Lennon e McCartney

Se alguém quer saber por que John Lennon virou ícone do rock and roll e Paul McCartney entrou para a história como o grande baladeiro comercial é só prestar atenção às últimas declarações de Macca.

É uma imagem que não tem muito a ver com a realidade. A noção de Lennon como o roqueiro irredutível, agarrado a suas raízes, não sobrevive a uma olhada mais atenta a sua obra. Não é à toa que sua música mais conhecida é justamente uma balada, Imagine. Alguns discos, inclusive, têm faixas românticas até demais, como o chato Mind Games. Finalmente, quando voltou à cena musical em 1980, depois de um hiato de 5 anos, Lennon já dava indícios de ser um músico dos anos 60, que ainda não tinha se situado direito em um mundo transformado pelo punk.

Mesmo nos Beatles, a percentagem de rocks e baladas de cada um é parecida. E Lennon, um letrista indiscutivelmente superior, tem sua cota de bobagens, assim como McCartney tem sua cota de grandes letras. Enquanto isso, cada disco de McCartney tem a mesma divisão básica entre baladas e números mais rápidos que os discos de Lennon. Na fixação do arquétipo de cada um, as pessoas esqueceram que Helter Skelter — o rock mais pesado que os Beatles gravaram — foi composta por McCartney, e que Julia é uma balada de Lennon. É mais fácil caracterizar cada um de acordo com um estereótipo estanque. E nesse reducionismo McCartney, musicalmente mais ousado que Lennon, sai perdendo. Esquecem até que durante a melhor e mais experimental fase dos Beatles, a liderança da banda era claramente exercida por McCartney.

Mas Lennon tinha uma coisa que McCartney nunca teve: atitude. Lennon dizia que era roqueiro e todo mundo acreditava. McCartney se limitava a fazer grandes canções que, por serem brilhantemente simples, eram imediatamente subestimadas, e virou o Engelbert Humperdick que Lennon gostaria que ele fosse.

Essa diferença entre as atitudes de Lennon e McCartney ficou mais do que clara de 2001 para cá. Em reação à destruição do WTC, McCartney compôs uma música chamada Freedom, cujo refrão diz que “we will fight for the right to live in freedom“. É um dos momentos mais baixos de sua carreira. Enquanto Lennon provavelmente seria o primeiro a fazer oposição à invasão do Iraque, só agora, depois das fotos de Abu Ghraib, é que McCartney considera a possibilidade de aquilo ter sido uma péssima idéia. E mesmo assim hesitante, com medo de tomar uma atitude dura demais.

McCartney deu a sorte e o azar de ter sobrevivido em algumas décadas a Lennon; provavelmente não vai morrer assassinado por um fã enlouquecido, e sua aura não vai ser imediatamente mitificada. Mas ainda que sofresse todo aquele processo que faz de meros cantores ícones culturais absolutos, sem aquela verve que caracterizava seu parceiro ele continuaria eternizado como o sujeito que estava à sombra de Lennon.

Resenhas

Antigamente a maior parte dos que chegavam aqui através do Google era composta de pervertidos pessoas que tinham interesse em aspectos alternativos de sexo.

Era algo educativo, porque uma rápida leitura dos referrers me mostrava que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã indústria pornográfica. Ultimamente, no entanto, eles têm rareado.

Não sei quem mudou; se foi este blog ou se os tarados de todo o país formam um clube pequeno e seleto, que me colocou em sua lista negra sob a rubrica “Rebate Falso”.

Em vez disso, cada vez mais pessoas vêm para cá atrás de resenhas prontas sobre livros brasileiros. Rubem Fonseca é campeão, mas Jorge Amado, pelo visto, tem seus fãs entre os professores do Ensino Médio ou entre aqueles que elaboram as provas do vestibular.

Sinceramente, eu não sei o que faz alguém procurar uma resenha pronta de um livro — ainda mais desses dois autores, de leitura fácil e normalmente apaixonante. É difícil alguém passar por Rubem Fonseca e por Jorge Amado incólume, e é uma pena que esses garotos se recusem a experimentá-los. Um bocado de gente veio atrás de “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, uma novela curta, brilhante, que não custa ser lida. Acho até que dá menos trabalho.

