Resenha de “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”

Aconteceu alguma coisa nas últimas semanas, e a maioria das pessoas que vêm parar aqui através dos mecanismos de busca como o Google estão atrás de resenhas prontas. “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” é, individualmente, o mais procurado.

Como é preferível receber esses visitantes aos tarados de antigamente, e para evitar que a galera saia de mãos vazias, aqui vai um resumo bem sucinto da novela de Jorge Amado, livro curto mas extremamente profundo.

A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água

É o principal livro da fase espírita de Jorge Amado. Foi escrito pouco depois de o autor se desligar do Partido Comunista, em seguida ao XX Congresso do PCUS, no qual Nikita Kruschev denunciou os crimes de Stálin.

A fase espírita de Amado foi uma espécie de intervalo entre sua fase marxista, exemplificada pela trilogia “Subterrâneos da Liberdade”, e a declaradamente folclórica, inaugurada em “Gabriela, Cravo e Canela”.

Essa fase, no entanto, duraria pouco, e englobaria apenas mais um livro: “Mar Morto”. Logo depois o escritor se converteria definitivamente ao candomblé, com o qual sempre havia flertado, e se tornaria ogã de um dos maiores terreiros da Bahia, o de Mãe Menininha do Gantois.

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” conta a história de Quincas, homem rude da região do cais de Salvador. Trabalhador incansável, militante comunista e, como quase todos os grandes personagens de Jorge Amado, extremamente mulherengo. É apelidado de “Berro D’Água” por ter o costume de, depois de beber um número enorme de copos de cachaça, gritar “Epahei!”, saudação de Iansã.

Quincas morre já no primeiro capítulo, vítima de um tiro desferido por um policial durante uma greve dos estivadores por melhores condições de trabalho, na Praça da Inglaterra.

Ateu como todo bom comunista, Quincas se vê, então, vagando numa espécie de limbo. Não demora muito até que um espírito de luz, Sem-Pernas (personagem de outro grande livro de Jorge Amado, “Terras do Sem Fim”, cuja morte em um bordel, nos braços de Rosa Palmeirão, é um dos momentos mais poéticos da obra amadiana), finalmente esclareça qual a sua missão: acompanhar o policial que o matou e, ao perdoá-lo e guiá-lo, resgatar sua dívida para com Deus e todos aqueles que magoou em vida.

O policial, que se chama Juca Badaró, é um homem longe de Deus que, embora não seja intrinsecamente mau, segue na vida sem valores firmes e sem direção. Caberá a Quincas colocá-lo no caminho certo.

A partir daí, o livro transcorre como uma espécie de romance de formação, em que o espírito de Quincas cria as mais inverídicas situações para fazer com que Juca enxergue o trabalho de Deus em sua existência, alternando momentos hilariantes e profundamente emotivos. Em sua missão, Quincas é ajudado involuntariamente pela mulher por quem Juca se apaixona, a professora Teresa B. Figueiredo. Ela ensina a Juca — e indiretamente a Quincas — o valor do amor. Ao mesmo tempo, através de Juca, Quincas consegue reparar muito do que fez de errado enquanto vivo.

Só depois que esses trabalhos forem realizados é que Quincas poderá, finalmente, morrer pela segunda vez, e dessa vez definitivamente.

“A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” é considerado por críticos literários importantes, como José Ramos Tinhorão e Paulo Emílio Salles Gomes, um romance atípico de Jorge Amado, longe de sua temática eminentemente baiana e/ou política. O livro é solidamente baseado no “Evangelho Segundo o Espiritismo” de Allan Kardec, e justamente por essa razão foi mais tarde desprezado por seu autor, que via nele o registro de uma fase de sua vida que preferia esquecer.

Outros elementos a serem notados no livro são as referências óbvias a um dos maiores clássicos da literatura brasileira, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, e a extrema semelhança estrutural com “A Comédia Humana” de Balzac.

Com “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água”, Jorge Amado faz uma profissão de fé espírita, ao mesmo tempo em que lança profundas indagações sobre o sentido da vida. A dupla de críticos ingleses Terry Gillian e Michael Palin, autores de “O Cânon Ocidental”, considera este romance uma verdadeira aula de metafísica, embora aponte algumas falhas estruturais e de linguagem que o prejudicam um pouco.

