo impensável nos tempos paranóicos de hoje, em que a meninada não vai mais à esquina sozinha.
O site também acaba sendo uma crônica visual da decadência dos quadrinhos Disney no Brasil. Quem conhece as revistas feitas há 30, 40 anos lembra da impressão com cores sempre chapadas, os defeitos da colorização manual e das tecnologias de impressão disponíveis; lembra das variações de letras a cada história, também feitas à mão. De lá para cá houve imensos progressos técnicos. Tudo, da finalização à colorização e às letras, é feito no computador. As impressoras trazem cores mais ricas, com mais nuances tonais e mais controle sobre o resultado final. O tempo operou suas mudanças também na lingua, e hoje ela se apresenta mais coloquial.
No entanto basta uma olhadela superficial nas capas para ver que, paralemente ao avanço técnico, houve um retrocesso terrível no campo das idéias.
Cada capa trazia uma gag visual significativa, piadas simples e muitas vezes excelentes. A novas capas das revistas Disney, ao menos as poucas que ainda se sustentam, perderam isso. Ficaram mais parecidas com as revistas de super-heróis, puro lixo pouco criativo, artesanato que se faz sem pensar, e com vistas apenas a chamar a atenção do eventual comprador. As capas refletem um pouco a pobreza das histórias mais novas. A julgar pelo pouco que vejo aqui, a Disney não conseguiu se atualizar sem perder sua essência — algo que eventualmente conseguiu nos longa-metragens animados, como “A Bela e a Fera” e “Rei Leão”.
E há a questão do negócio em si.
Há 30 anos — e as capas de diversas revistas mensais e edições especiais comprovam isso — esse era um negócio excelente. Hoje, diante do tamanho do império de dívidas da Abril, não tenho essa certeza. No começo deste século, por exemplo, ela não teve problemas em se desfazer dos super-heróis da Marvel e, cerca de um ano depois, da DC. No entanto se apega às revistas Disney, mesmo que pareça não mais saber o que fazer com elas. Por uma matéria lida há uns dez anos na finada Gazeta Mercantil, parece que é por razões sentimentais: o Pato Donald foi a primeira revista publicada pela editora, em 1950, e sempre foi questão de honra para o fundador, Victor Civita. Isso torna ainda mais incompreensível e injustificável o trabalho porco que realizam com essas revistas. A única coisa decente que ainda publicam é uma tal de Disney Big — mais ou menos a mesma coisa que a antiga Disney Especial, mas sem o fio temático que era a marca daquelas revistas e cada vez mais limitado ao universo de Carl Barks. O resto é lixo mal editado — e é deprimente que, com mais de meio século de histórias, eles não consigam simplesmente escolher as melhores.
Mas isso interessa pouco. Passei horas procurando as revistas que ajudaram a me formar — aquelas do final dos anos 70, começo dos 80. E a cada reconhecimento, a cada “essa eu tive”, a criança que eu fui um dia ficou mais forte e, por alguns momentos, mais feliz.
E aí, Sergio Leo, o mundo acabou?
Ontem os senadores brasileiros aprovaram em primeiro turno uma Proposta de Emenda Constitucional que traz dos mortos a exigência de diploma de comunicação social para o exercício do jornalismo, derrubada há pouco mais de dois anos num daqueles raros momentos de sanidade do STF.
Em tempos d’antanho este blog defendeu o fim da exigência do diploma. Porque jornalismo não é profissão que precise oferecer uma defesa à sociedade na forma de diploma individual; porque a lei era uma intromissão desnecessária do Estado no que essencialmente é a sociedade falando consigo própria; e pelas próprias origens da nefanda, uma lei de ditadura concebida para controlar jornalistas.