Estamos criando uma geração de idiotas ignorantes, que procuram o caminho que parece mais fácil para se livrar de um ato — ler — que lhes causa progressiva ojeriza. Para isso contam com a preguiça de professores, que poderiam evitar essas cópias dando uma olhada na Internet. Se eu fosse professor, sempre que recebesse uma resenha de um aluno iria ao Google e digitava uma frase dela. Se a resenha fosse copiada, esse aluno receberia 0: -5 pela preguiça em ler e -5 pela preguiça em alterar o texto.

De vez em quando ficava me perguntando se a resenha que fiz para a Maiza Correa Mendes não tinha sido uma crueldade, embora ache que ela sequer tenha lido. Agora acho que não. Eu devia era ter enviado por e-mail. Ela ia ter uma bela surpresa na escola. E talvez a lição servisse para alguma coisa.

De como não saber cantar me faz idolatrar Billie Holiday

Tenho três grandes frustrações na vida.

Uma é não falar francês. Outra é não tocar piano. A terceira é não saber cantar.

Pelo menos em dois casos essa frustração é culpa da minha preguiça baianidade. Aprendi inglês sozinho e não demoraria um ano até entender francês o suficiente para ler Balzac no original. Mais difícil seria aprender a tocar piano, mas duvido que não conseguisse, e não acho que demorasse muito até estar tocando músicas dos Beatles ou Whole Lotta Shaking Goin’ On.

Agora, cantar é que são elas.

Não tem jeito. Não vou aprender nunca. Se me matriculasse num curso de canto talvez até conseguisse cantar um pouco afinado, mas jamais seria um cantor. E as melhoras que eu conseguiria certamente não compensariam o sofrimento que impingiria aos ouvidos da professora.

É aí que, para piorar as coisas, eu lembro de Billie Holiday.

Qualquer pessoa minimamente entendida em jazz vai lhe dizer que Ella Fitzgerald era melhor cantora, tecnicamente. Vai incluir na lista uma série de outras, como Sarah Vaughn, talvez até Peggy Lee. Mas esse sujeito, quando tocar no nome de Lady Day, vai jogar para o alto toda essa conversa de técnica e se desmanchar em declarações de amor.

(Se ele não fizer isso dê as costas e vá embora. Ele pode entender de música, mas não entende de jazz. Não entende de gente, também. Eu não duvidaria que ele saísse por aí molestando criancinhas, em obediência às vozes em sua cabeça. É uma pessoa má e doente que deveria ser internada, pelo bem da sociedade.)

Tenho uma tendência esquisita a admirar principalmente gente que faz o que quero fazer e não consigo. Admiro o baixo de Paul McCartney porque nunca tocaria como ele — mas no fundo de minha pretensão acho que conseguiria tocar como John Entwistle, e por isso não o acho essas coca-colas todas. Acho Hendrix o máximo porque ele reinventou a guitarra — e sei que com um pouco de esforço tocaria como George Harrison.

Mas o caso de Billie Holiday é ainda mais grave. Porque ela tem uma vozinha de nada. Porque não tem a técnica de Ella. Em tese, é mais fácil cantar como Billie do que como Ella.

Agora tente. Tente passar em sua voz o sofrimento que ela passa, mesclada ao mesmo tempo com uma doçura marinasilviana. Vai, tenta. Cante, com toda a verdade que você puder encontrar dentro de si mesmo, que “My man he don’t love me, he treats me oh so mean.”

Tenta. Eu espero. Eu tenho tempo.

Era uma noite suja e fria quando ela entrou no escritório

Leio livros policiais desde a infância. Era uma das paixões de meu pai, e por isso lá em casa havia uma imensidão de livros da “Colecção Vampiro”, que ele garimpava nos sebos embaixo do Viaduto da Sé. Aos 10 anos, eu já estava viciado neles.

(Na Livraria Cultura da Av. Paulista pode-se encontrar ainda alguns livros da Colecção Vampiro.)

Lembrei do assunto porque li um post do Polzonoff sobre Rex Stout.

É do Rex Stout um dos livros policiais que li há mais tempo, no começo da adolescência: uma edição portuguesa de bolso de “Excesso de Clientes”, depois lançado aqui como “Clientes Demais”. Lembro de gostar muito do livro, mas na época eu também gostava muito de Mickey Spillane, Frank Gruber e Ellery Queen. Gostava até da velha dama indigna, a impostora Agatha Christie. Demoraria bastante tempo até eu tomar contato com o melhor do gênero.