O livro é pontuado por participações de outros grandes personagens de Jorge Amado, como Vadinho (protagonista de “Seara Vermelha”) e Antônio Balduíno, que fez sua primeira aparição como um dos “Capitães da Areia” e teria papel importante na obra-prima da maturidade de Amado, o livro que inaugura sua fase folclórica: “O País do Carnaval”.

Se Anália não quiser ir eu vou só

Foi uma amiga que me falou, num boteco perto da UniNove, em São Paulo: “Todo baiano é estrela”.

Discordei. Nem todo baiano é assim. Como nem todo baiano é espaçoso e pouco confiável. Mas de uns tempos para cá tenho pensado a respeito. Talvez ela tenha razão.

Porque Caymmi, pelo menos, é. Logo que chegou no Rio para gravar, chamaram-no para alguns ensaios.

— Precisa não… Eu já vim da Bahia ensaiado…

E veio mesmo. Porque se fosse para escolher os 3 músicos mais importantes e mais influentes da história da música brasileira, Caymmi certamente estaria entre eles. Por vários motivos, mas para mim principalmente pela maneira como cantou a glória e a tragédia da Bahia com uma simplicidade que apenas parece simplória.

Os versos de “O Mar”:

O mar quando quebra na praia é bonito… É bonito…
Pedro vivia da pesca, saía no barco seis horas da tarde
E só vinha na hora do sol raiar
Todos gostavam de Pedro e mais de que todos Rosinha de Chica
A mais bonitinha e mais bem feitinha de todas mocinha lá do arraiá
Pedro saiu no seu barco seis horas da tarde
Passou toda a noite, não veio na hora do sol raiar
Deram com o corpo de Pedro jogado na praia, roído de peixe
Sem barco, sem nada, num canto bem longe lá do arraiá
Pobre Rosinha de Chica, que era bonita, agora parece que endoideceu
Vive na beira da praia, olhando pras ondas, andando, rondando,
Dizendo baixinho “Morreu… Morreu…”
O mar quando quebra na praia é bonito… É bonito…

O primeiro verso, de um lirismo simples e óbvio, não parece anunciar a tragédia que vai contar; e no final, a volta do mesmo verso mostra que a consciência da tragédia não retira, diante dos olhos do povo, a beleza do mar. Se é que aquelas definições de amor e paixão são adequadas, esse é o amor mais verdadeiro que há: o que reconhece mas não se importa com os defeitos do ser amado.

Esse reconhecimento da personalidade do mar, janaína bela e assassina, esse retrato simples do fatalismo indiferente dos pescadores tornam essa canção uma das mais belas da música popular brasileira.

Que diferença dos versos empolados dos “reis da voz”; mais reais, até, que os belos versos das músicas de Noel Rosa, pelo menos no sentido de que são mais fiéis à realidade popular. Alguns críticos diriam que é por isso que Caymmi tem essa importância fundamental na música brasileira: seus versos enganadoramente simples em contraste com seu violão sofisticado praticamente recriaram a música popular brasileira.

Parece que ultimamente Caymmi vem saindo de moda. Que seja. E ainda que ninguém mais goste do velho contador de histórias, do homem que disse que, se fosse mulher, seria “dadeira”, eu vou continuar gostando do seu violão, de suas marchinhas, de sua voz. Ainda que só.

Esses breves momentos na vida

Quando comecei a ouvir Beatles era uma maravilha: sempre tinha algo novo, alguma música que eu não conhecia. Durante anos, cada novo disco era uma experiência nova, algo que eu descobria.

Quando isso acabou a pirataria manteve um pouco dessa sensação de descoberta. Mas até isso acabou um dia, porque mesmo que eu não conhecesse determinada gravação já podia dizer com certeza absoluta em que época ela foi gravada, talvez até quem tocava o quê. E eu sempre senti falta daquela sensação.

Dia desses, assistindo de novo ao show dos Beatles no Budokan, Japão, 1966, eu consegui sentir isso de novo.

