Um clone no pantanal da América

Chico Anysio diz que crítica de TV é a coisa mais idiota do mundo.

Ele explica. A função da crítica é servir de guia. Ela serve para você decidir se vai ver aquela peça de teatro que ficará um mês em cartaz, se vai comprar aquele livro que continuará nas estantes da livraria.

Não haveria sentido em criticar, por exemplo, um episódio de Chico City, porque esse episódio passou, não será repetido. Criticar o passado é perda de tempo.

Ah, sim: tem as novelas, você diz.

Mas criticar novelas me parece ainda mais idiota. Porque é uma obra aberta, porque tem seus rumos definidos não pela crítica, mas pelo Ibope. Novelas são a coisa menos infensa à crítica que existe em televisão. Novelas são a caravana que passa enquanto os críticos falam palavras difíceis.

E ainda mais inúteis.

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Mesmo sabendo de tudo isso, não dá para evitar comentar “América”, a novela da Globo

O pau comendo entre Glória Perez e Jayme Monjardim pode ter chegado às ruas mas, decididamente, não é a razão pelo fracasso de audiência.

Não que Monjardim não tenha culpa no cartório. Sua direção é catastrófica. O produto que ele levou ao ar é um pastiche de produções passadas que poderia ser mais apropriadamente chamado de “O Clone no Pantanal da América”. Os atores, com poucas exceções, são uma espécie de quem-é-quem da má representação. Os gemidos de Deborah Secco seriam muito apreciados em outro lugar e em outra situação; a inexpressão de Murilo Benício, nem isso.

Mas o verdadeiro problema não está na direção. Está na concepção e no roteiro da novela.

O interior de São Paulo pode ser rico, mas ao resto do Brasil interessa pouco ou nada. É um mundo à parte, repleto de elementos que o Brasil urbano olha com escárnio, como chapéus, fivelas escandalosas e peões de boiadeiro.

Mas há algo muito pior, provavelmente o principal problema da novela: o núcleo cucaracho.

Nós que costumamos reclamar de filmes americanos que mostram brasileiros falando inglês ou espanhol — ou de Mickey Rourke indo de Salvador ao Rio em 45 minutos, em “Orquídea Selvagem”– deveríamos ter vergonha dos mexicanos da novela de Glória Perez.

Esse recurso “multinacional” já foi muito usado nos primeiros tempos das telenovelas brasileiras, em que tudo era amadorístico. Hoje soa apenas falso, amador. E se as novelas são um produto criativo ruim, elas não podem ultrapassar o limite do real, do crível.

Glória Perez juntou em “América” todos as suas características: a celebração de uma carioquice que o medo destruiu, como o boteco da dona Jura e um bairro que não existe (ninguém mora no Andaraí. Pode verificar. Nego sempre puxa uma, duas ruas e diz que mora na Tijuca ou no Grajaú); um elemento qualquer sobre o qual fazer uma campanha politicamente correta, como o vício em drogas ou transplante de coração; e algo que pareça exótico (a cigana Dara, a Internet, o Marrocos). Mas dessa vez a mistura foi tão indigesta que nem mesmo o cigano Ígor poderia agüentar.

Era Uma Vez na América

Tirei uma noite dessas para assistir de novo a “Era Uma Vez na América”. Noite, mesmo: o filme dura 4 horas.

Não tenho certeza de quando vi o filme pela primeira vez; por alguma razão, penso em 1986, mas me parece improvável que a Globo tenha exibido o filme apenas dois anos depois de sua estréia no cinema; é mais provável que tenha sido em 1990.

Não interessa. Rever o filme é uma experiência fascinante.

“Era Uma Vez na América” é o último filme de uma trilogia iniciada em “Era Uma Vez no Oeste” e seguida por A Fistful of Dynamite, o mais fraco de todos. Sergio Leone quis contar aqui a história da “América” da maneira como ele via: a evolução de um país construído não sobre os ideais de trabalho puritanos, mas sobre a ganância e o crime.