Hoje Nero Wolfe me interessa pouco. Não que seus livros sejam ruins; pelo contrário, são agradáveis, interessantes. Mas se é verdade que literatura noir não é literatura, Wolfe é ainda menos. Ele dilui ainda mais os clichês do gênero, embora há muito tempo eu tenha concluído que os clichês são condição fundamental para que se goste de romances noir.

Basicamente, defino Nero Wolfe como um cruzamento meio bastardo da tradição inglesa com a literatura noir americana. Mesmo cobrando — e caro — pelos seus serviços, Wolfe não deixa de ser o típico detetive diletante inglês, com a genialidade absurda de Hercule Poirot. Enquanto isso, para contrabalançar, Stout nos dá Archie Goodwin, assistente de Wolfe, mais próximo da tradição noir — o detetive que vai à rua, que é cínico e insolente, que leva porrada.

É claro que essa é, acima de tudo, uma questão muito pessoal. O gênero eminentemente cerebral me atrai pouco, porque pelo menos para mim se assemelha mais ao xadrez que à literatura.

Eu gosto mesmo de três escritores policiais: Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Ross MacDonald. São o triunvirato do romance policial, os sujeitos que praticamente criaram o gênero.

Com exceção de MacDonald, todos eles escreveram poucos livros, e por isso evitaram que seus personagens caíssem na repetição que fatalmente acomete as tramas e os personagens de Stout (e do Lew Archer de MacDonald, também). Hammett definiu a estrutura e a linguagem do romance policial que depois os franceses chamariam de noir, com os elementos básicos como os diálogos secos, a narrativa enxuta, a mulher fatal e o detetive cínico; Chandler deu alguma dignidade literária a ele, criando o maior de todos os detetives, Phillip Marlowe. E MacDonald atualizou o gênero, aprofundando os aspectos psicológicos do crime e adaptando-o com sucesso aos anos 60.

Logo abaixo vêm alguns extremamente bons, entre eles Chester Himes, David Goodis e o único autor contemporâneo que respeito, Walter Mosley — que embora descendente direto de Himes é um dos poucos a dar uma dimensão digna ao romance policial nos dias de hoje.

Não interessa que seja literatura de segunda. Não importa que, necessariamente, seja um gênero esquemático. A verdade é que troco qualquer Proust por um bom policial. Não gosto tanto assim de madeleines.

De aprendizes e feiticeiros

Quando a Pixar e a Disney romperam, no começo deste ano, todo mundo foi rápido em apostar na decadência do estúdio de Burbank e na fixação da empresa de Steve Jobs como a nova Disney.

Eu tinha cá minha dúvidas.

A sentença é dada a partir de uma análise precipitada das coisas. Os maiores sucessos da Disney, ultimamente, foram os desenhos em computação gráfica produzidos pela Pixar; esses cinco filmes renderam 2,5 bilhões de dólares. Isso basta para os especialistas em marketing (que costumam acreditar que marketing é ciência e que a roda é quadrada) digam que a Disney morreu, e longa vida à Pixar.

Já vi a Disney ir ao fundo do poço criativo, como aconteceu entre os anos 70 e 80. Nessa época, ela produziu desenhos medíocres — “Robin Hood”, por exemplo, é deprimente — sem nada de sua antiga aura.

Mas o que a fez voltar do cemitério da animação não foi a parceria com a Pixar. Foram desenhos como “Alladin”, “A Bela e a Fera” e “O Rei Leão”. Estes dois últimos, aliás, estão entre os melhores filmes que a Disney produziu em todos os tempos, no mesmo nível de “Branca de Neve”. Não é pouco.

A questão principal é que nenhum desses filmes foi produzido pela empresa de Jobs, por mais brilhante que ela seja. E, pelo menos na minha opinião, nenhum dos filmes da Pixar, em termos de roteiro, se compara a “A Bela e a Fera” e a “O Rei Leão”. Nem mesmo “Procurando Nemo”. São bonitinhos, claro, e sua animação é brilhante.