O show é curioso, porque é um dos poucos em que o barulho dos fãs não torna tudo praticamente inaudível. Os japoneses são educados. O show mostra o cansaço da banda (que pararia de tocar ao vivo ao fim daquela turnê), o que a cara de tédio de Ringo torna inegável, a vocação de McCartney para animador de auditório (Lennon diria depois que ele estava se borrando de medo por causa de umas ameaças de fundamentalistas japoneses, que consideravam um show dos Beatles no templo do sumô uma afronta imperdoável à cultura nipônica), e a atitude de “vamos fazer o básico, pegar o dinheiro e ir embora daqui” de Lennon. Mostra também, não importando o que hagiógrafos passaram a dizer depois de sua morte, que Harrison era um péssimo cantor.

Os Beatles inventaram o que hoje se entende por show de rock. E, naturalmente, eram obrigados a enfrentar inúmeras situações de amadorismo. Mesmo no Japão, terra da organização, não é diferente: os microfones dão choques, não param quietos. Profissionais, os Beatles se limitam a passar o show tentando ajeitar as coisas.

Mas foi graças a esse problema que eu pude ver algo novo. Quando eles cantam Baby’s in Black, McCartney e Lennon dividem o mesmo microfone defeituoso. McCartney tenta colocá-lo na direção correta. Mas ele insiste em se mover, justamente no momento em que eles cantam “oh, dear, what can I do“. E a expressão e a modulação de voz de McCartney nessa hora são impagáveis. Para mim é novidade, porque mesmo tendo visto o show algumas vezes, eu não tinha percebido.

É uma bobagem, eu sei. Insignificante. Mas são essas coisinhas pequenas que fazem a vida valer a pena.

Homem-Aranha 2

Assisti a “Homem-Aranha 2”. Infelizmente numa cópia dublada, por exigência da meninada. É no que dá ter um sobrinho cujo cachorro se chama Peter Parker.

Talvez não seja melhor que o primeiro, mas certamente não fica atrás. Ainda falta humor nas falas do Aranha, mas há cada vez mais nas situações que Parker enfrenta, e isso é um avanço. Por serem mídias diferentes, talvez aquele blá blá blá do amigão da vizinhança nos quadrinhos não coubesse no filme; não sei.

Mas o melhor do filme é o Dr. Octopus. É o melhor vilão já recriado no cinema. Não há um só aspecto dele que seja ruim. Absolutamente nenhum. Na verdade, é melhor que o original, porque é um pouco mais complexo, e conseguiram arranjar um ator perfeito para o papel — coisa que Daniel Dafoe não era, e muito menos James Franco. Alfred Molina é Otto Octavius — um gênio bom mas enlouquecido. Seus tentáculos são perfeitos, e adquirem uma complexidade psicológica — se é que se pode falar nestes termos de um filme de super-herói — que não existe nos quadrinhos e que é bem-vinda.

A mudança sofrida por Octopus em sua transição para o cinema parece refletir uma linha seguida por Raimi de dar mais ênfase à dualidade de caa personagem. Homem-Aranha/Peter Parker, Norman Osborn/Duende Verde.

As lutas entre ele o Aranha são absurdamente bem feitas. Aproveitam a possibilidade efeitos especiais para respeitar o timing dos quadrinhos, e isso é fundamental; é um segredo que os produtores de Super-Homem e Batman nunca perceberam, por exemplo.

É uma delícia ver também as participações especiais, como Bruce Campbell como o porteiro do teatro. Como é interessante ver todos os ganchos deixados para o próximo filme. O vilão deve ser o Duende Verde 2, mas sempre há a chance de ser o Dr. Connors. ou John Jameson.

O Homem Aranha continua sendo a melhor adaptação de um super-herói dos quadrinhos. E, sob vários aspectos, tem ficado melhor.

A impressão que se tem é que Raimi teve mais controle sobre este filme. As coisas ruins são herança do primeiro, como Kirsten Dunst no papel de Mary Jane. A menina cai bem como vampira mirim, mas não como uma supermodelo e atriz. Ou Norman Osborn. É uma obra mais pessoal, e definitivamente mais madura.

Shrek 2

Fui assistir a “Shrek 2” com a minha Febem particular.

O Marmota achou o filme melhor que o primeiro. Algumas críticas dizem que é um projeto “autoral” de Jeffrey Katzenberg, uma espécie de cutucada nos seus desafetos da Disney ao desconstruir os contos de fada que fizeram sua fama.