Mas já há muito tempo, uns 20 anos pelo menos, essa discussão era desnecessária e anacrônica. Sua queda ou manutenção, na prática, significava coisa nenhuma. Novos jornalistas continuariam a ser necessariamente recrutados nos bancos das faculdades, simplesmente porque a oferta é grande demais e, de modo geral, recém-formados são mais qualificados que focas vindos de outras áreas. Não consta haver muita gente vindo de fora querendo ser jornalista. E há tantos estudantes implorando por uma primeira chance que a seleção já não é feita entre os que têm e os que não têm diploma, mas entre aqueles nas multidões de recém-formados que têm algum talento e estão dispostos a trabalhar por muito pouco em nome de uma primeira oportunidade.
Não foi a exigência do diploma que criou essa situação. Foi basicamente a evolução natural do mercado. Este é cada vez mais um mundo de especialistas superficiais, cujas origens estão nas crianças que, por várias razões, são obrigadas a fazer escolhas de vida fundamentais aos 17 anos de idade. É isso que gera o excedente de mão de obra que afasta os eventuais não-jornalistas das redações. E esse fenômeno que se vê no jornalismo também se repete em outras profissões, mesmo as que não exigem diploma, como a publicidade: é nas faculdades que são recrutados os estagiários de criação, mídia ou qualquer coisa assim, porque por pior que sejam — e, também generalizando, essa meninada parece vir cada vez pior, cada vez mais ignorante —, ainda assim têm uma formação específica melhor do que quem nunca fez um layout em toda a vida. Ou seja, não é necessário diploma para garantir esse tipo de evolução socioeconômica. O mercado já se encarregou disso faz um certo tempo.
Mas para o Sergio Leo, e tantos outros jornalistas, a queda do diploma parecia significar o maior golpe que a profissão poderia sofrer. Em seu momento mais empolgado, o Sergio invocou neste blog a maldade intrínseca dos patrões, que seriam a favor da queda do diploma para ter à sua disposição mão de obra farta e barata — como se “mão de obra farta e barata” não fosse quase sinônimo de “recém-formado”.
Pelos bons argumentos, e pelo fato de ser um excelente jornalista, o Sergio merecia ser ouvido. Poucas pessoas escrevem tão bem sobre relações internacionais, com tanta clareza. Pessoalmente acho que isso se deve ao seu imenso talento pessoal, e não exatamente à sua formação específica em jornalismo; mas não é isso que está em questão aqui. De qualquer forma, é justamente por esse respeito que pergunto: e aí, Sergio Leo? Dois anos depois, o mundo acabou? As redações foram infestadas por padeiros ávidos por assinar seu nome em uma matéria com chamada de capa? Estagiários no seu e nos outros grandes jornais do país — e nos pequenos, também — passaram a ser recrutados nas faculdades de matemática? Os donos de jornal utilizaram os milhões de pedreiros, garis, advogados, médicos e guardas de trânsito que agora podem ser jornalistas para chantagear a classe por salários mais baixos, quase de fome?
Mais que isso: o caos reinante nas redações justifica a volta dessa exigência estranha que nos levaria de volta à companhia de bastiões da imprensa de qualidade como Congo, Costa do Marfim e Honduras — embora agora de maneira democrática, como deve ser?
Nos dias seguintes à derrubada do diploma, eu e muitos outros servimos como destinatários involuntários de grandes desabafos de jornalistas indignados com o que consideravam ataque à sua profissão.
Jornalistas de todo o país se manifestaram e apontaram o início do apocalipse, o fim da profissão, o desrespeito absoluto à catiguria, essas coisas. Jornalistas se revoltaram ao serem, como quiseram fazer parecer, comparados a cozinheiros — por sinal um episódio típico do modus operandi de certo segmento da imprensa brasileira, não apenas pelo elitismo e bacharelismo que parece fazê-los pensar que uma profissão é mais importante do que outra, mas pela má-fé demonstrada ao destacar uma frase de seu contexto e fazer o mais baixo sensacionalismo a partir dela.
No final das contas, a mobilização vazia de jornalistas no pós-queda acabou sendo uma prova de miopia e de incapacidade de ver o mundo como ele é — além, é claro, de prova da incapacidade da categoria de se organizar politicamente. E esse é o tipo de coisa que se pode cobrar deles mais de dois anos depois, especialmente às vésperas de uma volta ao antigo status quo.