O que me faz duvidar dessa condenação sumária à Disney é o fato de acreditar que a experiência e a massa crítica de uma empresa como ela, por cujos padrões a indústria de animação ainda hoje se orienta, são mais importantes que o domínio técnico, primazia da Pixar. A Disney pode até sentir o golpe da perda da Pixar, e por algum tempo. Mas não deve demorar até que ela se erga e volte a fazer o que sempre fez: grandes desenhos animados, com a mais perfeita combinação entre comédia e lirismo que um estúdio consegue realizar. Desde 1995, os estúdios Disney vieram fazendo animação tradicional, sempre com maus resultados e deixando os filmes em CG para a Pixar. Mas “Irmão Urso” selou o fim desse modo tradicional de se fazer desenhos. E em pouco tempo a Disney vai dominar essa técnica.

Agora, às vésperas do lançamento do penúltimo filme da parceria entre Disney e Pixar, a Wired retoma esse tema, obviamente aclamando a Pixar.

Talvez a minha fé na Disney seja a fé que os filisteus tinham em Golias. Talvez. Talvez seja um reconhecimento muito pessoal à importância que os desenhos da Disney tiveram para mim e para várias gerações.

Mas talvez seja apenas a minha insistência no bom senso.

De Rubempré

Eu fiquei curioso quando vi o nome de Luciano Chardon nos comentários.

Luciano Chardon é o maior personagem de Balzac, anti-herói de “Ilusões Perdidas”. Não é o meu preferido, “honra” que dou a Rastignac; nem mesmo o de Balzac que, dizem, morreu chamando pelo seu doutor Bianchon. Esses são como bons amigos, a quem amamos a despeito deles mesmos; mas sabemos que, por melhores que sejam, não chegam perto da grandeza do rapaz de Angoulême.

Assim como o Julien Sorel de Stendhal, Luciano é um rapaz talentoso e ambicioso, que sai da província para ganhar Paris. Abandona o nome burguês do pai, Chardon, e adota o nome da família da mãe, De Rubempré, com a partícula que indica nobreza. Mas é um caráter fraco; e seu fim, em “Esplendores e Misérias das Cortesãs”, não é dos melhores. Nem dos mais dignos.

Luciano é o melhor personagem de Balzac porque tem muito dele. Sua fraqueza, sua vaidade, sua ambição. Mais que qualquer outro personagem, Luciano é o alter ego de Balzac. Como Rastignac, é um jovem que quer conquistar a glória em Paris; mas enquanto Rastignac resiste a Vautrin e termina “O Pai Goriot” com um desafio à cidade e a sua sociedade (“A nous deux, maintenant“), Luciano tenta sempre o caminho mais fácil; para conquistar a glória ele não hesita sequer em se tornar amante de Vautrin. É fraco de caráter, apesar de sua boa natureza, e é isso que o destrói.

Mas é também o mais humano, o mais completo personagem daquele que eu acho o mais humano e o mais completo escritor da história da literatura. A grandiosidade de Luciano é praticamente inexplicável, e nenhum autor jamais chegou perto de tamanha complexidade humana– nem mesmo Dostoiévski, nem mesmo o Hamlet de Shakespeare.

Não foi isso que me deixou curioso, no entanto.

Acho que por respeito à grandeza do personagem e por, infelizmente, ver tantos pontos de semelhança entre ele eu, sempre fiz questão de me referir ao sujeito pelo sobrenome que ele escolheu: para mim, ele é Luciano de Rubempré. Um outro motivo é o de achar que enquanto se chama Luciano Chardon ele é pouco mais que uma cópia do Julien Sorel de “O Vermelho e o Negro”, e só se transforma em um personagem, na minha opinião, muito maior que seu modelo quando passa a almejar conscientemente essa nobreza que nunca vai conseguir ter.

É essa a pergunta, Luciano: por que Chardon?

A vida é bela na Central do Brasil

Li um texto do Alexandre no blog do Emy e da Ninha. Não tinha lido antes.

Um trecho dele me chamou a atenção:

Lembram, por exemplo, do episódio A Vida É Bela versus Central do Brasil? Não vou entrar no mérito da qualidade dos dois filmes, mas só em quão supremamente ridículo foi ver pessoas que eu considerava dignas de respeito malhando um filme, que muitas vezes nem tinham visto, só porque venceu Central do Brasil.

O Alexandre tem razão. O patriotismo ultrajado fez com que pessoas que acharam “A Vida é Bela” um grande filme caíssem de pau nele, porque nem mesmo “Cidadão Kane” tinha o direito de tirar o nosso Oscar de nossas mãos.

Vi os dois filmes antes do Oscar.