Talvez seja, mas limitar o filme a uma pequena vingança pessoal é menosprezar o talento imenso de Katzenberg, achar que ele seria capaz de fazer de um projeto milionário mero veículo para suas idiossincrasias. O deboche sobre os contos de fadas, ao contrário, mais que um chute na Disney me parece justamente a compreensão acurada de que o início do século XXI permite esse tipo de abordagem com sucesso.

É um grande desenho, e a julgar pelo trailer de “Nem que a Vaca Tussa” deve ser o melhor do ano. Há algo errado quando se anuncia com estardalhaço que as músicas de um filme são de Alan Menken. Se isso é o melhor do filme, é melhor não esperar muito dele.

Para quem gosta de cinema, é uma brincadeira à parte ficar identificando as citações de filmes famosos, e mesmo de situações clássicas do cotidiano americano. O. J. Simpson é um dos citados, por exemplo. Dessa vez elas são em maior número e mais sutis que no primeiro, e perfeitamente inseridas no contexto do filme. Mas é algo bastante restrito a cinéfilos e a americanos (ou pseudo-americanos).

(Um detalhe: os filmes clássicos da Disney tinham versões feitas exclusivamente para o Brasil, o que incluía letreiros em português. Shrek não tem isso, o que é algo fácil de fazer. Falta de consideração.)

Eu achei o primeiro melhor, mais inventivo, e mais coeso em sua proposta de subverter o mundo dos contos de fadas. O segundo tem todas as características de seqüência, e se torna menor. Bom divertimento, claro, mas isso o primeiro também era. Com a diferença da novidade. (E Shrek 3 está previsto para estrear em 2006.)

Mas a opinião que conta aqui, afinal, é a dos meus senhores das moscas. Eles gostaram, sim, mas não tanto quanto gostaram do primeiro. As referências mais engraçadas, infelizmente, são adultas demais — e “Shrek 2” é um daqueles desenhos que perdem de vista sua platéia original para atingir, em cheio, aquela platéia adulta que procura nesses desenhos peças feitas para eles.

E o final é falso.

Todas as mulheres do mundo

Fui parar por acaso numa página da Cinemateca Brasileira que mostra algumas listas de 10 melhores filmes brasileiros ao longo dos tempos.

Eu gosto de listinhas (até já fiz a minha, devidamente desancada pelo Bia). Mas não poderia fazer uma lista dos melhores filmes brasileiros simplesmente por não ter visto muita coisa.

Por exemplo, de um dos preferidos de todos, “Limite”, de Mário Peixoto, só vi algumas cenas rápidas (e, sinceramente, do que vi não gostei). “Ganga Bruta”, de Humberto Mauro, nem isso. “Rio 40 Graus” vi há muito, muito tempo.

Mesmo assim, mesmo sem ter moral suficiente para criticar essas escolhas, eu discordo de quase todas. Falta um filme nelas.

As listas incluídas na página da Cinemateca têm uma característica interessante: sempre incluem um filme recente. É por isso que a lista de 1980 inclui “Tudo Bem”, do Jabor, e a de 1988 inclui “Memórias do Cárcere”.

É a única razão para “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira, com Leila Diniz e Paulo José, ser incluído na lista de 1968, e somente nela.

“Todas as Mulheres do Mundo” é certamente um dos melhores filmes brasileiros de todos os tempos. Enquanto “O Cangaceiro”, por exemplo, tenta recriar — magistralmente, a propósito, apesar dos péssimos atores e dos diálogos forçados — a estética do faroeste americano a partir do ciclo do cangaço, e “Limite”, pelo pouco que vi, é pouco mais que uma experiência hermética nesse sentido, o filme de Domingos de Oliveira é simplesmente uma história cotidiana deliciosamente contada. É brilhantemente carioca, doce sem ser piegas — Domingos de Oliveira jamais fez algo melhor. É, principalmente, um daqueles filmes que parecem despretensiosamente simples, que se tornam “brasileiros” justamente por não pretenderem fazer de sua nacionalidade um cavalo de batalha. É um filme carioca, muito mais que os “Rio Babilônia” da vida, mas poderia ser ambientado em qualquer lugar do mundo.

Provavelmente é essa a razão para o filme ser tão subestimado. Ele é deliberadamente simples em um meio em que a pretensão é condição sine qua non para que se conquiste respeito. Talvez, se o título fosse “Toda a Problemática das Mulheres do Terceiro Mundo”, o filme tivesse melhor sorte nessa história contada por poucos.