Não é, ao contrário do que alguns malucos dizem, o melhor filme de Leone. Esse mérito pertence a “Era Uma Vez no Oeste”, seguido de perto por “Três Homens em Conflito”. Entre seus problemas está sua duração, longa demais. Perde tempo demais na parte “mafiosa” e deixa um pouco de lado algo que faria toda a diferença do filme, a transição do crime organizado para a organização trabalhista após o fim da Lei Seca. Algumas situações são improváveis. O destino de Deborah é inverossímil diante da óbvia fixação homossexual de Max em Noodles, e desnecessário. Além disso, o filme foi trucidado pela Warner Brothers, que fez o impossível para que ele não prejudicasse as chances de outros blockbusters seus, como The Killing Fields.

Mas não estamos falando de um diretor qualquer: e “Era Uma Vez na América”, com todos os seus defeitos, ainda é um grande, grande filme.

A mais bela cena do filme é uma das mais simples: Patsy compra um doce para dar a Peggy, projeto de prostituta que presta favores sexuais no banheiro ou no telhado por um doce de 5 centavos. Mas enquanto espera por ela não agüenta e come o doce inteiro. Aqueles pequenos marginais, prestes a se tornarem assassinos, são apenas crianças. É uma cena digna de Truffaut.

Isso ajuda a lembrar que Leone, acima de tudo, era um poeta. Dizem que ele tinha na cabeça cada movimento de seus filmes; e é difícil não acreditar qando se vê o cuidado com que ele define o enquadramento deles. “Era Uma Vez na América” fica como um documento importante da formação dos Estados Unidos, porque é narrado de forma quase divina.

“Era Uma Vez na América” deve ser visto em conjunto com “Era Uma Vez no Oeste”. Se empalidece, e muito, diante deste, dá um panorama brilhante da evolução dos Estados Unidos. E é isso que faz um filme ser inesquecível.

Na telinha

Alex, você está enganado.

Nos anos 70 e 80 havia excelentes programas nacionais. Sempre houve.

Programas como os que você citou sempre existiram — e aí a gente pode citar, além dos humorísticos como “Chico City”, “Viva o Gordo”, “Planeta dos Homens” e “Família Trapo”, casos especiais que levavam o melhor da literatura à telinha, uma infinidade de minisséries como “Mad Maria” e um bocado de outros que não lembro agora. E a Paula Saldanha, paixão de infância.

A “nacionalização” a que você se refere diz mais respeito à necessidade de empurrar programação de baixa qualidade para uma platéia cada vez menos qualificada do ponto de vista do anunciante.

É claro que eu aplaudo os que você citou, embora não assista a nenhum deles. Mas deveria aplaudir também Big Brother, Casa dos Artistas, Linha Direta, Ratinho, Gugu, Faustão, João Kleber, Luciano Huck e Datena?

Eu só aplaudo Márcia Goldschmidt. Porque mexeu comigo, mexeu com ela.

Às cinco da manhã

A Globo está exibindo o seriado “Monk”.

(Monk valeria um post inteirinho para ele. É um dos melhores seriados feitos nos últimos tempos. Pela graça de ser um bom seriado de detetive, pela comédia, mas principalmente pela riqueza triste do personagem-título.)

Talvez você não soubesse, porque a Globo exibe o seriado no horário mais ingrato possível, os finais de madrugada.

É engraçado como a TV brasileira mudou nos últimos anos, e principalmente a Globo. Há uns poucos anos — ou sou eu que estou envelhecendo e não percebo? — isso seria impensável.

Nos seus primeiros 30, quase 40 anos, seriados americanos fizeram parte do creme da programação da TV. Ocupavam um dos horários mais nobres, aquele que vinha que depois da novela das oito. Dividiam esse horário com o que foi o seu sustentáculo nos primeiros anos, os programas de humor. Era só para eles que perdiam em importância. Herança dos tempos em que a TV Rio batia todas as concorrentes com programas baseados nas duas pedras fundamentais da TV brasileira: o humor radiofônico e o teatro de revista. E por isso o horário era definido como pertencente à “linha de shows”.