Mas a pergunta a ser feita agora, na minha opinião, deveria ser outra: como alguém que se propõe a mostrar e explicar para mim o mundo em que vivo pode-se arrogar esse direito se não consegue sequer compreender fatos que lhe afetam diretamente? Com que moral um jornalista vai tentar interpretar um fato para mim se ele mesmo não consegue entender corretamente os sinais que o mundo lhe dá a cada novo dia? Ou, se entende — algo do que duvido, a julgar pelas manifestações vistas há dois anos —, não tem a honestidade necessária para me dizer como as coisas realmente são?
Talvez isso explique o nível geral da imprensa deste país. Não foram jornalistas sem nível universitário que perpetraram a cobertura desmoralizante das eleições do ano passado — o que por si só deveria desqualificar qualquer tentativa de justificativa do diploma como garantia ética, erro que tantos defensores da obrigatoriedade cometem. Agora, um ano depois, cabe também perguntar quem fez mais mal à profissão: Gilmar Mendes e sua alusão a padeiros ou o papel indigno que os principais jornais deste país desempenharam na cobertura da última campanha presidencial?
Eu tenho uma resposta para isso, e acho que ela está certa. No entanto, preferia estar errado. Preferia concordar com tantos jornalistas e achar que a queda do diploma iria destruir a profissão. Porque só a incompetência de gente aboletada na desculpa da falta de preparo teórico poderia explicar o que está acontecendo com a imprensa deste país.
Cigarros, religiões e o mal que eles fazem
Ao contrário do que o Bia disse nos comentários ao post anterior, não é uma questão de discutir se ateus são mais ou menos tolerantes — eu acho que são, pelo menos por enquanto, mas isso não importa aqui. A questão é o teor classista no texto mencionado no post anterior e no que eu considero ser parte bem significativa da abordagem da classe média em relação aos evangélicos.
O Bia disse que os católicos não são tão intrusivos, “ficam lá na igreja deles”. Isso não é totalmente verdade, e me lembrou aquele branco que diz não existir racismo no Brasil porque pretos podem ir para a escola pública como qualquer branco.
Se a Igreja Católica não parece tão intrusiva é por algumas razões. A primeira é que a gente simplesmente não percebe, porque já faz parte do nosso cotidiano. A segunda é porque ela não precisa. Por exemplo, não precisa criar seu próprio canal de televisão (embora faça isso), porque na maior de todas ela exibe a Santa Missa em Seu Lar há décadas. (Alguém já percebeu que se fala muito do bisonho “Fala Que Eu Te Escuto”, mas ninguém questiona uma aberração como a missa televisada?) Além disso, nenhum meio de comunicação de porte tem coragem de se posicionar claramente contra os valores que ela prega, bons ou ruins. Jornais, rádios — essas mídias não precisam pertencer à ICAR nem vender espaços a ela para lhe dar voz.
Mais que qualquer coisa, no entanto, a Igreja Católica se beneficia de um certo tipo de inércia característico de quem exerce poder há tempo demais.
Os filhos de quantos ateus são batizados na boa e velha Santa Madre Igreja, apenas porque não faz diferença para eles atender a esse desejo do pai ou da mãe ou dos avós? Quantos ateus são padrinhos de crianças, e fazem isso apenas porque gostam de seus pais e querem fazer parte dessa homenagem mútua?
Em tudo isso, são os valores católicos que estão em questão. E sua presença é tão grande que não conseguimos mais ver. A Igreja Católica não precisa ser tão obviamente intrusiva porque seus valores estão tão entranhados na sociedade brasileira que isso seria redundante.
Isso não quer dizer que não seja ativa. E incomoda ver as pessoas continuarem a insistir nessa falsa dicotomia: igreja evangélica ruim, igreja católica boazinha. É essa insistência em ver o diabo nas igrejas evangélicas e os anjinhos na Igreja Católica (e olha que nem mesmo estou falando de padres gulosos e bispos coniventes) que na minha opinião denota o viés classista presente em determinado tipo de abordagem.