Também acho que “O Pagador de Promessas” lá atrás é um desrespeito a um dos mais brilhantes filmes já feitos no Brasil. Ao menos melhor que “Terra em Transe” ele é.

Sinonímia

Puta
n substantivo feminino
Uso: tabuísmo.
1 m.q. prostituta
2 Uso: pejorativo.
qualquer mulher lúbrica que se entregue à libertinagem

Sinônimos:
alcouceira, andorinha, bagaço, bagageira, bagaxa, bandarra, bandida, barca, bebena, besta, biraia, bisca, biscaia, biscate, bocetinha, bofe, boi, bruaca, bucho, cação, cadela, cantoneira, caterina, catraia, china, clori, cocote, coirão, cortesã, courão, couro, cróia, croque, cuia, culatrão, dadeira, dama, decaída, égua, ervoeira, fadista, fêmea, findinga, frega, frete, frincha, fuampa, fusa, galdéria, galdrana, galdrapinha, ganapa, horizontal, jereba, loba, loureira, lúmia, madama, madame, marafa, marafaia, marafantona, marafona, marca, mariposa, menina, meretrice, meretriz, messalina, michê, michela, miraia, moça, moça-dama, mulher-dama, mulher-solteira, mundana, murixaba, muruxaba, paloma, pécora, pega, perdida, perua, piranha, piranhuda, pistoleira, piturisca, prostituta, quenga, rameira, rapariga, rascoa, rascoeira, reboque, rongó, solteira, sutrão, tapada, tolerada, transviada, tronga, vadia, vaqueta, ventena, vigarista, vulgívaga, zabaneira, zoina, zorra; e as loc.: mulher à-toa, mulher da comédia, mulher da rótula, mulher da rua, mulher da vida, mulher da zona, mulher de amor, mulher de má nota, mulher de ponta de rua, mulher do fado, mulher do fandango, mulher do mundo, mulher do pala aberto, mulher errada, mulher perdida, mulher pública, mulher vadia etc.

Vulgívaga. Vulgívaga é um belo nome.

James Ellroy

O Miguel citou o James Ellroy como autor noir.

Aqui devo confessar minha ignorância e meu preconceito. Ignorância porque conheço nada do sujeito; preconceito porque, em princípio, olho meio atravessado para qualquer autor que tenha começado a publicar a partir da década de 60.

Antigamente eu lia, muito, e até tinha alguns em alta conta. John D. MacDonald, por exemplo, era um daqueles em que fiquei viciado aí pelo começo dos anos 90. Começou com dois livros publicados pela Companhia das Letras (vendidos a preço de banana numa liquidação da Gutemberg, em Niterói) e prosseguiu em uma série de pocket books achados em sebos.

(Gosto de livros como objetos, principalmente, e prefiro edições bem acabadas. Mas livros policiais são o único caso em que prefiro livros de bolso.)

Acho que no quarto eu já não agüentava mais. Porque era sempre a mesma história, com a mesma estrutura. É provavelmente o que mais me irrita em um escritor noir: quando o “esquematismo” extrapola a construção dos personagens e passa descaradamente para a estrutura da história. Por exemplo, um livro do John D. MacDonald com Travis McGee em seu barco quando aparece uma oportunidade de ganhar um bom dinheiro ajudando alguém. Ele chama seu amigo economista, Meyer, e ambos começam a investigar. Aparece então uma mulher maravilhosa que terá um caso com McGee. No final, crime solucionado, a mulher vai embora.

É isso que acaba um escritor noir para mim. É por isso que coloco Ross MacDonald lá atrás na Santíssima Trindade: seus livros muitas vezes têm um impostor como parte fundamental da trama (o que é melhor que Agatha Christie, que sempre tem um impostor que não sabe o seu lugar na sociedade inglesa; é uma das razões menores entre as que me fazem detestar a velha dama indigna). O que o torna grande é a dimensão psicológica que têm seus personagens e a perspicácia ao adaptar a estrutura do noir aos EUA dos anos 60 (se eu fosse recomendar um livro de MacDonald, entre os que li, recomendaria “O Inimigo Imediato”, o que melhor condensa suas qualidades).