Para quem cresceu nos anos 70 e 80, os seriados americanos representaram uma parte importante da cultura da idade. Fazíamos (em câmera lenta, claro) os sons dos órgãos biônicos de Steve Austin, o Homem de Seis Milhões de Dólares. Éramos Zorro e arranjávamos algum bobo para ser o Tonto — mas poderia pior se arranjássemos alguém para ser o Silver. Nadávamos feito peixe, imitando Mark Harris, o Homem do Fundo do Mar.

Mas o tempo passa. Esses seriados, que de várias formas acrescentavam ingredientes ao caldeirão cultural brasileiro, agora estão restritos à TV por assinatura ou a horários ingratos nas televisões abertas. Por incrível que pareça, acabam criando um novo fosso cultural, em que a juventude de classe média assiste a seriados e o povão se empanturra de, no máximo, Malhação.

De certa forma, a TV brasileira sempre foi democrática, porque oferecia a mesma coisa a todos. Isso acabou. Agora, o lado de cima faz expressão de adolescente idiota americano enquanto balança a cabeça fingindo o retardo que deveras tem, dizendo: “Hello-o!”. E o andar de baixo aprende que “vamos quebrar tudo”.

Reencarnação

Se alguém ainda não viu “Reencarnação”, o filme com a Nicole Kidman atualmente em cartaz, não veja. É perda de tempo. O filme é uma droga.

É tão ruim que a toda hora vaza um microfone na tela. É o tipo de coisa que se corrige facilmente na pós-produção, e a permanência de um erro tão desgraçadamente primário no filme apenas mostra a incompetência generalizada. Da primeira vez você diz “epa”. Da segunda se pergunta se aquilo, afinal, não é uma espécie de meta qualquer coisa. Da terceira percebe que não tem jeito. E ainda tem mais uma ou duas aparições do microfone entrão.

A única coisa boa no filme é a Kidman deitadinha de costas, perninha (só uma) levantada, enquanto seu noivo encarrega-se de, entre ais e uis, fazê-la esquecer o primeiro marido. A cena é desnecessária, e ainda que se considere os braços dela em posição de defesa como uma necessidade narrativa, é o tipo de cena que podia ser feita de várias formas; no mínimo mais curta.

Mas quem sou eu para reclamar da Kidman sendo delicadamente bombada. Não, eu não.

É engraçado ver Nicole Kidman se esforçando para ser mais sexy. Ela é provavelmente a única atriz hollywoodiana do primeiro time que tira a roupa regularmente (os últimos foram The Human Stain e este Birth). E em entrevista recente para a Playboy disse que gosta de “cheiro de homem”.

Tudo isso, claro, é uma medida bem pensada de marketing pessoal. Ela é considerada “a atriz mais bonita com quem ninguém tem sonhos eróticos”, e esse é um dos únicos defeitos de Kidman, em termos mercadológicos. O que é uma pena. Eu acho a Kidman absurdamente linda; e se no geral lhe falta um pouquinho de carne, a única coisa de que realmente não gosto nela são as costas.

São costas tão sem graça que, quando ela fez “As Horas”, não precisava ter usado aquela prótese no nariz. Bastava mostrar as costas. Aquelas são as costas de Virginia Woolf, sem dúvida alguma, e todos iam acreditar.

A outra coisa boa do filme é o personagem do menino. Virou o meu herói. Por tomar banhozinho de banheira com a Nicole Kidman. E por conseguir estragar tantas vidas. É preciso ser muito bom para fazer tanto mal.

Ainda o IMDb

Inagaki:

Pô Rafael, olha a injustiça que você está cometendo. Howard Hawks dirigiu “Jejum de Amor”, “O Inventor da Mocidade”, “Scarface”, “À Beira do Abismo”, “Rio Vermelho”, “Hatari”… Hawks É brilhante, sim, e jamais poderia ser equiparado ao Burton, que fez o belo “Edward Mãos-de-Tesoura”, mas depois alinhavou uma série de equívocos, como os dois Batmans, a refilmagem canhestra de “Planeta dos Macacos”, “Marte Ataca” e o supervalorizado “Peixe Grande”.