Quando “Central do Brasil” terminou, eu tinha certeza absoluta de que tinha visto o melhor filme brasileiro das últimas duas décadas.

E saí de “A Vida é Bela” com a impressão de que tinha assistido ao filme estupidamente medíocre que ia ganhar o Oscar.

Até aquele ano eu não tinha visto nada de mais nas derrotas dos filmes brasileiros. “O Quatrilho”, se me permitem, era um filme aborrecido, sem sequer a pretensão de ser profundo. “O Que é Isso, Companheiro” não era tão chato — mas era medíocre como cinema e uma má recriação dos fatos históricos. Não ganhar o Oscar era uma questão de justiça.

Mas se alguém me perguntasse que filme deveria ganhar o Oscar naquele ano, eu diria que “Central do Brasil”. Estou longe de idolatrar um filme só porque é produto do kinemanacional, mas aquele era sensível, doce, verdadeiro e tecnicamente correto. “Central do Brasil” merecia, sim, o Oscar de melhor filme estrangeiro.

Infelizmente, ao assistir “A Vida é Bela”, vi ali uma obra de artesanato político competente e dirigida ao Oscar. Era um filme medíocre, bobo, como tantos e tantos outros. Mas era eficiente, e não se desviava durante um só segundo de seu objetivo. Tinha todos os elementos necessários para agradar à Academia. Uma comédia melodramática com protagonistas ítalo-judaicos (duas das mais influentes minorias americanas), num filme sobre a II Guerra (a única guerra santa dos americanos), com um garotinho inocente (quem resiste?) e um pai maravilhoso (pule de dez), de espírito leve e disposto a qualquer sacrifício por sua prole, que morre no final (apelo lacrimejante universal). E para completar os americanos aparecem no final como um deus ex machina salvador do mundo, uma auto-imagem muito cara ao establishment deles.

“A Vida é Bela” foi feita para isso, para levar a estatueta para casa. Não fiquei surpreso com sua vitória, o que não significa que tenha gostado. Eu queria que “Central do Brasil” ganhasse o Oscar, como quis anos antes que Pulp Fiction ganhasse. Achava que, mais que qualquer outro filme naquele ano, ele merecia o prêmio.

Mas é preciso lembrar uma coisa: aquela é uma festa dos americanos, pelos americanos e para os americanos. Os filmes brasileiros entraram lá de penetras, já estavam no lucro. O Oscar não é célebre por premiar a qualidade. Ele premia a sua indústria e seus padrões de entretenimento de massa, e estão corretos nisso. Quem achar ruim e não quiser jogar pelas regras do jogo, que vá para casa. Roberto Benigni simplesmente achou que a Itália ficava muito longe dos Estados Unidos. E fez o que era necessário para pagar a passagem.

Mesmo levando tudo isso em consideração, aquela cerimônia específica do Oscar me surpreendeu pela palhaçada em que acabou se transformando. Ainda lembro da revolta descontrolada de Meryl Streep ao ver Gwyneth Paltrow ganhar o Oscar de melhor atriz — tive a impressão de que a raiva por ter perdido seria um pouco menor se a vencedora fosse Fernanda Montenegro –, e da indignação de Tom Hanks ao ver o “marido da pata”, como Rubens Ewald Filho o chamou, ganhar o Oscar de melhor ator.

Isso eu, sinceramente, não esperava. Aquela cerimônia quase destruiu toda e qualquer credibilidade que o Oscar tinha, porque não havia justificativas além do que diziam ser a força da Miramax. Que seja.

Mas pelo menos me diverti com a reação de Roberto Benigni ao receber o Oscar — que duvido que ele esperasse. Foi a única pessoa a agir como a situação exigia. Ele é, por profissão, um palhaço. E tudo aquilo era um grande circo.

A angústia do leitor diante de Handke

Acabei de desistir de um livro de Peter Handke. Tentei, juro que tentei, e tenho orgulho da minha valentia, mas fui expulso na metade.

O livro tem um posfácio de algumas páginas em que uma mulher tece loas a ele. Discordo, porque defino Handke — ou pelo menos o livro em questão — em uma palavra: chato.

E além de chato falta verdade em suas alegorias, também. Percebo isso na miopia do título de um dos seus livros, que naturalmente jamais lerei: “A Angústia do Goleiro na Hora do Pênalti”.