Alexandre, nos comentários:
(…) São pobres os eleitores da maioria do legislativo – por óbvio – já que vivemos num país de miseráveis. Há muitos “candidato dos pobres” muito embora todos – ou quase todos, incluindo os bispos – pertençam às elites. O que assusta, Rafael, é que a bancada evangélica está usando a influência e o dinheiro que possui para financiar uma política de retrocesso, de preconceito e de cunho evidentemente religioso. Nada além disso.
Eram pobres também os eleitores de Lula em 2006, e boa parte dos de Dilma em 2010. Mas pobre só vota certo quando vota com a gente. Já os ricos que votam em candidatos identificados com a Igreja Católica, bem, desses ninguém lembra. Ou, se lembra, eles são ruins não porque defendem o ideário da Igreja Católica, mas porque pertencem a partidos reacionários.
O Alexandre certamente não acompanha a influência católica sobre as bancadas parlamentares (os links incluídos no post anterior mostram padres fazendo política rasteira e reacionária em seus púlpitos, mas não parecem ser suficientes). Pois a Igreja Católica exerce muito mais poder sobre os parlamentos do que as bancadas evangélicas. Só recentemente as bancadas evangélicas passaram a ter poder. Mas o atraso não precisava delas: o divórcio civil só foi legalizado há pouco mais de 30 anos, o aborto não foi até hoje. As igrejas evangélicas apenas parecem mais conspícuas e conseguem mais propaganda — por interesses de classe ou comerciais, ou porque sua militância é mais ostensiva. E elas assustam a classe média.
E tem o exemplo do cigarro.
Ele foi usado para mostrar que não é exatamente o proselitismo que incomoda, porque eu sabia que alguém viria defender o antitabagismo ao mesmo tempo em que condenaria o antiateísmo ou anticatolicismo ou anti-qualquer coisa. Se é verdade que o Brasil está ficando menos cordial, a responsabilidade não é apenas dos evangélicos. Alexandre e Daniel acharam que o exemplo do cigarro não se aplicava, porque fumar é ruim. E assim demonstraram o básico: que ninguém se incomoda com pressão social, nem vê ameaças à cordialidade nacional, se são as suas idéias empurradas goela abaixo das outras pessoas.
Cigarro faz mal? Faz, claro. Mas religiões também fazem; a diferença é que cigarros fazem mal a indivíduos que fumam por escolha própria, enquanto religiões fazem mal a sociedades inteiras. A questão, no entanto, não é essa. Quando o Alexandre justificou a perseguição social sofrida pelos fumantes — e como ex-fumante eu sei bem do que estou falando — mas continuou a atacar as igrejas neopentecostais, justificou perfeitamente a escolha do exemplo, demonstrando que quando é a sua fé que está no ataque, ninguém se incomoda muito com essa tal de cordialidade. Ou seja: o evangélico não é cordial quando tenta me fazer abraçar a fé dele, algo que ele sinceramente acha que vai me fazer bem, por errado que esteja, porque certamente lhe fez; mas o anti-tabagista tem toda a razão do mundo quando tenta me proibir de fazer algo que afinal só prejudica a mim.
Tanto o Alexandre quanto o Daniel, imbuídos da ideologia de sua classe — cada vez mais laica, por sorte, e chata, por azar –, se apressaram a defender o bullying que fumantes sofrem, e que é basicamente o cerceamento ao exercício de um direito. Eles não entendem que, assim como para o ateu o militante evangélico é intrusivo, desagradável e burro, para o fumante o antitabagista materializa os mesmos adjetivos. E por isso, quando um certo setor da sociedade reclama do efeito deletério da falta de cordialidade do pobre evangélico que não sabe o seu lugar, mas não vê problemas na agressividade e intrusão dos militantes antitabagistas, definitivamente reflete, também, os valores de uma classe social.