Quanto aos filmes japoneses da lista, vai por mim. Se você botou fé na minha recomendação das histórias de Don Rosa, bote mais fé ainda no que vou lhe dizer: alugue, o quanto antes, os desenhos de Hayao Miyazaki. Todos, sem exceção, são de uma beleza simplesmente embasbacante, com roteiros que fazem a gente ter inveja de tanto poder imaginativo: “A Viagem de Chihiro” (não à toa foi o primeiro desenho animado a ganhar Urso de Ouro em Berlim), “A Princesa Mononoke” (cujos diálogos foram traduzidos nos EUA por Neil Gaiman), “Meu Amigo Totoro”. Você pode ter certeza: se todos eles emplacaram o top 250 do IMDB, não foi só por causa dos japoneses – Miyazaki é admirado no mundo inteiro.

Quanto a Howard Hawks, o Ina tem toda a razão. Na verdade, foi um exemplo crasso de texto mal escrito. Misturei em uma frase só alhos e bugalhos. A idéia original era dizer que Burton era tão superestimado quanto Hawks era genial; e acabei escrevendo uma grande besteira confusa. Hawks é um dos meus diretores preferidos, embora eu não ache “Hatari!” grandes coisas e considere “O Inventor da Mocidade” bobinho. Mas Scarface é genial, e “À Beira do Abismo” e “Rio Vermelho” estão entre os meus filmes preferidos.

Eu não vejo graça em Burton; para mim lhe falta consistência — e por favor, ele destruiu o Batman, que foi transformado em uma mistura de Robocop com Jack Torrance. Vi “O Planeta dos Macacos” há pouco tempo, na TV; não tive coragem de assistir no cinema. Achava que ia ser uma tragédia total, mas ele tem pontos positivos: achei excelente a transformação da sociedade símia em uma mistura de república romana e III Reich. Mas ele consegue fazer só besteira a partir daí.

Como eu devo ao Ina a descoberta da maravilha que é o Don Rosa (e o seu próprio blog), vou dar um jeito de ver os filmes que ele recomendou. Mas tem um problema: eu não gosto da estética dos mangás. De qualquer forma, vou dar uma conferida, assim que puder. Nem que seja para falar mal depois.

Comentando a lista

Aquela lista do IMDb é feita pela votação popular. Isso explica um monte de coisas. Por exemplo, a presença de filmes que nenhum crítico sério coloca em qualquer lista.

O outro aspecto que determina a lista é a demografia. A dominância de americanos na casa dos 20 anos explica a inclusão de um bocado de bobagens. A forte presença de japoneses também explica os vários filmes nipônicos recentes de que jamais tinha ouvido falar. Isso é normal. Por exemplo, “Central do Brasil” estava nessa lista. Mas o tempo passou, e junto passou o filme do Waltinho.

Entre os primeiros colocados eu nunca soube explicar The Shawshank Redemption. Ele está em segundo há muito, muito tempo, pelo menos desde o fim da década de 90. Não sei se entendo a razão dessa preferência mundial. Acho que a saga do Tim Robbins, aceitando todo tipo de humilhações enquanto persegue o seu sonho, faz com que as pessoas se identifiquem além da medida com ele. A vidinha cotidiana tem dessas coisas.

E os filmes bons que eu não vi são uma falha grave no meu currículo. Dos que o Bia citou os que realmente me incomodam são “Testemunha de Acusação” e “A Grande Ilusão”, filmes que eu gostaria muito de ver, nem que fosse para ratificar a opinião geral de que são geniais, etc.

Mas as pessoas não sentiram a falta de alguns grandes. Buñuel é ignorado. Griffith também. É por isso que este velho stalinista tem tantas ressalvas à democracia.

E Bia e Cipy, Tim Burton, para mim, é o diretor mais hyped desde que a Cahiers du Cinèma descobriu que Howard Hawks era um gênio.

A Anna acha que é a única pessoa do mundo que não gostou de “Casablanca”. Não é verdade. Uma ex-namorada não gosta até hoje, nem comigo lhe enchendo o saco e explicando cena por cena ou estabelecendo a escala de valores do filme.

Mas se é que eu posso contar um segredo, da primeira vez que vi não consegui entender porque idolatravam tanto aquele filme. Até que vi uma segunda vez, uns cinco anos depois, e desde então minha vida tem sido um enorme mea culpa, porque pecados como esse precisam de muito tempo e muitas penitências para serem expiados.