Se Handke realmente soubesse das coisas entenderia que a verdadeira angústia não é a do goleiro, que afinal não tem a obrigação de defender um pênalti. A angústia é de quem cobra. Ele devia ter perguntado isso a Zico, em 1986, e a Roberto Baggio em 1994.

Mas talvez isso seja só implicância minha. Handke é alemão. Alemães não entendem de futebol.

Rock in Tejo

Vida de fã é uma merda.

No sábado fiquei acordado esperando ver McCartney nos trechos do Rock in Rio Lisboa (se eu fosse português boicotava o festival só pelo nome sem noção). Nada, mas pelo menos teve “Faça a Coisa Certa”, do Spike Lee — e eu gosto muito do neguinho.

Hoje anunciaram McCartney e mais uma vez a anta aqui ficou esperando.

Mas esse eu deixo por último.

O sujeito que comentava o programa apresentou Peter Gabriel como um sobrevivente que depois de sair do Genesis fez um sucesso “gigantesco”. Peraí: o Genesis é dos anos 70. Nessa época, quem fez sucesso gigantesco foi o Led Zeppelin e os Wings de Paul McCartney. Nos anos 80, foi a vez de Michael Jackson e Madonna. Aliás, o próprio Genesis só fez mais sucesso quando Gabriel saiu: Phil Collins assumiu os vocais e fez a banda aderir ao pop. Para falar a verdade, do Peter Gabriel eu só lembro é de Sledgehammer, de 86. Depois dessa apresentação vem o sujeito — e eu fico impressionado em ver como ele envelheceu. A música, no entanto, não me impressiona: é a mesma coisinha chata e metida a cool de sempre. Mas agora parece mais com os piores momentos do Pink Floyd.

Depois vem a banda pela qual “todos estavam esperando” mas da qual nunca ouvi falar: Evanescence. Muito prazer. Eu sou então apresentado a um cruzamento chato de Siouxsie (alguém lembra dela?) com Courtney Love, dirigido a adolescentes que acham que sua dor é a primeira e a maior do mundo. Imediatamente, classifico-a na pasta “bandas que são um porre e que eu não faço questão de ouvir novamente”.

Kings of Leon, agora. Aclamada como “a salvação do rock” no ano passado. E eu, sempre atrasado, pensando que esse cargo ainda era dos Strokes. Envergonhado pela minha ignorância, prometo a mim mesmo que vou prestar atenção para não perder a “salvação do rock” do ano que vem. A música é bem melhor que o Evanescence, mas isso não quer dizer muita coisa. O vocalista é uma mistura de Kelso, do That 70’s Show, com Julian Casablancas. Ele tem uma cara de “quer-saber?-eu-montei-esta-merda-pra-ver-se-pego-umas-mulé”. Tá certo, ele.

E então os Xutos & Pontapés. Eu ouvia falar dos sujeitos há 20 anos, e é a primeira vez que ouço. Os velhinhos, aos quais não mostraram respeito e mandaram abrir o show (mais ou menos o que fizeram com Gilberto Gil no dia anterior, ultraje do qual o ministro se vingou com um show bem vagabundo), mostram felicidade por estarem ali. Mas a música é irremediavelmente anos 80, chatinha como tudo daquela década.

E eu passei por tudo isso para assistir ao meu velhote.

McCartney teve 3 músicas apresentadas nessa colcha de retalhos: Get Back, She’s a Woman e Live and Let Die. Com exceção de She’s a Woman, são músicas que estão em virtualmente todo disco ao vivo. E o set list do show tem algumas preciosidades, como You Won’t See Me, Helter Skelter e I’ve Got a Feeling, que nunca ouvi ao vivo.

Essas três músicas mostram algumas coisas tristes. A primeira é que McCartney não tem mais voz. Ele não consegue mais alcançar as notas mais altas de She’s a Woman. Está velho, coitado. E o show pirotécnico durante Live and Let Die mostra que, há 15 anos, seus shows são sempre a mesma coisa, com pequenas mudanças no repertório para que as pessoas esqueçam que ele é um dinossauro sem remédio. Mas a sua simplicidade e a aura que o ex-beatle ainda traz fazem com que ainda valha a pena.

Agora é esperar que César Maia (diz isso a ele, Quintino!) consiga trazer McCartney para um show no Rio. Se conseguir, eu até encaro a multidão no Aterro. E esse é o maior sacrifício que um sociopata como eu é capaz de fazer.