Mas o comentário do Miguel me deixou curioso. Assim que achar um livro do sujeito, eu dou uma olhada.

"Ulysses", a uma página por dia

Ulysses, de James Joyce, é um grande livro, mesmo na versão de Antonio Houaiss. Não pela temática, mas pela linguagem que Joyce criou. Perto dele, Guimarães Rosa é um aprendiz.

Se alguém se dispõe a encarar o livro no original, poderá ler aqui. Uma página por dia, sem pressa.

Ainda Lennon e McCartney

Bia, eu não considero Many Years From Now uma biografia autorizada: só consigo ler o livro como sua autobiografia definitiva. O livro é de McCartney; Barry Miles é só o seu ghost writer.

É um bom livro, sem dúvida. Mas é, principalmente, parte do esforço de revisionismo de McCartney em redefinir a história do Beatles.

Não que isso seja em tese ruim; acho que a imagem que ficou dos Beatles é um pouco equivocada. McCartney precisava mesmo de um pouco mais de luz porque, se eu estivesse em seu lugar, ficaria meio irritado ao ver o sujeito que disse que “avant-garde is french for shit” ser aclamado como o vanguardista dos Beatles, enquanto eu, que levava a banda adiante em boa parte de suas melhores experimentações, ficava conhecido como o conservador por excelência.

(Foi apenas depois de conhecer Yoko que Lennon aderiu à tal “vanguarda” — e um de seus grandes momentos é Self-Portrait, um filme de 18 minutos que mostra o pênis de Lennon tendo uma ereção em câmera lenta. Em retribuição, Yoko lhe tirou todo o humor.)

Mas na sua autobiografia McCartney omite, convenientemente, uma série de pequenos episódios. Como, por exemplo, que comprou ações da Northern Songs (a editora dos Beatles, que hoje pertence ao comunista Michael Jackson, aquele que come criancinhas) sem contar aos companheiros, desequilibrando as relações entre os parceiros comerciais. Que foi capaz de escrever bilhetes anônimos e racistas para Yoko Ono. Que era capaz de pequenas maldades e mesquinharias no dia a dia. Que era capaz de pisar sem dó em George Harrison. Que tentou impor seu sogro como empresário da banda (foi o que salvou a fortuna deles, mas se eu fosse um dos outros Beatles certamente não ia me sentir confortável com a perspectiva de ser empresariado pelo sogrão do sujeito). E que sempre tem uma declaração conveniente a fazer, normalmente às expensas dos ex-companheiros de banda, quando está em vésperas de sair em turnê.

A fama de McCartney como autoritário no estúdio é legendária. À medida que ele ia crescendo como compositor e produtor, isso se tornou mais óbvio, o que batia de frente com a cultura democrática da banda. O sujeito é tudo, menos bonzinho.

Que havia uma grande sinergia entre Lennon e McCartney, não resta dúvidas. Mesmo na pior fase dos Beatles, eles ainda conseguiam fazer grande música juntos (o show no terraço da Apple, em Let it Be, é a única parte empolgante de um filme mortalmente chato). Eu não sei até que ponto eram “irmãos”, como McCartney gosta de dizer agora, depois de chamá-lo de “porco manipulador”, mas certamente eram muito amigos.

Há um componente edipiano na atitude de McCartney de constante auto-afirmação em relação a um Lennon que morreu há quase um quarto de século. E isso esbarra na impressão que ele tenta passar de que era mais despojado (embora, como precise de um pouquinho mais de edge para lhe distanciar da fama de mela-calcinhas, ele sempre lembre que John também era bonzinho e ele podia ser duro).

Se eu fosse escolher apenas um para classificar como ególatra, esse seria Paul McCartney. Mas seria falso, porque ambos tinham egos descomunais. A diferença, talvez, seja o fato de que Lennon era mais preguiçoso e mais espontâneo, e certamente mais sincero.

O revisionismo de McCartney, no entanto, se torna aborrecido porque as pessoas não precisam mais ser lembradas de que ele era um músico mais completo, que ele foi o líder dos Beatles em sua melhor fase, que era mais inventivo que Lennon e que ele foi quem alcançou maior sucesso individual, que tem a carreira solo mais consistente, apesar dos altos e baixos. Cada vez mais parece um velho chato que precisa ficar lembrando que foi herói de uma guerra travada muito tempo atrás.