Os 250 melhores filmes do IMDb

Meme bonitinho na blogosfera lá de fora: pegar a lista de 250 melhores filmes do IMDb e selecionar aqueles que você já viu.

O que me impressionou foi o tempo que passei assistindo filmes. Não esses da lista, quase todos bons; mas para cada filme bom que assisti, vieram de lambuja pelo menos dez ruins, sessões de tédio diante da Primeira Exibição ou Supercine, noites viradas diante do Corujão, Sessões da Tarde improdutivas, erros de cinema.

Se não fosse por eles, eu teria lido muito mais. Quem sabe eu até tivesse lido “O Ser e o Nada”.

Também me impressionou, claro, o montão de lixo que essas escolhas populares acabam trazendo.

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Der Untergang

Sempre me incomodou uma certa abordagem do nazismo através dos loucos de sempre, como Hitler e Goebbels.

Isso ajuda a ver o nazismo como um fenômeno extemporâneo e inexplicável, algo que aconteceu de repente na nação que se orgulhava de ser a mais avançada culturalmente do mundo, e que brandia com orgulho Kant e Goethe ao mundo (mas esquecia convenientemente de algumas características e Nietzsche e Wagner).

Der Untergang, que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, é um belo filme. Mas é, principalmente, um documento fantástico sobre essa era. Conta os últimos dez dias de Hitler em seu bunker, de onde só sairia morto para ser queimado na porta. É baseado nas memórias de sua secretária, que morreu há alguns anos.

O filme mostra uma Berlim com os russos já à sua porta. O Reich já acabou, embora Hitler tenha dificuldades em perceber isso. Já não há mais controle, já não há mais a terrível máquina nazista de guerra: o que se tem é um império sendo demolido, o vácuo de poder e os dramas pessoais em meio a uma das grandes tragédias da história. É um retrato amplo da queda de Berlim.

O Hitler interpretado brilhantemente por Bruno Ganz mostra isso: é um homem no fim de suas forças, mas principalmente um homem; e com isso o filme ajuda a mostrar a real dimensão do nazismo. Ele não foi feito por monstros. Ele foi feito por gente comum. E a decisão de fazer poucas referências a um dos elementos constitutivos do nazismo, o anti-semitismo, ajuda nesse retrato.

É o mais fascinante em todo o filme: a maneira como ele mostra loucura da queda do Reich sem perder de vista a dimensão humana. Já não há mais controle. O Reich, que deveria durar mil anos, se esfacela diante de todos, e é isso é que expõe a loucura de tudo aquilo. A crônica da queda do nazismo ajuda a mostrar sua gênese; e com isso pode-se ter uma compreensão que a simples repetição de slogans não consegue dar.

Der Untergang não cai naquele maniqueísmo bobo de mostrar os nazistas como pessoas inerentemente monstruosas. E com isso ajuda a comprender melhor um dos fenômenos que definiram o século XX.

(Sobre o nazismo e a II Guerra Mundial, cujo fim completa 60 anos em 2005, já escrevi este, este, este, este e este posts.)

Jesus, o judeu que salvou a Europa

Via Pedro Dória, em nomínimo, um artigo sobre um novo livro sobre cristianismo e judaísmo: Why the Jews Rejected Jesus, de David Klinghoffer.

O livro parte de uma análise aceitável do ambiente da época para chegar a conclusões curiosas. A mais interessante delas: se o judaísmo tivesse absorvido o cristianismo a Europa hoje provavelmente seria muçulmana.

Embora razoável, a análise histórica não traz nada de novo. Klinghoffer fala sobre os muitos pseudo-Messias existentes na época, sobre o fato de a maioria dos judeus desconhecerem Jesus, e admite a participação judaica na Sua morte.

Parte disso é dispensável. Parece óbvio que líderes judeus contribuíram para a morte de Jesus. E daí? Tentar repassar essa história sem abdicar da noção de que ali estava um povo matando o fundador de uma nova religião é torcer os fatos. Deus ou não, para todos os efeitos Jesus era apenas mais um judeu — e cá entre nós, meio maluco. Ainda não era um cristão, e demoraria algumas décadas até o cristianismo se desligar do judaísmo. Ele só era o Cristo para os poucos gatos pingados que o seguiam, e mesmo isso é incerto, porque ninguém tem certeza de que ele se intitulava “o Messias”. Para o resto, era só mais um sectário, entre os tantos que ululavam numa Judéia ocupada e conflagrada. Os judeus tinham todo o direito de julgá-lo segundo seus costumes e matá-lo, se fosse o caso.

Mas a conclusão de que se o judaísmo tivesse absorvido o cristianismo a Europa hoje seria islâmica me parece uma bobagem sem tamanho. É esse o verdadeiro problema do livro a princípio, como diz a matéria no SouthBend Tribune:

Klinghoffer thinks that if the Jews had embraced Jesus they would have remained bound to the laws on Sabbath observance, kosher diet, circumcision of males and ritual purity, so “the Jesus movement might have remained a Jewish sect.

He then spins out a debatable counterfactual scenario. With Christianity as a minor sect, Europe would have had a spiritual vacuum that Islam would most likely have filled. America would be a totally different country today because it would never have been Christianized.

A questão é: quem garante isso?

A grande vantagem política do cristianismo foi justamente a sua vocação para o proselitismo e sua extrema flexibilidade, estabelecendo pontos de contato suficientes com as religiões pagãs para se tornar palatável a culturas variadas e principalmente à romana, além de explorar brilhantemente a noção de vida eterna.

Mas essas não eram sequer noções exclusivas da seita cristã. O erro de Klinghoffer é imaginar um judaísmo perpetuamente congelado, incapaz de absorver novas linhas de pensamento.

Não é absurdo imaginar que o judaísmo tenha, em parte, definido sua evolução histórica em função do cristianismo, reforçando características que, ao contrário, poderiam ter se suavizado ao longo do tempo. É tão ou mais provável que, absorvendo Jesus, o judaísmo também seguisse por uma linha de progressiva liberalização de costumes. Certamente não seria o que o cristianismo é hoje, mas é improvável que fosse igual ao judaísmo de agora.

Além disso, não dá para imaginar o que seria o Islamismo, porque ele também bebeu do cristianismo e reconhece Jesus como um dos profetas, assim como Moisés.

E o mais importante em tudo isso: quem garante que outra religião não iria surgir, dos escombros do Império Romano?

Ou seja: o futuro condicional do Klinghoffer é um samba do crioulo doido que não reconhece uma série de variáveis necessárias, e que tornam quaisquer conclusões impossíveis.

Pela resenha no site da Doubleday, o livro tem pretensões de ser mais um elo na progressiva aproximação entre judeus e cristãos. Curiosamente, Klinghoffer é um judeu conservador, e sua postura política é decisiva para suas conclusões e em algumas atitudes tomadas por ele. A impressão que tive é de que a mensagem nas entrelinhas é a seguinte: “olha, desculpa, mas se não fosse por aquilo vocês hoje não teriam esse vidão”. Isso é triste. Porque os judeus não têm nenhuma razão para pedir desculpas por terem dado aquele calor em Jesus. E porque nada indica que as conclusões do autor sejam corretas. Quando diz que “respeita as contribuições culturais cristãs” está sendo um bobo redundante: ele vive em uma civilização definida pelas tais contribuições, não “respeitá-las” é praticamente uma confissão de idiotice. É uma afirmação desnecessária, no mínimo.

E permite que, com um bocado de malícia, as pessoas achem que no fundo a comparação é outra: a de que é uma idéia análoga à de que Israel está prestando um grande serviço fazendo o que faz na Palestina.

No fim das contas, ele acaba prestando um desserviço ao judaísmo e ao cristianismo, justamente por causa desse viés religioso e desse messianismo político que parece assumir.

Não custa lembrar que este é só um comentário feito através de notícias de jornais (que, como se sabe, são menos confiáveis que blogs) e de press releases de uma editora. Mas mesmo assim, esse é um livro que eu não vou comprar.